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The four meanings of "cause": on Droysen's Hermeneutics and Aristotle's theory of causality/Causa diz-se em quatro sentidos: sobre a hermeneutica droyseana e a teoria da causalidade aristotelica.

Introducao: A Historik, uma etica historicista

Ao dar inicio as suas aulas de teoria da historia, Droysen nota, sem deixar de demonstrar certa surpresa, que se os gregos deram origem a uma Etica, a uma Politica e a uma Poetica, e incompreensivel que nao tenham dado origem a uma teoria da historia (Historik) (DROYSEN 1977, p. 45). Em seguida, Droysen nos oferece um breve historico da disciplina buscando assim definir de maneira historicista--pela historia da teoria da historia--os seus contornos. Aristoteles teria lavrado o terreno sobre o qual seria construida a Historik, nos diz Droysen. Apos algumas contribuicoes importantes--como, por exemplo, a critica de Valla a doacao de Constantino--Kant ergue as estruturas da disciplina que seria a partir de entao edificada com certa constancia: Herder, Schiller e Humboldt sao os nomes citados por Droysen (DROYSEN 1977, p. 50). Contudo, nesta edificacao segura, apenas no trabalho de Humboldt Droysen reconhece os contornos de uma disciplina que, apesar de sua caudalosa producao e significancia politica, encontrava-se em estado de grande confusao epistemologica (DROYSEN 1977, p. 53).

Embora seja possivel traduzir o termo como "historica" optamos com frequencia pela expressao "teoria da historia". Adotada por nomes como Gadamer, Koselleck e Rusen, a Historik busca responder "o que significa pensar historicamente?". (1) Se em Verdade e metodo (Wahrheit und Methode, 1960), Gadamer inclui Droysen entre os historicistas adeptos do metodo empatico, em um artigo isolado, publicado "apos a segunda guerra mundial", nota Hayden White, "Gadamer exaltou (hailed) Droysen como o fundador de uma hermeneutica distintivamente moderna, diferente daquela de Schleiermacher, Hegel e Dilthey, e como antecipador do pensamento de Martin Heidegger" (WHITE 1987, p. 84). (2)

A hermeneutica droyseana, entre o historicismo adepto do metodo empatico e "uma hermeneutica distintivamente moderna", apresenta uma aparente contradicao que, contudo guarda a sua especificidade. Tendo em vista essa especificidade, propomos analisar neste artigo a "Sistematica" (Systematik)--a segunda grande parte da Historik--na qual a teoria da interpretacao historica droyseana e apresentada. Se Droysen nao limitou-se ao metodo empatico, desenvolvendo ainda os pormenores de uma elaborada interpretacao das ideias, ele jamais deixou de reconhecer a validez da representacao historica e a sua relacao com a verdade.

Aristoteles e Kant serao interlocutores privilegiados nesta analise: o primeiro por ter dado origem a teoria da historia, como nos indica Droysen, alem se ser um dos autores mais citados--senao o mais citado--por Droysen durante suas prelecoes, e o segundo por ser aquele que deu o impulso necessario ao ressurgimento da Historik apos seculos de inacao. Veremos como a filosofia metafisica de Aristoteles sera associada a revolucao kantiana--uma revolucao copernicana as avessas--a partir da qual os objetos passam a girar ao redor do sujeito. Isto e, se Droysen mantera em sua teoria da historia estrutura semelhante a kantiana, ele fara uso da teoria da causalidade aristotelica a fim de estabelecer os fundamentos e por conseguinte os limites da representacao historica. Mas nao avancemos a letra do artigo. Como desafio a leitura da Historik podemos ja indicar a maneira aparentemente contraditoria pela qual o declarado presentismo de Droysen--em ultima instancia, um relativismo--nao deixa de reconhecer uma constante capaz de exercer a coesao necessaria ao pensamento historico. Assim compreendemos a celebre proposta droyseana de fundar a Historik na etica. (3) Essa notoria sugestao--"a etica seria a verdadeira filosofia da historia"--, encontrada ao inicio da Historik, rejeita toda a tradicao que por concentrar-se sobre a abstracao filosofica ou sobre o puro empirismo deixa de compreender a relacao entre o geral e o particular, entre o mundo natural e o mundo espiritual como verdadeiro desafio posto a reflexao historica.

A teoria da historia droyseana pode ser ainda identificada na maneira como o autor adjetiva a natureza humana: "sensorio-espiritual" (geistig-sinnliche Natur). Desta maneira, Droysen busca superar o debate tao fortemente vivenciado em sua epoca entre os discipulos de Hegel--Heinrich Leo em particular--e a Escola Critica rankeana, apontando para uma dualidade intrinseca ao homem que o coloca em contato direto e simultaneo com a experiencia sensivel e o pensamento abstrato. A filosofia da historia etica droyseana e dotada de um aspecto tragico que pode ser sentido tanto na definicao de natureza humana que propoe sensorio-espiritual --quanto na maneira como evitara a resolucao do conflito que identifica entre as sabedorias pratica e filosofica. Afinal, a manutencao do conflito nao apenas caracteriza, mas motiva a representacao historica. Na manutencao do pensamento tragico em sua etica indissociavelmente relacionada a dupla natureza humana reside toda a beleza da Historik.

Ao reconhecer Kant como o moderno iniciador de sua Historik, Droysen contudo rejeita o dogmatismo de sua moral. E por isso que devemos distinguir na traducao da Historik a moral kantiana da Sittlichkeit (eticidade) a qual Droysen se refere ao descrever as esferas de atuacao humana (sittliche Kreise). De fato, ha uma distincao fundamental a ser feita entre a etica antiga e a moral moderna, distincao esta a qual Droysen era sensivel: a etica em sua versao droyseana nao e dogmatica, antes mantem a maleabilidade de sua homonima antiga. (4) Se e possivel identificar a luz da Terceira critica certa flexibilidade na filosofia critica kantiana, reconhecer que o enlace entre o sensivel e o suprassensivel nao determina a experiencia, tampouco seus fins, (5) esse nao parece ter sido o caminho escolhido por Droysen que permanece critico a rigidez determinante da moral kantiana.

