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The Unconscious--from the meaning of the Significant to the Jouissance of the Letter: A Lacanian Study/O inconsciente--do sentido do significante ao gozo da letra: um estudo lacaniano/El inconsciente--del sentido del significante al goce de la letra: un estudio lacaniano.

Na trajetoria do psicanalista frances Jacques Lacan (1901-1981), o Seminario 18, de 1971, examina a possibilidade de haver um discurso que nao fosse da ordem do semblante. Lacan (1971/2009) confere ao termo semblante um estatuto de equivoco ligado a propria ordem significante: "Esse semblante e o significante em si" (p. 14). Assim, ele situa a letra, nao como efeito dos discursos atravessados pelo sentido do significante, mas como um modo de abordar o real enquanto impossivel:

Se algo chamado inconsciente pode ser semidito como estrutura linguageira, e para que finalmente se nos apareca o relevo do efeito de discurso que ate entao nos parecia impossivel, ou seja, o mais-de-gozar. Sera que isso significa, seguindo uma de minhas formulacoes, que, na medida em que era como impossivel, ele funcionava como real? [...] O discurso inconsciente [...] e a emergencia de uma certa funcao do significante. O fato de ele haver existido ate entao como insignia e justamente a razao de eu o haver situado para voces no principio do semblante. Mas as consequencias de sua emergencia, isso e que deve ser introduzido para que alguma coisa mude --algo que nao pode mudar, porque isso nao e possivel. Ao contrario, e por um discurso centrar-se como impossivel, por seu efeito, que ele teria alguma chance de ser um discurso que nao fosse semblante (Lacan, 1971/2009, p. 21).

Pode-se localizar, em Lacan, um movimento que vai do inconsciente estruturado como uma linguagem em direcao ao real da letra desarticulada de sua vertente de sentido? E o que propoe o presente artigo, pesquisa teorica (Couto, 2010), em que se utilizou o metodo historico-sistematico, privilegiando uma aporetica critica, de corte sincronico, que compreende as elaboracoes concernentes a natureza, funcao e desenvolvimento do conceito investigado: a relacao entre as nocoes de inconsciente, letra e significante. Relacao aqui nao recortada no Primeiro Classicismo (Milner, 1996) ou Primeiro Ensino de Lacan (Miller, 2003) nos anos 1950, nem tampouco num desenvolvimento diacronico de seu arcabouco conceitual. Contextualmente, o presente estudo se delimita no Lacan dos anos 1970, quando formula novas elaboracoes sobre a letra em suas articulacoes com o gozo e suas repercussoes na teoria do inconsciente nesse ultimo periodo de seu ensino. Assim, esta pesquisa busca apontar como esses conceitos se relacionam sincronicamente e formam uma especie de rede, que nao anula outros momentos do ensino de Lacan sobre o inconsciente, mas especifica um momento importante e complexo de sua obra.

Consideracoes sobre a letra em Lacan

No inicio dos anos 1970, as elaboracoes de Lacan sobre a letra caminham na direcao de orientar construcoes de pontos importantes da experiencia analitica. A letra, subordinada ao campo da fala e do significante articulado, vai, a partir de outro estatuto, tornar-se referencia importante no ultimo ensino de Lacan sobre o inconsciente. Periodo no qual se verifica uma promocao da escrita e da letra frente ao significante (Mandil, 2003).

As relacoes entre letra e significante nem sempre foram passiveis de uma definicao precisa em Lacan (Milner, 1996; Mandil, 2003). Se no Seminario sobre "A Carta Roubada" (Lacan, 1955/1998c) a letra se encontra na funcao de transmissao (letter) de uma mensagem, ao mesmo tempo em que nela ha outra natureza inerente a sua materialidade (litter), ela esta ai relacionada com sua vertente significante. O conto de Edgar Allan Poe serve para Lacan estender as teorizacoes sobre o significante no inicio de seu ensino. Lacan (1955/1998c), ao comentar que a singularidade da carta/letra esta em "poder sofrer um desvio que ela tem um trajeto que lhe e proprio" (p. 33), encontra na nao funcionalidade do significante, o fato deste nao se limitar a funcao de transportador de uma mensagem (Mandil, 2003).

Na Instancia da letra no inconsciente ou a razao desde Freud (Lacan, 1957/1998d), a letra e pensada sob a primariedade do significante como elemento tipografico, equivalendo a uma estrutura fonematica, atraves da qual Lacan visa trazer para o primeiro plano das reflexoes psicanaliticas a primazia da ordem simbolica, sobretudo no que se refere ao campo da fala (Mandil, 2003). Segundo Milner (1996), Lacan emprega duas nocoes relacionadas: a literalidade da letra e o sentido do significante. Todavia, diz o autor, "as nocoes de letra e de significante se obscurecem mutuamente; nem o carater significante nem o carater literal da matematica poderiam receber status inteiramente determinado" (Milner, 1996, p. 97).

No inicio dos anos 1970, Lacan ira distinguir, de maneira mais aprimorada, as nocoes de letra e de significante. Distincao que constitui um dos pivos do que Milner (1996) denomina Segundo Classicismo Lacaniano. No Primeiro Classicismo, ter-se-ia o periodo que se segue, principalmente, a Funcao e campo da fala e da linguagem em psicanalise (Discurso de Roma, 1953), e os desdobramentos referentes a enfase no significante e na estrutura de linguagem do inconsciente. Porem, a imprecisao das nocoes de letra e significante caracteriza uma das instabilidades desse periodo, o que, destaca Milner (1996), vem estabelecer o Segundo Classicismo, como um momento em que Lacan tenta transmitir a psicanalise atraves dos matemas, levando em conta a operacao de literalizacao promovida pela logica e pelas matematicas.

Consoante Milner (1996), se a distincao entre letra e significante se confunde no Lacan dos anos 1950, ela se esclarece e se aperfeicoa no Segundo Classicismo, no inicio dos anos 1970. O significante, sendo somente relacao, representa "para" e e aquilo por meio do qual ele representa. Assim, ele so se define pela oposicao e nao adquire valor senao por sua combinatoria encarnada no campo das relacoes de diferenca com outros significantes. Sendo somente relacao de diferenca, o significante e sem positividade, sem qualidade e nao identico a si. Ao passo que a letra e capaz do principio de positividade e de identidade consigo mesma, e qualificada, no sentido de ter uma fisionomia e de encarnar uma materialidade, um suporte sensivel, um referente (Milner, 1996). Diferente do significante que so existe em oposicao a outro, a letra, com suas qualidades e identidade, pode ser rasurada, apagada, abolida. E, sendo deslocavel, e manipulavel, empunhavel, transmissivel:

Por essa transmissibilidade propria, ela transmite aquilo que ela e, no meio de um discurso, o suporte; um significante nao se transmite e nada se transmite: ele representa, no ponto das cadeias onde se encontra, o sujeito para um outro significante (Milner, 1996, p. 104-105).

Na setima licao do Seminario 18, Lacan se refere a letra a partir de um jogo com a palavra Literatura e, fazendo um chiste (Witz), diz Lituraterra. So depois vai buscar fundamentacao lexica, pois "nao me submeto forcosamente a etimologia quando me deixo levar pelo jogo de palavras com que as vezes se cria o chiste" (Lacan, 1971/2009, p. 105), justifica. Assim, Lacan (1971/2009) contrapoe literatura (do latim, littera, de letra) a lituraterra (do latim, litura, rasura) e traz, tambem, outro campo semantico, o litter (lixo), para se referir a dimensao de resto irredutivel, atribuida a letra na perspectiva de lituraterra.

