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The Foundation of the JEAB and the Historical Isolation of Behavior Analysis/A Fundacao do JEAB e o Isolamento Historico da Analise do Comportamento.

As primeiras decadas da Analise do Comportamento denotam um fenomeno historico paradoxal. Por um lado, seu fundador, o psicologo experimental B. F. Skinner (1904-1990), obtinha crescente reconhecimento cientifico, gozava dos principais privilegios da elite academica estadunidense e publicava suas pesquisas nos mais renomados veiculos de comunicacao cientifica (Myers, 1970; Perlman, 1980; Smith & Morris, 2004; Wright, 1970). Por outro lado, desprovida de reconhecimento, a primeira geracao de adeptos da sua ciencia--naquele momento, denominados condicionadores operantes--sofria seguidas dificuldades para ocupar postos academicos satisfatorios e publicar seus trabalhos nos principais periodicos da psicologia experimental nos Estados Unidos (Bjork, 2006; Dews, 1987; Kelleher & Morse, 1987; Keller, 2009; Lindsley, 1987; Skinner, 1984) (3). Motivo principal para tanto, a epoca, foi a incompatibilidade entre o delineamento de sujeito unico, metodo utilizado por Skinner, e a adesao macica, na psicologia experimental estadunidense, de procedimentos como o teste de hipoteses, grupos controle com elevado numero de sujeitos experimentais e estatistica inferential (Capshew, 1999; Rucci & Tweney, 1980; Todorov, 2008; Winston & Blais, 1996).

De modo a enfrentar tal incompatibilidade e a decorrente rejeicao de suas pesquisas pelo mainstream da psicologia experimental estadunidense, os primeiros praticantes da ciencia skinneriana empreenderam esforcos responsaveis por garantir a ocupacao de lugares academicos, politicos e institucionais propicios a disseminacao de suas pesquisas e, por sua vez, a sobrevivencia daquela incipiente comunidade cientifica. Alguns desses empreendimentos foram a realizacao da primeira conferencia de analise experimental do comportamento, em 1945 (Dinsmoor, 1987); a criacao de um curriculo de psicologia baseado no primeiro livro de Skinner, em 1946 (Keller & Schoenfeld, 1949); e a publicacao do primeiro livro-texto de psicologia tambem fundamentado nos preceitos do primeiro livro de Skinner, em 1950 (Keller & Schoenfeld, 1950). Todavia, ainda que relevantes, tais mecanismos foram insuficientes para abrandar, ao longo da decada de 1950, a rejeicao de pesquisas que utilizavam o delineamento experimental de sujeito unico. Por isso, outras estrategias foram necessarias para enfrentar o panorama desfavoravel e demarcar, de vez, os contornos da organizacao comunitaria daquela ciencia do comportamento (Kelleher & Morse, 1987; Lindsley, 1987; Skinner, 1984).

O objetivo deste artigo foi examinar esse controverso cenario por meio da reconstrucao historica da principal estrategia disciplinar de enfrentamento das continuas rejeicoes das pesquisas dos primeiros analistas do comportamento: a fundacao, em 1958, do primeiro periodico especializado da area, o Journal of the Experimental Analysis of Behavior (JEAB), e seu papel na construcao da imagem de isolamento da area. Para o exame dessa historia, foram abordados: (a) a criacao do JEAB como expressao maior do enfrentamento a rejeicao do delineamento experimental de sujeito unico; (b) a reproducao interna de praticas de controle coercitivo, emitidas por parte do primeiro grupo de analistas experimentais do comportamento, como produto colateral da continua rejeicao externa; e (c) os desdobramentos da tese do isolamento mutuo entre a Analise do Comportamento e o restante da psicologia.

O argumento defendido neste artigo e de que os eventos envoltos a constituicao do JEAB denotam emblematicamente um fenomeno paradoxal propagado ao longo da historia da Analise do Comportamento: sua continua expansao disciplinar e institucional, seguida de sua crescente representacao de isolamento na comunidade cientifica. Por ultimo, discute-se que o presente artigo, embora seja parte de tese mais ampla acerca da organizacao social de um grupo cientifico especifico (Cruz, 2013), denota um estudo de caso na historia da ciencia, uma vez que auxilia na compreensao do fenomeno do isolamento cientifico e institucional de uma comunidade cientifica.

O Surgimento do JEAB e a Busca por Autonomia na Comunidade Cientifica

A emergencia dos primeiros meios formais de divulgacao da Analise do Comportamento se deu em funcao das continuas dificuldades enfrentadas pelos praticantes dessa ciencia para publicar suas pesquisas em importantes veiculos de comunicacao cientifica assim como pelo sentimento compartilhado, intragrupo, de isolamento (Bjork, 2006; Skinner 1984). A fundacao, em 1958, do primeiro periodico de Analise do Comportamento, o JEAB, teve a funcao de lidar com os obstaculos para divulgar a area, pois, durante toda a decada de 1950, os adeptos da ciencia skinneriana ainda sofriam continuas desaprovacoes de suas pesquisas (Skinner, 1984). Mesmo pesquisadores vinculados diretamente a Skinner sofreram sancoes por utilizar o delineamento experimental de sujeito unico. Charles B. Ferster, por exemplo, o principal colaborador de Skinner na extensa serie de experimentos que resultou no livro Schedules of Reinforcement (1957), teve artigos de sua autoria recusados com fortes criticas (Brady, 1987; Dews, 1987; Kelleher & Morse, 1987).

