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The color blinds vision simulation in the evaluation of color information contained in packages/Uso de simulacao da visao de daltonicos na avaliacao da informacao cromatica contida em embalagens.

1 Introducao

Para acondicionar produtos em diferentes contextos, as embalagens precisam suprir tres funcoes primarias: conter, proteger e identificar (Stewart, 2010). Para alem dessas funcoes, Pereira & Linhares (2014, p. 2) destacam que 'Embalagens sao veiculos de comunicacao e informacao. A despeito de sua reconhecida funcao mercadologica, veiculam informacoes essenciais aos usuarios e consumidores, por meio de conteudos verbais e visuais'. Nesse sentido, a embalagem pode ser considerada a primeira interface de interacao entre o produto e o comprador/utilizador, de onde os elementos verbais e visuais nela expostos precisam estar associados e ordenados, visando facilitar a compreensao da informacao.

Para Arnkil (2013), o uso de codigos de cores permite a emissao de informacoes com diferentes niveis de complexidade, possibilitando eficiencia comunicativa aos conhecedores dos codigos utilizados. Contudo, deficiencias na visao das cores atingem uma parcela importante da populacao, afetando a capacidade dos portadores para identificar e diferenciar matizes e tonalidades (Jenny & Kelso, 2007). Para esses individuos, tarefas cotidianas que envolvem a interpretacao de codigos de cores--como na aquisicao e uso de produtos embalados --tornam-se mais complexas, podendo haver perda de informacao.

O Design Universal diz respeito ao projeto de produtos que possam ser usados por pessoas de todas as habilidades, na maior extensao possivel, sem necessidade de adaptacoes (Erlandson, 2008). Um dos principios do Design Universal e que as informacoes devem ser comunicadas de modo eficaz aos usuarios, independente de suas habilidades sensoriais (ibid.). Em consonancia com essa ideia, o projeto de embalagens deve ser pensado para atender tanto aos individuos com visao tricromatica de cores quanto aos portadores de deficiencia. Partindo desse principio, o presente estudo analisa um conjunto de embalagens, observadas atraves de simulacao de diferentes tipos de deficiencia cromatica, visando identificar possiveis ruidos na comunicacao das informacoes associadas as cores, quando observadas por portadores de daltonismo.

2 Percepcao da cor e daltonismo

Pedrosa (2010, p. 20) define a cor como 'a sensacao provocada pela acao da luz sobre o orgao da visao'. O estimulo colorido e captado pelos olhos e interpretado pelo cerebro, de onde os efeitos proporcionados pelas cores envolvem ao menos dois aspectos: o fisiologico (objetivo, pautado em leis da quimica e fisica) e o psicologico (subjetivo, processo de significacao) (Feisner & Reed, 2014).

As celulas fotossensiveis responsaveis por captar o estimulo luminoso e converte-lo em informacoes enviadas ao cerebro sao denominadas cones. Feisner & Reed (2014, p. 03, traducao nossa) explicam que estas celulas sao divididas em tres tipos, e cada um e responsavel por receber o estimulo de um comprimento de onda especifico, formando assim o modelo de visao tricromatica: 'O cerebro assimila os impulsos vermelho, azul-violeta e verde, misturando-os em uma unica mensagem que nos informa sobre a cor que esta sendo vista'.

O aspecto subjetivo da cor esta relacionado ao repertorio do observador, diz respeito ao conhecimento previo, as experiencias anteriores que permitem o reconhecimento de significados e interpretacoes. Conforme Feisner & Reed (2014), repertorios compartilhados possibilitam a transmissao de significados de forma premeditada, adicionando funcoes ao uso da cor. Codigos sao sistemas de simbolos que possibilitam a comunicacao entre individuos (Flusser, 2013), portanto, ao se estabelecer significados pre-definidos as cores, estas constituem um codigo visual possibilitando a interpretacao de informacoes.