Como reflexo deste conflito irresoluvel entre o geral e o particular, entre a natureza espiritual e a natureza sensoria, Droysen identifica dois sujeitos que tornam a representacao historica possivel: um Eu empirico, temporalmente limitado, o ser-Eu (Ichsein) ao qual Droysen atribui a experiencia sensivel, e um Eu geral e abstrato capaz de dotar a experiencia individual de universalidade, o Eu da humanidade (Ich der Menschheit). A relacao entre os dois de mutua projecao e referencia tem como fim comum, nos diz Droysen, o logos, que em termos droyseanos pode ser compreendido como certa racionalidade intrinseca a historia.

Mas ha uma ressalva a ser feita: o sujeito droyseano que interpreta e tambem inconstante, um produto da historia, e, portanto o conceito de fim (Zweckbegriff) que elabora, que rende universal, e tambem variavel. Se a referencia a representacao historica nao pode ser encontrada nas leis que regem o mundo natural, tampouco o sujeito, maleavel e inconstante pode oferecer a referencia necessaria a coesao historica. Como seria entao possivel o pensamento historico? Onde estariam guardadas as suas referencias? Se ao reconhecer a historicidade do sujeito Droysen da origem ao problema da referencia, ele nao deixara de estabelecer uma coesao possivel para o pensamento historico. E neste sentido que devemos compreender a teoria da interpretacao droyseana contemplada a luz da teoria da causalidade aristotelica: se o sujeito que interpreta e diverso no tempo, ele jamais deixara de lidar com as aporias da representacao historica.

A teoria da causalidade e a sistematica (Systematik) da verdade historica

Para os antigos gregos a particularidade do homem, o que o distinguia do mundo natural, era a sua mortalidade. E esta condicao que possibilita alcancar a excelencia por grandes feitos memoraveis. (6) Na epoca moderna, a historia compreendida como processo, capaz de estender-se infinitamente em direcoes opostas, ao passado e ao futuro, de maneira a assumir a perenidade da natureza antiga e construida pelo continuo trabalho da humanidade: "A humanidade" nos diz Droysen, "alcanca o cosmos do mundo etico pelo trabalho dos individuos que o formam e constroem" (DROYSEN 1977, p. 436). (7) Ainda, "a nossa ciencia", lembra, nao e a historia, "mas a istorie (a investigacao) do que esta posto neste cosmos" (DROYSEN 1977, p. 28). Ha algo paradoxal na reflexao droyseana que identifica o mundo etico-historico como um cosmos simultaneamente limitado e infinito. Se neste cosmos o novo pode surgir, as forcas eticas (sittliche Machte), substrato comum a especie, funcionam como constantes capazes de elucidar as mais diversas formas da historia. Em uma de suas passagens mais expressivas, Droysen diz, citando Aristoteles, que, enquanto os animais e as plantas podem ter seus semelhantes reunidos sob uma forma comum, capaz de definir assim o seu genero, a caracteristica capaz de reunir a humanidade sob um mesmo genero e a historia. O que faz da historia o "conceito de genero" (Gattungsbegriff) da humanidade (DROYSEN 1977, p. 16-17). Ter a historia como "conceito de genero" e sofrer a acao das "forcas eticas" e reagir reproduzindo-as de maneira distinta. Assim, o cosmos que abarca o movimento incessante das "forcas eticas" funciona como referencia movel, historicamente cambiante.

Se a humanidade e o agente que em seu trabalho da forma e conserva este cosmos, o historiador e aquele que busca compreender as suas causas. Na abertura da Metafisica, Aristoteles reconhece "que ha mais saber e conhecimento na arte do que na experiencia, e consideramos os homens de arte mais sabios que os empiricos" (Aristoteles, Metafisica I, 1.7). A razao apresentada para tal distincao e de fato simples: "Com efeito", continua Aristoteles, "os empiricos sabem o 'que', mas nao o 'porque'; ao passo que os outros sabem o 'porque' e a causa" (Aristoteles, Metafisica I, 1.7). As causas (aition) sao respostas as perguntas iniciadas por um "por que", i.e. as indagacoes sobre como o mundo e seus fenomenos (phainomena) vem-a-ser.

Aristoteles continua com um historico da teoria da causalidade notando uma falha nesta tradicao: a reducao da teoria da causalidade a teoria dos principios. Isto e, a teoria dos principios reduziria a complexa relacao entre as quatro grandes causas a primeira causa material. "Ora", diz Aristoteles, "causa diz-se em quatro sentidos". Sob as quatro aitia--material, formal, eficiente e final--, Aristoteles busca organizar todas as maneiras de dizer o porque. (8) "Aristoteles reconhece quatro principios (arkhai) ou categorias", nota Droysen, "pelas quais tudo que atraves de causas (Ursachen) e (e nao atraves de si, como o que e divino) deve ser considerado" (DROYSEN 1977, p. 30).

Apenas o primeiro "porque"--a primeira causa--e causa e principio (Aristoteles, Metafisica I, 3.1-2). O exame da tradicao que o precede, nota o estagirita, permitira tanto "descobrir uma outra especie de causas", ou dar "mais credito as que acabamos de enumerar" (Aristoteles, Metafisica I, 3.1-2). Assim Aristoteles dedica ao menos dois livros as teorias de Tales, Empedocles e Anaxagoras de Clagomenes. A descricao nao e exaustiva, pois visa distinguir a metafisica aristotelica de sua tradicao pela substituicao da discussao a proposito dos principios por uma teoria da causalidade:

Com efeito, ainda que toda a geracao e toda a corrupcao procedam de um unico principio, ou de varios, por que e que isso acontece e qual a causa? Nao e seguramente o sujeito o autor das suas proprias mudancas: por exemplo, nem a madeira, nem o bronze sao a causa das proprias modificacoes, pois nao e a madeira que faz a cama, ou o bronze a estatua, mas alguma outra coisa e a causa da mudanca (Aristoteles Metafisica I, 3.9).

