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The Amazonian environment in the works of Helio Melo/O ambiente amazonico nas obras de Helio Melo.

Introducao

Helio Holanda Melo (1926-2001), que, a despeito de ter nascido na vila amazonense Floriano Peixoto, e considerado um artista acreano. Conhecido tambem como seu "Seo" Helio, assim como milhares de seringueiros, foi obrigado a se deslocar para a cidade, aonde, ao chegar, ocupou a periferia social. Ja no campo simbolico o artista transitou pelos varios territorios da arte, apropriando-se da linguagem da musica, das artes visuais, da literatura e do teatro, que se deu na cidade de Rio Branco (AC). Quando se mudou para Rio Branco, levou a selva consigo e costumava dizer que as imagens o perseguiam e tinha a urgencia de retratar a mata.

Nas decadas de setenta e oitenta do seculo XX, a pecuaria e a agricultura extensivas devastavam a floresta amazonica num ritmo alucinado. Como resposta a esta insensatez, o seringueiro-artista Helio Melo produzia freneticamente paisagens da floresta para advertir que a floresta era finita e deveria ser preservada para o bem comum da humanidade. Para se contrapor a devastacao, "Seo" Helio propunha a vastidao das matas, a diversidade da fauna, a propagacao dos valores que aprendera com os indios. Sua obra revela a preocupacao de registrar a grandeza da floresta e a nocao de convivencia harmoniosa com a natureza

A associacao de tintas industriais como a tinta nanquim e corantes naturais, da uma aparencia singular as obras de Helio Melo. Em alguns casos utiliza a textura das folhas para carimbar as nervuras, reproduzindo aspectos de ramagens, arbustos e a propria floresta. Registrou uma Amazonia mistica, com animais peculiares e seres fabulosos, entremeados de fenomenos naturais e teluricos. A obra do artista esta marcada por denuncias sociais, sem deixar demonstrar uma beleza simples e grandiosa.

1. O seringueiro

O artista, que teve como poetica o ambiente amazonico a partir de sua vivencia, teve tres fases distintas. A primeira fase trata de um inventario da vida do seringueiro na floresta. Esta fase compreende o periodo de 1978 ate 1984, onde "Seo" Helio atraves de suas obras faz uma sociologia do Trabalho na Amazonia. A floresta com toda sua grandiosidade aufere dignidade ao trabalhador florestal e neste espaco da mata representado por "Seo" Helio, o ambiente e tranquilo, acolhedor, paradisiaco. Esta maneira de representacao cria um paradoxo, embora seu trabalho seja penoso, o seringueiro encontra na floresta a razao de viver. Sua pintura e composta por tonalidades de verde, pois para o artista "existe um verde vivo e outras cores que ninguem consegue definir" (Melo, 2000:144).

A visao de mundo florestal do artista, foi decorrente de sua vivencia como seringueiro. O termo "vivencia" tem uma conotacao filosofica introduzida por Gadamer, em que "algo se transforma em vivencia na medida em que nao somente foi vivenciado, mas que o seu ser-vivenciado teve uma enfase especial, que lhe empresta um significado duradouro" (Gadamer, 1997:119).

Helio Melo representa o seringueiro na sua lida diaria de recolher o latex, que, usualmente, os seringueiros chamam leite da seringa. Ele trabalha com seus instrumentos e utensilios de trabalho. Na obra (Figura 1), o artista retratou a direita de quem olha, o seringueiro fazendo o corte na seringueira, isto e, com a lamina faz o corte na madeira, a estes cortes ele chama de bandeira. Encostada na arvore percebe-se a espingarda para se proteger das feras e ou eventualmente cacar algum animal silvestre para sua sobrevivencia e da sua familia. A esquerda de quem olha a obra o artista representou os utensilios basicos para o trabalho do seringueiro, de cima para baixo, sao eles: machadinho; raspadeira, bornal; Poronga; tigelinha; balde; capanga ou bosoroca: faca de protecao; saco; espingarda; tubida; sapato de latex e estopa.

Na obra a seguir (Figura 2), o artista representa dois aspectos da arvore da borracha: "Vista de frente e a Hevea brasiliensis, vista em planta e a estrada de seringa" (Marchese, 2005:100). Na sua pesquisa sobre espaco, representacao e identidade do seringueiro no Acre, Daniela Marchese constata, atraves de experiencia de campo, que o desenho misto e o que melhor representa as relacoes espaciais que os seringueiros estabelecem com os elementos daquele lugar de vida e trabalho.

