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Ten things you should know about the Qualis/Dez coisas que voce deveria saber sobre o Qualis/Diez cosas que vosotros debeis saber acerca del Qualis.

1 PRIMEIRO PONTO: O QUE E O QUALIS PERIODICOS?

O sistema de avaliacao dos programas de pos-graduacao no pais foi instituido pela Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes) em 1977, ocasiao em que foram criadas as comissoes de assessores por area, para a avaliacao e o acompanhamento dos cursos, e foi estabelecido o Conselho Tecnico-Cientifico da Educacao Superior (CTC-ES). Nesse primeiro momento, o resultado da avaliacao realizada nao tinha divulgacao publica, sendo informado apenas as instituicoes. A avaliacao era expressa em conceitos: A (muito bom), B (bom), C (regular), D (fraco) e E (insuficiente) (FERREIRA; MOREIRA, 2001; CAPES, 2011).

Em 1990, sob a presidencia da Prof (a) Eunice Durham, os conceitos foram substituidos por notas de 1 a 5, e passaram a ser incluidos no processo de avaliacao alguns indicadores quantitativos, entre os quais a quantidade de artigos publicados pelos programas (FERREIRA; MOREIRA, 2001; CAPES, 2011). Em 1998, ocorreu mudanca substancial no processo, com a padronizacao da ficha de avaliacao, que incluia sete quesitos: a proposta do programa, o corpo docente, as atividades de pesquisa, as atividades de formacao, o corpo discente, as teses e dissertacoes e a producao intelectual. Todas as areas de avaliacao deveriam analisar os mesmos quesitos embora pudessem utilizar, no processo, diferentes tipos de indicadores (BARATA, 2015).

Nesse momento, o CTC-ES sentiu a necessidade de qualificar a producao dos programas e nao mais apenas contabilizar o numero de artigos publicados. Ja entao, o numero de artigos publicados nos programas, em cada trienio de avaliacao, era bastante expressivo, tornando impraticavel qualquer tentativa de avaliar a qualidade de cada um desses produtos do trabalho cientifico. Diante dessa impossibilidade, a opcao adotada foi a classificacao dos veiculos de divulgacao da producao cientifica, pressupondo-se que a aceitacao de um artigo por periodico indexado e com sistema de peer review garantia, de certo modo, a sua qualidade. Por outro lado, considerou-se que periodicos com circulacao internacional e maior impacto na comunidade academica teriam processos de selecao mais competitivos e, portanto, os artigos por eles selecionados teriam qualidade e relevancia (LINDSEY, 1989).

A primeira classificacao adotada dividia os periodicos em tres grupos com tres estratos em cada grupo. Os grupos separavam os periodicos segundo a circulacao--internacional, nacional ou local--, e, em cada grupo, as revistas cientificas eram classificadas nos estratos A, B e C, conforme seu impacto ou relevancia para um determinado campo cientifico.

Dada a heterogeneidade de tradicoes cientificas existentes nas diversas areas de avaliacao, cada uma delas teve a liberdade de eleger os criterios segundo os quais procederia a classificacao da producao em sua area. Nas grandes areas de Ciencias Exatas, Ciencias Biologicas, Ciencias Agrarias e Ciencias da Saude, a tendencia predominante foi a de construir a classificacao considerando as bases de indexacao e as medidas de impacto bibliometrico. Nas grandes areas de Ciencias Sociais e Humanas, a tendencia foi a de utilizar um conjunto de aspectos formais dos periodicos cientificos, normalmente empregados pelas bases indexadoras para a aceitacao da indexacao, para realizar a classificacao.

Durante dez anos, essa classificacao foi adotada no processo de avaliacao, sofrendo diversos ajustes a cada periodo avaliativo. Apos a trienal de 2007, a Diretoria de Avaliacao propos ao CTC-ES a reformulacao do Qualis com base em uma avaliacao quantitativa que mostrava o uso inadequado da classificacao e a perda progressiva do poder discriminatorio ao longo dos anos. Muitas areas acabavam efetivamente utilizando tres ou quatro estratos na avaliacao, e poucas eram aquelas que usavam os nove estratos previstos (BARATA, 2015).

Apos praticamente um ano de intensas discussoes, o CTC-ES aprovou a nova classificacao contendo sete estratos: A1, A2, B1, B2, B3, B4 e B5. Ha ainda um estrato C, destinado a publicacoes que nao constituem periodicos cientificos ou nao atendem aos criterios minimos estabelecidos em cada area para ser classificado.