Ao tambem partir do equivoco dos jogos de linguagem, Lacan (1971/2009) se compara ao escritor irlandes James Joyce, cuja escrita leva-o a deslizar de "a letter para a litter", isto e, "de uma carta/letra para um lixo" (pp. 105-106). Diz que Joyce nada ganharia se houvesse se submetido a "psicanalise" com Jung, que, segundo sua biografia, fora-lhe of erecida. Isso porque, ao fazer da letra liteiralixo--litiere de la lettre, lugar de dejetos, lixo--, Joyce vai direto "ao melhor que se pode esperar da psicanalise em seu termino" (Lacan, 1971/2003c, p. 15). Assim, Lacan aponta para uma forma singular de operacao da escrita como resto irredutivel as dimensoes de sentido. De modo que o fazer lixo da letra joyciano seria "o primeiro exemplo de um uso da letra que nao seria do semblant porque estaria exatamente rompendo com a funcao de encobrimento que e a essencia da ordem significante" (Rego, 2005, p. 210).

Lacan (1971/2003c) retoma do Seminario sobre A Carta Roubada a outra natureza da carta/letra, que nao a dos efeitos da mensagem que ela transmite. Sendo suporte material e estrutura localizada do significante, a letra tem valor de materia distinta do proprio significante que ela carrega. Mas isso "nao equivale a fazer metafora da epistola", pois segundo Lacan (1971/2003c), "o conto consiste em que se transmita como um passe de magica a mensagem, com que a carta faz peripecias sem ela" (p. 17). O nao fazer da letra metafora da epistola se refere ao fato de que a carta e portadora de uma mensagem, de um significante, "na medida em que ela o carrega em seu envelope" (Lacan, 1971/2009, p. 107). Contudo, no conto de Poe, a carta faz peripecias sem a mensagem e produz efeitos em seus detentores sem que a mensagem seja dada a conhecer. Porem, nao se deve confundir letra com significante, pois, nao ser metafora da epistola faz da carta/letra um elemento em que se produz um apagamento da mensagem e dos efeitos significantes que ela veicula, situando-a, assim, em uma materialidade desarticulada de sentido.

Nao bastou a Lacan reafirmar a materialidade da letra como estrutura tipografica localizada do significante, ou um significante esvaziado de sentido. Nos anos 1970, Lacan busca abordar a letra em conexao com o campo pulsional, o campo do gozo. Ao promover a letra sobre o sentido do significante, interessa a ele o fato do significante nao possibilitar responder por tudo o que se passa em uma psicanalise (Vieira, 2005; Mandil, 2003).

Duas dimensoes da letra: sentido e gozo, saber inconsciente e real

Lacan recorre a metafora do litoral para articular as duas dimensoes da letra: sentido e gozo; saber inconsciente e real. O litoral, distinto da fronteira, e um campo inteiro e completamente estrangeiro e heterogeneo frente a outro, com o qual nao possui nenhuma reciprocidade, nenhum denominador comum. Contudo, ao mesmo tempo em que separa mar e terra, o litoral tambem conjuga esses dois campos, fazendo existir um furo na descontinuidade da passagem de um campo ao outro (Mandil, 2003).

Para Lacan (1971/2003c), a letra se situa na condicao de "literal a ser fundado no litoral" (p. 109), enlacando os dois campos descontinuos e heterogeneos da experiencia analitica: o saber articulado na cadeia significante e o gozo. Pres-tando-se tanto ao gozo quando ao saber, a letra/ litoral e aquilo que faz borda no furo do saber. Ela desenha, faz contorno ao que escapou ao discurso do semblante, encontrando-se no litoral do furo que ha no limite daquilo que a cadeia significante produziu de significado (Rego, 2005). E nesse limite da interpretacao que surge a questao do gozo, que envolve a experiencia analitica, e sobre o qual e curioso constatar como a psicanalise se obriga "a reconhecer o sentido daquilo que a letra, no entanto, diz ao pe da letra, [...] quando todas as suas interpretacoes se resumem ao gozo" (Lacan, 1971/2009, pp. 109-110).

A dimensao litoral da letra nao impede que o inconsciente seja estruturado como uma linguagem, onde ela tem instancia. E necessario, entao, saber como o inconsciente comanda a funcao da letra introduzida como lituraterra. Enquanto instrumento apropriado a inscricao de um discurso que nao fosse do semblante, a letra nao e impropria para servir aquilo que foi apontado em A instancia da Letra, como podendo designar a substituicao significante na metafora ou o deslocamento significante na metonimia (Lacan, 1971/2009). Ela "simboliza facilmente, portanto, todos esses efeitos de significante, mas isso de modo algum impoe que ela, a letra, seja primaria nesses mesmos efeitos para os quais me serve de instrumento", diz Lacan (1971/2009, p. 110). Para Rego (2005), Lacan nao se refere aqui a uma estruturacao temporal--primaria ou secundaria--da letra, mas sim, topologica, onde algo na linguagem convoca o literal para o litoral. Lacan (1971/2009) pondera que,
   Nada do que escrevi, com a ajuda de letras, sobre
   as formacoes do inconsciente, para resgata-las
   daquilo com que Freud as enuncia mais simplesmente,
   como fatos de linguagem, nada permite
   confundir, como se tem feito, a letra com o significante.
   O que escrevi com a ajuda de letras sobre as
   formacoes do inconsciente nao autoriza a fazer da
   letra um significante, e a lhe atribuir, ainda por cima,
   uma primazia em relacao ao significante (p. 110).


Letra e significante: as "nuvens" em Lituraterra

Lacan se refere a uma rota de retorno de uma viagem ao Japao, em que, da janela do aviao, viu por entre as nuvens, a planicie siberiana. Referencia a qual ele so foi possivel se ater, devido ao contato que tivera com a escrita japonesa, na qual experimentara essa dimensao de litoralidade da letra (Rego, 2005):

E foi assim que me apareceu, irresistivelmente, numa circunstancia a ser guardada na memoria, isto e, entre as nuvens, o escoamento das aguas, unico traco a aparecer, por operar ali ainda mais do que indicando o relevo nessa latitude, naquilo que e chamado de planicie siberiana, uma planicie realmente desolada, no sentido proprio, de qualquer vegetacao, a nao ser por reflexos, reflexos desse escoamento, que empurram para a sombra aquilo que nao reluz (Lacan, 1971/2009, p. 113).

O escoamento visto por Lacan era comparado a um buque, indo do conjunto, a partir de um centro, para um espalhamento, por meio do qual ele distingue o traco primario e a marca de seu apagamento, uma rasura, pela qual o sujeito e designado (Rego, 2005; Lacan, 1971/2005). Contudo, Lacan (1971/2009) situa a letra como "rasura de traco algum que seja anterior" (p. 113). Assim, distintamente de um traco primario e a rasura que o apaga, e de cuja conjuncao se origina o sujeito, Lacan separa a rasura do traco e diz que a facanha de uma caligrafia consiste em produzir sozinha, definitivamente, uma rasura sem a anterioridade do traco. Litura pura, rasura pura, cuja funcao seria "reproduzir a metade com que o sujeito subsiste" (Lacan, 1971/2009, p. 113), sua metade outra, objeto perdido, la onde o sujeito subsiste em busca dessa metade sem par.