Mutacoes no DNA provocam as deficiencias visuais para cores, conhecidas popularmente como daltonismo. Estas afetam a capacidade dos individuos portadores para distinguir determinadas cores mediante o estimulo recebido. Sejam congenitas ou adquiridas por exposicao a algumas substancias, estima-se que 8% da populacao masculina e 0,5% da populacao feminina sejam afetados em algum nivel (Fraser & Banks, 2007; Jenny & Kelso, 2007).

As celulas visuais comprometidas sao os cones, prejudicando o reconhecimento dos comprimentos de onda da luz, consequentemente das cores. Logvinenko (2014) explica que enquanto a maioria das pessoas possui tres tipos de cones sensiveis a comprimentos de onda curtos, medios e longos do espectro visivel (visao tricromatica), os chamados dicromatas nao possuem um dos tipos de celula cone (visao dicromatica).

De acordo com o tipo de cone afetado ou ausente, existem tres tipos de discromopsia: (1) na protanopia, os individuos tem menor sensibilidade aos comprimentos de onda longos, que causam a sensacao de vermelho; (2) na deuteranopia, a sensibilidade e menor aos comprimentos de ondas medianas, responsaveis pelo verde; e (3) na tritanopia, a deficiencia nao permite a identificacao das cores relacionadas a comprimentos de ondas mais curtos (azul) (Fraser & Banks, 2007).

Conforme explicam Fraser & Banks (2007), o processo de captacao da imagem e o mesmo para portadores e nao portadores de deficiencia na visao da cor: o estimulo visual e captado pelos olhos, e no cerebro ocorrem os processos de avaliacao, analise e correcao. Porem, a experiencia que a imagem proporciona a cada individuo e diferenciada e influenciada por sua percepcao momentanea dos elementos assim como de seu repertorio (Pedrosa, 2010).

Para Logvinenko (2014) a visao dos dicromatas se da pelo 'principio da visao reduzida', no qual a paleta de cores percebida pelos deficientes seria uma versao reduzida do espectro visivel do olho humano. Por outro lado, em seus experimentos, Li, Wu & Li (2016) concluiram que, apesar da variacao entre a aparencia da cor percebida por portadores e nao portadores, o uso continuo possibilita uma adaptacao do observador deficiente a determinada interface grafica. Para os autores, pode ocorrer o que eles chamam de 'cognicao de cor secundaria', como resultado da '[...] longa e intensa influencia do ambiente de vida real e, consequentemente, restringindo suas proprias associacoes de cores instintivas e mostrando associacoes de cores semelhantes as de nao portadores' (Li, Wu & Li, 2016, p. 556, traducao nossa).

3 Procedimentos metodologicos

O presente estudo caracteriza-se como pesquisa exploratoria, de abordagem qualitativa e natureza aplicada, tendo como estrategia a analise visual de artefatos graficos, realizada pelas pesquisadoras. Apoiada por pesquisa bibliografica, a analise tecnica comparou a configuracao cromatica original dos artefatos com simulacoes, realizadas em computador, de como sao vistos por individuos portadores de deficiencias na visao das cores. Os artefatos foram selecionados por conveniencia, com base nos seguintes criterios:

(1) embalagens comumente expostas a grande numero de pessoas, cujo design utiliza um codigo de cores na comunicacao de atributos do produto; (2) o codigo baseia-se nos tres matizes diretamente relacionados as deficiencias na visao cromatica (azul, verde, vermelho).

Com base nessas diretrizes, o corpus de analise foi composto por tres embalagens de um mesmo produto alimenticio, disponivel em tres sabores distintos, que sao diferenciados nas embalagens pelo seguinte codigo de cores: azul ciano para o sabor 'original', verde amarelado para a variedade 'cebola e salsa' e vermelho para o sabor 'churrasco' (figura 01). No design, existe redundancia da informacao de sabor, apresentada tambem atraves de texto verbal, porem sem a presenca de imagens ou outros recursos visuais alem das cores, que cumprem o papel de diferenciar as embalagens, antecipando a informacao.