O Qualis Periodicos, portanto, e uma das ferramentas utilizadas para a avaliacao dos programas de pos-graduacao no Brasil. Sua funcao e auxiliar os comites de avaliacao no processo de analise e de qualificacao da producao bibliografica dos docentes e discentes dos programas de pos-graduacao credenciados pela Capes. Ao lado do sistema de classificacao de capitulos e livros, o Qualis Periodicos e um dos instrumentos fundamentais para a avaliacao do quesito producao intelectual, agregando o aspecto quantitativo ao qualitativo.

2 SEGUNDO PONTO: O QUE O QUALIS PERIODICOS NAO E?

Saber o que o Qualis nao e parece tao importante quanto saber o que ele e, pois muitos dos usos inadequados e das incompreensoes em torno dessa ferramenta resultam justamente da pouca compreensao sobre esse ponto. O Qualis nao e uma base de indexacao de periodicos este e o ponto que provavelmente gera maior confusao entre os editores cientificos e e fonte de inumeras consultas aos coordenadores de area.

Varios sao os editores que solicitam a inclusao, vale dizer a indexacao, de seus periodicos na lista do Qualis. Entretanto, tal solicitacao nao tem sentido visto que o Qualis so existe como ferramenta para a avaliacao de programas. Estar ou nao na lista do Qualis significa tao somente que algum dos alunos ou professores dos programas credenciados publicaram artigos naqueles periodicos. Do mesmo modo, o Qualis Periodicos nao e uma base bibliometrica e nao permite o calculo de nenhuma medida de impacto dos periodicos nele incluidos. Sendo assim, o Qualis Periodicos nao deve ser considerado como uma fonte adequada de classificacao da qualidade dos periodicos cientificos para outros fins que nao a avaliacao dos programas de pos-graduacao. Por uma serie de caracteristicas que serao destacadas a seguir, a classificacao de uma revista no Qualis nao pode ser usada fora de seu contexto, sob pena de produzir mais problemas do que solucoes.

O Qualis Periodicos nao e uma classificacao absoluta, estando sujeita a revisao permanente. Tendo em vista que a classificacao e sempre feita a posteriori, conforme sera detalhado em outro item, nao e aconselhavel que a lista sirva de referencia para acoes futuras, tais como a escolha de periodicos para submissao de artigos. A escolha de um periodico para a submissao deveria levar em conta, entre outros aspectos, o publico-alvo do proprio artigo, o escopo dos diversos periodicos em um mesmo campo cientifico, a credibilidade, a rapidez no processo de julgamento e de publicacao, a competitividade expressa pela taxa de rejeicao, a circulacao que os periodicos tem na comunidade de interesse e seu prestigio, o que pode ser indiretamente avaliado por diferentes medidas de impacto.

Finalmente, o Qualis Periodicos nao e uma ferramenta que possa ser utilizada em avaliacoes do desempenho cientifico individual de pesquisadores, visto que nao foi desenvolvido com essa finalidade. Sua aplicacao faz sentido para a analise coletiva da producao de um programa, cumprindo requisitos especificos do processo de avaliacao comparativo estabelecido pela Capes. Em avaliacoes orientadas por principios essencialistas, os instrumentos usados para comparacoes relativas nem sempre se mostrarao adequados.

3 TERCEIRO PONTO: A GERACAO DA LISTA

Como mencionado anteriormente, a classificacao dos periodicos nao e duradoura. A cada ano uma listagem de periodicos e gerada a partir dos dados sobre a producao cientifica publicada sob a forma de artigos informados pelos programas nos aplicativos da Capes. Os programas enviavam anualmente suas informacoes por meio do Coleta Capes; mais recentemente, com a introducao da plataforma Sucupira, os dados podem ser permanentemente incluidos durante o desenrolar das atividades dos programas. Essa forma de geracao da listagem faz com que ela seja sempre um retrato a posteriori, pois e sempre referente aos anos anteriores cujos dados ja foram informados para a Capes. Assim, por exemplo, a classificacao de 2014 divulgada em 2015 se refere aos artigos publicados em 2014.

