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The expansion of agribusiness in Ceara semiarid region and their implications for health, work and environment/A expansao do agronegocio no semiarido cearense e suas implicacoes para a saude, o trabalho e o ambiente/La expansion del agronegocio en la region semiarida de Ceara y sus implicaciones para la salud, el trabajo y el medio ambiente.

Ferreira MJM, Viana Junior MM. The expansion of agribusiness in Ceara semiarid region and their implications for health, work and environment. Interface (Botucatu). 2016; 20(58):649-60.

Ferreira MJM, Viana Junior MM. La expansion del agronegocio en la region semiarida de Ceara y sus implicaciones para la salud, el trabajo y el medio ambiente. Interface (Botucatu). 2016; 20(58):649-60.

Introducao

Desde 2008, o Brasil lidera o ranking mundial como o pais que mais importa agrotoxicos no mundo, sendo responsavel por 86% do total consumido na America Latina (1). Somente no ano de 2010, a taxa de crescimento das vendas no pais foi de 190%, enquanto, no resto do mundo, foi de 93% (2), ocupando, assim, um lugar de destaque no cenario internacional como o mais importante nicho para o crescimento economico das empresas transnacionais produtoras desses insumos quimicos.

Durante o ano de 2011, o mercado nacional movimentou cerca de US$ 8,5 bilhoes de dolares. As lavouras de soja, milho, algodao e cana-de-acucar foram responsaveis por 80% das vendas do setor (3). Dentre os principios ativos mais utilizados nas culturas, os herbicidas assumem o primeiro lugar. Suas vendas passaram de US$ 1.360.895, em 2010, para US$ 1.860.919 em 2012 [4]. Registra-se, tambem, o aumento do consumo medio de ingredientes ativos em relacao as areas cultivadas, saltando de 7,56 t/ha, em 2005, para 18,36 t/ha em 2012 (3).

Todavia, os numeros assinalados acima invisibilizam as consequencias dos efeitos deleterios dos agrotoxicos para a saude humana e o equilibrio ecologico. Do ponto de vista da saude publica, identificamos um incremento das taxas de intoxicacoes por agrotoxicos registradas pelo Sistema de Informacao de Agravos de Notificacao (SINAN), que, somente em 2012, notificou mais de nove mil casos (5). Ressaltamos que, de acordo com a Organizacao Mundial da Saude (OMS), para cada caso confirmado, estima-se a presenca de outros cinquenta subnotificados, o que nos levaria a um quantitativo de, aproximadamente, quatrocentos e cinquenta mil casos, representando, assim, um grave problema de saude publica. Somam-se, ainda, os acidentes de trabalho decorrentes de intoxicacoes por agrotoxicos que, em 2011, foram 126,77% a mais que em 2007 (6). Outro aspecto preocupante diz respeito a faixa etaria das intoxicacoes, atingindo, sobretudo, os individuos do sexo masculino de 20 a 34 anos (7).

Esse contexto de exposicao a agrotoxicos reproduz-se, tambem, no semiarido cearense, mais precisamente no baixo Jaguaribe, distante cerca de duzentos quilometros da capital Fortaleza, no Ceara. Desde a decada de 1980, a regiao registra a chegada de grandes empresas transnacionais e regionais do agronegocio, que vem modificando sobremaneira os modos de vida e o perfil de morbimortalidade daquela populacao (8).

Nesse contexto, estudo epidemiologico realizado em tres municipios situados no baixo Jaguaribe (Limoeiro do Norte, Russas e Quixere) evidenciou um incremento anual das taxas de internacao por neoplasias 1,76 vezes maiores quando comparadas as de outros 11 municipios controle. Ademais, as analises registraram que a taxa de mortalidade por cancer e 38% maior nos tres municipios supracitados, demonstrando a influencia dos processos produtivos sobre o perfil de adoecimento e morte das populacoes (9).

No que tange a preocupacao com os agravos a saude, pesquisa realizada durante o periodo de 2007 a 2011, evidenciou, dentre outros, que 97% dos trabalhadores do agronegocio e dos agricultores familiares estudados estavam expostos a agrotoxicos. Tal exposicao envolvia a presenca de quatro a trinta ingredientes ativos distintos, distribuidos entre inseticidas, herbicidas e fungicidas. No conjunto dos dados, foi possivel identificar a presenca de 25 grupos quimicos diferentes, dos quais 68,5% sao classificados como extremamente toxicos ou muito toxicos (8).

