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The Udis: a language, a religion, and ethnography/Os udis: uma lingua, uma religiao e uma etnografia.

Odesenvolvimento e a formacao do povo azerbaijano e o resultado de um processo de longa duracao que nao pode acontecer senao pela acao de contatos e misturas entre diversas tribos e etnias. No total, no Azerbaijao vinte minorias nacionais coabitam com a etnia principal. Juntos constituem um povo multinacional unificado, o do Azerbaijao. Entre essas minorias do tronco de uma etnia, os udis tem uma origem e uma historia que atraem a atencao e suscitam ha quase dois seculos o interesse do mundo cientifico. Sao autoctones do Azerbaijao e um dos povos mais antigos do Caucaso. (fig. 1)

A conjuncao dos esforcos dos historiadores, linguistas e etnografos, da qual este texto e um exemplo, apresenta uma estrategia extraordinariamente importante na medida em que nos ultimos decenios se intensificou a migracao dos udis para fora de seu territorio tradicional de povoamento, assim como o processo de assimilacao dos mesmos em sua diaspora. Observa-se uma baixa constante do numero dos falantes da lingua udi. Eis porque importantes projetos estao sendo implementados, nao apenas o de uma apresentacao cientifica da situacao linguistica e etnografica dos udis de hoje, mas tambem a criacao de um documento no que diz respeito as particularidades linguistica e etnografica que se conservaram e se transmitiram (as obras de arte popular, textos etnograficos, fotografias, gravacoes em audio e videos). Os udis faziam parte das vinte e seis tribos albanesas que criaram o Reino da Albania Caucasiana (seculo III a. C. ao seculo VII d.C.) e sao antepassados dos povos azerbaijanos modernos. Desde entao foram editados trezentos trabalhos sobre a antropologia (Arutinov 1905: 93-94), lingua (Gukasyan 1974: 3-34), religiao (Huseynov 2008: 22-25), filologia (Gukasyan 1974: 17-19; Ganenkov 2008: 3-77), etnografia (Bezhanov 1892: 219-260; Javadov; Huseynov 1999: 199228), historia (Javadov; Huseynov 1999: 18-86), origens (Melikov 2002: 78-81), cultura (Javadov; Huseynov 1999: 87-95), tradicoes e costumes (Kechaari 2001: 3; Mobili: 26, 29) dos udi-albaneses. Os dados acumulados testemunham formalmente que os udis sao os mais antigos habitantes do Caucaso assinalados no espaco historico-cultural do Azerbaijao. (fig. 2)

Herodoto, o Pai da Historia, pela primeira vez ha 2.500 anos faz mencao aos antepassados do grupo udi quando relata a batalha de Maratona (Herodotus1987: Book III, Chapter 93 e Book VII). Nas fontes mais antigas, os udis sao designados como um dos protagonistas tendo participado da batalha de Alexandre Magno contra os persas das tropas do satrapa dos medos em Gaugamela (331 a.C). Sao igualmen te mencionados na "Geografia" de Estrabao, quando descreve o Mar Caspio e a Albania caucasiana (Strabo 1924: Book XI, 4. 501-503). O etimo udi aparece pela primeira vez na Historia Natural de Plinio, o Velho, autor romano do seculo I d.C (Pliny the Elder 1855: Book III-VI). Posteriormente aparece na Geografia de Ptolomeu, escritor helenico do seculo II d.C., na qual diz que "a beira do Mar Caspio vivem diversas tribos, dentre elas, a dos udis" (Claudii Ptolemaei 1883: Liber V-VII).

Encontram-se testemunhos mais precisos sobre os udis na "Historia do Pais de Aluank" do autor local Moises Kalankatuatsi (em udi: kala: grande; katu: povoamento) o qual viveu no seculo VII e, segundo suas proprias palavras, pertenceu ao cla dos udis e evoca o fundador mitico das tribos albanesas ao personagem biblico Aran: "De [seu] filho, nasceram as tribos dos udi, dos gardman, dos tsavdeysk e dos gargar" (Movses Dasxuranc'i 1961). A historia do reino albanes e bem conhecida atualmente e ele foi um dos que subsistiram por mais tempo no Caucaso--mais de mil anos--e compreendia o atual norte do Azerbaijao e o sul do Daguestao ate o Rio Suluk, englobando os territorios da Kakhetie-Herethie na Georgia e o Zangezur no sul de Karabakh. Todas estas terras representavam onze das antigas provincias albanesas: Tchola, Lpiniya, Kambisena, Edjeri, Gabala, Shaki, Paytarakan (Partav), Gardman, Artsakh, Sunik e Uti. A lingua oficial do Estado Albanes, como afirmam os especialistas, era o antigo udi. A provincia de Udi, povoada pelos udis, era conhecida dos autores da Grecia antiga como Otena. Ocupava o territorio que vai do Mar Caspio, passando pelo macico principal da cadeia do Caucaso, ate o Rio Alazan.

Ate o inicio do seculo XX, os udis viveram reagrupados nas aldeias de Nij, Vartashen (Oghuz), Mirzabeyli, Vardanli (Kerimli) Sultan-nukha, JorluYakublu, Malikh, Yenikend, Talish e Kirzan. As mais antigas informacoes sobre a populacao udi moderna remontam ao ultimo quarto do seculo XIX: em 1880, no Imperio Russo, contavam-se dez mil, mas no fim do seculo nao passavam alem de oito mil, dos quais cinco mil em Nij e tres mil em Vartashen. Em 1910, o numero deles eleva-se ja para os cinco mil e novecentos, mas segundo o recenseamento geral de 1989, a populacao mundial dos udis foi avaliada em oito mil seiscentos e dez, dos quais seis mil cento e vinte e cinco no Azerbaijao. Atualmente, o numero total dos udis e de mais de seis mil, do qual o efetivo principal--perto de quatro mil--vive no Azerbaijao, essencialmente reagrupado em Nij e de maneira mais esporadica em Oghuz e em Baku. Nij e uma das maiores zonas de povoamento udi da regiao de Gabala, localizada ao sudoeste da cidade do mesmo nome que e o centro, sendo um lugar unico se estendendo por mais de cem quilometros quadrados, onde vivem de maneira mais densa os udis, que ao lado dos azerbaijanos e dos lezguins (um povo que vive ao sul do Daguestao), nao perderam sua especificidade etnocultural. Situa-se em uma planicie plantada de aveleiras, nogueiras e castanheiras, ocupando uma grande extensao ao pe do vertente sul do grande Caucaso, com terras cultivadas, construcoes de solidas casas, cercadas de grandes hortas e pomares de arvores frutiferas. (figs. 3 e 4)

