Printer Friendly

The Persian Empire and Classical Political Thought: A Panoramic View/O imperio persa e o pensamento politico classico: um panorama.

Ao celebrar, em outubro de 1971, os dois mil e quinhentos anos do Imperio Persa, Mohammad Reza Pahlavi, entao xa do Ira, regozijava-se na ignorancia dos anos vindouros. Envolvendo o pais em cerimonia, com pompa e circunstancia, enderecou emocionado discurso a Ciro, o Grande, apos colocar-se de pe diante da tumba do fundador (Curtis, 2005, p. 257). Em Pasargada, o monarca deu inicio as festividades. Ja em Persepolis, escolhida para sediar uma parada militar comemorativa, o rei instalou um jardim de rosas e ciprestes a moda francesa. Banqueteando juntos, os convidados ilustres, chefes de Estado, chefes de governo e suas comitivas, deliciavam-se ao sabor do caviar iraniano e, de forma geral, aproveitavam uma estadia luxuosa. Nas palavras de Orson Welles, aquele nao era um acontecimento qualquer, mas "uma celebracao de vinte e cinco seculos" (Kadivar, 2002).

O evento deu ensejo a diversas leituras ideologicas e tornou-se instrumento e combustivel de propaganda politica. De um lado, a monarquia iraniana, em seu afa por ocidentalizar-se, adotara como simbolo o cilindro de Ciro, uma reliquia arqueologica que o British Museum concordara em ceder ao pais durante as festividades. Para o ultimo xa do Ira, a peca seria uma especie pioneira de Carta dos Direitos Humanos (Macgregor, 2004). Reproduzindo essa visao, houve quem afirmasse que Ciro, o Grande, fora um defensor "das liberdades e dos direitos humanos, muito antes da Magna Carta". As palavras, pronunciadas por Welles no documentario Flames of Persia, eram, sem duvida, impactantes, mas contrastavam ironicamente com a conhecida brutalidade da SAVAK.

De outro lado, os exageros e luxos da monarquia afiguravam-se como caprichos tiranicos, tingindo o discurso das oposicoes. O aiatola Khomeini, lider da revolucao de 1979, alertara o xa contra a pretensiosa celebracao. De seu exilio no Iraque, afirmava que as grandes obras dos reis iranianos haviam sido erigidas sobre os cadaveres do povo trabalhador (Llewellyn-Jones, 2013, p. 12). Demonstrava, assim, seu desprezo pelas monarquias antigas e modernas. Das cinzas do passado sassanida, arsacida e, sobretudo, aquemenida, brotava, como de costume, uma espessa nuvem de controversia politica, bem como certa leitura polarizada pelas persistentes imagens do autoritarismo e da liberdade.

Nada de novo debaixo do sol. A Persia antiga foi, consistentemente, objeto e cenario dos discursos politicos ocidentais, em termos semelhantes. Montesquieu, em seu Espfrito das Leis, observara ironicamente que as leis da Persia obrigavam o rei a execucao de decisoes eivadas de vicios grosseiros, como aquela que teria permitido o exterminio de todos os judeus no livro biblico de Ester (Montesquieu, 2004, p. 69). O despotismo, referenda politica remodelada pelo autor frances, encontrava na monarquia iraniana um exemplo perfeito: para ela convergiriam, supostamente, a fragilidade do direito privado, a ausencia de normas fundamentais, as veleidades e caprichos das dinastias reinantes e certa disposicao belicosa (Montesquieu, 2004, p. 68-69; 98-104).

A proposito dessa representacao da Persia, leia-se a seguinte passagem, extraida do Espfrito das Leis:

Os principes dos Estados despoticos sempre abusaram do casamento. Tomam, de ordinario, varias esposas, sobretudo na parte do mundo onde o despotismo e, por assim dizer, naturalizado, ou seja, na Asia. Ali se tem tantos filhos que sao absolutamente incapazes de nutrir afeicao por eles, nem estes por seus irmaos.

A familia reinante se assemelha ao Estado: e demasiado fraca, e seu chefe, demasiado forte; parece extensa, mas se reduz a nada. Artaxerxes ordenou a morte de todos os seus filhos por terem conjurado contra ele. Nao e verossimil que cinquenta filhos conspirem contra seu pai; e ainda menos que conspirem porque ele nao quis ceder sua concubina ao seu primogenito. E mais facil crer que tenha havido alguma intriga tipica desses serralhos do Oriente; desses lugares onde o artificio, a maldade, a astucia, reinam no silencio e se cobrem com o manto de uma espessa noite; onde um velho principe, tornado a cada dia mais imbecil, constitui o primeiro prisioneiro do palacio (Montesquieu, 2004, p. 101, trad. Bini).

Bodin, um pensador mais generoso para os orientais, pode acolher a Persia aquemenida entre seus modelos de realeza legitima e, curiosamente, chegou a elogiar seus monarcas. O pensador frances negava-se a acreditar na irrevogabilidade da "lei dos medos e dos persas", empregada por Montesquieu, seculos depois, para exemplificar a irracionalidade dos aquemenidas (Bodin, 1579, p. 102). Alem disso, chegou a exaltar a monarquia dos iranianos, que inseriu dentro de uma categoria intermediaria em sua classificacao geral. Em suas palavras,

[...] nos vemos tambem que as tiranias sao arruinadas bem cedo e que os estados senhoriais, mesmo as monarquias senhoriais, foram grandes e formidaveis, como as monarquias antigas dos assirios, dos medos, dos persas [...] (Bodin, 1579, p. 194, nossa traducao)

Notavelmente, o contraste dos tratamentos dispensados por Bodin e Montesquieu ao Imperio Persa se encaixa perfeitamente no plano geral de suas divergencias teoricas. Da elaboracao de um conceito de soberania absoluta a defesa de restricoes constitucionais ao poder, o exemplo da Persia adequou-se aos discursos de cada momento historico.