Herrnstein (1987) descreve episodio ocorrido no comeco dos anos 1950 protagonizado por Fester e simbolico dos efeitos das constantes recusas as pesquisas dos primeiros adeptos do projeto cientifico de Skinner e de sua funcao no estabelecimento do primeiro periodico da area:

Em algum ponto, me lembro de Fester entrando nervoso no escritorio que eu partilhava com Morse, Blough, Anliker e Azrin, acenando uma carta de rejeicao do Journal of Comparative and Physiological Psychology (JCPP), provavelmente do editor. Eles queriam testes estatisticos. Esta indignacao, primeiro, pela exigencia por estatisticas inferenciais inuteis e, segundo, pela mao pesada do editor de um periodico, foi do meu ponto de vista a semente que levou a criacao do JEAB. (p. 449)

Em conformidade com essa visao historica, Brady (1987) recorda que, entre o final da decada de 1940 e o inicio da decada de 1950, "talvez o periodico de maior prestigio em seu tempo o--Journal of Comparative and Physiological Psychology...." (p. 458), na figura do seu editor Harlow, entao presidente da APA, rejeitou com duras criticas inumeras pesquisas que recorriam ao delineamento experimental de sujeito unico. As diretrizes editoriais daquele periodico evidenciavam, no inicio da decada de 1950, o panorama adverso. Assim, em editorial, do primeiro numero daquela publicacao, em 1951, promulgou-se que: "A discussao [dos artigos submetidos] deve ser limitada a interpretacao e significancia dos dados realmente obtidos ...; dados obtidos em termos de hipoteses nao testadas e nao testaveis nao tem lugar no JCPP ...; a apresentacao de dados derivados de pesquisas com sujeitos individuais deve ser evitada sempre que possivel" (Harlow, 1951, p. 1). Em praticamente todos os relatos comemorativos da criacao do JEAB, sua origem e, assim, identificada como resultado da rejeicao ao delineamento experimental de sujeito unico (Catania, 2008; Dews, 1987; Dinsmoor, 1987; Kelleher & Morse, 1987; Keller, 2009, 1987; Laties, 1987; Lindsley, 1987; Skinner, 1984, 1987; Verhave, 1987). Por isso, como sugere Laties (2008, p. 96), a indignacao foi o principal motivo para a fundacao de um novo periodico.

Fester foi apontado pelos demais envolvidos na criacao do JEAB como um dos mais indignados de todos os analistas do comportamento e o responsavel por levar adiante o plano de um periodico da area, ja em andamento, naquele periodo, unindo os demais praticantes do campo em torno de uma causa comum. O planejado concretizou-se em uma reuniao informal, durante o encontro da Eastern Psychological Association (EPA), de 1957, quando os analistas do comportamento ali presentes concordaram que as constantes rejeicoes as suas pesquisas haviam atingindo um limite insuportavel (Brady, 1987; Dews, 1987; Gilbert, 1987; Herrnstein, 1987; Kelleher & Morse, 1987; Laties, 1987; Lindsley, 1987; Schoenfeld, 1987; Skinner, 1987).

Assim, o JEAB foi fundado em uma reuniao, em um quarto de hotel, durante o encontro da EPA, em 12 de abril de 1957. O episodio denota, emblematicamente, a informalidade parcialmente imposta aquele grupo (Laties, 1987, p. 496), uma vez que, para amenizar as dificuldades de divulgacao cientifica de suas pesquisas, era pratica comum entre os primeiros analistas experimentais do comportamento a realizacao de sessoes informais, nos quartos dos hoteis onde aconteciam os encontros da EPA, daAmerican Psychological Association (APA) e de outras associacoes cientificas (Kelleher & Morse, 1987). Essas sessoes serviam, ao mesmo tempo, para o compartilhamento das experiencias negativas decorrentes das constantes rejeicoes e para o fortalecimento do sentimento intragrupo de hostilidade externa, o que intensificava o entendimento da necessidade urgente de uma alteracao daquela situacao precaria (Laties, 1987).

A origem do JEAB envolveu mais elementos do que aqueles descritos ate aqui. Todavia, para os propositos do presente artigo, salienta-se sua emergencia como produto, principalmente, da rejeicao sofrida pelos primeiros adeptos da ciencia skinneriana, tendo em vista, como sera exposto ainda neste trabalho, os impactos de tal desaprovacao na organizacao do periodico e nas relacoes entre os diferentes praticantes da Analise do Comportamento e a comunidade externa (1).

Punindo quem os Punia e Punindo a si Mesmos

Os efeitos da rejeicao das pesquisas dos primeiros analistas experimentais do comportamento foram alem da necessidade de estabelecimento de um espaco formal de divulgacao cientifica e incidiram na relacao desses cientistas com a comunidade externa, repercutindo, tambem, nos modos de relacao interna daquele novo grupo cientifico. As primeiras implicacoes foram observadas quando os envolvidos na definicao da politica editorial do JEAB discordaram sobre as diretrizes do periodico. O desacordo foi expresso por dois grupos: um deles recomendava o JEAB como uma revista de Analise do Comportamento, que, contudo, acolheria pesquisas de outras perspectivas teorico-metodologicas; o outro grupo era defensor veemente da publicacao, no periodico, apenas de pesquisas que utilizassem o delineamento experimental de sujeito unico e estudassem topicos definidos pela area (Lindsley, 1987; Schoenfeld, 1987).

