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The conflict of interethinic relations in the Brazilian Amazon diamond mining/O conflito de representacoes inter-etnicas em torno da exploracao de diamantes na Amazonia brasileira.

INTRODUCAO

Este trabalho e fruto das discussoes desenvolvidas pelo grupo de pesquisa "Assentamentos" em relacao ao atual processo de desenvolvimento na Amazonia. Objetivamente, em relacao a questao indigena, os estudos empiricos se desenvolvem em Rondonia, tangendo a necessidade de entender os inumeros processos economicos que os povos indigenas vivenciam na regiao amazonica, os quais, por sua vez, desencadeiam uma serie de transformacoes de ordem social, cultural e ambiental. Alem de pesquisas empiricas, o grupo se dedica ao mapeamento da realidade indigena no estado atraves de analises documentais, o que inclusive resultou na proposta de artigo.

Ao se propor analisar as representacoes construidas acerca dos indios Cinta Larga e do esteoreotipo estabelecido em relacao aos garimpeiros faz-se necessario uma breve incursao historica da realidade a partir da descoberta dos diamantes na Reserva Roosevelt ,principalmente, considerando os conflitos que dai se alargaram.

No sudoeste da Amazonia, os Cinta Larga ocupam territorios entre os estados de Rondonia e Mato Grosso, havendo indicios de que a exploracao ilicita dos recursos ambientais e minerais nas Terras Indigenas (TI' s) da etnia Cinta Larga ocorre desde a decada de 1940. Desde entao, as ininterruptas atividades exploratorias oscilavam entre a atividade madeireira clandestina e formas predatorias de garimpo. Para este artigo, importa o recorte das questoes inerentes a TI Roosevelt, uma vez que ali, a partir de 1999, deu-se a descoberta de uma grande jazida de diamantes, o que acarretou na intensificacao da presenca de garimpeiros, empresas de mineracao e sucessivos conflitos.

Pesquisadores norte-americanos que se interessaram pelo caso Cinta Larga no auge da repercussao do embate entre indios e garimpeiros em 2004--que culminou na morte de 29 representantes destes ultimos--, publicaram, na revista eletronica FRONTLINE (2006), o documentario Jewel of the Amazon. O objetivo desse documentario era relatar os estudos sobre os povos indigenas da Amazonia, tendo como destaque os Cinta Larga da Reserva Roosevelt. Assim, os esforcos em torno dessa publicacao se concentraram em responder ao questionamento feito no subtitulo "Quem controlara aquela que pode vir a ser a mais rica mina de diamantes no mundo?"

Jewel Of Amazon, cuja traducao para a lingua portuguesa e "Joia da Amazonia", e um documentario completo sobre a descoberta da jazida de diamantes na Reserva Roosevelt, pertencente ao grupo indigena Cinta Larga, e dos conflitos que dai se alargaram. Os jornalistas Darren Foster e Mariana Van Zeller estiveram na aldeia e fizeram uma coleta de dados com os atores sociais do conflito. Disso resultou uma gama de dados e informacoes publicadas da revista online FRONTLINE, os quais se pretende analisar neste artigo. Chamava atencao dos jornalistas a riqueza material obtida pelos Cinta Larga em decorrencia do garimpo, uma vez que sao vistos em carros luxuosos, utilizam telefones moveis via satelite e se casam fora da tribo, o que contesta a visao da maioria das pessoas--nao indios--de como um grupo indigena deveria se comportar.

Nessa conjuntura, a dinamica socioeconomica e cultural entre os Cinta Larga e a populacao local, entre aqueles e os garimpeiros, bem como as representacoes construidas nessas relacoes trazem para o debate a analise das peculiaridades dos Cinta Larga, no que tange ao encontro inter-cultural de indios e nao indios e os conflitos que envolvem essa relacao, contribuindo para o aprofundamento das discussoes referentes a estigmatizacao, as representacoes e ao imaginario social em relacao a determinadas categorias.