A observacao e valida para outros pensadores modernos. Hobbes, por exemplo, destacou o fato de que a filosofia pode nascer pioneiramente em Estados de monarquias antigas, como a Persia, uma vez que nesses paises houvera uma situacao de unificacao e paz que os gregos tardaram a conquistar (Hobbes, 1981, p. 683-684). Criticado ainda mesmo no seculo XVIII (Duperron, 1778, p. 1), o desprezo de Montesquieu pelo regime dos persas alcancava o extremo das reprovacoes a Ciro, o Grande. O mesmo Ciro que, no Principe, de Maquiavel, e tido como um exemplo de lideranca pela grandeza de alma e as facanhas realizadas (Maquiavel, 2008, p. 81, 264-265, 278-280).

Todos esses ensaios sobre a antiguidade persa e todo o complexo fatico que os teoricos modernos selecionaram para deles extrair generalidades e modelos universais nutriram-se de uma fina seiva estabelecida pela literatura biblica e, em especial, a literatura classica contemporanea ao Imperio Aquemenida. O Ira e as particularidades historicas, politicas e sociais do Oriente Proximo Antigo alimentaram a imaginacao dos helenos e serviram de objeto as reflexoes inovadoras dos seculos V e IV a.C. Herodoto, Aristoteles, Xenofonte e Platao, debrucando-se sobre temas politicos e juridicos, utilizaram a argila das historias recentes e remotas dos orientais e deram vida e sentido especiais as narrativas correntes sobre os reis aquemenidas.

De maneira geral, e possivel identificar tres temas de reflexao promovidos pelo contato entre gregos e persas no pensamento politico classico. De um lado, a Persia forneceu aos helenos um modelo contemporaneo, grandioso e relativamente estavel de regime monarquico, baseado em instituicoes muito distintas dos orgaos colegiados de exercicio de poder que eram comuns nas poleis classicas. De outro lado, a extensao geografica e a diversidade etnica do dominio aquemenida, historicamente ineditas, conduziram os autores gregos a reflexoes pioneiras sobre o "imperio territorial", um ente politico patentemente distinto das cidades-estado. Por fim, as figuras individuais dos monarcas persas alimentaram o imaginario dos antigos e conduziram a formulacoes teoricas personalistas e eminentemente morais das praticas de governo.

A nocao do dominio persa enquanto um regime despotico, reverberada pelos autores modernos, tornou-se um lugar comum dos estudos academicos sobre as imagens da Persia na Grecia classica. Segundo alguns, ja Herodoto e Esquilo apresentariam o regime persa como um "despotismo", um dommio senhorial, similar a tirania grega (1) e oposto aos regimes colegiados de exercicio do poder (Barcelo, 1993, p. 174-175). Fala-se, ademais, da emergencia de uma consciencia identitaria grega, fundada mormente neste contraste politico entre os regimes da Persia e da Grecia (Hall, 2002, p. 172-228).

Sem duvida, o tema da peleja entre despotismo e liberdade e encontradico na literatura antiga, mas seria anacronico pensar que ele nao tenha sofrido modificacoes ou um desenvolvimento historic complexo. A historiografia alexandrina, ao que parece, conferiu ao tema sua forma mais popular, cristalizando, pela tarefa de preservacao da propaganda de Alexandre, o Grande, a conhecida antitese entre os gregos livres e os persas servis. E a imagem que nos fornece, por exemplo, Arriano, ao relatar o discurso de Alexandre as vesperas da batalha de Isso, qualificada como "uma luta de homens livres contra escravos" (Arr. An., II, 7.4). E tambem a origem da tensao subjacente a "orientalizacao" do rei da Macedonia em Arriano e outros (assim chamados) historiadores de Alexandre, como Quinto Curcio, Pompeu Trogo e Plutarco.

Nesses autores, a retorica da liberdade e esquematica e polarizada, decerto em razao de seu proposito pedagogico e das preocupacoes politicas proprias de seu tempo, o Principado e o Imperio Romano (Briant, 2003, p. 169). Para legitimar seu governo monarquico, os cesares se apresentaram, desde Augusto, como "principes" em harmonia com as instituicoes e as leis. Os regimes barbaros, ao contrario, seriam marcados pelo exercicio de um poder absoluto sobre os suditos. Assim, ao representar os reis persas e partos como despoticos e crueis, os autores do periodo romano contribuiam para delimitar as fronteiras do bom e do mau governo. Durante grande parte da historia romana, esse modelo, transposto a realidade arsacida, manteve notavel vigor (Lerouge, 2007, p. 260-267).

Antes da era romana, a ideia aparece, de uma forma ou outra, nos oradores aticos, historiadores e filosofos dos seculos V a IV a.C. Em Tucidides, por exemplo, as trajetorias de Pausanias, Temistocles e Alcibiades, politicos ambiciosos (ou assim percebidos), evidenciam a associacao, provavelmente difusa no imaginario grego, entre a Persia e a tirania. Pausanias, campeao de Plateias, teria se tornado arrogante e impopular entre os aliados de Esparta, provocando sua insatisfacao. Agindo e portando-se como um persa, foi acusado de "medismo" e morreu como suplicante ao ser descoberto tramando um matrimonio com a filha do rei (1.95; 128-134). Temistocles, acusado do mesmo crime, se exilou na corte persa, onde nutria a esperanca de conquistar a Grecia (1.138). Alcibiades, apos pressionar os atenienses a reencetar a guerra contra os lacedemonios por consideracoes de puro orgulho pessoal, acaba por conduzir Atenas a catastrofe completa na Sicilia e, apos um exilio em Esparta, se instala na corte de Xerxes II (8.45). Em todos esses casos, como e evidente, o historiografo ateniense sugere um vinculo de inspiracao e mesmo patrocinio entre a arrogancia de gregos ambiciosos e o regime do rei dos reis.