Um pequeno grupo dos udis vive na Georgia, no povoado de Oktomberi (Zinobiani) da regiao de Kvareli. O resto dos udis vive esporadicamente em algumas grandes cidades da Russia (Moscou, Sao Petersburgo, Volgograd, Astrakhan, Ekaterinbourgo, Ivanovo etc.) e nas zonas de povoamento da regiao de Krasnodar, Rostov sobre Don, Volgogrado, Kalouga, Tver e muitas outras. Enfim os encontramos de maneira relativamente reagrupada nas cidades de Shakhta e de Taganrog da regiao de Rostov. Uma pequena diaspora udi constituida de cerca de setecentas ou oitocentas pessoas vivem no Kazaquistao em Aktau e na Ucrania em Gorlovka. Alguns udis vivem igualmente de maneira dispersa na Franca, Estados Unidos, Bielorrussia, Letonia e Ucrania, assim como em outros paises da CEI (Comunidade dos Estados Independentes. Uma organizacao supranacional envolvendo 11 republicas que pertenciam a antiga Uniao Sovietica). Segundo os dados do recenseamento de 2002, haveria na Russia tres mil setecentos e vinte e um udis. Estes numeros foram minimizados porque os udis foram obrigados a deixar suas regioes de povoamento historico no decorrer do seculo XX e especifi camente apos o inicio da Perestroica e apos a queda da Uniao Sovietica.

O acontecimento mais importante da atualidade na vida dos udis foi o encontro cordial e respeitoso dos habitantes de Nij, cuja historia e mais de duas vezes milenar, com o presidente do Azerbaijao, Ilham Aliyev e sua esposa Mehriban Aliyeva, em18 de agosto de 2005 (fig. 5). Ilham Aliyev pronunciou um discurso diante dos habi tantes do lugarejo. As comunidades etnicas da Republica do Azerbaijao possuem suas proprias organizacoes religiosas e sociais ocupando-se dos problemas espirituais de seus membros, que recebem apoio do Estado. O registro da comunidade udi-albanesa crista pelo Comite Estatal Azerbaijano para as Comunidades Religiosas, no dia 10 de abril de 2003, assumiu um imenso significado espiritual para o povo udi. Em 19 de maio de 2006 realizou-se a cerimonia inaugural e a cerimonias de consagracao da igreja udi-albanesa de Santo Eliseu de Tchotari, restaurada em Nij. Ocasiao em que foi anunciado que dai em diante seria sempre festejado o dia 19 de maio como o dia do Renascimento da Igreja Albanesa do Azerbaijao. A conservacao da lingua, da cultura e da heranca espiritual udi e considerada como uma pequena, mas irrefutavel, parte da historia do Azerbaijao, e a missao fixada pelo Centro Nacional para a Cultura e a Civilizacao "Orayin" e a comunidade crista udi-albanesa. Promovendo o conhecimento da historia e da Cultura udi, preparam a edicao de obras literarias e pedagogicas em lingua udi e a publicacao de coletaneas do folclore e de relatos de autores udis; enfim, mantem lacos com os udis do Azerbadjao e os da diaspora udi que vivem fora do territorio de sua patria historica.

A lingua

A lingua contemporanea udi faz parte das linguas agrafas pertencentes ao subgrupo lezguins, incluido do grupo nakhdaguestanas da familia das linguas iberico-caucasianas e conta com dois dialetos: O nidzhien e o oghuzien--oktomberique (espalhado na regiao de Oghuz e de Oktomberi na Georgia). O primeiro dialeto se subdivide em tres variantes que correspondem a tres zonas territoriais: a baixa, a intermediaria e a alta. Estas variantes representavam historicamente falas distintas (mas pode-se tambem criar a hipotese de que elas foram, em um dado momento, dialetos diferentes da lingua udi). Apos o reagrupamento e a instalacao dos udis na aldeia de Nij, estas variantes foram unificadas e fundidas ao dialeto de Nij. Ao dialeto de Vartashen (que se tornou em seguida o dialeto oghuzien-oktomberique) se une a linguagem de Oktomberi (Zinobiani). Os udis migraram de Vartashen (Oghuz) a Oktomberi em 1920, eis porque no seu modo de falar nao ha particularidades que o diferenciem substancialmente do dialeto udi do distrito de Oghuz. No decorrer dos ultimos cem anos, os dialetos da lingua udi se desenvolveram de maneira independente, e eis porque abundam neles as palavras provenientes de outras linguas. Assim constatamos um conjunto bem caracterizado de particularidades foneticas, morfologicas e lexicais, cujas origens mergulham nas profundezas de um passado muito longinquo e opoem estes dialetos uns aos outros.

Todos os udis falam a lingua materna, e dominam perfeitamente o azerbaijano e o russo. A lingua udi e a lingua dos descendentes daqueles que falavam a lingua da Albania Caucasiana. Distingue-se de outras linguas caucasianas foneticamente pela presenca de um consonantismo mais simples, e gramaticalmente pela ausencia de classes gramaticais, e a presenca de prefixos e sufixos antigos, e enfim pela presenca de bases substantivas e verbais irregulares. Na lingua udi, a formacao de substantivo e muito ativa. Sua originalidade consiste no fato de que ela e a herdeira direta da antiga lingua escrita da Albania do Caucaso remontando ao primeiro milenio de nossa era. Conserva os sufixos arcaicos da pluralidade, os principios da categoria da voz e a forma do acusativo. No dialeto de Nij, existem quinze fonemas vocalicos. Nao tem variantes longas ou breves, somente uma duracao media. As vogais longas se formam durante o contato de duas vogais, mas nao tem por isso fonemas independentes, posto que este fonema esteja estreitamente ligado a queda das consoantes.

