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Territoriality and identity in organizations: the case of Belo Horizonte's Central Market/Territorialidade e identidade nas organizacoes: o caso do Mercado Central de Belo Horizonte/ Territorialidad y identidad en las organizaciones: el caso del Mercado Central de Belo Horizonte.

1 INTRODUCAO

O objetivo deste artigo e analisar as relacoes entre territorialidade e identidade no ambiente organizacional, avancando na perspectiva de identidade quanto ao que e distintivo, duradouro e central numa organizacao. Para tanto, foi tomado como objeto de estudo o Mercado Central de Belo Horizonte, lugar de multiplas praticas--de boemios, compradores, frequentadores e turistas--em que a cultura mineira se apresenta em diversas nuancas. Conhecido como "a vitrine de Minas Gerais" ou como "o piao de Belo Horizonte", trata-se de um espaco singular, ou um caso polar, nos termos de Eisenhardt (1989), adequado, portanto, para a observacao de fenomenos complexos como os aqui tratados.

Os mercados tem sido objeto de crescente atencao da comunidade academica da area de administracao em geral e dos estudos organizacionais em particular. A partir de diferentes pontos de vista, como as trocas economicas e simbolicas (Castilhos & Cavedon, 2003), a cultura organizacional (Cavedon, Fantinel, Avila, & Valadao, 2010; Lima & Carrieri, 2007; Cavedon, 2002), a estrategia (Leite-da-Silva, 2007) ou a institucionalizacao (Pimentel, Soares, Lima, Mendonca, & Leite-da-Silva, 2006), o que se percebe de comum, independentemente do enfoque, e que tais organizacoes, por se constituirem instancias polifonicas tanto em termos discursivos quanto organizacionais, se sedimentam como objeto de estudos que se voltam a sua dinamica complexa e peculiar.

No que se refere a aspectos identitarios, pretende-se, neste trabalho, avancar na perspectiva proposta por Albert e Whetten (1985) sobre identidade quanto ao que e distintivo, duradouro e central numa organizacao, levando-a a percepcao dos membros em relacao ao territorio em que se apoiam suas praticas. Conforme sera detalhadamente discutido adiante, a distintividade se refere aos elementos proprios da organizacao, por meio dos quais ela se diferencia das demais. Distintivo, assim, e o espaco pessoal (Fischer, 1994), definido como uma aura que envolve diretamente o individuo e, se penetrada, ativa uma reacao de defesa, circunscrevendo-se a fronteiras invisiveis. Trata-se, assim, de uma zona emocional, socioafetiva, interligada ao conceito de intimidade e privatizacao. A ideia de continuidade, por sua vez, remete a perpetuidade temporal, a caracteristicas estaveis no tempo, ao passo que a centralidade e vista como a essencia da organizacao.

Neste texto, o foco de analise gira em torno da competicao territorial entre tres fontes simbolicas do mercado: o comercio, a paroquia e o escritorio, respectivamente as instancias identitarias distintiva, duradoura e central. Tais elementos configuram o mercado, cada um a seu proprio modo, por meio de praticas territoriais especificas, o que apresenta inumeros desdobramentos simbolicos, particularmente visiveis sobre a identidade organizacional. Com base no pressuposto de que nao e possivel compreender um dado espaco sem observar o contexto que o circunda, os limites intangiveis que o distinguem e as visoes dos atores sociais sobre o proprio espaco que ocupam, serao percorridos aqui os corredores do Mercado Central e o interior de suas lojas, principalmente o segundo piso, onde se localizam a paroquia e o escritorio, para o entendimento das relacoes simbolicas dos administradores e comerciantes com o mercado.

No ambito do mercado, a distintividade se refere a esfera do comercio, a miscelanea de pequenos negocios que se amontoam no primeiro piso. E um elemento distintivo, ja que sua reproducao e impensada, constroi-se a partir das particularidades, da heterogeneidade e da profusao de cores, aromas e sabores que ali se situam. A paroquia constitui o aspecto duradouro, apresentando-se como um territorio atemporal, antagonico a efemeridade das praticas e que se encontra geograficamente acima do elemento distintivo, no segundo piso do mercado. Acima ainda da paroquia, no ponto mais alto do mercado, esta o escritorio, o elemento central, o territorio da administracao. Nao se trata estritamente de um estudo sobre identidade organizacional do mercado, embora isso seja alcancado por via adversa ao serem tomados emprestados conceitos dessa area. O que se insinua e saber que, ao se tratar de territorio que emprega definicoes do campo da identidade, fala-se de aspectos proximos. Entende-se, assim, o espaco como objeto social.

Alem desta introducao, este artigo apresenta mais oito secoes. A segunda e a terceira discutem as questoes do espaco e da territorialidade; a quarta secao, uma prelecao sobre as relacoes entre territorio e identidade, seguida por consideracoes metodologicas apresentadas na quinta secao. A sexta secao mostra a territorialidade como fonte de significados e embates multiplos no ambito do mercado central. As secoes seguintes discutem os territorios da paroquia e do escritorio como manifestacoes de simbolismo organizacional (Cavedon & Fachin, 2002), precedendo as consideracoes finais.

2 APROXIMACAO CONCEITUAL DA TERRITORIALIDADE: A POLITIZACAO NA ANALISE DO ESPACO

Os pesquisadores da area da psicologia ambiental foram os primeiros a se interessar pela socioespacialidade, uma perspectiva que conjuga o fisico, o biologico e o social, considerando o real um mosaico de partes de um todo que se comunicam, convertendo-se em acoes, tipificacoes e simbolismo de espacos apropriados; em outras palavras, territorios humanos (Brown, Lawrence, & Robinson, 2005). Nas palavras de Bourlegat (1999, p. 31),
   [...] os seres humanos, ao evoluirem como seres sociais, deram
   origem tanto a organizacoes coletivas de natureza material como
   espiritual, uma vez que o mundo interior e o mundo material dos
   individuos e das coletividades sempre interagiram de forma
   conjunta.


Assumida como um tema relevante pela geografia humana, a questao espacial ha muito foi politizada, descartando o senso comum que liga o espaco a aspectos apenas fisicos. Para os geografos, tratar do espaco apenas do ponto de vista geografico constitui uma imprecisao, uma vez que ele e permeado por existencias humanas que o reinventam a medida que o vivenciam. Da dinamica desse cotidiano social emergem disputas pela concepcao, pelo uso ou pela propriedade do espaco, o que endereca as relacoes de poder uma perspectiva fundamental. Mais preciso, assim, e discutir o territorio, ou seja, um elemento que, embora se relacione ao espaco, nao e por ele esgotado, sendo "o resultado de uma acao conduzida por um ator sintagmatico (ator que realiza um programa) em qualquer nivel. Ao se apropriar de um espaco, concreta ou abstratamente (por exemplo, pela representacao), o ator 'territorializa' o espaco" (Raffestin, 1993, p. 143).

Como os aspectos tratados nesta secao sao abordados principalmente no ambito da geografia, e oportuno fazer algumas distincoes teoricas entre termos e possibilidades teoricas, a fim de delimitar mais claramente em que ponto se situa a discussao aqui proposta. Em outras palavras, com o esclarecimento conceitual, procura-se situar a problematizacao, especialmente a relacionada a territorio e territorialidade, nos estudos organizacionais, de maneira a evitar o "transplante" de termos sem a devida contextualizacao.