A origem dessa imaginada polaridade, segundo os estudiosos da questao, poderia ser identificada em Esquilo e Herodoto, os quais teriam elaborado certo discurso sobre o Oriente Proximo estruturado sobre uma distincao essencialmente politica e instrumental para os interesses do crescente Imperio Ateniense. Encontramos as mais diversas maneiras de expressar essa leitura tradicional. Para Francois Hartog, por exemplo, "as Historias [de Herodoto] fazem crer que, entre gregos e barbaros, a diferenca e quanto ao poder" (Hartog, 1988, p. 345). Edith Hall, por sua vez, fala do embate entre gregos e persas como evento que teria "catalisado a invencao do barbaro" e permitido a associacao destes ultimos ao "demonio da tirania" (Hall, 1989, p. 59). A doutrina e sintetizada com clareza pela obra de Paul Cartledge:

Vez ou outra, implicita e explicitamente, Herodoto estabelece um contraste entre o que poderiamos chamar de a liberdade republicana e o autogoverno gregos e o despotismo oriental persa. [...] Entre o sequito de conselheiros de Xerxes durante sua tentativa de conquistar a Grecia, em 480, havia um exilado espartano, nao um qualquer, mas o outrora rei Demarato, que, apos seu (injusto) destronamento, havia 'medizado'. Herodoto nao pode ter conhecido o que Demarato e Xerxes haviam dito um ao outro, muito menos os detalhes de qualquer entrevista formal. Apesar disso, nem um pouco intimidado, e o que ele declara reproduzir mais de uma vez no livro sete. Num desses casos (7.104), de maneira um tanto inverossimil, faz-se Demarato discursar [...] a favor do Helenismo, embora dotado de um toque espartano. Para os persas, diz ele, voce, Xerxes, e um despotes, um governante absoluto de suditos que nao sao mais livres que escravos. Os espartanos, contudo (representando 'os gregos') nao reconhecem um despotes, exceto nomos, a Lei [...]. Foi o nomos despotico persa que, sugere Herodoto, estimulou, inevitavelmente, a agressao imperialista de Xerxes e, nesse sentido, causou as Guerras Medicas. Mas, de forma nao menos evitavel, tal nomos e Xerxes encontraram seu adversario no nomos livremente escolhido que regia os gregos. Nessa medida, consideravel, Herodoto endossou, inconscientemente, como quase todos os gregos, um estereotipo negativo do Outro barbaro (Cartledge, 2002, p. 76-77, nossa traducao).

Felizmente, tal visao tem sido desconstruida pela critica recente, que questiona tanto a cronologia desenvolvida para explicar a "invencao dos barbaros" (Kim, 2013, p. 37) quanto a interpretacao politica que se poderia extrair da obra de Herodoto. Destacam-se, especialmente, as criticas de Erich Gruen e Pascal Payen, que nao enxergam em Herodoto qualquer vies essencialista a erigir um muro intransponivel separando gregos e barbaros (Gruen, 2010, p. 168; Payen, 1997, p. 163-218).

Em breve sintese, os especialistas hoje nos alertam para o fato de que o recorte entre monarquia ou tirania, de um lado, e democracia ou republicanismo, de outro, nao e uma chave interpretativa valida para todas as passagens das Historias. Para Gruen, por exemplo, nao ha relacao de identidade entre os discursos espartanos anti-persas nas Historias e a opiniao de Herodoto (Gruen, 2010, p. 77-85). Asheri pede que tenhamos em mente as diversas passagens em que o historiografo admite o sucesso e adequacao dos regimes monarquicos (Asheri et. al., 2007, p. 45). Outros autores atentam para o fato de que Herodoto censura os abusos da democracia ateniense ao longo das Historias, ainda que por meio de alusoes e outras sutilezas narrativas (Moles, 2002, p. 33-52). (2)

Quanto a Esquilo, cuja obra Os Persas chegou a ser considerada o primeiro exemplar na historia do "Orientalismo" (Hall, 1989, p. 99), o debate sobre a natureza de sua representacao do "outro" admite duas versoes. De um lado, ha uma perspectiva antiga que realca a simpatia pelos persas provocada pela narrativa tragica, como faz Broadhead ao expressar sua "forte impressao de que o dramaturgo procurou delinear, nao com preconceito ou malicia, mas com imaginacao empatica, a tragedia persa tal qual ele pensara que teria afetado o povo persa" (Broadhead, 1960, p. xxix, nossa traducao). De outro, ha autores que sustentam a visao critica, de uma peca que contrapoe a democracia ateniense a tirania persa (Harrison, 2000, p. 76-115). Seja como for, a visao atenocentrica de Esquilo presumivelmente diferiria daquela de Herodoto, cuja biografia estava intimamente ligada ao imperio dos aquemenidas.

O "Debate Constitucional" de Herodoto, ambientado no Imperio Aquemenida, foi (e continua a ser) objeto de inumeras pesquisas academicas, (3) vez que constituiria reflexao pioneira, "a moda grega", sobre os tipos de governo na Antiguidade. Conta-nos o "pai da Historia" que, apos derrotar os usurpadores medos, Dario e outros nobres teriam apresentado argumentos quanto ao regime que os persas deveriam adotar. O primeiro a falar, Otane, teria defendido a democracia, o segundo, Megabizo, advogara pela oligarquia, enquanto Dario, ao final, se colocara ao lado da manutencao da monarquia, levando a melhor.

Objeto de leituras positivistas e literarias, o "Debate Constitucional" tambem ensejou interpretacoes diversas sobre o pensamento politico classico (Gallo, 2015; Meneses Sousa, 2010). Para o estudo da importancia da Persia no pensamento politico grego, contudo, o debate se destaca devido a insistencia de Herodoto em sua historicidade. Afinal, se o historiografo de Halicarnasso podia admitir, na famosa narrativa, que a Persia fora o local em que a primeira ponderacao dos argumentos favoraveis e desfavoraveis a democracia, a oligarquia e a tirania teria tido lugar, parece claro que nao via nos persas, em particular, e nos barbaros, de forma geral, um carater autocratico genetico, dado ou incontornavel. E por isso que alguns autores chegaram a dizer que

A insistencia [de Herodoto] na historicidade do debate tem o proposito metodologico de criticar, novamente, as falsas opinioes dos gregos sobre os barbaros. Sua proposta didatica e lembrar seus compatriotas de que a 'democracia' nao e uma invencao especificamente grega, totalmente estranha ao mundo dos barbaros (Asheri et. al., 2007, p. 473, nossa traducao).