O desconhecimento sobre esse mecanismo de geracao da lista e outro motivo de inumeras consultas aos coordenadores de area. Editores cientificos encaminham exemplares de suas publicacoes e solicitacoes de inclusao, alegando que suas publicacoes abrangem tematicas daquela area do conhecimento. No entanto, se nenhum docente ou discente de um programa de pos-graduacao credenciado tiver publicado um artigo naquela revista, nao ha nenhum sentido em inclui-la na lista, uma vez que a unica finalidade do Qualis Periodicos e classificar os artigos produzidos pelos programas.

Docentes e discentes apresentam dois tipos de preocupacoes que tambem nao procedem, desde que se conheca o mecanismo de geracao da listagem. O primeiro receio e o de nao encontrar na lista o periodico no qual acabaram de ter um artigo publicado. Evidentemente, se o artigo for informado na plataforma Sucupira, no ano subsequente, o periodico estara incluido automaticamente na listagem. O segundo questionamento, decorrente do anterior, diz respeito a consideracao ou nao dessa producao para efeito de avaliacao. Novamente, trata-se de uma precipitacao. Mesmo que, no ultimo ano do periodo de avaliacao, alguns periodicos nao estejam incluidos como resultado de falhas no processamento dos dados, as comissoes procederao a sua classificacao manual, utilizando exatamente os mesmos criterios usados para os demais periodicos.

Outra duvida frequente entre docentes e discentes surge quando da escolha de uma revista cientifica para a submissao de um artigo, diante da constatacao de que esta ainda nao se encontra na listagem da area. Evidentemente, por tudo que ja ficou dito, tal revista cientifica passara a figurar na lista desde que, aceito o artigo, seja a publicacao informada por meio da plataforma Sucupira.

4 QUARTO PONTO: CLASSIFICACAO EXAUSTIVA

Tendo em vista o processo de geracao da lista anteriormente descrito e a finalidade precipua do Qualis Periodicos, cada area de avaliacao devera classificar todos os titulos constantes de sua lista. Nenhum dos titulos listados podera ficar sem classificacao, uma vez que isso significaria a exclusao a priori de determinados produtos informados pelos programas.

Para que essa regra basica seja cumprida, foi proposto o estrato C, que pode ser utilizado de diferentes maneiras para garantir a exaustividade da classificacao. Muitos programas informam como producao intelectual bibliografica produtos que nao se qualificam como artigos cientificos, tais como materias ou entrevistas em jornais ou revistas destinados ao publico leigo, textos elaborados para blogs e outras midias eletronicas, boletins, material de propaganda como posters, folders e outros, material didatico e artigos tecnicos. Nesses casos, de acordo com a definicao de cada area de avaliacao, essas entradas na listagem do Qualis podem ser classificadas como C, separando-as dos demais artigos cientificos produzidos pelo programa. Geralmente esse tipo de material pode ser informado corretamente como producao tecnica, ou seja, nao deve ser informado como artigos completos em periodicos cientificos. Esses produtos podem ser excluidos da classificacao por meio de uma opcao disponivel no aplicativo que permite identifica-los como nao sendo artigos cientificos.

Algumas areas de avaliacao utilizam o estrato C para desconsiderar os artigos cientificos publicados em periodicos nao indexados ou que nao atendam aos criterios minimos estabelecidos pela comissao de avaliacao. Assim, aquela producao classificada no estrato C estaria automaticamente glosada. Ha, ainda, algumas poucas areas que utilizam o estrato C para glosar toda a producao divulgada em periodicos que, por seu escopo, nao pertencem a area de conhecimento sob avaliacao. Esse e um recurso discutivel, tendo em vista o fato de que a ciencia atual e cada vez mais interdisciplinar, e os limites disciplinares estreitos muitas vezes nao refletem corretamente o que esta sendo produzido. Felizmente, poucas sao as areas de avaliacao que adotam visao tao exclusivamente disciplinar. Afinal, uma deliberacao como essa por parte do coordenador de area ou de sua comissao de avaliacao pode ter efeitos deleterios sobre as possibilidades de cooperacao interdisciplinar.

Alem dos problemas ja mencionados, a decisao de classificar no estrato C periodicos considerados "fora de area" ou que nao apresentem pelo menos determinado fator de impacto gera muito ruido entre a comunidade, pois revistas bem classificadas em alguma das areas podem estar classificadas como C em outras, sugerindo que a classificacao e desprovida de sentido e feita de forma totalmente aleatoria. Para evitar esse tipo de situacao seria recomendavel que todas as areas de avaliacao reservassem o estrato C apenas para publicacoes que nao pudessem ser classificadas como cientificas, independentemente da area de conhecimento.