Num primeiro momento, sera feita uma breve discussao sobre os conceitos de representacao, imaginario e estigma; no momento seguinte, esta se concentrara no imaginario dos jornalistas, suas impressoes e estranhamentos quando estiveram em contato com o cenario do conflito e, por fim, serao contrapostas as diferentes visoes dos atores sociais do conflito, com o proposito de realizar um balanco entre o que permeia o imaginario destes.

Um balanco teorico

As proposicoes de GOFFMAN (1982) sobre estigma se constituem na principal base da analise do conflito, bem como os seus desdobramentos relacionais entre indigenas, populacao local e garimpeiros. Tal conceito e definido como uma situacao em que o individuo nao esta apto a ser aceito plenamente na sociedade, percebendo-se entao que, entre a populacao da area do conflito e os indios Cinta Larga, ha um processo de estigmatizacao em que sao considerados assassinos--pela morte dos 29 garimpeiros em 2004.

O conceito de estigma pressupoe os "contatos mistos", que sao momentos em que os estigmatizados e os "normais" estao na mesma situacao social, na qual e a propria sociedade que estabelece os meios de categorizar os individuos, bem como de eleger os atributos a serem considerados comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias sociais.

Nesse sentido, existiria uma serie caracteristicas as quais os grupos indigenas deveriam se encaixar. Isso porque, com base em pre-concepcoes, sao criadas expectativas normativas e exigencias que deverao ser apresentadas rigorosamente atraves das categorias de individuos, seus atributos e sua identidade social, de modo que o desvirtuamento de tais caracteristicas resulta no estigma.

Em relacao ao universo indigena, existe uma tendencia em classificar a relacao dos indios com os objetos oriundos da sociedade industrial capitalista ou a realizacao de atividades economicas como fenomenos inautenticos ou ate mesmo inaceitaveis. Nesse contexto, atributos indesejaveis se relacionam com as atividades indigenas dissonantes daquelas respaldadas pela sociedade, como a caca, a pesca, a coleta e tudo mais que remete a vida natural e primitiva. Isso pode ser tambem explicado pela contribuicao argumentativa de GOFFMAN (1980), no sentido de que os diferentes papeis atribuidos socialmente tem relacao com a forma como individuos idealizam sua imagem, principalmente considerando a relacao que aflora entre os pares.

Noutras palavras, a construcao do bom selvagem e capaz de provocar um choque aos que encontram, na realidade, indios munidos de aparatos tecnologicos e tendo anseios que coadunam com a logica capitalista de reproducao dos meios de vida.

As discussoes de Goffman, instrumentalizadas em relacao aos desdobramentos do conflito envolvendo os Cinta Larga, vem acompanhadas, neste trabalho, tambem pelas analises de BARTH (1998) sobre as fronteiras entre os grupos. O aspecto harmonico entre os dois autores se da pelo entendimento de que as acoes dos sujeitos sao interpretadas por diferentes atores sociais atraves de distintas perspectivas, de modo que a circulacao entre fronteiras e marcada por relacoes complexas e contraditorias, mas que nao acarretam na perda de identidade, uma vez que esta e dinamica.

Os estudos de BARTH (1998) tambem dialogam com as classicas analises sobre relacoes inter-etnicas de OLIVEIRA (1974) no sentido de defender a sobrevivencia do fator etnico, apesar das fronteiras entre os grupos.

Alem disso, o conflito e analisado, paralelamente a analise de GOFFMAN (1980), pela perspectiva dos dramas sociais, trazida por TURNER (1974), que, seguindo essa linha de observar o teatro da vida, se interessa pelos momentos em que os papeis estao suspensos, o meta teatro da vida social. Para o autor, que se atem as transformacoes da sociedade, o conflito se configura por um drama social, com impactos nas estruturas sociais, capazes de criar antiestruturas, que, por sua vez, podem ser capazes de revitalizar tecidos sociais.