Nao seria correto pensar, contudo, que a relevancia da Persia so se expressa nos debates classicos sobre regimes politicos. Os aquemenidas forneceram aos gregos, sem duvida, um modelo peculiar de monarquia, mas, ao mesmo tempo, permitiram o surgimento de uma consciencia sobre um tipo particular de "Estado", o Estado imperial. Portanto, a segunda e mais sutil questao colocada pela consciencia da Persia aos autores gregos foi, note-se, a apreensao do imperio, desdobrando-se em inovacoes terminologicas e conceituais. Salvo por uma obra monografica de Claudia Tanck (1997), o lexico grego para o Imperio Aquemenida nao atraiu especial atencao dos especialistas, ainda que continue a suscitar interesse nas reflexoes sobre o imperialismo antigo (Desclos, 2006, p. 25-26).

Oriundo de dinamica internacional distinta, o Imperio Persa estendeu sua influencia sobre uma miriade de cidades-estado, as poleis, caracteristicas por sua pequena extensao territorial e independencia formal. Os aquemenidas, diversamente dos gregos, reivindicavam para si uma enorme porcao do mundo entao conhecido, da India antiga (a atual regiao do Paquistao e do Punjab) a Etiopia, da Arabia a Tracia. Detinham, assim, um dominio territorial gigantesco e inedito, ocupado por povos ou agrupamentos que se percebiam como culturalmente e genealogicamente distintos. Se os persas tinham um "Estado", no sentido moderno do termo, interessava saber se esse ente politico poderia corresponder, em sentido lato, a uma polis e, caso contrario, a categoria conceitual que estaria apto a ocupar no pensamento antigo.

Entre os proprios orientais, ao que tudo indica, inexistia uma denominacao capaz de abarcar as nocoes de territorialidade e exercicio de poder simultaneamente, isto e, dois dos componentes basicos de um Estado (Hansen, 1998, passim). Os persas limitavamse a falar de sua xsaca, em sentido territorial (Gnoli, 2009, p. 109-118). Outros termos, como bumi e dahyu, teriam alcance igualmente restrito (Herrenschmidt, 1980, p. 72). Ate mesmo os hebreus, suditos do imperio e eximios cronistas, nao deram nome especifico a essa entidade, mas, antes, fizeram uso de palavras genericas para descreve-la (Stuart, 2011, p. 29). Os sassanidas tampouco teriam desenvolvido um termo equivalente as nocoes modernas de governo imperial (Gnoli, op. cit., p. 115).

Na Grecia, contudo, a consciencia da Persia parece ter induzido a formacao de uma importante nocao politica, essencial para as discussoes de Tucidides em diante. Os mais remotos autores que escreveram sobre o Imperio Persa, interessantemente, referem-se a entidade como uma polis, genericamente, ou um pais (chora), em sentido territorial, seja por razoes literarias, seja por falta de termo melhor. E o caso de Esquilo (Pers. 213, 511-512, 682, 715, 781) e, talvez, Helanico de Lesbos (FrGH 687a; Cf. Jacoby, 1958, p. 412-414). Herodoto, pelo que podemos aferir, e um dos primeiros autores a empregar um vocabulo que denota, simultanea e alternadamente, o territorio e o governo das monarquias imperiais e orientais: arche (apxn: Hdt. 1.72.2; 106.2; 207.3-4). (4) Restringindo essa nocao virtualmente aos imperios da Asia (Wickersham, 1994, p. 21), Herodoto sugere que "o imperialismo era algo que nao-gregos (i.e. persas) faziam aos gregos" (Balot, 2006, p. 156). Nesse sentido, mais do que uma reflexao sobre boas e mas monarquias, o historiografo aponta para o imperio, com a consequente ameaca que este representava a "liberdade" (independencia) das comunidades gregas, como especificidade persa.

Mais do que isso, Herodoto fez uso de uma expressao que designava, exclusivamente, os imperios de tipo asiatico, atribuindolhe caracteristicas que deixam pouca duvida sobre sua natureza: megale arche (1.185.1). (5) A arche, qualificada como grande e descrevendo imperios orientais, reaparece em Xenofonte (Cyr. 8.1.13), Isocrates (Hel., 43) e Polibio (1.2.2), numa longa tradicao classica de descricao do dominio do rei dos reis. Com conteudo territorial, ainda que menos frequente, a expressao arche parece ter destacado o que de mais distintivo havia na ideologia e vocabulario dos proprios persas sobre seu poderio--um verdadeiro desafio para os helenos, que concebiam o Estado enquanto vinculo de natureza precipuamente pessoal.

Nas decadas subsequentes, contudo, os antigos passaram a empregar o termo arche tambem para se referir ao Imperio Ateniense, revelando a percepcao de que Atenas passara a deter um dominio internacional territorial, similar aquele exercido pelos povos da Asia. Em Herodoto, para ser preciso, ha apenas uma associacao do termo arche ao exercicio de poder das poleis gregas no plano internacional, ocorrencia que esta sujeita a diversas interpretacoes, mas que nao deve sugerir um imperio (6.98.2). Em Tucidides, o vocabulo e usado sistematicamente nas descricoes de Atenas, carregando uma conotacao negativa, em oposicao a ideia de uma hegemonia (isto e, comando militar) livremente concedida (Morris, 2008, p. 128). Em Xenofonte, Aristoteles e demais autores classicos, o termo, com o sentido de imperio, tambem e designacao comum para gregos e barbaros, com conotacao territorial e politica.

Se os gregos anteriores as conquistas de Alexandre teriam desenvolvido uma avaliacao moral monolitica dos persas, e tema sujeito a debate. Claro e, entretanto, que eles tentaram, insistentemente, extrair do imperio modelos positivos e negativos de lideranca, sem demonstrar uma posicao univoca. Assim, ao estudar as avaliacoes gregas sobre o imperio, e inevitavel que nos indaguemos sobre as avaliacoes gregas da dinastia reinante e de seus monarcas individuais a partir das praticas de governo dos aquemenidas.

Xenofonte, escrevendo na primeira metade do seculo IV a.C., escolheu a Persia para ambientar um de seus escritos politicos mais relevantes: a Ciropedia. A obra e mais do que um elogio a Ciro, o Grande: ela fornece um paradigma do bom lider. O principal detalhe, se e que assim podemos chama-lo, e que o Estado governado por Ciro e uma monarquia universal, que atinge os extremos do mundo habitado, diferenciando-se radicalmente do que era conhecido no mundo grego da epoca. Assim, soa estranha a escolha da Persia para tal exercicio de proselitismo politico.

