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The health-promoting university and changes in professional training/ A universidade promotora de saude e as mudancas na formacao profissional/ La universidad promotora de la salud e los cambios en la formacion profesional.

Introducao

O objetivo geral deste artigo e problematizar os pressupostos teoricos do debate contemporaneo sobre a educacao, registrando-se aqui a proeminencia do discurso da mudanca neste campo (Gomes, 2002; Xavier, 1997) e, particularmente, da formacao profissional em saude (Machado et al., 2007; Pereira, 2003; Vilela, Mendes, 2003). O objetivo central e explorar a adocao dos referenciais amplos da Promocao da Saude (PS) como um dos aspectos substanciais de mudanca, reiteradamente enfatizado na educacao e no trabalho, para fazer frente a certas caracteristicas perturbadoras das sociedades contemporaneas, que afetam negativamente as relacoes profissionais e os desfechos em saude.

Se o trabalho em saude e primariamente determinado pelo perfil profissional, caberia perguntar se tal perfil apresenta tracos gerais detectaveis em uma especifica formacao social, historicamente dada. A tarefa imputada por tal questionamento afigura-se intrincada, sobretudo quando se da saliencia ao fato de que nao e apenas uma profissao (e seu respectivo perfil) envolvida nas praticas de saude.

Isto engendra um heterogeneo universo de policompetencias, ja que a organizacao da pratica de saude moderna e necessariamente interativa, com profissionais de varias carreiras e niveis de escolaridade partilhando espacos de iniciativa e de corresponsabilizacao, com utilizacao de suas aptidoes intelectuais e afetivas, com coordenacao de tarefas e intercambios de comunicacao e informacao (Vasconcelos, 2005, Morin, 2004). As competencias especializadas deixam de ser exclusivas e autonomas, na medida em que as policompetencias as cruzem e articulem. Contudo, importantes assimetrias podem ocorrer na pratica, decorrentes de nivel de escolaridade e acumulacao de poder tecnico-cientifico e/ ou social. Ha que se considerar ainda que, mesmo apos a obtencao regulamentar dos "passaportes" profissionais para o mundo do trabalho (certificados, bacharelados, licenciaturas, diplomas), a formacao profissional segue seu curso diversificado, por processos formais e/ou informais, em algo que genericamente se caracteriza como "educacao permanente".

Todas as fases educativas implicadas na formacao de uma equipe multiprofissional de saude, seja em regime escolar ou nao, sao permeadas atualmente pelo discurso da reorganizacao dos modelos de atencao e das praticas de saude, sobretudo no ambito das politicas que configuram o Sistema unico de Saude (SUS) dos brasileiros.

Quando a formacao e problematizada, observa-se relativo consenso, entre os criticos da educacao dos profissionais de saude, quanto ao fato de ser hegemonica a abordagem biologicista, medicalizante e procedimento-centrada, com fortes e distorcidas reminiscencias flexnerianas (Flexner, 1910). Com sua enfase no conhecimento experimental de base clinica e laboratorial, proveniente da pesquisa realizada geralmente sobre doencas infecciosas, reforca-se a separacao entre individual e coletivo, privado e publico, biologico e social, curativo e preventivo (Paim, Almeida Filho, 1998). O modelo pedagogico que se torna hegemonico e conteudista e organizado de maneira compartimentada e isolada, fragmentando os individuos em partes estanques. Dissocia conhecimentos das areas basicas e conhecimentos da area clinica, centrando as oportunidades de aprendizagem da clinica no hospital universitario ou ambulatorio especializado, adotando sistemas de avaliacao cognitiva por acumulacao de informacao tecnico-cientifica padronizada, incentivando a especializacao precoce, perpetuando modelos tradicionais de pratica em saude. O ensino e tecnicista e preocupado com a sofisticacao dos procedimentos, favorecendo a agregacao tecnologica intensiva e, muitas vezes, desprovida de avaliacao de efetividade.