As definicoes de espaco, lugar, territorio e territorialidade sao objetos de intenso debate entre os geografos, que, dependendo da orientacao--geografia fisica ou geografia humana--, encaram as problematicas relacionadas a eles de forma muito distinta. A respeito de espaco, Lefebvre (1991) sintetiza quatro conceitos principais. O primeiro toma o espaco como existente por si so, tal como tratado por Platao, Aristoteles, Kant e na matematica em geral. O segundo se refere ao espaco como produto da sociedade, conforme Durkheim, por exemplo. Ele tambem e tratado como instrumento politico-ideologico, sobretudo no contexto urbano, tal como discutido por Manuel Castells. Por fim, a posicao adotada pelo proprio Lefebvre (1991) e a de que o espaco e "socialmente produzido, apropriado e transformado pela sociedade" (Braga, 2007, p. 70). Essa perspectiva, mais proxima da geografia humana, por humanizar o espaco ao trata-lo como social, se torna mais proficua para os estudos organizacionais, uma vez que enseja a possibilidade de politizacao do espaco.

O conceito de lugar tambem assume conotacao social. Conforme Sasaki (2010, p. 115), "e considerado a base da existencia humana, atraves da experiencia e relacao direta e profunda com o mundo repleto de significados". Trata-se, portanto, de algo que se constitui a partir do relacionamento com o espaco, "mas nao se restringe a uma dimensao espacial ou imagem especifica, limitada. O espaco pode se tornar um lugar; e o lugar traduz lembrancas vivenciadas e compartilhadas" (Sasaki, 2010, p. 115). Em outras palavras, o espaco e apenas uma referencia sujeita a ressignificacao dos sujeitos, que atribuem sentidos nao necessariamente relacionados com a questao fisico-geografica.

O espaco geografico e produto, condicao e meio para a reproducao das relacoes sociais

[...] no sentido amplo de reproducao da sociedade, num determinado momento historico--um processo que se define como social e historico; o que significa que ha uma relacao necessaria entre espaco e sociedade que e o cenario que encaminha a analise (Carlos, 2001, p. 63).

Dessa forma, segundo Raffestin (1993, p. 161),
   [...] a territorialidade se inscreve no quadro da producao, da
   troca e do consumo das coisas. Conceber a territorialidade como uma
   simples ligacao com o espaco seria fazer renascer um determinismo
   sem interesse. E sempre uma relacao, mesmo que diferenciada, com
   outros atores.


O espaco produzido e resultado da acao humana sobre a superficie terrestre que expressa, a cada momento, as relacoes sociais que lhe deram origem. Nesse sentido, de acordo com Moraes (2002, p. 15),
   [...] a paisagem manifesta a historicidade do desenvolvimento
   humano, associando objetos fixados ao solo e geneticamente datados.
   Tais objetos exprimem a espacialidade de organizacoes
   socio-politicas especificas e se articulam sempre numa
   funcionalidade do presente.


Nesse processo,

[...] o espaco produzido enquanto produto, meio e condicao da reproducao entra em conflito com suas proprias condicoes, com seus proprios resultados, e aqui que ele e ocupado, controlado e orientado em direcao ao reprodutivel, se realiza tambem, realizando o nao-reprodutivel (Carlos, 2001, p. 73).

Isso significa que a discussao em torno dos aspectos territoriais se situa alem da fronteira geografico-espacial propriamente dita. A rigor, territorialidade se refere a uma producao a partir do espaco, que se da em um campo de poder. Produzir uma representacao do espaco, dessa forma,

[...] ja e uma apropriacao, uma empresa, um controle portanto, mesmo se isso permanece nos limites de um conhecimento. Qualquer projeto no espaco que e expresso por uma representacao revela a imagem desejada de um territorio, de um local de relacoes (Raffestin, 1993, p. 144).

Nao basta, assim, apenas constatar a presenca de atores e de visoes diferenciadas compartilhando o mesmo contexto. E territorial, nesse sentido, qualquer interface humana assentada sobre um dado espaco, porque se refere, essencialmente, a uma apropriacao antes de qualquer coisa politica do lugar. Esse lugar termina por ser "produzido" socialmente pelos grupos que o compoem, respondendo as multiplas representacoes sociais dos diretamente envolvidos com aquele local. Um mesmo espaco, assim, e territorializado--no sentido de apropriado, ressignificado e produzido--dependendo do grupo de referencia que dele se apropria e o ocupa geografica e identitariamente.

Toda a pratica social, ainda que embrionaria, e induzida por um sistema de acoes ou de comportamentos, e se traduz "por uma 'producao territorial' que faz intervir tessitura, no e rede. E interessante destacar a esse respeito que nenhuma sociedade, por mais elementar que seja, escapa a necessidade de organizar o campo operatorio de sua acao" (Raffestin, 1993, p. 150). Nesse sentido, de acordo com Trindade (2001, p. 155), "os territorios podem ser encarados como "mediacoes entre a relacao dos agentes e o espaco", uma vez que "registram acoes que o controlam, garantindo a espacialidade dos interesses de um ou de varios sujeitos politicamente definidos" [grifo nosso]. Nao e neutro, assim, o processo de ocupacao de um dado espaco. Desde o principio, ele atende a uma necessidade tambem social de "deixar marcas", tanto simbolicamente inteligiveis aos membros do grupo capazes de decodifica-los quanto permeadas de aspectos obscuros a individuos de outros grupos sociais. O importante nao e tanto fazer-se entender, mas fazer-se perceber como presente naquele espaco.

Qualquer espaco, assim, se submete ao plano mais amplo da sociedade, nao existindo apenas como uma referencia fisico-geografica. Isso considera a perspectiva do habitante, para quem "o espaco se reproduz enquanto lugar onde se desenrola a vida em todas as suas dimensoes--o habitar e tudo que ele implica e/ou revela" (Carlos, 2001, p. 65). A territorialidade, assim, reflete distintos aspectos do que e vivido em um dado territorio pelos membros de uma coletividade. Segundo Raffestin (1993, p. 158), "os homens 'vivem', ao mesmo tempo, o processo territorial e o produto territorial por intermedio de um sistema de relacoes existenciais e/ou produtivistas".

A territorialidade de um espaco fisico tem mostrado engendrar um senso de pertencimento a grupos sociais (Brown et al., 2005). Mas nao se trata, ao contrario do que pode eventualmente parecer a um primeiro olhar, de um processo apenas relacionado a socializacao. Existem dimensoes materiais que se opoem dialeticamente a perspectiva social no que se refere ao espaco. Nesse sentido, "o espaco criado (ao contrario do natural) e um fruto do trabalho que articula teleologia e causalidade. Esta ultima implica a sujeicao da vontade a materialidade do mundo externo ao homem" (Moraes, 2002, p. 22). A territorialidade constitui, conforme Raffestin (1993, p. 160), uma especie de "soma" das "relacoes mantidas por um sujeito com o seu meio. Isso dito, nao se trata de uma soma matematica, mas de uma totalidade de relacoes biossociais em interacao", as quais podem se constituir como "mediatizadas, simetricas ou dissimetricas com as exterioridades" (Raffestin, 1993, p. 161). O que vai definir como tais relacoes se concretizarao e a dinamica dos grupos que ocupam aquele meio, politizando o lugar e a ele associando uma identidade a qual se vincular.

3 IDENTIDADE NAS ORGANIZACOES

Como se refere a um espaco apropriado, um territorio pode fazer parte de uma organizacao, o que endereca aos estudos organizacionais elementos para integrar a discussao. E possivel, assim, em uma organizacao qualquer, estabelecer uma via dinamica de mao dupla, com um fluxo continuo entre as extremidades --atores sociais e territorio. De um lado, objetivacoes brotando de individuos isolados ou em coletividade, e, de outro, subjetividades emergindo do lugar, um processo em que se escrevem historias, fincam-se estacas, o espaco se transforma em territorio por meio de diversos aspectos. Isso se concretiza "numa sociedade tornada competitiva pelos valores que erigiu como dogmas, [em que] o consumo e verdadeiro opio, cujos templos modernos sao os shopping centers e os supermercados, alias construidos a feicao das catedrais" (Santos, 1987, p. 34). Nesse contexto, "uma nova religiao e elaborada dentro das empresas capitalistas modernas, religiao que assegura a continuidade das religioes tradicionais falidas" (Pages et al., 1987, p. 75).