O autor ateniense conhecia o Imperio Aquemenida, tendo sido um dos generais responsaveis por conduzir um exercito de mercenarios gregos de volta a Helade apos uma malfadada tentativa de enfrentar o rei dos reis. Sua Ciropedia, portanto, deveria refletir conhecimentos e opinioes autenticas sobre a Persia (Gera, 1993, p. 1-25), embora muitos especialistas defendam tratar-se de uma especie de romance historico, com muitos aspectos ficcionais e referencias politicas remotamente autoctones.

Nao fosse a desconfianca dos estudiosos em relacao a intencao de Xenofonte nessa obra, nao haveria duvida de que a Ciropedia representa a monarquia universal persa como um modelo positivo, em vez de reiterar estereotipos depreciativos que em breve viriam a se consolidar. Ao que parece, ha quem pense que o carater ficto da obra de Xenofonte afastaria a possibilidade de ter ela representado um encomio a Persia. Wiesehofer, por exemplo, assevera que a monarquia persa contemporanea a Xenofonte e claramente "recusada" como modelo politico, especialmente em razao da critica a degeneracao do imperio asiatico no livro oitavo da mesma obra (Wiesehofer, 2010, p. 95). Em defesa dessa perspectiva, foram tambem apontadas passagens da Ciropedia que antecipariam uma visao critica de Ciro, implicitamente, a partir de sua administracao da Babilonia (Gera, 1993, p. 285-299).

Pode ate ser. Note-se, entretanto, que muitos comentaristas recusaram a autenticidade historica da conclusao de Xenofonte no capftulo oitavo do livro oito (o "epflogo"), creditando-lhe uma autoria tardia, vez que nao se coadunava com o carater glorificador do restante do escrito (Cf. Tatum, 1989, p. 220-225). Ainda hoje, nao se pode dizer que todos os historiadores concordariam com Wiesehofer e a corrente majoritaria em relacao a cronologia ou autoria da referida passagem. Parece, ademais, acertada a opiniao de Steven Hirsch, segundo o qual "a Ciropedia [...] e extraordinaria entre os escritos gregos do seculo quarto precisamente em razao de sua posicao altamente simpatica em relacao ao Imperio Persa" (Hirsch, 1985, p. 97, nossa traducao).

Em As Leis, de Platao, ao contrario, o imperio e contundentemente criticado. A avaliacao, superficial, e formulada a partir das praticas de governo de reis tomados individualmente (Lg. 697c.). O retrato do imperio que Platao nos quer transmitir fundamenta-se numa explicacao eminentemente moral, que atribui a educacao dos monarcas o sucesso ou fracasso de suas politicas (Araujo, 2016, p.19; Lenfant, 2011, p. 277-282). Essa perspectiva, comum na Antiguidade, explica, por exemplo, a importancia conferida por Platao a Dario I, apresentado, em outra obra, como um reformador, ao lado de Licurgo e Solon (Vlassopoulos, 2013, p. 201, 203).

Aristoteles, o estagirita, viveu entre os reinados de Artaxerxes II e Artaxerxes III e produziu uma obra da qual seguramente se esperaria encontrar apontamentos sobre a Persia aquemenida. No entanto, nem sempre e facil situar o lugar da Persia em sua obra ou apontar uma avaliacao preponderante da monarquia aquemenida.

Ate muito recentemente, defendeu-se que a nocao de despotismo oriental teria uma raiz antiga e, em particular, aristotelica. Koebner e Richter, examinando com esmero e precisao tecnica a evolucao do conceito de despotismo, enxergam em Aristoteles uma cesura essencial entre gregos e barbaros e o desenvolvimento de uma teoria muito proxima daquela que se tornaria a opiniao comum do seculo XVIII quanto as monarquias orientais (Koebner, 1971, p. 276; Richter, 2010, p. 262). Em apertada sintese, esses autores defendem que o regime asiatico, na forma em que fora entendido por Aristoteles, consistiria no exercicio de poder analogo aquele do senhor sobre seus escravos.

Por outro lado, ha quem afirme que o filosofo teria manifestado reservas apenas quanto a monarcas individuais e, de forma geral, uma opiniao positiva da dinastia reinante ou de suas instituicoes: "assim, o primeiro ensinamento ocidental sobre a monarquia aquemenida, paradoxalmente presente na obra de um grego que considerava a Persia radicalmente inferior por natureza, era de uma profunda admiracao pela dinastia dos Grandes Reis" (Bodeus, 1973, p. 472, nossa traducao). Nessa leitura, ate mesmo a monarquia absoluta de Aristoteles, a pambasileia, teria como referenda precipua a Persia.

Ambas as interpretacoes, muito sofisticadas, sao, em alguma medida, defensaveis e compativeis. A visao aristotelica da Asia era preponderantemente negativa, com enfase inegavel na natureza inferior dos barbaros, tidos como meros escravos. Ao mesmo tempo, o governo despotico parece conforme a experiencia asiatica justamente devido a alegada inferioridade social de seus povos.

Aristoteles, na Politica, concebe uma categoria especifica de governo monarquico, a realeza "dos barbaros", um hibridismo de monarquia e tirania. (6) Ela consistiria no dommio "senhorial", temperado pela hereditariedade e o exercicio de poder conforme as leis (Pol. 1285a20-24). Esse governo, sobre o qual recai, sem duvida, algum juizo de censura, deve ser entendido como expressao generica da monarquia persa. Certamente, nao se tratava de uma tirania estrita, mas tampouco de uma monarquia ideal, uma vez que sua relacao de dominio e caracterizada como despotica, ou senhorial, ainda que, como dissemos, apropriada a realidade asiatica, onde os povos seriam naturalmente propensos a tal controle.

A esse respeito, e preciso destacar mais de uma passagem relevante. Na Etica a Nicomaco, Aristoteles afirma que a relacao dos pais com seus filhos tem a forma de uma monarquia, preocupandose o progenitor com o bem-estar da prole. Entre os persas, diz o estagirita, a autoridade paterna se assemelharia a tirania, sendo os filhos tratados como escravos. O filosofo conclui dizendo que a relacao persa e "pervertida", pois diferentes tipos de subordinados exigiriam diferentes formas de governo (EN 1160b24-34). Aristoteles, ao que parece, nao se refere aqui ao regime persa, mas estritamente a relacao entre pai e filho, que, na Persia, nao respeitaria a forma "monarquica", a busca do bem comum familiar.