Pode-se observar a casa e o seringueiro desenhados frontalmente, enquanto a arvore da seringueira desempenha um duplo papel: se vista de frente, o seu tronco e seus ramos sao os da Hevea brasiliensis, mas os mesmos elementos, vistos em planta, sao o espigao e as estradas que o seringueiro percorre em giro.

A producao artistica de Helio Melo foi contextualizada numa epoca de fortes mudancas de paradigma no manejo da floresta amazonica e sua vocacao economica. O proprio artista sofreu na pele a consequencia de uma politica de trabalho baseada na exploracao e escravizacao dos seringueiros pelos coroneis seringalistas. Essa expulsao do seringueiro do seu territorio decorreu da crise e queda mundial do preco da borracha, resultando na falencia dos seringais, o que acarretou numa mudanca de modelo economico para a Amazonia, baseado na substituicao da floresta por pasto para praticadapecuariaextensivaedaderrubadadearvoresparaconstruirareasde pastagem em larga escala.

2. Surrealismo metaforico

Na segunda fase, embora a obra de "Seo" Helio retrate as lembrancas da mata e a vida do seringueiro, ao sair da floresta para morar na cidade ele se apropriou da modernidade da vida citadina. O artista traz para a sua construcao poetica o distanciamento entre povo e a classe dominante. Tenta, atraves de metaforas, associar a classe dos mandatarios ao animal burro. De acordo com a Figura 3, o artista apresenta uma arvore de tronco forte, alta, acha-se quase no centro da obra, suportando em um de seus galhos o burro, representando o peso da hierarquia financeira, um sujeito patrao, que utilizou da simplicidade dos seringueiros, como degraus para chegar ao topo e desfrutar da condicao de dono para desconstruir uma regiao transformando-a em algo extremamente nocivo para as futuras geracoes. O trabalhador esta representado bem abaixo da classe social, no chao.

Alem destas questoes a representacao do burro no galho de uma arvore e o trabalhador cabisbaixo e de costas para a arvore nos remete ao processo de expropriacao do capitalismo nesses ultimos 106 anos na Amazonia, resultando em grande massacre de indigenas de varias etnias desde a fronteira entre o Acre e o Peru, na fronteira entre o Acre e a Bolivia e na fronteira entre o Acre e o Amazonas. No tempo aureo da borracha o financiamento para as matancas dos indios conhecidos como correrias dizimou comunidades inteiras de indios.

Na obra "Expulsao dos seringueiros" (Figura 4), de forma metaforica e contundente, o artista denuncia que o gado na decada de 1970 expulsou os seringueiros, substituindo assim a velha economia baseada nos seringais para a pecuaria extensiva. A resistencia dos seringueiros, que passaram de inimigos dos indios a parceiros contribuiu para o declinio da politica contra a floresta. Esta luta que resultou na uniao de inimigos tradicionais--indios e seringueirospossibilitou a criacao da Alianca dos Povos da Floresta, composta por tres redes sociais da Amazonia: Grupo de Trabalho Amazonico (GTA), Coordenacao das organizacoes indigenas da Amazonia Brasileira (Coiab) e Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), que foram fundamentais na resistencia a uma politica de desflorestamento para implementacao da Agropecuaria.

3. A questao ambiental na obra de Helio Melo

Nas obras da terceira fase, Helio Melo, utiliza uma didatica baseada na experiencia. "Seo" Helio com sua historia peculiar, demonstra que, quanto mais circunscrito o repertorio do artista, mas chance tera de se tornar universal, de maneira que, ao retratar a floresta, ele registra em sua obra o seringueiro, o Acre, a Amazonia, a questao ambiental e a sustentabilidade. Com isso, relaciona dialeticamente, questoes locais com processos universais, globais. Para "Seo"Helio a Educacao Ambiental esta relacionada com os conceitos internalizados de etica. Esta etica e aprendida atraves de contos e historias fantasticas, em que seres sobrenaturais castigam quem maltrata a floresta.

"Seo" Helio explica que a Mae Da Mata castiga o cacador que desobedecer ao codigo mitico de regulacao de acesso aos recursos naturais e acrescenta que quando isso acontece o cacador pode voltar para casa porque o cachorro nao quer mais nada com a cacada. Neste universo mitico, seres como a Mae d'agua, o Caboclinho, o Mapinguari, dentre outros seres do universo simbolico do homem da floresta funciona como poderoso codigo de regulacao de acesso aos recursos naturais.