Movimentos de mudanca em relacao a educacao e a saude

Especificamente em relacao a formacao em saude, ha um instruido arcabouco legal presente tanto na Constituicao nacional (Brasil, 1988), como na Lei Organica da Saude (Carvalho, Santos, 1995), passando pela norma Operacional Basica de Recursos Humanos para o SUS (Brasil, 2002a), e culminando com a Lei de Diretrizes e Bases da educacao (Brasil, 1996), com respectivas diretrizes curriculares nacionais (DCN) para as varias profissoes (Fernandes et al., 2005; Pereira, 2003; Brasil, 1996; Pierantoni, 2001). Aprovadas, em sua maioria, entre 2001 e 2002, as DCN dos cursos de graduacao em saude (exceto Medicina Veterinaria, Psicologia, educacao Fisica e Servico Social) afirmaram que a formacao do profissional de saude deve contemplar o sistema de saude vigente no pais, o trabalho em equipe e a atencao integral a saude.

A educacao e o setor que detem os instrumentos de gestao e a legitimidade de regulacao da educacao nacional, entretanto, as funcoes sociais do ordenamento, controle, fiscalizacao, auditoria e avaliacao sao, em ultima instancia, funcoes de estado e, assim, ganham igualmente importancia no setor da saude. Como lembram Ceccim e Feuerwerker (2004a), os dois setores, pela legitimidade e legalidade, ora de um, ora de outro, devem ocupar-se das funcoes de regulacao de estado no tocante a formacao na area da saude. Argumentam ainda estes autores que toda a regulacao relativa a saude deveria ser usuario-centrada, ou seja, voltada aos interesses de saude dos cidadaos-usuarios de servicos, sendo tais interesses motivos centrais para se ordenarem servicos de atencao e instituicoes de formacao de profissionais de saude.

Ao assumir o pressuposto anterior, ou seja, a importancia finalistica do processo de formacao/ atuacao profissional, inexoravelmente atrelado ao potencial de vida e saude das pessoas, isto nos remete a producao social da saude (e da doenca) e, por consequencia, ao campo da PS. Na base do processo politico de lutas pela criacao do SUS encontra-se o conceito ampliado de saude. Este conceito evoca a necessidade de se criarem politicas publicas para promove-la, o imperativo da participacao social na construcao do sistema e das politicas de saude e a impossibilidade de o setor sanitario responder sozinho a transformacao dos determinantes e condicionantes para garantir opcoes saudaveis para a populacao. Nesse sentido, o SUS dialoga criticamente e incorpora muitas das reflexoes e acoes que sao reivindicadas pela PS, em ambito nacional ou internacional. A PS, como uma das estrategias de producao social de saude, ou seja, como um modo de pensar e de operar articulado as demais politicas e tecnologias de intervencao social promotoras de saude, contribui na construcao de acoes que possibilitam responder as necessidades sociais em saude (Brasil, 2006).

Simultaneamente, universidades tambem constituem espacos sociais estrategicos para a PS por sua contribuicao potencial a saude de grupos populacionais especificos a elas relacionados, com consequente impacto sobre a populacao geral. Promover saude, seja no ambito academico, seja nos servicos, implica proporcionar a populacao as condicoes necessarias para melhorar e exercer controle sobre sua saude, envolvendo "paz, educacao, moradia, alimentacao, renda, um ecossistema saudavel, justica social e equidade". Tal conceito baseia-se nos seguintes principios: (I) que saude deve ser parte integrante de acoes voltadas para o desenvolvimento; (II) que saude pode ser melhorada por meio da modificacao do ambiente fisico, social e economico; (III) que as condicoes em espacos sociais como a casa, a escola, a universidade, a comunidade, o local de trabalho e a cidade influenciam profundamente a condicao de saude das pessoas; e (IV) que acoes intersetoriais voltadas para a saude sao necessarias no nivel local. Por isso, e essencial que pessoas e organizacoes assumam seu papel na criacao de oportunidades, escolhas e ambientes saudaveis, mediante o comprometimento politico com o desenvolvimento sustentavel e a reducao das desigualdades sociais e de saude (Moyses, Moyses, Krempel, 2004; Sicoli, Nascimento, 2003).

Ao se discutir o referencial estrategico para o desenvolvimento de projetos de ambientes saudaveis, tais como o projeto de Universidades Saudaveis, alguns aspectos importantes sobre o papel das universidades no seculo XXI, seu potencial para promover saude e as justificativas para seu envolvimento neste processo podem ser apontados.