Com a conversao da Albania Caucasiana ao cristianismo foi criada a escrita albanesa, utilizada do seculo V ao seculo IX pela igreja crista local. O alfabeto continha cinquenta e dois grafemas. A tradicao historica testemunha a existencia, no passado, de um conjunto de grandes obras da literatura aghvan (termo relativo a Aghbania, antigo nome local da Albania do Caucaso) destruidas na Idade Media; o patrimonio epigrafico da escritura albanesa conservado e conhecido e muito pobre. Desvendamos certos emprestimos das linguas persa, georgiana, arabe, grega, russa e siriaca. No entanto, a influencia dominante sobre o lexico udi e da lingua azeri (turco-azerbaijana). No seculo XIX, os udis obtiveram a possibilidade de se iniciar a cultura escrita moderna. Em 1854, foi aberta uma primeira escola udi e em seguida uma escola aldea com o ensinamento russo. Ja que os udi sao os legitimos herdeiros do cristianismo da Albania Caucasiana, a primeira traducao para o udi moderno ocorreu de forma completamente canonica a partir da traducao de um exemplar russo do Evangelho. Entre 1931-1933, a instrucao dos udis era feita na lingua materna e, desde 1937, no Azerbaijao ela foi feita em lingua azeri, depois em russo, e na Georgia em lingua georgiana. Hoje a lingua udi conta com cinquenta e dois sons e utiliza um alfabeto elaborado sobre uma base latina com sinais suplementares e ensinado, na lingua materna, nas classes primarias das escolas secundarias de Nij. Em 2010 foi publicado um dicionario udi-azeri-russo compreendendo mais de 9000 vocabulos, grupos de vocabulos, expressoes estaticas e idiomaticas. O autor dedicou esta obra ao eminente estudioso e linguista Voroshil Gukasyan. (fig. 6)

A religiao

A Igreja Udi-albanesa na condicao singular de herdeira legitima da Igreja Albanesa e uma das mais antigas igrejas, nao somente do Caucaso, mas tambem do mundo cristao. Segundo antiquissima tradicao as sementes do cristianismo foram lancadas pela primeira vez sobre a antiga terra azerbaijana no seculo I, por um dos doze apostolos de Jesus Cristo, Sao Bartolomeu Apostolo que foi martirizado na cidade de Albanopol (a moderna Baku) ao pe da Torre da Virgem. Sua obra de evangelizacao foi continuada por Santo Eliseu, o primeiro bispo albanes e discipulo de Sao Judas Tadeu Apostolo e e por isso que Sao Bartolomeu Apostolo e a maior figura espiritual da Albania Caucasiana. A difusao do cristianismo no territorio da Albania Caucasiana conhece dois periodos, o primeiro denominado "sirofilo" e o segundo "helenofilo" e esta ligada a tradicao dos acontecimentos que se produziram no meio do seculo I d.C. quando Santo Eliseu construiu a primeira igreja em Gis (a moderna Kish). Segundo a referida obra de Moises Kalankatuatsi, parece evidente que a Igreja albanesa era inicialmente apostolica, oriunda da "missao palestinense", atraves do "apostolo" Santo Eliseu que de Jerusalem foi a Persia e de la a Albania. Em seguida, Eliseu chegou ao territorio udi indo para Kish, onde construiu uma igreja e, para oferecer sacrificios, aceitou a ideia de uma vitima ritual que nao fosse impura e da qual nao se faria derramar sangue. Depois o apostolo Eliseu partiu de Kish para Gelmets onde a primeira pregacao da Boa Nova do Evangelho nao foi coroada de sucesso, pois os pagaos o martirizaram e jogaram seu corpo em um fosso. Muitos anos apos esses acontecimentos o rei Vatchagan III, o Piedoso, ordenou a construcao de uma capela sobre o fosso perto de Gelmets onde o corpo do apostolo havia sido jogado. Seus restos mortais foram entao transferidos e inumados. Por ordem do rei albanes Urnayr, em 313, o cristianismo na Albania Caucasiana tornou-se uma religiao de Estado. Possuimos abundantes informacoes sobre o periodo helenofilo da difusao do cristianismo na Albania Caucasiana. Neste periodo, o cristianismo tornou-se religiao de Estado e a Igreja Albanesa se entrega a uma grande atividade missionaria. Constroem-se igrejas, capelas e mosteiros. Varias dessas construcoes, apesar da dominacao posterior do Isla, foram conservadas ate os dias e hoje. Particularmente numerosas em Karabakh e na zona de Gabala, Shaki e Zagatala. Em 1912, por iniciativa da Academia de Ciencias Russa, fizeram-se tentativas para restaurar estes edificios e, em particular o monasterio e a igreja de Lekit, localizados no povoado de Kum. Durante o periodo "helenofilo", a Igreja Albanesa, menos dependente de Bizancio do que as igrejas georgiana e armenia, continuou a cooperar com a Igreja de Jerusalem. (fig.7)

