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The evolution of the profile of psychiatric admissions via the Unified Health System in Minas Gerais, Brazil, 2001-2013/ Evolucao do perfil das internacoes psiquiatricas pelo Sistema Unico de Saude em Minas Gerais, Brasil, 2001-2013.

Introducao

Diante das mudancas nos marcos legais e das diretrizes assistenciais ocorridas no Brasil nas ultimas duas decadas, o papel do hospital psiquiatrico, entre os diversos dispositivos de atencao a saude mental disponiveis, se modifica, bem como as trajetorias terapeuticas dos usuarios desses servicos. Concretamente, no Brasil, o numero de leitos psiquiatricos reduziu-se de 51.393 para 29.958, de 2002 ate 2012 (1), ao mesmo tempo em que o numero de Centros de Atencao Psicossocial (CAPS) saltou de 424, no ano de 2002, para o somatorio de 1.803 em 2012 (1).

Alem disso, outros dispositivos tiveram muita importancia nesse processo de estruturacao da rede de atencao a saude mental e de desinstitucionalizacao no pais, tais como: o Centro de Atencao Psicossocial (CAPS), o Servico Residencial Terapeutico (SRT), o Servico Hospitalar de Referencia (SHR), o desenvolvimento do Programa Nacional de Avaliacao do Sistema Hospitalar/Psiquiatria (PNASH/Psiquiatria), do Programa Anual de Reestruturacao da Assistencia Hospitalar Psiquiatrica no SUS (PRH) e do Programa De Volta para Casa (2). Nessa perspectiva, foi tambem instituida a Rede de Atencao Psicossocial (RAPS), a qual dispoe sobre o cuidado integral centrado nos territorios (3).

Essas mudancas nas diretrizes assistenciais possivelmente se acompanham de alteracoes nas demandas e tambem nas praticas terapeuticas, ambas objetivamente observaveis. Por exemplo, em dois hospitais psiquiatricos publicos de Belo Horizonte, Coelho et al. (4) descreveram importantes alteracoes dos perfis das internacoes durante uma decada, em que se observou aumento no numero de internacoes, reducao dos tempos de permanencia, sem alteracao das taxas de reinternacao. Outro interessante achado foi a alteracao no perfil nosologico prevalente, com a relativa elevacao das internacoes por transtornos ligados ao abuso e dependencia de substancias psicoativas, superando as internacoes por transtornos psicoticos (4).

Os escassos estudos brasileiros que avaliam os perfis demograficos e nosologicos das internacoes psiquiatricas ao longo do tempo (5,6) demonstram que ha heterogeneidade nas mudancas descritas, dependendo do local e do tipo de hospital analisado. Diante disso, nao e aconselhavel extrapolar os achados de Coelho et al. (4) para a totalidade do estado de Minas Gerais, que engloba hospitais de diferentes naturezas e organizacoes de rede de assistencia desiguais.

A Organizacao Mundial de Saude (OMS) preconiza que a melhoria da assistencia a saude mental implica investimento na producao de dados concretos sobre os servicos e recursos. Nessa conformidade poderao ser definidas estrategias de avaliacao continua das atividades desempenhadas e das mudancas instituidas (7,8). Eventuais mudancas observadas nas caracteristicas das internacoes psiquiatricas conseguintes a implementacao das novas politicas de assistencia sao, assim, relevantes para a reflexao sobre seus resultados.

Nesse contexto, o presente estudo descreve a evolucao do perfil das internacoes pelo SUS nos hospitais psiquiatricos especializados no estado de Minas Gerais, entre os anos 2001 e 2013.

Metodos

Trata-se de estudo observacional, descritivo, de series temporais.

Caracterizacao da amostra

A definicao do inicio do periodo da pesquisa foi assim delimitada por ser 2001 o ano de publicacao da Lei Federal no. 10.216. Esta e considerada um marco historico e regulatorio, pois determinou o redirecionamento da assistencia em saude mental nos anos que se seguiram, priorizando a atencao extra-hospitalar.