Finalmente, para analisar os discursos polarizados dos atores sociais em conflito, tambem sao importantes as proposicoes de BACZKO (1985), que realizou uma analise em que o imaginario social esta diretamente relacionado as questoes de poder. A pertinencia das consideracoes de BACZKO (1985) para o problema aqui tratado diz respeito a conformacao do conflito no qual se da uma disputa, nao so pela exploracao dos diamantes na Reserva Roosevelt, mas tambem pela legitimizacao dos discursos dos atores sociais envolvidos no conflito, com vistas as decisoes do Estado em relacao ao futuro da reserva, dos indios e dos garimpeiros. "Um rude despertar para o mundo moderno": impressoes e estranhamentos dos jornalistas.

A intensificacao da relacao dos Cinta Larga com os nao indios se da pela exploracao do diamante, que parece resultar num movimento dos indios em direcao as perspectivas economicas sob a logica dos brancos em relacao a mercantilizacao dos diamantes e a (re) significacao desse elemento em sua cultura.

Interessante e perceber o processo pelo qual passaram os jornalistas. Um processo de desconstrucao da imagem estereotipada do indio e das representacoes que se fazem deste enquanto pertencente a uma comunidade tradicional. No imaginario dos jornalistas, permeava ainda a ideia dos indios nus, correndo pela floresta, sendo restrito a selva sem contato direto com a populacao. Contudo, a percepcao do real se chocou com o imaginado, ja que o observado foram indios dirigindo carros, com um contato estreito com nao indios, possuindo ainda casas na cidade, bem como telefonia via satelite.

O estranhamento desses jornalistas residia no fato de os indios possuirem carros luxuosos, casas agradaveis na cidade e ate se casarem fora da tribo, o que se contrapunha com o esperado isolamento, vida rudimentar, mais associada a natureza e sem muitos bens.

Para eles, essa modernizacao dos indios Cinta Larga, a intensificacao do contato com nao indios e a propria logica exploratoria se caracterizava por "um rude despertar para o mundo moderno". Isso porque os conflitos entre indios, garimpeiros e populacao se acirraram, formando polos antagonicos em relacao ao futuro da mina e a uma disputa pela legitimizacao dos atores sociais que terao direito a explora-la.

Por outro lado, o que os jornalistas observaram sobre as impressoes da populacao local a respeito dos indios Cinta larga e que estes sao vistos como assassinos impunes, e a falta de punicao representa um desprezo pela vida dos garimpeiros e, sobretudo, uma injustica. Alem disso, na percepcao da populacao local, o grupo Cinta larga e recompensado pelo governo, ou seja, existe uma protecao por parte da esfera governamental, por meio da Operacao Roosevelt da Policia Federal, aos grupos indigenas.

Segundo os relatos coletados para a organizacao do documentario, na epoca do incidente, aflorou um senso de injustica muito forte entre a populacao local, sob o argumento de que os Cinta Larga estavam escapando, literalmente, da culpa do assassinato e que havia uma desvalorizacao em relacao a vida dos garimpeiros mortos.

Pairam entao, na organizacao cognitiva da populacao local, varios questionamentos quem tem como pano de fundo certa revolta, como observado no documentario ao realizar o questionamento a respeito do que teria acontecido se fossem 29 indios assassinados, o que na opiniao da populacao local seria considerado um incidente de proporcoes internacionais.

Outra consideracao que se pode fazer em relacao as impressoes dos jornalistas se refere ao tom da narrativa. No documento, alguns trechos expunham o quanto o assassinato dos garimpeiros havia sido cruel e se dado com o disparo de multiplas balas, de modo que os corpos dos garimpeiros estavam irreconheciveis. Nessa passagem, subentende-se que os jornalistas esperavam que o ataque se desse de outra forma. No minimo, de uma forma mais rudimentar, com flechas talvez, porque, se assim fosse, haveria uma correspondencia com a categoria indigena, segundo a representacao que possuiam de tal grupo antes do contato direto ter sido realizado. O estranhamento reside no fato de o instrumento utilizado pelos indios obedecer a uma logica nao indigena de violencia na concepcao do olhar de fora.

Assim, a representacao de um indigena que os jornalistas apresentavam antes de realizarem as entrevistas foi mudando, a medida que novos elementos de caracterizacao foram sendo incorporados a esta, em virtude de estarem lidando com um grupo imerso em um contexto que nao estava "previsto" em seus esquemas cognitivos.

