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The Uncanny in the work of Michael Borremans/O Uncanny na obra de Michael Borremans.

Introducao

Michael Borremans (1963) e um pintor e cineasta belga reconhecido pelo seu virtuosismo tecnico aliado a uma pintura figurativa com uma densidade de atmosfera e narrativa sombria onde nada parece aquilo que e. As suas pinturas, apelam a uma contemplacao onde narrativas aparentemente simples transportam ambiguidade latente de efigies soturnas que parecem esconder ou contar mais do que aquilo que aparentam.

A partir dessa ambiguidade diegetica das pinturas de Borremans aliada a carga melancolica e sombria das personagens que a povoam, que surge a associacao a um conceito Freudiano: o Uncanny.

O uncanny e um conceito que sumariamente se refere aquilo que e "o sentimento de algo ameacadoramente estranho."A partir deste texto de Freud, e em comparacao com a analise de varias pinturas deste autor, pretende-se propor uma reflexao sobre a viabilidade conceptual e pratica do uncanny como conceito motivador e subjacente de forma transversal no trabalho de Michael Borremans.

1. O Uncanny

O uncanny e um conceito que sumariamente se refere aquilo que e "o sentimento de algo ameacadoramente estranho." Apesar de este conceito ter sido apresentado pela primeira vez atraves do ensaio de Ernst Jentsch--On the Psychology of the Uncanny, em 1906, e o texto de Freud--Das Unheimlich, publicado em 1919, que continua a ser o principal foco de atraccao no fascinio do estudo da forma cultural e teoria do unheimlich.

Freud caracteriza o uncanny como um fenomeno pertencente a area da estetica, (Freud, 1994:209) identificando-o como "(...) duas esferas de ideias que, nao sendo opostas entre si, se encontram bastante distantes uma da outra." (Freud, 1994:215). Ou seja por um lado significa o que e familiar e agradavel, e por outro, o que esta dissimulado e escondido da vista. O uncanny, e um sentimento que que provoca um misto de atraccao e repulsa, manifestando-se em termos psicologicos perante o confronto com algo que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que por alguma razao que se tornou evidente.

Em The Uncanny, Freud procura explicar a origem do termo e de que forma o mesmo pode ser despoletado, assim como as razoes e mecanismos psicologicos subjacentes a esse sentimento. A partir do texto identificaram-se quatro elementos visuais, enquadrados nas caracteristicas imageticas a partir das quais o uncanny pode ser despoletado:

1 Bonecas/automatos: ou quando estamos presentes a incerteza de algo que esta animado/inanimado. Em termos visuais, esta caracteristica para se realizar esta intimamente relacionada com representacoes similares a seres humanos.

2 Duplo: para Freud este pode ser visto como um limite colateral entre realidade e ilusao, podendo ser reconhecido em espelhos, estatuas, fantasmas, e no desejo de evitar a morte. Tambem este elemento esta directamente relacionado com a representacao do ser humano. Essencialmente, o duplo provoca uma sensacao de uncanny pois a duplicacao serve por um lado para compensar o fim da morte fisica--ligado ao narcisismo primario e secundario--e para compensar o complexo de castracao--(pela duplicacao do orgao sexual).

3 Membros decepados: esta caracteristica encontra-se dentro do pensamento psicanalitico associada ao complexo de castracao. Claramente encontra-se tambem uma relacao com a morte, e a pensamentos animistas ou a questao do automato, relativo a cabecas decepadas ou a "pes que dancam por si sos."

4 Morte: A morte aqui nao esta apenas associada a morte fisica, mas igualmente ao regresso dos mortos, espiritos e fantasmas. Freud destaca a morte como a fonte mais incisiva do "sentimento de algo ameacadoramente estranho", pois defende que a nossa relacao com a morte foi dos poucos pensamentos/emocoes que sofreram menos alteracoes desde os tempos primitivos. (Freud, 1994:228)

O tema da morte no entanto esta presente de forma transversal em todos os elementos que possam despoletar o uncanny. Nao ha relacao de estranheza perante a visao de um membro decepado senao na sua associacao a parte ausente do corpo que corresponde a uma morte do todo ou a uma morte do membro perante a separacao do todo. E mesmo relativamente aos manequins ou automatos, e a ideia de um corpo sem vida que se move por si so--sem consciencia, sem aquilo que o torna humano--ou seja, sem vida--que causa a sensacao de uncanny. A propria questao do duplo tem tambem a ver com uma reproducao do ego perante o medo da morte fisica. Assim, o tema da morte tem uma repercussao continua ao longo de todos os temas visuais que podem despoletar o uncanny no receptor do trabalho.