O estudo foi realizado a partir de dados secundarios disponibilizados pelo DATASUS (9), a partir do Sistema de Informacoes Hospitalares do Sistema Unico de Saude (SIH-SUS). Os dados obtidos sao referentes as Autorizacoes para Internacao Hospitalar (AIH) faturadas dos hospitais psiquiatricos especializados em Minas Gerais, de internacoes ocorridas de 1 de janeiro de 2001 ate 31 de dezembro de 2013.

Dos hospitais selecionados, existem aqueles que foram desativados no periodo entre os anos de 2001 e 2013, porem, para fins do estudo de series temporais, e fundamental a inclusao das informacoes sobre as internacoes nos anos em que estiveram em funcionamento. Essas instituicoes englobam a totalidade dos leitos em hospitais psiquiatricos disponiveis pelo SUS em Minas Gerais, com excecao do hospital psiquiatrico especializado na infancia e adolescencia (10). A Tabela 1 apresenta a listagem dos hospitais psiquiatricos mineiros onde houve internacoes pelo SUS entre 2001 e 2013.

Adequacao do banco de dados de AIH

O sistema de registro das AIHs psiquiatricas no DATASUS apresenta uma peculiaridade: internacoes prolongadas sao registradas com multiplas AIHs.

Apesar da orientacao do Ministerio da Saude para que AIHs subsequentes na mesma internacao recebam numeracao igual, muitas vezes a numeracao registrada e diferente, o que dificulta a integracao das informacoes. Assim, uma mesma internacao pode possuir diversas AIHs (11). Alem disso, os arquivos disponibilizados publicamente pelo DATASUS nao contem dados de identificacao do paciente (nome, identidade, CPF). Portanto, para integrar as AIHs referentes a uma mesma internacao foram necessarias tecnicas de processamento de dados por similaridade.

A tecnica utilizada para esse agrupamento envolveu a unificacao dos arquivos de dados mensais em um unico banco de dados. Os registros foram entao classificados por hospital, em seguida por data de nascimento e, finalmente, por data de internacao. A partir de expressoes programa das no Excel, foram identificadas as AIHs seriadas de uma mesma internacao quando as seguintes condicoes foram atendidas: a) mesmo hospital; b) mesma data de nascimento; c) mesmo sexo; d) data de internacao da AIH subsequente igual a data de saida da AIH anterior ou data de internacao da AIH subsequente igual a data de saida da AIH anterior mais um dia ou data de internacao da AIH subsequente englobada no periodo de internacao da AIH anterior. Com esse procedimento de agrupamento, do total inicial de 484.376 AIHs, chegou-se a 202.188 internacoes registradas no periodo do estudo.

Uma vez identificadas as AIHs seriadas de uma mesma internacao, estas foram agrupadas consolidando-se as informacoes variaveis da seguinte forma: a) a data de internacao considerada foi a menor data da serie; b) a data de saida considerada foi a maior data da serie; c) o tempo de permanencia foi calculado pela subtracao entre a data de saida e a data da internacao apos a consolidacao; d) a idade considerada foi a do primeiro registro da serie; e) o diagnostico (segundo a CID-10) (12) considerado foi o do ultimo registro da serie. Procedimento semelhante foi descrito por outros autores que encontraram a mesma dificuldade ao utilizar o banco de dados do SIH-SUS para analise das internacoes psiquiatricas (5,13).

Variaveis do estudo

Neste estudo, foram utilizadas as seguintes variaveis: a) sexo; b) idade (em anos); c) diagnostico principal (por grupo da CID-10); d) data de internacao; e) data de saida; f) tempo de permanencia (em dias, resultantes da subtracao da data de saida e a data de internacao); g) nome do hospital; h) natureza juridica do hospital (publico ou privado).

Analise dos dados

Primeiramente, procedeu-se a descricao da amostra total, segundo as variaveis demograficas e clinicas de interesse.