Do ponto de vista da exposicao ambiental, merece destaque a pratica da pulverizacao aerea com fungicidas de classes toxicologicas I e II (extremamente e altamente toxicos, respectivamente) nos cultivos de banana, extensamente produzidos na regiao (9). Tais praticas contribuem sobremaneira para a contaminacao ambiental, em especial dos lencois freaticos. Acerca disso, estudos realizados pelo orgao estadual de recursos hidricos do Ceara detectaram a presenca de Ingredientes Ativos (IA) em seis de dez amostras provenientes do aquifero Jandaira, colocando em risco a seguranca hidrica da populacao (10). Alem disso, e importante salientarmos que, em 2014, o estado do Ceara decretou estado de emergencia em 92% dos seus municipios em virtude da severa e prolongada estiagem (11).

Desse modo, a conjuntura dos fatores elencados foi motivadora para adotarmos, como objetivo do presente manuscrito, uma analise das transformacoes ocorridas nos modos de vida--e suas implicacoes para a saude, o trabalho e o ambiente--decorrentes da introducao/expansao do agronegocio na regiao do baixo Jaguaribe.

Delineamento metodologico

O presente artigo inscreve-se na fronteira entre os campos da Saude Coletiva e das Ciencias Sociais e Humanas, por assumirem posicoes privilegiadas para a analise do objeto de investigacao em foco. Ainda, filia-se ao enfoque qualitativo da pesquisa, tendo em vista a natureza dos fenomenos investigados.

Quanto ao local de estudo, este foi realizado na comunidade do Tome, pertencente ao municipio de Quixere, situado no baixo Jaguaribe, regiao do semiarido cearense. Sua escolha se deveu ao fato de apresentar, em seu territorio, extensa area de monocultivo de banana onde e praticado o uso intensivo de agrotoxicos por meio da pulverizacao costal e aerea. Esse contexto foi favoravel para que a comunidade agucasse sua percepcao quanto aos riscos a que estava exposta, reconhecendo o papel dos processos produtivos como agentes transformadores de seus modos de vida, influenciando, tambem, no seu perfil de morbimortalidade (8,9).

Para a realizacao dessa pesquisa, adotamos, como metodologia, a pesquisa-acao, entendida como:
   [...] um tipo de pesquisa social com base empirica que e concebida
   e realizada em estreita associacao com uma acao ou com a resolucao
   de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os
   participantes representativos dessa situacao ou do problema estao
   envolvidos de modo cooperativo e participativo na sua resolucao.
   (12) (p. 16)


Devido ao sincretismo teorico-conceitual que permeia o arcabouco da pesquisa-acao, alguns autores classificam-na como pesquisa participante. Porem, Thiollent (12) esclarece que, apesar de identificar similitudes entre as abordagens, estas, muitas vezes, se resumem a uma dimensao semantica. Desse modo, segundo o autor:
   Nossa posicao e que toda Pesquisa-acao e do tipo participativa: a
   participacao das pessoas implicadas nos problemas de investigacao e
   absolutamente necessaria. No entanto, tudo o que e chamado de
   Pesquisa participante nao e Pesquisa-acao. Isto porque Pesquisa
   participante e, em alguns casos, um tipo de pesquisa baseada numa
   metodologia de observacao participante, na qual os pesquisadores
   estabelecem relacoes comunicativas com pessoas ou grupos da
   situacao investigada, com o intuito de serem melhor aceitos. (12)
   (p. 17)


A argumentacao acima convida-nos a reflexao de, pelo menos, duas questoes fundamentais para a correta demarcacao conceitual. Primeiramente, o carater participativo dos sujeitos na pesquisa-acao apresenta-se como elemento fundante, uma caracteristica estrutural e estruturante dessa abordagem. Em segundo lugar, o autor avanca para uma qualificacao acerca da participacao dos sujeitos, distinguindo-a de mera observacao, situacao de conveniencia ou simples estrategia que facilite a incursao de pesquisadores junto a sujeitos ou situacoes a serem investigadas.

Outra caracteristica singular da pesquisa-acao reside na sua estrutura ontologica de base fundamentalmente social-empirica, ou seja, origina-se a partir de uma situacao concreta, em que se busca sua transformacao envolvendo a participacao horizontal de sujeitos sociais que vivenciam cotidianamente esses problemas.