Imbuidos pelo interesse de saber da realidade dos garimpeiros, dada a magnitude do que encontraram no periodo em que permaneceram na localidade do conflito, puderam entao entender o que caracterizava um garimpeiro, bem como as suas motivacoes. Ao entrevistarem um dos garimpeiros, entenderam que, ao contrario da maioria, este nao tinha os atributos que esperavam para caracterizalo como tal. Ja os garimpeiros, por outro lado, sao vistos como tendo a vida desregrada, sem muita oportunidade. O garimpeiro entrevistado, na concepcao dos jornalistas, nao se caracterizava como garimpeiro, em virtude de seus atributos, uma vez que este foi considerado como bem-educado e se tornou garimpeiro por opcao e nao por falta de oportunidade, como acontece com os demais, contrapondo nao so a representacao que estes tinham de um garimpeiro, mas uma representacao estigmatizada.

Ao analisar o discurso apresentado pelos jornalistas no documentario, percebeu-se que, em relacao a ambos os casos, quais sejam, os dos indios e dos garimpeiros, foi desconstruida a imagem preconcebida desses atores sociais em conflito.

As relacoes interetnicas

Para facilitar o entendimento sobre o lugar que os indios Cinta Larga ocupam no imaginario da populacao local, faz-se necessario analisar a fronteira entre grupos sustentada por BARTH (1998), como delimitadoras das posicoes de grupos ou individuos nas diversas relacoes, mas tambem entende-la como o locus da contradicao em que se percebem interesses opostos e realidades sociais em ritmos diferentes. Assim, a polarizacao dos interesses entre garimpeiros e indigenas e a estigmatizacao dos indigenas pela populacao local demonstram a complexidade desse cenario de multiplos atores com logicas distintas

A partir da compreensao da identidade etnica como sendo dinamica e passivel de transformacoes atraves de relacoes, interesses ou contextos, BARTH (1998) lanca mao da fronteira para entender a dinamica dos grupos, cujas interacoes entre sujeitos podem gerar transformacoes que modelam a identidade. Assim, o compartilhamento de caracteristicas confere aos grupos a capacidade de organizacao, na qual se define o "eu" e o "outro". A fronteira e ao mesmo tempo uma forma de categorizar o que esta inclusive em sintonia com as proposicoes de GOFFMAN (1982), mas tambem pressupoe a interacao entre os individuos.

Considerando a possibilidade das transformacoes de identidade, a partir da interacao entre diferentes atores, neste caso acirrada a partir da descoberta do recurso mineral e do conflito, o proprio diamante ja existente na Terra Indigena e portanto ha algum tempo presente no universo de significados dos Cinta Larga, a partir do evento da sua exploracao com fins economicos, passa por um processo de (re) significacao, no qual esse grupo indigena organiza sua inteligencia e cria mecanismos de mudanca que faz com que queiram tambem explorar o recurso natural ou se beneficiar economicamente de tal exploracao. Alias, o despertar dos interesses economicos faz parte tambem do movimento da identidade indigena em conformidade com a logica do mundo externo.

No entanto, e justamente a falta de clareza em relacao a autenticidade dessa construcao e desconstrucao, ou seja, dessa dinamicidade, preconizada por BARTH (1998), da identidade indigena a fonte geradora do processo de estigmatizacao, pois se classifica idealmente que o indio deve ser selvagem, rude e isolado do mundo moderno. Quando a correspondencia nao ocorre, a tendencia e estigmatizar e reduzir o individuo a uma pessoa estragada e diminuida, como aponta FERREIRA NETO & DOULA (2003).

Os classicos estudos de Roberto Cardoso de OLIVEIRA sobre friccoes inter-etnicas ja apontavam para um distanciamento do que foi convencionado denominar de aculturacao. Isso porque, na opiniao do estudioso, as entidades etnicas resistem as transformacoes culturais e raciais, a lingua, aos costumes e as crencas, pois sao caracteristicas externas a etnia. Para alem das especificidades culturais e raciais, as etnias seriam, de acordo com OLIVEIRA (1972), categorias compostas de representacoes reciprocas e de lealdades morais, de modo que a cultura nao seria um designio do grupo etnico, mas produto dele.