Para o caso de haver ocorrido falha no processamento dos dados completos dos programas no momento de geracao da listagem, o processamento dos cadernos de indicadores ou dos relatorios da producao classificara cada produto em um dos estratos do Qualis, separando em um bloco a parte aqueles que ficarem sem classificacao. Esses produtos poderao ser classificados manualmente de acordo com a disponibilidade de tempo dos membros das comissoes de avaliacao. Para evitar que essa producao seja desconsiderada na avaliacao, e importante que o preenchimento dos dados relativos aos artigos seja o mais completo e correto possivel, com especial atencao para o numero correto do ISSN e para o titulo correto e atualizado da revista cientifica. Outros dados importantes sao o ano, o volume e o fasciculo da publicacao.

5 QUINTO PONTO: REGRAS COMUNS A TODAS AS AREAS DE AVALIACAO

A avaliacao dos programas de pos-graduacao esta sempre tensionada pela necessidade de ter uma base comum para avaliar o conjunto dos programas independentemente das areas de conhecimento e pelas evidencias de que diferentes areas de conhecimento tem diferentes tradicoes de producao cientifica, e suas especificidades precisam ser levadas em conta para que a avaliacao seja justa e apropriada.

Do ponto de vista estrito de cada programa, nao haveria problema em que os criterios avaliativos fossem totalmente diferentes entre as diversas areas de avaliacao, uma vez que em cada uma delas o processo e comparativo e, assim, so importaria garantir que os mesmos criterios fossem aplicados, da mesma maneira, para todos os programas em uma determinada area.

No entanto, os programas existem em unidades academicas dentro de faculdades, centros universitarios ou universidades onde avaliacoes muito discrepantes podem gerar dificuldades e problemas. Assim, tanto o CTC-ES quanto o Conselho Superior da CAPES sempre se preocuparam em ter alguns parametros que pudessem tornar a avaliacao minimamente comparavel entre as areas.

Nesse sentido, sao utilizados basicamente tres mecanismos: as portarias e resolucoes da Presidencia, do Conselho Superior, da Diretoria de Avaliacao ou do Conselho Tecnico-Cientifico da Educacao Superior; a padronizacao da ficha de avaliacao e as regras de construcao do Qualis Periodicos e da classificacao de livros. As portarias, resolucoes e outros atos normativos visam estabelecer diretrizes que devem ser seguidas em todo o sistema nacional de pos-graduacao (SNPG), conferindo-lhe unidade e organicidade.

A padronizacao da ficha de avaliacao visou estabelecer os quesitos e os itens indispensaveis e comuns a todas as areas no processo de avaliacao. Ao longo dos anos, foram sendo modificados esses componentes na medida em que a evolucao do SNPG foi superando certos problemas e gerando outros. Atualmente, a ficha esta composta por cinco quesitos: proposta do programa, corpo docente, corpo discente, producao intelectual e insercao social; e 17 itens comuns distribuidos entre esses quesitos. As areas de avaliacao tem a liberdade de propor itens adicionais e definir os indicadores e criterios que serao utilizados na avaliacao de cada item. Desse modo, pretende-se garantir a comparabilidade sem perder a flexibilidade necessaria para abarcar toda a diversidade contida nas 48 areas de avaliacao. O instrumento de classificacao de capitulos e livros tambem contem elementos minimos e outras variaveis de modo que diversas areas do conhecimento possam utiliza-lo. Nesse caso, ha inclusive a opcao de nao considerar a producao de capitulos e livros na producao cientifica dos programas, a criterio de cada area de avaliacao.

Com relacao ao Qualis Periodicos, as regras comuns a todas as areas sao tres, alem daquela ja apresentada da obrigatoriedade de classificar todos os titulos da listagem da area. Na tentativa de preservar o carater classificatorio e a capacidade de discriminacao entre producoes de maior ou menor "qualidade", foram estabelecidas essas regras que forcam as comissoes de area a serem bastante seletivas. A primeira regra estabelece que no maximo 50% dos titulos presentes em cada lista podem ser classificados nos tres estratos mais altos da classificacao: A1, A2 ou B1. Ou seja, qualquer que seja a area de conhecimento, apenas metade dos periodicos utilizados pelos docentes e discentes para veicular suas publicacoes pode ser classificada entre os de excelencia (estratos A) ou de maior qualidade (B1). A segunda regra estabelece que apenas 25% dos titulos em cada lista podem ser considerados de excelencia e, portanto, classificados nos estratos A. Ou seja, dentro do conjunto, apenas um quarto dos titulos usados em cada area pode ser classificado como excelente. A terceira regra estabelece que, entre os titulos classificados no estrato A, aqueles inseridos no estrato A1 tem de, necessariamente, ser em menor proporcao do que os classificados no estrato A2.