Para as analises de series temporais, as tendencias foram estudadas a partir de regressoes lineares ou de outros modelos estatisticos (quadratico ou cubico), de acordo com as distribuicoes apresentadas, tendo como variavel-resposta o numero ou a proporcao anual de internacoes e como variavel independente o ano, com nivel de confianca de 95%. Foram efetuadas analises de series temporais por sexo, por idade, por grupo diagnostico e por tempo de permanencia. Analises da distribuicao dos residuos foram conduzidas para verificar a adequacao dos modelos escolhidos.

A analise da evolucao do tempo de permanencia ao longo do periodo do estudo se deu apos a exclusao das internacoes com duracao superior a 365 dias, bem como as ocorridas no ultimo ano da serie. Esse procedimento visou a equalizar os riscos de permanecer internado, independentemente da data de admissao. Essa variavel apresentou distribuicao nao gaussiana, portanto, foram utilizados os seus valores medianos para fins de comparacao.

Os subgrupos de hospitais publicos e privados foram analisados separadamente quanto as evolucoes temporais do tempo de permanencia e quanto as mudancas nos perfis nosologicos.

Consideracoes eticas

O presente estudo e parte integrante de um projeto maior intitulado: Projeto Epiquali - diagnostico epidemiologico e administrativo da rede hospitalar psiquiatrica que presta assistencia a usuarios do SUS em Minas Gerais. O Projeto Epiquali foi aprovado pelo Comite de Etica e Pesquisa (COEP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 23 de janeiro de 2014.

Resultados

A amostra foi composta de 202.188 internacoes ocorridas no periodo de 2001 a 2013. As caracteristicas dessas admissoes estao apresentadas na Tabela 2.

No inicio do periodo observacional, 2001, Minas Gerais contava com tres hospitais publicos e 22 hospitais privados conveniados, prestando assistencia hospitalar pelo SUS. Ao longo dos 13 anos do estudo, sairam da serie 10 hospitais privados, por fechamento ou descredenciamento.

O numero total de internacoes apresentou significativa reducao no periodo, seguindo uma tendencia cubica em que as reducoes mais aceleradas se deram nos primeiros e nos ultimos tres anos de observacao (Figura 1).

Excluindo as internacoes de longa permanencia (> 365 dias), o tempo mediano de permanencia hospitalar oscilou suavemente entre 28 e 31 dias ao longo do periodo de estudo. Contudo, observou-se evolucao diferenciada nos hospitais publicos e privados entre 2001 e 2012, ocorrendo clara reducao nos primeiros e elevacao nos segundos (Figura 2).

As internacoes prolongadas, acima de 365 dias, representaram 5,3% (n = 1.292) dos casos em 2001 e reduziram-se para 1,3% (n = 151) dos casos em 2012.

No periodo de 2001 a 2013, a idade media dos pacientes internados se manteve constante (F = 2,13; p = 0,145). A proporcao de internacoes do sexo masculino apresentou ligeira, mas significativa tendencia a elevacao, de 63,3 a 64,5% (F = 7,8; p = 0,018) no periodo.

Houve alteracoes significativas no perfil nosologico das internacoes psiquiatricas no intervalo do estudo. As proporcoes de internacoes por transtornos mentais organicos (grupo da CID-10 F0) apresentaram suave elevacao ate a metade do periodo, passando de 8,8 a 9,2%, seguindo-se uma tendencia a reducao de ate 6,2%. As internacoes por transtornos ligados ao uso de substancias (F1) tiveram reducao proporcional tambem ate a metade do periodo, passando de 27,2 a 22,5%, depois crescendo ate 33,6% em 2013. Ja as internacoes por transtornos psicoticos nao organicos (F2) demonstraram reducao linear estatisticamente significativa ao longo do periodo, decrescendo de 47,6%, em 2001, para 40,6%, em 2013. Os transtornos do humor (F3) mostraram tendencia cubica, com elevacao relativa acentuada nos primeiros quatro anos (de 10,7% para 16,6%), reducao ate 2011 (13,4%) e suave elevacao ate 2013 (15,5%). Para os transtornos neuroticos (F4), houve relativa elevacao nos primeiros cinco anos, passando de 0,9 a 2,3%, seguida de reducao ate 0,5%, em 2013. Para todas essas tendencias descritas, os modelos de regressao revelaram coeficientes de determinacao entre 61 e 80% e p<0,003. As proporcoes de internacoes por transtornos do desenvolvimento (F7), bem como as do grupo de outros diagnosticos nao citados, nao demonstraram tendencia a alteracao ao longo do periodo.