Nesse sentido, a opcao pela pesquisa-acao proporciona o esteio para a superacao da disjuncao entre investigacao e acao, ainda tao presente no campo de disputas em que se insere a producao do conhecimento (13). Em essencia, tais caracteristicas a distanciam de um paradigma positivista, tendo em vista que ela pressupoe a integracao dialetica imanente entre o sujeito e sua existencia, entre fatos e valores, entre pesquisador e pesquisado e entre pesquisa e acao (14).

Para Thiollent, uma das principais etapas da pesquisa-acao consiste na formacao do grupo de pesquisa que trabalhara em conjunto na identificacao e resolucao do problema em foco. O autor denomina esse momento de "Seminario Central", o qual, alem de reunir os principais integrantes implicados no processo de investigacao, tem o papel de examinar, discutir e tomar decisoes acerca do percurso a ser adotado pelo grupo durante a pesquisa (12).

Dessa forma, realizamos o primeiro encontro em uma Escola de Ensino Infantil e Fundamental (EEIF), localizada na comunidade do Tome. Na ocasiao, convidamos: profissionais da Atencao Primaria em Saude (enfermeiras e agentes comunitarias de saude), professores de quatro escolas municipais, estudantes, alem de moradores da comunidade. Ao todo, constituimos um grupo de vinte e quatro pessoas, com o fito de planejar e pactuar coletivamente o cronograma de trabalho estabelecido pelo grupo em tres oficinas com duracao de oito horas cada (14).

Para cada uma das oficinas, foi elaborada uma pergunta geradora que serviu de subsidio para auxiliar o grupo a refletir sobre a problematica em questao. Dessa forma, propomos as seguintes indagacoes: i) Como era o passado antes da chegada das empresas do agronegocio? ii) Como avaliam o presente, a partir da chegada das empresas? iii) O que esperam do futuro?

Em dialogo com essa metodologia, adotamos o metodo da cartografia social, uma vez que permite:
   A las comunidades conocer y construir um conocimiento integral de
   su territorio para que puedan elegir una mejor manera de vivirlo.
   Es una forma de investigacion humanista y humanizadora. Este tipo
   de mapas [...] son creados por la comunidad en un proceso de
   planificacion participativa poniendo en comun el saber colectivo y,
   desta forma, legitimarlo. (15) (p. 8)


Desse modo, acreditamos que a cartografia social potencializa e proporciona um melhor conhecimento dos processos que determinam os problemas por meio da participacao efetiva das comunidades implicadas. Nesse sentido, defendemos a ideia de que as pessoas comuns merecem conhecer mais sobre suas proprias condicoes de vida para defender seus interesses.

Ademais, a cartografia social, quando conjugada a metodologias que promovem uma verdadeira participacao social, como a pesquisa-acao, contribui para que as comunidades construam um pensamento critico, autonomo, libertario e emancipador, auxiliando-as a se instrumentalizarem para superar a condicao de sujeitos vulnerabilizados. Dessa forma, o enfoque metodologico proposto colaborou para a estruturacao de ambiencias fecundas para o dialogo entre os conhecimentos cientificos e populares com vistas a transformacao social.

Como tecnica, recorremos a utilizacao de entrevistas nao estruturadas, sendo estas importantes ferramentas para o registro e a recuperacao de memorias e identidades ameacadas pela expansao da modernizacao agricola. Dessa maneira, as mudancas impingidas pelo agronegocio sao tratadas aqui como formas de aceleracao da historia que drasticamente alteram, por um lado, a relacao do individuo com o tempo e que, por outro, possuem um efeito devastador e destruidor sobre o espaco, significado como um dos principais pilares da identidade: "perdido o espaco, a identidade vacila a medida que tempo/espaco compoem o quadro no interior do qual o sujeito se re-conhece" (16) (p. 273).

Para a interpretacao do material qualitativo, procedemos com as transcricoes das gravacoes oriundas das entrevistas. Em seguida, submetemos os conteudos a categorizacoes tematicas, estruturadas em dialogo com a literatura cientifica.

Concluida a fase de categorizacoes, procedemos a Analise de Discurso (AD), a qual procura "descrever, explicar e avaliar criticamente os processos de producao, circulacao e consumo dos sentidos" (17) (p. 7). Alem disso, foi acordado entre os participantes da pesquisa que os discursos oriundos das entrevistas seriam tratados de maneira coletiva.