O papel das universidades no seculo XXI, sob a referencia da promocao da saude

O papel das universidades no seculo XXI vem sendo tema de muitas discussoes. Alguns aspectoschave que poderiam ser destacados incluem missoes e papeis institucionais desejaveis e recomendados na literatura (Tsouros et al., 1998, p.33):
   A universidade constituindo-se como um centro de aprendizagem e
   desenvolvimento, com acoes em educacao, treinamento e pesquisa;
   A universidade tambem deve ser um centro de criatividade e
   inovacao, expressa no processo de aprendizagem, na organizacao,
   juncao e aplicacao do conhecimento e na compreensao intra e
   interdisciplinar;
   De modo amplo, a universidade caracteriza-se como um ambiente em
   que alunos deveriam desenvolver independencia e aprender
   habilidades para toda a vida mediante vivencias de experimentacao e
   exploracao;
   As mudancas na educacao superior tem oportunizado que as
   universidades tornem-se ambientes onde profissionais maduros tambem
   possam passar por processos de aprendizagem; Uma universidade e um
   recurso e uma parceira para comunidades locais.


Todos estes papeis oferecem oportunidades para uma universidade influenciar a saude e a qualidade de vida de seus membros e a comunidade externa, contribuindo para o conhecimento e o reforco da cidadania. Universidades Promotoras de Saude integram o comprometimento com a sociedade, em seu amplo aspecto, nas politicas e praticas universitarias.

A abordagem da PS em ambientes sociais tem o potencial de ampliar a contribuicao das universidades de varias formas:

1 Universidades sao instituicoes onde muitas pessoas vivem e experimentam diferentes aspectos de suas vidas: pessoas aprendem, trabalham, socializam e aproveitam seu tempo de lazer, alem de, em muitos casos, utilizarem servicos oferecidos. Universidades, portanto, tem um amplo potencial para proteger a saude e promover o bem-estar de estudantes, funcionarios (academicos e nao-academicos) e a comunidade, em toda sua abrangencia, pelas politicas e praticas empregadas;

2 Universidades formam estudantes que sao ou serao profissionais e formuladores de politicas com o potencial de influenciar as condicoes que afetam a qualidade de vida de pessoas. Mediante o desenvolvimento do projeto politico-pedagogico e de pesquisa, universidades podem ampliar o conhecimento e o comprometimento com a PS de um vasto numero de sujeitos capacitados e educados em varias areas de atuacao. Isto inclui, portanto, o comprometimento nao apenas de profissionais da area de saude, mas tambem aqueles dos cursos das areas sociais, tecnologicas e humanas;

3 Sua acao comunitaria da oportunidade, para servir de exemplo, de boas praticas em relacao a PS e de usar sua influencia em beneficio da saude e qualidade de vida da comunidade local, nacional e internacional.

Em sintese, universidades possuem potencial para contribuir com a saude em tres areas distintas: a) Criando ambientes de trabalho, aprendizagem e vivencias saudaveis para estudantes e funcionarios; b) Ampliando a importancia da saude, promocao da saude e da saude publica no ensino e na pesquisa; c) Desenvolvendo aliancas e parcerias para a promocao da saude e atuacao comunitaria.

Alem disto, problematizar a formacao a partir da PS e interrogar, de saida, um de seus alicerces mais densos: a intersetorialidade. Sim, pois a tarefa constitucional designada pela reforma sanitaria brasileira de formular politicas de formacao para a area da saude remete a acao intersetorial de coalizao com as tarefas do setor da educacao. Dentre as varias possibilidades de abordagem sobre o campo da PS e suas inter-relacoes com a formacao profissional, a reflexao produzida a seguir enfatizara a intersetorialidade como um dos elementos de base na formacao profissional em nivel universitario.

A intersetorialidade como fundamento da formacao profissional com base na promocao da saude

Nas ultimas decadas, instituicoes multilaterais, como a Organizacao Mundial da Saude (OMS) e Organizacao Pan-americana de Saude (OPAS), bem como governos nacionais, regionais e locais, e mesmo organizacoes do terceiro setor, tem disseminado o conceito e apoiado a estrategia de criacao de Ambientes Saudaveis (OPAS, 2003; WHO, 1998). Estimulam-se agentes nacionais e internacionais, comunidades, organizacoes governamentais e nao governamentais e o setor privado a investirem em estrategias, tais como a Escola Promotora de Saude e a Universidade Saudavel, pelo seu potencial em promover a saude de estudantes, trabalhadores, familias e demais membros da comunidade (PUC-PR, 2008; University of Toronto, 2007; Moyses et al., 2003).

