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The Notion of Engagement: meanings and pitfalls for communication research/A Nocao de Engajamento: sentidos e armadilhas para a pesquisa em comunicacao.

Introducao

As palavras e os conceitos tem historicidade nao so na lingua, mas nos lugares (espacos, campos) onde circulam, e se atualizam nos usos (Blikstein, 2003), as vezes ressignificando o sentido original. Nomear nao e, pois, um ato gratuito, mas possui implicacoes epistemologicas e politicas. A discussao sobre a nocao de engajamento--objetivo central deste texto--e suas implicacoes para a pesquisa em comunicacao faz parte deste contexto.

No campo da comunicacao, e especialmente nos estudos de recepcao, aparecem expressoes para nomear as atividades dos sujeitos nos processos comunicacionais, tais como participacao, empoderamento, resistencia e engajamento. Contudo, nao sao sinonimos e tratam de perspectivas diferentes sobre as atividades e os proprios sujeitos.

Shirky (2011) e Jenkins, Green e Ford (2014) colocam o foco principalmente na participacao, entendida como "o trabalho de publicos e nao simplesmente de mercados e audiencias" (Jenkins; Green; Ford, 2014, p. 240) e que causaria um "excedente cognitivo" nas pessoas (Shirky, 2011). Mas participacao nao e uma essencia: os sujeitos participam no que? Com o que? Como? Ha diferencas teoricas dessas perspectivas, por exemplo, em relacao a de Fuchs (2014), para quem somente podemos compreender participacao em seu sentido democratico, a partir dos meios de producao. Seria, em sua visao, uma ideologia ("de garotos brancos com seus brinquedos participativos", Fuchs, 2014, p. 57), com um recorte de classe.

Ja a expressao "resistencia", que se relaciona aos estudos pioneiros dos Estudos Culturais em Birmingham Hoggart (1973); Thompson (1987); Williams (1961) e a uma heranca gramsciana, e considerada por Jenkins, Green e Ford (2014) como algo ultrapassado em relacao a "participacao" (1). Os autores diferenciam as expressoes a partir da propria sintaxe: "somos resistentes a algo: ou seja, somos organizados em oposicao a um poder dominante. Participamos em algo, ou seja, a participacao e organizada em e atraves das coletividades e conectividades sociais" (Jenkins; Green; Ford, 2014, p. 206, grifos no original). O que esta em jogo nessas perspectivas sao sentidos distintos dos jogos de poder.

A ideia de "empoderamento" (ou de "sujeitos empoderados"), por sua vez, de maneira sintetica, tem como uma de suas primeiras expressoes Freire e Shor (1986), aqui no original empowerment, e com os seguintes significados: "a) dar poder a, b) ativar a potencialidade criativa, c) desenvolver a potencialidade criativa do sujeito, d) dinamizar a potencialidade do sujeito" (Freire e Shor, 1986, p. 11), nocao aqui relacionada ao processo educacional dialogico, mas que atualmente recobre varios discursos, principalmente empoderamento das minorias--sobretudo relativo as questoes de genero, raca e sexualidade, circulando a partir de varios enunciadores, por exemplo, movimentos sociais, Organizacao das Nacoes Unidas (ONU Mulheres--Entidade das Nacoes Unidas para a Igualdade de Genero e o Empoderamento das Mulheres, 2017) e a marca Avon (campanha Empodere-se--Beleza que faz sentido, 2017), com sentidos distintos. Mazetti (2009) mostra a ressignificacao da expressao, entre a emancipacao dos sujeitos e a commoditizacao de suas experiencias, analisando a "emergencia dos consumidores empoderados como um momento de renegociacao dos papeis entre produtores e consumidores no sistema midiatico e como o surgimento da possibilidade de uma reconfiguracao das relacoes de poder nesse cenario" (Mazetti, 2009, p. 3).