Assim, entendemos que toda producao de discursos e uma forma de acao, exigindo-nos a adocao de uma postura de detetive sociocultural. Dessa forma, acreditamos que o "analista do discurso nao interpreta, ele trabalha no limite da interpretacao; nao se coloca fora da historia, do simbolico ou da ideologia. Ele se coloca em uma posicao deslocada que lhe permite contemplar o processo de producao dos sentidos em suas condicoes sociohistoricas" [18] (p. 61).

Destarte, a referida pesquisa foi desenvolvida em consonancia com a Resolucao no. 196/96 do Conselho Nacional de Saude, vigente a epoca, sendo tambem aprovada pelo Comite de Etica em Pesquisa da Universidade Federal do Ceara.

Resultados e discussao

1a Oficina--Territorios em transformacao: o resgate do passado como instrumento de luta para o fortalecimento dos modos de vida camponeses

Para a primeira oficina, o grupo de pesquisa promoveu uma analise coletiva do periodo anterior a chegada do agronegocio na regiao da Chapada do Apodi, buscando, com isso, resgatar as memorias populares relacionadas aos modos de vida tradicionais camponeses e o sentimento de pertenca daquela comunidade aos seus territorios. Ao representar o Tome antes da chegada dessas empresas, identificaram-se como fatores mais significativos: a vegetacao nativa, a diversidade cultural, a economia de base camponesa familiar, a saude, educacao, alimentacao, moradia e trabalho, conforme observamos na Figura 1.

[FIGURE 1 OMITTED]

Nesse periodo, existia a presenca significativa de agricultores familiares camponeses que gerenciavam o cultivo de suas terras voltado, sobretudo, para a producao de alimentos para a subsistencia. A agricultura era predominantemente de sequeiro: plantavam milho, feijao, mandioca, alem de frutas, como goiaba e mamao. O cultivo era feito utilizando-se tecnicas simples, sem a intervencao de maquinarios agricolas, sem a necessidade de melhoramento genetico das sementes, muito menos, de implementos, como herbicidas e fungicidas (19).

Outro ponto importante dessa oficina se refere ao resgate das memorias populares camponesas relacionadas ao periodo anterior a chegada dos empreendimentos de fruticultura irrigada. Esta oficina cumpriu um importante papel social na medida em que contribuiu para reafirmar a existencia e a diversidade sociocultural da comunidade do Tome. Dessa forma, conseguem contrapor os discursos difundidos pelos empresarios do setor quando afirmavam que "nao existia vida na Chapada do Apodi antes do agronegocio" (20) (p. 48). Em verdade, tais condutas fazem parte da conformacao de um mito ideologico, cuja finalidade reside em promover processos de invisibilizacao e de dominacao para com as populacoes tradicionais e seus territorios.

Esse contexto se insere no que Boaventura de Sousa Santos (21) denomina por "sociologia das ausencias". De acordo com o autor, "ha producao de nao existencia sempre que uma entidade e desqualificada e tornada invisivel, inteligivel ou descartavel" (21) (p. 102). Esse processo se espraia tanto na dimensao epistemologica quanto na juridica: epistemologica porque tornam invisibilizadas e ate marginalizadas as culturas e os conhecimentos tradicionais, relegados ao estatuto de magia, entendimentos subjetivos ou, na melhor das hipoteses, materia-prima de investigacoes cientificas; juridica porque se consubstancia a partir de concessoes feitas pelo proprio Estado, tendo, como principal expressao local, a construcao dos Perimetros Irrigados durante as decadas de 1960 e 1970.

Como corolario, cerca de trezentas e vinte familias foram desapropriadas de suas terras para dar lugar aos canais de irrigacao, promovendo, com isso, profundas modificacoes socioespaciais e simbolicas, reconfigurando a paisagem, os modos de vida das familias e dando lugar a um novo territorio, "projetado para atender aos interesses economicos e politicos do Estado" (22) (p. 89). Nesse contexto, registra-se a chegada do agronegocio no baixo Jaguaribe, nao para tornar produtivo um espaco "improdutivo", muito menos povoar uma regiao inabitada, mas para extrair desses territorios os seus recursos, sejam naturais, humanos, politicos e economicos (20).