O conceito de identidade se presta, como poucos nos estudos organizacionais, a multiplas e variadas possibilidades de desenvolvimento. Conforme Fernandes, Marques e Carrieri (2010, p. 57), "de nucleo estavel, autonomo e permanente, que emergia desde o nascimento, a identidade passou a ser considerada um fenomeno social, construido a partir das interacoes do individuo com o outro, com a cultura, com a coletividade". De acordo com Berger e Luckmann (2005), a identidade, por um lado, encontra-se em relacao dialetica com a sociedade, em que e formada, conservada ou remodelada por meio de processos sociais determinados pela estrutura social, e, por outro, reage sobre esta, na tentativa de mante-la ou modifica-la. O individuo se desenvolve e constroi a sua propria identidade em sua relacao com outros individuos e, tambem, por sua insercao na organizacao (Saraiva & Duarte, 2010).

A pluralidade dos conceitos relacionados a identidade chega eventualmente a constituir um problema, tal a gama de possibilidades. Aqui se fara uso de uma das perspectivas possiveis para organizar o argumento de forma mais clara para os leitores, a de Carrieri, Paula e Davel (2008). Para esses autores, a identidade pode ser multipla, fluida ou autonoma. No que tange a multiplicidade identitaria, autores como Alvesson (1998), Dutton e Dukerich (1991) e Balmer e Wilson (1998) colocam que a perspectiva pos-estruturalista catapultou estudos com essa posicao ao status de mais difundidos no ambito dos estudos organizacionais. Todavia, uma questao problematica nessa perspectiva e cara neste artigo e que, politicamente, o pos-estruturalismo fragmenta excessivamente as identidades e os interesses de forma que dificulta que se enxergue a organizacao como projeto social--ainda que nao se trate de algo homogeneo.

Uma segunda possibilidade, a de identidade fluida, confere a possibilidade de mudanca identitaria como algo incorporado, isto e, modificam-se as referencias identitarias, os processos identificatorios e como os individuos se enxergam. Autores como Bauman (2005) tomam a fluidez como uma caracteristica dos tempos atuais, de forma que nao faria sentido pensar em identidades fixas em qualquer nivel, ja que a crescente imaterialidade do trabalho sugere que a identificacao, e nao a identidade, deve ser considerada nesse quadro. Essa perspectiva tambem traz problemas no que tange aos argumentos deste artigo porque confere as mudancas um peso maior do que a estabilidade. Nao que se negue que a velocidade contemporanea altere as configuracoes sociais, mas parece mesmo um exagero imaginar que a mudanca constitui algo tao central que a identidade e secundaria para os sujeitos, que apenas se "identificam" conforme o momento, tal como se estivessem em um supermercado de facetas.

A terceira possibilidade levantada por Carrieri et al. (2008) refere-se ao fato de a identidade ser autonoma. Para eles, essa perspectiva se justifica porque "o individuo deve se reconhecer como sujeito e nao como mero ator organizacional, ou seja, sua possibilidade de agir em funcao de sua subjetividade depende dele conseguir transcender o desempenho de papeis" (Carrieri et al., 2008, p. 136). Em outras palavras, aqui se considera um nucleo mais estavel de identidade que se relaciona a um processo mais amplo do que o de identificacao. Mais do que isso, essa visao implica o individuo "existir enquanto sujeito, independente de pertencer ou nao a uma coletividade" (Carrieri et al., 2008, p. 136). Todavia, nao se trata de um processo sem embates, uma vez que a organizacao tenta conferir um sentido identitario a existencia em um dado contexto organizacional, o que pode ser o ponto de partida para resistencias identitarias de toda ordem.

Para Albert e Whetten (1985), o conceito de identidade organizacional e usado tanto para definir certos aspectos da organizacao quanto para caracterizar as organizacoes na visao delas proprias. E composto por tres elementos. O primeiro deles e que a identidade e algo central. Refere-se a algo essencial de acordo com um ponto de vista especifico, legitimo em termos organizacionais, conferindo importancia a algumas caracteristicas em detrimento de outras. Nao ha, assim, qualquer tipo de lista universal de aspectos centrais da organizacao, ja que isso depende do que e importante para aquele contexto organizacional em particular. A distintividade e o segundo elemento do conceito. Diz respeito a elementos que tornam a organizacao unica. Como o que e central pode ser comum a mais de uma organizacao, o que e distintivo complementa o aspecto anterior fornecendo uma fonte de diferenciacao de outras organizacoes. A referencia identitaria e unica, fazendo sentido naquele contexto especifico e orientando as relacoes de outras entidades com a organizacao. Por fim, a identidade organizacional e duradoura, circunscrevendo-se aos aspectos temporais relacionados a perpetuidade tanto dos tracos centrais quanto dos distintivos da identidade organizacional. A estabilidade implicita nesse elemento estabelece certo nivel de certeza sobre as praticas da organizacao, que confere horizontes historicamente definidos para as suas acoes (Albert & Whetten, 1985).

No ambito territorial, a identidade conceitualmente se reposiciona porque passa a situar a nocao de quem se e em um espaco especifico, disputado por distintos atores e sujeito a multiplas influencias. Esse espaco so se constitui em um territorio politizado, multiplamente povoado e disputado, precisamente por conta das diferencas de perspectivas sobre o mesmo espaco, e nao devido a identidades multiplas (Saraiva & Carrieri, 2010). As diferencas simbolicas so existem a partir do momento em que compartilham de uma unicidade sobre o lugar (Spink, 2001) em que se encontram. E, nesse sentido, caminha-se mais proximo de uma perspectiva moderna do que pos-moderna de analise organizacional. As diferencas so existem porque se referem a uma experiencia compartilhada sobre o mesmo lugar, que confere sentido as diferencas a partir de uma referencia comum. Nao e partindo do pressuposto de que ha multiplas identidades fragmentadas que se chega a captar a identidade organizacional de um territorio como o do Mercado Central de Belo Horizonte. Ainda que nao seja possivel enxergar apenas unicidade na identidade em um contexto organizacional, a identidade e algo mais referencial do que fragmentado.

4 TERRITORIALIDADE E IDENTIDADE, UMA RELACAO ALEM DO ESPACO

Quando se fala em lugar (Spink, 2001), isso tambem diz respeito

[...] as nocoes de significado, identidade e singularidade. O cotidiano do individuo e permeado por inumeros espacos/lugares que passamos, existem aqueles com os quais nos identificamos, nos reconhecemos e carregamos conosco o seu conteudo simbolico (Matos & Guimaraes, 2006, p. 280).

Moraes (2002) sugere que

[...] a organizacao dos lugares obedece a funcoes e necessidades da producao, que a disposicao de objetos responde a imperativos tecnicos, que os padroes espaciais do capitalismo, por exemplo, revelam a ansia do lucro. Todavia, isso nao recobre a integralidade do processo (Moraes, 2002, p. 23).

O espaco, assim, e produzido, tendo em vista nao apenas a expressao de determinacoes

[...] economicas (ligadas a tecnologia, aos materiais e as funcoes), mas tambem todo um rol de condicionantes (manifestos na tradicao, na simbologia, no estilo etc.), e que explica-la redunda em articular essa rede de mediacoes no movimento historico-concreto (Moraes, 2002, p. 24).