O que podemos pensar a partir dessas terminologias que nomeiam atividades dos sujeitos e que ninguem e totalmente empoderado, resistente ou participativo. Nao existe uma essencia das atividades dos sujeitos em processos comunicacionais. Do contrario, poder-se-ia levar a uma "romantizacao" das atividades desses sujeitos, ao realcar somente aspectos positivos de sua acao, potencialmente perdendo o foco critico dos estudos Nightingale (1996). Todas essas nomenclaturas tem que ser compreendidas em um movimento dialetico, considerando expressoes e expropriacoes Huws (2014) dos sujeitos, entre reproducoes e mudancas, observando potencialidades e limites dessas nocoes, em protocolos metodologicos que concebam gradientes dessas atividades. Alem disso, e preciso compreender que a utilizacao dessas terminologias revela visoes de mundo, sendo necessaria uma reflexividade epistemologica.

Este breve panorama sobre essas expressoes e o contexto para o foco desse artigo, que e apenas uma dessas nocoes que pretendem nomear as atividades dos sujeitos em processos comunicacionais: a de engajamento, com o intuito de compreender e problematizar alguns sentidos e limites (ou armadilhas) ao seu uso.

Exploracoes iniciais sobre a nocao de engajamento

Assim como as nocoes anteriormente mencionadas, engajamento pode ser uma expressao para nomear as atividades dos sujeitos em processos comunicacionais. E preciso, pois, buscar alguns de seus sentidos, a comecar pela definicao do dicionario em portugues. Segundo o Michaelis (2015), engajamento ou engajar-se pode significar contrato para prestar algum servico, luta por ideais (principalmente politicos, sociais e filosoficos), alinhamento a alguma ordem de ideias ou envolvimento ativo com questoes politicas. Podemos observar a questao da luta social e politica com destaque nos verbetes, embora a expressao "alinhamento" tenha um sentido ambiguo (2).

A expressao, em portugues, possui uma historicidade relacionada ao engajamento politico. Em Freire e Shor (1986), por exemplo, podemos observar o uso de engajamento com relacao ao processo de transformacao social. Segundo os autores, "devemos estar engajados na acao politica contra o racismo, contra o sexismo, contra o capitalismo, e contra as estruturas desumanas de producao" (Freire; Shor, 1986, p. 199). Na obra, a expressao tambem significa engajamento "num processo permanente de iluminacao da realidade com os alunos" (Freire e Shor, 1986, p. 64), em processo de mudanca social e na educacao libertadora.

Com sentido semelhante, ha pesquisas estrangeiras na area de comunicacao como Norris (2001), Rheingold (2008) e Dalhgren (2009) que relacionam comunicacao e democracia a partir de termos como "engajamento politico" e "engajamento civico". Rheingold (2008), por exemplo, trata de como as midias participativas (como a Wikipedia, em seu estudo) podem impulsionar um engajamento civico, principalmente por parte dos mais jovens. Na mesma direcao, Dalhgren (2009) coloca engajamento como sinonimo de participacao, sempre em sentido politico, e como esse engajamento pode ser catalisado por representacoes midiaticas.

Contudo, uma "virada discursiva" ocorrida nos anos 1990 e 2000, de alguma forma, auxiliou a ressignificar a nocao de "engajamento", junto com toda uma gramatica (relacionada principalmente ao "mundo do trabalho'), como "colaborador", por exemplo (Boltanski e Chiapello, 2009). Como nos lembra Fairclough (2001; 2016), as mudancas discursivas, em alguma medida, se relacionam a mudancas nas praticas sociais no sentido de "mudancas na mentalidade". Essa ressemantizacao reposiciona o engajamento de um lugar de "transformacao social" e "luta politica" para a de "alinhamento"--ja presente, de alguma forma, na definicao do dicionario--em relacao a algum foco especifico, por exemplo, alguma marca. Isto e, ha um alinhamento da nocao de engajamento ao "novo espirito do capitalismo" (Boltanski e Chiapello, 2009), a "nova razao do mundo" (Dardot e Laval, 2016): uma mudanca de sentido que neutraliza seu significado politico original. Nesse contexto, conforme Figaro.