Fundamentalmente, o proprio processo formativo de novos profissionais para a sociedade pode ocorrer de modo precocemente atrelado aos conceitos e praticas da PS; ou seja, alem de uma vivencia interiorizada individualmente pelo profissional em sua aprendizagem, o proprio ambiente da aprendizagem atuaria como uma exterioridade contextual influenciando a absorcao de valores e praticas vinculadas a PS. O desenvolvimento de projetos de PS dentro do espaco das universidades tem sido reconhecido como uma alternativa intersetorial viavel, que resulta em melhores processos formativos e na melhoria da qualidade de vida de uma importante parcela da populacao. Especificamente, acoes promocionais voltadas para estudantes favorecem uma formacao integral, estimulando a pratica profissional responsavel, engajada com a realidade social (Tsouros et al., 1998).

Tal estrategia oportuniza acoes de PS que reforcam a compreensao e aplicacao dos compromissos assumidos internacionalmente, tanto na area especifica da saude, quanto nas areas de direitos sociais e de desenvolvimento sustentavel, amplamente discutidos em eventos/declaracoes internacionais de PS (Brasil, 2002b): na Declaracao de Alma Ata (1978), na Carta de Ottawa (1986), nas Conferencias de Adelaide (1988) e Sundsvall (1991), na Declaracao de Jacarta (1997), na Conferencia do Mexico (2000), na Conferencia de Bangcok (2005), bem como em outros eventos/declaracoes como a Agenda 21 (1992), Carta do Caribe (1993) e na Conferencia Pan-Americana sobre Saude e Ambiente (1995).

A Organizacao Pan-Americana de Saude/Organizacao Mundial de Saude (OPAS/OMS) ja propusera uma definicao em 1990, segundo a qual a Promocao da Saude e: "a soma das acoes da populacao, dos servicos de saude, das autoridades sanitarias e de outros setores sociais e produtivos, dirigidas ao desenvolvimento das melhores condicoes de saude individual e coletiva" (De Salazar, 2004, p.21). Tais acoes sao categorizadas por Green e Kreuter (1990, p.321) quando afirmam que a PS e uma "combinacao de acoes planejadas do tipo educativo, politico, legislativo ou organizacional em apoio aos habitos de vida e condicoes favoraveis a saude dos individuos, grupos ou coletividades". Ou seja, mais uma vez, reafirma-se a relacao indissociavel entre politicas e acao planejada que inclua a esfera formal da educacao e a esfera do trabalho em saude, repercutindo na sociedade.

Ocorre que o mundo da formacao pode ser mais ou menos permeavel ao mundo do trabalho, e vice-versa, conforme a forca historica dos intercambios presentes na realidade. A formacao dos profissionais de saude e um projeto educativo que extrapola o dominio tecnico-cientifico de uma dada profissao e se estende para outras esferas de acao com profundo impacto social (Ceccim, Feuerwerker, 2004b). Enquanto a mudanca na graduacao e a implementacao das diretrizes curriculares na area da saude nao entrarem na agenda institucional, incluindo as pro-reitorias de graduacao, o potencial dos movimentos de mudancas sera sempre limitado. Sera mais dificil atingir o nucleo duro da organizacao da graduacao e, em consequencia, as mudancas serao ainda perifericas. E mais, as politicas de saude e de educacao, para favorecer a formacao de profissionais com perfil adequado a atencao a saude de qualidade, tambem nao podem se restringir a graduacao. Precisam atingir tambem as politicas de especializacao, de residencia, de pos-graduacao stricto sensu. Nao e demais lembrar o poder, o impacto e a influencia que as pos-graduacoes detem sobre a graduacao, com seu status de produtoras de conhecimento.

Por que as universidades deveriam se envolver?

Universidades envolvidas com projetos de PS podem obter muitos beneficios, desde a valorizacao de sua imagem publica, sua importancia para a saude local, regional e nacional, a melhoria dos projetos institucionais e pedagogicos, incluindo a melhoria da qualidade de vida dos envolvidos, e as condicoes de atividade e de permanencia das pessoas que ali trabalham, estudam, vivem e socializam.