BARTH (1998) e OLIVEIRA (1972) se comunicam no sentido de que as fronteiras sociais dos grupos nao implicam a sua inexistencia, nao sao capazes de rematar a cultura, mas esta, tal qual a identidade, e algo dinamico e passivel de reelaboracoes.

Desse modo, o movimento desse grupo indigena em relacao a logica exploratoria e ao mundo dos bens fez com que fossem estigmatizados, pela populacao local, como indios capitalistas, preguicosos, acomodados por usufruirem da riqueza da mina de diamantes ou da situacao, ja que essa riqueza concedia aos indios certos privilegios como recompensas financeiras concedidas pelos garimpeiros para que estes pudessem adentrar a reserva e explorar a jazida. O estigma nessa situacao advem da nao correspondencia entre o indio como um nativo de florestas, isolado do mundo, e o movimento ao mundo movido pela producao em massa e pelo consumismo.

No entanto, tanto a contribuicao de BARTH (1998) quanto a de OLIVEIRA (1972) demonstram a autenticidade das transformacoes ocorridas na sociedade Cinta Larga apos o conflito. Tais mudancas nao descaracterizam os Cinta Larga em relacao a sua condicao indigena e etnica, apenas evidenciam as transformacoes que se dao atraves das fronteiras entre grupos.

Vale observar, contudo, que, com o assassinato dos 29 garimpeiros em 2004, iniciouse um novo processo de estigmatizacao, uma vez que, segundo a populacao local, se os indios ja nao se comportam conforme sua identidade social, nao seria justo que estes nao fossem punidos pelo assassinato. Nessa perspectiva, os indios passam a ser privilegiados pelo Estado sob a justificativa de sua condicao de indigena ou relativamente incapazes. Categoria esta que, na concepcao da populacao local, ja nao corresponde ao pre-estabelecido.

Essa questao pode tambem ser analisada pela perspectiva dos "dramas sociais", sustentado por TURNER (1974), que se atem aos ritos e dramas que passam as sociedades em decorrencia das transformacoes sociais, politicas e culturais.

Para o estudioso, e possivel que surjam na vida social os dramas que demarcam uma dialetica entre a estrutura e antiestrutura. Isso quer dizer que, a partir das estruturas, que sao um conjunto de relacoes empiricamente observaveis, que representa a vida cotidiana, podem emergir vez ou outra tensoes ou elementos nao resolvidos da vida social, que por sua vez configuram a antiestrutura, momentos em que os dramas sociais se afloram extraordinariamente. A antiestrutura como locus dos dramas sociais configura-se pela liminaridade, conceito utilizado pelo autor para remeter as transformacoes que se dao em virtude das proprias contradicoes, conflitos e crises, que podem inclusive romper as bases da estrutura social.

Na estrutura social estabelecida entre populacao indigena e populacao local, e possivel observar algumas disposicoes e organizacoes de posicoes e atores que elas implicam. O conflito emerge entao nos intersticios dessa estrutura social em que os individuos nao mais correspondem aos atributos pre-definidos e transitam de um status ou lugar para outro na vida social, ou seja, transitam entre dois mundos.

Se por um lado as coisas de branco, como bens capitalistas, passam a fazer parte da vida social da aldeia. Por outro, na cidade (Cacoal), e possivel encontrar casas, carros e motos pertencentes aos indigenas. Alem disso, os ultimos passam a ser consumidores do mercado local, a dialogar com a sociedade envolvente atraves dos codigos dos nao indios, o que fica clarificado pelo interesse dos indigenas em explorar o recurso mineral.