A letra/rasura seria analoga a uma terra coberta de lituras, "sucessao de tracos que se recobrem, cada um deles buscando em seu gesto, como tentativa de aproximacao, a palavra apropriada para designar aquilo que se quer dizer" (Mandil, 2003, p. 50). Aproximacao do que e irrepresentavel e impossivel de se escrever. Se Lacan faz referencia a caligrafia, e nela introduz a dimensao de uma rasura sozinha, ele esta pressupondo a inexistencia de um referencial gramatical, do Outro que ordena a escrita e sua correcao normativa? Pergunta que se formula a partir do momento em que Lacan (1971/2009) coloca em xeque a ordem do discurso e do semblante. Nao e a toa que ele faz referencia a Aristofanes e sua peca As nuvens, na qual o comediante grego rompe com os semblantes:

O que se revela por minha visao do escoamento, no que nele a rasura predomina, e que, ao se produzir por entre as nuvens, ela se conjuga com sua fonte, pois que e justamente nas nuvens que Aristofanes me conclama a descobrir o que acontece com o significante, ou seja, o semblante por excelencia, se e de sua ruptura que chove esse efeito em que se precipita o que era materia em suspensao (pp. 113-114, grifo nosso).

Para Rubiao (2007), a evocacao das nuvens de Aristofanes, feita por Lacan, consiste em "demonstrar a conexao entre o significante e o semblante, cuja ruptura deixa entrever os efeitos de gozo" (p. 139). Lacan (1971/2003c) questiona que, se a ruptura da nuvem dos semblantes dissolve o que constituia forma, fenomeno, meteoro, e sobre o qual a ciencia opera ao perpassar o aspecto, "nao sera tambem por dar adeus ao que dessa ruptura daria em gozo que o mundo, ou igualmente o imundo, tem ali pulsao para figurar a vida?" (p. 22). A comedia de Aristofanes faz alusao as nuvens como representantes das particularidades mutantes do pensamento e das palavras que servem para tudo (Rubiao, 2007). De modo que, por sua textura vaporosa, volatil e instavel, as nuvens aludem ao significante, o semblante por excelencia. Como os significantes, as nuvens tocam no campo do parecer, criando o equivoco das pareidolias encontradas no intercambio de suas imagens. Mas, tambem, elas possuem um componente de violencia, que gera raios, trovoadas estrondosas e tempestades, "elemento dramatico que vincula dois campos heterogeneos: o do campo do pensamento (etereo, volatil) e o do corpo na sua materialidade escatologica de resto e dejeto" (Rubiao, 2007, p. 137).

Para Miller (2011), em Lituraterra, a doutrina do significante e apresentada como meteorologia, diferindo-se da mecanica estrutural da cadeia significante, pela qual Lacan se refere ao significante como elemento claro, distinto e fundamental da linguagem, e de que tambem dependem as formulas da metafora e da metonimia. Com o termo nuvem, Lacan se distancia da referencia a cadeia significante, uma vez que a nuvem consiste num elemento que nao se distingue e de onde nao se pode reconhecer a possibilidade de isolar elementos discretos. Desse modo, Lacan reintroduz o significante como

uma nuvem de onde comeca a produzir-se um gotejamento. Esse gotejamento percebido por entre as nuvens, que oculta um espetaculo de algum modo anulado, impressiona como se chovessem rasuras, riscaduras. E como se se reencontrasse um dos primeiros esquemas de Saussure, que implica tambem, como antes da distincao dos elementos, um esquema nebuloso (Miller, 2011, p. 229).

O significante, que antes se encontrava na terra a mortificar o corpo, agora assume a forma de nuvem em suspensao no ceu a precipitar. Por sua vez, na terra, nao existe senao vegetacao, reflexos e erosoes, barrancos que sulcam o gozo e o significado, que chovem do significante. Se o significante localizado na nuvem ilustra supostamente o que o simbolico tem em comum com o semblante, no campo do real se abrem sulcos prontos para dar acolhida ao gozo (Lacan, 1971/2009). Lacan identifica a escritura e a letra com os sulcos cavados pela precipitacao de gozo, no real, quando as nuvens dos semblantes se rompem. As nuvens carregadas de chuva, enquanto campo simbolico, sao nuvens de significantes, semblantes por excelencia, algo de nebuloso que nao se captura, mas que comporta um elemento que escorre--o gozo. Elemento que, retornando a nuvem, faz parte de sua mesma natureza. Isso aponta para uma dimensao de gozo que a linguagem comporta, que nao apenas sentido e interpretacao significante. Aquilo que se rompe e se precipita sobre a terra faz sulcos, escrita, ravinas, imagem exemplar das ranhuras das letras que passam a veicular essa substancia gozante. Ou seja, "o que se evoca de gozo ao se romper um semblante, e isso que no real se apresenta como ravinamento das aguas" (Lacan, 1971/2003c, p. 22).

Uma constelacao de insignias: Lacan e o sujeito japones

As particularidades da lingua japonesa tambem serviram para Lacan demonstrar como o sujeito japones e um sujeito dividido pela linguagem como em toda a parte, mas que "um de seus registros pode satisfazer-se com a referencia a escrita, e o outro, com a fala" (Lacan, 1971/2003c, p. 24). Assim, tem-se, nao um sujeito dividido entre o significante S1 articulado ao S2, mas "um sujeito que se satisfaz oscilando entre o escrito e o falado, entre a letra e o significante" (Vieira, 2005, p. 93), e dai o fato de o sujeito japones escrever uma coisa e falar outra. A letra, apoio do significante, tambem e promovida como um referente que muda o estatuto do sujeito, de modo que o sujeito em sua identificacao fundamental, nao se apoia apenas no traco unario das identificacoes advindas do Outro, mas em um "ceu constelado" (Lacan, 1971/2003c, p. 24). Ressaltando o fato de Lacan (1960/1998f) ja ter se referido a "constelacao dessas insignias que constitui para o sujeito o Ideal do Eu" (p. 686), Miller (2012) destaca a mencao do termo constelacao e nao cadeia, como tambem a troca do termo significante por insignia. Lacan introduz uma oposicao entre cadeia e constelacao, distinguindo a identificacao fundamentada nos tracos agrupados na cadeia significante, onde S1 representa o sujeito para S2, e o sujeito surge dividido nesta representacao ($).

Ao referir-se a constituicao do Ideal do Eu como constelacao de insignias, Lacan aponta para uma reducao do Outro como cadeia significante. O significante "vale como insignia sempre e quando estiver solto, isto e, fora do sistema" (Miller, 2012, p. 149). Isso implica em que o sujeito se tome pelo Um, por uma substancia, "campo em que ele se hipostasia no Ideal do Eu" (Lacan, 1960/1998f, p. 686). Com o termo tomista "hipostasia", Lacan nao esta se referindo a uma representacao significante entre S1 e S2, mas a uma posicao de substancia, de hipostase do sujeito, na qual ele e Um sozinho (Miller, 2012). Como Vieira (2005) destaca que, ao apresentar o Ideal do Eu como uma constelacao de insignias,

Lacan deixa indicado que os tracos que o sujeito toma emprestados ao Outro podem funcionar como significantes civilizadores que, alem de representa-lo, fazem com que seja reconhecido pelo Outro, mas podem tambem se soltar do sistema significante, serem extraidos da cadeia significante, e se transformarem em insignias que existem tout seul, absolutamente sos [...] Redutores do Outro, esses significantes soltos (desencadeados, portanto!) operam fora do sistema simbolico na sua face representativa e comunicativa, fundada na logica simbolica. Neste sentido, eles operam como letra (pp. 98-99).