"Seo" Helio procurou fazer a sua parte na tarefa de criar uma cidadania ambiental, promovia palestras em escolas desde a pre-escola ate as universidades, hospitais e asilos, contando sua experiencia e de outros seringueiros na convivencia com a floresta. Discursava sobre as praticas sustentaveis oriundas de uma relacao responsavel com a natureza, questoes como diminuicao da pobreza, justica social e ambiental, qualidade de vida para os trabalhadores extrativistas, mudanca no modelo de desenvolvimento economico-social da Amazonia e da utilizacao do conceito de construir sem destruir, baseado nos principios de convivencia sadia entre homem e natureza.

Conclusao

Questoes historico-sociais levaram o artista Helio Melo a expressar uma cultura visual baseada na resistencia a politica de desflorestamento, contextualizada numa epoca de fortes mudancas de paradigma no manejo da floresta amazonica.

Alem disso, a producao do artista revela um inventario das relacoes de trabalho do homem que vive na floresta e seu modo de vida tradicional, decorrente de um processo de acomodacao e adaptacao ao meio que resultou numa sociologia do trabalho.

A producao critica de Helio Melo foi proporcionada por sua militancia politica e religiosa e, de forma muito pessoal, produziu imagens originais, condizentes com a conjuntura historica. Desenhou e escreveu sobre as matas, os animais, os mitos e os povos da floresta, sempre tendo a consciencia da sustentabilidade economica dos recursos da selva, e o tema de sua obra e o ambiente amazonico.

Artigo completo submetido a 19 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro de 2017

Referencias

Gadamer, Hans-Georg. Verdade e Metodo. Petropolis: Vozes, 1997.

Melo, Helio. O Caucho e a Seringueira, Historias da Amazonia, Os Misterios da Mata, Os Misterios dos Repteis e dos Peixes, A Experiencia do Cacador, Os Misterios dos Passaros e Via Sacra na Amazonia. Rio Branco: Fundacao Elias Mansour, 2000.

Marchese, Daniela. Eu entro pela perna direita: Espaco, representacao e identidade do seringueiro no Acre. Rio Branco: EDUFAC, 2005.

NORBERTO STORI * & ROSSINI DE ARAUJO CASTRO **

* Brasil, artista visual. Licenciatura em Desenho e Plastica--Faculdade de Artes Plasticas e Comunicacoes da Fundacao Armando Alvares Penteado (FAAP)/SP. Mestre e Doutor pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Livre Docente em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho (IA-UNESP)/SP.

AFILIACAO: Universidade Presbiteriana Mackenzie, Centro de Educacao, Filosofia e Teologia, Programa de Pos-Graduacao em Educacao, Arte e Historia da Cultura Rua da Consolacao, 930. Bairro Consolacao, Sao Paulo--SP. CEP 01302-907 Brasil. Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). E-mail: nstori@mackenzie.br

** Brasil, escritor. Graduacao em Licenciatura em Educacao Artistica pela Universidade de Sao Paulo--USP. Mestre em Educacao, Arte e Historia da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

AFILIACAO: Escola Estadual Parque Anhanguera, Rua Sao Marcos, 79. Bairro Sol Nascente--Sao Paulo, SP, CEP.: 05283010 Brasil. E-mail: rossinicastro@yahoo.com

Caption: Figura 1. Helio Holanda Melo, Instrumentos do Seringueiro, 1983, pva sobre compensado 102, 5x162 cm. Acervo: Usina de Arte Joao Donato, Rio Branco--AC. Fonte: Fotografia de Talita Oliveira gentilmente cedida pelo IPHAN-ACRE, Brasil.

Caption: Figura 2. Helio Holanda Melo, O caminho do Seringueiro II, 1998, nanquim e sumos de folhas sobre papel cartao, 56 x 67 cm. Colecao Maria de Fatima Melo, Rio Branco (AC). Fonte: Fotografia de Talita Oliveira gentilmente cedida pelo IPHAN-ACRE, Brasil.

Caption: Figura 1. Helio Holanda Melo. Sem titulo, 1984, nanquim e sumo de folhas sobre cartolina, 38 x 52,5 cm. Colecao Museu da Borracha Governador Geraldo Mesquita, Rio Branco (AC). Fonte: Fotografia de Talita Oliveira gentilmente cedida pelo IPHAN-ACRE. Brasil.

Caption: Figura 2. Helio Holanda Melo, Expulsao dos seringueiros, 2000. Nanquim e sumos de folhas sobre papel cartao, 51 x 69 cm. Colecao Maria de Fatima Melo, Rio Branco (AC). Fonte: Fotografia de Talita Oliveira gentilmente cedida pelo IPHAN-ACRE, Brasil.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Stori, Norberto; Castro, Rossini de Araujo
Publication:Estudio
Article Type:Ensayo critico
Date:Apr 1, 2017
Words:1979
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