Mas, nao basta a mera visao de um membro decepado ou de um automato para que algo seja uncanny. Segundo Freud, o efeito depende do modo de como o autor aborda a sua ficcao, dependendo da forma como a realidade se afasta ou coincide com a realidade que nos e familiar.

Quando uma narrativa se afasta demasiado da nossa realidade familiar ou quando o autor cria o seu proprio mundo de regras e personagens, desde que as mesmas cumpram os pressupostos dessa mesma realidade, nao existe o sentimento de uncanny.

O sentimento surge quando o autor simula respeitar o dominio da realidade familiar e entao introduz um dos elementos despoletadores desse sentimento, colocando o espectador ou receptor perante uma duvida genuina acerca daquilo que esta a acontecer.

E neste sentido que as pinturas de Michael Borremans recriam verdadeiramente esta acepcao, nao so pelo tipo de figuras utilizadas: manequins, membros decepados, referencias a morte, mas, tambem pela intangibilidade das suas narrativas, que criam no espectador uma ansiedade constante acerca do que esta realmente representado.

2. O Uncanny na obra de Michael Borremans

O trabalho de Michael Borremans (1963), encontra-se povoado por figuras carregadas de uma ambiguidade latente, entre uma aparencia humana sonambolistica ou de manequins de cera, criando essa duvida entre se estamos perante a representacao de um corpo vivo ou morto.

E a abordagem realista dos trabalhos, nao so pela tecnica assim como pela escala e tratamento da luz, que lhes confere um caracter surrealista e uncanny. Os tecidos conjuntivos da codificacao da realidade sao distorcidos, mas, e mantida a linguagem basica da figuracao literal, onde cada objeto, lugar ou coisa, e retratado com precisao e em proporcao a propria realidade. Existe a criacao de uma narrativa que, num primeiro olhar, e aparentemente baseada numa realidade familiar, (a figura humana, o realismo da sua execucao), no entanto, apos um olhar mais atento, o espectador e colocado perante uma duvida genuina acerca daquilo que esta a acontecer.

Em trabalhos como Automat I (Figura 1), a atmosfera uncanny e produzida pela percepcao desconcertante que a jovem figura se encontra sem pernas e esta colocada sobre uma laje lisa de madeira como uma especie de manequim na vitrine de uma loja. O proprio titulo da obra--Automat--sugere a probabilidade de movimentacao da figura, suscitando uma dubiedade em relacao aquilo que esta representado, se humano--pela aparencia e resolucao da carnacao, ou manequim--pelo corpo decepado e sugestao do titulo.

Encontramos outro exemplo dessa ambiguidade latente em The Preservation (Figura 2):

(...) esta imagem assombrosa, aparentemente de uma jovem mulher, epintada em tons de cinza e bege utilizados habitualmente para retratar a carne. No entanto, a manipulacao que Borremans deliberadamente faz da tinta evita com que se pareca com carne. A pintura da-nos a impressao de que a figura esta sentada num salao de cabeleireiro (...) no entanto, nao ha nenhuma indicacao de que ela esteja realmente viva. (Murphy, 2005:95-6)

As figuras em Borremans tem sempre uma aparencia sonambolistica, efigies emocionalmente vazias, como se fossem manequins de cera, criando a duvida e abrindo uma passagem entre aquilo que esta animado ou inanimado, entre a vida ou a morte, tal como refere Delfim Sardo:

(...) uma especie de espectro de morte, um doppelganger a espreita, intimamente ligado com a nocao do automato (golem), que Freud refere The Uncanny. O tema do duplo, ou doppelganger, tambem cruza o universo surrealista, batendo num processo de dissensao interna permanente--como se o tema fosse eternamente Eu e o Outro. Este e um dispositivo encontrado na obra de Borremans: (...) as figuras, bem como na descricao das maos--a simetria do corpo, e a manifestacao mais simbolicamente carregada do duplo. (Gioni, Michaud & Sardo, 2007:35-6)

Vemos claramente essa acecao do duplo ou do doppelganger no trabalho Replacement one (Figura 3), onde o espectador e confrontado com a ideia do reflexo num espelho obscuro e vazio, sendo no entanto a imagem reflectida impossivel e sugerindo uma accao encoberta entre representado e representacao.

A aura da morte permeia a maior parte dos trabalhos de Borremans, como se ve na serie The Bodies (Figura 4 e Figura 5) ou em The Nude (Figura 6). Mas nao e so o tema em si--a norte--que despoleta a sensacao de uncanny, e a forma de como o mesmo e apresentado que cria esse dilema entre vida/morte, ou seja, como Jentsch aponta: quando existem << duvidas acerca do facto de um ser aparentemente vivo poder ou nao animar-se, bem como o inverso, ou seja, se um objecto sem vida nao possui algo de animado." (Freud, 1994:217)

O tema da morte esta intimamente ligado as referencias a membros ou torsos decepados, que sao tambem uma constante no trabalho deste autor, como se ve em Sleeper (Figura 7) ou The Consequence (Figura 8).

As personagens de Borremans aparecem sempre estaticas, misteriosas, em situacoes bizarras, e muitas vezes amputadas, sugerindo historias por contar em narrativas abertas e impenetraveis, produzindo uma especie de silencio, num equilibrio tangente entre promessa vs negacao de satisfacao visual, perante a estoria que se pretende apreender.

Apesar de objectivamente o uncanny nao ser um conceito referido pelo artista, ele encontra-se de forma transversal infundido na atmosfera e tematica dos seus trabalhos. Refere-se aqui o mesmo paralelismo utilizado por Hal Foster, em Compulsive Beauty (1995), onde apresenta uma reflexao sobre o uncanny como conceito subjacente a toda a concepcao teorica do surrealismo: "Se ha um conceito que compreende surrealismo, deve ser contemporaneo com este, imanente ao seu campo (...) eu acredito que este conceito seja o uncanny (...)." (Foster, 1995:xvii)

Segundo Foster, o conceito de uncanny opera transversalmente em toda a linha de pensamento e nas principais concepcoes do surrealismo: o maravilhoso, compulsive beauty e objective chance. O uncanny, nao e algo que se possa ler ou observar directamente, mas que se encontra nas entrelinhas do pensamento e da obra dos artistas desse periodo.

No caso da pintura Borremans, essa ligacao e ainda mais forte, nao se consubstanciando apenas numa logica de pensamento mas tambem--e essencialmente --na sua forma pictorica--em personagens, situacoes, cenarios e narrativas que transportam o espectador para aquilo que e inquietante, numa dialectica semiotica entre o objecto representado e modo de representar. O sentimento de uncanny, consiste essencialmente na caracteristica vital que permite manter a ambiguidade psicologica das suas pecas.

Conclusao

Apesar do uncanny ser um conceito de origem psicanalitica, e indelevel a sua genese estetica e a sua vasta aplicabilidade e extensao cognitiva dentro de varias areas, entre as quais, as artes plasticas.

A partir da identificacao de algumas das caracteristicas visuais a partir das quais este conceito se pode manifestar (bonecas/automatos, duplo, membros decepados e morte), pretende-se propor uma reflexao sobre a viabilidade conceptual e pratica do uncanny dentro do imaginario pictorico do pintor Michael Borremans.

Apesar desses elementos visuais serem temas recorrentes na pintura de Borremans, e essencialmente na dicotomia do tratamento ambiguo das suas personagens, e na adicao de elementos que provocam a duvida entre aquilo que se esta realmente a passar apos uma observacao mais cuidada, que se provocam as realidades alternativas das suas pinturas e a abertura para uma leitura dentro daquilo que e o sentimento de algo ameacadoramente estranho.