Ser, segundo a Metafisica aristotelica, nao e apenas o que existe em ato, mas e tambem o que pode vir-a-ser, a potencia. A doutrina do ato-potencia aristotelica e vinculada na Metafisica a uma teoria da causalidade segundo a qual "causa" e tudo o que contribui para a realidade de um ser. Inserida na tradicao platonica, a metafisica aristotelica pode ainda ser compreendida como uma critica a Sofistica. Mas se Aristoteles nao abrira mao do questionamento sobre o ser ou sobre a substancia (ousia), ele reconhecera a insuficiencia da teoria platonica diante das multiplas facetas de seu objeto. Droysen lembra o exemplo fornecido pelo proprio Aristoteles da feitura da estatua de um deus para o templo. Se na alma do artista esta a imagem--Michelangelo dizia bastar retirar dos blocos de marmore tudo o que nao era imagem--ele precisa da materia na qual essa imagem sera gravada. A qualidade desta materia--bronze, marmore, madeira--por sua vez condicionara a imagem presente no artista: "sua concepcao sera diferenciada conforme se leve a cabo no bronze, no marmore, na madeira" (DROYSEN 1977, p. 29). Pensamento e materia encontram-se aqui unidos, nota Droysen, dando origem a uma sintese que sera refletida na qualidade da obra. "Mas o artista (aquele que move)", continua Droysen, "nao gravaria na pedra a forma que vive em seu pensamento se a finalidade nao o impulsionar para a acao: os objetos historicos seriam como o espelho do acaso e do arbitrario se neles nao se reconhecessem as determinacoes de fim, que os move" (DROYSEN 1977, p. 30).

Ao contrario da interpretacao tradicional inclinada a "platonizar" Aristoteles, que ve a Metafisica como o tratado onde os primeiros principios alcancam a sua plenitude, buscaremos atentar para a sua fecundidade nela identificando alem de uma teoria dos principios, uma original teoria da causalidade. Isto e, os principios cravados na ordem natural nao mais limitam as causas do ser tampouco satisfazem as perguntas que suscita. Assim compreendemos tambem a interpretacao droyseana da teoria da causalidade aristotelica: se o conhecimento empirico-indutivo e parte da construcao de sentido historico, a ontologia nao se deixa dominar pela epistemologia.

Assim como Aristoteles repudia a tradicao anterior que busca na rigidez dos principios a origem de tudo o que e, Droysen notara que no conhecimento historico, para alem de seus materiais, ha interpretacao e ha finalidade--ser e ato e potencia. (9) Se a ideia de fim contida nos sujeitos-interpretes ou eficientes nao e parte da realidade fenomenica e, portanto, nao pode contribuir para o seu conhecimento objetivo, Droysen propora, a partir da teoria da causalidade aristotelica, uma teoria da interpretacao historica onde a realidade nao-fenomenica sera incluida, onde coexistirao metodos tao diversos quanto o empirico, o dedutivo, o empatico e a interpretacao das ideias.

Hayden White notou sobre a teoria bipartida de Droysen que, se na sua primeira grande parte, na Methodik, encontramos o "modo historico de pensar" (historical mode of thinking), na Systematik encontramos o "modo historico de existencia" (historical mode of existence) (WHITE 1992, p. 90). Droysen nos apresenta a Systematik como o "cosmos do historicamente investigavel", como a tentativa de sistematizacao de um conhecimento reconhecidamente fluido e inconstante. O "homem politico dotado de logos" aristotelico surge logo ao inicio desta segunda grande parte. Se o homem e um animal politico, esta em sua natureza viver politicamente (ton physei ipolis esti), a sua finalidade e o exercicio desta natureza (physis telos esti) (DROYSEN 1977, p. 288). A afirmacao aristotelica que encontra-se a base de sua Politica ("o homem e um animal politico dotado de logos") e de sua Etica ("a finalidade do homem e o logos") fundamentara tambem a Systematik de Droysen. E esta definicao de homem que permitira identificar a emergencia das "comunidades naturais", "praticas" e "ideais" e suas respectivas "esferas eticas": o "mundo etico-historico".

Sao quatro as formas a partir das quais podemos observar historicamente o mundo etico, nos diz Droysen: "(1) de acordo com a materia (Stoff), na qual ele se forma (2) de acordo com as formas (Formen), nas quais ele se constitui; (3) de acordo com os trabalhadores (Arbeiter), atraves dos quais ele se constroi; e (4) de acordo com os fins (Zwecke) que, atraves de seu movimento, se concretizam" (DROYSEN 1977, p. 435-43). (10)

A apropriacao que faz Droysen das quatro causas aristotelicas--material, formal, eficiente e final--teria levado White a reconhecer em sua teoria da historia um embourgeoisement da Etica e da Politica aristotelicas (WHITE 1992, p. 97). Ao introduzir a Systematik--"uma visao ordenada sobre o campo do historiador"--Droysen nota que oferecer um resumo da historia universal tal qual compreendida ate entao trairia a proposta da Historik. De fato, como poderia delimitar o campo do historiador pela apresentacao de uma historia ja constituida se acabara de notar e mesmo de explicitar, na parte dedicada a metodologia, que o conhecimento historico nao possui limites definiveis e imutaveis? Mas a Systematik vai alem da simples confirmacao de suas teses anteriores: "Podemos dizer que esta segunda parte contem o sistema coordenado da verdade historica, i.e. ela deve nos dar a Systematik, pela qual a verdade historica se mostra (auseinanderlegen)" (DROYSEN 1977, p. 285). A partir da teoria da causalidade aristotelica e possivel dizer que a "sistematica da verdade historia" busca conhecer as causas do mundo etico-historico. Mas a teoria da causalidade aristotelica-droyseana e de uma metafisica singular que reconhece tanto a parcialidade--nao apenas inevitavel, mas desejavel --do sujeito quanto a objetividade do conhecimento historico. Certamente a objetividade droyseana distingue-se da objetividade rankeana que o mesmo Droysen caracterizou como eunuca. Se a objetividade e possivel, ela incorpora a interpretacao do sujeito evitando tombar em campo infertil ou perder-se em abstracoes a-historicas. De maneira semelhante, a metafisica aristotelica criticou o reducionismo materialista de seus antecessores sem contudo adotar acriticamente a teoria platonica das formas. Vejamos como a teoria da interpretacao droyseana trata esta aparente contradicao.