Ajustificativa dos membros do primeiro grupo envolveu o argumento de que aceitar artigos que empregassem outros metodos e outras teorias era uma forma de disseminar a Analise do Comportamento e de inseri-la em debates da psicologia estadunidense, dos quais ela nao participava efetivamente. Entretanto, para a decepcao dos defensores dessa proposta, a decisao do segundo grupo prevaleceu e orientou as diretrizes da politica editorial do JEAB, a qual decidiu por rejeitar qualquer artigo que nao utilizasse metodo de pesquisa diferente do utilizado pela area. Para alguns membros do primeiro grupo, a decisao, vista como insensata, significou a utilizacao do mesmo procedimento que a comunidade externa empregava contra eles: a punicao (Lindsley, 1987; Schoenfeld, 1987).

Como membro do grupo derrotado e integrante do primeiro corpo editorial do JEAB, Lindsley (1987) afirma que uma de suas memorias sobre a fundacao do JEAB e "bem pesada e ... um pouco triste" (p. 470). Alem de recordar, pesarosamente, a oportunidade perdida de fundacao de um espaco de divulgacao da Analise do Comportamento para outros campos da psicologia, ele lamentou a possibilidade desperdicada de estabelecer uma revista inovadora, com uma linha editorial totalmente diferente das demais publicacoes da APA, pois poderiam utilizar, pela primeira vez, os principios da Analise do Comportamento para modelar comportamentos cientificos efetivos e reforcadores, na edicao cientifica (2). No entanto, infelizmente, na compreensao de Lindsley, a parcela conservadora venceu. Entre aqueles que propunham uma linha editorial ortodoxa, semelhante a que era imposta a eles, estavam Azrin, Brady, Herrnstein e, principalmente, Sidman. Por sua vez, Fester, Keller, Skinner e ele, Lindsley, foram os que assumiram uma postura liberal e defenderam uma politica editorial inovadora (Lindsley, 1987).

A manifestacao de Lindsley (1987) nao e a unica amostra da divergencia interna quanto a definicao da politica editorial do JEAB. Outros membros ativos da primeira geracao de analistas experimentais do comportamento expuseram sua insatisfacao com os rumos da publicacao, em seus primordios, denunciando que o JEAB reproduzia a mesma censura sofrida por seus fundadores. Para Schoenfeld (1987), por exemplo, a postura coercitiva impedia que o periodico recebesse contribuicoes de relevantes pesquisadores que nao utilizavam, exclusivamente, a linguagem skinneriana. Ainda em suas palavras tambem pesarosas isso significou que:

Infelizmente, alguns de nossos editores logo adotaram a mesma rigidez e atitudes de censura que eles tinham criticado em outros periodicos, por exemplo, com respeito a um vocabulario especifico que eles insistiam que um autor empregasse. Esta exclusividade e interferencia inoportuna rapidamente distanciaram potenciais contribuintes, alguns dos quais eu tinha classificado como pesquisadores realmente talentosos ... Para mim isto significou que se deve tambem considerar, quando um periodico e fundado, a modelagem do comportamento do editor. (Schoenfeld, 1987, p. 466)

Alem de expor a forma como o corpo editorial do JEAB reproduzia praticas restritivas impostas aos seus fundadores, Lindsley (1987) destaca que, no inicio da decada de 1960, o conselho editorial estendeu as mesmas praticas de controle da producao aos primeiros analistas aplicados do comportamento, justificando-se a rejeicao interna pela incapacidade de as pesquisas aplicadas obterem controle experimental preciso das variaveis. A respeito disso, Lindsley apresenta, como exemplo, a rejeicao, com intensas criticas, de um artigo de sua autoria que investigava o comportamento psicotico. Insatisfeito por ter um trabalho reprovado na revista que ajudou a fundar, Lindsley submeteu o artigo a outro periodico, que o aceitou sem nenhuma solicitacao de alteracao. "A reimpressao desse artigo venceu o premio anual da Associacao Norte-Americana de Psiquiatria em 1962. Obviamente, os conservadores haviam vencido" (Lindsley, 1987, p. 470).

A rejeicao de pesquisas aplicadas, como a de Lindsey (1987), constitui parte das justificativas para o lancamento, em 1968, do segundo periodico da area, o Journal of Applied Behavior Analysis (JABA). Como sugere Krantz (1971), a reprovacao, pelo JEAB, de relatos de pesquisas de analistas aplicados do comportamento aconteceu em razao da concepcao restrita de controle experimental utilizada pelo periodico, a qual impedia que pesquisas aplicadas alcancassem os criterios estabelecidos para publicacao. Nessa perspectiva, a fundacao do JABA nao foi--como poderia ser presumido--uma extensao direta e necessaria da producao cientifica veiculada no JEAB. Ou seja, embora utilizasse resultados de pesquisas publicadas naquele periodico, o JABA nao representou, precisamente, uma transicao harmonica da evolucao da pesquisa basica a aplicacao, como se poderia entender de uma ciencia definida pela relacao entre tres eixos de investigacao: um experimental, um aplicado e um conceitual (para uma analise dessa definicao, ver Carvalho Neto, 2002, e Tourinho, 1999).