Enquanto nos hospitais publicos ocorreu inversao da nosologia prevalente, cujas internacoes por transtornos ligados ao uso de substancias superaram (a partir de 2011) aquelas por transtornos psicoticos nao organicos, o mesmo nao se deu no subgrupo dos hospitais privados conveniados ao SUS. Nestes ultimos, os transtornos psicoticos se mantiveram como os mais prevalentes ao longo de todo o periodo do estudo (Figura 3).

Discussao

Diante das recentes mudancas provocadas pelo redirecionamento da atencao a saude mental no Brasil, faz-se necessario conhecer a amplitude e o alcance das alteracoes ocorridas. Este trabalho propos a analise de um grande banco de dados que possibilitou o conhecimento do perfil das internacoes ocorridas nos hospitais psiquiatricos especializados com leitos credenciados pelo Sistema Unico de Saude do estado de Minas Gerais, ao longo de 13 anos, a partir da aprovacao da Lei no. 10. 216/2001 (14).

De nosso conhecimento, este e o primeiro estudo a analisar a evolucao das internacoes pelo SUS ocorridas em todos os hospitais psiquiatricos mineiros, no ambito da reforma da assistencia a saude mental.

A analise das series temporais evidenciou efetiva modificacao nas caracteristicas das internacoes psiquiatricas pelo SUS, no periodo do estudo, no estado de Minas Gerais. O perfil nosologico apresentou mudancas significativas, notadamente a elevacao das proporcoes das internacoes por transtornos ligados ao abuso de substancias psicoativas e de transtornos do humor como diagnostico principal. Essa variacao se acompanhou da reducao das proporcoes de internacoes por transtornos psicoticos e de transtornos neuroticos. Mudancas no perfil nosologico foram relatadas em outros estudos nacionais no cenario da reforma. Quando apenas os hospitais psiquiatricos publicos de Belo Horizonte-MG foram analisados4, observou-se relativa reducao das internacoes por transtornos psicoticos, acompanhadas de elevacao das proporcoes das internacoes por transtornos do humor e por abuso de substancias, entre 2002 e 2011. As tendencias observadas na capital sao semelhantes as do estado de Minas como um todo, embora apresentem magnitudes diferentes.

Usando metodologia semelhante a do presente estudo, Candiago e Abreu (5) tambem obtiveram relativo aumento nas internacoes por transtornos do humor e reducao daquelas por transtornos psicoticos, no periodo de 2000 a 2004, nas internacoes pelo SUS no estado do Rio Grande do Sul. Ja outro estudo (6), conduzido em enfermarias psiquiatricas de hospital geral universitario e um unico hospital psiquiatrico de Ribeirao Preto-SP, reportou elevacao na proporcao de internacoes por transtornos depressivos, transtornos da personalidade e ligados a abuso de drogas, no periodo de 2000 a 2007. O perfil de pacientes admitidos em leitos psiquiatricos de hospital geral e diverso daquele dos hospitais psiquiatricos (15), o que pode explicar a discrepancia nas tendencias verificadas naquela amostra em relacao as do presente estudo.