Isso insere uma visao politica e, ao mesmo tempo, historica nessa perspectiva. Numa sociedade fundada sobre a troca, a apropriacao do espaco, ele proprio produzido como mercadoria, liga-se, cada vez mais, a forma mercadoria. No processo, o espaco produzido serve cada vez mais as necessidades da acumulacao. Por sua vez, as

[...] relacoes de producao que engendram as atividades de reparticao e consumo, se realizam sob a egide da liberdade e igualdade, sob a lei do reprodutivel, do repetitivo, anulando as diferencas no espaco e no tempo, destruindo a natureza e o tempo social (Carlos, 2001, p. 66).

Territorios sao espacos apropriados, de direito, contidos e legitimados, e controlados por um grupo ou uma instituicao. O conceito de territorio se relaciona a visao de propriedade que uma pessoa ou grupo possui--uma base fisica sobre a qual a dimensao afetiva se desenvolve--, vivenciada por praticas simbolicas que tipificam uma afetividade espacial singular. Configura-se, assim, como o espaco revestido da dimensao politica, afetiva ou ambas (Correa, 2002), sendo a apropriacao um "processo criativo de identidade que favorece a reunificacao de si nos conjuntos sociais que tem a tendencia de dispersa-la" (Fischer, 1994, p. 89). O isolamento do individuo originou a consciencia da posse, que tornou a apropriacao um processo por meio do qual se exerce a dominacao sobre os lugares (Silva, 2002).

O conceito de territorialidade, assim, esta ligado ao de identidade porque o territorio pressupoe manifestacoes identitarias. A territorialidade e "a qualidade subjetiva do grupo social ou do individuo que lhe permite, com base em imagens, representacoes e projetos, tomar consciencia de seu espaco de vida" (Cara, 2002, p. 261). O espaco, para Fischer (1994, p. 84), "nos informa sobre a maneira como o trabalhador aceita, utiliza, investe ou rejeita seu trabalho", sendo este entendido como ligacao a partir da qual tenta recriar sua identidade e, da mesma forma, tornar o espaco um reflexo de si mesmo. A medida que sao permeados pela identidade, os espacos e seus desdobramentos se convertem em territorios que se fundem e em realidade que se constroi.

A construcao do cotidiano dos individuos se materializa no entorno de coisas que apresentam valor simbolico. Fischer (1994, p. 85) entende o territorio "como uma dimensao interativa do comportamento humano em dado contexto". Os territorios revelam o que os individuos sao como membros de uma sociedade. Conhecer o territorio, em primeiro lugar, e, como espaco apropriado, "conhecer a si mesmo, nas partes e no todo. Em segundo, conhecer o territorio e conhecer o outro" (Silva, 2002, p. 259).

Um espaco, assim, nao apenas se transforma em varios lugares por conta de aspectos simbolicos. Para alem disso, os proprios lugares se metamorfoseiam em territorios a medida que sao eivados por interesses politicos, por posicoes e disputas tanto pelo uso quanto, principalmente, pela luta pela legitimacao do uso desse territorio (Staub & Bulgacov, 2000). No ambito das organizacoes, percebe-se a dinamica entre territorios e identidades a medida que os territorios contam historias nao apenas de apropriacao de lugares, mas tambem de caracteristicas com as quais os sujeitos se identificam, o que os leva a configurar suas proprias identidades. Nao e raro, por exemplo, que se observem, numa organizacao, profissionais se engajando em disputas entre as areas nas quais estao alocados, mesmo que isso eventualmente chegue a prejudicar a organizacao como um todo. "Ser" financeiro, recursos humanos ou marketing, por exemplo, leva a que identidades sejam forjadas nao em funcao da finalidade da organizacao, mas em funcao de territorios tecidos na dinamica organizacional.

Isso sugere que as relacoes entre identidade e territorialidade sao permeadas por constantes embates politicos no sentido nao apenas de diferenciar os territorios em termos de status ou atribuicoes, mas ainda de, por emprestimo, conferir tais atributos as identidades associadas a tais territorios. Com isso, verifica-se que as competicoes simbolicas que se observam nada mais traduzem do que a necessidade de que se estabelecam desigualdades de poder a partir de pertencimentos organizacionais, no sentido discutido por Pollini (2005). Gasparini (2010), no mesmo sentido, aponta que a nocao de pertencimento se relaciona a um sentido amplo de identidade e a um sentido especifico de comunidade, o que e muito adequado para a analise de organizacoes como mercados municipais, conforme sera apresentado na proxima secao.

5 METODOLOGIA

Para a realizacao deste estudo, buscou-se o caminho da pesquisa qualitativa, uma vez que se pretendia uma aproximacao da essencia dos fenomenos observados. Isso compreendia construir a pesquisa a luz da flexibilidade propria dessa perspectiva. Embora a vertente francesa da analise do discurso tenha sido um pilar metodologico principalmente para a analise das entrevistas, a execucao da pesquisa nao se reduziu a questoes linguisticas. Extrapolando o discurso, foi importante, na construcao deste estudo, o "olhar" in momentum da interacao entre espaco e ator social, importante para o que aqui se buscava compreender, manifesto pela observacao direta, pela elaboracao de diarios de campo e pela realizacao de entrevistas semiestruturadas. Optou-se por tal pluralidade metodologica porque, na pesquisa qualitativa, o pesquisador tem a liberdade de escolher, combinar e ate criar as praticas e os metodos de pesquisa que se mostrem mais adequados ao objeto e ao contexto que se deseja estudar (Denzin & Lincoln, 1994).

Em um primeiro momento, foi realizada uma pesquisa documental nos orgaos da prefeitura de Belo Horizonte e na secretaria do Mercado Central para colher informacoes sobre o objeto de estudo. Alem disso, um mapeamento foi feito nas faculdades locais para localizar os trabalhos academicos ja publicados sobre esse objeto. Ao final dessa fase, reunido todo o material coletado, tornou-se possivel uma delimitacao do mercado nos seus aspectos mais gerais. No segundo momento, partiu-se para a realizacao de entrevistas, levadas a cabo em um periodo de dois meses. Durante essa fase, elaborou-se um diario de campo, em que inumeros elementos nao passiveis de captacao por meio das entrevistas foram registrados.

Do total de atores sociais envolvidos com o mercado, abordaram-se 40 pessoas, entre os mais antigos comerciantes e os administradores da instituicao. As entrevistas, em profundidade (Goldenberg, 2002), giraram em torno de roteiro semiestruturado, que, ao contemplar aspectos rotineiros, direta ou indiretamente, visava explicitar a "visao de mundo" sobre o mercado. Apos a transcricao, as entrevistas foram tratadas pela vertente francesa da tecnica de analise do discurso, tendo sido os depoimentos coletados "recortados" de acordo com sua aderencia a percursos semanticos semelhantes. Com base na selecao lexical, nas relacoes entre o explicito e o implicito, e no silenciamento, foram identificadas nuancas e revelacoes de posicoes ideologicas dos atores sociais, tendo a linguagem funcionado como veiculo de ideologias, a visao de mundo de determinada classe social (Fiorin, 2004, p. 6).

A partir dos discursos dos comerciantes, foram levantados percursos semanticos intitulados "o territorio do comercio", "o territorio da paroquia" e "o territorio do escritorio". O primeiro trata de questoes como a percepcao dos atores sobre o espaco onde trabalham (o Mercado Central como um todo e a loja em particular), os arranjos espaciais (tamanho do comercio), os entraves no processo de apropriacao do espaco sofrido por alguns comerciantes, as intersecoes entre os elementos distintivo e central (Albert & Whetten, 1985). No segundo, analisa-se o espaco da paroquia, destacando as relacoes entre comercio e religiao, onde ocorrem sobreposicoes entre o elemento distintivo e o duradouro. Por fim, em relacao ao espaco do escritorio, questoes como a participacao politica dos atores e as regras que geram discordia e equilibrio no mercado polarizam os discursos dos grupos entre os elementos central e o distintivo.