Assim, a fundacao do JABA, diferentemente de inaugurar o inicio do dialogo entre dois campos do conhecimento, derivados da mesma ciencia, demarcou o inicio do evidente distanciamento entre analistas aplicados e analistas experimentais do comportamento. O fenomeno foi, primeiramente, destacado pelos editores do JEAB, que alegaram nao possuir conhecimento suficiente para avaliar as pesquisas aplicadas publicadas no JABA (Krantz, 1971). Outra prova desse distanciamento encontra-se no desconhecimento que editores e autores do JEAB tinham acerca de quem eram os editores e membros do corpo editorial do JABA. Krantz (1972) explica essa desinformacao, entre os editores, como resultado parcial da ausencia de conexao entre os problemas da pesquisa aplicada e os problemas da pesquisa basica. Sugere ainda que esse problema deriva, em alguma medida, do fato de que lideres da pesquisa aplicada em analise do comportamento, como Bijou e Baer, "nao tinham uma interconexao baseada em treinamento e canais formais e informais de comunicacao com as pessoas na area de pesquisa animal operante" (p. 94).

Tendo em vista a fragil conexao entre analistas experimentais e analistas aplicados, suas relacoes nas decadas seguintes, se nao sinalizam uma explicita oposicao hostil intragrupo, ao menos representam os continuos problemas de comunicacao entre os diferentes praticantes da Analise do Comportamento. Vide os editoriais do JEAB, do JABA e do The Behavior Analyst (BAT), que atestam um cenario de continuas criticas mutuas entre analistas aplicados e analistas experimentais, ao longo das decadas de 1960 e 1970 (e.g., Baer, 1980; Dinsmoor, 1979; Michael, 1979; Peterson, 1978, 1979). Fenomeno verificado tambem ao longo das decadas de 1980, 1990 e 2000, em analises que atestam a continua tendencia ao isolamento intra-comunidade analitico comportamental (e.g., Eliott, 2005; Poling, Picker, Grossett, Hall-Johnson, & Holbrook, 1981).

A respeito dos modos de controle da comunicacao interna da Analise do Comportamento, ainda vale mencionar que pesquisadores que utilizaram a Analise do Comportamento, no final da decada de 1960, para investigar tematicas alem daquelas definidas pelo JEAB e JABA, alegaram ter sido vitimas da intolerancia interna em relacao a inovacoes. Sobre isso, um entrevistado de Krantz (1972) alegou, "o JEAB esta nos tratando como o JCPP os tratou" (p. 95). Por essa razao, para o entrevistado, as politicas editoriais do JEAB e do JABA denotavam um conservadorismo inerente a area.

A Tese do Isolamento Mutuo

A continua ampliacao do numero de assinaturas do JEAB e do JABA bem como o volume crescente de autores nessas publicacoes corroboram as alegacoes de intensa expansao da Analise do Comportamento como comunidade cientifica, entre as decadas de 1960 e 1970 (Laties, 2008). A fundacao, em 1964, da divisao 25 da APA, Divisao de Analise Experimental do Comportamento--unica sessao da associacao cientifica vinculada a apenas uma perspectiva psicologica originada do trabalho de um unico cientista, Skinner--e o sucessivo crescimento do numero de afiliados, nas decadas de 1960 e 1970, sao outras evidencias do desenvolvimento da Analise do Comportamento (Guttman, 1977). Constituem, tambem, sinais de tal ampliacao institucional e disciplinar da area a publicacao de livros didaticos e manuais de aplicacao e metodos de pesquisa operante, como os livros de Werner K. Honig, Operant Behavior: Areas of Research and Application (1966), e de Murray Sidman, Tatics of Scientific Research (1960).

A notavel expansao da Analise do Comportamento e suas peculiaridades teoricas, metodologicas e seus modos de relacao com a comunidade externa chamaram a atencao da comunidade cientifica, nao tardando a ser foco de comentarios e de estudos metacientificos. A despeito dos diferentes enfoques, essas analises expressam o argumento de que a Analise do Comportamento era um caso exemplar do isolamento mutuo entre uma perspectiva cientifica e o restante do campo do qual ela fazia parte. Prenuncios da ocorrencia desse fenomeno foram apregoados, ainda no final dos anos 1940, por Wendt (1949), quando declarou que o novo curriculo de psicologia da Universidade Columbia, proposto por Keller e Schoenfeld (1949) e fundamentado no projeto cientifico skinneriano, induziria a formacao de um culto cientifico. Para Wendt, o resultado daquele modelo de ensino seria o isolamento de seus membros em relacao as outras correntes teoricas da psicologia.