O reforco dessa Igreja Albanesa foi favorecido por sua estrutura. De um ponto de vista hierarquico, a Igreja Albanesa se submetia a igreja Romana, entretanto, no inicio do seculo IV ela recebia apoio dos hierarcas de Jerusalem, mas supoe-se que por volta de 340 a Igreja Albanesa tornou-se autocefala. A igreja local ja tinha seu metropolita cuja residencia se encontrava em Partav (Barda) e contava com oito dioceses. Em 551, a Igreja albanesa rompeu seus lacos com Bizancio e seu lider espiritual comecou a ser chamado de catholicos. No seculo IV, o centro religioso ficava na cidade de Gabala, mas a partir do seculo V, deslocou-se para Barda onde o lider da Igreja Albanesa fazia a imposicao das maos na ordenacao de seus padres. Posteriormente Sunik passou a ser o lugar consagrado para a imposicao das maos pelo catholicos. Nesta epoca o processo de expansao do cristianismo foi suspenso e depois completamente paralisado com o aparecimento do Isla. Apos o destronamento do rei Bakur (688-704), a Igreja Albanesa perdeu a autocefalia e o Califa Abu-al-Malik (685-705) submeteu parcialmente a Igreja albanesa a Igreja armenia. Nesta epoca "o catholicos da Albania, cujo trono se situava em Partav, havia selado um acordo com o Imperador romano mencionando-o em suas oracoes e forcando o pais a se aliar a ele adotando a doutrina calcedoniana e aceitando sua protecao". A submissao ao catholicos armenio marcou o inicio do enfraquecimento da Igreja Albanesa e formalmente o catholicos albanes (cuja residencia nos ultimos seculos se encontrava em Gandzasar) existiu ate 1836, depois foi suprimido pelo Czar Nicolau I por decisao do Santo Sinodo da Igreja Ortodoxa Russa, o que colocou fim a existencia, mesmo nominal, a Igreja Albanesa e as paroquias que dependiam dela foram indiretamente subordinadas ao catholicos de Etchmiadzin. A Igreja Armenia apoderou-se das igrejas albanesas, de sua chancelaria, assim como de sua Representacao em Jerusalem, que era transmitida a Igreja Albanesa porque apostolica e autocefala. Hoje a Igreja Albanesa restaurada na Republica do Azerbaijao tem a possibilidade de pedir a restituicao de sua representacao em Jerusalem e tem a qualidade de membro do Conselho Mundial de Igrejas.

Em 1997, por acaso, apos um incendio no Mosteiro de Santa Catarina no Sinai, Egito, descobriu-se um palimpsesto georgiano e albanes (fig. 8). Sobre as folhas guardadas intactas desse palimpsesto albanes, um membro correspondente da Academia de Ciencias da Georgia, Zaza Aleksidze, decifrou gracas a lingua udi moderna, passagens do Evangelho (capitulos dos evangelhos segundo Mateus, Lucas e Joao), epistolas sinodicas de Pedro, Tiago e Joao, e as epistolas de Paulo aos Tessalonicenses, Timoteo, Tito e aos Hebreus. A traducao deste texto so foi possivel gracas a lingua udi. Este lecionario albanes e muito proximo ao lecionario georgiano "Khanmeti". A descoberta de um lecionario albanes e por si so uma prova da existencia de traducoes dos evangelhos e das epistolas em lingua udi e deduz a existencia no passado de uma versao da Biblia em albanes caucasiano, pois somente um povo que possui o texto completo da Biblia escrito em sua propria lingua pode possuir um lecionario. A passagem definitiva a ortodoxia dos grupos ocidentais dos udis comecou entre os seculos XI ao XIII. Desde o seculo XVII os catholicoi da Igreja Albanesa se instalaram no templo de Khatchen. Um dos objetivos da politica oficial da Russia apos a anexacao da Transcaucasia ao seu territorio foi a restauracao da Ortodoxia (ressaltam-se os missionarios ortodoxos I. Bezhanov, S. Bezhanov entre outros). Em 1893, Simon Bezhanov traduziu todo o Evangelho para a lingua udi. Nos arredores de Oghuz (Vartashen), o udi ortodoxo Zinovij Silikov construiu o Mosteiro de Santo Eliseu, mas apos o decreto do Czar Nicolau I, este mosteiro passou a jurisdicao da Igreja Armenia. Com relacao aos fatos evocados acima, por iniciativa de intelectuais udis, em 10 de abril de 2003, a comunidade crista udi-albanesa foi registrada no Comite Estatal para as Comunidades Religiosas do Azerbaijao. Tal registro e um primeiro passo em direcao ao renascimento da Igreja Apostolica Albanesa Autocefala. Hoje, com a ajuda da Organizacao Humanitaria Norueguesa do Reino da Noruega, a Igreja de Santo Eliseu de Kish (considerada como mae das igrejas do Caucaso) foi restaurada. Em 19 de maio de 2006, realizou-se a cerimonia de inauguracao e de consagracao da Igreja "Tchotari" da cidade de Nij. Tambem foram iniciados os trabalhos de restauracao de uma das igrejas ortodoxas no territorio do distrito de Oghuz e em breve sera concluida a restauracao da Igreja "Geyun" de Nij e em todas estas igrejas os oficios religiosos serao assegurados na lingua vernacula pelos membros da comunidade udi. (fig. 9)

A etnografia

Agricultura

Os udis eram sedentarios, praticavam a agricultura, horticultura e mercado de jardinagem, artesanato e pecuaria diversificada. Agricultura e horticultura desempenham um papel essencial na economia de Udis ligados a um estilo de vida sedentario e fertilidade. No seculo XIX os udis eram famosos pelo cultivo de trigo, arroz, seda, jardinagem e hortas. Semeavam trigo, cevada, arroz, milheto e milho. Todos os tipos de cereais cultivados nesta regiao eram conhecidos dos udis tanto que, ate 1960, preferissem entre todas a cultura do arroz. No fim do seculo XIX somente no povoado de Nij, que entao somava cinco mil seiscentos e oitenta pessoas (recenseamento de 1897), funcionavam trinta moinhos movidos a agua e mais de cem debulhadoras de arroz (ding). Ate mais recente, outra producao agricola basica para a economia udi era a cultura do tabaco, como testemunha a atribuicao sovietica, entre 1953 e 1955, do titulo de "heroi do trabalho socialista" a tres habitantes de Nij--T. Tchaldallakova, T. Mobili e S. Dallari--por terem plantado as melhores qualidades de tres tipos de tabaco: o trabzun, samsun e o virginia.

A fruticultura

Ao lado da cultura de cereais e da criacao bovina, a fruticultura ocupa um lugar peculiar. Desenvolveu-se por toda parte onde dominam os pomares e as plantacoes de nogueiras e de aveleiras. Os pomares estao espalhados sobre todo o territorio, do mesmo modo que as plantacoes de nogueiras, castanheiras, amoreiras e a videira. A noz, a castanha e a uva eram consumidas no local e somente uma pequena quantidade era exportada ou trocada por pao. O principal produto de exportacao era a avela alem dela cultivam-se varias especies de macas tais como a sinap, gyzyl-ahmedi (ahmed vermelha), arainette, e de peras, como a duquesa, a kotoshi, a bazumburi, assim como o cornisolo, varios tipos de ameixa, damasco, marmelo, nespera, caqui e o figo.