Em termos metodologicos, a pesquisa teve como limitacao principalmente as dificuldades de lidar com uma organizacao de organizacoes, isto e, uma organizacao maior, a qual se observava--o Mercado Central de Belo Horizonte--, e seus componentes, que tambem sao organizacoes. A heterogeneidade entre os negocios causou, em um primeiro momento, dificuldades relacionadas as entrevistas, uma vez que integram o mercado tanto vendedores de hortifrutigranjeiros quanto artesaos, por exemplo, uma miriade de possibilidades de territorios que poderiam ser incompativeis. Para resolver as dificuldades e diferencas, adotou-se um foco mais simbolico do que economico, que mais aproxima do que afasta as diferentes organizacoes. Isso permitiu que o negocio em si fosse menos importante do que o fato de os comerciantes se perceberem como parte de um empreendimento maior, um dos simbolos de uma cidade. Esse foco foi importante na construcao de todo o estudo, conforme as proximas secoes.

6 MATERIALIDADE E SIMBOLISMO NO MERCADO CENTRAL DE BELO HORIZONTE

A visualizacao da materialidade fisica (Fonseca, 1997) do Mercado Central conduz a reflexoes sugestivas, a partir das quais se pode ampliar a compreensao do espaco. O mercado foi erguido sobre os gramados do antigo campo do America Futebol Clube, num quadrilatero compreendido pelas ruas dos Goitacazes, Curitiba, Santa Catarina e Avenida Paraopeba (atual Avenida Augusto de Lima), nas proximidades da Praca Raul Soares, ponto central da cidade de Belo Horizonte. O edificio e, ao mesmo tempo, imponente, rustico e tradicional. Suas paredes laterais sao formadas por tijolos do tipo cobogo, elemento vazado de ceramica, empregado na construcao de paredes, possibilitando que vento e claridade escoem para dentro do local. Adentrando no edificio por uma de suas oito entradas, nota-se que nenhuma delas e igual a outra: umas sao escadas, outras rampas, a que esta em frente ao Minascentro encontra-se ao nivel da rua. Do lado de dentro, aproximadamente 400 lojas dos mais variados tamanhos compoem um verdadeiro mosaico:

O espaco era multifacetado, labirintico, demasiadamente humano, ornamentado pelas mais diversas mercadorias. [...] O ambiente era rico em simbolos, nao tinha um cheiro caracteristico, era, ao contrario, uma profusao de odores (notas de campo, 29 ago.).

A diversidade reina e a heterogeneidade nao se restringe as mercadorias: estende-se tambem a estrutura fisica do local. No nivel da rua, no primeiro piso, encontram-se as lojas, divididas em aproximadamente 400 comercios das mais diversas especies. Ali se opera a vida pratica, faz-se o trabalho e colhem-se os frutos, numa dinamica organizacional plural e polifonica:

Ha areas do mercado muito movimentadas e ha cantos quase desertos onde poucos vao. As partes movimentadas sao a Praca do Abacaxi (onde se vende pedacos de abacaxi), o primeiro corredor perpendicular a entrada pela Augusto de Lima (onde ha um aglomerado de lojas que vendem suplementos alimentares, juntamente com as lojas de raizes), os corredores onde ficam a ala dos queijos e dos bares, a parte dos animais, e o "miolo" do mercado, ou, melhor dizendo, a area do pirulito. O movimento nessas areas e intenso e os comerciantes estao sempre em movimento (notas de campo, 8 set.).

Subindo por uma escada ou por um elevador panoramico, chega-se ao segundo piso, que nao e constituido por uma laje de concreto continua, mas por pistas em que os carros estacionam. Nesse mesmo patamar, esta a paroquia, simbolo de fe, e um territorio distinto, nos termos de Albert e Whetten (1985) no interior do Mercado Central.

Inaugurado em 7 de setembro de 1929, o mercado, que naquela epoca era municipal em razao de ser um patrimonio da prefeitura de Belo Horizonte, foi idealizado para ser o centro de abastecimento da entao recem-planejada cidade. O dia 20 de junho de 1954 entra para a sua historia pela primeira comemoracao de Pascoa dos comerciantes, um movimento que se tornaria uma tradicao. Para a comemoracao, proposta pelos comerciantes, foi designado pela diocese um padre da Igreja de Sao Jose. Mas, como no mercado nao havia espaco proprio, as celebracoes ocorreram no atrio e nas escadarias da Secretaria de Saude, anteriormente Escola de Aperfeicoamento.

Dez anos depois, em razao de circunstancias de ordem politica e financeira, o mercado foi privatizado, e seus compradores foram seus proprios comerciantes (Pimentel et al., 2006). Calcado no estatuto social da recem-criada associacao, agora, com uma nova proposta administrativa, passava a ser Mercado Central. Enquanto isso, alem das comemoracoes de Pascoa, passaram a ser realizadas missas dominicais, permitindo que familiares e amigos se envolvessem mais com o ambiente do mercado. Em 1972, uma comerciante de frutas e verduras, em agradecimento a Virgem de Fatima por uma graca alcancada, doou uma imagem de Nossa Senhora de Fatima, que acabou se tornando a padroeira do mercado, tendo sido construida para ela uma capela no estacionamento pela familia de outro comerciante. Pelo fluxo de visitantes e atividades desenvolvidas, a capela passou a categoria de paroquia, uma iniciativa dos capelaes.

O mercado muito se presta aos que fogem da urbanidade caotica das grandes cidades, comparando-se, em certo sentido, a um lar, o que e sustentado pelos depoimentos coletados, uma vez que esse espaco e, para muitos, uma forma de refugio do mundo exterior. Para isso contribui a possibilidade da experiencia religiosa proporcionada pela existencia da paroquia. Sua presenca, em um ambiente essencialmente comercial, reflete parte da dinamica simbolica do mercado, uma especie de contraponto entre o que se ganha na vida terrena e o que se destina aos valores atemporais. Isso nao quer dizer que os comerciantes sejam mais religiosos ou devotos do que outros individuos: simplesmente tem a necessidade de legitimar simbolicamente a materialidade das praticas que fomentam como recurso de sobrevivencia--residindo ai o universal sobre o local.

7 O TERRITORIO DO COMERCIO

Razao de ser de um mercado, equivocadamente se poderia pensar que o comercio nao se presta a representacoes sociais especificas alem das mais obviamente economicas (Castilhos & Cavedon, 2003). O primeiro trecho, entretanto, deste oferece uma ideia do "todo" e do "particular". No fragmento discursivo (01), o tema explicito e o do ambiente de trabalho comercial, territorio em que a rotina diaria se manifesta. Nesse sentido, o trecho destacado "aqui dentro" tanto pode ser compreendido como o Mercado Central no todo quanto como o comercio em particular do individuo. O discurso conjuga os dois aspectos porque eles nao sao dissociaveis, um existe dentro do outro, influenciando-se reciprocamente:

(01) Depois da nossa casa aqui e a nossa segunda casa porque a gente passa a maior parte do tempo aqui dentro (ee08).

Nesse trecho, destaca-se, ainda, a relacao espaco-tempo, associando o termo "casa", do destacado "aqui dentro". O Mercado Central e o seu comercio sao percebidos pelo entrevistado como sua "segunda casa". A palavra "casa" evoca atributos como lar, aconchego, familia, uniao, que sao sistematicamente invocados nas entrevistas como simbolos do mercado e do comercio em questao (DaMatta, 1991). Trata-se, pois, em termos de discurso, de implicito subentendido, de uma crenca compartilhada pelos comerciantes daquele lugar de uma forma em geral, visto que muitos dos entrevistados orgulhosamente se referem ao mercado como uma grande familia, representacao relativamente comum em mercados, conforme atestam outros estudos como os de Cavedon et al. (2010), realizado em Uberlandia e Porto Alegre, e Leite-da-Silva (2007), realizado em Vitoria. Nesse caso, o contraditorio e que nao se trata estritamente de uma relacao familiar--pelo menos nao no que diz respeito ao mercado como um todo. A harmonia implicita em um discurso que invoca o familiar deixa de fora elementos proprios da dinamica capitalista presente, em maior ou menor grau, no territorio do comercio.