Teoria da causalidade e teoria da interpretacao

A primeira grande parte da Historik, a Methodik, e dividida em quatro partes, a (1) Heuristica (Heuristik), (2) a Critica (Kritik), (3) a Interpretacao (Interpretation) e a (4) Exposicao (Darstellung). Droysen nos indica que a segunda grande parte da Historik, a Systematik, divide-se tambem em quatro partes que resultam "diretamente" (unmittelbar) das quatro partes apresentadas na Methodik (DROYSEN 1977, p. 60). Se a Systematik pode ser dividida (nos compendios de 1857-1858 e 1882) segundo (1) "seus materiais", (2) "suas formas", (3) "seus agentes" e (4) "seus fins", e possivel tracar um paralelo entre as duas grandes partes da Historik relacionando-as as quatro causas aristotelicas:
As 4 causas         Methodik          Systematik
  aristotelicas
Material           Heuristica     A historia segundo
                                    seus materiais
Formal               Critica       ... suas formas
Eficiente         Interpretacao    ... seus agentes
Final               Exposicao       ... seus fins


Note-se que o "modo historico de pensar" (Methodik) e o "modo historico de ser" (Systematik), para nao deixar de lembrar os termos de White, passam a ser a luz da teoria da causalidade aristotelica indissociaveis. Logo, se a heuristica lida com os materiais provenientes do passado [fontes (Quellen), restos (Uberreste) e monumentos (Denkmale)] aos quais dirigimos a "questao historica" (historische Frage), a critica lhes dara a sua forma, i.e., dira quem veio antes e quem veio depois, distinguira o falso do verdadeiro. A interpretacao colocara em jogo o sujeito--aquele que interpreta--expondo assim o seu ser historicamente devido e a exposicao lidara com a finalidade da reflexao historica, questionara a possibilidade de manutencao ou de reformulacao das formas presentes do mundo etico-historico que "sendo nao [sao] como deveria[m] ser" (DROYSEN 1977, p. 328). A critica e uma tecnica--semelhante a tecnica que poe em pratica o escultor--necessaria para que conduzamos o material a forma imaginada (a interpretacao). Logo a pergunta historica surge do confronto entre os materiais da historia e o sujeito eficiente. Nesse esta a forma--ou a imagem --e a tecnica para que determinado fim seja alcancado.

Droysen reservara a interpretacao posicao privilegiada em sua teoria da historia lembrando que: "O carater da investigacao historica e compreender investigando, e a interpretacao" (DROYSEN 1977, p. 22). (11) Droysen reserva ainda a interpretacao--e nao a critica--a indagacao sobre os comecos. Ao introduzir o seu capitulo sobre interpretacao, lembra que, embora possamos descamar nosso objeto como uma cebola (wie bei einem Zwiebel) e duvidoso que identifiquemos desta maneira a sua origem. Droysen descarta a discussao ao redor dos comecos possiveis por considera-la infrutifera, uma entediante contenda ao redor do ovo e da galinha. A adocao de "comecos relativos" (relative Anfange) deve servir a concepcao historiografica que os estabelece: "cada consideracao historica compreende apenas trechos de um encadeamento sem fim" (DROYSEN 1977, p. 161). Comecos nao encerram a historia, tampouco principios sao capazes de satisfazer as questoes sobre o ser. Lembremos aqui o pouco apreco que Droysen tinha pela Escola Critica que, a seu ver, limitava-se cegamente ao exame das fontes. "A pratica da Escola Critica", nota, "e incomparavelmente melhor que a sua teoria" (DROYSEN 1977, p. 146).

Droysen reconhece quatro tipos de interpretacao historica: 1) A interpretacao pragmatica (pragmatische Interpretation), 2) a interpretacao das condicoes (Interpretation der Bedingungen), 3) a interpretacao psicologica (psychologische Interpretation), e, 4) a Interpretacao das ideias (Interpretation der Ideen). "Fechar o circulo da compreensao" e considerar as quatro etapas acima como etapas complementares, mesmo sucessivas, deste processo (DROYSEN 1977, p. 166). Embora Droysen nao o faca explicitamente, e possivel considerar tambem estas quatro etapas a luz da teoria da causalidade aristotelica.

Sabemos que a primeira causa aristotelica e a causa material. A interpretacao pragmatica droyseana lida diretamente com "a simples existencia do material historico tal como se encontra ordenado pela critica" (DROYSEN 1983, p. 185). A esta ordem pre-estabelecida, a interpretacao pragmatica oferece um complemento ordenando as fontes por analogia ou por comparacao. Como nao deixa de notar Caldas, a intepretacao pragmatica e capaz de estabelecer um conhecimento objetivo a partir de um metodo empirico-indutivo, algo que Droysen nao deixa de reconhecer como parte constitutiva do conhecimento historico (CALDAS 2011, p. 3). A interpretacao das condicoes droyseana busca a forma, as condicoes de determinados "presentes passados" (vergangene Gegenwarten) que circundam as fontes, os restos e os monumentos. Deduzir circunstancias a partir desses vestigios e conhecer a sua forma, seu locus, poderiamos ainda dizer, em um determinado tempo e em um determinado espaco. A terceira causa aristotelica, a causa eficiente, expoe as forcas que iniciam o movimento que dao forma ao material. Ao identificar um individuo "condutor" buscaremos compreender seu modo de agir fazendo uso da interpretacao psicologica. A interpretacao psicologica, contudo, possui seus limites: e valida apenas enquanto capaz de mostrar como certo individuo ilumina as esferas eticas de seu tempo contradizendo-as ou confirmando-as. O valor deste individuo para nos, lembra Droysen, nao se deve a sua personalidade, mas ao seu significado historico adquirido. (12)

O "circulo da compreensao", nota Droysen, fecha-se apenas com a interpretacao das ideias que, por estar voltada as "grandes potencias eticas" que nos movem, a nossas "ideias", aproxima-se da quarta causa aristotelica, a causa final. Assim e possivel ultrapassar a nossa presenca "individual e efemera" (individuelles und ephemeres Dasein), participando de maneira ativa da "configuracao das grandes potencias eticas". Logo a interpretacao das ideias pode ser tambem identificada como "interpretacao das potencias eticas" (DROYSEN 1983, p. 187). Atraves destas "potencias" ou "ideias", temos a oportunidade de liberar-nos de nosso "pequeno eu", indica Droysen, e participar ativamente das comunidades eticas. Nesta ultima etapa da interpretacao o sujeito e criador, com sua interpretacao traz algo novo ao mundo.

Se ha duvidas quanto a possibilidade de associar as quatro formas de interpretacao catalogadas por Droysen as quatro causas aristotelicas, vale lembrar um exemplo, elaborado pelo proprio Droysen, a fim de explicar a seus alunos como complementam-se as etapas da interpretacao. Para que possamos caminhar, diz Droysen, e necessario que tenhamos: 1) os membros associados uns aos outros segundo um mecanismo especifico, 2) a correta reacao de nossos musculos aos desniveis do solo ou as suas lacunas, enfim, as suas condicoes, 3) vontade de nos mover (potencia) e 4) a finalidade, a ideia de fim que nos leva a nos mover.