Quase 20 anos apos o artigo de Wendt (1949), Hearst (1967) argumenta que o previsto isolamento dos praticantes da ciencia skinneriana havia se concretizado na visao de grande parte dos psicologos estadunidenses. Ao resenhar o livro Operant Behavior: Areas of Research and Application (Honig, 1966), em um texto intitulado de "The Behavior of Skinnerians", Hearst sugere que os capitulos daquele livro designavam o isolamento da area em termos de topicos de estudo e, principalmente, de metodo. Contudo, haveria, para Hearst, sinais de contribuicao daquela ciencia para outros psicologos, fora do campo operante. Os capitulos sobre psicofarmacologia, desenvolvimento infantil e alteracoes de estados fisiologicos apontavam, segundo ele, possiveis contribuicoes da analise experimental do comportamento para a psicologia como um todo. Todavia, a linguagem restrita, o foco excessivo na analise de esquemas de reforcamento e o desgosto declarado, por parte dos praticantes da Analise do Comportamento, pelo mainstream da psicologia experimental ja haviam instaurado, naquele contexto e momento, o que Hearst considerava uma caricatura parcialmente verdadeira daqueles que se declaravam skinnerianos. Essa caricatura parcial foi assim descrita por ele:

Para muitos outsiders, um condicionador operante e um experimentalista fechado, que passa horas infindas na analise entusiasmada dos dados cumulativos de um ou dois sujeitos, ataca qualquer coisa que pareca meramente teorica ou fisiologica, ridiculariza qualquer pessoa que ja tenha usado estatisticas ... ignora o trabalho de qualquer psicologo que nao publica no Journal of the Experimental Analysis of Behavior. Desde a epoca de J. B. Watson, nenhum grupo behaviorista parece tao certo do que gosta ou nao gosta e tao convencido que suas tecnicas e abordagem experimental nao so mudarao a psicologia, mas remodelarao o mundo. (Hearst, 1967, p. 402)

Nao obstante as alegacoes de isolamento e ortodoxia da Analise do Comportamento tenham sido identificadas desde o final da decada de 1940, foram os estudos de Krantz (1971, 1972) que sistematizaram, em termos quantitativos (bibliometria) e qualitativos (entrevistas), a tese propagada, ate o presente, do isolamento mutuo entre a psicologia operante e a psicologia nao operante. Nesses dois estudos, Krantz verificou o padrao quantitativo de citacoes e autocitacoes no JEAB e em outros periodicos de psicologia experimental, entre 1958 e 1969, e constatou que os periodicos que citavam o JEAB, alem de o fazerem menos frequentemente do que em relacao a qualquer outra publicacao, apresentaram diminuicao das referencias ao periodico nesse intervalo. Igualmente, as mesmas publicacoes apresentavam elevada taxa de citacoes em outras publicacoes e, em comparacao com outros periodicos investigados, o JEAB expos a maior frequencia de autocitacoes, com manifesta tendencia a sua continua elevacao.

Ja em sua analise qualitativa, Krantz (1971, 1972) constatou que psicologos adeptos de outras abordagens psicologicas julgavam que os analistas experimentais do comportamento falavam para si mesmos, garantindo apoio e reconhecimento mutuo entre os pares e se blindando, assim, das criticas externas. Porem, as entrevistas de Krantz (1972), realizadas com praticantes da Analise do Comportamento e psicologos de outras abordagens, indicaram que o isolamento da Analise do Comportamento nao significou que o recurso a conceitos e, principalmente, a metodos da abordagem se manteve dentro dos limites do grupo de praticantes daquela ciencia. Alguns entrevistados asseveraram utilizar-se dos metodos operantes sem se submeter ao que intitulavam de religiao skinneriana; ou seja, "muitos outsiders agiam como insiders, particularmente em seus usos da tecnologia operante, enquanto ao mesmo tempo eram criticos do condicionamento operante" (Krantz, 1972, p. 95).

Portanto, os empregos da tecnologia operante, embora apresentando coesao interna e identificacao com um grupo especifico, tornaram as fronteiras da Analise do Comportamento menos impermeaveis. Krantz (1972) enfatiza que, ainda assim, a identidade, especialmente dos analistas experimentais do comportamento, permaneceu distinta e nao foi incorporada amplamente a psicologia, pois, mesmo em diferentes niveis, eles trabalhavam exclusivamente com base nos pressupostos do sistema cientifico skinneriano, o qual, conquanto provendo tecnologias utilizadas por praticantes de outras perspectivas, continuava sendo alvo de criticas e incompativel com o mainstream da psicologia experimental, no que se referia a seu metodo de pesquisa. Isso manteve intocavel o nucleo da identidade daqueles cientistas, que possuiam plena consciencia de que a rejeicao externa os definia como grupo. Portanto, na amostra de Krantz, a percepcao de afiliacao exclusiva a ciencia skinneriana foi compartilhada, principalmente, por aqueles que a praticavam antes de 1958, os quais viveram a forte experiencia da hostilidade externa, a continua rejeicao de suas pesquisas, o esforco grupal para fundar o JEAB e a dedicacao a criacao de uma educacao disciplinar em Columbia.

As pesquisas de Krantz (1971, 1972) forneceram o primeiro aporte empirico para corroborar a percepcao historica, existente desde o final da decada de 1940, da ortodoxia e do isolamento da Analise do Comportamento. Por isso, desde entao, tem servido como base comparativa para as demais pesquisas preocupadas em investigar o grau de comunicacao interna e externa da area. Todavia, apesar de seu valor historico, autores como Coleman e Mehlman (1992) alegam que a tese de Krantz produziu um efeito negativo na interpretacao historica da Analise do Comportamento. Mais precisamente, eles sugerem que o trabalho de Krantz acentuou a percepcao de isolamento da Analise do Comportamento, uma vez que serviu de mote para reafirmar a posicao desfavoravel daquela ciencia por seus criticos (e.g., Guttman, 1977).