Solto do sistema, o estatuto do significante opera como letra, unidade nao diferencial nem referente no campo da linguagem (Milner, 1996), mas significante sozinho, que, como tal, nao significa nada. O S1 e Um-entre-outros, e nao para com os outros no sentido de serem articulados (Lacan, 1972-1973/1985). A referencia a constelacao de insignias abre margem para um giro teorico na teoria do inconsciente de Lacan, ao elevar o significante a categoria de letra que nao faz cadeia (S1-S2), mas "S1, S1 que soa em frances essaim, um enxame significante, um enxame que zumbe" (Lacan, 1972-1973/1985, p. 196).

Para Lacan (1972-1973/1985), esse Um dos S1s do enxame, encarna em lalingua (lalangue) algo que resta indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, e mesmo todo o pensamento: "e o de que se trata no que chamo de significante-mestre. E o significante Um" (p. 196). Com lalingua, Lacan inaugura um novo aparelho conceitual originario da lalacao (do latim, lallare), do cantarolar para adormecer, do arrulho da crianca que nao fala, mas emite sons disjuntos de qualquer sentido e nao separados de um estado de contentamento. Lalingua evoca a lingua emitida antes da linguagem estruturada sintaxicamente, onde a significacao ainda nao se encontra e nao tem a ver com nenhum lexico. E a "rasura de traco algum que seja anterior" (Lacan, 1971/2009, p. 113), pois falta em seu campo uma ordem, um tratamento das palavras e do sentido que se convenciona a elas (Soler, 2012).

A funcao da fala e da linguagem enquanto mensagem enderecada ao Outro e, agora, secundaria e derivada de lalingua (Miller, 2000). Esta nao possui o carater dialogico da fala, servindo para coisas inteiramente diferentes da comunicacao, posto que opere enquanto gozo: "Se a comunicacao se aproxima do que se exerce efetivamente no gozo da lalingua, e que ela implica a replica, dito de outro modo, o dialogo. Mas lalingua, sera que ela serve primeiro para o dialogo? [...] nada e menos garantido que isso" (Lacan, 1972-1973/1985, pp. 188-189). Antes secundario a estrutura de linguagem, cuja funcao era metaboliza-lo em significantes, o gozo, com lalingua, ganha sua primazia. E, assim, a linguagem enquanto aquilo "como o que o inconsciente e estruturado, diz Lacan, [...] de comeco, ela nao existe. A linguagem e o que se tenta saber concernente a funcao da lalingua" (Lacan, 1972-1973/1985, p. 189).

A ruptura da linearidade, do movimento de associacao e representacao (S1-S2) da cadeia significante tera como consequencia, outro estatuto do sujeito. O sujeito constelar, situado na perspectiva do enxame introduz, com a nocao de letra, a desconexao dos significantes (S1//S2) no inconsciente (Vieira, 2005). A letra se atrela a lalingua, na medida em que subsiste la onde o isso fala sozinho, sem dialogo, no inconsciente, que nesse caso consiste, diz Lacan (1972-1973/1985), em "que o ser, falando, goze e, acrescento, nao queira saber de mais nada [...] nao saber de coisa alguma" (p. 143).

O inconsciente, do sentido ao gozo: transferenciai e real

Nesse sentido, teriamos dois modos de conceber o estatuto do inconsciente? Aquele da articulacao em cadeia (S1-S2) em que um significante representa o sujeito para outro significante; e o outro da existencia dos Uns do enxame de significantes (S1, S1, S1), que se inscrevem como letra? Um inconsciente discursivo captado na linguagem falada e um inconsciente escritural (letrificado), que se sustenta "ali onde so ha S1, letra que se repete" (Vieira, 2005, p. 164)? Considerando esta suposicao, pretende-se, agora, discutir esses dois modos de concepcao do inconsciente, situando as indagacoes verificadas no campo teorico sobre uma nocao do inconsciente, calcado na estrutura da linguagem e a outra no gozo da letra que desarticula o sentido e se coloca como real. Como ressalta Lacan (1971/2009): "sera preciso eu destacar uma oposicao. A escrita, a letra, esta no real, e o significante, no simbolico" (p. 114). Tratam-se, assim, de duas nocoes do inconsciente, que autores psicanalistas contemporaneos tem discutido, a partir de interpretacoes dos textos de Lacan: o inconsciente transferencial e inconsciente real (Miller, 2009; Soler, 2012).

O termo "inconsciente real" nao e uma expressao encontrada diretamente no texto de Lacan, mas deriva de uma formulacao en passant, encontrada no Prefacio a Edicao Inglesa do Seminario 11, escrito em 1976:

Quando o esp de um laps--ou seja, visto que so escrevo em frances, o espaco de um lapso--ja nao tem nenhum impacto de sentido (ou interpretacao), so entao temos [se tem a] certeza de estar no inconsciente. O que se sabe, consigo [...] Notemos que a psicanalise, desde que ex-siste, mudou. Inventada por um solitario, teorizador incontestavel do inconsciente (que so e o que se cre, digo: O inconsciente, seja, o real--caso se acredite em mim), ela e agora praticada aos pares. (Lacan, 1976/2003b, p. 567, grifo nosso).

Para Miller (2009), esse escrito "merece ser lido de perto" (p. 12), uma vez que Lacan o escreve apos proferir O Seminario, livro 23, O Sinthoma (1975-1976). Chama atencao a disjuncao entre o inconsciente e a interpretacao, numa exclusao entre funcao da interpretacao e funcao do inconsciente. O que se acredita saber da articulacao do inconsciente e posto em vacilacao, de modo que Lacan segue no sentido avesso de sua tese anterior do desejo inconsciente como sua interpretacao, marcante, por exemplo, no Seminario 6, O Desejo e sua Interpretacao (Miller, 2009). Se para Lacan, o desejo e algo a ser colocado no cerne da teoria e da experiencia analitica, trata-se de fazer um enlacamento entre o desejo e a interpretacao. Tendo como energia psiquica a libido a ser investida nas marcas mnemicas deixadas pela primeira experiencia de satisfacao, o desejo marca a dependencia do sujeito dos significantes advindos do Outro, que o constituem na linguagem. E assim, a experiencia analitica fundada na fala deve se esforcar por fazer emergir algo alem da demanda do sujeito, sendo ai situado o desejo inconsciente como sua interpretacao.

Contudo, no Prefacio, Lacan enuncia uma separacao, uma desconexao entre o significante do lapso e o significante da interpretacao (Miller, 2009). O lapso--que, enquanto formacao do inconsciente, implica significacao e se situa no dominio dos efeitos de sentido da interpretacao significante --quando ja se encontra desprovido de sentido, e aquilo que atesta estar no inconsciente, que ja nao suporta nenhum impacto de sentido (Lacan, 1976/2003b). Nessa frase, diz Miller (2009),
   pode ficar imperceptivel, por ser colocado na
   abertura--na abertura desse texto [por se tratar de
   um prefacio], mas no fechamento do Seminario
   sobre Joyce--, o fato de ela admitir, se a lermos
   tal como o faco aqui, que S1 nao representa nada,
   ele nao e um significante representativo. Isso ataca
   o que consideramos como o proprio principio da
   operacao psicanalitica, uma vez que a psicanalise
   tem seu ponto de partida no estabelecimento minimo
   S1-S2 da transferencia (p. 13).