[...] o engajamento do saber profissional do trabalhador deu novo alento ao capital. O sistema produtivo deixou de entender a mao-deobra como objeto puramente instrumental e passou a desenvolver estrategias para incorporar o saber profissional de cada trabalhador (bracal ou intelectual) aos objetivos do aumento da lucratividade (Figaro, 2008, p. 26).

Ao comentar o cenario da cultura participativa, Mazetti (2009) tambem fala em um "engajamento corporativo dos usuarios de midia". Essa mudanca de sentido, de alguma forma, marca a expressao na circulacao dos discursos, inclusive midiaticos (Prado, 2013), como podemos mostrar, somente a titulo de exemplo, as seguintes manchetes de materias da revista Exame no ano de 2016: "Aplicativos tornam eventos mais interativos ao engajar o publico em tempo real" (21/01/2016), "Entra ano, sai ano, e os chefes seguem sem saber engajar" (20/02/2016), "Driblando a crise: como funcionarios engajados multiplicam o lucro das empresas" (18/05/2016), "Outdoor training aumenta engajamento da equipe" (7/06/2016) "Brasileiros estao entre os consumidores mais engajados do mundo" (11/12/2016) (3).

Na pesquisa em comunicacao, impactam principalmente os exemplos de "engajamento de publico" e "consumidores engajados". Qual a visao de sujeito que esta implicada nessas expressoes? Em que medida que, ao tratar desse engajamento, nao se estariam atualizando teorias funcionalistas que compreendem os sujeitos mais como "alvos" das marcas e empresas midiaticas, que precisam engajar os "usuarios" em seus produtos? Um exemplo esta em Cerqueira e Silva (2011, p. 111): "ao mesmo tempo em que esta cada vez mais dificil de ser conquistado, o individuo 2.0, uma vez engajado, traz beneficios crescentes para as marcas". Nesse sentido, o "individuo" que e o alvo a ser "conquistado" ou "engajado", permanecendo o sujeito ainda o lado oculto do receptor (Sousa, 1995). Como tambem afirma Alves (2016), a partir de Andrejevic (2008), "o engajamento dos fas [...] tornou-se uma das estrategias de comunicacao mais utilizadas no mercado" (Alves, 2016, p. 265).

Entre o engajamento como sinonimo de luta politica e transformacao social e como equivalente a alinhamento corporativo ha alguns gradientes que, de alguma maneira, balizam estudos de comunicacao pensados a partir do lugar da recepcao. O recente dossie da revista Media Industries sobre engajamento e um indicio dessa multiplicidade de sentidos da nocao na pesquisa em comunicacao. As organizadoras do dossie, Annette Hill e Jeanette Steemers (2017), afirmam que, para as industrias midiaticas, o engajamento e visto a partir dos ratings e do ponto-de-vista de algo a ser "capturado", enquanto ha outras visoes que priorizam questoes subjetivas, civicas e politicas. Trata-se de uma "semantica complexa [...] como conceito que captura diferentes interesses, sentimentos e envolvimento--desde o amor, o odio ate a indiferenca" (Hill; Steemers, 2017, p. 3).

Procuramos, entao, mostrar um panorama de estudos--principalmente na pesquisa em comunicacao anglo-saxonica (4)--que se valem da nocao de engajamento para pensar processos comunicacionais no sentido de posicionar teorica e epistemologicamente esses estudos, observando os sentidos de "engajamento". Em geral, fala-se de engajamento com relacao a midia ou em engajamento midiatico, mas os significados dessa relacao com a midia e que diferem teorica e epistemologicamente os estudos, alguns relacionando as praticas midiaticas a outros campos sociais, e outros restritos a relacao entre sujeitos e obras midiaticas. Consideramos, assim, distincoes em relacao ao uso da nocao de engajamento entre os que a pensam a partir de uma visao mais ampla, e outros que a concebem estritamente na relacao sujeito-obra midiatica.

Entre midia e vida cotidiana, uma visao mais ampla de engajamento

Em Couldry (2015) e Couldry, Livingstone e Markham (2007), ha uma visao de engajamento com a midia sempre em direcao a esfera publica, no sentido de mostrar como a midia molda, facilita ou impede a participacao politica. Trata-se, pois, de um vinculo entre engajamento publico e participacao politica a partir das praticas midiaticas. Os autores buscam mostrar como esse engajamento publico pode ocorrer a depender de valores em comum entre as pessoas e as noticias transmitidas. Interessa, entao, conceber o engajamento se houver consequencias no sentido de mudancas politicas. Esse engajamento nao se daria somente do lado do sujeito-receptor, mas envolveria as praticas midiaticas como um todo. Segundo Couldry (2015, p. 613), "as instituicoes midiaticas--desde os primordios dos jornais, dos filmes, do radio e da televisao, e muito antes da internet e dos celulares--sempre estiveram muito engajadas em produzir um discurso sobre as coletividades que elas congregam". Para o autor, entao, ha um mito de um "nos" criado por essas instituicoes midiaticas, inclusive pelas midias digitais, que nos dariam a crenca de que este e o lugar onde agora nos reunimos, como se fosse uma forma natural de coletividade. Isso nos evidencia que Couldry (2015) esta preocupado em como esses "engajamentos" sao, de alguma forma, mitos criados pelas instituicoes midiaticas. Podemos concluir tambem que a nocao de engajamento, apesar de aparecer com relativa frequencia em Couldry, Livingstone e Markham (2007) e Couldry (2015), nao e trabalhada teorica e epistemologicamente. Seu sentido se assemelha, entao, a determinados "vinculos" que, muitas vezes, sao fabricados ou construidos.

Ja Sonia Livingstone (2008; 2013) esta preocupada com a crescente perda de explicacao de nocoes como "audiencia", que, em sua visao, nao dao conta da complexidade dos processos de comunicacao, em especial, de recepcao, atualmente. Para ela (Livingstone, 2013), estamos em um momento do "paradigma da participacao"na audience research. Apesar de ser um ponto menor no argumento da autora, e preciso ressaltar que, se a expressao "paradigma" ja pode ser objeto de controversias teoricas, considerar a participacao como um paradigma nos estudos de recepcao e naturalizar determinado sentido dessa expressao relacionado a uma visao hegemonica da expressao, presente em

Jenkins (2008), Jenkins, Green e Ford (2014) e Shirky (2011) e que desconsidera ou naturaliza os embates e disputas conceituais, como em Fuchs (2014), como se participar, por si so, ja fosse um paradigma. Nesse sentido, essa expressao, por si so: a) anula a historicidade dos estudos de recepcao anteriores as midias digitais, como se apenas fosse possivel "participar" a partir delas; b) apresenta uma visao midiacentrica e a-historica das proprias tecnologias, que sao fruto do trabalho humano e dos contraditorios processos sociais (Ampuja, 2015; Vieira Pinto, 2005).

Contudo, essa visao paradigmatica de participacao, de sentido restrito, e, de alguma forma, repensada por Livingstone em outro momento do texto, onde diz:

a participacao e concedida as pessoas pelas infraestruturas midiaticas e comunicacionais que medeiam as esferas sociais, culturais ou politicas da vida? E, por outro lado, como as pessoas se engajam com, acessam as, negociam com ou contestam as midias enquanto exploram e inventam novas maneiras de se conectarem entre si por meio e em torno das midias? (Livingstone, 2013, p. 6).

Isto e, a ideia de participacao e repensada a partir das condicoes desiguais de acesso e uso das midias. E a palavra "engajamento" aparece juntamente com "acesso", "negociacao" e "contestacao". Dessa forma, o engajamento se relacionaria mais a um "alinhamento". Podemos perceber tambem como o engajamento e uma das varias atividades dos sujeitos em relacao nao so a "vida midiatica", para usar a expressao de Deuze (2012), mas as outras esferas da vida social.

Para Livingstone (2007), entao, um estudo de recepcao precisa se relacionar aos debates mais amplos, no sentido de considerar "as implicacoes potencialmente civicas do engajamento das audiencias com a midia na esfera publica, o contestado equilibrio entre concepcoes de audiencia como criativa ou commoditizada" (Livingstone, 2007, p. 52). Entao, para ela, a nocao de audiencia perde forca justamente para explicar o engajamento das pessoas com as midias. De forma semelhante ao que propoe Couldry (2015), a nocao de engajamento importa mais no sentido de reconectar atividades supostamente privadas dos sujeitos em recepcao a vida cotidiana publica. A conexao das atividades dos sujeitos em relacao a midia com as atividades de forma mais ampla. Livingstone afirma:

[...] seja como individuos ou coletividades, as audiencias se engajam em todas as esferas da sociedade (familia, politica, trabalho, educacao) enquanto elas sao moldadas tanto por seus engajamentos nessas esferas quanto pelas praticas culturais, institucionais e politicoeconomicas das instituicoes midiaticas. Entao, as audiencias tem uma realidade social coletiva de significancia para muitas ou mesmo todas as esferas sociais. (Livingstone, 2013, p. 5).

Podemos observar, entao, como as praticas midiaticas dos sujeitos e seus engajamentos se dao em um sentido proximo ao que DuGay e outros (1997) tratam como "circuito de cultura". As atividades--que Livingstone (2013) chama de "praticas de engajamento"--dos sujeitos em relacao as midias se relacionam tanto aos outros contextos da vida quanto aos moldados pelas instituicoes midiaticas.

A partir disso, a autora propoe falar em "literacias" (Livingstone, 2007), considerando a relacao da comunicacao com a educacao, compreendendo engajamento em sentido critico, a fim de promover literacias midiaticas. Isto e, analisar os processos de engajamento dos sujeitos com a midia em termos de literacias (e cita, inclusive, Paulo Freire). Esses processos de engajamento podem ser em relacao ao letramento, a processos interpretativos e a um engajamento critico, por exemplo.

Vemos, entao, como a nocao de engajamento nesse conjunto de autores --pesquisadores ingleses do departamento de Midia e Comunicacoes da London School of Economics--possui uma visao que contempla as atividades dos sujeitos nas relacoes entre midia e sociedade, de alguma forma se assemelhando ao que Roger Silverstone (5) (2002) aborda sobre a relacao entre midia e vida cotidiana, que envolve produtores e consumidores "numa atividade mais ou menos continua de engajamento e desengajamento" (Silverstone, 2002, p. 33). Esta visao mais ampla e compartilhada por Staiger (2005) no livro Media Reception Studies: "como nosso engajamento com a midia proporciona uma capacidade de refletir sobre a cultura e a sociedade, e aproximacoes e distancias em relacao a elas? Ha agenciamento em nosso consumo midiatico, nossa recepcao e em nossas acoes? Se sim, como?" (Staiger, 2005, p. 8). Ou seja, engajamento, nesse cenario, e sinonimo de envolvimento e conexao, mas nao somente com as midias, mas com possibilidades de acoes que extrapolam esta esfera, com possibilidades de perspectivas criticas. Como a propria Janet Staiger (2005) diz, essas sao questoes para politicas publicas. O mesmo nao acontece com os estudos de fas, onde tambem a expressao "engajamento" aparece, mas em sentido mais restrito.

Os sentidos de "engajamento" em estudos de fas

Ha diferencas da abordagem apresentada no item anterior em relacao a pesquisadores mais preocupados com a cultura da participacao em rede, principalmente em relacao a cultura dos fas, sendo que o engajamento, nessas pesquisas, aparece em um sentido mais restrito--de relacao dos sujeitos com as obras midiaticas, no sentido de ser um fa ou mesmo um hater (ou anti-fa) que, como mostra Gray (2003), e uma forma de pensar fandom no sentido de engajamento dos sujeitos em "amar" ou "odiar" determinados produtos midiaticos.

Nas conversas entre Jenkins, Ito e Boyd (2016), fica patente que a cultura participativa nao necessariamente significa resistencia ao status quo (6) --reafirmando a visao de Jenkins, Green e Ford (2014) sobre a predominancia da expressao participacao em relacao a resistencia. O engajamento, entao, para esses autores, e pensado e medido a partir da relacao com a propria "cultura participativa", como no trecho em que Boyd comenta: "os jovens sao posicionados como engajados ativamente na cultura participativa so porque sao jovens" (Jenkins, Ito e Boyd, 2016, p. 49) ou na fala de Ito: "a maioria das minhas pesquisas tem como foco o modo como jovens pessoas se engajam em novas tecnologias e cultura digital" (Jenkins, Ito e Boyd, 2016, p. 90).

Isto e, trata-se de uma visao mais focada da nocao de engajamento ligada a conexao com produtos midiaticos e a producao de conteudo na internet, perdendo, pois, a conexao com o sentido politico e, inclusive, o que significam esses vinculos com as tecnologias em termos de hegemonia, resistencia, subordinacao, ideologia, cultura e poder. Jenkins, Ito e Boyd (2016) consideram que os fas criam maneiras de se engajar profundamente e contam com a ajuda de redes sociais como Facebook e Youtube para isso, mas, para eles, a cultura participativa extrapola o contexto dessasredes, no sentido de um spreadablemedia (Jenkins; Green; Ford, 2014). E o engajamento no "espalhamento midiatico", nao no "espalhamento da vida social e comunicacional", em parafrase, relacionando ao outro conjunto de autores apresentados no item anterior. A procura por um maior engajamento nesta cultura participativa e chamada por Jenkins, Ito e Boyd (2016) de um "projeto aspiracional", mas sem ligacoes a vida publica.

Em estudos e teorias sobre fas, como Bird (2011), Gray (2003), Hills (2002) e Sandvoss (2005), percebemos mais claramente esse aporte mais focado no engajamento com as obras: e o engajamento estritamente com a midia. Gray (2003), por exemplo, compreende o engajamento em "close readings" (Gray, 2003, p. 69) com vistas a compreender o nivel de engajamento em relacao a televisao (neste caso, principalmente dos anti-fas e nao-fas) e como essa relacao serve para o entendimento das textualidades midiaticas. Isto e, o engajamento em series, filmes, musicas, por exemplo.

Para Hills (2002), o engajamento dos fas se refere a questoes imaginativas e emocionais com significancia subjetiva--ou seja, a producao de sentido dos sujeitos perante as obras com os quais ele se relaciona. Mas ele considera que a recepcao midiatica e somente um momento dentre o repertorio de praticas dos fas, "com cada tipo de pratica relacionando-se de forma especifica com relacionamentos afetivos" (Hills, 2002, p. 145).

E a partir disso que Matt Hills (2002) teoriza o culto as midias, que, segundo o autor, e capaz de "estender um engajamento com um texto ou icone extratextualmente" (Hills, 2002, p. 145). Como afirma Clarice Greco Alves (2016), esta abordagem fenomenologica de Hills (2002) acaba por incidir mais no contexto do que no texto. No entanto, comparado as visoes de Couldry (2015) e Livingstone (2007), este contexto e mais restrito, no ambito da relacao fa-obras. Este culto e formado por comunidades com "engajamentos afetivos" em comum, como "comunidades de adoracao" (7). Seguindo esta visao, podemos considerar que o culto as obras midiaticas e um indice ou uma expressao do engajamento midiatico dos fas.

Este engajamento diferenciaria, pois, o fa de um telespectador comum, a partir de atividades como colecionar objetos (Miller, 2013), participar de convencoes (Nunes, 2015) e mesmo atividades em redes sociais (Alves, 2016). A definicao de fa, para Sandvoss (2013), e o de alguem com "engajamento regular e emocionalmente comprometido com uma determinada narrativa ou texto" (Sandvoss, 2013, p. 9), ou seja, alguem com "laco emocional" com as producoes. Figueiredo e Meneses (2016), ao analisar o engajamento na serie Supernatural, colocam fanfics, fansongs, fanarts e fanvids (chamadas de fanworks) como "estrategias de engajamento", tomando este engajamento em sentidos de afetos do fandom e de indicativos de melhorias das narrativas.

Entao, fica patente a dimensao mais restrita de engajamento nos estudos de fas--pensada a partir dos vinculos afetivos fa-obra e suas atividades--em relacao as abordagens de Couldry (2015) e Livingstone (2007) que relacionam o engajamento tambem a uma questao de coletividade publica, e em esferas como a educacao. Contudo, em geral, podemos notar como a nocao de engajamento e subteorizada nesses estudos, no sentido mesmo de reflexao e vigilancia epistemologica (Bourdieu, Passeron e Chamboredon, 2007).

Uma pesquisa que propoe um protocolo metodologico para pesquisas que envolvam engajamento midiatico e etnografias de audiencia e a de Antonio La Pastina (2005), que considera a nocao de engajamento em relacao a "totalidade da experiencia midiatica", por exemplo, "desde a leitura sobre o show ate os atos de assisti-lo, falar sobre e lembra-lo, e assim por diante" (La Pastina, 2005, p. 143), em um sentido semelhante aos estudos de fas mencionados acima. A sua proposta identifica quatro estagios para os processos de engajamento: leitura, interpretacao, apropriacao e mudanca. Contudo, a nosso ver, estas fases nao apresentam nenhuma novidade em relacao ao ja pesquisado nos estudos de recepcao, desde os classicos Hall (2003) e Martin-Barbero (1995) ate pesquisas brasileiras mais recentes como Fausto Neto, Fabricio e Weschenfelder (2014), John (2016) e Saggin e Bonin (2016). Isso mostra, de alguma forma, que mesmo em um texto que propoe abordar centralmente a questao do engajamento, ha falta de reflexividade metodologica no sentido de pensar o avanco conceitual e teorico a partir de outras pesquisas ja existentes.

Portanto, o que podemos notar nos estudos discutidos acima, nas duas ultimas subsecoes, e uma polissemia da nocao de engajamento, desde engajamento midiatico com vistas a uma visao mais ampla da sociedade e da cultura ate engajamento somente com algumas obras, no sentido de um fa ou um anti-fa, alem do engajamento corporativo, no sentido de ajustamento ou alinhamento, invisibilizando os sujeitos em recepcao. Assim, a expressao acaba por perder sua capacidade explicativa de conceito ao recobrir tantos significados sem a devida reflexividade metodologica. Apresentada do modo restrito, sem qualquer vinculo para alem do campo midiatico, a nocao de engajamento tem o sentido politico esvaziado para ser reassentada em outras bases. Metodologicamente, tratar de engajamento-desengajamento dos sujeitos (sejam eles fas, leitores, espectadores, etc.), inclusive em termos de "niveis de engajamento" pode ate servir a metricas de analistas de midias sociais, mas pode se relevar pouco complexo ou nao atento as contradicoes e movimentos dialeticos dos processos e relacoes de comunicacao, algo central para estudos criticos de comunicacao.

Consideracoes Finais

A nocao de engajamento, do modo como esta apresentada, pode, entao, mostrar-se mais uma armadilha do que uma contribuicao teorico-metodologica para a pesquisa em comunicacao, apesar dos "gradientes" aqui explicitados. Possiveis sinonimos para nomear atividades dos sujeitos em processos comunicacionais e midiaticos nao se configuram do mesmo modo. Participacao nao e o mesmo que resistencia, individuo nao e igual ao conceito de sujeito, por exemplo. A precisao conceitual e crucial para, de um modo geral, teoria, metodologia e epistemologia da comunicacao, e de modo especifico, os estudos de recepcao Jacks (2014). Falar em engajamento e nao trazer em seu cerne a acao politica e um esvaziamento do seu sentido original e uma esterilizacao teorico-conceitual. Mas, de alguma forma, temos notado uma "fixacao de sentidos" Orlandi (2008) da expressao ligando-a a esse significado mais restrito de envolvimento com conteudos midiaticos e marcas, de modo que seria ardua a tarefa de "revitalizacao" do sentido original na circulacao dos discursos.

Perguntamo-nos, entao, se nao haveria outras formas melhores de nomear essas atividades comunicacionais e midiaticas dos sujeitos em recepcao. Podemos falar, por exemplo, em conexoes, relacoes ou mesmo vinculos, como em Sodre (2014), o vinculo comunicacional dos sujeitos com suas acoes no mundo, ou mesmo a articulacao, a partir de Hall (1986; 2003) e Slack (1996).

O que defendemos e uma visao mais ampla, proxima a de Couldry (2015) e Livingstone (2007), que considere a relacao dos sujeitos com as midias, mas tendo em vista que nao se trata de um campo autonomo, mas se relaciona com outros campos sociais Bourdieu (1999) sem, no entanto, desconsiderar as especificidades das relacoes dos sujeitos com as obras midiaticas. Isto e, restabelecer as conexoes e contradicoes entre as atividades comunicacionais e midiaticas dos sujeitos e processos macrossociais mais gerais. Com isso, propomos um "desengajamento" da nocao de engajamento nos estudos de recepcao.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2018.3.29387

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Recebido em: 06/12/2017

Aceito em: 21/03/2018

Dados do autor:

Rafael Grohmann | rafael-ng@uol.com.br Universidade de Sao Paulo (ECA-USP)

Doutor e Mestre em Ciencias da Comunicacao pela Universidade de Sao Paulo (USP). Professor do Mestrado em Comunicacao da Faculdade Casper Libero. Professor Contratado III da Escola de Comunicacao e Artes da Universidade de Sao Paulo (ECA-USP). Realiza estagio pos-doutoral na ECO-UFRJ, sob a supervisao do professor Muniz Sodre.

Endereco do autor:

Escola de Comunicacao e Artes--Universidade de Sao Paulo (ECA-USP) Av. Professor Lucio Martins Rodrigues, 443 Cidade Universitaria

05.508-020--Sao Paulo, Sao Paulo, Brasil.

Rafael Grohmann

Professor do Mestrado em Comunicacao da Faculdade Casper Libero e da Escola de Comunicacao e Artes da Universidade de Sao Paulo (ECA-USP), Sao Paulo, SP, Brasil. ORCID: 0000-0003-1063-8668

<rafael-ng@uol.com.br>

(1) Nao ha em Jenkins, Green e Ford (2014) a critica direta aos teoricos de Birmingham, mas ao pretenso "cheiro de mofo" da expressao "resistencia" em tempos ditos "pos-ideologicos"

(2) Contudo, ha uma observacao a ser feita: parecendo estar perdida na traducao (lost in translation), a expressao possui outras entonacoes em outras linguas. Por exemplo, em frances significa um compromisso. Em ingles, em algum sentido, significa envolvimento. Ha semelhancas no uso em portugues, mas o diferencial parece ser o "acento". De qualquer forma, nosso objetivo e, de alguma forma, problematizar tambem a traducao direta do termo.

(3) Todas as materias estao disponiveis na Revista Exame. Endereco conta nas referencias deste artigo.

(4) As pesquisas foram destacadas a partir de suas relacoes com a nocao de engajamento. Algumas obras, por exemplo, Jorge (2014), tratam da questao de "fas", mas em nenhum momento mencionam a expressao "engajamento".

(5) Cabe ressaltar que Roger Silverstone foi orientador de Nick Couldry.

(6) Em Fiske (1989), que podemos considerar um classico dos estudos culturais, ainda observamos as praticas de fas consideradas principalmente a partir de atividades de resistencia--posicionamento distinto do que ja observamos em Jenkins, Ito e Boyd (2016) e Jenkins, Green e Ford (2014).

(7) Segundo Alves (2016, p. 261), "de acordo com a intensidade desses mecanismos de adesao que reforcam o laco entre os fas de um programa, eles podem fazer com que o engajamento do grupo ganhe ares de culto e a producao se torne cult".
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Title Annotation:PENSAMENTO MIDIATICO COMUNICACIONAL; texto en portugues
Author:Grohmann, Rafael
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Sep 1, 2018
Words:6157
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