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The constant challenge of deciphering the capitalist sphinx: an interview with Edmundo Fernandes Dias/O constante desafio de decifrar a esfinge capitalista.

Em junho de 2003, durante uma entrevista a Revista Universidade e Sociedade (ano XIII, n. 30), especialmente, para a sessao "Memoria do Movimento Docente", o Professor Edmundo Fernandes Dias proferiu a celebre frase "fazer politica como quem ensina e ensinar como quem faz politica". Como a sua historia se confunde com a criacao e consolidacao do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituicoes de Ensino Superior (ANDES-SN), pautado numa luta sindical autonoma, combativa e classista, a frase retrata a conjuncao da sua intelectualidade e militancia politica. Cabe destacar, inclusive, a importancia dessa entidade no momento atual em que os(as) docentes das Instituicoes Federais de Ensino Superior (IFES) fazem uma de suas maiores greves, alcancando a quase totalidade das universidades e institutos federais do pais. Professor aposentado do Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Edmundo concluiu a graduacao pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1967, e depois foi para o Chile, onde permaneceu por um ano na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO). Ao retornar ao Brasil, em 1969, ele lecionou, simultaneamente, na Universidade Federal Fluminense (UFF) e na Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)--de onde foi demitido em 1974, quando o setor da direita passou a comandar o Departamento de Sociologia da Universidade. Antes de ingressar na UNICAMP, em 1976, ele teve uma breve passagem pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ainda denominada Universidade do Estado da Guanabara (UEG), assessorando um projeto de Medicina Social. Doutor em Historia Social, Edmundo realizou profunda pesquisa sobre o pensamento de Antonio Gramsci. Tendo tomado contato com as concepcoes gramscianas ainda no Rio de Janeiro, em 1974, Edmundo contribuiu enormemente para o progresso dos estudos sobre Gramsci no Brasil, destacando de modo precursor os escritos de juventude do marxista sardo, e realizando uma reflexao proficua em torno da questao da hegemonia.

A ideia de entrevistar o Professor Edmundo Dias surgiu a partir do proprio tema desse numero da Revista--Teoria Social e Servico Social -, considerando a sua admiravel interpretacao das formulacoes de Antonio Gramsci, cujo pensamento se tornou uma referencia cada vez mais frequente no Servico Social e uma importante influencia nas Ciencias Sociais brasileiras. A difusao e valorizacao dos escritos do jovem Gramsci pelo Prof. Edmundo Dias lhe possibilitou construir uma leitura que evidencia a questao da revolucao socialista como sendo a principal reflexao e preocupacao do marxista sardo. O Professor Edmundo Dias, portanto, tem a nos oferecer nao so uma formulacao consistente sobre a obra de Antonio Gramsci como tambem uma interpretacao alternativa que subleva o carater organico de seu pensamento. Convidamos o leitor a conhecer as ideias fecundas e instigantes de Edmundo Fernandes Dias sobre os dilemas que a teoria social critica enfrenta, atualmente, para explicar diversos fenomenos contemporaneos e sobre sua interlocucao com o Servico Social.

Em Pauta: Considerando sua historia de vida, como iniciou o seu interesse pela politica e pelas Ciencias Sociais?

Prof. Dr. Edmundo Dias: Inicialmente pensei em trabalhar na area de Historia, mas as Ciencias Sociais me pareciam mais complexas (incluindo ai a propria Historia). Mas foi a contrarrevolucao preventiva de 64 promovida pelo grande capital com a cobertura das forcas burguesas que me fez trabalhar articuladamente politica e ciencias sociais.

EP: De que forma a teoria social marxista alimentou seu trabalho academico e sua trajetoria politica?

ED: Foi absoluta essa conexao. Penso que sem o marxismo nossa reflexao sobre a esfinge capitalista--como dizia Marx, a forma de extracao do mais-valor--e o que nos permite pensar rigorosamente o movimento e o antagonismo das classes. Nao poderia fazer o que fiz e faco sem a contribuicao do marxismo. Isso seria impossivel.

EP: Hoje a universidade esta cindida entre a possibilidade de producao de um conhecimento critico e a exigencia de uma formacao adequada ao mundo da producao, que atenda aos requisitos do mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que e atravessada pelas exigencias de um "produtivismo academico a qualquer custo". Existe alternativa para essa cisao existente na universidade?

ED: Ha aqui uma contradicao. Se a universidade--ou melhor, a CAPES--exige uma producao a qualquer custo (produtivismo), como formar para o mercado com qualidade? E possivel, no entanto, que o profissional produza com a correcao e a dignidade? E. Aqui o problema e saber a quem atender: ao povo (conjunto das classes subalternas), ao mercado ou ao Estado. Isso depende do projeto politico do pesquisador/docente.

EP: Qual a sua visao sobre a emergencia das correntes de pensamento ditas "posmodernas"?

ED: Trata-se uma forma sofisticada de dominacao. Por ela busca-se negar qualquer visao de totalidade.