Duas fases podem ser identificadas nessas tendencias temporais relativas ao perfil nosologico: antes e apos 2005. Na primeira fase, houve reducao das proporcoes das internacoes por F1 e F2 e aumento das por F0, F3 e F4. Na segunda fase, aumentam-se as proporcoes por F1 e se reduzem as por F0, F2 e F4. Com os dados disponiveis, e dificil tecer hipoteses sobre as razoes para esse fenomeno. O periodo coincide com a implementacao do Programa Nacional de Avaliacao do Sistema Hospitalar/Psiquiatria (16) e do Programa Anual de Reestruturacao da Assistencia Hospitalar no SUS (17,18), que resultaram no descredenciamento dos macro-hospitais e das unidades de atencao a pacientes de longa permanencia, onde e mais provavel que permanecam os pacientes portadores de psicoses cronicas do que os dependentes quimicos.

De fato, existiu diferenca na evolucao temporal das proporcoes das internacoes por F1 e F2 entre os hospitais publicos e os privados. Enquanto nas instituicoes publicas a proporcao de internacoes por F1 cresceu consistentemente desde 2001, nos hospitais privados houve relativo decrescimo ate 2006, seguido de elevacao ate 2013. A inversao da nosologia prevalente, em que os transtornos ligados ao abuso e dependencia de substancias psicoativas superaram os transtornos psicoticos, so se observou nos hospitais publicos. E possivel que essa diferenca se associe a fatores ligados a rede de assistencia e as praticas hospitalares propriamente ditas. Em Belo Horizonte, onde se concentra o maior volume de internacoes em hospitais publicos, existe uma rede abrangente de CAPS e de unidades basicas de saude. Pode-se hipotetizar que essa rede extra -hospitalar na capital mineira tenha sido capaz de reter os pacientes psicoticos em tratamento externo, mais do que os dependentes quimicos. Coelho et al. (4) pressupoem que o aumento relativo nas internacoes por dependencias quimicas, em relacao as psicoses, na capital do estado, estivesse relacionado nao apenas a diferenca notavel na efetividade dos tratamentos direcionados a esses grupos diagnosticos, como tambem a uma relativa escassez de servicos extra-hospitalares especializados no tratamento dos transtornos ligados ao abuso de substancias.

A idade media dos pacientes nao se alterou significativamente ao longo do periodo de estudo, bem como se manteve a predominancia do genero masculino, apesar das mudancas ocorridas no perfil nosologico. Estes achados sao corroborados pelos resultados de Silva (19), Brenner et al. (20) e Strejilevich et al. (21). E interessante notar que no mesmo periodo a populacao mineira envelheceu: houve significativas reducoes da representacao das faixas etarias de criancas e adolescentes e significativos aumentos das de habitantes a partir dos 40 anos de idade (15). Essa alteracao demografica nao se acompanha do envelhecimento da populacao psiquiatrica internada, nem de aumento dos casos de transtornos mentais organicos. Entre outros fatores, uma possivel explicacao para essa discrepancia e que em um censo cada individuo e contado uma unica vez, mas quando se estudam internacoes, pode haver multiplas por individuo. Pacientes psicoticos e dependentes quimicos, bem como os individuos mais jovens, sao particularmente propensos a reinternacoes psiquiatricas (22,23). Por esse motivo, poderiam estar sobrerrepresentados na amostra em comparacao a populacao geral.

A apreciacao adequada do tempo de permanencia hospitalar so e possivel a partir do agrupamento das AIHs repetidas para uma mesma internacao, uma vez que nos hospitais psiquiatricos nao e raro que as permanencias superem os 45 dias e as AIHs subsequentes nem sempre mantenham numeracao original, conforme preconiza o MS na Portaria no. 111, de 2001. Esse procedimento de agrupamento foi executado por Szabzon (13), mas foi desconsiderado por outros autores (24,25). Na comparacao com as pesquisas que usaram metodologia de agrupamento de AIHs, Szabzon (13) encontrou reducao das internacoes mais prolongadas de 2000 a 2010, em residentes no municipio de Sao Paulo.