Se Kant nos mostrou como o objeto gira ao redor do sujeito--e nao o sujeito ao redor do objeto--, subordinando assim o objeto ao sujeito, e importante que nos perguntemos se Droysen, ao recuperar a filosofia metafisica de Aristoteles apos reconhecer-se moderadamente kantiano nao busca uma referencia ao conhecimento historico exterior ao sujeito, mas tambem ao mundo natural, uma referencia movel e cambiante que abarque ambos. E sintomatico neste sentido que Droysen insista no conhecimento da historia pela historia, ou de maneira mais geral, do logos pelo logos. Desta maneira, ao subsumir o sujeito a historia, Droysen aloca o referente necessario a construcao do pensamento historico nao mais neste sujeito incerto e variavel, mas na propria historia. Pensamento historico e existencia historica se entrelacam caracterizando assim a filosofia etica da historia droyseana. Deste modo, o logos cambiante funcionara como um fundo de semelhanca identificavel nao apenas na ordem natural, mas na maneira como os homens concebem a propria natureza.

Causa final e filosofia etica da historia

Na teoria da causalidade aristotelica, as causas formal, eficiente e final coincidem com frequencia. Se entre as plantas e os animais, a finalidade e a perpetuacao da forma, a finalidade de um tigre e vir-a-ser um tigre--"forma, agente e telos coincidem" (Fisica 198a25)--, a fonte natural de mudanca, a causa eficiente, e "a forma da coisa, ou o que e, pois essa e sua finalidade" (Fisica 198b3). Se a forma do homem e a historia--este e seu conceito de genero (Gattungsbegriff)--, a sua finalidade, o que o move, e tambem a historia. A luz da etica aristotelica poderiamos ainda dizer ser a caracteristica comum aos homens, o logos que os diferencia dos demais animais, tambem a sua finalidade. Aspirar ao logos pelo logos, este e, afinal, o tema da Etica a Nicomaco. Sao conhecidos os exemplos de Aristoteles: a finalidade de um flautista e tocar bem a flauta e a do sapateiro e fazer bons sapatos (Aristoteles, Etica a Nicomaco 1097b25). Deste modo a finalidade do homem--esse animal politico dotado de logos--e bem exercitar o logos. A versao droyseana da teoria da causalidade aristotelica aproxima-se da Etica ao reconhecer no logos a finalidade da historia: "a finalidade da humanidade, o logos, realiza-se construindo" (DROYSEN 1977, p. 389). Assim reconhecemos no logos, alem da finalidade, o material da historia: O logos, "que se quer cumprir e que se cumpre", termina por constituir a propria historia, o "mundo etico em movimento" (DROYSEN 1977, p. 385). (13)

Deste modo, Droysen fecha o cosmos do mundo etico: nesta sucessao de fins alcancados apresenta-se a historia, tem o historiador o seu material. Droysen estabelece assim uma relacao de circularidade para a teoria da causalidade aristotelica, semelhante a circularidade das deliberacoes eticas onde fins alcancados tornam-se meios para novos fins. (14) Caldas ja identificou um "fio solto" no pensamento droyseano: se "o presente e a dimensao privilegiada do conhecimento historico", como interpretar as "frases referentes ao aspecto teologico, frequentemente encontraveis nas paginas de sua Historik?" (CALDAS 2008, p. 114). Neste caso, como podemos associar a circularidade da interpretacao droyseana, onde meios tornam-se fins, sem uma filosofia da finalidade que oriente estas isoladas deliberacoes? Para Caldas, "o sujeito da historia (Deus) fica de tal forma oculto, que o conhecimento do homem [...] e sempre limitado por uma diferenca ontologica" (CALDAS 2008, p. 115). Se a teoria da historia droyseana nao rompe com uma concepcao teleologica da historia, ao funda-la na etica, Droysen permite que o individuo coloque-se ativamente sobre a historia. Assim, a finalidade da historia, embora nao deixe de atuar de maneira oculta, sera pontualmente definida pelos "trabalhadores da historia" (DROYSEN 1977, p. 13). Como nao retornar assim a centralidade do sujeito que ha pouco haviamos questionado? Afinal ele guarda a finalidade, ainda que momentanea, da historia.

Se no sistema kantiano a vontade livre encontra-se submetida a lei moral --o que terminaria por conceder ao individuo a sua autonomia--em Droysen a vontade livre retira do mundo publico a sua motivacao: "[do mundo etico] definimos nossos fins" (DROYSEN 1977, p. 34). Nos mantemos aqui proximos a arquitetura da Primeira Critica e de seus juizos determinantes por ser esta a leitura que faz Droysen de Kant: "as abstracoes, tanto as materialistas quanto as dogmaticas e as logicas, sao sempre formas de consideracao" (Betrachtungsformen) (DROYSEN 1977, p. 34), escreve Droysen criticamente. E, desta maneira, e possivel extrair uma constante: "esta na natureza humana que esta se comporte eticamente, e isso foi assim em todos os tempos" (DROYSEN 1977, p. 34). Sua referencia portanto esta na heteronomia do mundo publico, na etica em seu sentido antigo, no reconhecimento de que "formas de consideracao" serao infinitamente reformadas guardando contudo uma constante: o modo etico-historico de ser humano.

A metodologia droyseana pode ser assim compreendida como uma peca deliberativa--da identificacao do material a exposicao--ao interior de sua teoria da historia. Mas a finalidade de sua etica nao e dogmaticamente forjada por um fim que lhe e exterior. Seus fins sao dotados de historia, sao a propria historia, testemunham o enlace momentaneo entre a experiencia sensivel e o universal. Assim, a historia faz-se objeto de si mesma. A circularidade da teoria da interpretacao droyseana nao apenas a aproxima de uma etica, mas desestabiliza as categorias de sujeito e objeto subsumindo o conhecimento historico a propria historia. Como nos diz Droysen, "tambem a finalidade, a ideia de humanidade, presente em cada alma, encontra-se em movimento" (DROYSEN 1977, p. 386).

Podemos ainda levantar a hipotese de que, como as formas de interpretacao sao complementares e ainda gradativas, tambem as formas expositivas se iniciam com a "mimesis da pesquisa" para culminar na "exposicao discursiva" ou "deliberativa" (Erorterung). Esta seria a mais nobre dentre as formas expositivas e a finalidade do trabalho historiografico. De fato, a exposicao historiografica voltada ao debate publico conclui o projeto droyseano de fazer da historiografia uma etica. Seu intuito era reabilitar a historiografia segundo o espirito dos sofistas: muito mais "vida cientifica e movimento" (wissenschaftliches Leben und Bewegung) pode ser encontrado no "boca a boca" (Mund zu Mund) do que nos livros, diz (DROYSEN 1977, p. 258).