EP: Numa entrevista concedida a Leandro Konder em 1969, Lukacs afirmou que o irracionalismo e o racionalismo formal podem ser rapidamente combinados, conforme as necessidades do combate movido pela ideologia burguesa contra a razao dialetica. Em sua opiniao, a critica as meganarrativas feita pela epistemologia posmoderna expressa uma tentativa de desqualificacao do racionalismo dialetico? ED: Considero que a resposta a questao anterior nos ajuda a responder essa pergunta. Contrariamente ao que muitos afirmam essas duas visoes sao formas de racionalidade de classe e, obviamente, combatem a pratica proletaria.

EP: Nas teorias pos-modernas ha um consenso de que todo o estilo industrial de vida, legado da Revolucao Industrial, foi solapado com o ingresso de uma nova era "pos-industrial", em que ganha relevo a informacao e a comunicacao. Uma era "pos-fordista", em que proliferam as pequenas empresas e renasce o trabalho artesanal. Uma era "pos-moderna" cuja enfase reside nos elementos reveladores da descontinuidade, da ruptura e da diversidade. Os termos pos-industrial, pos-fordismo, pos-modernismo sao empregados dentro do mesmo campo semantico. O prefixo "pos" virou uma panaceia?

ED: Nao virou uma panaceia, mas um poderoso instrumento de guerra. Trata-se da desqualificacao do trabalho vivo. A forca de trabalho e pensada como manifestacao da tecnologia. Deixa-se de pensar o sujeito revolucionario. Da luta de classes passase a harmonia. A cidadania e decisiva para afirmar a derrota das forcas do trabalho.

EP: A reestruturacao capitalista, a globalizacao economica, o neoliberalismo e todas as transformacoes que se generalizam no ambito da chamada "pos-modernidade" podem ser pensadas a partir de Marx? O que ha de atual nesse pensador alemao do seculo XIX que possa ser util aos grandes dilemas do seculo XXI?

ED: Penso que devemos responder positivamente. O arsenal categorial de Marx e cada vez mais atual.

EP: Quais os principais desafios teoricos e politicos que o marxismo enfrenta no mundo contemporaneo? Se perguntarmos para onde vai a tradicao marxista, seria possivel afirmar que seu futuro filosofico esta assegurado?

ED: Considero o determinismo e o sectarismo como os principais problemas. Decifrar a esfinge capitalista permitira avancar na reflexao da sociedade comunista nao como um modelo pronto e acabado, mas como construcao de uma subjetividade para alem da ordem do capital.

EP:No Servico Social, a producao academica e o projeto profissional sao influenciados pela tradicao marxista. Contudo nao e rara a critica a "ortodoxia marxista" e as supostas lacunas existentes entre teoria e pratica. Em sua opiniao, a teoria marxiana e uma teoria capaz de superar o velho chavao de que "na pratica a teoria e outra"?

ED: Esse chavao implica um sentimento de adaptacao a ordem. Obviamente ele e de uma falsidade enorme. A teoria marxista nao tem sido desmentida por uma pratica desqualificada. O capitalismo venceu? Seguramente nao, embora no plano ideologico isso ocorrer. Mas a miseria nao foi eliminada.

EP: Ha uma grande influencia do pensamento Gramsciano no Servico Social, principalmente a questao da constituicao da hegemonia e o papel do intelectual organico nesse processo. De que modo as concepcoes de Gramsci podem contribuir para um trabalho social que tem a transformacao da sociedade como o seu horizonte etico-politico?

ED: Podem faze-lo na medida em que permitem compreender a realidade como articulacao contraditoria de racionalidades de classe. Exemplo? Estado e Terceiro Setor nao sao formas democraticas, mas, pelo contrario, implicam a captura da subjetividade antagonista. Desarmam o conjunto das classes subalternas. Mecanismo, Sectarismo sao instrumentos que reforcam a opressao capitalista. Gramsci nos oferece instrumentos para fazer esse combate.

EP: E, finalmente, considerando sua interlocucao com o Servico Social no Brasil, bem como o tema desse numero da revista que e o da articulacao entre Teoria Social e Servico Social, em sua opiniao, quais contribuicoes da tradicao marxista, em especial do pensamento gramsciano, sao fundamentais para essa profissao na atualidade?

ED: Fundamentalmente a analise das conjunturas, a analise das ideologias, e considero essencial a analise do modo de vida dos oprimidos.

Entrevista com o Professor Dr. Edmundo Fernandes Dias, Professor aposentado do Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), o Prof. Dr. Edmundo Fernandes Dias tem sido um dos importantes intelectuais na investigacao e disseminacao da teoria social critica e, especialmente, do pensamento social de Antonio Gramsci. A entrevista foi realizada, virtualmente, pela Profa. Dra. Monica de Jesus Cesar, integrante da Equipe Editorial da Revista Em Pauta e docente adjunta da Faculdade de Servico Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FSS/UERJ), em julho de 2012.
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Title Annotation:ENTREVISTA
Author:Cesar, Monica de Jesus
Publication:Em Pauta
Article Type:Interview
Date:Jun 1, 2012
Words:1500
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