Em termos academicos, um projeto como este tem o potencial de reforcar as discussoes sobre saude em varias areas academicas. Pode ampliar a credibilidade de pesquisas inovadoras na area, alem de dar suporte para uma mudanca no foco das pesquisas, direcionando-as mais para acoes ampliadas, interdisciplinares, voltadas para a busca de solucoes de impacto sobre a qualidade de vida e o combate as desigualdades sociais e de saude.

O principal desafio de uma Universidade Saudavel e integrar a PS nas politicas e praticas universitarias. Isto pode ser obtido por intermedio de: desenvolvimento de politicas saudaveis e planejamento sustentavel na universidade; criacao de ambientes saudaveis de trabalho; oferecimento de ambientes de suporte social e cuidados primarios em saude; facilidades para o desenvolvimento pessoal e social; encorajamento da ampliacao do interesse academico por PS, e desenvolvimento de parcerias com a comunidade.

Limites e possibilidades para a mudanca

Segundo os depoimentos e experiencias variadas dos participantes de oficina de trabalho no V Congresso nacional da Rede Unida, para discutir a PS nas diretrizes curriculares nacionais dos cursos da area da saude (Teixeira et al., 2005), ainda ha pouca atencao dispensada a PS nos cursos de graduacao das profissoes superiores da area da saude. O marco inovador do movimento mundial pela PS, desdobrado a partir da Carta de Ottawa e iniciativas subsequentes, fala de um espaco institucional e social transformado para a PS florescer. Dentro de um novo marco definidor, seria possivel uma agenda teorico-operativa de intervencao potente na realidade, com vistas a construcao de sujeitos em luta pela conquista de sua cidadania, o que exige o empoderamento de tais sujeitos, coparticipes na construcao social da saude como vetor para a melhoria da qualidade de vida.

Teixeira et al. (2005) identificam forcas restritivas ou impulsionadoras para que uma agenda propositiva da PS ganhe materialidade nas instituicoes formadoras e nas instituicoes prestadoras de servicos.

Dentre as forcas restritivas, podem ser mencionadas: a) muitas experiencias tradicionais, autodenominadas como "promotoras de saude", ainda sao realizadas de modo topico, isolado, microdisciplinar, com baixa sustentabilidade institucional, sendo extremamente dependentes do voluntarismo de poucos docentes com poder de vocalizacao e influencia quase marginal no ambito da politica pedagogica das instituicoes de Ensino Superior; b) a PS deve necessariamente ser diferenciada da atuacao do setor saude na prevencao de doencas ou da "educacao sanitaria" convencional, no sentido estrito, para desfazer confusoes conceituais frequentes, que geram reducionismos incompativeis com o nivel teorico ja alcancado hoje, mundialmente, com o conceito ampliado de PS; c) resistencias culturais dentro das instituicoes, arraigadas ha muitas decadas ao modelo cartesiano e positivista que induz a fragmentacao, mecanizacao e disciplinarizacao; d) alta valorizacao ideologica de componentes assistencialistas e/ou clinicos curativos e baixo status quo conferido as praticas promocionais de saude; e) ethos institucional dominado pela cultura de "corporacoes", com foco no mercado e na pratica privada, o que dificulta a integracao com a esfera publica; f) uma relativa ambiguidade e/ou confusao conceitual, em que muitos concordam em tese com as propostas, muitas vezes considerando-as "nobres" ou "simpaticas", sobretudo aquelas relacionadas com a formacao em consonancia com as necessidades do SUS, mas revelando grande desconhecimento (ou desinteresse) em sua operacionalizacao; g) pouca e nenhuma identificacao de muitos docentes, alunos e dirigentes universitarios com a proposta constante nas referidas diretrizes. Segundo depoimentos relatados em Teixeira et al. (2005), inclusive em situacoes que envolviam avaliacoes oficiais realizadas pelo Ministerio da Educacao (INEP), muitos dirigentes universitarios, professores e alunos entrevistados revelavam profundo desconhecimento sobre as reformas educacionais em curso no Brasil, sobretudo relativas aos novos projetos politico-pedagogicos. Alguns desconheciam as bases referenciais minimas para uma efetiva implantacao de acoes de PS; outros se mostraram francamente contrarios a implementacao de DCN em sintonia com o SUS.