A reducao observada nos tempos medianos de permanencia nos hospitais publicos nao foi verificada nos privados conveniados ao SUS. Novamente, a localizacao geografica diferenciada entre esses grupos de hospitais pode ser um confundidor, na medida em que os leitos dos hospitais publicos se concentram na capital do estado, onde existe uma rede de atencao extra-hospitalar mais abrangente. Isso favoreceria o processo da alta hospitalar, conferindo mais seguranca a transicao do paciente para os servicos externos. No entanto, nao se pode descartar um efeito de diferencas nas prioridades da gestao, em que as unidades publicas apresentassem mais comprometimento com a eficiencia hospitalar, buscando alto indice de renovacao de leitos para otimizar a capacidade de assistencia.

Este estudo baseou-se na utilizacao de dados fornecidos pelo Sistema de Informacao Hospitalar do Sistema unico de Saude (SIH/ SUS). Essa fonte de dados secundaria ja respaldou algumas pesquisas semelhantes. Candiago e Abreu (5) analisaram as caracteristicas das internacoes psiquiatricas no Rio Grande do Sul, utilizando um banco de dados oriundo das AIHs. Pepe (26) utilizou dados do SIH/SUS para avaliar as internacoes e reinternacoes psiquiatricas no estado do Rio de Janeiro e Szabzon (13) utilizou-se tambem de dados do DATASUS em estudo exploratorio das internacoes psiquiatricas na cidade de Sao Paulo. A validade das informacoes registradas nas AIH ja foi investigada (27,28), muito embora nao se apliquem especificamente as internacoes psiquiatricas nem as codificacoes da CID-10. Esses autores descreveram indices de concordancia quanto aos diagnosticos das AIHs e dos prontuarios, variando de 0,72 a 0,98. E razoavel supor que as outras variaveis estudadas sejam ainda mais confiaveis que o diagnostico (29), pois envolvem dados mais diretos. Ressalta-se que a remuneracao dos hospitais pelo procedimento da internacao em Psiquiatria nao sofre a influencia do diagnostico, logo, e improvavel que os registros de diagnostico sejam artificialmente modificados.

De qualquer forma, por se embasar em dados secundarios, existe a possibilidade de erros de registro nao sistematicos. Outra limitacao relacionada a origem dos dados secundarios e a ausencia de identificadores individuais nos registros disponibilizados pelo DATASUS. Assim, nao e possivel verificar com adequada precisao as internacoes subsequentes para um mesmo individuo, impossibilitando as analises sobre reinternacoes.

Por outro lado, a utilizacao de bancos de dados oficiais de internacao (SIH/SUS) permite o estudo de grandes amostras por longos periodos observacionais. A partir das tecnicas de agrupamento de AIHs ja descritas e validadas na literatura (5,13,30), torna-se possivel individualizar as internacoes e extrair diversas variaveis de interesse epidemiologico.

Por meio da utilizacao de dados secundarios do Sistema de Informacoes Hospitalares, foi possivel conhecer o perfil das internacoes psiquiatricas nos hospitais especializados do estado de Minas Gerais em um periodo marcado por mudancas legislativas, institucionais e culturais. Dessa forma, foram percebidas mudancas tanto no volume quanto nas caracteristicas das admissoes. Notavelmente, houve reducao de 57% no numero de internacoes entre 2001 e 2013, observando-se elevacao da proporcao das internacoes por transtornos ligados ao abuso de substancias e reducao daquelas por transtornos psicoticos.

O monitoramento dos impactos das politicas de saude mental sobre as praticas terapeuticas e as dinamicas dos servicos de saude e uma atividade necessaria para municiar a gestao com as informacoes necessarias para a tomada de decisao e a priorizacao das acoes. O esforco despendido nessa empreitada de pesquisa de forma alguma esgota o tema, sendo necessarias reavaliacoes em diferentes contextos temporais e regionais.

