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The Movimento Feminino pela Anistia in the Fight Against the Dictatorship in Brazil: Interview With Therezinha Zerbini/O Movimento Feminino pela Anistia na luta contra a ditadura no Brasil: entrevista com Therezinha Zerbini.

E impossivel desvincular a origem e construcao do Movimento Feminino pela Anistia (MFPA) de sua lideranca. A advogada, falecida em 2015, aos 87 anos, foi idealizadora do Movimento, criado em 1975 em Sao Paulo, e participou ativamente dos momentos de implantacao. Esteve presente na conducao politica do Movimento, na fundacao dos nucleos e influenciou na escolha de dirigentes, organizacao de atos publicos e na redacao de periodicos e documentos.

Seu papel foi reconhecido pelos orgaos de repressao, a epoca sendo considerada "conhecida subversiva". Casada com general resistente ao Golpe de 1964, foi presa pela Operacao Bandeirantes, por intermediar o emprestimo do sitio onde foi realizado o congresso clandestino da Uniao Nacional dos Estudantes, em Ibiuna, em 1968.

Na entrevista abaixo, concedida em 31 de agosto de 2006, em sua casa, em Sao Paulo, por ocasiao da elaboracao de minha tese de doutorado sobre o Movimento que dirigiu, a controversa senhora falou sobre as estrategias de organizacao do MFPA, o recrutamento de mulheres pelo Brasil e seus embates com militares, feministas e homens de esquerda na construcao da luta pela anistia no Brasil.

Ana Rita Fonteles Duarte (ARFD): Como se deu a organizacao do MFPA? Therezinha Zerbini (TZ): Voce esta vendo ai uma mesa de refeicao, com oito mulheres, com muita fe, muita garra e foi tao simples o nosso manifesto que sempre e bom ... Recordar e viver (pega os oculos e le): "Manifesto da Mulher brasileira em Favor da Anistia. Nos, mulheres brasileiras, assumimos nossas responsabilidades de cidadas no quadro politico nacional. Atraves da historia, provamos o espirito solidario da mulher, fortalecendo aspiracoes de amor e justica. Eis porque nos nos antepomos (interrompe e diz: 'Eu nao gostei disso, mas uma das pessoas que estava queria por essa palavra, era uma escritora e acabou ficando') aos destinos da nacao, que so cumprira sua finalidade de paz se for concedida anistia ampla e geral a todos aqueles que foram atingidos pelos atos de excecao. Conclamamos todas as mulheres, no sentido de se unirem a este movimento, procurando o apoio de todos quantos se identifiquem com a ideia da necessidade da anistia, tendo em vista um dos objetivos nacionais: a uniao da nacao" (Therezinha ZERBINI, 1979, p. 27). Naquele meu tempo era ainda xerox. Eu tirei xerox, mandei para o Rio Grande do Sul. La estava a Dilma Roussef, que foi presa comigo. A ministra Dilma Roussef (no momento da entrevista, Dilma era ministra de Minas e Energia do Governo Lula) e uma pessoa extraordinaria, inteligentissima, culta, de real valor, uma mulher muito seria. Ela bem mais moca do que eu. Eu tinha 52 anos. Na epoca, a Dilma devia ter uns 23 pra 24 anos. Talvez ate menos. Enfim, dai quando nos fizemos isso, a primeira leva eu mandei cem desses manifestos pra se colher assinaturas. A Dilma, com muita habilidade, como era uma mulher visada, era casada com o (Carlos) Araujo e parece que ele era do Partidao, e ela podia ser presa politica, podia assustar. O que ela fez? Ela procurou a Licia Peres que era muito amiga dela, mulher de um vereador, presidente da Camara, e em comum acordo procuraram a Mila Calduro, uma escritora, mulher da alta sociedade. Era engracado, o marido era do Tribunal de Contas e o Movimento Feminino pela Anistia se deslocava num Mercedes do marido dela (risos). Quando eu cheguei no Rio Grande do Sul, eu falei: "Isso aqui e outro pais. E outro mundo". A gente se deslocava em Mercedes. Eu fiquei no melhor hotel de la, porque, sabe, se eu fosse ficar em qualquer hotelzinho furreca, eles iam incomodar. Como eu tava naquele hotelzao e tudo. Seguiam-nos o tempo todo. Uma hora la que eles nos perderam de vista, a policia nos perdeu de vista, foi quando nos fomos para a casa da Dilma. Mas sabe que aquele movimento chacoalhou o Rio Grande do Sul, porque o gaucho e muito ativo e essa Licia Peres e uma mulher muito inteligente. A Mila Calduro e uma mulher de valor. A Quita Brizola (Francisca Brizola Rotta) que era irma do Brizola. La tinhamos umas 20 mulheres que valiam por uma pancada, porque no fundo nos precisavamos de mobilizadoras que retransmitissem ... E eu fui para a televisao, falar. E sempre tive muita sorte. Quando a gente fala com o coracao, nao erra nunca. Nao fica querendo falar com a cabeca, falar dificil nao. E foi uma beleza. O Movimento Feminino pela Anistia foi a alavanca para as mulheres comecarem a perceber que elas podiam e deviam. Porque o cidadao tem direitos e deveres. Nossos deveres nos devemos cumprir todos e direitos a gente tem que exigir. Nao tem que pedir nao, e exigir. Foi uma beleza. Depois de la, vim pro Rio. Foi meio fracote num primeiro estagio, eu contava com a mulher do general Cunha Melo, que era uma mulher do maior criterio, da maior decencia, ela e tambem um general desses famosos que fizeram a resistencia. Ja eram senhoras de idade bem mais avancada do que a minha. Tinham principios, sabiam o que estavam fazendo, mas nao sabiam mobilizar. E eu consegui, no Rio, quando a mae de Jean Marc von der Veid (carioca, ex-militante da Acao Popular, ex-presidente da UNE e ex-preso politico), que era casada com um suico, me ofereceu um quarto ali na Rui Barbosa, um apartamento grande, imenso. Eu trabalhava muito de noite, porque quem tem filho pega esse habito. Crianca da muito trabalho, a casa e tudo. E eu trabalhava muito de noite, porque eu mandava, o elo de ligacao eram as cartas. E tudo feito a mao ... [...]

ARFD: E como se dava esse trabalho?

TZ: Pra falar so da anistia em si, eu nao conseguiria ter abertura. Teve o Ano Internacional da Mulher, cujas consignas eram: igualdade, desenvolvimento e paz. Meu marido era milico e ele sabia muito desse negocio da arte da guerra, estudava. Eu fazia Direito, gostava de arte e achava que tudo isso era um pouco de exagero. Mas quando eu me meti na politica, eu vi o valor da estrategia, comecei a ler L 'Art de la guerre. Tudo que nao me interessava, que eu achava que era bobagem, eu comecei a me interessar. E a mulherada estava muito interessada. Voce lembra de (19)60, a pilula. (19)64 foram quatro anos depois do negocio da pilula. Eu tenho muita pena dessa mocidade, frutos da geracao da pilula, porque elas estavam avidas para viver. Entao como transar ja nao era aquele perigo, desembestou aquela liberdade, aquela pseudoliberdade, que a liberdade e uma coisa interior muito maior. Imagine se a liberdade do homem ou da mulher estivesse nos genitais. Coitados de nos, ne? (risos). A liberdade esta numa postura intelectual perante a vida, uma postura de principios, de voce escolher o que voce quer pra voce. Foi muito bonito, porque eu nunca mostrei a idade. Com 52 anos eu passava por 45. Nao havia entao muita defasagem entre eu e as mocas. Sabe, era uma coisa engracada porque gerava um encantamento, porque, geralmente, as maes delas coibiam, com medo da gravidez, e encontraram uma pessoa falando em liberdade, lutando pela anistia, com uma malinha nas maos. Foi uma experiencia muito boa pra mim, muito gratificante e, geralmente, tambem os homens nao estavam acostumados. Principalmente no Nordeste, voce sabe melhor que eu, o homem nao estava acostumado a ver mulher sem coleira, mulher estava sempre com o marido ou com o filho. Sozinha era raro, mas por uma questao de necessidade, tudo custa dinheiro, aviao, passagem, eu tinha de andar sozinha, eu e Deus. Ate perguntavam: "A senhora nao tem medo de andar sozinha?" Eu digo: "Nao, eu nao ando sozinha. Sou eu e Deus". O general dizia: "Mas Terezinha, voce fala com Deus como se Deus fosse seu intimo, amiguinho". Eu digo: "Nego, Deus e pai. A gente nao conversa com o pai com amor, com confianca? Entao, e isso ai". Se voce comecar a perceber, nada acontece por acaso. Nada. E eu nas minhas oracoes me punha como um instrumento do amor de Deus. Pombas, se eu estou como instrumento dele, ele tem que me dar (risos). E, olha, nunca me aconteceu absolutamente nada.

ARFD: A senhora era seguida?

TZ: Muito, muito.

ARFD: Tinha telefone grampeado, essas coisas todas?

TZ: Tudo, tudo. Depois ate aqui do Dops (Departamento de Ordem Politica e Social), eu dei ate muita risada. Eu acho que eles pensavam que eu era louca mesmo. Eu tinha um cachorro poodle que era uma beleza, chamava-se Zorba. E ele era horrivel, vivia fugindo. Entao arranjei uma mulher pra ele. Era a Flor. E, desse casamento, deu cinco cachorros. E entao isso aqui era um canil, porque um nao vai por isso, o outro nao vai por aquilo. E eu saia muito com os cachorros por ai. Pois ate fotografia minha com os cachorros tinha. E coisa de desocupado, ne?

ARFD: E o fato do movimento ser feminino, eu gostaria que a senhora esclarecesse. Era vetada a presenca de homens estatutariamente?

TZ: Era.

ARFD: Era uma estrategia de guerra?

TZ: Era uma estrategia de guerra.

ARFD: Como foi esse processo?

TZ: Os homens podiam vir, mas onde o homem vai, ele inibe. Voce vai numa reuniao de operarios, de estudantes, tem la um grupinho de mulheres. Se tem homens, eles inibem. Porque a mulher nao foi treinada, ela nao tem a velocidade mental porque sempre foi o homem que mandou. Ele sempre foi o chefe e patrao. Entao as mulheres ficavam com medo de falar bobagem. Entao foi arte da guerra mesmo. Era treino. E mulher com mulher se entende. E meu forte nunca foi mulher. Eu fui uma mulher muito bonita e meu forte nunca foi mulher, sempre foi homem (fala enfaticamente). E eu nao sabia lidar bem com elas. Mas olha, Deus da o frio conforme o cobertor. E a coisa foi muito bem. Tanto e que, quando nos comecamos o Movimento, diziam-a turma do PC do B-porque tudo que tinha organizado eram eles que tinham feito. Ou entao do PT tambem, que ja estava nascendo. Eles queriam abocanhar. Eu dizia: "Nao me venham fazer politica dentro do Movimento, que nunca houve, viu?". Tanto e que voce ve que, conquistada a anistia, que era o objetivo, acabou. Cada um foi fazer o que queria, porque isso era o certo.

ARFD: Houve tentativas de aparelhamento?

TZ: Houve tentativas. E eu dou nominalmente o nome: Luis Eduardo Greenhalgh (Membro fundador do PT, foi filiado de 1974 a 1980 ao MDB. Trabalhou como advogado de jornais alternativos. Foi lideranca do Comite Brasileiro pela Anistia). Ele era terrivel. Mas eu me vinguei dele porque eu trabalhei pro Severino (Cavalcanti. Ex-deputado do Partido Progressista-PE, foi eleito presidente da Camara dos Deputados em fevereiro de 2005. Representante do baixo clero, foi eleito prometendo elevar salarios e melhorar as condicoes de atuacao dos congressistas. Sete meses depois, renunciou por envolvimento em denuncias de corrupcao). Foi a primeira tentativa de bote do PT foi pegar a presidencia da Camara. Eu tinha saido do hospital, nessa cadeira que voce esta vendo, eu liguei, eu trabalhei um dia, telefonando, pedindo voto pro Severino, porque a gente tinha que desmontar, porque se eles tivessem pego, a historia era diferente. O nosso Movimento foi formado como uma sociedade civil e nos registramos no Cartorio Medeiros. Logico que eu tambem fazia isso pra minha defesa. Eu dizia: "Nos somos uma sociedade civil, organizada e piriri e pororo". Mas fazia parte da estrategia. Entao, se reunia as mulheres que se conseguisse: 30, 50, 20. Tinha a presidente, a vice-presidente, a secretaria, a tesoureira e uma que era tipo um coringa. Bom, e tinha as conselheiras. Tinha um bloco de 12 conselheiras. Esse pessoal do PC do B, principalmente da Bahia, quando queriam uma votacao, que tudo era decidido por votacao, nao tinham compromisso com nada, nao eram do Movimento. Eles entravam, eram passantes. Entao era uma forma da gente se defender dos passantes, oportunistas. Voce tinha de ter feito um estagio, pra ver se era aquilo mesmo que voce queria.

ARFD: Pra poder votar e participar das reunioes?

TZ: Pois e. Porque, se nao, voce ve. Quando eles tinham alguma coisa que interessava a eles, levavam duas Kombis cheias de gente. Logico que ganhava na votacao. Ah, eu acabei com a brincadeira. Digo: "Nao". As vezes eu sou ate chocante. Eu digo: "Escuta aqui, voces estao pensando o que? Aqui na Bahia nos cordoes do carnaval voces tem estatuto, tem que obedecer, so pode entrar com aquelas roupas deles que eles vendem, nao podem dancar fora da corda. Se pro carnaval tem isso, no Movimento de Anistia nao vai ter ordem?". Eu brincava: "Nao e cu de mae Joana, nao!" (risos).

ARFD: Como eles podiam participar?

TZ: Eles jogavam esse tipo de gente e eu avisava: se livre dos oportunistas. Porque pra lutar com a fe e com o amor que nos lutamos tem que ter uma motivacao. Uma pessoa que nao tenha uma motivacao nenhuma ... Por exemplo, uma passante, essa precisa ficar sempre, porque inclusive pode ser plantada pela propria ditadura para arrebentar com o Movimento. Nos tivemos sempre muita sorte. E se os homens queriam estar la para servir cafe, fazer uma compra enquanto a gente estava reunida, podia.

ARFD: Eles so nao podiam falar, nem votar, ne?

TZ: E nem votar e nem dar palpite. Eu dizia: "Muito bem, escreve e entrega, depois nos vamos discutir". Porque, senao, virava uma anarquia. O Movimento era feminino porque nos precisavamos treinar as mulheres a falar, elas terem confianca nelas mesmo, irem pra televisao. Voce mesmo viu uma gravacao hoje minha. Eu nao nasci falando, nao nasci velha, nem falando em televisao e nem organizando nada. A gente aprende. E aprender, minha filha, precisa a gente ter uma vontade muito grande e uma humildade muito maior.

ARFD:Havia uma preferencia por mulheres que fossem familiares de presos politicos para integrarem o MFPA?

TZ: Nao. Qualquer mulher podia. Geralmente quem vinha para nos eram os familiares de presos politicos, o que era ate natural. E a gente acolhia e tudo. Mas tivemos muitas universitarias.

ARFD: Por ser um movimento so de mulheres, ha relatos da utilizacao daquela figura tradicional da mae. Como voces usavam isso diante da ditadura?

TZ: Inclusive gorila (forma pela qual se referia aos militares golpistas) nao foi filho de chocadeira. Mesmo os gorilas tinham mae e havia um certo respeito. E quando a gente se investia do papel de familiar ... Eu me investia do papel de mulher do general e eles se enquadravam, viu? Principalmente a mae. Mae todo mundo tem e, embora voce discorde, nos presidios aqui e comum voce ver a mae do bandido la: "Doutor, meu filho". Embora saibam que nao e nada daquilo, a mae e preservada. E logico que, por uma questao de inteligencia, a gente nao ia por uma menina de sainha curta, mascando chicle pra ir la falar com um gorila. Nao tinha jeito (risos).

ARFD: Eram sempre as mais velhas, as maes?

TZ: Eram, as que tinham compostura. Porque era o proprio nome do Movimento que estava em jogo. Mas a gente se firmou na sociedade, viu? Dai a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) nos deu muito apoio, os professores universitarios, os sindicatos, a Igreja. A Igreja foi nosso maior escudo.

ARFD: A senhora tem nocao de quantos nucleos foram criados no Brasil?

TZ: Nos so nao tivemos nucleo no Amazonas e nos territorios. No resto do pais, em todos os lugares.

ARFD: Nas entrevistas que eu fiz com mulheres do MFPA no Ceara apareceram alguns conflitos. Algumas pessoas do Movimento acreditavam que o MFPA devia se envolver em questoes mais amplas ...

TZ: E porque tinha gente que queria fazer do Movimento Feminino pela Anistia uma alavanca. Queriam entrar, logico, tinham meio caminho andado. E eu dizia, principalmente, eu trabalhei ombro a ombro com a Igreja, que foi um escudo, e com o Partidao, que o Partidao estava acostumado a trabalhar na sombra, escondido. E eu dizia: "Voces nao me venham com periquitagem (risos), nao se faz politica partidaria". Conquistada a anistia, eu dissolvi o Movimento. Eu criei, eu, direcao nacional. Quem quisesse continuar, continuava. Mas eu disse: "Quanto ao Movimento Feminino pela Anistia, nos somos residuais". Porque nao tinha vindo a anistia ampla, sabe? Custou ainda pra vir e tudo. Somos residuais. Vamos transformar o Movimento em Movimento Feminino pelos Direitos Humanos.

ARFD: E isso aconteceu?

TZ: Aconteceu. E ate a Mila Calduro, que era uma mulher da maior lealdade e inteligencia, me respondeu. Ela nao queria desfazer porque tambem ... Em Minas eu enfrentei um serio problema com a presidente de Minas, Helena Greco. Eles queriam fazer o que nao era luta de anistia, e nessa hora voce perde toda a sua forca porque voce ja esta avancando para um campo ... Porque nos conquistamos respeitabilidade, realmente nos estavamos cumprindo a luta pela anistia.

ARFD: Voces tinham medo de ser confundidas com os comunistas tao perseguidos naquele momento?

TZ: Nao, nao. O primeiro confronto que eu tive-voce ate vai dar risada-nao foi nem com os gorilas. O primeiro confronto que eu tive foi com as feministas (se exalta) aqui de Sao Paulo.

ARFD: E por que, Dona Therezinha?

TZ: Ah, porque elas queriam se adonar do Movimento Feminino pela Anistia. Elas diziam que a luta do Movimento Feminino pela Anistia era feminista. Eu digo: "Nao, voces estao equivocadas. A luta

do Movimento Feminino pela Anistia e uma luta de cidadania, da mulher cidada. Nao tem nada de feminista. Nos nao estamos lutando por avancos. Depois cada um vai fazer o que quiser". Conquistada a anistia, cada uma vai fazer o que quiser. Pois tivemos um confronto, la no sul.

ARFD: No Parana?

TZ: Nos tivemos o jornal Brasil Mulher. Voce chegou a ler? Foi no Parana, sim. (Joana Borges) era jornalista, uma mulher extremamente inteligente, batalhadora, mas ela tambem se encantou com o Movimento Feminino pela Anistia e veio pra nos. Dai resolvemos fazer um jornal que era o Brasil Mulher. E o jornal era de homens e mulheres que viam na liberdade e piriri e pororo. E aquilo foi andando. Dai, as feministas que queriam uma vitrine ... O Movimento Feminino pela Anistia foi uma vitrine, era uma novidade. E como ganhou respeito da opiniao publica, elas queriam aderir. E dai comecaram. E comecou a tergiversar. Tanto e que eu me retirei. Eu me retirei do movimento (jornal), puxei o carro e elas ficaram falando sozinhas ao vento. Porque nos nao eramos movimento de feministas, sabe? Era um movimento de cidadania.

ARFD: Foi depois dessa saida que a senhora fundou o Maria Quiteria?

TZ: E, foi dai que se tirou o Maria Quiteria.

ARFD: A senhora estava contando sobre a escolha do nome. Tambem foi uma estrategia?

TZ: Ah, tambem. Porque voce veja, os milicos eram os nossos adversarios, os que tomaram o poder num golpe de pirataria. Sabe, eles tomaram o poder. Foi golpe. Foi quartelada. Eles eram os nossos inimigos. Entao, a gente tinha que bater no flanco deles como eles batiam no nosso. Ate que nos nao apanhamos muito nao, porque a gente se fez respeitar. E mesmo porque eles tambem precisavam da anistia, porque todo movimento, todo golpe vai se desgastando, vai erodindo, vai surgindo gente nova com outras ideias e tudo. No final, eles estavam precisando tanto da anistia ou mais do que nos. Porque eles precisavam sair. Era uma ratoeira que eles precisavam sair ainda como os Estados Unidos vao sair la do Ira, com rabo no meio das pernas. Tem que sair logo, como sairam do Vietna. E foi uma coisa interessante. O que mais, filhinha?

ARFD: Quando voces comecaram nao existia nenhum movimento organizado que lutasse pela mesma causa. Voces iniciaram..

TZ: Iniciamos isso. Dai, grande parte da esquerda cruzou para cima e dizia assim: a Zerbini e uma burguesona. Eu digo: "Por favor, completem: feliz e realizada". Eu luto por amor, nao e por odio. A luta pela anistia e luta pela cidadania. E uma luta que a gente quer que o pais retome o leito e depois cada um vai fazer o que quiser, cada um vai seguir o seu caminho. Por dois anos nos trabalhamos nas sombras.

ARFD: Como era esse trabalhar nas sombras?

TZ: Eu gosto muito de historia. La na Grecia, em Esparta, aquelas lutas ... Nos nao podemos tratar de fazer a luta a luz do dia. Trabalhar na sombra era trabalhar sem ser batendo panela, sem ser fazer o que eu fui fazer hoje que dei a cara, falei. Trabalhar nas sombras e fazer tudo em petit comite, fechado, que ninguem sabe. O povo gosta disso, o povo gosta de se engajar numa luta e que ela tenha uma direcao.

ARFD: O surgimento do CBA (Comite Brasileiro pela Anistia) foi uma consequencia dos conflitos ...

TZ: Isso. Porque dai, eles queriam tomar o movimento de mulheres. Houve um encontro nacional dos movimentos de anistia, eles punham uns nomes pomposos e nos nao podiamos deixar aquilo solto. Entao, a Licia Peres era uma baiana bonita, ela foi, comprou chicle, comprou um Estadao, me deu o chicle e disse: eu sei que voce nao aguenta ficar quieta com provocacao, masque esse chicle e leia esse jornal. Entao, ai ja tinha os encontros nacionais, ja vieram os CBAs. E tinha um menino do Rio Grande do Norte que era o cao chupando manga, sabe (risos). Ele queria provocar. E a nossa vice-presidente, coitadinha, ela tinha uma dor de dente horrivel. E ela precisou ir no dentista e arrancou um dente. Veio cheia de dor, disseram que tinha de por gelo. E eu e a Licia fomos ajudar, claro. E ele nao entendeu. Acho que pensou que a gente estava fazendo era descaso. Porque eles diziam: "Ficam andando de ca pra la, ficam indo tomar cafezinho, indo tomar agua, lendo jornal". Aquilo era pra mim, porque eu tava que tava (range os dentes). E a Licia: "Olhe aqui. Nao admito. Nosso movimento e um movimento democratico. Fique com seu estalinismo pra la. Voce chegou ontem, esta acostumado com o estalinismo no Rio Grande do Norte. Va fazer la. Nos nao. Nos somos democratas. Se nao sabe, ela acabou de arrancar um dente"-a Margarida, coitada, tinha acabado de arrancar um dente-e eu mascando chicle pra nao explodir (range os dentes). Mas eles vieram porque queriam tomar o movimento. Como eles nao conseguiram, porque eu nao dava chance ... Eu dizia: "Nao somos donas da anistia, nos nao queremos ser". Em Sao Paulo, os universitarios pegaram a bandeira da anistia. Eu chorei na rua quando eu falei do (Alberto) Goldman, que ele disse que eu ganhava as pessoas pela emocao. Quando eu vi os estudantes no fim do Viaduto do Cha (SP), com a bandeira da anistia, eu falei: "Gracas a Deus". Quer dizer, nos nao estavamos mais sozinhas. A Ordem (dos Advogados do Brasil) pegou a bandeira da anistia, um sindicato pegou a bandeira da anistia. Depois, juntar tudo aquilo era um apito. Nao, eles queriam dirigir. Eles queriam tomar pra nos dirigir. Falei: nao.

ARFD: A senhora acha que tinha um pouco de machismo nessa questao?

TZ: Tinha. Puro, puro machismo. Eles acham que porque nos nao temos penis, mulher nao tem penis, nao pensa, nao tem capacidade, nao tem organizacao. Nos partidos politicos eu vejo isso. Eu sou dirigente partidaria, eu vejo isso. A mulher, pra se sobressair, tem de ser otima. Por isso que eu admiro essa menina, essa senadora Heloisa Helena. O menina porreta, porque olha, conseguiu com esse PSOL dela romper o cerco, porque e romper o cerco.

ARFD: Qual a imagem que a senhora acha que a ditadura tinha do MFPA? A senhora acha que voces conseguiram enrolar bem a direita?

TZ: Nao, a direita sabia bem quem nos eramos. E os militares tambem. Os militares, no fundo, eles admiravam, burros nao eram, que eles sabem a arte da guerra, de todo esse jogo, das estrategias. E eles pensavam: "Quem sabe nos nao vamos precisar delas?" Enquanto elas nao avancarem demais, enquanto elas tiverem mansamente e docemente (risos). Tinha uma pessoa que era o Jarbas Passarinho, que eu fui visita-lo porque ele era o lider da Arena. Nos fomos visitar o lider da Arena e do MDB. A chefe de gabinete do Jarbas Passarinho chamava-se Zoe. Quando nos chegamos eu me apresentei. Eu era uma mulher bonita e ele um homem muito bem educado e me perguntou: "Dona Terezinha, a senhora e mulher do medico ou do general?" Eu digo: "Nao, eu tenho a honra de ser a mulher do general". Dai, ele ficou vermelho e disse: "A senhora vem aqui ao meu gabinete para me ofender?" Eu digo: "Eu nao estou entendendo, senador. Se perguntassem para a sua mulher se ela era sua mulher, ela diria que tem a honra de ser sua mulher. Eu nao estou entendendo onde o senhor quer chegar". Mas eu falei tao doce, falei com voz de uma menina de cinco anos. Ele caiu em si, sabe. E disse: "Me desculpe, me desculpe". Dai eu continuei falando no mesmo tom e tudo. Nao, eu so quero honra porque eu tenho honra. E meu marido e um homem honrado. O senhor e militar, deve conhecer. O meu marido nao e um baderneiro, como eu tambem nao sou, como o senhor bem pode ver. Depois, quando a gente se encontrava naquele tunel do tempo, olha como e a historia, ele fazia assim (acena de maneira timida), com a maozinha, me saudava escondido, me saudava, as vezes, com a cabeca. Sabe que a gente tinha medo que vissem a gente se cumprimentando? (risos). Iam dizer que ele estava traindo e eu tambem. Quer dizer, porque nos tinhamos ideias diferentes, divergentes, nos nao podiamos agir civilizadamente. Foi tao engracado. Foi uma experiencia de vida muito boa.

ARFD: A senhora era mulher de general, era advogada, mas nao tinha essa vivencia politica. E de repente se ve como lideranca nacional do Movimento Feminino pela Anistia. Como foi que o Movimento modificou sua vida, sua relacao com o mundo, sua forma de encarar ...

TZ: Ah, completamente diferente. Inclusive aqui em casa aconteceu uma coisa muito importante. O general tinha ciumes, claro. Eu era uma mulher bonita, andando por esse mundo de Deus, sozinha. E ele encheu porque eu andava como caixeiro viajante, com malinha pra la, pra ca. Telefonava gente de todo lado e tudo. Embora ele confiasse muito em mim, tem hora que enche, ne? Ele disse: "Pois e-num desses dias de azedume que todos nos temos, de dormir descoberto (risos)-eu agora virei o marido da guerreira". Eu olhei bem nos olhos dele. Saiu a voz do meu coracao: "Nego, por quantos anos eu fui a mulher do guerreiro? Isso nunca me diminuiu. A bandeira esta no chao. Alguem tem que pegar. Voce nao entende?" (Diz com a voz embargada e emocionada). Ele abaixou a cabeca. Nunca mais, nunca mais ...

ARFD: Ele falou sobre isso.

TZ: Nunca. Nunca mais. E ai eu vi como devia ser doloroso pra ele, porque eu saia e nao sabia se voltava. Meus filhos eram pequenos, eu nao era modelo. Voce veja, veste a pele deles. Eles eram pequenininhos. Quando eles iam pra assistir a uma opera, um balet, eles nao iam como os filhos de deus comprar tiquete da bilheteria. Eles iam de carro, ficavam no camarote do governador, do prefeito. Era uma vida toda artificial, que nao era uma vida de crianca deles. De uma hora pra outra tudo isso voou. No colegio deles, a mae baderneira. Crianca nao tem piedade, as vezes eles sao impiedosos. Nao e que toda crianca e boazinha nao. Mas aguentaram firmes, viu? Eu quase perco o meu filho que tem um ano e tres meses de diferenca da minha filha. Porque ele dizia: "Mamae, eu nao entendo. Voce diz que gosta de mim, que eu sou seu amor, mas voce em nome do amor do povo-olha, o amor do povo era uma coisa que nao era concreta, ele era concreto, estava ali, podia deitar no meu colo, podia dormir comigo, por a cabecinha dele no meu peito fica andando pelo mundo". Quer dizer, foi doido, foi sofrido. E eu aprendi tambem a superar isso, viu. Eu digo: "Eu nao posso me deixar vencer por chantagem". E cada um usa as armas que tem. Eles, coitadinhos, usavam a arma da chantagem. E eu que tinha lucidez tinha que dizer: "Eu amo voces, o papai e o melhor pai do mundo". Porque o general se desdobrava. Meu irmao vivia aqui, minha mae vinha dormir com eles todas as noites porque eles andavam brigando muito. Voce sabe, eles sentiam a falta e brigavam. Olha, a minha vida mudou muito e eu passei a ver a vida com outros olhos. Porque eu nunca tinha sofrido. Essa cadeia que eu peguei foi a coisa melhor que aconteceu na minha vida.

ARFD: A senhora passou seis meses?

TZ: Praticamente um ano eu fiquei a disposicao da ditadura. Na primeira fase tres meses e depois tres meses.

ARFD: E por que exatamente a senhora foi presa?

TZ: Porque eu ajudei na organizacao do Congresso de Ibiuna. O Congresso de Ibiuna foi o grande crime. E a verdade era uma so, depois que eu descobri, anos depois, que eles tinham cinco locais. Voce veja que as coisas acontecem, nao tem nada por acaso. Eu acho que eu era uma peca do destino, sei la, que eu tinha de passar por isso. Porque, olha, nunca pensei ... Depois, voce sabe que eu gostei (risos). A politica, quando e feita com principios, ela e muito bonita.

ARFD: O inicio dessa luta para a senhora entao teve um carater de honra quase que pessoal?

TZ: Nao, nao so. A primeira motivacao foi a indignacao. Foi uma coisa pessoal de honra minha. Mas quando eu fui pra cadeia e vi o sofrimento do Bacuri (codinome do guerrilheiro Eduardo Collen Leite, torturado e executado pela ditadura), que eles torturaram, cortaram orelha, o sofrimento do (Frei) Tito, o sofrimento que a gente assistiu das familias, o sofrimento da Maria Joana Teles, que foi uma operaria, coitada. Desgracaram a familia dela. Tem gente boa. Tinha um delegado, eu ja estava muito amargurada, e ele disse: "O que a senhora tem hoje que nao sorri?". Porque eu tirava sarro deles, brincava. Tirava sarro mesmo, provocando. "Hoje a senhora esta esquisita, o seu humor mudou. O que a senhora tem?" Eu digo: "Doutor, o senhor sabe, a minha companheira, a Maria, tem uma menina que se ela nao entrar ate hoje la no Padre Chico ou na Sagrada Familia ate seis horas, ela perde a vaga dela". A menina era cega, a mae presa aqui dentro. Ele disse: "Eu lhe dou minha palavra de honra. A senhora nao se preocupe com isso. Me diga onde ela esta". Eu disse pra ele procurar a Maria porque eu nao sabia. Ele disse: "Eu vou pegar e vou levar la. A menina entra la". E, realmente, cumpriu. Por incrivel que pareca, nao e que eu fosse agnostica, mas como toda pessoa feliz, a gente lembra de Deus mais quando esta no aperto. E no meio daquela infelicidade, eu vi que Deus existe. Existe porque na hora que eu mais precisava, a coisa acontecia. E uma coisa tambem que eu pude ver e que quando eu lutava, lutava. Porque eu tenho defeitos horriveis. Eu tenho uma fera dentro de mim que quando solta ... Eu quero ser boa, eu luto por ser boa (risos), mas quando essa ferinha sai, minha filha ... O general dizia: "Pelo amor de Deus, Terezinha, nao tire os tamancos da bolsa". Porque eu sou neta de portugues. Mas sabe, me deu uma visao muito maior de Deus, da vida, da generosidade. E que nos estamos aqui puramente e de passagem. E a vida nao e um banquete nao, sabe. Voce veio aqui para dar a sua pitada de sal. Uns dao mais, outros dao menos. Mas entao, eu estou em paz, porque eu faco o que eu posso. Mesmo dentro da minha limitacao hoje, eu faco o que posso.

DOI: 10.1590/1806-9584-2019v27n153564

Referencias

ZERBINI, Therezinha Godoy. Anistia: semente da liberdade. Sao Paulo: Editora Salesianas, 1979.

Ana Rita Fonteles Duarte (iD) 0000-0002-2469-6044

Doutora em Historia Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Professora Associada 1 do Departamento de Historia, ministra disciplinas nas areas de Teoria da Historia e Pratica de Ensino na graduacao. Integra as linhas Cultura e Poder e Memoria e Temporalidades no Programa de Pos-Graduacao em Historia da UFC. Mestra em Historia Social e graduada em Comunicacao Social/Jornalismo tambem pela UFC. Tem experiencia nas areas de Historia e genero, historia das mulheres, genero e ditadura no Brasil. Coordena o Grupo de Pesquisas e Estudos em Historia e Genero (GEPEHG), na UFC.

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HISTORICO

Recebido em 23/10/2017

Aprovado em 07/11/2018
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Title Annotation:Ponto de Vista
Author:Duarte, Ana Rita Fonteles
Publication:Revista Estudo Feministas
Article Type:Entrevista
Date:Jan 1, 2019
Words:5566
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