Essas regras, embora tenham sido propostas para garantir alguma comparabilidade entre as diferentes areas do conhecimento, ignoram o fato de que os criterios de classificacao sao bastante diferentes entre elas e permitem apenas uma comparacao relativa, na medida em que as mesmas proporcoes se aplicam a totalidades muito diversas.

Em 2014, o numero de titulos variou entre 142 (Teologia) e 2.084 (Medicina I). A proporcao de periodicos classificados no estrato A1 foi de 0,7%, na area de Teologia, a 13,1%, na area de Engenharia II, enquanto a proporcao de periodicos no estrato A2 foi de 4,8%, na area de Ensino, a 15,1%, na area de Psicologia. O valor mediano para a proporcao de periodicos no estrato A1 foi de 8,5% e, para o estrato A2, 11,5%.

A somatoria entre os dois estratos superiores variou de 8,4%, na area de Sociologia, a 26,1%, na area de Engenharias II. A parcela dos tres estratos superiores apresentou o menor valor na area de Sociologia, com apenas 18,8%, e o maior na area de Engenharias II, com exatos 50%.

Houve tambem grande variacao na proporcao de periodicos classificados no estrato C. Algumas areas nao tiveram nenhum titulo classificado no estrato C, enquanto outras apresentaram valores bastante altos. A area do Direito foi a que mais classificou titulos no estrato C, chegando a 41,4%. Ou seja, mesmo em relacao a aplicacao das regras gerais, observa-se grande variacao entre as areas, embora possam ser notadas algumas tendencias. A grande area das Ciencias da Saude e a que apresenta maior homogeneidade. De modo geral, as Ciencias da Vida e as Ciencias Exatas apresentam proporcoes maiores de revistas classificadas nos tres primeiros estratos e nos estratos A, enquanto as Humanidades tendem a mostrar menores proporcoes de periodicos nesses estratos, refletindo uma tradicao diferente de publicacoes. No primeiro grupo de Ciencias predominam periodicos editados por editoras comerciais ou associacoes cientificas de grande prestigio academico, enquanto no segundo grupo ainda predominam publicacoes vinculadas aos proprios programas academicos.

6 SEXTO PONTO: CRITERIOS CLASSIFICATORIOS

Conforme assinalado anteriormente, cada area de avaliacao tem a liberdade de estabelecer seus proprios criterios classificatorios desde que as regras comuns de construcao do Qualis sejam cumpridas. Ainda que os indicadores utilizados pelas diferentes comissoes variem, 31 (65%) areas de avaliacao compreendidas nas grandes areas de Ciencias Exatas e da Terra, Ciencias Biologicas, Engenharias, Ciencias da Saude, Ciencias Agrarias e Multidisciplinar utilizam criterios que combinam aspectos da circulacao, avaliada por meio das bases de indexacao as quais os periodicos pertencem, e aspectos relativos aos impactos bibliometricos, avaliados por intermedio de um ou mais indicadores obtidos em uma ou mais fontes de informacao.

As fontes de dados bibliometricos mais utilizadas sao: JCR (Journal Current Report), Scopus e SciELO. Cada uma delas fornece indicadores um pouco diferentes e valores distintos para indicadores equivalentes, porque possuem em sua base um numero variavel de periodicos. A base mais ampla e a Scopus, portanto, os indicadores calculados por ela tendem a ser mais altos do que nas outras duas. A menor e a SciELO, e os fatores de impacto medidos nessa base serao todos menores do que nas outras duas. O JCR possui uma base um pouco menor que a da Scopus e, alem disso, adota uma definicao pouco clara e polemica do que considera documentos citaveis, podendo assim subestimar ou superestimar o fator de impacto (BARRETO et al., 2013).

Os indicadores mais usados sao o fator de impacto, as citacoes por documento citavel e o indice "h". Algumas areas utilizam ainda a vida media ou o fator de "imediatez" para ponderar as medidas de impacto. A combinacao de fontes e indicadores e uma forma de balancear as caracteristicas e fragilidades de cada um deles isoladamente.