Se o inconsciente e mobilizado a partir da transferencia que o causa, na medida em que atualiza sua realidade e articula a representacao do sujeito entre S1 e S2, destaca-se a condicao do sujeito enquanto suposto saber, uma vez que, sendo efeito de significantes, nao pode ser substancializado, nao sendo suposto senao "pelo significante que o representa para outro significante" (Lacan, 1967/2003a, p. 253). Na Proposicao de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola, Lacan destaca a transferencia no comeco da psicanalise e o sujeito suposto saber que "e, para nos, o eixo a partir do qual se articula tudo o que acontece com a transferencia" (Lacan, 1967/2003a, p. 253). O matema da transferencia mostra como "o suposto desse sujeito coloca o saber em seu lugar de adjacencia da suposicao" (Lacan, 1967/2003a, p. 253):

Na figura 1, sobre a barra, situa-se o significante S de um sujeito que implica, na forma de um enderecamento ao Outro, um significante qualquer (Sq), supondo outras coisas mais, em termos de sentido. A cadeia minima S1-S2 e, entao, homologa ao matema lacaniano, na medida em que "S1 e o significante da transferencia em seu laco com S2, um significante qualquer" (Miller, 2009, p. 13). Sob a barra, o s representa, como resultado, o sujeito em posicao de significado que implica, dentro dos parenteses, "o saber, supostamente presente, dos significantes que estao no inconsciente, significacao esta que faz as vezes do referencial ainda latente na relacao terceira que o liga ao par significante-significado" (Lacan, 1967/2003a, p. 254). Nesse sentido, Miller (2009) propoe que o inconsciente, tomado no status de posicao suposta do sujeito, e um inconsciente transferencial, um inconsciente que pode ser interpretado, uma vez que, ao longo de uma analise, "e pela transferencia que tornamos presente, mobilizamos e lemos o inconsciente" (p. 14).

Miller (2009) aponta certa "negacao" desse inconsciente transferencial, quando, na frase inicial do Prefacio, Lacan diz que o espaco de um lapso ja nao tem nenhum efeito de interpretacao ou sentido. Ou seja, tem-se a certeza de se estar no inconsciente, quando nao se opera a conexao da transferencia, quando nao ha conexao entre S1 e S2. Desse modo, Miller destaca um termo sartreano, empregado por Lacan--o em-si e o para-si --, detendo com interesse os pedacos da frase "se tem certeza", "o que se sabe, consigo (on le sait, soi)", a partir dos quais afirma nao se tratar do inconsciente que Lacan articulou no registro da intersubjetividade ou no da inter-significancia (S1-S2), mas de um se (on) que se sabe consigo, sozinho, cortado, de um inconsciente que nao faz amizade, pois "nao ha amizade que esse inconsciente suporte" (Lacan, 1976/2003b, p. 267). Esta amizade, como "expressao generica com a qual designamos o laco entre o Um e o Outro"--e atraves da qual a escansao do espaco de um lapso permite passar por um movimento amistoso de ajuda a associacao livre--nao existe enquanto suporte desse inconsciente (Miller, 2009, p. 16).

Ressalta-se, tambem, no Prefacio, a palavra histoeria, quando, ao se referir ao dispositivo do passe como o momento de verificacao da historisterizacao da analise, Lacan (1976/2003b) diz que, depois de uma analise, "o analista so se historisteriza por si mesmo" (p. 568). Histoeria comporta, assim, uma associacao entre as palavras histeria e historia. A historia requer a articulacao do Um com o Outro, estabelecida no dominio da simbolizacao como "condicao de existencia para a realidade", uma vez que "o que nao esta escrito no simbolico in-existe" (Miller, 2009, p. 34). Por sua vez, na histeria, o Um articulado ao saber advindo do campo do Outro (S1-S2) possibilita a simbolizacao de um sintoma no nivel do corpo, transparecendo a incidencia no inconsciente, do discurso e do desejo do Outro. A histoeria se encontra, portanto, no ambito do inconsciente transferencial, discurso do Outro articulado na cadeia significante (Miller, 2009).

Ao dizer que somente se esta no inconsciente quando o espaco de um lapso ja nao tem nenhum impacto de sentido ou interpretacao, e que nao existe amizade que esse inconsciente suporte, Lacan faz vacilar a articulacao do inconsciente na palavra e na producao de sentido da historia. Nesse caso, o inconsciente nao e interpretativo, visto que S1 esta sozinho e desarticulado da cadeia de significantes, nao se encontrando, portanto, no dominio da histoeria. Assim, ha no inconsciente, uma dimensao simbolica relacionada a historia, e uma dimensao real, do isolamento de S1s da cadeia significante, que testemunham um rompimento da historia do sujeito (Miller, 2009). Isso faz retornar a uma variante do "significante no real", pelo qual Lacan, nos anos 1950, definiu inicialmente a alucinacao na psicose.

Lacan (1954/1998b), a partir de Freud, discute o processo de simbolizacao primaria na constituicao subjetiva. Para que algo entre na historia do sujeito, e preciso que um elemento--a castracao --seja simbolizado primariamente (Bejahung). A alucinacao, ao contrario, e o retorno de um conteudo que escapou a essa simbolizacao primaria, nao sendo incorporado na historia do sujeito no nivel do simbolico. Assim, a alucinacao se contrapoe a todo processo de estruturacao do inconsciente constituido nos significantes articulados na historia do sujeito (Lacan, 1953/1998a,). De modo que o psicotico, diz Lacan, e testemunha do inconsciente, que se mostra a ceu aberto, ao passo que o neurotico da um testemunho encoberto de sua existencia, convocando a decifracao, a uma restauracao autentica do sentido que ele testemunha e partilha no discurso dos outros (Lacan, 1955-56/2008).

A alucinacao, portanto, coloca em cena esse elemento que nao se submete as leis da cadeia significante, restando erratico, do lado de fora da simbolizacao (Lacan, 1954/1998b). Como o termo Verwerfung, Lacan define a nocao operadora da psicose, distinguindo-a do mecanismo do recalque (Verdrangung) na neurose. A Verwerfung--foraclusao --tem o sentido de expulsao, supressao e rejeicao de uma simbolizacao (Lacan, 195556/2008; Lacan, 1958/1998e). De modo que "tudo o que e recusado na ordem simbolica, no sentido da Verwerfung, reaparece no real" (Lacan, 195556/2008, p. 21). Ou seja, aquilo que no processo de estruturacao do sujeito nao sofreu uma afirmacao (Bejahung) primordial no conjunto de significantes, resta do lado de fora da simbolizacao, excluido da realidade psiquica. E nao podendo retornar na historia do sujeito, no dominio do inconsciente, do recalque e o retorno do recalcado, retorna no sem sentido do real, do qual a alucinacao e testemunha. Assim, na psicose, nao ha uma assuncao ao inconsciente estruturado como linguagem, pois este "permanece excluido para o sujeito, nao assumido --mas, porque ele aparece no real" (Lacan, 1955-56/2008, p. 21). O inconsciente esta presente na psicose, mas nao funciona, pois porta um significante que se coloca exterior ao sujeito, uma vez que, lhe sendo dado primitivamente, nao entrou no encadeamento simbolico de sua historia, ficando solto no real, como um significante puro (Lacan, 1955-56/2008).