A cultura das hortalicas

Na regiao se planta pepino, tomate, cebola, alho, pimentoes de diversos tipos, berinjela, beterraba, cenouras, meloes, melancia, abobora e suas diferentes variedades (kotosh, pashna), funcho, menta e outras variedades de ervas finas. E preciso assinalar uma especie particular de pepino: o pepino branco produzido na regiao de Matsikatchuli, que e o legume de base utilizado para conservas. Para a cultura de hortalicas, eram utilizados utensilios como penets, o beli, a gaba, o mikh e o gor-gor.

A criacao de animais

No territorio densamente povoado pelos udi, situado nos contrafortes das montanhas e nos vales, a criacao de animais domesticos foi sempre muito desenvolvida. Sendo prioritaria a agricultura, os udis, consideravam a criacao de animais como um ramo secundario e auxiliar da economia. Entretanto, na pecuaria a criacao bovina e suina ocupam o primeiro lugar. Sendo que esta ultima desempenha na economia dos udis uma atividade comercial de primeira ordem (fig. 10). Na primavera deslocavam-se a vara de porcos, as tropas de gado e cavalos para as pastagens situadas no sope das montanhas e no outono eram reconduzidos aos estabulos. Da pecuaria os udis retiram para a alimentacao as carnes bovina e suina, laticinios como a manteiga, queijo de ovelha (labrynza), l'ayran (lebas-beurre), nak, shor (tipo de queijo branco escorrido chamado tvorog na Russia), o tchiayi e otchio.

A cozinha udi e muito variada e tem muitos pontos em comum com a cozinha dos azerbaijanos e com outros povos do Caucaso, cujos pratos contem farinha, produtos derivados do leite, carne e legumes.

Os pratos tradicionais dos udis sao o dolma (goloubtsy em russo), os dolma recheados de nozes, a sopa de feijoes, o lykyrti otchorotori, o tchilov tipo de plov sem manteiga com vagens), o doghadj (sopa branca com ervas finas chamada tambem dovgha em azerbaijano, o khashil, o yakhni, o siyokh (tipo de arroz ao leite com carne), o matsi siyokh (arroz ao leite sem carne com ervas), o shyltiri (sopa de castanhas), o shyftili (molho a base de castanhas e de noz), o iyankkh (molho a base de feijao e de noz), o khup, o doshamalikhup (plov com frango) e ainda muitos outros.

E necessario mencionar a kharisa, trigo cozido ate tornar-se uma forma pastosa a qual se acrescenta uma grande quantidade de manteiga e pedacos de carne ou de ave. A kharisa e o alimento tradicional dos agricultores. Este prato era conhecido na Asia Menor e na Siria, o qual foi copiado pelos udis e paises vizinhos assim como seu nome.

Produtos vegetais como feijoes, arroz, nozes, castanhas, legumes, uma grande variedade de finas ervas, frutos e bagas representam um papel importante na alimentacao dos udis. As carnes mais consumidas sao: vitelo de porco, carneiro mas tambem carne de aves e particularmente de peru. (fig. 11).

O prato principal dos udis sao o porco e o peru. Nas festas tradicionais, os udis, por respeito aos hospedes azerbaijanos muculmanos, nao utilizam nem comem carne de porco, cozinha-se pao feito a base de farinha de trigo em um forno denominado tarrne. Os diversos tipos de plov sao opcoes a mais na alimentacao: constituido de uma base de arroz, acompanhado de vagens, pimentao, uva-passa, caqui, castanhas e de noz. O arroz se comia tambem com leite coalhado azedo. Apreciam-se as castanhas cozidas na panela com agua, que os udis vendiam aos comerciantes de Baku e de Tiflis. A partir das nozes, fabrica-se o oleo de noz. Na cozinha dos udis encontramos muitos pratos a base de legumes e particularmente abobora ou abobora menina, couve, berinjela, tomate.

Utilizam-se ervas selvagens, particularmente urtigas das quais se fazem sopas, recheio de aves para lesafars (tipos de crepes finas com ervas) e os khingal (tipo de raviolis com carne, temperados com alho e ervas), frutas, bagas e laticinios sao alimentos importantes para os udis que fazem fermentar o leite, produzindo diferentes tipos de cremes frescos como o tchio etc., a manteiga fresca e a manteiga.

Durante as refeicoes festivas e as recepcoes de hospedes de honra eram obrigatorios pratos de carne como o peru fatiado e cozido, ao forno e no espeto (o fyrrama), 'tchyghyrtma, frango (tcholpa), os dolma recheados com carne e com nozes. Os pratos de carnes de vaca, carneiro, porco, peixe de agua doce, diferentes tipos de omeletes, o kuku.

As bebidas sao: cozimento de bagas, frutos secos, erva e de polpas das nozes verdes, cachaca de abrunho, de cornisolo, de ameixa, da amora madura, e do mosto da uva (tchetcha). Nao se deve esquecer da grande selecao de vinhos elaborados a partir de especies de uva locais como a shalab, figombal, merendi, matsitul, maintul ou importados como o mousquet e o moldovanka.

O vestuario

O vestuario tradicional dos udis e similar aos vestuarios dos azerbaijanos e de outros povos do Caucaso. Os homens usam a tchokha tunica longa e chanfrada no peito com um largo colarinho, por baixo, mais curto o arkhaluk, hermeticamente fechado, a camisa justa com um colarinho montante (o gurat); e enfim como calcas, o kyolyokh. O arkhaluk se amarrava com um cinto ornado de placas de prata e no qual era colocado um punhal, o kindjall. Nos pes, usavam meias de la tricotadas nos sapatos de couro nao curtido (os tcharykh) ou em sapatos feitos com um couro mais macio os tchust e os torokal.