Quinze (31%) areas de avaliacao incluidas nas grandes areas de Artes e Letras, Ciencias Sociais Aplicadas e Ciencias Humanas utilizam um conjunto de criterios formais (tais como periodicidade, regularidade, corpo editorial diversificado, revisao por pares, distribuicao, indexacao) e um "ranqueamento" estabelecido pelas comissoes avaliadoras quanto a relevancia de cada revista para o campo.

Finalmente, as areas de Economia e Administracao e de Turismo utilizam criterios mistos, combinando aspectos dos dois anteriormente descritos. E facultado aos coordenadores de area e a suas comissoes de revisao do Qualis optar por atribuir uma classificacao mais elevada para um pequeno numero de revistas nacionais que sejam consideradas relevantes. Esse recurso tem ajudado diversas revistas nacionais a receber um numero maior de artigos; assim, elas podem selecionar os melhores e, com isso, aumentar o fator de impacto. O mecanismo chamado de "inducao" deve estar claramente explicitado no documento de atualizacao do Qualis e ser aprovado pelo CTC-ES.

7 SETIMO PONTO: ATUALIZACAO DA CLASSIFICACAO

A atualizacao do Qualis Periodicos e feita anualmente, cerca de um a dois meses apos a data de chancela dos dados dos programas. A Diretoria de Avaliacao da Capes estabelece um periodo para que o Qualls seja atualizado por todas as areas de avaliacao.

A area interdisciplinar e a unica que realiza a atualizacao do Qualis em data separada, porque, dadas as caracteristicas de seus programas, habitualmente sua classificacao e construida com base na combinacao das classificacoes realizadas pelas areas disciplinares. Essa atualizacao ocorre quase sempre no mes de julho, quando o JCR divulga os fatores de impacto relativos ao ano anterior. Desse modo a nova classificacao pode refletir o desempenho dos periodicos no ano da publicacao dos artigos. No entanto, devido a problemas de calendario da propria DAV, algumas vezes a atualizacao e feita antes que essas informacoes estejam disponiveis e, nessa hipotese, sao utilizados os indicadores do ano anterior. Eventualmente, no caso de revistas que vem apresentando mudanca acelerada de indicadores, tal procedimento pode ser prejudicial.

Uma vez realizada a atualizacao e chancelada a nova classificacao, nao e possivel realizar correcoes ate o ano seguinte. Esse e um motivo constante de reclamacoes de coordenadores de programas e de editores cientificos sempre que consideram ter havido erro por parte da comissao ou uso de dados desatualizados. Em geral, quem nao conhece de perto o funcionamento da agencia nao consegue entender por que nao e possivel fazer uma correcao em um banco de dados eletronico assim que um erro e detectado. No entanto, devido a sobrecarga que os sistemas informatizados apresentam e a propria escassez de funcionarios da area tecnica, operacionalmente se torna inviavel realizar modificacoes fora do periodo de atualizacao.

8 OITAVO PONTO: POR QUE UMA MESMA REVISTA POSSUIU CLASSIFICACAO TAO VARIADA ENTRE AS AREAS?

Como cada uma das areas de avaliacao possui seus proprios criterios classificatorios e deve classificar todos os periodicos que constem em sua lista, a mesma revista cientifica pode ter classificacoes bastante distintas em cada uma das areas de avaliacao. Alem disso, para cumprir as regras comuns, dando destaque aos periodicos do proprio campo de conhecimentos, varias areas rebaixam periodicos de outros campos, mesmo que eles cumpram os criterios para uma melhor classificacao. Esse aspecto do Qualis e fonte de inumeros mal-entendidos entre coordenadores de programas, docentes e editores cientificos.

Do ponto de vista dos editores e sempre dificil de compreender como o mesmo periodico pode assumir classificacoes tao diferentes. Se os criterios usados para a classificacao sao baseados em caracteristicas do periodico, nao e facil aceitar que a mesma revista possa ser classificada em praticamente qualquer dos estratos, dependendo da area de avaliacao. Essas discrepancias podem ter a ver com diferentes pontos de corte adotados para a classificacao com base nos indicadores de impacto, uma vez que a distribuicao desses valores e variavel conforme a area de conhecimento; mas tambem podem resultar de julgamentos da relevancia do periodico para determinada area do conhecimento aliados, geralmente, a concepcoes fortemente disciplinares.