Inicialmente foram identificadas as cores de maior importancia/ destaque nas embalagens. Na figura 01 estao demarcados os pontos onde foram coletadas as amostras de cores para analise, com a utilizacao da ferramenta de conta-gotas do software Illustrator. Respectivamente as amostras 1, 2, 3 e 4 caracterizam a marca e se repetem nas tres embalagens com pequenas alteracoes; enquanto a amostra 5 indica o sabor do produto, variando entre as embalagens.

A ferramenta de simulacao empregada para obter imagens compativeis com o modelo de visao das cores dos portadores de deficiencia foi o Coblis--Color Blindness Simulator (disponivel em: http://www.color-blindness.com/coblis-color-blindness-simulator/), que utiliza diferentes algoritmos para buscar aproximacao com a visao de portadores de daltonismo. As imagens das embalagens foram adicionadas individualmente na ferramenta, obtendo-se simulacoes para os tres tipos de discromopsia: (1) protanopia ou deficiencia para o vermelho; (2) deuteranopia ou deficiencia para o verde, e (3) tritanopia ou deficiencia para o azul.

Apos a realizacao das simulacoes, as cores foram especificadas utilizando-se os sistemas: (1) RGB, para registrar os valores de vermelho, verde e azul contido em cada amostra; e (2) HSB, para anotar os niveis de matiz, saturacao e claridade de cada cor, para fins de comparacao.

4 Resultados

Na Figura 2 sao apresentadas as imagens obtidas atraves do simulador, mostrando como as embalagens sao vistas por individuos portadores de (1) protanopia, (2) deuteranopia e (3) tritanopia.

4.1 Analise comparativa entre as cores originais e cores obtidas nas simulacoes

Para a amostra de cor 1 (matiz vermelho), na simulacao da protanopia, ocorreram alteracoes em todas as variaveis da cor (quantidades de vermelho, verde e azul que compoem amostra, e niveis de matiz, saturacao e claridade). Percebe-se uma relacao entre a reducao dos niveis de vermelho e aumento nos niveis de verde, indicando um possivel mecanismo de compensacao na visao deficiente. Como apontado por Ishihara (1972), existem mudancas nos angulos dos matizes (variavel H), assim como e possivel observar reducoes nos niveis de claridade e saturacao (tabela 1).

Na simulacao da deuteranopia tambem ocorreram alteracoes nos valores atribuidos as variaveis da cor (tabela 1), especialmente uma reducao nos niveis de vermelho e de claridade, causando uma descaracterizacao do aspecto original da amostra de cor 1. Observa-se que a deficiencia para a captacao do verde (deuteranopia) altera consideravelmente a percepcao da cor vermelha (tabela 1).

Na simulacao da tritanopia, por sua vez, nao foram percebidas grandes alteracoes na amostra de cor 1 (matiz vermelho).

A amostra de cor 2 (amarelo-alaranjado) foi extraida da representacao grafica do produto alimenticio. A amostra possui altos niveis de vermelho e verde na sua composicao, alem de alta saturacao e claridade (tabela 2). Ao ser observada sob a perspectiva de um portador de protanopia, percebe-se reducao no nivel de vermelho em conjunto com aumento nos niveis de verde e azul, bem como variacao no angulo do matiz, e reducao nos niveis de saturacao e brilho. Apesar dessas alteracoes nas caracteristicas da amostra, entende-se que nao ha descaracterizacao da cor, que permanece na faixa amarela do espectro.

Na deuteranopia, as alteracoes nos niveis de vermelho e verde nao foram representativas, porem ha um aumento de 97 pontos nos niveis de azul (tabela 2). Ha uma reducao de 38% no nivel de saturacao, mas poucas mudancas no angulo do matiz e nivel de claridade. Sob a perspectiva de um portador de deuteranopia, a amostra de cor 2 assemelha-se a cor percebida na visao tricromatica, apesar das diferencas mencionadas.