Conclusao: coesao etica

Como pensar a historia sem subsumi-la a objetividade eunuca ou condiciona-la as multiplas interpretacoes? Se podemos compreender a sistematica "pela qual a verdade historica se mostra", sob a forma de quatro indagacoes sobre o ser, e possivel estabelecer assim uma coesao para a historia que nao seja historicista ou presentista?

Droysen reconhece que a finalidade da formacao etica e uma formacao inconclusa--i.e. a solucao do conflito nao e a sua resolucao mas o seu reconhecimento--na qual as sabedorias pratica e filosofica coexistem. O reconhecimento da limitacao presente da compreensao humana (Dasein und Jetztsein) nao impede que valores gerais possam ser evocados. "Estas ideias [eticas]", nota ainda Droysen, "nao sao o proprio Absoluto, mas sao absolutos relativos, o Absoluto, como nos o conhecemos e apreendemos ate aqui" (DROYSEN 1977, p. 39). "A verdade", continua, "nao esta no "desenvolvimento permanente de uma lei natural que se transforma ao conservar-se, mas [n] a dialetica de algo em si contraditorio, que se conserva ao se transformar sem descanso" (DROYSEN 1977, p. 295, grifo meu). Este seria o "verdadeiro dualismo" tal qual nos aponta Droysen. O dualismo proprio as ciencias naturais e a filosofia, que busca estabelecer leis gerais e, quando aplicado a historia, falso (falscher Dualismus) (DROYSEN 1977, p. 41). Esse "falso dualismo" e, diz ainda Droysen, aetico (unsittlich), pois nao considera a contribuicao do individuo enquanto "totalidade relativa" ao movimento da historia.

A rejeicao do falso dualismo e o reconhecimento de um dualismo fundamental e insuperavel capaz de por em movimento o mundo etico--conserva-lo ao transforma-lo--nos permite estabelecer um "encadeamento etico" para a historia. E assim conclui Droysen sem deixar de citar Schiller: "apenas neste encadeamento etico esta correto quando diz o poeta que a historia do mundo e o tribunal do mundo" (DROYSEN 1977, p. 41). (15)

Ao interpretar a frase de Schiller tornada celebre por Hegel a luz do encadeamento etico, Droysen oferece um contraponto ao reconhecidamente inevitavel--por Droysen mesmo recomendado--presentismo. Isto e, a contingencia nao pode ser erigida como verdade sem ser antes confrontada a uma perspectiva universal. Esta seria de fato condicao necessaria a permanencia do pensamento historico, do questionamento incessante que move a "dialetica do contraditorio" droyseana. O encadeamento etico ou a coesao etica funcionara assim como uma constante que, segundo a teoria da historia de Droysen, esta a base do pensamento historico. "O resultado desta consideracao e de natureza muito pratica", nota Droysen,

Certamente, a manutencao do direito, a administracao do Estado [...] tem lados completamente tecnicos em si. Mas quem elas integra, busca compreende-las pela sua profunda conexao, [ve que] nao ha nelas outra coisa senao sua coesao etica (ethischer Zusammenhang), sobre a qual quer projetar ideias vivas e em constante devir (lebende und werdende Ideen), e o caminho a esta compreensao e o metodo historico que e para o mundo intelectual a ferramenta (Organon) assim como o metodo fisico e para o matematico (DROYSEN 1977, p. 39).

Qualquer tentativa de reconhecer no presentismo droyseano ou em sua exigencia pela parcialidade do historiador os antecedentes do decisionismo pos-historicista seria frustrada, pois em sua teoria da historia, presentista e antropocentrica, e mantida a possibilidade de um encadeamento etico. Assim, nao apenas o Estado, o direito e as demais esferas eticas de atuacao humana surgem como objeto para o historiador, mas tambem--e sobretudo--a coesao etica que as mantem, i.e. o seu fundamento humano que, apesar das variacoes das formas sob as quais se apresenta, permanece constante. Esta constante mutavel, fruto da "dialetica de algo em si contraditorio, que se conserva ao se transformar sem descanso", servira como referencia comum ao pensamento historico. Se a limitacao da etica aristotelica e a ausencia de uma reflexao sobre a historia, Droysen, ao contrario colocara a historia ao centro de sua etica estabelecendo assim uma possibilidade de coesao para as experiencias do homem no tempo.

Ter a etica como filosofia da historia, significa reconhecer um modelo de racionalidade proprio a historia, inconcluso, em deslocamento constante, incapaz de limitar-se ao geral ou ao particular. A teoria da causalidade aristotelica por questionar o ser desdobrando-o em causas distintas--nao sucessivas, contudo complementares--oferece um interessante pano de fundo a teoria da interpretacao droyseana. Essa deve ser compreendida como atividade inconclusa nao apenas por ser incapaz de abarcar seus objetos definitivamente, mas por ser sua funcao o autoexame e o autoquestionamento incessantes.

Se os antigos nunca deixaram de se questionar sobre a relacao entre a excelencia humana e a ordem natural--mesmo uma etica antropocentrica como a aristotelica nao se abstem desta indagacao--, o rompimento moderno com esta tradicao imporia gradualmente limitacoes ao pensamento historico. Afinal, como e possivel estabelecer criterios imutaveis de verdade capazes de abarcar a variedade de interpretacoes que multiplica-se a medida que adentram o mundo novos individuos? Droysen estabelece no cosmos do mundo etico-historico uma constante inconstante que fundamentara o incessante questionamento sobre a historia. O individuo nao e descartado de sua teoria da interpretacao, mas um oximoro o define como "totalidade relativa". Se Gadamer viu em Droysen indicios da filosofia heideggeriana, vale notar que, se era objetivo de Heidegger romper com a tradicao metafisica ocidental, Droysen, ao contrario, busca recria-la. De fato, a representacao, embora nao limitada a um principio, objeto ou sujeito, permanece indispensavel ao pensamento historico. Droysen encontra na metafisica de Aristoteles a teoria necessaria ao questionamento do que e naturalmente diverso e inconcluso. A referencia para o pensamento historico, a sua condicao de existencia, nao se deixa encerrar sob forma alguma. Seja o mundo etico em movimento ou o ser do logos no mundo, o objeto da historia nao se deixa controlar. E este o fundamento tragico desta disciplina que a aproxima da etica antiga: a variabilidade de seu objeto nao impede o seu questionamento.