2a Oficina--A reconfiguracao socioespacial promovida pelo agronegocio

Na segunda oficina, o grupo de pesquisa cartografou a comunidade na decada de 2010, demonstrando, de forma clara, as profundas transformacoes nos territorios oriundas da chegada do agronegocio. Identificamos, na Figura 2, uma reconfiguracao socioespacial que se inicia a partir da construcao do Perimetro Irrigado Jaguaribe-Apodi, servindo de infraestrutura fisica para a instalacao das empresas de fruticultura irrigada.

[FIGURE 2 OMITTED]

Desse modo, a agricultura de sequeiro, pouco a pouco, foi substituida pelos monocultivos, cuja producao e parcial ou totalmente vendida para as grandes empresas, estabelecendo, assim, um vinculo de dependencia entre o pequeno agricultor campones e os empresarios do agronegocio. De acordo com o discurso abaixo:

"As formas que as comunidades tinham de produzir e de plantar foram totalmente mudadas por conta do Perimetro, por conta da realidade que eles trouxeram e enganaram as pessoas dizendo que era uma coisa muito boa, que o certo [...] era plantar do jeito que eles plantavam. Foi uma historia que eles inventaram e que muita gente acreditou e que ate hoje estao pagando o preco".

Alem da perda da fauna e flora nativas, registrou-se, tambem, um expressivo numero de expropriacoes entre os agricultores camponeses:
   Do total de 116 pequenos agricultores (irrigantes) da area-piloto
   (area com lotes de quatro e 16 hectares), permaneceram no projeto,
   em 2009, apenas dois, representando uma expropriacao de 98%.
   Restavam assim, apenas 2% no projeto, ou seja, dos 334 ocupantes
   oficiais, apenas 0,6% desse numero faziam parte dos selecionados em
   1992. Apos a expropriacao, dois fenomenos, decorrentes desse
   processo, podem ser observados: o primeiro e a reducao das areas
   daqueles agricultores resistentes [...]; o segundo e a ampliacao
   exponencial das areas de medios/grandes produtores e das empresas,
   levando a concentracao de terra, que se projeta por meio da compra
   da posse ou da invasao. (22) (p. 101-3)


Alem disso, processos produtivos como o agronegocio contribuem para a introducao de contextos de risco que influenciam sobremaneira na saude dos trabalhadores, bem como das populacoes circunvizinhas, incidindo, direta e indiretamente, sobre seu perfil de morbimortalidade.

Acerca disso, cita-se um estudo epidemiologico, conduzido nos municipios de Limoeiro do Norte, Russas e Quixere, que envolveu 545 trabalhadores rurais utilizando exames clinicos e provas laboratoriais. Destes, 46,6% relacionaram algum problema de saude aos agrotoxicos, e 43,3% referiram-se a sinais e sintomas compativeis com intoxicacoes agudas em sua historia pregressa. Chamou a atencao o quantitativo de 30,7% de trabalhadores que, no momento do exame, apresentaram quadros semelhantes a intoxicacoes agudas por agrotoxicos (23).

Em relacao a funcao hepatica, dos nove indicadores laboratoriais utilizados para avaliacao, todos apresentaram algum tipo de variacao, sugerindo hipertrofia e necrose dos hepatocitos, colestase e danos das vias biliares. A transaminase oxalacetica elevou-se em 6,2%, a transaminase piruvica, em 14% dos casos, e a fosfatase alcalina, em 6,2%. Ressalta-se que esses tres indicadores sao utilizados pela Organizacao Pan-Americana de Saude (OPAS) para correlacionar lesoes hepaticas cronicas a exposicao por agrotoxicos (23).

Outro estudo, realizado em Limoeiro do Norte com trabalhadores rurais produtores de banana, concluiu que a exposicao cronica aos agrotoxicos levou a ocorrencia de alteracoes cromossomicas em celulas da medula ossea. De 35 amostras viaveis, 11 apresentaram importantes alteracoes cromossomicas, sendo elas: delecoes dos cromossomos 5, 7 e 11; monossomia do TP53 e a amplificacao do TP53. As anormalidades encontradas sao semelhantes as alteracoes descritas em doencas clonais da medula ossea, como sindromes mielodisplasica e leucemias mieloide agudas (24).