Independentemente de nao ser algo do qual existam testemunhos directos escritos por parte do autor, por comparacao com a acepcao de Hal Foster em relacao ao uncanny e ao surrealismo, considera-se que este conceito e algo transversal a toda a obra de Borremans, inscrito na atmosfera dos seus quadros, na efigie soturna das suas personagens, nos espacos taciturnos e silenciosos das suas narrativas. No entanto, o uncanny nao se revela essencialmente apenas em temas ou em formas, mas sim, tal como aponta Freud, na forma de como o autor aborda a sua ficcao, na fragil dicotomia entre aquilo que se percebe e aquilo que se concebe, na sugestao mas constante negacao de uma legibilidade palpavel, nao apenas pela tematica utilizada, mas, essencialmente, pela criacao de narrativas ambivalentes que sugerem o sentimento de algo ameacadoramente estranho.

Referencias

Foster, Hal (1995). Compulsive Beauty. Michigan: MIT Press.

Freud, Sigmund, & Bastos, J. G. (1994). Textos essenciais sobre literatura, arte e psicanalise. Lisboa: Europa America.

Gioni, M., Michaud, P.-A., & Sardo, D. (2007). Michael Borremans: Weight. Ostfildern: Hatje Cantz. ISBN 978-3-7757-2130-1

Murphy, P. T. (2005). Michael Borremans: The Performance. Dublin: Hatje Cantz.

Sardo, Delfim (2006). Pintura Redux, Desenvolvimentos na Ultima Decada. Lisboa: Publico e Fundacao de Serralves.

Artigo completo submetido a 4 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

SOFIA TORRES, Portugal, artista plastica.

AFILIACAO: Universidade do Porto; Faculdade de Belas Artes; Instituto de Investigacao em Arte, Design e Sociedade (I2ADS) Av. Rodrigues de Freitas 265, 4000-222, Porto, Portugal. E-mail: sofiatorres07@gmail.com

Caption: Figura 1. Michael Borremans, Automat (I), 2008. Oleo sobre tela, 80 x 60 cm. [c] Zeno X Gallery Antwerp. Retirado de: http://www.zeno-x.com/artists/ MB/michael_borremans.html

Caption: Figura 2. Michael Borremans, The Preservation, 2001. Oleo sobre tela, 70 x 60 cm. [c] Zeno X Gallery Antwerp. Fonte: http://www.zeno-x.com/artists/MB/ michael_borremans.html

Caption: Figura 3. Michael Borremans, Replacement one, 2004. Oleo sobre tela, 83x65cm. [c] Zeno X Gallery Antwerp. Fonte: Sardo, D. (2006). Pintura Redux, Desenvolvimentos na Ultima Decada. Publico e Fundacao de Serralves.

Caption: Figura 4. Michael Borremans, The Bodies, 2005. Oleo sobre tela. Fonte: https://manpodcast.com/ portfolio/no-175-michael-borremans/

Caption: Figura 5. Michael Borremans, The Bodies 3, 2005. Oleo sobre tela. Fonte: https://www.flashartonline. com/article/michael-borremans/

Caption: Figura 6. Michael Borremans, The Nude, 2010. Oleo sobre tela. Fonte: https://manpodcast.com/ portfolio/no-175-michael-borremans/

Caption: Figura 7. Michael Borremans, Sieeper, 2008. Oleo sobre tela, 40 x 50 cm. [c] Zeno X Gallery Antwerp. Fonte: http://www.zeno-x.com/artists/ MB/michael_borremans.html

Caption: Figura 8. Michael Borremans, The Consequence, 2001. Oleo sobre tela, 42,0 x 50,0 cm. [c] Zeno X Gallery Antwerp Fonte: http://www.zeno-x.com/artists/ MB/MB_works/MB2001_24.jpg
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Title Annotation:2. Original Articles/Artigos originais
Author:Torres, Sofia
Publication:Estudio
Date:Oct 1, 2018
Words:2377
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