Para fazer frente a tais dificuldades historicas, epistemologicas e ideologicas, sem duvida as novas diretrizes curriculares nacionais, ao respeitarem o espirito da Lei de Diretrizes e Bases da Educacao Superior no Brasil, apresentam-se como dispositivos muito avancados e uteis. Assim, algumas forcas impulsionadoras tambem sao identificadas: a) a analise cuidadosa das DCN permite perceber a transversalidade com que a PS e concebida, nao mais como uma disciplina ou um "conteudo" dentro de uma disciplina, mas uma visao transdisciplinar que perpassa toda a formacao, nao subsistindo apenas na area da saude, mas na visao da universidade como um todo; b) o estabelecimento de projetos politico-pedagogicos e de desenvolvimento institucional que avancem para uma relacao e integracao intercursos (ciencia biologicas e da saude, ciencias sociais e humanas, ciencias juridicas, ciencias exatas), bem como para a constituicao da propria universidade como um "ambiente" saudavel e promotor da saude da coletividade com ela envolvida; c) a vinculacao organica da universidade com as comunidades locais, onde projetos intersetoriais sejam implementados; d) esta nova relacao da universidade para dentro de si mesma e para o mundo social que a atravessa pode criar dispositivos potentes para vencer resistencias dentro de setores publicos e privados, particularmente nos servicos que prestam atendimento direto ao publico--em especial nos servicos de saude; e) o estabelecimento de projetos intercursos que contextualizem e potencializem abordagens pedagogicas nos quais a interdisciplinaridade, a integralidade, a humanizacao e a construcao da autonomia dos sujeitos colocam-se como pilares da construcao de projetos politico-pedagogicos; f) enfase especial deve ser dada a possibilidade concreta de diversificacao de cenarios pedagogicos, em processos ativos de aprendizagem, em que a realidade social, com suas profundas iniquidades, seja apreendida precocemente pelos academicos, no processo de construcao de sua propria cidadania. Este, alias, e um dos principais trabalhos de facilitacao de educadores comprometidos.

Se a qualidade de vida e a saude sao determinadas e condicionadas pelo processo social, nao resta duvida de que projetos integrados (intercursos) de intervencao na realidade social, seja por meio de iniciacao cientifica, de pesquisa pos-graduada, de prestacao de servicos, de aprendizagem por projetos ou de aprendizagem baseada em problemas, qualquer destas intervencoes pode conduzir a uma percepcao valorativa da PS como eixo explicativo que busca a raiz dos problemas e suas respectivas solucoes.

As potencialidades presentes nas DCN podem ser sinteticamente descritas a seguir:

1 Genericamente, nas diretrizes dos cursos da saude, a PS aparece como um campo de competencias e habilidades que devem ser desenvolvidas, incluindo a competencia individual e coletiva de compreender e se situar criticamente frente a uma realidade em transformacao;

2 O entendimento de que os profissionais da saude, alem de tecnicos competentes em suas atribuicoes especificas, devem ser cidadaos participantes, que contribuem socialmente para a melhoria da qualidade de vida da comunidade em geral;

3 O reconhecimento de que a diversidade de cenarios em que a PS opera conduz ao maior respeito ao pluralismo e a diversidade cultural, embora isto nao deva conduzir a um "relativismo" inocuo e vazio, ou seja, a um "vale-tudo" conceitual;

4 Fica patente que a PS estabelece um compromisso com a autodeterminacao das pessoas, ou que pode trazer a benefica consequencia do autocuidado e da (des)medicalizacao cara e ineficaz;

5 A utilizacao plena de tecnologias de informacao e comunicacao produz um ambiente menos contaminado por "ruidos" e mal-entendidos, ou seja, a PS em sua dimensao comunicativa estabelece relacoes mais horizontalizadas, trabalhos em equipes multiprofissionais que produzem em redes colaborativas, o que reduz barreiras comunicativas entre profissionais e destes com a populacao, bem como a superacao de estreitamentos corporativos;

6 Estimulo as dinamicas de trabalho em grupo por favorecerem discussao coletiva e relacoes interpessoais;

7 Um marco etico regulatorio fundamental se estabelece com o pleno desenvolvimento da PS em uma politica institucional ou interinstitucional.