Joyce e suas epifanias

Em 1975 e 1976, Lacan profere o Seminario 23, dedicado a Joyce. Se, no Seminario sobre A Carta Roubada e em Lituraterra, Lacan faz referencias aos trocadilhos (a letter, a litter) feitos no cenaculo do escritor (Lacan, 1955/1998c) e sobre o fato de que, ao fazer lixo da letra, Joyce vai direto ao melhor que se pode esperar de uma psicanalise em seu termino (Lacan, 1971/2003c), essas referencias nao sao sem consequencias para a teoria da clinica do ultimo periodo de seu ensino. Segundo Vieira (2005), nao seria despropositado o encontro de Lacan com a lingua japonesa, que o leva a afirmar que o sujeito japones, alem do traco unario, tambem se apoia num ceu constelado para sua identificacao. Assim, o sujeito das insignias constelares lhe abre passagem para suas "ultimas elaboracoes, nas quais a cadeia significante e o enxame de letras desembocam na escritura topologica" (Vieira, 2005, p. 165).

Uma vez que o Prefacio foi redigido logo depois do Seminario 23, por que motivo ele "merece ser lido de perto" (Miller, 2009, p. 12)? Qual a relacao entre o espaco de um lapso que ja nao comporta sentido ou interpretacao e o teor do seminario sobre Joyce, tendo em vista que referencias a esse escritor irlandes perpassam sutilmente alguns dos textos de Lacan? Quais as consequencias disso para a interpretacao analitica e para o estatuto da letra no inconsciente?

No Seminario 23, Lacan se serve da topologia do no borromeano para tracar uma perspectiva notavel no ultimo tempo de seu ensino, comumente conhecido como a clinica do sinthoma ou a clinica borromeana--que pode ainda ser denominado, com Miller (2003), o Ultimo Ensino de Lacan, ou ainda, o periodo da Desconstrucao, se nos ativermos a proposta de Milner (1996).

Segundo Lacan (1975-1976/2007), a palavra sinthoma (de sinthome, no frances) remete a antiga forma de escrita francesa da palavra symptome, de origem grega. O no borromeano--originario do brasao da familia dos Borromeos no Seculo XV e que serviu como recurso topologico aos desenvolvimentos da matematica de Guilbaud--enlaca tres aros de cordas de barbante equivalentes. Sua caracteristica e a de que o rompimento de um dos aros implica na liberacao de todos os outros. Pode-se construir uma cadeia borromeana com mais de tres nos, desde que se respeite tal caracteristica (Kaufman, 1996). Lacan se utiliza de tres cordas de barbante, nomeando cada uma delas, como Real, Simbolico e Imaginario (RSI), sendo a configuracao do no borromeano, a representacao estavel do enlacamento desses tres registros. Contudo, ele considera um erro pensar que o no borromeano de tres, seja uma norma em relacao aos tres registros como

tres funcoes que so existem uma para outra em seu exercicio no ser que, ao fazer no, julga ser homem. A perversao [perversion] nao e definida porque o simbolico, o imaginario e o real estao rompidos, mas sim, porque eles ja sao distintos, de modo que e preciso supor um quarto [no] que, nessa ocasiao, e o sinthoma (Lacan, 1975-1976/2007, p. 20-21).

Assim, para Lacan (1975-1976/2007) e "preciso supor tetradico o que faz o laco borromeano" (p. 21). A citada perversao tem o sentido de ser somente pere version (em direcao ao pai) do no --homofonia na lingua francesa com perversion. Desse modo, Lacan se refere a existencia, nao apenas do Nome-do-Pai, mas de uma pluralizacao de nomes-do-pai, dos quais cada sujeito se serve para estabelecer o laco de RSI: "O pai e um sinthoma ou um sintoma, se quiserem" (p. 21). O Nome-do-Pai e, entao, esse quarto no capaz de enlacar os tres registros: O real denominado como ex-sistencia, ou seja, o que esta fora de toda e qualquer significacao; o simbolico, que faz furo no real, insistindo em uma significacao; e o imaginario, que fornece consistencia a imagem corporal, conferindo uma identificacao do sujeito com o corpo (Lacan, 1975-1976/2007, p. 49). Assim, o Nome-do-Pai equivale a um dos nomes do sinthoma: NP = [summation] (figura 2).

Lacan recorre a topologia dos nos para ler e formalizar o que se passa com Joyce. Sua arte que, como ja dissera, vai de a letter para a litter, constituira o paradigma do sinthoma, suplencia da firmeza falica. Para Lacan (1975-1976/2007), o sentido e algo situado no campo entre o imaginario e o simbolico, e o sinthoma, um artificio do qual se lanca mao para reparar o erro da cadeia borromeana. Assim, na ocorrencia de um erro no qual o simbolico venha a se soltar, o meio de reparacao e o sinthoma, que "permite ao simbolico, ao imaginario e ao real continuarem juntos, ainda que, devido a dois erros, nenhum mais segure o outro" (p. 91).

Lacan (1975-1976/2007) relaciona o sinthoma de Joyce a uma carencia radical da funcao paterna para esse escritor. Nao se trata da carencia de um pai real, mas de uma Verwerfung de fato, que testemunha a demissao do Nome-do-Pai. A solucao apresentada nesse caso e o que Lacan chama de nome proprio. Ou seja, Joyce, ao fazer com sua escrita um nome proprio, opera uma compensacao da carencia do Nome-do-Pai:

Por que nao conceber o caso de Joyce nos termos seguintes? Seu desejo de ser um artista que fosse assunto de todo o mundo, do maximo de gente possivel, em todo caso, nao e exatamente a compensacao do fato de que, digamos, seu pai jamais foi um pai para ele? Que nao apenas nada lhe ensinou, como foi negligente em quase tudo, exceto em confia-lo aos bons padres jesuitas, a Igreja diplomatica? [...] Nao ha nisso alguma coisa como uma compensacao dessa demissao paterna, dessa Verwerfung de fato, no fato de Joyce ter se sentido imperiosamente chamado? Essa e a palavra que resulta de um monte de coisas que ele escreveu. E a mola propria pela qual o nome proprio e, nele, alguma coisa estranha (Lacan, 1975-1976/2007, p. 86).

Assim, a arte da escritura de Joyce constitui o nome proprio de seu sinthoma. E, se e o Nome-do-Pai aquele que nomeia e permite sustentar a realidade psiquica, na falta dele e preciso inventar, como Joyce o fez, um nome proprio, uma invencao sinthomatica, artificio singular "que da a arte da qual se e capaz um valor notavel" (Lacan, 19751976/2007, p. 59). Lacan, de um modo jocoso, comenta que:

como ele [Joyce] tinha o pau um pouco mole, se assim posso dizer, foi sua arte que supriu sua firmeza falica. E e sempre assim. O falo e a conjuncao do que chamei de esse parasita, ou seja, o pedacinho de pau em questao, com a funcao do falo. E e nisso que sua arte e o verdadeiro fiador de seu falo (Lacan, 1975-1976/2007, p. 16).

Segundo Soler (1998), Lacan reconhece na escrita joyciana uma literatura que desordena o sentido, e que aponta para um paradoxo entre a arte da literatura, que pressupoe uma articulacao entre letra e sentido, e a arte da "riscadura" (Soler, 1998, p. 93), que Joyce empreende no decurso de sua obra. Nos escritos de Joyce, o que se encontra e uma arte que deprecia o simbolo condensador de sentido. Ha mais "riscadura"-- coisa estranha, nas palavras de Lacan--do que escrita a se ler, mais lituraterra que literatura. Todavia, nao se trata de uma escrita qualquer, mas de uma invencao, um work in progress com a letra, que vai se afastando e se desarticulando da lingua inglesa--lingua materna do escritor--indo na contramao da significacao e da via do sentido, para desembocar no sem sentido dos significantes, numa tentativa sempre frustrada de tocar o impossivel (Bulcao, 2008).