Wyatt, Hawkins e Davis (1986) foram os primeiros a tentar refutar a tese do isolamento. Segundo eles, os usos dos achados de Krantz eram anacronicos para interpretar a situacao da Analise do Comportamento no comeco da decada de 1980. Razao para tanto seria o fato de que, desde a publicacao dos artigos de Krantz, no inicio da decada de 1970, ocorreu continuo crescimento, em quantidades absolutas, de atividades academicas e disciplinares da area, tais como a criacao de publicacoes especializadas, de cursos, de linhas de pesquisas e de sociedades cientificas. Para Coleman e Mehlman (1992), os resultados do estudo de Wyatt et al. (1986) provavam que a situacao de isolamento da Analise do Comportamento era menos precaria do que o anunciado por seus criticos. Todavia, ao replicarem parcialmente, no inicio da decada de 1990, as analises bibliometricas de Krantz (1971,1972), concluiram que, a despeito da diminuicao da taxa de autocitacao no JEAB, esta se mantinha elevada em comparacao com os demais periodicos por eles avaliados. Por isso, alertaram que "os leitores que foram perturbados pelas descobertas de Krantz deveriam, apesar das tendencias favoraveis que foram descritas, estar perturbados pelos resultados do nosso estudo" (Coleman & Mehlman, 1992, p. 48).

Ainda assim, Coleman e Mehlman (1992) argumentam que, nos estudos de Krantz (1971, 1972), o termo isolamento foi utilizado de forma limitada, pois teve como respaldo o baixo volume de comunicacao, alem da especialidade. Consequentemente, apenas o criterio bibliometrico, utilizado nas pesquisas de Krantz, seria insuficiente para determinar uma interpretacao patologizante do isolamento da Analise do Comportamento, uma vez que, se outros indicadores fossem empregados--por exemplo, o continuo desenvolvimento disciplinar e institucional da area--,os dados de Krantz seriam relativizados. Ainda que relevante, essa alegacao de Coleman e Mehlman desconsidera que dados relativos a expansao disciplinar e institucional da Analise do Comportamento nao seriam indicativos necessarios de maior comunicacao da area para alem de suas fronteiras e, ate mesmo, dentro de suas fronteiras. Como sugeriu Krantz, um dos elementos que chama a atencao no isolamento da Analise do Comportamento, ja nas decadas de 1950 e 1960, e que ele ocorreu a medida que a area se expandia em termos disciplinares e institucionais.

A despeito disso, Coleman e Mehlman (1992) sugerem que, talvez, o isolamento da Analise do Comportamento resulte de efeitos positivos do desenvolvimento da area, como sua autossuficiencia intradisciplinar, seu consenso interno e a convergencia teorica e metodologica entre seus praticantes. Essa afirmacao foi justificada com base na alegacao de que elevadas taxas de autocitacao existem em especialidades de outras ciencias experimentais. Embora coerente, tal comparacao parece desconsiderar que ciencias como a fisica, a quimica e a biologia, ainda que apresentem controversias internas (Latour, 1998), compartilham, de modo geral, acordos teoricos validos para todas as suas subespecialidades. Com isso, nessas ciencias, a limitacao da disseminacao de seus produtos intelectuais, como ocorreu na Analise do Comportamento, nao e sinal necessario de isolamento. Nesse ponto, vale retomar a afirmacao de Krantz (1972) de que embora as demais perspectivas em psicologia experimental estadunidenses mantivessem, tambem, suas especificidades e fronteiras delimitadas, apresentavam indicios mais claros de producoes cientificas intercambiaveis e julgavam tal interacao necessaria.

Vale salientar que a Analise do Comportamento nao deve ser considerada a unica comunidade cientifica a apresentar isolamento cientifico. Porem, no contexto historico da psicologia experimental estadunidense das decadas de 1950 e 1960, o seu isolamento adquiriu formas peculiares, sendo um isolamento anomalo na visao, principalmente, de nao praticantes da area. Vide o fato significativo de que, embora nunca tenha mantido relacoes amistosas e proximas com a APA (Woodward, 1996), a Analise do Comportamento compunha a unica divisao dessa associacao cientifica, no comeco da decada de 1960, identificada com apenas uma teoria do comportamento, de um unico autor (Bjork, 2006). Isso constitui algo bem diverso do que ocorria com as demais divisoes da APA, as quais, embora pudessem ter suas fronteiras demarcadas, nao se identificavam como representantes de somente uma perspectiva cientifica, de um unico psicologo. Tais divisoes apresentavam identificacao com areas da psicologia, como a psicologia educacional, a psicologia no servico publico e a psicologia clinica, entre outras que contavam com a participacao de psicologos e psicologas de diferentes orientacoes teoricas e metodologicas, o que propiciava espaco de contato, por minimo que fosse, entre seus participantes.

Nao por acaso, a propria tematica do isolamento tornou-se parte da interpretacao historica da Analise do Comportamento. Em extensa analise recente dos usos da tecnologia operante e da organizacao da Analise do Comportamento, a historiadora da psicologia Alexandra Rutherford (2009) pontuou que a estrutura comunitaria da Analise do Comportamento, entre as decadas de 1950 e 1960, determinou a coesao interna dessa ciencia e foi responsavel pela ampla insercao da tecnologia operante em varios ambitos da sociedade estadunidense. No entanto, a autora considera que a mesma estrutura social foi responsavel por, ao longo do tempo, tornar as inovacoes da tecnologia operante restritas aos praticantes da Analise do Comportamento. Em razao disso, Rutherford supoe que os resultados de Krantz (1972) sao uteis para a interpretacao da situacao contemporanea da Analise do Comportamento como grupo cientifico. Assim, conclui que a tese do isolamento faz tanto sentido atualmente quanto na decada de 1970, pois a Analise do Comportamento estaria ainda isolada do mainstream da psicologia, uma vez que, no presente: "Skinnerianos publicam em seus periodicos, participam de suas proprias conferencias, e treinam seus estudantes em certos redutos remanescentes da Analise do Comportamento ..." (Rutherford, 2009, p. 151).