Teixeira et al. (2005) apresentam algumas sugestoes de natureza estrategica para o atual momento de implementacao das DCN, muitas ja assimiladas na atual politica de gestao do trabalho e da educacao em saude (por exemplo, presentes nas agendas do Ministerio da Saude, da Educacao e da Ciencia e Tecnologia), incluindo: (i) os estagios em unidades do SUS, o incentivo a mudancas curriculares e novos projetos pedagogicos que levem em conta as necessidades locorregionais--particularmente da populacao pobre e excluida; (ii) a imbricacao da universidade com os servicos, potencializando a formacao em servico, com base em estrategias tais como a Saude da Familia, que, a partir do cadastro familiar, avancam para o diagnostico comunitario integrado; (iii) a capacitacao de professores e gestores universitarios, em temas como gestao participativa no SUS ou em politica publica para docentes; (iv) busca do fortalecimento das lutas sociais por mais qualidade de vida, implicando que a universidade tambem assuma tal compromisso; (v) as DCN constituem, atualmente, o unico instrumento normativo disponivel, alem da avaliacao institucional, para induzir mudancas na formacao dos profissionais da saude, convergentes com os interesses da sociedade brasileira. Tais diretrizes deveriam ser consideradas na avaliacao das condicoes de ensino, como estrategia de inducao reflexiva para que gestores universitarios, docentes e alunos incorporem a PS.

Consideracoes finais

Ha que se assumir as dificuldades na realizacao das mudancas anunciadas no plano legal e discursivo, em relacao a formacao profissional. De fato, nao parece possivel produzir a mudanca pretendida sem interferir simultaneamente no mundo da formacao e no mundo do trabalho. A agenda dos processos de mudanca vai se tornando mais complexa na medida em que as diferentes experiencias se materializam para alem dos discursos e possibilitam uma compreensao mais abrangente e sistematica sobre a natureza da mudanca, suas implicacoes, as relacoes entre a formacao e a organizacao do trabalho em saude. Ai surgem: as especificidades educacionais envolvidas, a complexidade das instituicoes de ensino e de saude, a diversidade dos atores, as distintas culturas desafiadas, os tensionamentos frente as relacoes de poder instituido, os enfrentamentos que transcendem o espaco do particular e alcancam o espaco coletivo amplo dos projetos societarios.

A presenca da universidade, com seus respectivos cursos e projetos pedagogicos, no ambiente locorregional onde atua, estreitando lacos com a comunidade em geral e com as politicas publicas, pode ser um caminho para a concretizacao do diagnostico situacional participativo e do enfrentamento comum dos problemas, onde as solucoes ja nascam integradas. Neste ambiente, a PS tem grandes chances de frutificar.

Uma das conclusoes a que se pode chegar e que mudancas duradouras e profundas somente serao construidas de maneira ampla se houver politicas publicas saudaveis operando nesse sentido. Entao, uma das bandeiras dos movimentos de mudanca deveria ser a reivindicacao de politicas publicas de saude e de educacao que favorecam, apoiem, estimulem os processos de transformacao das praticas no sentido da adocao dos referenciais amplos da Promocao da Saude (PS).

Colaboradores

Os autores trabalharam juntos em todas as etapas de producao do manuscrito.

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Recebido em 03/08/2008. Aprovado em 27/07/2009.

Ana Lucia Schaefer Ferreira de Mello (1)

Simone Tetu Moyses (2)

Samuel Jorge Moyses (3)

(1) Departamento de Odontologia, Universidade Federal de Santa Catarina. Rua Rosa, (159), Florianopolis, SC, Brasil. (88). (040-270). alfm@terra.com.br

(2,3) Centro de Ciencias Biologicas e da Saude, Pontificia Universidade Catolica do Parana.
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Title Annotation:espaco aberto
Author:de Mello, Ana Lucia Schaefer Ferreira; Moyses, Simone Tetu; Moyses, Samuel Jorge
Publication:Interface: Comunicacao Saude Educacao
Date:Jul 1, 2010
Words:5103
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