Poder, conflito, dinheiro, lucro e outros aspectos proprios da territorialidade capitalista sao silenciados no discurso como se nao fizessem parte da dinamica de um espaco que e, na origem, comercial.

No trecho (02), o entrevistado revela que, a despeito do fato de a loja ser "pequena", ele foi "agregando varios segmentos" a ela. O tema em questao e, pela necessidade de justaposicao de mercadorias, o uso do espaco fisico que se tem para o comercio. Como a loja e pequena, a expansao do negocio deve ser de natureza funcional, nao fisica, com melhor aproveitamento espacial. O implicito subentendido no depoimento e que o entrevistado age dessa forma porque ha, no mercado, lojas maiores e, por isso mesmo, capazes de oferecer uma diversidade maior de produtos. Por serem amplas, essas lojas "exploram" pouco o espaco, ordenando cartesianamente as mercadorias, prezando por um conforto ambiental, tipico do comercio moderno, em que os espacos sao vagos, limpos de utensilios.

(02) Mas eu aprendi como a loja era pequena, e eu fui agregando varios segmentos. Eu aprendi a trabalhar com pouco espaco. E entao, como a loja nao me permitia ir expandindo para as laterais, eu aprendi e fui trabalhando as paredes. Fui trabalhando isto. E hoje a loja e cheia de tudo (ee21).

Do exposto, observa-se a heterogeneidade espacial do mercado no que se refere a sua distribuicao quantitativa e, por conseguinte, qualitativa: o tamanho das lojas varia de 3 [m.sup.2] a 30 [m.sup.2] ou mais, o que possibilita um arranjo de ocupacao de diversas proporcoes. O equilibrio entre os grandes e os pequenos estabelecimentos ocorre, em parte, por meio dessa compreensao do espaco, pois este e usado de forma distinta pelos diferentes atores sociais que o ocupam, o que e confirmado por outros estudos sobre mercados, como Leite-da-Silva (2007) e Cavedon (2002). Se o comercio e pequeno, cria-se a necessidade de "ir expandindo para as laterais", de ir "trabalhando as paredes", uma tipica estrategia de sobrevivencia nos dominios do mercado (Lima & Carrieri, 2007).

Nos trechos (03) e (04), os temas explicitos sao a aquisicao do espaco utilizado no Mercado Central e o posicionamento da administracao sobre o assunto. A relacao e conflituosa porque ha divergencia entre as partes. De um lado, um representante dos comerciantes deseja se apropriar do espaco. Do outro, a administracao, elemento central, exerce visivel influencia sobre o espaco dos comerciantes, explicita na fala do entrevistado que, como se reproduzisse uma ideologia, veicula, por meio da propria linguagem, o discurso do outro--a intertextualidade discursiva. Percebe-se que, nos discursos a seguir, sao apresentados dois posicionamentos ideologicos distintos:

(03) E neste intervalo o meu irmao quis a loja e pegou a loja da cooperativa. E eu fiquei sem loja e a cooperativa me pos numa loja la, emprestada. E de la eu vim para esta aqui e nesta estou ate hoje. Ela e da cooperativa [...]. Na epoca eu comprava ela, era 8 mil cruzeiros. Mas a cooperativa nao vendia. Nao vendemos a loja. Voce vai para a loja e vai para la e fica pagando o aluguel da loja (ee16).

(04) Se eles tivessem vendido era bem bom. Mas nao quiseram vender. Nao podia vender. Eu acho que nao queriam vender. E igual a esta tem outras ai, tem umas ali embaixo. Tem diversas lojas (ee06).

O conflito entre as partes acaba provocando um conflito interno no entrevistado, pois este oscila entre a ideologia maior, dominante, e implicitamente inexoravel, e a que possui dentro de si, implicitamente resistente. Esse conflito confirma os argumentos de Gasparini (2010) e Pollini (2005). Ora as aparencias fazem o entrevistado acreditar que "nao podia vender", ora sua compreensao dos fatos o faz crer que "nao queriam vender". Situacao que ocorre com outros comerciantes, como explicitado em "igual a esta tem outras ai".

No trecho (05), o elemento central, a administracao, atua conforme um conjunto das normas estabelecidas--o estatuto social do Mercado Central. A selecao lexical do termo mix, do fragmento "mix de lojas", reflete justamente a ideia aqui sustentada de compreender o espaco dos comerciantes como um elemento distintivo, isto e, dotado de uma mistura de caracteristicas, reflexo das varias influencias oriundas da polifonica cultura mineira (Castro, 1991).

(05) Nos temos um conselho de administracao que ele de acordo com o nosso estatuto ele tem a capacidade de filtrar os ramos que nos queremos e os que nao queremos. E entao se a gente ve que tem algum que pode comecar a prejudicar a sociedade nos podemos elimina-lo. Haja vista que para voce vir aqui fazer uma comercializacao antes de tudo, antes de voce ter a autorizacao, primeiro voce tem que passar pelo crivo deste conselho. E se nao for conveniente ao mix de lojas do mercado nos podemos veta-lo. Por exemplo, [para] bares ja tem uma restricao. Voce pode ver que e dificil voce ver um bar abrir aqui dentro do mercado. Porque hoje nao e interessante que haja uma incrementacao aqui dentro do mercado porque senao amanha so vai vir quem quer tomar cerveja. Deu para voce perceber?

Como forma de preservar a diversidade (comercial) do mercado, e possivel "filtrar os ramos", como forma de impedir a expansao desordenada de um mesmo segmento de comercio. A ideologia vigente valoriza a ampla diversidade de negocios no mercado: laticinios, artesanato, ferragens e utilidades domesticas, hortifrutigranjeiros, peixaria, aves e outros animais, bares e restaurantes, produtos naturais, artigos para festas, ervas e raizes, flora e peixes ornamentais, embalagens em geral, lanchonete, artigos religiosos, acougue, temperos, bebidas, sacaria e panos de pratos em geral, mercearia, tabacaria, barbearia, bancos, salao de beleza, produtos arabes, sementes, velas, discos e fitas etc. Nao se trata de um simples processo de impedimento de novos negocios, mas de uma efetiva visao estrategica (Lima & Carrieri, 2007) sobre como preservar a atratividade do Mercado Central aos olhos de seus consumidores. A pluralidade de possibilidades comerciais atrai diversos publicos ao mercado, que usufrui a sua presenca em negocios variados. Mas nao se pode desconsiderar o fato de que se trata de um jogo politico entre pessoas e negocios estabelecidos e ingressantes, que se traveste de estrategia organizacional (Pollini, 2005).

8 O TERRITORIO DA PAROQUIA

Tendo sido criada em funcao da religiosidade dos comerciantes na Pascoa de 1954, a paroquia e uma das fontes simbolicas do mercado, um elemento duradouro pelo que fornece e demanda dos que circulam em seu territorio. Nao ha duvidas de que se situa em um espaco essencialmente comercial; e que tal situacao se desdobra em um cotidiano negociado entre o comercio e a religiosidade. Nos trechos (06) e (07), o tema implicito subentendido e a relacao dialetica entre dois grupos: o majoritario (comercio) e o minoritario (religiosidade).

(06) O pessoal vem para a missa e depois desce para ca para comprar mercadoria (een).

(07) As pessoas mais velhas gostam de ir a missa. E entao eles vem a missa cedo e depois ficam aqui no mercado passeando, tomando um cafezinho (ee18).