Na Politica, encontramos observacoes mais genericas, mas certamente conferiveis ao contexto persa. Em uma passagem, Aristoteles afirma que os barbaros, a mulher e o escravo pertenceriam a mesma categoria, sendo, por natureza, "a mesma coisa" (Pol. 1252b5-9). A partir dessa afirmacao, e licito dizer que, para Aristoteles, os persas seriam naturalmente servis, de forma que suditos, mulheres e filhos figuravam, todos, na mesma categoria de "escravos". Assim, nao pareceria em nada desajustado o governo "despotico" dos persas sobre seus suditos, que constituiriam um mero corpo social de escravos. Vale a pena mencionar, a essa altura, o suposto conselho de Aristoteles a Alexandre de que governasse os macedonios e gregos como lider, mas os barbaros como senhor (Plu. Alex. 6).

Que Aristoteles pensava ser o dominio aquemenida, geralmente, uma tirania fica claro em outras passagens relativas as praticas de governo dos iranianos em casos concretos. Em determinado trecho, o filosofo apresenta a Persia como um modelo para os tiranos gregos (Pol. 1313a35-1313b40). Noutra passagem, a relacao da Persia com seus povos dominados e equiparavel ao dominio dos atenienses (Pol. 1284a39-40; 1284b1-2). Ora, Aristoteles conhecia os abusos e o destino do Imperio Ateniense, denunciado por diversos autores pregressos como uma verdadeira "tirania" no plano internacional (Raaflaub, 2003, p. 59). E verdade que Ciro, o Grande, e tratado como um monarca do tipo que age em favor do interesse comum, exatamente o contrario do que se esperaria de um tirano (Pol. 1310b35-40). No entanto, essa e, muito provavelmente, a excecao, nao a regra.

Ainda assim, ao contrario do caso dos autores iluministas, como Montesquieu, Aristoteles enfatiza, como foi dito, a adesao dos monarcas barbaros as normas, o que parece temperar sua descricao do poder na Asia. As referencias a hereditariedade e a submissao voluntaria ao arbitrio do rei tambem nao sao insignificantes. Ao que parece, Aristoteles fixa uma particularidade das monarquias barbaras, distanciando-as de modelos mais degenerados de exercicio de poder tiranico. O despotismo de Aristoteles e, assim, mais proximo da "monarquia senhorial" de Bodin do que do despotismo dos iluministas, um fato que merece maior atencao.

Monarquia, imperio ou despotismo, o importante e que os mais sofisticados pensadores gregos jamais se furtaram ao exame da politica a luz da experiencia de seus vizinhos orientais. Essa breve incursao pela perspectiva grega do Imperio Aquemenida demonstra, justamente, o inestimavel valor da consciencia da Persia para o pensamento politico classico. Insertos em contexto internacional belicoso, os gregos comuns demonstraram desprezo pelas instituicoes e costumes dos persas antigos, seus inimigos nas campanhas de Maratona, Salamina e Plateias. No entanto, apesar de observarmos uma tendencia a critica e reprovacao dos barbaros na tragedia, na comedia ou nos discursos dos oradores atenienses, parece mais complexa a natureza dos escritos politicos e filosoficos sobre o tema. De um ponto de vista academico, as fontes permitem que facamos indagacoes quanto ao surgimento da nocao de imperio, o suposto alicerce do discurso identitario ateniense e os limites e implicacoes das avaliacoes morais do governo persa. (7)

[Please note: Some non-Latin characters were omitted from this article.]

https://doi.org/ 10.14195/1984-249X_25_3

Bibliografia

ARAUJO, M. T. M. (2016). Direito e poder na Persia Aquemenida. Revista Poder & Cultura 3, n. 5, p. 16-29.

ARAUJO, M. T. M. (2017). Hegemonia e imperios orientais em Herodoto. Classica 30, n. 1, p. 9-27.

ASHERI, D.; LLOYD, A.; CORCELLA, A. (2007). A Commentary on Herodotus, Books 1-4. Oxford, Oxford University Press.

BALOT, R. K. (2006). Greek political thought. Malden, Oxford, Blackwell.

BARCELO, P. (1993). Basileia, Monarchia, Tyrannis: Untersuchungen zu Entwicklung und Beurteilung von Alleinherrschaft im vorhellenistischen Griechenland. Stuttgart, Franz Steiner.

BODEUS, R. (1973). Le premier cours occidental sur la royaute achemenide. In: L'antiquite classique, Tomo 42, p. 458-472.

BODIN, J. (1579). Les six livres de la Republique. Lyon, Imprimerie de Jean de Tournes.

BROADHEAD, H. D. (ed.) (1960). The Persae of Aeschylus. Cambridge, Cambridge University Press.

BRIANT, P. (2003). Darius dans l'ombre d'Alexandre. Paris, Fayard.

BURY, R. G. (trad.) (1961). Plato. Laws. Cambridge, Harvard University Press.

CARTLEDGE, P. (2002). The Greeks: A portrait of self and others. 2 ed. Oxford, Oxford University Press.

CONDILO, C. S. (2008). Herodoto, as tiranias e o pensamento politico nas Historias. Dissertacao de Mestrado. Sao Paulo, Universidade de Sao Paulo.

CURTIS, J.; TALLIS, N. (eds.) (2005). Forgotten Empire, The World of Ancient Persia. London, The British Museum Press.

DESCLOS, M.-L. (2006). L'Empire Athenien et les mots pour le dire. In: MENISSIER, T. L'idee d'empire dans la pensee politique, historique juridique et philosophique. Paris, Harmattan.

DUPERRON, A. H. A. (1778). Legislation orientale. Amsterdam, Marc-Michel Rey.

FERREIRA, J. R.; SILVA, M. F. (trads.) (2015). Herodoto. Historias. Livro 1. Lisboa, Edicoes 70.

GALLO, R. F. (2015). Herodoto e a Teoria das Formas de Governo. Dissertacao de Mestrado. Sao Paulo, Universidade de Sao Paulo.

GERA, D. L. (1993). Xenophon's Cyropaedia: style, genre, and literary technique. Oxford, Clarendon Press.