Ainda para a amostra de cor 2, na simulacao da tritanopia, os niveis de azul aumentam de forma consideravel, nao havendo alteracoes relevantes nos niveis de vermelho e verde. Os niveis de RGB sao altos, bem como o nivel de claridade. A grande alteracao no angulo do matiz e a reducao no nivel de saturacao implicam na descaracterizacao da cor, tal qual percebida por observadores sem deficiencia.

A amostra de cor 3 (matiz laranja), tambem foi extraida da imagem que representa o produto alimenticio. Na protanopia, ha indicio de descaracterizacao em relacao a cor vista pelo observador sem deficiencia, devido a reducao nos niveis de vermelho e aumento nos niveis de verde e azul (tabela 3). A alteracao no angulo do matiz demonstra aproximacao com a area do espectro onde estao localizadas as cores de comprimentos de onda medios.

Na deuteranopia, houve reducao nos niveis de vermelho e azul, com elevacao no nivel de verde (tabela 3). A minima variacao no angulo do matiz e dos niveis de saturacao e claridade preservam a aparencia planejada para a cor.

Ja na tritanopia, percebe-se uma grande variacao no nivel de azul, bem como no angulo do matiz, de forma a elevar todos os niveis de RGB (tabela 3) e deslocar a amostra de cor para outra area do espectro visivel. Houve tambem grande reducao no nivel de saturacao da cor e algum aumento de claridade. A amostra de cor 3, na simulacao da visao de portadores de tritanopia, perdeu sua caracterizacao.

A amostra de cor 4 (matiz azul) relaciona-se a marca do produto e ocupa grande parte da superficie da embalagem, compondo um grafismo junto as cores utilizadas para identificar os sabores. Caracterizando-se por alto nivel de azul e baixos niveis de vermelho e verde (tabela 4), a amostra sofre alteracoes minimas em seu aspecto quando observado por portadores de protanopia e deuteranopia.

Na simulacao da tritanopia, por sua vez, ha grande reducao nos niveis de vermelho e azul, seguido por aumento no nivel de verde (tabela 4). Tais variacoes associadas a reducao no nivel de claridade, e a mudanca no angulos do matiz resultaram num aspecto diferente da cor vista pela visao tricromatica. A amostra de cor 4, ao ser observada por portadores de tritanopia, possui alguma descaracterizacao, tornando-se mais escura e mais esverdeada.

Nas embalagens, as amostras de cor 5 indicam variedades do produto (sabores). Conforme ja mencionado, sao utilizadas tres cores distintas para o codigo: azul ciano para o sabor 'original', verde amarelado para 'cebola e salsa' e vermelho para 'churrasco'. Na figura 4 sao apresentadas as amostras de cores de cada variedade de sabor e suas versoes obtidas atraves de simulacao. Os valores de RGB e HSB estao disponiveis respectivamente nas tabelas 5 e 6.

O azul ciano (R 0, G 170, B 214), que identifica o 'sabor original', quando observado por um portador de deficiencia dos tipos protanopia e deuteranopia mantem-se na faixa do azul, mas torna-se menos esverdeado e menos saturado (figura 4). Para o observador portador de tritanopia, porem, amostra de cor permanece mais proxima a aparencia da cor vista pelo observador sem deficiencia, apesar da reducao nos niveis de azul e de claridade (tabelas 5 e 6).

A cor verde amarelada (R 121, G 181, B 67) que indica a variedade 'cebola e salsa' descaracteriza-se na simulacao dos tres tipos de deficiencia. Para o observador portador de protanopia, ha alteracoes em todas as caracteristicas da cor, com destaque para o aumento no nivel de vermelho, deslocando o angulo de matiz de 90 para 45 (tabelas 5 e 6). Apesar dessas alteracoes, a amostra ainda permanece na faixa do espectro visivel correspondente as cores de comprimento de onda medio, sendo na protanopia a aparencia menos distante daquela vista pelo observador normal.