O vestuario feminino era composto de largos e longos calcoes por cima dos quais as mulheres vestiam uma saia muito larga. Por cima usavam um longo arkhaluk que ia ate os joelhos, franzido na cintura e com aberturas em toda a extensao das mangas. O arkhaluk era ajustado ao corpo por um largo cinto de prata fechado com uma consideravel fivela para os mais ricos e, para os mais modestos, um cinto de pano, o kuchtuk. Nos pes meias tricotadas e os tcharykh. O chapeu feminino chamado dagka, era um conjunto complexo e peculiar com varios elementos. Primeiramente, ajustavase na cabeca um tipo de tioubitieyka redondo (o katar) sobre o qual se amarrava o tchelebend, constituido de dois triangulos de pano, unidos entre si, por um laco, cujas extremidades eram atadas sob o queixo. Este conjunto formava a dagka sobre a qual colocava-se em seguida um pequeno lenco triangular branco, o yaligat, e enfim um outro pequeno lenco o tepelik cujos cantos eram tambem atados sob o queixo. O conjunto era recoberto com um grande xale preto. As mulheres udis casadas encobriam a parte inferior do seu rosto com um lenco chamado yashmag.

Em meados do seculo XX, os vestuarios tradicionais dos udis desaparecem, despojados pelos vestuarios contemporaneos comuns. O udis de hoje usam vestuarios semelhantes em todos os pontos aqueles comuns usados de maneira habitual, segundo as exigencias da moda, da estacao ou da temperatura. (fig. 12)

Folclore e tradicoes

O folclore dos udis e extremamente variado: cancoes liricas ou guerreiras, dancas, contos sobrenaturais, lendas, proverbios e adagios estao estreitamente ligados ao modo de vida e a atividade economica comum ao mundo do trabalho. Uma parte se conservou ate os dias de hoje, outras formas de expressao sao conhecidas atraves de documentos manuscritos do seculo passado. Na base da antiga lingua udi, foram elaborados um alfabeto e uma escrita que permitiram a traducao de obras procedentes de outras linguas, mas tambem a emergencia de uma literatura original. Apareceram escritores e historiadores, poetas e retoricos, juristas e filosofos, algumas de suas obras chegaram ate nos tais como os "Canones Augen" do seculoV, as "Lamentacoes Sobre a Morte do Principe Djavanshir de Gardman", do poeta Davdak (seculo VII), a "Historia dos Albaneses", de Moises Outiyski, a "Cronica Albanesa" e o "Codigo das Leis", de Mhitara Gosha (seculo XII), a "Historia", de Kirakos Gandzakski e "Os Canones", de David Gandzaski, que viveram no seculo XIII, assim como os monumentos epigraficos do Azerbaijao e do sul do Daguestao.

Apos a conversao do cla udi ao cristianismo, como de outras tribos albanesas, os udis nao esqueceram seus costumes, seus ritos, suas tradicoes e os integraram a sua nova religiao. Por exemplo, conservaram os habitos tradicionais de manter no lar um fogo perpetuo que testemunha a veracidade da sobrevivencia dos zoroastrismo. Os udis adoravam a lua que era para os albaneses a divindade principal. Ainda hoje os udis, mesmo sendo cristaos, elevam frequentemente oracoes a lua. Nao e por acaso que os udis albaneses relacionavam o nome deste astro khash ao simbolo e ao nome da cruz. Para designar o ato de se batizar, a lingua udi guardou os termos de khashdessun e pul khash. Entre outros objetos de adoracao, havia o sol, o fogo, as pedras sagradas, as arvores, os riachos e as fontes. Diversas crencas, praticas adivinhatorias e magicas eram propagadas. Os curandeiros que tratavam das doencas e expulsavam o mau olhado, gozavam de uma grande influencia e o culto aos antepassados era muito pratica do. Pode-se citar igualmente o costume que consiste em venerar os odjag que sao lugares considerados sagrados situados fora da aldeia, que foram assimilados ao culto cristao como o odjag, o pequeno bosque sagrado, ao redor da Igreja Santo Eliseu ou os "odjags" de Sao Jorge, Komrat, Tchotari, Yalovlityapi e Bulun. A ligacao deles com o fogo, alem da etimologia do termo, aparece moldada num amontoado de pedras, encimado com uma vela. Realmente, o papel sagrado do odjag e superior ao da igreja. Conservando seu particularismo, os Cristaos udis sofreram a influencia do ambiente mulcumano, do qual encontramos tracos na lingua, habitos, praticas culturais e tradicoes.

Os udis adotaram o calendario Juliano (tambem chamado em russo de o antigo estilo) como calendario eclesiastico e liturgico cujas festas mais importantes sao:

Natal--Miladi Ahsibay. Os udis de confissao ortodoxa celebram o dia 25 de dezembro segundo o calendario "antigo estilo", que corresponde ao dia 7 de janeiro no calendario "novo estilo" (gregoriano) e o dia 6 de janeiro segundo o calendario gregoriano monofisista (usado pela igreja Apostolica Armenia).

Ano Novo--Taza Usen. A festa do Ano Novo no calendario e celebrada de maneira tradicional e solene pelos udis. O atributo obrigatorio para esta festa e o peru fatiado (fyrrama) cozido no espeto em forno de madeira.

"Meia Quaresma"--Esta solenidade e comemorada na quinta-feira da 3a semana da quaresma. Nesta data nao temos informacao sobre esta festa.

Quaresma--Ghurukh ou Kala Ghurukh (pronunciado ghurukh ou girukh.), significando etimologicamente "os dias". Trata-se de um grande jejum que dura sete semanas e que termina na Pascoa.

Domingo de Ramos--Zarazartar. Neste dia todos os jovens e senhoras vao a igreja. E o unico dia do ano em que os jovens de ambos os sexos se reunem na Igreja.

Pascoa--Beyin (a Ressurreicao) ou Kala Ahsibay (literalmente: "a grande festa", a "Ressurreicao") (figs. 13a, 13b).

Primeiro Dia [da Pascoa]--E uma grande festa religiosa. O Sacrificio (oferenda a Deus) e realizado proximo ao recinto da igreja. A decoracao dos ovos. Os habitantes de Nij celebram frequentemente esta festa reunindo-se nas areas das igrejas Tchotari, Bulun e Geyun no ultimo domingo de abril segundo o calendario solar.

Segundo Dia--A visita aos mortos no cemiterio Mayin Ahsibay (literalmente "festa negra"); plov, castanhas cozidas, frutas, massas de bolo e doces sao servidos com bebidas (diferentes tipos de vinho e ponche).