DOI: 10.1590/1413-81232018242.14652017

Colaboradores

APM Lara e FM Volpe participaram igualmente de todas as etapas de elaboracao do artigo.

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Ana Paula Martins Lara [1]

Fernando Madalena Volpe [2]

[1] Programa de Pos-Graduacao em Promocao da Saude e Prevencao da Violencia, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Prof. Alfredo Balena 190/8, Santa Efigenia. 30130-100 Belo Horizonte MG Brasil. anapaulamlara@gmail.com

[2] Fundacao Hospitalar do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte MG Brasil.

Artigo apresentado em 13/06/2017

Aprovado em 19/10/2017

Versao final apresentada em 21/10/2017

Caption: Figura 1. Evolucao do numero de internacoes em hospitais psiquiatricos de Minas Gerais, 2001-2013. (N=202.188).

Caption: Figura 2. Evolucao das medianas do tempo de permanencia em hospitais psiquiatricos de Minas Gerais, 2001-2012, segundo a natureza juridica dos hospitais.

Caption: Figura 3. Evolucao das nosologias prevalentes nos hospitais publicos e privados de Minas Gerais, 2001-2013. (F1=tr. mentais e de comportamento decorrentes do abuso/ dependencia de substancias psicoativas; F2=esquizofrenia, tr. esquizotipicos e delirantes)
Tabela 1. Caracterizacao dos hospitais psiquiatricos com internacoes
pelo SUS em Minas Gerais, 2001-2013.

Hospital                           Municipio      Natureza
                                                  Juridica

Clinica Serra Verde              Belo Horizonte    Privada
Clinica Mantiqueira              Barbacena         Privada

Fundacao Beneficente Sao Joao    Passos            Privada
da Escocia--Otto Krakauer
Clinica Neuropsiquiatrica de     Alfenas           Privada
Alfenas
Organizacao Hospitalar           Montes Claros     Privada
Psiquiatrica--Prontomente
Sanatorio Espirita Jose Dias     Ituiutaba         Privada
Machado
Casa de Saude Santa Izabel       Barbacena         Privada
Casa de Saude Dr. Aragao Vilar   Juiz de Fora      Privada
Casa de Saude Esperanca          Juiz de Fora      Privada
Hospital Sao Marcos              Juiz de Fora      Privada
Hospital Sao Domingos            Juiz de Fora      Privada
Clinica Psiquiatrica Pinho       Juiz de Fora      Privada
Masini
Casa de Saude Paulo Menicucci    Lavras            Privada
Clinica Sao Jose                 Leopoldina        Privada
Fundacao Sanatorio Gedor         Sao Sebastiao     Privada
Silveira                         do Paraiso
Centro Espirita Uberabense       Uberaba           Privada
Congregacao das Irmas            Divinopolis       Privada
Hospitaleiras do Sagrado
Coracao de Jesus- Bento Menni
Hospital Galba Veloso            Belo Horizonte    Publica
Instituto Raul Soares            Belo Horizonte    Publica
Centro Hospitalar Psiquiatrico   Barbacena         Publica
de Barbacena
Instituto Psicominas             Belo Horizonte    Privada
Clinica Pinel                    Belo Horizonte    Privada
Clinica Nossa Senhora de         Belo Horizonte    Privada
Lourdes
Sanatorio Barbacena              Barbacena         Privada
Casa de Saude Xavier             Barbacena         Privada

Hospital                         No. leitos    No. leitos
                                  SUS/2002      SUS/2013

Clinica Serra Verde                  303            0
Clinica Mantiqueira                  199           82