Alem disso, para Rutherford (2009), analistas experimentais e aplicados do comportamento mantem uma linguagem especializada "que, nao so os separou dos outros psicologos, como criou um senso de coesao intragrupo que e palpavel em qualquer encontro onde os skinnerianos predominam" (p. 151). De acordo com essa autora, entre as consequencias negativas desse modo de funcionamento social estaria o fato de que tecnologias derivadas da psicologia operante--anteriormente absorvidas por outras areas e profissionais--deixaram, ao longo do tempo, de ter suas origens identificadas naquela ciencia, de modo que, atualmente, as novas descobertas da Analise do Comportamento nao sao consideradas de modo relevante alem da propria area.

Ainda mais sintomatico, na tese do isolamento, e a manutencao do tema entre seus praticantes, na atualidade. Vide os numeros especiais dos periodicos The Behavior Analyst e European Journal of Behavior Analysis, ambos de 2014, cuja tematica central foram os problemas de comunicacao da Analise do Comportamento. Embora uma sintese desse debate ultrapasse nosso proposito, o que se observa nele e a reproducao de controversias similares aquelas identificadas nos momentos que antecederam e sucederam a fundacao do JEAB, nas decadas de 1940 e 1950. Entre elas, observa-se a persistente polemica com respeito ao controle das balizas linguisticas da Analise do Comportamento. Algo percebido na apologia, de um lado, de uma maior permissividade e disposicao para o dialogo horizontalizado com a psicologia e outras areas do conhecimento (e.g, Schlinger, 2014) e, por outro, na extremada defesa pela separacao da Analise do Comportamento do restante da psicologia (e.g., Ulman, 2014) e a necessidade de controle rigido dos usos da sua linguagem, tanto na comunidade cientifica quanto na arena publica (e.g., Reed, 2014).

Consideracoes Finais

A historia de fundacao do JEAB unifica uma diversidade de elementos historicos da organizacao social da Analise do Comportamento que permitem argumentar que, a medida que tal ciencia se expandiu em termos disciplinares, ela foi situada, por seus praticantes e nao praticantes, como cada vez mais isolada do restante da psicologia. Pode-se dizer, contudo, que o isolamento cientifico nao seria um evento restrito a Analise do Comportamento. A psicologia, como ciencia e disciplina, tem sido caracterizada, historicamente, pela fragmentacao teorica e inexistencia de acordos epistemologicos e metodologicos--minimos--entre suas diferentes abordagens (Ferreira, 2006). Ainda assim, a despeito dessa constatacao, neste artigo, foi evidenciado que o isolamento da Analise do Comportamento apresentaria peculiaridades historicas marcantes, que tornaram acentuada a percepcao de seu isolamento no ambito da psicologia.

Esse isolamento primeiro se deu em funcao da incompatibilidade metodologica com o mainstream da psicologia experimental estadunidense e pela adesao restrita a uma teoria, o que levou a Analise do Comportamento, diferente das demais tendencias em psicologia experimental nos EUA de meados do seculo XX, a ser percebida como uma area e, ao mesmo tempo, como uma abordagem psicologica. Vide sua configuracao, como mostramos, na APA, como a unica divisao filiada a apenas uma abordagem psicologica, derivada de uma unica ciencia do comportamento e do trabalho de um unico psicologo. Como resultado dessa configuracao, a area foi e tem sido representada como insensivel e resistente para lidar com tematicas que ultrapassam as fronteiras linguisticas do proprio campo.

Ainda de especial interesse historico e representativo de singularidades do isolamento da Analise do Comportamento foi o papel desempenhado pela punicao na origem do JEAB e seus efeitos na organizacao comunitaria da area. Sobre isso, foi indicado como os debates internos que permearam a organizacao e a definicao da politica editorial do JEAB sinalizam o papel central das incessantes rejeicoes na organizacao comunitaria daquele grupo. A recusa da producao cientifica de outras abordagens psicologicas e dos proprios analistas do comportamento e prova cabal da reverberacao dos efeitos da hostilidade externa. Assim, as criticas ja existentes, no final da decada de 1940, de que a Analise do Comportamento constituia um grupo cientifico isolado e ortodoxo se ampliaram apos a fundacao do JEAB. Krantz (1971, 1972) corroborou tal visao historica ao defender a tese do isolamento mutuo entre a psicologia operante e a psicologia nao operante. Mesmo questionada, o que chama atencao e que tal tese mantem seu valor heuristico ainda no presente, uma vez que estudos desenvolvidos 20 e 40 anos mais tarde, inclusive para tentar mostrar seu provavel anacronismo, reforcam indicios da manutencao do isolamento da Analise do Comportamento (Coleman & Mehlman, 1992; Rutherford, 2009).