Assim, o conflito entre Cinta Larga e populacao local culmina no processo de liminaridade. Isso ocorre por criar uma possibilidade dos grupos representarem, mesmo que simbolicamente, papeis que correspondem a uma posicao invertida, em relacao ao status ou condicao que ordinariamente possuem no quadro hierarquico da estrutura social, ou seja, a vida indigena nao se reduz ao selvagem, ao primitivo, a vida na aldeia. A partir do conflito, ela passa a tanger a possibilidade de que os indigenas ocupem lugar na vida cotidiana das cidades, a possibilidade tambem de que eles possam se beneficiar da atividade economica em torno da exploracao da jazida de diamantes. Finalmente, e valido observar que essa antiestrutura propiciada pelo conflito nao configura necessariamente a ausencia de estrutura, mas um modelo alternativo de organizacao social que emerge nas fendas da sociedade.

"Se voce passar perto de uma colmeia, as abelhas nao farao nada a voce, mas se voce tentar levar algo de dentro dela, elas o atacarao": atores sociais do conflito.

Atraves das entrevistas contidas no documentario e realizadas com os atores sociais do conflito--Representante do Grupo Indigena Cinta Larga, da FUNAI, da Associacao de Garimpeiros e da Policia Federal -, foi possivel extrair diferentes discursos que denotam uma luta pelo poder de explorar a mina ou de opinar sobre quem devera explora-la.

Tais discursos demonstram certas contradicoes entre os atores, bem como seus posicionamentos. O discurso de cada ator social e fortemente marcado pelos interesses das instituicoes ou pelas causas que representam. E nesse sentido que as discussoes acerca do imaginario social alcancam pertinencia, uma vez que este se torna inteligivel e comunicavel atraves da producao dos discursos, nos quais e pelos quais se efetua a reuniao das representacoes coletivas numa linguagem (BACZKO, 1985).

Esta pode ser considerada uma questao de "poder", por se tratar de um jogo de relacoes entre grupos sociais com interesses distintos. Nessa perspectiva, as contribuicoes de BACKZO (1985) sao conexas quando este defende que o imaginario social e uma peca efetiva e eficaz dos dispositivos de controle da vida coletiva, do exercicio, sobretudo de autoridade e poder. Ao mesmo tempo, ele torna-se o "lugar e o objeto" dos conflitos sociais (BACZKO, 1985)

Mediante o anseio de explorar a jazida de diamantes, e possivel perceber, na fala do chefe Pio, um desejo indigena pelo tratamento diferenciado enquanto categoria social diferente das demais. Essa assertiva fica evidenciada quando o chefe afirma, sobre os efeitos da exploracao de diamante no cotidiano os indigenas Cinta Larga, que "por um lado, melhorou, por outro ficou pior, porque a vida se tornou mais estressante. Hoje, eu posso ver o lado negativo da mina--pessoas que perderam seus casamentos, alguns membros estao separados, as mulheres vao para a cidade. Esse foi o lado ruim. O lado positivo e onde a mina tem beneficiado a comunidade e a construcao de casas bem construidas, estradas, projetos agricolas, e ele trouxe o gado. Acho que o tratamento tem que ser diferenciado. Somos indios, de modo que entao devemos ser tratados de forma diferente do homem branco. Entao, hoje, nos temos um sistema de saude diferente, diferentes sistemas de ensino, porque nem todos sabem falar portugues" (FRONTLINE, 2006).

Nesse caso, a representacao dos indigenas de si proprios aponta para uma alteridade, uma vez que e atraves do "tratamento diferenciado" que se da o reconhecimento social e a forma de angariar beneficios junto as instituicoes governamentais. O discurso da lideranca indigena esta em sintonia com os argumentos de GOFFMAN (1980) sobre a possibilidade de uma reacao em relacao a estigmatizacao, ou seja, a essas nocoes pre-atribuidas, uma vez que a identidade e um processo de construcao que pressupoe negociacoes com o mundo externo.