GNOLI, G. (2007). Old Persian xsaca-, Middle Persian sahr, Greek [phrase omitted] In: MACUCH, M. et al. (eds.). Iranian Languages and Texts from Iran and Turan. Wiesbaden, Otto Harrassowitz GmbH & Co. KG.

GODLEY, A. D. (trad.) (1920). Herodotus. Histories. London, William Heinemann.

GRUEN, E. (2010). Cultural Identity in the Ancient Mediterranean. Issues & Debates. Los Angeles, Getty Research Institute.

HALL, E. (1989). Inventing the barbarian: Greek self-definition through tragedy. New York, Oxford University Press.

HALL, J. (2002). Hellenicity: between ethnicity and culture. Chicago, The University of Chicago Press.

HANSEN, M. H. (ed.) (1998). Polis and City-State. An ancient concept and its modern equivalent. Acts of the Copenhagen Polis Center. Vol. 5. Copenhagen, Danish Royal Academy.

HARRISON, T. (2000). The emptiness of Asia: Aeschylus' Persians and the history of the fifth century. London, Duckworth.

HARTOG, F. (1988). Le miroir d'Herodote : Essai sur la representation de l'autre. Paris, Gallimard.

HERRENSCHMIDT, C. (1980). L'Empire perse achemenide. In: DUVERGER, M. (org.). Le concept d'Empire. Paris, Presses Universitaires de France.

HIRSCH, S. W. (1985). The Friendship of the Barbarians: Xenophon and the Persian Empire. London, Tufts University Press.

HOBBES, T. (1981). Leviathan. London, Penguin Books.

JACOBY, F. (1958). Die Fragmente der griechischen Historiker, Dritter Teil: Geschichte von Stadten und Volkern (Horographie und Ethnographie). Leiden, Brill.

KADIVAR, C. (2002). We are awake--2,500-year celebrations revisited. The Iranian (25 January 2002). Disponivel em https://iranian.com/2002/01/25/we-are-awake/. Acessado em Maio de 2017.

KIM, H. J. (2013). The Invention of the 'Barbarian' in Late Sixth-Century BC Ionia. In: ALMAGOR, E. SKINNER, J. Ancient Ethnography: New Approaches. London e New York, Bloomsbury.

KOEBNER, R. (1951). Despot and Despotism: Vicissitudes of a Political Term. Journal of the Warburg and Courtauld Institutes 14, n. 3/4, p. 275-302.

LENFANT, D. (2011). Les Perses vus par les Grecs. Paris, Armand Colin.

LEROUGE, C. (2007). L'image des Parthes dans le monde grecoromain. Du debut du Ier siecle av. J.-c. jusqu'a la fin du Haut-Empire romain. Stuttgart, Franz Steiner.

LLEWELLYN-JONES, L. (2013). King and Court in Ancient Persia 559 to 331 BCE. Edimburgo, Edimburgh University Press.

MACGREGOR, N. (2004). The whole world in our hands. The Guardian. 24 July 2004. Disponivel em https://www.theguardian. com/artanddesign/2004/jul/24/heritage.art

MACHIAVEL, N. (2008). Le Prince / Il Principe. Texte etabli par : Mario Martelli, Simona Mercuri, Commentaire de : Jean-Jacques Marchand, Traduit par : Paul Larivaille. Paris, Les Belles Lettres.

MARCHANT, E. C. (ed.) (1904). Xenophontis opera omnia. Vol. 3. Oxford, Clarendon Press.

MENESES SOUSA, P. A. (2010). O debate persa em Herodoto. Teresina, EdUFPI.

MOLES, J. (2002). Herodotus and Athens. In: BAKKER, E. J.; JONG, I. J. F.; WEES H. van (eds.). Brill's Companion to Herodotus. Boston/London/Leiden/Koln, Brill.

MONTESQUIEU, C.-L. S. (2004). Do Espirito das Leis. Trad. Edson Bini. Bauru, EDIPRO.

MORRIS, I. (2009). The greater Athenian State. In: MORRIS, I.; SCHEIDEL, W. The Dynamics of Ancient Empires: State Power from Assyria to Byzantium. New York, Oxford University Press.

NORLIN, G. (trad.) (1980). Isocrates. Speeches. CambridgeMass./London, Harvard University Press/William Heinemann Ltd.

PAYEN, P. (1997). Les Iles Nomades : Conquerir et resister dans l'Enquete d'Herodote. Paris, Editions de l'Ecole des Hautes Etudes en sciences sociales.

PERRIN, B. (trad.) (1962). Plutarch. Lives. With an English Translation. Vol. 9. Cambridge, Harvard University Press.

RAAFLAUB, K. A. (2003). Stick and Glue: The Function of Tyranny in Fifth-Century Athenian Democracy. In: MORGAN, K. A. (ed.). Popular Tyranny: Sovereignty and its Discontents in Ancient Greece. Austin, University of Texas Press.

RACKHAM, H. (trad.) (1994). Aristotle. Politics. Cambridge-Mass. /London, Harvard University Press/William Heinemann Ltd.

RICHTER, M. (2010). Despotism, Oriental. In: GRAFTON, A.; MOST, G. W.; SETTIS, S. (eds.). The Classical Tradition. Cambridge, Harvard University Press.

ROBSON, E. I. (trad.) (1967). Arrianus. Anabasis Alexandri: livros I-IV. Leipzig, Teubner.

SKINNER, J. E. (2012). The Invention of Greek Ethnography. From Homer to Herodotus. New York, Oxford University Press.

SMITH, C. F. (trad.) (1928). Thucydides. History of the Peloponnesian War. Books 1 and 2. Cambridge/London, Harvard University Press.

STUART, D. (2011). The Old Testament Context of David's Costly Flirtation with Empire-Building. In: PORTER, S. E.; WESTFALL, C. L. (eds.). Empire in the New Testament. Eugene, Wipf and Stock Publishers.

TANCK, C. (1997). Arche--Ethnos--Polis: Untersuchungen zur begrifflichen Erfassung des Achamenidenreiches in zeitgenossischen griechischen Quellen. Frankfurt, Peter Lang.

TATUM, J. (1989). Xenophon's imperial fiction: on the education of Cyrus. New Jersey, Princeton University Press.