Recebido em: 15/2/2013

Aprovado em:12/4/2013

Referencias bibliograficas

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Renata Sammer

renatasammer@mac.com

Doutoranda

Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro

Rua Marques de Sao Vicente, 225--Gavea

22453-900--Rio de Janeiro--RJ Brasil

* Esta pesquisa foi desenvolvida com o apoio financeiro da CAPES e do CNPq.

(1) "[A] tarefa dos estudos historicos consiste em que se aprenda a pensar historicamente". No original: "die Aufgabe der historischen Studien ist, dass man historisch denken gelernt hat" (DROYSEN 1977, p. 5). As demais traducoes ao longo do artigo sao, quando nao indicadas, de nossa autoria. Para uma ampla discussao sobre a questao cf. CALDAS 2004.

(2) Como nao deixa de notar Pedro Caldas: "a pretensao de dissolucao do sujeito no objeto levaria, segundo Gadamer, o historista a cometer os mesmos equivocos do iluminismo. A critica ao racionalismo feita pelos autores historistas nao seria suficiente para encobrir o mesmo pressuposto de ambas as tendencias de conceitualizar a historia, a saber: desconsiderar a temporalidade como produtora de sentido, buscando a empatia ou a norma como ferramentas que superariam o fosso entre as epocas" (CALDAS 2006, p. 145). Buscando dar conta da especificidade do pensamento de Droysen, Caldas propos ultrapassar os "limites do historismo" adotando o conceito de Bildung para a analise que faz da obra de Droysen (Cf. CALDAS 2006, p. 139). A proposta e interessante, pois a Bildung, por ser "inconclusiva e potencialmente ativa" (CALDAS 2006, p. 149), traduz com propriedade a dimensao formativa da hermeneutica droyseana e o presentismo de sua teoria. Como nota Caldas, Gadamer reduz a consciencia historica do seculo XIX ao historicismo adepto de metodo empatico (Einfuhlung) conduzindo assim Droysen a obscuridade. Obscuridade esta mantida e propagada por pesquisadores contemporaneos importantes como, por exemplo, Frank Ankersmit. Cf. ANKERSMIT 2005, p. 193-241. Sobre a inesperada aproximacao de Droysen a Heidegger cf. GADAMER 1976, p. 48 apud WHITE 1987, p. 84.

(3) Pedro Caldas, em um artigo recente dedicado a hermeneutica droyseana, reconheceu nas quatro formas de interpretacao identificadas por Droysen pretensoes de sentido distintas--empirico, logico, empatico e ideal. Como Caldas nota na introducao deste mesmo artigo, a hermeneutica droyseana nos coloca o desafio de relaciona-la a etica. Em ultima instancia nos caberia investigar como hermeneutica e Bildung se relacionam (CALDAS 2011, p. 1). Desenvolvemos aqui o argumento de A. Assis que sublinha a manutencao de uma dimensao pratica da historia na teoria droyseana, embora Droysen nao mais opere com a concepcao exemplar da historia (Cf. ASSIS 2009, p. 22). Vale notar ja de inicio que as quatro modalidades de interpretacao identificadas por Droysen podem perfeitamente coexistir sem que estabelecam entre si uma relacao de hierarquia, embora Droysen nao deixe de reconhecer o carater criativo e portanto a distincao da interpretacao das ideias.

(4) "Com, efeito", diz Aristoteles em sua Etica a Nicomaco, "essa e a razao porque nao sao todas as coisas determinadas pela lei; pelo fato de haver alguns casos [e situacoes] em relacao aos quais e impossivel estabelecer uma lei, e necessaria a existencia de um decreto especial; pois aquilo que e ele proprio indefinido so pode ser medido por um padrao indefinido, como a regua plumbea usada pelos construtores de Lesbos; tal como essa regua nao e rigida, podendo ser flexibilizada ao formato da pedra, um decreto especial e feito para se ajustar as circunstancias do caso" (Aristoteles, Etica a Nicomaco 1137b, 29-34).

(5) Sobre a "flexibilidade" da filosofia critica kantiana cf. "A faculdade de julgar, em geral, e a faculdade de pensar o particular como compreendido no universal. Se o universal (a regra, o principio, a lei) e dado, entao a faculdade de julgar que nele subsume o particular [... ] e determinante. Se contudo, apenas o particular e dado e ela deve encontrar o universal, entao a faculdade de julgar e apenas de reflexao" (KANT 1790, B XX VI). Traducao de Luiz Costa Lima apud COSTA LIMA 2000, p. 47.

(6) Sobre a concepcao grega do tempo Cf. ARENDT 1992. Assim escreve Hannah Arendt: "a humanidade descobre [na historia] a imortalidade potencial da especie humana" (ARENDT 1992, p. 109).

(7) Droysen identifica no "cosmos do mundo etico" (der Kosmos der sittlichen Welt) o objeto do historiador. Seria este mundo etico-historico um universo fechado, onde, apesar de sua historicidade, e possivel identificar certa constancia, uma referencia imutavel--fundada na natureza politica, sensorio-espiritual, do homem dotado de logos--para a filosofia politica exposta na Historik? Devemos notar que o reconhecimento do mundo etico-historico como um cosmos e incompativel com a interpretacao que faz O. G. Oexle do historismo de Droysen. Reconhecendo nesse movimento a coexistencia de ciencias cujo objeto constitui um cosmos, e de ciencias como pesquisa que, iniciadas sobretudo com a "revolucao kantiana" que inverte a relacao do conhecimento--"da razao aos objetos e nao mais dos objetos a razao" -, Oexle ve no positivismo, no materialismo e no idealismo historico ciencias fechadas em um cosmos, pois lidam com um objeto finito. Ja Droysen e Weber, por exemplo, teriam seguido a tradicao kantiana e reconhecido que a ciencia como pesquisa jamais alcanca sua conclusao reinventando sans cesse seus proprios objetos (OEXLE 2001, p. 9). Buscaremos ressaltar o kantismo moderado de Droysen indicando na apropriacao que faz da teoria da causalidade aristotelica uma possivel definicao do campo do historiador, i.e., a referencia que estara a base do proprio pensamento historico.