No trecho (06), o termo explicito "missa" se refere as cerimonias dominicais que ocorrem na paroquia do mercado. Nesse trecho, o entrevistado, ao utilizar o conectivo "e" entre a primeira e a segunda oracao, separa-as e as interpoe como uma ligacao causal, revelando, pelos meandros desse discurso, uma formacao ideologica que implicitamente entende ser funcao da missa atrair fieis que tambem sao potenciais consumidores, uma especie de instrumentalizacao da missa como experiencia substantiva, como tambem abordado por Cedola (2004). O meio e a "missa", e o fim, a venda da "mercadoria". A frequencia a missa pode levar, assim, ao consumo dos produtos do Mercado Central. Tal ideia e reforcada no trecho (07), quando se exemplifica uma das possiveis trajetorias dos que frequentam a missa: apos o culto, eles "ficam aqui no mercado passeando, tomando um cafezinho". E curioso esse tipo de apropriacao de um elemento duradouro como a religiao pelos comerciantes.

O fragmento discursivo (08) se refere aos frequentadores do mercado. Percebe-se, no discurso, uma contradicao, a utilizacao da estrategia de silenciamento, pois, embora o entrevistado afirme que se faz a missa "para os comerciantes", os horarios de funcionamento do comercio e da missa sao os mesmos e, portanto, incompativeis. Nao existem, assim, condicoes objetivas para que os comerciantes usufruam a missa, que e, na verdade, dirigida a fieis nao comerciantes, os clientes dos produtos do Mercado Central. E uma especie de "servico adicional", um fator de atratividade para os fieis, clientes em potencial das lojas do mercado.

(08) A maioria era catolico. Hoje a gente ainda tem muitos catolicos no mercado. A gente faz a missa nos domingos, faz para os comerciantes, mas mais sao os vizinhos em volta do mercado que vem (ee03).

A visao comercial se impoe. Porem, nao sem criticas de um grupo minoritario, manifestas nos fragmentos discursivos (09) e (10). Instaura-se a controversia pela interposicao inicial do termo "apesar", que segue sendo robustecido por "eu nao sou muito a favor", devendo-se notar um "nao" novamente interposto ao final da frase, que e usado para nao deixar margem de duvida quanto ao posicionamento. A justificativa encontra-se na frase seguinte do mesmo trecho, na qual se destaca o termo "mais", que explicita os verdadeiros fins que partilha esse grupo, qual seja, de que a paroquia sirva "mais" aos comerciantes.

(09) Apesar de ser catolica, eu nao sou muito a favor da capela nao. Porque a capela eu acho que ela tinha que servir mais ao comerciante (ee 12).

O discurso dessas minorias se apoia num raciocinio logico, ja anteriormente anunciado, e que desce aqui as minucias, como se encontra explicitado no fragmento "Eu abro a minha loja as 7 horas da manha. A missa e as 7 horas da manha". O entrevistado (ee12), ao dizer "Que hora que eu vou poder ir na missa?", explicitamente indica que desejava ir a missa. A seguir, ele reclama da situacao: "Voce nao pode nem ir a missa". E justifica-se: "Voce nao pode largar a sua loja aqui e ir la". Sentindo-se menor do que as estruturas, o entrevistado admite para si mesmo que "nao tem jeito", isto e, como se nao houvesse arranjo que pudesse harmonizar essas duas realidades.

(10) Eu abro a minha loja as 7 horas da manha. A missa e as 7 horas da manha. Que hora que eu vou poder ir na missa? [...] Voce nao pode nem ir a missa. Voce nao pode largar a sua loja aqui e ir la. Nao tem jeito (ee12).

Finalizando esse percurso, o fragmento discursivo (11) apresenta o que simboliza a paroquia para o Mercado Central. Na expressao "coisa rara", ha um implicito subentendido de que a paroquia possui um grande valor, algo que nao encontra paralelo na cidade.

(11) Esta procissao da a volta nos corredores do mercado e depois chega a capela onde e feita a coroacao de Nossa Senhora de Fatima. Isto ja e uma coisa rara em Belo Horizonte. E a gente quer manter isto em Belo Horizonte. E entao eu nao considero ela como um fato diferente que tenha mudado. Isto esta incluso ao mercado. E uma coisa mistica do mercado. Vem ai de 500 a mil pessoas ai das vizinhancas para a procissao (ee09).

Da mesma forma, ao enunciar "a gente quer manter isto", o implicito pressuposto e de que nao se pretende acabar com a paroquia, que ha interesse em que ela perdure. Possivelmente porque, conforme a selecao lexical do entrevistado, ela esta "incluso ao mercado", transcendendo sua materialidade economica em aspectos intangiveis, simbolicos, atemporais.

9 O TERRITORIO DO ESCRITORIO

No segundo piso e acima da paroquia, situa-se o escritorio, outra fonte simbolica do Mercado Central de Belo Horizonte. Nesse territorio, em que se concentra a administracao do espaco como um todo, verifica-se uma dinamica simbolica peculiar que se apropria de aspectos ditos "racionais" para legitimar elementos fora dessa esfera. Nos fragmentos discursivos (12) e (13), surge explicitamente o tema da participacao politica nas questoes do mercado:

(12) E outra coisa que a gente sente por ser nova aqui. Nova no sentido de nao poder mexer la em cima [...]. Eu, por exemplo, eu nao posso ir para o conselho, porque eu sou inventariante. Aqui e de inventariante [...]. A partir do momento que eles derem a divisao, ai, se eu tiver nem que seja 10% da minha cota, ai eu posso (ee12).

O trecho "nao poder mexer la em cima" deixa implicitamente subentendido que a senioridade e um criterio de inclusao democratica na dinamica territorial (Staub & Bulgacov, 2000). So quem nao e "novo" no mercado, quem e "do ramo" e "da casa" pode "mexer la em cima". A selecao lexical "la em cima" faz referencia ao mesmo tempo fisica (ao proprio espaco) e simbolica (ao poder), uma vez que o escritorio fica no segundo piso e os comercios localizam-se no primeiro. Ve-se que ha limitacoes a pratica democratica nesse ambiente, o que e tema do fragmento discursivo (13):

(13) Eu nao posso votar. Porque e so para dono da loja. Do imovel. O que e raro. Por exemplo, aqui e alugado. Aqui e alugado. Muita loja alugada. E aluga tres lojas seguidas. Ai quem vem sao os proprietarios (ee12).

O contexto em que o entrevistado se insere somente permite participacao politica de quem e "dono de loja", o que se explicita em "se eu tiver nem que seja 10% da minha cota, ai eu posso". E uma situacao relativamente comum no ambito do mercado a nao participacao nas questoes politicas, pois, a despeito de ali trabalharem ali uma vida inteira, muitos comerciantes nao podem da administracao participar. Esse tipo de segregacao da rotina politica, em um ambiente composto por pequenos negocios, reproduz a ideologia capitalista no espaco do Mercado Central, onde sao necessarios trabalhadores produtivos (e preferencialmente silenciosos) e nao cidadaos (Saraiva & Irigaray, 2011). Despolitizam-se as relacoes entre economia e administracao nessa organizacao da mesma forma como ocorre em outros contextos organizacionais.

Ainda na questao da territorialidade politica, no trecho (14), o discurso veiculado pelo entrevistado e de distanciamento, de isolamento nao apenas em relacao as reunioes decisorias do Conselho, como tambem em relacao ao mercado como um todo, perceptivel no fragmento discursivo "e o pessoal do mercado".

(14) E quem esta la em cima, quem mexe com diretoria, com os associados, com isto e o pessoal do mercado [...] tem as reunioes la em cima no auditorio do mercado. Eles se reunem la e tal (ee01).