O incremento de neoplasias e outros agravos relacionados aos agrotoxicos na regiao da Chapada do Apodi tambem esta presente nos discursos do grupo de pesquisa, conforme identificamos abaixo:

"Quantas e quantas pessoas aqui ja morreram de cancer? Quantas e quantas tem cancer ou estao em situacao complicada? Se a gente for fazer hoje uma analise da nossa comunidade, 70% das familias toma remedio para estomago. Na nossa comunidade ja teve gente que morreu com problema de figado, de ulcera, ja tem gente operada que foi preciso tirar parte do estomago".

Todos esses dados dialogam com o contexto vivenciado pelas comunidades do baixo Jaguaribe. Um estudo transversal, realizado a partir de registros de dados secundarios, calculou a Razao Proporcional de Incidencia de Cancer (PCIR) nas principais localizacoes anatomicas de cancer no estado do Ceara. Os resultados demonstraram um maior risco de cancer em agricultores da regiao quando comparados a nao-agricultores em 15, das 23 localizacoes estudadas, sendo as maiores diferencas para cancer no penis (6,44), leucemias (6,35) e testiculos (5,77) (25).

Do ponto de vista da exposicao ambiental, destacamos, na Figura 2 (circulo), o canal que e responsavel pela captacao das aguas do rio Jaguaribe ate o topo da Chapada. Essas percorrem uma distancia de 14 quilometros a ceu aberto e, apesar de serem apropriadas apenas para a irrigacao, diversas familias as utilizam para consumo proprio por falta de opcao. Somam-se, ainda, registros imageticos e relatos de que tratores e maquinarios agricolas utilizados na aplicacao de agrotoxicos nas plantacoes lavam seus equipamentos nas aguas desse canal, representando um grave risco de contaminacao quimica, alem da possibilidade de transmissao de doencas por veiculacao hidrica (14).

Ademais, ressaltamos, na Figura 2, a representacao de um aviao proximo as plantacoes de banana, retratando a pulverizacao aerea praticada a epoca na comunidade. Quanto a classificacao toxicologica dos agrotoxicos utilizados, sao extremamente ou muito toxicos. Importante salientarmos que, de acordo com as informacoes obtidas nas Fichas de Seguranca Quimica dos diferentes fabricantes desses fungicidas, podem ser esperados sinais e sintomas clinicos em seres humanos acometendo desde a pele e as mucosas ate o Sistema Nervoso Central (11,26).

3a Oficina--Em meio a expansao do agronegocio, um horizonte de esperancas transformadoras

Na ultima oficina, tratamos de problematizar o futuro da comunidade do Tome, caso perdurasse a expansao do agronegocio. Para tanto, o grupo realizou um trabalho dando destaque a contaminacao por agrotoxicos, sobretudo dos trabalhadores e trabalhadoras dessas empresas.

Chamou a atencao a forma como a comunidade retratou os problemas oriundos da contaminacao ambiental e exposicao a contaminantes quimicos. O trabalho, que deveria ser fonte de realizacao e prosperidade, fora associado a uma caveira, demonstrando a correlacao perigosa do agricultor com os agrotoxicos, conforme observamos na Figura 3.

[FIGURE 3 OMITTED]

A insalubridade presente no cotidiano dos agricultores e agricultoras que trabalham no agronegocio tambem e reafirmada no discurso do grupo de pesquisa, conforme demonstramos abaixo:

"A maioria das mulheres adoece de problemas no utero. E o que da mais. E por que da mais doencas de utero? Porque as mulheres passam o dia todo naquelas plantacoes cuidando das frutas e os homens atras com as bombas nas costas expurgando [veneno]".

Nesse quesito, estudo realizado sobre a percepcao dos trabalhadores do agronegocio sobre seu trabalho evidenciou sua exposicao direta aos pesticidas, ampliando os riscos de intoxicacao aguda por inalacao, alem da absorcao por via dermica e digestiva (27).

Em relacao a contaminacao ambiental, observamos o destaque concedido pelo grupo, sobretudo envolvendo as aguas para consumo humano. Mesmo inserindo imagens de criancas adoecidas e relacionando essas patologias a poluicao das aguas, ainda acrescentou-se a frase "pior que esta fica", retratando seu receio e inseguranca quanto a essa questao para o futuro.

Tal preocupacao ganha relevo, tendo em vista que, em estudo realizado por Rigotto (8), foram coletadas 24 amostras de agua provenientes de diversos pontos, como canais que abastecem as comunidades, caixas d'agua e pocos profundos. Em todas as amostras, foram detectados principios ativos de agrotoxicos. Somente em um poco profundo localizado no distrito de Tome, foram identificados 12 principios ativos. Dentre eles, a maioria era de classificacao toxicologica I e II, extremamente e altamente toxicos, respectivamente.