Para o portador de deuteranopia, tambem ha aumento no nivel de vermelho, neste caso modificando o angulo do matiz no espectro visivel para 38[degrees] e tornando a percepcao da cor mais distante da sua aparencia projetada. Por fim, para o portador de tritanopia, ocorre a descaracterizacao da amostra de cor, com aumento nos niveis de azul, deslocando a posicao do matiz de 90 para 197 (tabela 6). Para o vermelho (R 231, G 40, B 39), que no codigo de cores significa o sabor 'churrasco', quando observado por portadores de protanopia e deuteranopia ocorrem as maiores discrepancias em relacao a cor proposta para o design. Na protanopia, ha queda nos niveis de vermelho, saturacao e brilho, acompanhados de aumento nos niveis de verde e azul. Estas alteracoes associadas ao deslocamento do matiz de 0 para 48 (tabela 6) tornam o aspecto da cor muito diferente. Na deuteranopia, a descaracterizacao da cor planejada e provocada pela diminuicao nos niveis de vermelho e azul e elevacao do nivel de verde (tabela 5). E, assim como mencionado por Ishihara (1972), o estimulo recebido por um portador de deficiencia cromatica resulta em uma cor com reducao nos niveis de saturacao e brilho.

Para a simulacao do observador de tritanopia, as alteracoes foram minimas e nao descaracterizaram a cor observada.

5 Discussao

Conforme Arnheim (2005), a diferenciacao entre figura e fundo--um mecanismo basico da percepcao visual--so e possivel atraves da cor, seja por diferencas de claridade ou de matiz. Sob esse aspecto, considerando o observador tricromata (sem deficiencia), nas embalagens em estudo ha uma clara distincao entre as cores. Nas simulacoes da visao de portadores de deficiencia cromatica, apesar das distorcoes sofridas pelas cores, os contrastes de claridade das imagens preservaram a percepcao das figuras, grafismos e tipografias dispostos nas embalagens, indicando nao haver prejuizo na visualizacao da informacao grafica e textual.

Nas embalagens analisadas, as cores cumprem as funcoes de atrair a atencao e antecipar informacao, sendo utilizadas para representar ao menos dois aspectos distintos da comunicacao: (1) conceitos e valores da marca e (2) variedades do produto (sabor do alimento). Nestas embalagens, tanto a comunicacao dos conceitos associados a marca quanto o uso da cor para atrair a atencao estao relacionados a variedade de cores, sua alta saturacao e a intensificacao dos contrastes causados pela justaposicao dos matizes.

Para alem de cores isoladas, emprega-se um conjunto de cores quentes e frias de alta saturacao (que inclui vermelho, azul, amarelo alaranjado e laranja, alem de branco) para representar valores e conceitos da marca e do produto--relacionados a ideia de juventude, diversao e movimento--conceitos tambem expressos pela composicao, grafismo e demais elementos visuais. Esta estrategia de design e compativel com o repertorio dos observadores com visao tricromatica, considerando-se que 'Cores intensas tem sido associadas aos sentidos de energia, calor, emocao [...]' (Pereira, 2012), e sao frequentes em produtos destinados ao publico jovem.

Ja na visao dos portadores de deficiencia na visao da cor, embora haja indicacoes de que em contextos especificos possam fazer associacoes entre cores e significados semelhantes as de nao portadores (Li, Wu & Li, 2016), no presente estudo foi observada uma importante descaracterizacao do projeto cromatico da embalagem. Isto ocorreu sobretudo nas simulacoes da protanopia e deuteranopia, nas quais a percepcao da cor vermelha e perdida (figuras 2 e 4), alem das distorcoes observadas em outras cores, a baixa saturacao e o escurecimento, modificando os tipos e intensidade dos contrastes. Mesmo considerando-se que os portadores possam construir seus proprios repertorios ao longo da vida, adaptando-se as limitacoes da deficiencia, e que possam ser influenciados pelas associacoes dos nao portadores, tais repertorios nao tem sido alvo de estudo e pesquisa e nao sao conhecidos a ponto de se prever suas interpretacoes dos significados das cores na presente analise.