THOMSON, J. A. K. (trad.) (2004). Aristotle. The Nicomachean Ethics. London, Penguin Books.

VIEIRA, T. (trad.) (2013). Esquilo. Os Persas. Sao Paulo, Perspectiva.

VLASSOPOULOS, K. (2013). Greeks and barbarians. Cambridge, Cambridge University Press.

WICKERSHAM, J. (1994). Hegemony and the Greek Historians. London, Rowman & Littlefield Publishers.

WIESEH0FER, J. (2010). The Achaemenid Empire. In: MORRIS, I.; SCHEIDEL, W. The Dynamics of Ancient Empires: State Power from Assyria to Byzantium. Oxford, Oxford University Press.

ZINGANO, M. (2010). Sobre a Etica Nicomaqueia de Aristoteles: textos selecionados. Sao Paulo, Odysseus Editora.

Submetido em 24/05/2017 e aprovado para publicacao em 20/12/2017

Matheus Treuk Medeiros de Araujo (i)

https://orcid.org/0000-0003-4500-8279

mathtreuk@gmail.com

(i) Universidade de Sao Paulo--Sao Paulo--SP--Brasil

(1) Condilo contribuiu para nossa compreensao da tirania em Herodoto. A partir de uma analise sistematica das ocorrencias do termo tupavvoc (e de seus derivados verbais e nominais), a autora identifica certa inclinacao de Herodoto a censurar a tirania (Condilo, 2008, p. 79), em conformidade com a ideologia predominante na Atenas Classica. Esta perspectiva, contudo, deve ter sido temperada pela opiniao heterogenea de suas audiencias (Condilo, 2008, p. 83), sendo dificil determinar uma valoracao univoca por parte do historiografo (Condilo, 2008, p. 103). Ainda segundo Condilo, nao e possivel identificar um modelo ou conceito de tirania em Herodoto, que expressa somente uma perspectiva generica sobre o fracasso inexoravel de governantes ineptos (Condilo, 2008, p. 96-105).

(2) Ressalte-se, por fim, que a referida ideologia da polaridade era limitada no Periodo Classico, alem de preceder as Guerras Medicas, sendo inadequado qualquer esquema explicativo rigido sobre a evolucao das relacoes entre gregos e barbaros (Vlassopoulos, 2013, p. 161-225).

(3) Deve-se privilegiar, nesta seara, os trabalhos produzidos por colegas brasileiros. Meneses Sousa revisou a literatura sobre o debate persa, classificando-a em diversas correntes interpretativas. Destacam-se, sobretudo, as leituras positivistas, que investigam a veracidade do episodio, e a literaria, que vincula o trecho ao contexto narrativo mais amplo das Historias ou a inspiracao de composicoes anteriores (Meneses Sousa, 2010, p. 16-26). Meneses Sousa procede a um exame narratologico e semantico da passagem. Propondo uma leitura do debate enquanto genero discursivo distinto do logos, o autor afasta a ideia de alternancia ciclica dos regimes politicos, advogando por uma sucessao linear (Meneses Sousa, 2010, p. 67-79). Conclui, assim, que a defesa da monarquia por Dario I e argumentativamente vitoriosa (Meneses Sousa, 2010, p. 99). Sem se perguntar especificamente sobre as preferencias de Herodoto (Meneses Sousa, 2010, p. 68), Meneses Sousa demonstra que o historiografo de Halicarnasso admite a existencia de uma monarquia viciosa e outra, virtuosa, dissociadas no tempo, o que se coaduna com a passagem examinada (Meneses Sousa, 2010, p. 83-95). Rodrigo Gallo tambem elenca as diferentes correntes de interpretacao sobre o debate constitucional e sugere sua propria leitura da passagem. Mais de uma vez, Gallo reafirma a vertente que identifica as Guerras Medicas como um divisor de aguas na Grecia Antiga e a critica a monarquia/tirania como decorrencia, ao menos parcial, do embate ideologico entre a "liberdade" grega e "despotismo" persa (Gallo, 2015, p. 111-112, 146 etc.). Para Gallo, Herodoto expressa preferencia pela democracia enquanto regime politico (Gallo, 2015, 72-82) e confere valor negativo a tirania/monarquia (Gallo, 2015, 83-94). Ainda assim, o historiografo admitiria matizes em todos regimes e o proprio debate persa representaria uma versao pioneira, mas nao sistematizada, da classificacao de tres constituicoes subdivididas, cada qual, em suas formas desviante e ideal (Gallo, 2015, p. 145-149).

(4) O termo tem mais de uma acepcao em grego, e, nesse periodo, figura pela primeira vez com o sentido de imperio.

(5) Este tema foi brevemente abordado em Araujo, 2017, p. 22.

(6) A respeito de tal avaliacao de Aristoteles sobre a monarquia persa e sua relacao com a mecanica institucional persa, cf. Araujo, 2016, p. 18.

(7) Este artigo foi realizado com apoio da Fundacao de Amparo a Pesquisa do Estado de Sao Paulo (FAPESP--Processo no. 2016/14318-0). Ele foi possivel gracas a reflexoes promovidas durante a XXIV Semana de Estudos Classicos da UFJF sobre o Imperio Persa Aquemenida no pensamento politico grego e por um estagio doutoral na Ecole Francaise de Rome sob financiamento da Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior (CAPES--Processo no. 88881.135183/2016-01).
COPYRIGHT 2019 Universidade de Brasilia. Catedra UNESCO Archai: As Origens do Pensamento Ocidental
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2019 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:ORIGINAL ARTICLE/ARTIGO ORIGINAL
Author:de Araujo, Matheus Treuk Medeiros
Publication:Revista Archai: Revista de Estudos Sobre as Origens do Pensamento Ocidental
Date:Jan 1, 2019
Words:6743
Previous Article:Translation of Diogenes Laertius' Vitae Philosophorum, Book IV (on the Academics)/Traducao de Diogenes Laercio, Vitae Philosophorum, Livro IV (sobre...
Next Article:Plato and the (Timely) Untimeliness of Normative Utopia. A Profile of Mario Vegetti/Platao e a inatualidade (atual) da utopia normativa. Um perfil de...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters