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The Matter of Sculpture in Joao Castro Silva/A Materia da Escultura em Joao Castro Silva.

Introducao: a materia

Porque nao valorizamos, nos, a transitoria materialidade fisica e sim a, pretensa, eterna espiritualidade?

--Joao Castro Silva, 1999

A migracao das formas por entre materias permite imprevistas trocas semanticas. A migracao das ideias por entre as formas elucida os espiritos.

Na escultura sao as formas--esculpidas, moldadas, enformadas--que se apossam das materias--a madeira, o barro, a pedra, o metal--imprimindo nelas as suas verdades. Mas, de facto, nao e so assim: a mesma cabeca e diferente se for esculpida na madeira, ou for o barro ou o metal a materia. Embora na percepcao total da obra nao se proceda a quaisquer separacoes, a coisa representada e a qualidade da materia com que se representa, completam, em simbiose, a integridade semantica da obra. Assim, uma cabeca de madeira tem outra significacao e expressividade, porque expressao e informacao e sentido, do que a mesma cabeca em barro ou em metal (Potts, 2000).

Dos materiais que usa a maneira como o autor trabalha a peca--a ferramenta e a aplicacao da maquina, a forca que exerce, o tempo e ritmo do trabalho--a opcao mais ou menos detalhada de sugestao final, impregnam a obra final de outras significacoes.

Ao interrogamo-nos sobre a vida como um todo maior do que ela e, a arte traz-nos essa outra realidade onde e permitido a confluencia de tudo quanto desejarmos ter como referente. Sem limites ou preconceitos, deixamo-nos migrar para a obra levando tudo o que realmente somos, mas, frequentemente, esquecendo no subconsciente muita da realidade que esta presente em obra, como as materias e os gestos de que e feita, porque nos encontramos perante o compromisso entre o complexo material e conceptual que o autor instituiu como sendo a obra e a nossa aproximacao, com muito menos informacao sobre ela em si mas com a nossa historia e respostas as incertezas que mais intimamente procuramos encontrar.

Compreendamos, entao, que uma escultura e uma sequencia de hibridismos formados pelas diversas opcoes dos diversos intervenientes, desde o inicio a sua fruicao, sendo que este fenomeno e verificavel em qualquer processo criativo-contemplativo.

1. A obra de Joao Castro Silva

Joao Castro Silva nasceu em 1966, estudou escultura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa (FBAUL) seguindo para Londres com o objetivo de desenvolver maiores competencias em fundicao (curso de "Bronze Casting", Royal College of Art, 1994). E recorrente as pessoas formadas pela FBAUL terem grande facilidade em se adaptarem a outros meios academicos e profissionais devido a aquisicao, no seu percurso formativo, de vastos e variados conhecimentos, tanto na cultura e sensibilidade artisticas como no saber-fazer. Foi isto o que sucedeu com Joao Castro Silva que, passado algum tempo, regressou a Lisboa, mensurando claramente a importancia da formacao adquirida na FBAUL, mais profunda, alargada e estruturada do que aquela que encontrou fora. No entanto, trouxe consigo um importante nivel de conforto, nomeadamente na seguranca que adquiriu ao confrontar-se com outros pares, com outros meios oficinais, tecnologicos e academicos. Isto da-lhe o impulso da autonomia, iniciando uma permanente atividade criativa escultorica e uma inovadora procura de materia-prima para o seu trabalho, o que o capacitou a uma maestria na escultura em madeira.

Na primeira exposicao individual (Tentacoes, 1996. Galeria Miron Trema, Lisboa) revisita o universo boschiano, pleno de arquetipos oniricos e poeticos. Na senda destes encontros com imaginarios estranhos, compostos por inesperadas possibilidades formais de existencia, Joao Castro Silva exerce um exercicio de aplicacoes diversificadas ao nivel dos materiais, procedimentos e tecnologias. Trabalha metais, em chapas e filamentos, redes, pecas descartadas. Corta, solda, funde, torce. Usa madeiras repescadas de varias origens. Membranas finas que, depois de aplicadas sobre redes, se transformam em favos de mel. As figuras que criou sao fortes, transcendentemente transparentes e etereas, simultaneamente pesadas e leves, ferozes e amaveis, insanas e lucidas. Estas pecas, compostas por aleatorias materias e formas, estao, todavia, completamente apartadas de qualquer sentido anedotico. Assumem-se apenas como uma singela comemoracao do dissemelhante. E atraves da recolecao de materiais que Joao Castro Silva consegue imprimir a este ciclo produtivo a ousadia formal de serem obras estranhas, figuras nao pertencentes ao nosso universo.

E tambem neste sentido de confluencia de "diferentes" transformados em "semelhantes" que Joao Castro Silva desenvolve temerarios ensaios de oragos e relicarios (1999). Em figuras esculpidas em madeira integra outros elementos, cujos registos diferenciados enunciam um ecumenismo poetico e ontologico ao nivel das narrativas e das materias. Esta tipologia do pensamento criativo parece adensar-se umas vezes e ser esquecido noutras. Mas apenas aparentemente, porque quando trabalha um aglomerado de partes da mesma materia como se de um bloco macico se tratasse, o pensamento criativo continua um processo similar.

Na obra escultorica de Joao Castro Silva verificamos uma rigorosa interdependencia entre materia-prima e obra acabada. Cada opcao expressa determinada perspetiva do mundo e todas as opcoes tomadas, desde a escolha da madeira a finalizacao do trabalho escultorico, convergem para um mesmo fim expressivo potenciando-o semanticamente. Dai a importancia no trabalho artistico de todas as opcoes tomadas do principio ate ao final.

As obras de Joao Castro Silva sao obras totais, prenhes de significacao, abrindo-se com extrema clareza numa abordagem iconografica (Panofsky, 1989).

Das materias-primas comuns da escultura a madeira e aquela que mais proxima esta da natureza humana (Potts, 2000). Ao ser esculpida deixa de ser arvore (Ventura, 2016) e passa a ser obra de outro arbitrio alcancando outra natureza --a da arte ou a do espirito, aquelas que necessitam de materia para se manifestar. O escultor incorpora-lhe outro caracter na sua natureza, que e tudo o que carrega desde a origem, por pouco comemoradas que sejam as sua forma anterior, os solos que nutriu, as brisas que abracou, as florestas que integrou, a envergadura que foi adquirindo.

De facto, e madeira que Joao Castro Silva mais utiliza como materia-prima das suas obras. Analisemos algumas das escolhas mais recorrentes que o autor faz, realcando o papel semiotico das madeiras usadas como ponto de partida para as obras, que subdividimos em tres categorias de modo a facilitar a abordagem, nomeadamente:

1. as madeiras rudes provenientes dos estaleiros de obras,

2. as madeira de mare (Ventura, 2016:20) trazidas as praias pelas tempestades,

3. e as densas madeiras da grande Criptomeria-japonica, com o objetivo de se perceber a importancia da opcao daquela materia especifica na percepcao final de cada obra ou ciclo de obras.

2.1 As madeiras rudes

As madeiras ja usadas em varias atividades, sujas, rachadas, feridas, sao uma das proveniencias da materia-prima que mais caracterizam as esculturas de Joao Castro Silva. Sao madeiras que aparentemente perderam a dignidade da origem, cortadas em pranchas serviram em estaleiros, cofragens, paletes. Ja foram estruturas de edificios demolidos. Tem historias de bravura para alem da arvore a que pertenceram e da escultura que vao incorporar.

O escultor entalha e cola as pranchas formando um bloco homogeneo que depois esculpe. Tendo uma matriz oficinal pragmatica cujo objetivo e a consequencia expressiva formal, o autor pode recorrer a outras tecnicas construtivas numa mesma peca, moldando pranchas entre si com auxilio de prego (Figura 1).

As marcas da degradacao pelo uso duro a que a madeira esteve exposta, passam para a peca esculpida e deixam-lhe cicatrizes que vao inequivocamente acentuar alguma tragedia enunciada (Figura 2).

Por vezes o escultor ousa a ironia assumida pela aplicacao da cor, fazendo inverter sinais que remetem para percepcoes contraditorias (Figura 3).

2.2 Madeira de mare

Num processo de descoberta poetica e criacao plastica, Joao Castro Silva parece inverter as questoes do fazer, permitindo-se recolectar materia ja imbuida dos valores semanticos antropomorficos desejados. Continua a ser a arvore o grande protagonista destas obras: ramos decepados, curtidos pelas aguas do mar, erodidos por rolar nas areias, esbranquicados pela salmoura, as madeira de mare--ossos humanos (Figura 4).

Quase como num jogo inocente, onde so existe a transparencia das coisas, Joao Castro Silva aplica em obra quase diretamente estas pequenas madeiras de sargacos calcificadas. Ai os pequenos troncos passam a ossos corroidos de soldados desconhecidos mortos em desventuradas guerras. E esta limpidez do alcance da obra que possibilita a escultura de Joao Castro Silva resplandecer.

2.3 Madeira da Criptomeria-japonica

Noutras situacoes, a materia-prima e madeira de arvores que vencem o nosso tempo, podendo viver na casa dos milhares de anos. Advem de entes de metabolismo mais lento do que o nosso, de verticalidade extraordinaria dos seus 70 m de envergadura, com folhas que lembram vegetacoes de epocas muito mais antigas. A materia-prima tem um odor agradavel e e rosada como a pele do escultor, leve e com uma densidade de 300 a 420 Kg por m3. A Criptomeria-japonica (Figura 5), um tipo de cipreste oriundo da China ou Japao, e hoje endemica em muitos outros locais do mundo, como nos Acores, onde se sobrepos a floresta autoctone da Laurissilva. E uma forte e resistente arvore, dai o ser uma arvore de culto, envolvendo os santuarios e os templos niponicos (Zuzuki, 1987).

Joao Castro Silva consegue incorporar nesta madeira a ductilidade da agua, a leveza do ar, o peso da pedra, a uma estranha espacialidade de luz. Isto pode- se constatar na exposicao instalativa Draperies (Figura 6) na Sala do Veado do Museu de Historia Natural e da Ciencia que decorreu no ano de 2015.

O valor semantico de cada peca exposta e tao expressivo, eloquente e diverso, que remete o observador para uma transcendencia, transformando-o em contemplador. E tambem modifica o espaco. Sacraliza-o. A oscilacao parece existir e ser permanente, comprometendo o olhar e a percepcao do ar em movimento.

As cisoes entre as tabuas marcam o todo como veias ou como sulcos de navalha. As ideias irrompem a medida que os olhos afagam as superficies. A delicada leveza das pecas e da instalacao surpreendem por contrariarem o proprio conceito de materia esculpida. O textil sobrepoe-se-lhe. A ideia sobrepoe-se a materia. De facto as pecas parecem levitar acima do chao com a ajuda do ar. Ao circular por entre elas percebemos a sua verdadeira natureza, mas ai ja a nossa percepcao se encantou. Jogar com estes limites e saber nao cair em redundancias esteticas redutoras ou hiper-habilidades, demonstra uma criacao e saber fazer de mestre. Por instantes vem-nos a memoria o assombramento dos Abakans ou os corpos lacerados de Magdalena Abakanowicz (1930), as redentoras figuras de Antony Gormley (1950), os vultos suspensos dos Pronomes de Ana Vieira (1940), a fragilidade cenografica das instalacoes de Kaarina Kaikkonen (1952), o travo de algum acampamento improvisado de migrantes ou de vivencias ja desusadas da urbanidade mediterranica. As tapecarias alvas, dependuradas em linhas vagas que unem vao a vao e recortam o espaco, sao cortinas, separacoes que escondem do olhar para alem de si, podem ser mortalhas, sudarios, manteis. Podem ser tudo aonde a imaginacao ilusoria nos transporte. Podem referenciar-se como absurdos ou fascinios, grandes utopias ou pequenas verdades. Mas sao esculturas relevadas em madeira de Criptomeria- japonica, variando entre os 135 e os 200 cm em altura ou largura, em que o espessamento nao ultrapassa os 7 cm. A branda forca da arvore esta presente, as fibras sedosas permitem um toque de pele, embora visual. A energia especifica da materia-arvore funde-se aquela que e propria ao escultor. O polimento final e semelhante ao que o santeiro ou o imaginario dao a sua imagem e e do dominio da pintura. A pintura, velada, encobre a materia sem a esconder, no entanto, obriga-a a fingir-se marmore, pele, aumentando o protagonismo semantico das obras. A arvore transfigura-se.

Cada peca e como tecido de arvore lavado que seca ao ar, e, por mais que pareca contraditorio, como animal que lambe as feridas para as sarar. Porque a arte sara. E "curativa", disse-o Louise Bourgeois.

Conclusao

Ainda sobre a frase de Joao Castro Silva que sublinhamos no inicio--Porque nao valorizamos, nos, a transitoria materialidade fisica e sim a, pretensa, eterna espiritualidade? --Proponho pensarmos que e a "transitoria materialidade fisica" que nos permite ter liberdade e autonomia para engendrarmos alguma "eterna espiritualidade", ou, com maior focagem sobre o que temos vindo a falar, podemos afirmar que e atraves das materias de que e feita que a obra revela a sua substancia, emancipando-se conceptualmente, dai a importancia, quase deontologica, nas escolhas e diversas opcoes que o autor vai fazendo ao longo da sua realizacao, pois serao um fator de comunicacao intrinseco, assumindo-se assim um compromisso de sustentabilidade conceptual e criativa.

Referencias

Panofsky, Erwin (1989). O significado nas artes visuais. Lisboa: Presenca.

Potts, A. (2000). The Sculptural Imagination, Figurative, Modernist, Minimalist. Londres: Yale University Press.

Silva, Joao Castro (1999). Homens Eternos Homens Efemeros (catalogo). Lisboa: Trema--Arte Contemporanea.

Ventura, C. A. (2016). Apontamentos sobre a Escultura em Madeira. Possibilidades do Tronco e seus Elementos. Tese de Mestrado em Escultura. Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. http://www.repositorio.ul.pt/ bitstream/10451/28550/2/ULFBA_ TES_1001.pdf

Zuzuki E., Tsukahara J. (1987). Age structure and regeneration of old growth Cryptomeria japonica forests on Yakushima Island. Tokyo: Bot. Mag, pp. 223-241.

Artigo completo submetido a 5 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

DORA-IVA RITA, Portugal, artista plastica, pintora.

AFILIACAO: Universidade de lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigacao e Estudos em Belas Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058, Lisboa, Portugal. E-mail: doraivarita.contact@gmail.com

Caption: Figura 1. Joao Castro Silva, Deriva, 2009. Madeiras.

Caption: Figura 2. Joao Castro Silva, Cristo--Encenacoes sobre a Morte, 1999. Madeiras.

Caption: Figura 3. Joao Castro Silva, Cao, 2016. Madeiras, tinta.

Caption: Figura 4. Joao Castro Silva, Ossos, 2017. Madeiras de sargacos, dimensoes diversas, projeto artistico Evocacao da I Guerra Mundial (2016-2018), Museu Militar de Lisboa.

Caption: Figura 5. Criptomeria-japonica, fotografia de Wilson (1916).

Caption: Figura 6. Joao Castro Silva, Draperies, 2015. Sala do Veado do Museu de Historia Natural e da Ciencia.
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Title Annotation:2. Original Articles/Artigos originais
Author:Rita, Dora-Iva
Publication:Estudio
Date:Oct 1, 2018
Words:2280
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