Trata-se de levar em conta a negociacao dos Cinta Larga com esferas da sociedade nao indigena, que, por sua vez, e influenciada por codigos, leis e tendencias humanistas que preconiza cada dia mais a constituicao de uma sociedade pluralista em que as diferencas devem ser respeitadas. Isso significa que, embora eles sejam estigmatizados pela populacao local de um lado, de outro, existe um aparo legal e uma tendencia humanista, a qual os indigenas recorrem inclusive para se afirmarem nesse cenario. Outro ponto interessante a ser salientado no discurso do representante indigena e que existe uma logica Cinta Larga para a exploracao dos diamantes na mina: "Nao que nos queremos explora-la ate que nao reste nada nela, mas explora-la quando precisamos" (Chefe Pio). Essa logica aponta para uma exploracao que, ao inves de ser um movimento para os valores ocidentais capitalistas, obedece a uma dinamica propria em que a exploracao so e permitida mediante a necessidade, e nao no interesse genuinamente capitalista de acumulo de riquezas.

Ja no discurso do Representante da Funai, encontra-se uma visao romantizada em relacao ao indio, pois ele entende que sao os brancos que facilitam a aquisicao de bens aos indios. Nessa perspectiva, a pureza desse grupo seria afetada pela perversidade de nao indios. Esse ator social faz uma representacao da representacao ja existente dos indios em relacao a populacao local ao rebater que, ao contrario da imagem que se tem do indio como estranho, preguicoso, perigoso, os Cinta Larga sao pessoas calmas, doceis e gentis.

O argumento encontrado por este representante para o assassinato dos garimpeiros se baseia numa frase que ele ja ouviu de um Cinta Larga: "Se voce passar perto de uma colmeia, as abelhas nao farao nada a voce, mas se voce tentar levar algo de dentro dela, elas o atacarao". A justificativa para o massacre e, entao, uma atitude de defesa, e nao sinonimo de agressividade.

Diante da ingenuidade atribuida aos indigenas Cinta Larga, tal representante acredita ainda que a exploracao da jazida traria para os indios efeitos iniquos, pois acarretaria na perda da identidade e da cultura indigena. A identidade, nesse prisma, e algo estatico e que nao permite (re) elaboracoes. Explorar diamantes, inserir a logica da permuta, do lucro, o hibridismo, portanto, e enxergado como aculturacao.

Ja a otica do representante dos garimpeiros e marcada pelo interesse em explorar a jazida. Frente a ameaca latente de que a exploracao da mina fique a cargo dos Cinta Larga, a representacao construida pelo representante dos garimpeiros e percebida no momento em que este assevera que a mina pertence aos brasileiros, indicando, portanto, que indios nao seriam brasileiros.

Por fim, cabe considerar o discurso do Representante da Policia Federal, que considera esta uma causa maior do que o simples embate entre garimpeiros e indios, indicando a existencia de interesses dos carteis na especulacao em relacao ao Mercado de diamantes. A representacao construida por esse ator social diz respeito a pobreza que iguala garimpeiros e indigenas, podendo ser percebida na oracao: "e uma guerra de miseraveis".

A miseria, atraves desse discurso, e tratada como o alimento do embate. O embate nao tira os "guerreiros" da condicao de miseraveis. E, na verdade, um artificio para que os carteis das empresas mineradoras sejam camuflados. Essa representacao esta intimamente relacionada a instituicao da qual ele faz parte, a Policia Federal, que o impele a investigar o que tem por tras do conflito.

CONSIDERACOES FINAIS

As discussoes aqui propostas em torno da exploracao de diamantes da Reserva Roosevelt permitem perceber que a Identidade dos Grupos pode ser construida e desconstruida a todo o momento. A propria situacao do conflito propicia a (re) significacao de determinada cultura e tende a trazer em volta de si uma polarizacao de posicionamentos e uma mobilidade de discurso, pois os atores sociais nao trazem simplesmente uma opiniao individual, mas as causas das instituicoes que representam ou do grupo social do qual fazem parte. Nesse sentido, sao validas as proposicoes de BARTH (1998) e OLIVEIRA (1972), no sentido de que as interacoes entre sujeitos podem gerar transformacoes que modelam a identidade, sendo que a identidade deve ser vista como algo dinamico e tambem passivel de mudancas.