Se o equivoco constitui uma arma contra o sinthoma, sendo entao "preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe" (Lacan, 1975-1976/2007, p. 18), a interpretacao analitica do sintoma pressupoe a existencia de um significante recalcado, que, nesse equivoco da fala do sujeito o faz emergir. Diferentemente, Joyce se utiliza do equivoco para fazer existir (ex-sistir) o inconsciente fora do campo da interpretacao e do significante articulado ao outro na cadeia simbolica. De modo que, ao subtrair a letra da cadeia de sentido, Joyce a desconecta do inconsciente, fixando-a pelo gozo (Soler, 1998).

A relacao de Joyce com sua escrita aponta para a existencia de uma aversao do escritor ao que e evidente, a metafora produtora de efeitos de sentido (Soler, 1998). Isso pode ser constatado no que Joyce denomina como epifanias, fazendo referencia a tecnica de tomar uma manifestacao, cena ou frase, isolando-as de qualquer contexto, de modo que se apresentam frequentemente em formas fragmentarias de dialogos, como significantes puros, isolados de toda significacao, instantes descontinuos, residuos de palavras, imagens, cenas e sonhos, ressonancias e ecos (Millot, 1993). As epifanias de Joyce foram coletadas separadamente em cadernos, na forma de pequenos fragmentos de textos que ocorrem na terceira pessoa, isolados do contexto narrativo, em transmissao impessoal e estatica, que permitira seu enxerto posterior ao longo de sua obra (Mandil, 2003).

Se as epifanias ocupam na obra de Joyce um lugar singular, traco que testemunha uma experiencia inefavel ou espiritual inaugural, "sobre a qual fundou a certeza de sua vocacao de escritor" (Millot, 1993, p. 144), elas sao tambem um buraco negro no universo joyciano, pois marcam um nao senso radical. O termo epifania (emprestado da liturgia catolica), nao intitula simplesmente os poemas em prosa dos escritos de Joyce, uma vez que nao se tratam de poemas, mas ao modo de "aerolitos, pedras caidas de outro mundo", constituem-se frases anodinas que "cativam muito mais por seu carater enigmatico que por seu valor poetico" (Millot, 1993, p. 144). Representam, assim, "um fracasso cuja razao deve ser interrogada: se valem como traco de uma ocorrencia espiritual, parecem representar mais seu residuo, seu dejeto do que sua expressao" (Millot, 1993, p. 145), ou seja, sua liteiralixo.

Millot (1993) tece uma comparacao entre a experiencia espiritual dos misticos e as epifanias de Joyce. Para ela, o encontro com o real em si mesmo opaco e resistente ao sentido, que se impoe como incontestavel e incontornavel, e que chega ao sujeito como que vindo de fora, numa estranheza radical com tudo o que foi vivido antes, e algo em comum nos dois casos. Contudo, tal ocorrencia exige ser simbolizada, historicizada, integrada no tecido dos dizeres, onde cada um tem seu lugar de sujeito. O mistico e esse que se esforca por inscrever sua experiencia em um discurso religioso, que seja susceptivel de lhe fornecer sentido. Contudo, comenta Millot (1993),

a particularidade, sempre singular, do vivido nao se esgota ai e requer ainda a invencao de um dizer novo, no seio mesmo do discurso onde ele ai se inscreve, a fim de transmitir essa singularidade que insiste. E assim que os misticos fazem obras de poeta: quando inventam as metaforas que produzirao, no lugar desse real, um sentido novo que o fara aceitavel por aqueles que ainda permanecem fechados para essa ordem de experiencia (p. 145).

Fazer obra de poeta nao se refere, todavia, apenas ao fato de que misticos e poetas compartilhem desse trabalho metaforico de produzir sentidos. Mas, trata-se do fato de que o poeta tambem esta implicado nessa tarefa de simbolizacao de um real irredutivel. Assim, a "vocacao" do poeta e do religioso se coaduna, no sentido de se originar de um encontro com um real "que faz apelo a simbolizacao, apelo recebido como que vindo do Outro, e experimentado como exigencia, ou mesmo escolha" (Millot, 1993, p. 145). Por outro lado, se as epifanias joycianas referem-se a uma "tecnica que vai do dois, o dois necessario na escrita minima para definir um contexto--ou seja, S1-S2--ate o so um isolado [...], Joyce para construir suas epifanias rompe o contexto de sentido e extrai esse objeto, isolando-o como S1" (Soler, 1998, p. 97).

Assim, a diferenca dos misticos que fazem obra de poeta--como As Moradas de Santa Teresa de Avila ou a Noite Escura de Sao Joao da Cruz--, Joyce, de maneira singular, nao faz das epifanias nenhuma metafora do encontro com o real que lhe ocorre. Trata-se, antes, de "residuos metonimicos, balizas, marcos sem memoria, restos obscuros de uma conflagracao muda. Significacoes mortas, onde nao circula nenhum sentido novo, estas cenas, fragmentos de dialogo, parecem os testemunhos cegos e inuteis do indizivel" (Millot, 1993, p. 145). Em Joyce, o que ha sao letras, enxames, cujo carater trivial confina com o nao senso, pois o contexto do incidente relatado e suprimido. Um ponto essencial se refere ao fato de que as frases sao interrompidas ou repetidas ate fazer as palavras evacuarem seu sentido vazio e banal, impossibilitando um afivelamento da significacao, visando, assim, um efeito de nao senso. Esse carater destacavel de deslocamentos e recombinacoes das epifanias confere a elas um estatuto de letra que, "em Joyce, resulta de uma depuracao maxima do fragmento epifanico" (Mandil, 2003, p. 127). Joyce parte das epifanias e chega a profusao de jogos de letras em Finegans Wake (1939), seu ultimo romance (Mandil, 2003). Uma epifania, de 1901 ou 1902:

[Bray: na sala de visitas da casa em Martello Terrace]

Sr Vance--(vem com uma vara) ... Oh, a senhora sabe, ele tera que pedir perdao, senhora Joyce.

Sra Joyce--Oh, esta bem ... Voce esta ouvindo isso, Jim?

Sr Vance--Ou entao--se ele nao pedir as aguias virao e arrancarao seus olhos.

Sra Joyce--Oh, mas eu estou certa de que ele vai pedir perdao.

Joyce--(embaixo da mesa, para si mesmo)

Arrancar seus olhos,

Pedir perdao,

Pedir perdao,

Arrancar seus olhos.

Pedir perdao,

Arrancar seus olhos,

Arrancar seus olhos,

Pedir perdao (Joyce, 1993, p. 113-114).

Em um contexto do Retrato do Artista quando jovem (1916), sobre um incidente autobiografico ocorrido entre os anos 1887 e 1891, podemos localizar o "enxerto" da epifania supracitada: um texto em primeira pessoa, em cuja cena, Stephen Dedalus--alter ego do escritor--diz que vai se casar com a pequena Eileen, quando os dois crescerem: Disse e se escondeu debaixo da mesa. Sua mae ficou zangada:

--Stephen! Peca ja desculpas. Dante ameacou:

--Ahn! Se nao pedir, as aguias virao arrancar-lhe os olhos.

Arranca os olhos desse fregues ! Entao voce diz isso outra vez? Ah! Voce vai dizer outra vez? Arranca os olhos desse fregues! Entao voce diz isso outra vez? Arranca os olhos desse fregues! Arranca os olhos desse fregues! Ah! Ele nao diz mais outra vez! (Joyce, 1916/1987, p. 22).