Terceiro Dia--A Festa Paroquial. Acontece em Kala Gergets (literalmente "Grande Igreja") e no Mosteiro de Santo Eliseu.

Festa de Maio--Maye Ahsibay (literalmente: "festa de maio"). Atualmente esta festa e celebrada solenemente pelos udis nos dias 1 e 2 de maio.

Ascensao--Gokma (palavra cuja etimologia significa "brincadeira", "torre de magia", "milagres"). E festejada numa quinta-feira, quarenta dias apos a Pascoa.

Festa do Renascimento da Primavera --Esta festa e celebrada no dia 19 de maio, a partir da data da cerimonia da restauracao da igreja udi Tchotari no dia 19 de maio de 2006 e do registro oficial da comunidade crista udi-albanesa em 19 de maio de 2003 (fig. 14).

Transfiguracao--Vartiver. Na vespera desta festa, as jovens coloriam as maos com balsamo (os noivos a ofereciam as suas noivas com essa finalidade) e iam se reunir nas proximidades da igreja e perto do odgag de Sao Jorge.

A Festa da Colheita--Bare Ahsibay (literalmente "festa da colheita"). A data da celebracao desta festa corresponde ao ultimo domingo de outubro.

De fato, os modos de vida sedentarios e a preeminencia de uma atividade ligada ao trabalho da terra fazem com que a maioria dos ritos, cerimonias, das festas e das grandes datas do calendario, estejam ligados a agricultura. Por exemplo, a consagracao da vinha. No lexico dos udis foram conservados ate os dias de hoje nomes de alguns meses ligados a atividade agraria pertencentes a um passado longinquo: tule/tuen, o"mes da uva", namots/kamots, o "mes umido", tsile/shili, o "mes das sementes", bokospin, o "mes cor de fogo", tsile/shili, o "mes das sementes", yekhniya/yekhina, o "mes das colheitas", khabniya/khibna, o "terceiro mes".

Os udis possuem uma longevidade excepcional: atingem a idade de oitenta, de cem anos e mais. Sao hospitaleiros, prontos a se ajudarem em todas as ocasioes e respeitosos em relacao aos mais velhos. Os udis se casam cedo: os rapazes aos dezesseis anos e as mocas aos treze ou quatorze anos. Preferem escolher seus parceiros no seio de sua comunidade, mas obedecem a interdicao mais severa dos casamentos consanguineos, ai incluida com os parentes mais afastados ou somente associados a familia por alianca e em todo caso nunca antes de um distanciamento de sete geracoes. Num passado muito longinquo, a familia udi era numerosa, do tipo patriarcal, cujos membros, muito unidos por seus lacos de sangue viviam de uma maneira compacta reagrupados em "bairros familiares". Em cada bairro havia um chefe, como de habito o mais velho de uma familia numerosa, dirigindo os trabalhos dos campos e do jardim. O pai e o chefe soberano da casa a quem obedeciam sem queixas todos os membros da familia.

Os udis, no passado, levavam um modo de vida bastante concentrados neles mesmos: as mulheres cobriam seus rostos, comiam separadamente dos homens, nao ousavam intervir em uma conversa com os estrangeiros sem a permissao do marido; nao tinham o direito de sair de casa sem a autorizacao dos mesmos. As cerimonias do casamento udi comecavam pela manha e se prolongavam em um circulo restrito de parentes durante tres dias. Jogava-se tar, kamantcha, def, zurna e balaban. Atualmente nos casamentos udis, cantam-se cancoes azerbaijanas. Os convidados se divertem cantando e dancando. Entre as dancas praticadas ressaltamse o uzundere e o vakzali. Entre os udis como entre os autoctones do Azerbaijao, e dancado o yally desde tempos imemoriais. A criatividade que se ilustra em numerosos dominios e generos do patrimonio oral udi, atesta as raizes antiquissimas da cultura e da espiritualidade desse povo. Entre todos os generos da cultura popular, convem citar os relatos miticos da criacao, os gestos epicos e heroicos, as parabolas religiosas, as cronicas historicas, as cerimonias culturais ligadas aos elementos naturais (a agua, o fogo, o raio, o granizo, a terra). Nas diferentes lendas, as crencas populares e as mitologias udis a lua, o sol e o fogo ocupam um grande espaco. Os ritos udis encontram seu fundamento nos cultos antigos da fartura, da prosperidade e da fecundidade.

Proverbios udis

--Por menor que seja o tamanho de sua terra, ela e a sua patria.

--No verao trabalha, no inverno descansa.

--E na panela que a noz e cozida.

--Sem amigos voce se transforma em um morto vivo.

--Aquele que peca pela lingua paga com sua cabeca.

Algumas anedotas udis

--Um avo levou seu neto ao mercado. A noite, a avo perguntou ao seu neto: "Meu pequeno, o que voce viu no mercado?". Ele lhe respondeu: "O que eu vi? Vi como se tosquiam os carneiros e como os dependuravam aos ganchos de ferro". (1)

--Em certa aldeia, um udi havia recebido o apelido de "rabo". Quando a gente lhe perguntava por que lhe haviam dado tal apelido, tao ridiculo, ele respondia: "Em nossa aldeia, muitas pessoas recebem apelidos designando nomes de animais e das partes de seus corpos. Quando chegou a minha vez, sobrara somente o rabo e e por isso que recebi tal apelido".

--Um udi ouviu dizer que aquele que cai de um corniso (arvore comum dos bosques do Azerbaijao) se transformava em jumento. Um belo dia, em um pomar, ele caiu de um corniso. Apos ter retirado a poeira de seu corpo, pediu a sua mulher: Mulher cuide para que ninguem saiba que cai de um corniso, pois tenho medo de me transformar em um jumento".

E a mulher lhe respondeu "Vai trabalhar, nao tema, os jumentos nao podem se transformar em jumentos".