O individuo aqui se mostra alienado tanto porque percebe as coisas de forma parcial, da maneira que lhe e permitido ver pelo tipo de contexto que lhe e apresentado como politicamente "aceitavel" no Mercado Central, quanto porque o produto de seu trabalho coletivo ao longo de anos se torna algo estranho a ele proprio, ja que dele nao se apropria como um capitalista. Nao e de surpreender a presenca da alienacao, posto que o mercado seja um territorio capitalista; todavia, surpreende que, em pequenos negocios, essa faceta capitalista se evidencie, tal como na grande empresa industrial.

O trecho (15) apresenta a influencia do escritorio nas atividades-fim do mercado, na forma de limitacoes nao quanto as vendas, mas em razao do tipo de comercio que o comprador pretende empreender no mercado, como se explicita no fragmento "eu tenho que passar la pelo conselho para ver se eles aprovam":

(15) Se eu quiser vender para voce, eu posso vender sem problema nenhum. Agora, depois que eu vender, eu tenho que passar la pelo conselho para ver se eles aprovam. [...] Por exemplo, bar, nao pode mais abrir bar hoje. Nao deixa mais. Porque tem muito movimento e entao o povo fica doido para abrir bar ou lanchonete aqui. E entao eles nao deixam abrir mais (ee18).

O que fundamenta essa pre-avaliacao do conselho e, como ja discutido, a busca pela manutencao da diversidade. Expressa-se aqui explicitamente a influencia que o territorio do escritorio exerce sobre os demais, notadamente sobre a questao espacial. E sua atribuicao legitima determinar como o espaco Mercado Central pode ser ocupado e por quem. Essa prerrogativa deliberativa adquire um peso simbolico extraordinario porque todos se sentem submissos a um sistema do qual, intuitivamente, sentem que deveriam participar. E como se o territorio do escritorio deles independesse e lhes impingisse determinacoes autonomas, o que significa que nao resta nenhuma alternativa a nao ser aceita-las.

No trecho (16), no fragmento "a gente tinha ate o projeto de futuramente passar tudo para o lado de la", existe um implicito pressuposto de que nao se pretende mais fazer uma praca de alimentacao, porque "o povo nao quer".

(16) E a gente tinha ate o projeto de futuramente passar tudo para o lado de la, fazer tipo uma praca de alimentacao, com bares e lanchonetes. Mas o povo nao quer. Eles nao querem sair do lugar nao (ee18).

Ao enunciar o trecho "eles nao querem sair do lugar nao", o entrevistado diz explicitamente que os comerciantes, metonimicamente referido como "povo", se sentem ligados ao espaco que ocupam--uma manifestacao identitaria, pois o espaco passa a ser um dos elementos definidores de quem essas pessoas sao. Isso decorre do fato de o lugar lhes trazer lembrancas de bons momentos, por habitos territoriais arraigados, ou devido a uma questao de localizacao e de comodidade para a clientela, que ja sabe para onde se dirigir para adquirir seus produtos.

10 CONSIDERACOES FINAIS

Neste artigo, procurou-se analisar as relacoes entre territorialidade e identidade no ambiente organizacional, avancando na perspectiva de identidade quanto ao que e distintivo, duradouro e central numa organizacao, o que foi feito a partir de elementos observados no Mercado Central de Belo Horizonte. Observou-se que as crencas compartilhadas que os individuos tem da identidade de uma organizacao, segundo definicoes de Albert e Whetten (1985), tambem se prestam para explicitar uma dada compreensao do espaco. E se essa e a ideia-base e porque ela nao se prende apenas aos elementos puramente concretos, mas tambem a sua perspectiva simbolica.

Transladaram-se para a questao da territorialidade tres elementos que se aplicam ao estudo de identidade, quais sejam, o distintivo, o duradouro e o central, tendo sido considerado que espaco e identidade sao aspectos intimamente relacionados, refletindo-se nas coisas a forma de agir de seus atores sociais. Entende-se, assim, que, no ambito do territorio, os elementos sao articulados de forma a legitimar-se uns perante os outros. Partilhando de um espaco de multiplas praticas, o mercado conjuga um conjunto de territorios que oscilam entre harmonia e conflitos, visto que sao dinamizados por forcas que, na defesa dos interesses de grupos particulares, tropecam umas nas outras. Os territorios, porem, da mesma forma que se digladiam, se entendem sob o manto da mesma ideologia, a da sobrevivencia mutua.

Os territorios nao estao hierarquicamente categorizados, mas exercem papeis diferentes dentro de uma realidade socialmente construida. Seus espacos nao sao estaticos, tampouco intercambiaveis: uma vez institucionalizados, ganham a feicao de coisas dadas, imanentes. Porem, o que explica o equilibrio e que os atores sociais transitam entre os territorios desempenhando multiplos papeis. Querem, no caso do mercado, sair do espaco distintivo e se aventurar ao espaco central, isto e, "lutar la em cima na administracao". Aceitam a condicao ainda porque ha sempre a possibilidade de que "a forca mude de lugar", uma visivel estrategia de resistencia.

No intento de resolver os problemas relacionados ao territorio em que atuam, percebe-se uma tentativa desses individuos de querer "fazer parte do jogo", o que demonstra que, na essencia, eles buscam aproximar-se do grupo majoritario e iniciar um processo de incorporacao da ideologia dominante. Existem, naturalmente, os que fazem parte de um grupo incrustado nos minoritarios, designados por este termo nao pela quantidade, mas pelo poder que exercem nas decisoes. Com relacao a esse grupo que margeia o processo de mudancas idealizadas, entende-se que o fazem porque estao alienados, encarando a sociedade como um fato a parte, e nao como resultado de seu trabalho.

Nao obstante uma implicita perspectiva harmonica no territorio do comercio, verifica-se um cotidiano conflituoso entre os elementos que compoem o Mercado Central. Esse conflito mais visivel entre o elemento duradouro (territorio da paroquia) e o elemento distintivo (territorio do comercio) anuvia uma dialetica mais enrijecida, que e aquela que ocorre entre o elemento central (territorio do escritorio) e os elementos distintivos. A administracao se reveste de uma legitimidade nao experimentada pelos outros territorios, revestindo-se de uma ideologia maior, e moderna nesse sentido--a da sobrevivencia mutua do Mercado Central que aglutina os distintos posicionamentos dos grupos que compartilham daquela referencia simbolico-espacial.

LUIZ ALEX SILVA SARAIVA

Doutor em Administracao pelo Centro de Pos-Graduacao e Pesquisas em Administracao da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor do Departamento de Ciencias Administrativas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Avenida Antonio Carlos, 6.627, Pampulha, Belo Horizonte--MG--Brasil--CEP 31270-901 E-mail: saraiva@face.ufmg.br

ALEXANDRE DE PADUA CARRIERI

Doutor em Administracao pelo Centro de Pos-Graduacao e Pesquisas em Administracao da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor do Departamento de Ciencias Administrativas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Avenida Antonio Carlos, 6.627, Pampulha, Belo Horizonte--MG--Brasil--CEP 31270-901 E-mail: alexandre@face.ufmg.br

ARI DE SOUZA SOARES

Mestre em Administracao pelo Departamento de Administracao e Economia da Universidade Federal de Lavras (Ufla). Agente de fiscalizacao financeira do Tribunal de Contas do Estado de Sao Paulo. Avenida Rangel Pestana, 315, Centro, Sao Paulo--SP--Brasil--CEP 01017-906 E-mail: assoares@tce.sp.gov.br

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Submissao: 3 jan. 2011. Aceitacao: 25 jul. 2013.

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(1) Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico (CNPq) o financiamento da pesquisa que originou este artigo.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Saraiva, Luiz Alex Silva; Carrieri, Alexandre De Padua; Soares, Ari De Souza
Publication:Revista de Administracao Mackenzie
Article Type:Ensayo
Date:Mar 1, 2014
Words:10681
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