Quanto ao codigo de cores que diferencia os sabores, sabe-se que a comunicacao baseada nesse tipo de codigo e mais eficiente quando as cores possuem alto nivel de diferenciacao entre si e sao construidas fortes associacoes entre os matizes e os significados a eles atribuidos. Conforme Arnkil (2013, p.144, traducao nossa) 'quanto mais naturalistica e intuitiva a conexao entre a cor e os dados, mais facil sera a leitura das informacoes.'

Nas embalagens analisadas, considerando os observadores com visao tricromatica para cores, o codigo apresenta clara distincao entre os matizes (azul ciano, verde amarelado e vermelho) e as relacoes entre cores e significados nao sao arbitrarias, relacionando o repertorio do observador a informacao que se quer transmitir. O sabor 'original' e identificado pelo azul ciano, fazendo associacao a cor tradicional da embalagem (azul) ja conhecida pelos consumidores. O verde amarelado para 'cebola e salsa', que faz analogia a cor do ingrediente, assim como o vermelho para o sabor 'churrasco' (remetendo a cor da carne) podem ser consideradas conexoes intuitivas.

Porem, para os portadores de deficiencia cromatica, dificuldades na distincao das cores tambem afetam o aspecto intuitivo no uso dos matizes, consequentemente afetando a compreensao de informacoes (Kvitle, Pedersen & Nussbaum, 2016). Como pode ser visto nas figuras 2 e 4, nas simulacoes da protanopia e deuteranopia, as cores verde amarelada e vermelha sao percebidas como cores semelhantes entre si, dificultando a distincao entre as embalagens das variedades 'cebola e salsa' e 'churrasco'. Desse modo, as distorcoes observadas nas cores podem implicar em dois ruidos no processo comunicativo: a possivel nao compreensao da relacao entre a cor e o significado que lhe foi atribuido; e a ambiguidade de percepcao causada pela semelhanca entre as cores do codigo.

Segundo Kvitle, Pedersen & Nussbaum (2016), os observadores portadores de deficiencia na visao das cores cometem um numero maior de erros de percepcao com niveis baixos de luminosidade. Portanto, nas embalagens estudadas, e possivel que os portadores de protanopia e deuteranopia tenham maior dificuldade para identificar os sabores apenas observando suas cores, uma vez que as cores do codigo cromatico, conforme observadas na simulacao, geram um contraste menor que o originalmente planejado, pela alteracao dos matizes e escurecimento das cores.

Nas simulacoes da deficiencia cromatica do tipo tritanopia (figura 5), existem alteracoes em relacao aos matizes projetados, porem os contrastes presentes podem auxiliar na diferenciacao entre as variedades do alimento. Neste caso, o processo comunicativo sofre com ruidos inerentes a falhas na percepcao da cor, porem sua funcao de identificar e diferenciar os produtos pode ser eficiente.

6 Consideracoes finais

A cor enquanto sensacao e captada pelos olhos e interpretada pelo cerebro, podendo apresentar diferentes aspectos mediante alteracoes no entorno. Tais variacoes sao previstas, em se tratando da percepcao das cores, mesmo entre observadores com visao tricromatica. Nas palavras de Arnheim (2005, p. 321) 'Nunca alguem tera certeza de que seu vizinho ve uma determinada cor exatamente da mesma maneira como ele proprio'. Contudo, os mecanismos de adaptacao do sistema perceptivo humano tendem a desconsiderar tais variacoes, de onde o que chamamos de vermelho ou verde nao se restringe a um determinado comprimento de onda da luz, mas a uma faixa do espectro visivel.