A preocupacao das comunidades ainda e potencializada, pois o estado do Ceara nao possui dados referentes ao monitoramento de agrotoxicos na agua para consumo humano no Sistema de Informacao de Vigilancia da Qualidade da Agua para Consumo Humano (28). Isso representa uma verdadeira invisibilidade para o Sistema Unico de Saude, que fica impossibilitado de reunir informacoes para o desenvolvimento de acoes de vigilancia e controle da qualidade da agua para consumo humano. Alem disso, a ausencia dessas informacoes representa uma negacao dos direitos das comunidades de conhecerem a real qualidade da agua que consomem.

Apesar de todas as denuncias e incertezas representadas na Figura 3, o grupo tambem apontou para solucoes viabilizadas de forma coletiva, retratadas a partir de uma colagem de varias pessoas de maos dadas, com a frase "descobrir que nos podemos mudar a realidade. Vamos fazer juntos?". Talvez essa imagem represente a forca existente nas organizacoes populares, aliada ao seu desejo de transformar suas comunidades em lugares melhores para se viver.

Consideracoes finais

A crescente expansao do agronegocio no Brasil pode ser mensurada pela magnitude do seu faturamento, sobretudo nos ultimos dez anos. A cada ano, esse "modelo" de producao quimicodependente expande suas fronteiras para diversas regioes do pais.

Esse contexto favorece o surgimento de novos e mais complexos conflitos territoriais entre as comunidades tradicionais, sobretudo as camponesas. Como corolario, acentua-se o desequilibrio ambiental materializado em diferentes dimensoes, tais como: a perda da fauna e flora nativa em detrimento da introducao dos monocultivos; a contaminacao dos solos e dos lencois freaticos, contribuindo para acentuarem a inseguranca hidrica, sobretudo no semiarido. Merecem destaque, ainda, as condicoes de trabalho, muitas vezes insalubres e adoecedoras, presentes no cotidiano dos agricultores que trabalham no agronegocio, contribuindo para ampliar o quantitativo de intoxicacoes agudas e acidentes de trabalho.

Ressaltamos, ainda, a influencia desses processos produtivos sobre o perfil de morbimortalidade das comunidades, sobretudo das que vivem no entorno desses empreendimentos, promovendo uma maior incidencia no surgimento de neoplasias que podem estar relacionadas com os agrotoxicos utilizados nos cultivos.

Nesse contexto, cresce cada vez mais a necessidade de novas parcerias entre Universidades, movimentos sociais e comunidades atingidas, de forma a contribuir com a organizacao popular, dando visibilidade aos conflitos socioambientais e qualificando suas reivindicacoes por melhores condicoes de saude, trabalho e ambiente.

Por meio das oficinas, pudemos experienciar, na pratica, o desenvolvimento da consciencia coletiva dos sujeitos nos planos cultural, ideologico e politico. Ao problematizar sua propria realidade, dialogando com diferentes temporalidades, o grupo obteve maior clareza sobre as transformacoes que incidem em seus territorios desde a chegada do agronegocio.

Essas caracteristicas se aproximam dos pressupostos epistemologicos da pesquisa- acao, em que a praxis e concebida como mediacao basica da construcao do conhecimento. Nesse sentido, o saber produzido e necessariamente transformador de sujeitos e circunstancias.

Colaboradores

Os autores participaram, igualmente, de todas as etapas de elaboracao do artigo.

Referencias

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Recebido em 23/08/15. Aprovado em 09/10/15.

Marcelo Jose Monteiro Ferreira (a)

(a) Departamento de Saude Comunitaria, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceara (UFC). Rua Professor Costa Mendes, 1608, Bloco Didatico, 5 andar, Bairro Rodolfo Teofilo. Fortaleza, CE, Brasil. 60430-140. marceloferreira@ufc.br

Mario Martins Viana Junior (b)

(b) Departamento de Historia, UFC. Fortaleza, CE, Brasil. mario_ufc@hotmail.com
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Author:Ferreira, Marcelo Jose Monteiro; Viana, Mario Martins, Jr.
Publication:Interface: Comunicacao Saude Educacao
Date:Jul 1, 2016
Words:5077
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