Se no caso de Joyce ocorre uma Verwerfung de fato, demissao radical do Nome-do-Pai, Lacan (1975-1976/2007) interroga em que se pode reconhecer a loucura nesse escritor. Afinal, Joyce seria louco? As epifanias joycianas, em termos lacanianos, tratam-se dessa desconexao da cadeia significante, que isola o significante como letra, desarticulado de sentido, ou um significante no real. Contudo, Joyce tem uma solucao distinta de um desencadeamento psicotico classico. Suas epifanias, seu trato com a letra, constituem uma experiencia singular, sinthomatica (Cordeiro & Guedes, 2014), que nao chega a habitar o ser com o sentido metaforico dos poetas ou o delirio dos psicoticos classicos. Trata-se de um fazer letra, um saber fazer com o real numa escrita que "se reduz ao real da letra como sentido esvaziado, esvaziamento este que prepara a cama, o caminho do gozo de Joyce" (Millot, 1993, p. 147), o caminho do gozo da letra.

Consideracoes finais

Buscou-se com o presente artigo, fazer um percurso das teorizacoes sobre a letra em Lacan, em que se destaca o periodo do inconsciente estruturado como uma linguagem, nos anos 1950, e o da letra desvencilhada de sentido, no campo do real, nos anos 1970. Nesse ultimo, o inconsciente nao se apresenta estruturado como uma linguagem, mas letrificado, em S1s desencadeados, constituindo-se constelacao de insignias, signos do gozo. Nesse sentido, podemos afirmar que o inconsciente e real? Essa pergunta foi propositiva nesse estudo, na medida em que se encontrou na literatura psicanalitica a mencao de dois estatutos do inconsciente: o inconsciente transferencial, atravessado pelo sentido dos significantes, e o inconsciente real, da letra que fixa o gozo, em que S1 disjunto de S2 configura o sem sentido, enxame de significantes. Discussao, cujos ecos e desdobramentos nos interrogam, quando retomamos panoramicamente o que Lacan fala de Joyce no Seminario 23. Ao construir suas epifanias sob o non sense da letra, seria esse escritor o paradigma do inconsciente real? Se nao ha referencia direta sobre o inconsciente real em Lacan, Miller (2009) traz essa nocao num comentario sobre o Prefacio a edicao inglesa do Seminario 11.

Todavia, se nos ativermos a esses dois estatutos do inconsciente, a nosso entender, isso nao implicaria a existencia de dois inconscientes contrapostos entre si. Entende-se, com o enunciado de Lacan e as construcoes de Miller (2009), aquilo que enuncia--"ja"--os limites da interpretacao na experiencia analitica, que faz vacilar o sentido do sintoma, restando algo que escapa a interpretacao e comporta um gozo nao significantizavel, fixado pela letra, significante no real. Isso permite compreender o enunciado de Lacan em Lituraterra, quando diz que Joyce com sua letra vai "direto ao melhor que se pode esperar de uma psicanalise em seu termino" (Lacan, 1971/2003c, p. 15).

Se Miller chama a atencao para ler o Prefacio de perto, pelo fato de ter sido escrito ao fim do seminario sobre Joyce, qual a relacao de Joyce com o inconsciente real, uma vez que Lacan diz que Joyce, por meio de seu sinthoma, e "desabonado do inconsciente" (Lacan, 1975/2007, p. 160)? Desabonado, isto e, nao assinante, que nao avaliza mais, cancela um pacto contratual e desacredita de alguma coisa. Isso implica dizer que Joyce estaria desligado do inconsciente? Se assim o fosse, e se seu desligamento fosse do inconsciente estruturado como uma linguagem, ao fazer lixo da letra, Joyce se ligaria ao inconsciente real?

Fica no horizonte desta investigacao o fato de Lacan dizer que a linguagem e uma elucubracao de saber sobre lalingua (Lacan, 1972-1973/1985). Esta ultima, nao e dada ao dialogo, visto que nao e ordenada pelas leis da linguagem, mas pelo monologo dos S1s solitarios do enxame de significantes, sendo, por causa disso, concebida do ponto de vista do real do gozo que implica "ausencia de lei, pois o real nao tem ordem" (Lacan, 1975-1976/2007, p. 133). Se a linguagem, ao modo da qual o inconsciente e estruturado, e uma elucubracao de saber sobre o real da lalingua, por que, entao, denominar de inconsciente o "inconsciente real"? Surge-nos esta questao, uma vez que Lacan trata o real como distinto da verdade e do saber veiculados pela cadeia significante. Com isso, ele diferencia o campo do inconsciente do campo do real, ao afirmar que "a instancia do saber renovada por Freud [...] sob a forma de inconsciente, nao supoe obrigatoriamente de modo algum o real de que me sirvo" (Lacan, 1975-1976, p. 128). Real que se trata de uma invencao de Lacan (1975-1976/2007), "porque [diz ele] se impos a mim" (p. 128) como reacao a articulacao freudiana do inconsciente, atraves do qual a descoberta de Freud faz furo na razao cartesiana centrada na consciencia. Furo ao qual, por conseguinte, o ensino de Lacan e seu real vem reagir como resposta sintomatica. Interroga-se, portanto, o fato da discussao de Miller (2009) sobre o inconsciente real conjugar o inconsciente e o real em uma mesma expressao, nocoes que o proprio Lacan diferencia em seu seminario sobre o sinthoma. Questoes que nos remetem a novos estudos e pesquisas.

O ponto em que aportamos nao e, certamente, o ponto final da discussao sobre o inconsciente. Este artigo pretendeu mostrar que o sentido do significante e o gozo da letra sao balizas que apontam giros importantes na abordagem lacaniana do inconsciente. Todavia, Lacan ainda fara novos giros. As interrogacoes levantadas nessas consideracoes finais remetem, portanto, a novas investigacoes a serem contempladas num prosseguimento futuro de pesquisa. Contudo, isso nao seria possivel sem ter tracado o percurso de Lacan, seguindo seus textos de perto e soletrando alguns pontos teoricos cruciais de seu ensino, ainda por muitos considerado de dificil compreensao, mas que, devido a seu proprio hermetismo, transmite fascinio e deslumbra aqueles que se deixam levar por sua letra. Nesse sentido, o presente estudo pode se situar entre dois pontos: como convite a leitura enderecado aqueles que pouco compreendem Lacan, e para aqueles outros, ja familiarizados com o "lacanes", como convite a pesquisa e aos desdobramentos que o texto de Lacan sempre convoca.

Doi: http://dx.doi.Org/10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.4317

Referencias

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Recebido: Outubro 22, 2015

Aprovado: novembro 08, 2016

Everton Fernandes Cordeiro **, Marcia Maria Rosa Vieira Luchina ***

Universidade Federal de Minas Gerais

* Este artigo se trata originalmente de uma dissertacao de mestrado intitulada "Jacques Lacan: O inconsciente, do sentido do significante ao gozo da letra--um estudo teorico", defendida em 2015, no Programa de Pos-Graduacao em Psicologia (Estudos Psicanaliticos) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob a orientacao da Prof. Dr. Marcia Maria Rosa Vieira Luchina.

** Correspondencia. Correio eletronico: evertonf.cordeiro84@gmail.com.

*** Correio eletronico: marcia.rosa@globo.com

Caption: Figura 1: Matema da transferencia

Caption: Figura 2: Os tres aneis R, S, I, ligados pelo sinthoma ([summation])
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Author:Cordeiro, Everton Fernandes; Luchina, Marcia Maria Rosa Vieira
Publication:Avances en Psicologia Latinoamericana
Date:Dec 1, 2017
Words:9953
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