Por essa perspectiva, o fator etnico nao e colocado em questionamento, sendo autentico o movimento dos Cinta Larga em direcao ao bens, a cidade e as coisas a que ele remete. Isso tao somente aponta para um novo processo social que, por sua vez, implica o movimento da identidade

No caso analisado, percebeu-se que a nao correspondencia a um estigma pode culminar em outro, como foi o que ocorreu quando a populacao local, ao compreender que os indios nao mais correspondiam ao pre-estabelecido (selvagem, isolado, rudimentar), passa a estigmatiza-los como assassinos impunes, privilegiados pela esfera governamental e pelas leis vigentes no pais.

Ainda vale considerar que o proprio grupo tradicional oscila no discurso ao se auto-representar. Ora e conveniente que sejam estigmatizados como cacadores-selvagem, ora apresentam em seus discursos uma autonomia no sentido de estarem aptos a explorarem os diamantes atraves de uma companhia indigena. Isso se da pela possibilidade, preconizada por TURNER (1974), qual seja de transitar entre dois mundos. De um lado, o universo indigena e, de outro, o mundo dos nao indios, que nao se posiciona de forma homogenea em relacao a essa questao. Isso pode ser verificado pela estigmatizacao que os indigenas Cinta Larga vivenciam em relacao a populacao local, mas tambem na auto afirmacao, enquanto grupo, atraves dos discursos humanistas que valorizam a pluralidade.

Um ponto fundamental nesta analise foi perceber que existe uma logica Cinta Larga para a exploracao dos diamantes, a qual difere da logica da permuta, barganha e acumulacao de riqueza, mas e uma logica que obedece a uma necessidade cujos atributos retomam elementos ja cultivados pelos grupos indigenas. Desse modo, como a caca e importante para satisfazer uma necessidade fisiologica (a saciedade da fome), a exploracao de diamantes supre uma nova necessidade que abrange a incorporacao de bens materiais. Nesse sentido, percebe-se uma juncao de valores, mas que nao necessariamente implicaria aculturacao, mas um processo de (re) significacao.

REFERENCIAS

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FERREIRA NETO, J.A.; DOULA, S.M. Assentamentos rurais organizacao, mobilizacao e imaginario Social. Visconde do Rio Branco: Suprema, 2003. 118p.

FRONTLINE/WORLD. Brazil Jewel of the Amazon: the conflict over Brazil's diamond. AIRS ON PBS. Disponivel em: <http://www.pbs.org/frontlinewold/stories/brasil501/.Boston>. Acesso em: 17 abr. 2009.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 5.ed. Sao Paulo: Loyola, 1996. 79p.

GOFFMAN, E.. Estigma--notas sobre manipulacao da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. 172p.

GORDON, C. Economia selvagem: ritual e mercadoria entre os indios. Sao Paulo: UNESP: ISA; Rio de Janeiro: NUTI, 2006. 252p.

OLIVEIRA, R.C. de. "Problemas relativos a friccao interetnica". In: OLIVEIRA, R. C. A Sociologia do Brasil Indigena. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasilia: Editora da UNB. (1972) 1978. 222p.

SOUZA, J. A construcao social da subcidadania. Para uma sociologia politica da modernidade periferica. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: UFMG e Iuperj, 2003. 207p.

TURNER, V. O processo ritual: estrutura e anti-estrutura. Petropolis: Vozes, 1974. [1969]. 248p.

Nathalia Thais Cosmo da Silva (I) Roseni Aparecida de Moura (I) Jose Ambrosio Ferreira Neto (I)*

(I) Departamento de Economia Rural, Universidade Federal de Vicosa (UFV), Campus da UFV, 36570-000, Vicosa, MG, Brasil. E-mail:ambrosio@ufv.br. *Autor para correspondencia.

Recebido 25.07.11 Aprovado 19.07.12 Devolvido pelo autor 12.05.13 e CR-5728
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Author:da Silva, Nathalia Thais Cosmo; de Moura, Roseni Aparecida; Neto, Jose Ambrosio Ferreira
Publication:Ciencia Rural
Date:Jul 1, 2013
Words:4944
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