Para os individuos daltonicos, tais mecanismos nao estao suficientemente explicados. Partindo do 'principio da visao reduzida', as simulacoes emulam a percepcao dos diferentes tipos de deficiencia na visao das cores, tornando-se uma ferramenta importante para se avaliar a informacao cromatica contida no design. Segundo Lidwell, Holden & Butler (2011), produtos se tornam acessiveis quando individuos com diferentes caracteristicas podem utiliza-los sem a necessidade de modificacoes e/ou adaptacoes. Nesse sentido, ao se utilizar cores para transmitir informacoes, as diferencas de percepcao entre individuos portadores de deficiencia e nao portadores devem ser consideradas para facilitar a compreensao da informacao.

Os simuladores auxiliam no entendimento da percepcao visual de observadores daltonicos. Porem, nao se podem inferir relacoes entre cores e significados quando o observador possui deficiencia cromatica visual, uma vez que no processo de interpretacao nao apenas a captacao da cor interfere, mas tambem o repertorio do observador e o contexto em que esta inserido. A analise utilizando simuladores possibilita aos designers a identificacao de possiveis ruidos e ambiguidades presentes na interface da embalagem, permitindo alteracoes nos projetos visando a comunicacao eficaz da informacao cromatica e reducao de erros. Mas, nao substitui a realizacao de experimentos com individuos portadores.

Uma vez que os portadores de deficiencia cromatica podem construir suas proprias associacoes e mecanismos de identificacao das cores, recomenda-se a realizacao de experimentos com individuos daltonicos, utilizando-se embalagens em que as cores tenham a funcao de antecipar e reforcar a informacao.

Referencias

ARNHEIM, R. (2005). Arte e percepcao visual: uma psicologia da visao criadora. Sao Paulo: Pioneira Thomson Learning.

ARNKIL, H. (2013). Colours in the visual world. Helsinki: Aalto Arts Books.

ERLANDSON, R. F. (2008). Universal and accessible design for products, services, and processes. New York: Taylor & Francis Group.

FEISNER, A & REED, R. (2014). Color studies. 3. Ed. New York: Bloomsbury.

FRASER, T. & BANKS, A. (2007). O guia completo da cor. Sao Paulo: Senac Sao Paulo.

FLUSSER, V. (2013). O Mundo codificado. Sao Paulo: Cosac Naify.

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LIDWELL, W., HOLDEN, K. & BUTLER, J. (2011). Principios Universais do Design. Porto Alegre: Bookman.

LOGVINENKO, A. D. 2014. On the colours dichromats see. Color Research & Application. Vol. 39, Issue 2. Apr 2014. pp. 112-124.

PEDROSA, I. (2010). Da cor a cor inexistente. 10. ed. Rio de Janeiro: Senac Nacional.

PEREIRA, C. (2012). A cor como espelho da sociedade e da cultura: um estudo do sistema cromatico do design de embalagens de alimentos. Tese (Doutorado). Sao Paulo: Universidade de Sao Paulo.

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STEWART, B. (2010). Estrategias de design para embalagens. Sao Paulo: Editora Blucher.

Sobre as autoras

Wanessa Mayara Braz de Souza

<wanessa.mayara@gmail.com>

Mestranda do Programa de Pos-Graduacao em Design Universidade Federal de Campina Grande

Carla Patricia de Araujo Pereira

<carlapereira.ufcg@gmail.com>

Doutora pela Universidade de Sao Paulo Professora do Programa de Pos-Graduacao em Design Universidade Federal de Campina Grande

Artigo recebido em 05/11/2018

Artigo aceito em 04/05/2019

Caption: Figura 1 Identificacao das cores nas embalagens. Fonte: Elaborado pelas autoras, a partir de imagens disponiveis em: https://www.facebook.com/RufflesOficial/.