Fundacao Beneficente Sao Joao        138           120
da Escocia--Otto Krakauer
Clinica Neuropsiquiatrica de         159            0
Alfenas
Organizacao Hospitalar               120            0
Psiquiatrica--Prontomente
Sanatorio Espirita Jose Dias         51            51
Machado
Casa de Saude Santa Izabel           110           76
Casa de Saude Dr. Aragao Vilar       170           160
Casa de Saude Esperanca              170           180
Hospital Sao Marcos                  120           101
Hospital Sao Domingos                120           128
Clinica Psiquiatrica Pinho           90             0
Masini
Casa de Saude Paulo Menicucci        164            0
Clinica Sao Jose                     268           150
Fundacao Sanatorio Gedor             170           160
Silveira
Centro Espirita Uberabense           158           120
Congregacao das Irmas                90            87
Hospitaleiras do Sagrado
Coracao de Jesus- Bento Menni
Hospital Galba Veloso                153           145
Instituto Raul Soares                120           108
Centro Hospitalar Psiquiatrico       456           240
de Barbacena
Instituto Psicominas                 150            0
Clinica Pinel                        220            0
Clinica Nossa Senhora de             280            0
Lourdes
Sanatorio Barbacena                  103            0
Casa de Saude Xavier                 110            0

Hospital                         Ano de fechamento

Clinica Serra Verde              2012
Clinica Mantiqueira              Em processo de
                                 desisnstitucionalizacao
Fundacao Beneficente Sao Joao    Em funcionamento
da Escocia--Otto Krakauer
Clinica Neuropsiquiatrica de     2009
Alfenas
Organizacao Hospitalar           2013
Psiquiatrica--Prontomente
Sanatorio Espirita Jose Dias     Em funcionamento
Machado
Casa de Saude Santa Izabel       Em funcionamento
Casa de Saude Dr. Aragao Vilar   2014
Casa de Saude Esperanca          2014
Hospital Sao Marcos              2013
Hospital Sao Domingos            2013
Clinica Psiquiatrica Pinho       2011
Masini
Casa de Saude Paulo Menicucci    2013
Clinica Sao Jose                 Em funcionamento
Fundacao Sanatorio Gedor         Em funcionamento
Silveira
Centro Espirita Uberabense       Em funcionamento
Congregacao das Irmas            Em funcionamento
Hospitaleiras do Sagrado
Coracao de Jesus- Bento Menni
Hospital Galba Veloso            Em funcionamento
Instituto Raul Soares            Em funcionamento
Centro Hospitalar Psiquiatrico   Em funcionamento
de Barbacena
Instituto Psicominas             2003
Clinica Pinel                    2003
Clinica Nossa Senhora de         2008
Lourdes
Sanatorio Barbacena              2003
Casa de Saude Xavier             2004

Fonte: Coordenacao Geral de Saude Mental Alcool e outras Drogas (CGMAD)
e Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saude
(CNES/DATASUS-Agosto, 2015)--Organizado pelos autores.

Tabela 2. Caracteristicas das internacoes nos hospitais psiquiatricos
de Minas Gerais, 2001-2013. (N=202.188).

                                             N             %

Sexo Masculino                            129.711              64,2
Idade (media [+ or -] DP)                   39,1    ([+ or -] 12,5)
Grupo Diagnostico
Tr mentais organicos, incluindo           16.574                8,2
sintomaticos--F00-F09
Tr decorrentes do abuso/dependencia       57.702               28,5
de substancia psicoativa--F10-F19
Esquizofrenia, tr esquizotipicos e        88.155               43,6
delirantes--F20-F29
Tr do humor (afetivos)--F30-F39           30.094               14,9
Tr neuroticos, relacionados ao estresse    2.547                1,3
e somatoformes--F40-F49
Sindromes comportamentais associadas a       218                0,1
perturbacoes fisiologicas e fatores de
risco--F50-F59
Tr de personalidade e de comportamentos    1.533                0,8
em adultos--F60-F69
Retardo mental--F70-F79                    5.156                2,6
Outros                                       209                0,1
Tempo de permanencia mediano [min;max]        30          [0;4.747]
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Title Annotation:FREE THEMES/TEMAS LIVRES
Author:Lara, Ana Paula Martins; Volpe, Fernando Madalena
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Feb 1, 2019
Words:5131
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