Personagens

Os udis, como outros povos azerbaijanos, participam ativamente da vida social e cultural da Republica do Azerbaijao. Desde 1957 varios e relevantes representantes da comunidade udi realizaram todos seus estudos em idioma azerbaijano ou em russo e trouxeram contribuicoes a ciencia e a cultura de seu pais. Eis alguns dados biograficos de udis famosos:

--Voroshil Levonovich Gukasyan (1932-1986): celebre sabio udi, oriundo da aldeia de Nij, linguista e orientalista, doutor em filologia, escreveu notaveis e preciosos artigos cientificos e tambem notaveis monografias sobre o antigo turco e as linguas udie e azerbaijana. E o autor do primeiro dicionario udi-azeri-russo.

--J. Aydynov e George Kechaari: sao os autores dos manuais das classes primarias das escolas udis. Convem sublinhar aqui o trabalho colossal realizado por George Kechaari, autor de uma compilacao de contos, de narracoes de lendas e de anedotas udis. Do mesmo modo, e preciso cumprimentar Minani Mayisa Kochari pelos seus versos e narrativas de recordacoes.

--Richard Arami Danakari: doutor em ciencia filosofica, professor e chefe da cadeira de filosofia da Universidade do Estado de Volgograd, se consagra ha numerosos anos ao estudo cientifico dos problemas etnicos encarados como problemas de filosofia social.

Entre os representantes das classes intelectuais udi e necessario assinalar a pleiade de eruditos procedentes da familia Bezhanov, que forneceu uma contribuicao consideravel ao conhecimento da etnografia udi.

E preciso tambem louvar a parte da contribuicao de Yuri Dallara ao progresso tecnico do pais. Memoraveis tambem sao os padres Zino Silikov e Pak que defenderam tenazmente a Igreja e a cultura udi-albanesa. Enfim, os udis se orgulham de seus compatriotas, os irmaos Stepan e Semyon Patchikov, que fazem parte da corporacao "Microsoft". (fig. 15)

Referencias bibliograficas

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Strabo. 1924. The Geography. Trad. Horace Leonard Jones. The Loeb Classical Library Edition. Cambridge: Harvard University Press.

Robert Baqratovic Mobili (*)

(*) Baku State University. Azerbaijao. Departamento de Mineralogia, Cristalografia e Geoquimica. <argomobili@ rambler.ru>

(1) Significado da anedota: no leste, ou seja, na Asia Caucasiana, Bazaar e um lugar nao so de comercio, mas tambem de demonstracao da sociedade local. Em uma palavra: Bazaar e um barometro da vida e grupos etnicos na regiao. Entao, o avo levou o neto para mostrar a sua comunidade, sua cultura, costumes e tradicoes. Mas ja que era pequeno, nao consegue perceber o significado do bazaar, mercado, vendo apenas como os ovinos eram tosquiados e abatidos para a carne e seu couro pendurado em um gancho (gancho de ferro). Portanto, o significado desta anedota e que o avo queria mostrar tudo de melhor na comunidade, mas o netinho so viu o couro das ovelhas. Tudo o mais nao pode avaliar porque era crianca. Assim esta anedota quer demonstrar que muitas vezes uma pessoa e imatura para compreender uma realidade.

Caption: Fig. 1. Mapa da antiga Albania do Caucaso. Fonte: http://pt.wikipedia.org/ wiki/Ficheiro:Caucasus_290_BC_map_pt.svg

Caption: Fig. 2. Lapide sobre o tumulo de um sacerdote (final do seculo XVII). Entrada sul da Igreja de Santo Eliseu em Nij. Azerbaijao. Foto do autor, 2014.

Caption: Fig. 3. Bosques de nogueiras e aveleiras na regiao de Nij. Foto do autor, 2012.

Caption: Fig. 4. Casa no vilarejo de Nij, regiao Gabala. Azerbaijao, 2012. Foto do autor.

Caption: Fig. 5. Visita oficial do Presidente da Republica do Azerbaijao a Nij, um dos principais nucleos urbanos da populacao udi, em 18 de agosto de 2005. Foto: Azarbaycan Xabar Agentliyi [Agencia de Noticias do Azerbaijao].

Caption: Fig. 6. Licao de lingua udi na escola primaria de Nij. Azerbaijao, 2013. Foto do autor.

Caption: Fig. 7. Igreja de Santo Eliseu (Chotari). Nij, regiao de Gabala--1723-1726. Azerbaijao, 2014. Foto do autor.

Caption: Fig. 8. Palimpsesto com a antiga escrita albanesacaucasiana. Zaza Aleksidze percebeu que uma certa passagem no palimpsesto albanes repetiu a mesma palavra nove vezes em rapida sucessao. Isto levou a sua decifracao. Ele sabia que a passagem biblica havia sido a partir de cartas do Apostolo Paulo aos cristaos de Corinto. Esta passagem e de 2Cor 11, 26-27. A palavra repetida e marakesunukh que significa "eu fui perseguido". In: Aleksidze, Z.; Blair, B. The Albanian Script. The Process--How Its Secrets Were Revealed. http://azer.com/aiweb/categories/magazine/ai113_ folder/113_articles/113_zaza_aleksidze_secrets.html

Caption: Fig. 9. Igreja de Santo Eliseu na vila de Kish, regiao de Shaki. Igreja mae das igrejas orientais (final do seculo I, inicio do seculo II). Kish. Azerbaijao, 2014. Foto do autor.

Caption: Fig. 10. Fazenda com criatorio de porcos. Regiao de Nij. Azerbaijao, 2012. Foto do autor

Caption: Fig. 11. Feira dominical de produtos alimenticios em Yakmarka, proximidades de Nij. Azerbaijao, 2010. Foto de Argo Mobili.

Caption: Fig. 12. Grupo musical udi. Nij, 2013. Foto do autor.

Caption: Figs. 13 a-b. Pascoa na Igreja de Santo Eliseu--Nij. Azerbaijao. 2013. Foto do autor.

Caption: Fig. 14. Ativistas udi-albaneses da comunidade crista durante uma discussao em abril de 2008. Nij, Azerbaijao

Caption: Fig. 15. Sr. Robert Mobili, presidente da Comunidade Udi em sessao da UNESCO. Nairobi. Quenia, 2010.
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Author:Mobili, Robert Baqratovic
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jan 1, 2014
Words:7489
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