Tal compreensao dos efeitos da punicao e compativel com as analises sociologicas acerca da marginalizacao de grupos pelo establishment. Bourdieu (1983), por exemplo, ao transpor sua nocao de campo para a ciencia, afirma que, assim como outros grupos sociais quando ocupam postos de autoridade, os grupos cientificos a margem do establishment cientifico tendem a consagrar estrategias de conservacao. Desse modo, o grupo cientifico excluido tende a manter e perpetuar uma ordem cientifica com a qual compactuam apenas seus praticantes. Postura assumida por parte dos fundadores do JEAB, ja no momento de sua criacao. Assim, o JEAB configurou uma ambigua estrategia de institucionalizacao da Analise do Comportamento, visto que, ao mesmo tempo em que foi fundado para enfrentar a rejeicao e isolamento, estabeleceu, a contragosto de parte daquela comunidade cientifica, uma politica editorial que reproduzia aquilo que buscava enfrentar: a punicao resultante das rejeicoes de suas pesquisas.

Ainda e digno de nota observar que a tematica do isolamento extrapola o cenario estadunidense. No Brasil, por exemplo, analistas do comportamento igualmente tem sugerido a existencia do fenomeno do isolamento da area. E, entre as razoes para tanto, estaria, do mesmo modo que nos Estados Unidos, a manutencao por seus membros de praticas sociais coercitivas com respeito aos modos de comunicacao de seus praticantes (Banaco, 1997; Rodrigues, 2002) (3). Embora os motivos do possivel isolamento da Analise do Comportamento no Brasil tenham origens diferentes daquelas encontradas nos Estados Unidos, a tematica do isolamento, portanto, ultrapassa o contexto estadunidense e possivelmente e parte constituinte de sua organizacao, independente do contexto geografico. Nessa perspectiva, e possivel afirmar que a questao do isolamento e um tema perene na historia da Analise do Comportamento, sendo parte constituinte da propria identidade dessa comunidade cientifica (4).

Finalmente, espera-se que, tanto para os praticantes da Analise do Comportamento quanto para nao praticantes, o presente artigo ultrapasse o valor de mera curiosidade historica da ciencia. Para os primeiros, entende-se que este estudo pode suscitar debates acerca da estrutura organizacional da comunidade cientifica da qual fazem parte e de seus provaveis desdobramentos historicos no presente. Para os nao praticantes (e ainda igualmente para os praticantes), presume-se que, embora a historia abordada se refira a um grupo especifico, em um contexto e momento historico particular, serve de base para o debate de aspectos microssociais inerentes ao funcionamento da ciencia em diferentes campos do saber.

http://dx.doi.org/10.1590/0102-3772e323215

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Recebido em 06.08.2015

Primeira decisao editorial em 28.01.2016

Versao final em 13.02.2016

Aceito em 17.02.2016

Robson Nascimento da Cruz [3]

Pontificia Universidade Catolica de Sao Paulo

[1] O autor agradece os comentarios criticos realizados por Bruno Angelo Strapasson, Pollyanna Abreu e pelos pareceristas anonimos. Todos os possiveis erros e equivocos sao de inteira responsabilidade do autor.

[2] Pesquisa financiada com bolsa de pos-doutorado Fapesp, Processo 15/00514-0.

[3] Endereco para correspondencia: Rua Agenor Alves, 68, Nazare, Belo Horizonte, BH, Brasi. CEP: 31.990-040. E-mail:robsoncruz78@yahoo. com.br

(1) Para o detalhamento de informacoes sobre a historia do JEAB, ver os numeros comemorativos de 30 e 50 anos da publicacao, publicados no JEAB, 1987, volume 48, numero 3, e JEAB, 2008, volume 89, numero 1, respectivamente.

(2) Sobre esse assunto, Lindsley (1987) descreve que a proposta inicial era aplicar principios da analise experimental do comportamento ao processo de avaliacao dos artigos submetidos no JEAB, de modo a incentivar o debate e amenizar a aversao do processo de avaliacao.

(3) As expressoes Analise do Comportamento, analistas experimentais do comportamento e analistas aplicados do comportamento surgiram entre as decadas de 1950 e 1970. No entanto, o uso padronizado de tais termos somente ocorreu a partir de meados da decada de 1970. Neste artigo, tais expressoes foram mantidas devido ao seu amplo conhecimento e uso pela comunidade cientifica

(3) O isolamento da Analise do Comportamento no Brasil necessita de maiores investigacoes, uma vez que a rejeicao da area no Brasil estaria relacionada a questoes diferentes daquelas existentes nos Estados Unidos. No Brasil, as especificidades da historia da Analise do Comportamento nao permitem julga-la como um perspectiva psicologica rejeitada, quando da sua institucionalizacao (Matos, 1996). Razoes de ordem politica e ideologica precisam tambem ser incluidas para explicar os motivos da resistencia historica a Analise do Comportamento no pais (Cruz, 2010; Rodrigues, 2002).

(4) Andery (2012), outra analista do comportamento brasileira, embora nao se limite a avaliar a situacao da Analise do Comportamento no Brasil, igualmente alega estar a area em crescente processo de isolamento cientifico. Do mesmo modo, Todorov (2013) indica a manutencao historica do problema do isolamento da Analise do Comportamento.
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Title Annotation:ARTIGO ORIGINAL
Author:Cruz, Robson Nascimento da
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Date:Jul 1, 2016
Words:7552
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