(8) to dia ti Cf. VLASTOS 1969, p. 294. G. Vlastos nota ainda que aition (em ingles "cause") deveria ser traduzido como "because", pois respondem as perguntas iniciadas por um "por que". Manteremos a traducao ja proposta de aition como "causas" uma vez que Droysen segue esta direcao (Ursache). Inserindo-se na tradicao platonica de investigacao do mundo natural tais questoes podem ser assim exemplificadas: "por que passam as coisas a existir? Por que deixam de existir? Por que existem?" (Platao, Phaedo 96a, 6-10). Mas Platao teria atentado apenas para as causas material e formal, segundo Aristoteles (Metafisica I, VI, 7). Cf. VLASTOS 1969, p. 293.

(9) Dada a importancia da reflexao aristotelica para a teoria da historia de Droysen, cito a passagem em sua integridade: "causa significa (1) aquilo do que, enquanto material imanente, algo vem a ser, e.g. o bronze e a causa da estatua e a prata a causa da travessa, [...]. (2) A forma ou a configuracao, i.e. a definicao da essencia, [... ] (3) aquilo do qual a mudanca ou a manutencao se inicia; e.g. o conselheiro e a causa da acao, e o pai a causa da crianca, e, em geral aquele que faz a causa do que foi feito e aquele que induz a mudanca. (4) O fim, i.e., aquilo pelo qual algo e; e.g. saude e a causa da caminhada, Para a pergunta "porque alguem caminha?" respondemos, "para que tenha saude"; e assim falando pensamos ter dado a causa. A mesma coisa e verdadeira para todos os meios que intervenham antes de um fim, quando alguma outra coisa colocou o processo em movimento, [...]" (Metafisica V, 2). Uma versao semelhante pode ser encontrada na Fisica (II, 3).

(10) As edicoes da Historik divergem quanto a subdivisao da Systematik. Na edicao mais abreviada de 1983 a Systematik e dividida segundo as quatro causas aristotelicas: "o mundo etico (sittlich) dever ser observado historicamente: (1) de acordo com a materia, na qual ele forma; (2) de acordo com as formas, nas quais ele se constitui, (3) de acordo com os trabalhadores, atraves dos quais ele se constroi, (4) de acordo com os fins que, atraves de seu movimento, se concretizam". Esta divisao esta tambem presente no Compendio de 1882 sob o qual nos concentraremos. Ja na mais recente edicao de Leyh, 1977 (reconstituicao do manuscrito de 1857), as tres comunidades--naturais, praticas e ideais--dividem a primeira parte da Systematik--"As forcas eticas (sittliche Machte)"--sendo a segunda e ultima parte--"o homem e a humanidade". As comunidades naturais, praticas e ideais que representam os estagios da dialetica que se estabelece entre individuo e mundo etico-historico, entre necessidade e liberdade, e dao a historia seu movimento surgem na edicao de 1936 como partes de "(2) [o mundo etico] de acordo com as formas, nas quais ele se constitui". Seguiremos aqui o compendio de 1882.

(11) No original: "das Wesen der geschichtlichen Methode ist forschend zu verstehen, ist die Interpretation".

(12) Cf. DROYSEN 1977, p. 205-08; CALDAS 2004, p. 131. Assim, para recuperar aqui o exemplo citato por Droysen, Georg von Podiebrad defendeu o direito de Estado face as pretensoes da Igreja, conquistando ainda a independencia nacional da Boemia. Nele encontram-se, lembra Droysen, as ideias de Estado, Igreja e nacao. Contudo, a compreensao de seu presente passado so podemos alcancar ao identificar o "ponto historico" onde se encontra. Este "ponto" encontramos apenas ao cruzar a linha de seu presente com a linha das configuracoes posteriores de Estado, nacao e Igreja. Este mundo presente, conhecido, o mundo etico (sittlich) em sua mais recente configuracao, e o que nos auxiliara a formular a "pergunta historica" (historische Frage) e assim encontrar o "ponto historico" a partir do qual poderemos, atraves de nossa interpretacao produzir novo sentido.

(13) Embora a aproximacao do logos droyseano ao logos aristotelico seja possivel--e sugerida pelo proprio Droysen --, vale lembrar as dificuldades que Dr. Fausto encontrara ao inicio do "Evangelho segundo Joao"--"No principio era o Verbo". O logos, na versao grega do evangelho, seria o Verbo, o Senso, a Potencia ou a Acao? (GOETHE, Faust IV, 1). Como veremos mais adiante, na teoria da historia de Droysen, Deus, o sujeito da historia, limita, por estar oculto, o conhecimento do homem "por uma diferenca ontologica" (CALDAS 2008, p. 115). Deste modo e possivel reconhecer uma etica historicista de inspiracao antiga na teoria da historia droyseana.

(14) Um exemplo de como a metodologia estabelecida por Droysen para a historia pode funcionar como uma deliberacao etica pode ser encontrado no comentario de Carlo Antoni sobre a obra de Droysen: "[...]; e por isso que ele reverte o julgamento tradicional sobre Demostenes, sobre Felipe da Macedonia e sobre a civilizacao helenica--[...]. Demostenes, diz ele, teria inutilmente patronado a defesa das liberdades atenienses, pois a poeira de pequenos estados gregos, com sua politica fechada, nao teria chance alguma de sair vitoriosa do grande duelo com o Oriente asiatico. Pertenceria apenas a monarquia macedonica, monarquia militar, de conquistar a Asia e de transformar a civilizacao grega, ainda estreitamente municipal, em uma civilizacao universal. Droysen fez da epoca alexandrina ate entao considerada como uma era de decadencia e corrupcao, a grande epoca, a epoca decisiva para a historia do mundo, aquela que possibilitou o encontro e a fusao da civilizacao grega com a civilizacao asiatica. A forca, no caso, teria sido o instrumento indispensavel da cultura. E assim que a Prussia de Potsdam oferecia seus servicos a Alemanha de Weimar, aquela dos poetas e dos filosofos. Em sua apologia a monarquia macedonica, Droysen nao esquecera de louvar o corpo dos oficiais macedonicos, tao ricamente providos do sentido de honra, instrumento da cultura grega no Oriente; ele inaugurara assim esta alianca entre o corpo de professores e aquele dos oficiais, tao caracteristica da Alemanha oficial ate a primeira grande guerra" (ANTONI 1963, p. 80).

(15) No original: "Nur in diesem ethischen Zusammenhang ist es richtig, wenn der Dichter sagt, dass die Weltgeschichte das Weltgericht sei".
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Author:Sammer, Renata
Publication:Historia da Historiografia
Date:Dec 1, 2013
Words:7963
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