Caption: Figura 2 Simulacao de como as embalagens sao vistas por individuos dicromatas (daltonicos). Fonte: Elaborado pelas autoras, a partir de imagens disponiveis em: https://www.facebook.com/ RufflesOficial/; utilizando o Coblis--Color Blindness Simulator, disponivel em: http://www.colorblindness.com/coblis- color-blindness-simulator/.

Caption: Figura 3 Amostras de cor 5.1, 5.2 e 5.3 (codigo de cores) vistas pelo observador tricromata e na simulacao da visao de daltonicos. Fonte: Elaborado pelas autoras.

Caption: Figura 4 Simulacao de embalagem vistas por individuos dicromatas (daltonicos). Fonte: Elaborado pelas autoras, a partir de imagens disponiveis em: https://www.facebook.com/RufflesOficial/; utilizando o Coblis--Color Blindness Simulator, disponivel em: http://www.color-blindness.com/ coblis-color-blindness-simulator/.

Caption: Figura 5 Simulacao de embalagem vistas por individuos portadores de tritanopia. Fonte: Elaborado pelas autoras, a partir de imagens disponiveis em: https://www.facebook.com/RufflesOficial/; utilizando o Coblis--Color Blindness Simulator, disponivel em: http://www.color-blindness.com/ coblis-color-blindness-simulator/.
Table 1 Valores em RGB e HSM da amostra de cor 1.
Fonte: Elaborado pelas autoras.

    Embalagem   Prota nopla   Deuteranopia   Tritanopia

R   212         123           140            213
G   40          112           105            40
B   39          56            22             39
H   0           49            40             0
S   81%         54%           83%            81%
B   83%         48%           54%            83%

Table 2 Valores em RGB e HSM da amostra de cor 2.
Elaborado pelas autoras

R   255    234    255       255
G   202    210    201       190
B   5      12     102       202
H   46     52     38        343
S   93%    94%    60%       25%
B   100%   92%    100%      100%

Table 3 Valores em RGB e HSM da amostra de cor 3.
Elaborado pelas autoras

    Embalagem   Prota nopla   Deuteranopia   Tritanopia

R   252         213           240            255
G   174         190           130            165
B   25          30            19             176
H   33          52            42             351
S   89%         85%           91%            34%
B   93%         83%           94%            100%

Table 4 Valores em RGB e HSM da amostra de cor 4.
Elaborado pelas autoras

R   30    0      0      0
G   64    63     72     78
B   152   144    124    S3
H   223   210    204    183
S   80%   100%   100%   100%
B   59%   56%    49%    32%

Table 5 Valores em RGB das amostras de cor 5.1, 5.2 e 5.3.
Elaborado pelas autoras

Sabor do Produto   Embalagem         Prota nopla
                   R     G     B     R     G     B

Sabor Original     0     170   214   145   156   205
Cebola e Salsa     121   131   67    135   166   62
Churrasco          213   40    33    124   112   57

Sabor do Produto   Deuteranopia      Tritanopia
                   R     G     B     R     G     B

Sabor Original     134   154   219   0     173   137
Cebola e Salsa     204   157   75    136   169   133
Churrasco          141   106   21    214   41    40

Table 6 Valores em HSM das amostras de cor 5.1, 5.2 e 5.3.
Elaborado pelas autoras

Sabor do Produto   Embalagem          Protanopia

                   H     S      E     H      S     E

Sabor Original     192   100%   83%   228    29%   30%
Cebola e Salsa     90    62%    70%   49     66%   72%
Churrasco          0     31%    83%   43     53%   43%

Sabor do Produto   Deuteranopia       Tritanopia

                   H      S     E     H      S      E

Sabor Original     225    33%   35%   183    100%   73%
Cebola e Salsa     33     63%   30%   197    25%    71%
Churrasco          42     53%   55%   0      31%    33%
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Author:de Souza, Wanessa Mayara Braz; de Araujo Pereira, Carla Patricia
Publication:Brazilian Journal of Information Design
Date:May 1, 2019
Words:4648
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