O Quadro 2 mostra a classificacao de tres periodicos cientificos que nao sao dedicados a uma disciplina ou campo cientifico em particular. Os tres sao dedicados a todos os campos cientificos. Evidentemente, periodicos com fatores de impacto tao altos quanto os da revista Science ou Nature garantem que qualquer que seja a area de conhecimento, ela sera classificada no estrato A1. Ja os Anais da Academia Brasileira de Ciencias, embora com um fator de impacto bom para uma revista brasileira, dependendo dos pontos de corte utilizados em cada area de avaliacao, teve classificacoes bastante diferentes, variando entre o estrato A1 e o B4.

O Cadernos de Saude Publica, editado pela Escola Nacional de Saude Publica, da Fiocruz, e o periodico que aparece referido em maior numero de areas de avaliacao (30) e tambem o que apresenta a maior diversidade de classificacoes, indo de A1 a C, com excecao do estrato B5. Como uma revista que atende a todos os requisitos formais, arbitrada, indexada nas mais importantes bases bibliograficas e com fator de impacto acima de 1 pode ser classificada no estrato C? Ocorre que o documento do Qualis da area de Ciencia da Computacao informa que utiliza o fator de impacto normalizado e introduz um deflator de dois niveis para periodicos de outras areas do conhecimento. Supondo que a normalizacao seja feita com base na media e no desvio-padrao do fator de impacto dos periodicos da area, isso explicaria a posicao do Cadernos de Saude Publica no estrato C.

A revista Dados, publicada pelo Instituto de Estudos Sociais e Politicos, da UERJ, e a revista de Ciencias Sociais mais bem indexada e com o maior fator de impacto entre as brasileiras nesse campo. Nesse caso, as classificacoes vao de A1 a B2, refletindo a relevancia atribuida ao periodico nas diferentes areas em que ele e utilizado.

Finalmente a revista Ciencia & Saude Coletiva, publicada pela Associacao Brasileira de Saude Coletiva (Abrasco), apresenta classificacoes nos estratos A2, B1 ou B3 nas dez diferentes areas em cujos programas os autores estao inseridos como docentes.

A unica maneira de solucionar essa contradicao entre diferentes classificacoes para as mesmas revistas seria a adocao de uma lista unica, na qual cada periodico fosse classificado apenas pela area ou pelas areas de conhecimento incluidas em seu escopo de publicacao. Revistas dedicadas a ciencia em geral, tais como Science, Nature, Anais da Academia Brasileira de Ciencias, Annals of the New York Academy of Sciences, Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, poderiam ser classificadas pela area interdisciplinar. Periodicos cujo escopo abrangesse mais de uma area de avaliacao seriam classificados em comum acordo. Desse modo, o Qualis Periodicos poderia ser uma listagem livre de contradicoes e, desde que cada area, ao classificar seu conjunto de periodicos, adotasse as regras comuns, a listagem final tambem cumpriria os mesmos requisitos. Uma vantagem adicional dessa alternativa seria aprimorar o processo de classificacao, uma vez que cada area teria uma lista menor de periodicos para analisar, podendo dedicar maior tempo e cuidado a tarefa de avaliacao.

9 NONO PONTO: COMENSURABILIDADE ENTRE AS AREAS DE AVALIACAO

Conforme ja mencionado anteriormente, ha uma preocupacao constante no CTC-ES, no Conselho Superior e nas pro-reitorias de pos-graduacao e pesquisa das universidades com a comparabilidade dos resultados da avaliacao dos PPGs, visto que esses resultados sao utilizados para orientar uma serie de acoes e politicas no interior das universidades e no pais em geral.

Apesar da padronizacao dos instrumentos de avaliacao, sera que um PPG nota 5, 6 ou 7 em uma dada area de avaliacao e comparavel com outro PPG nota 5, 6 ou 7 em outra area de avaliacao? Esta pergunta nao tem, evidentemente, uma resposta simples. A tendencia do sistema de avaliacao da pos-graduacao tem sido a de adotar o principio do "ranqueamento" em vez do principio essencialista. Ou seja, os programas sao avaliados em cada uma das areas, e as notas sao atribuidas nao a partir de caracteristicas essenciais, mas, antes, pela posicao relativa daquele programa no conjunto dos programas da area. Desse modo, pode-se dizer que a comparacao entre programas com a mesma nota em areas de avaliacao diferentes indicaria apenas que eles ocupam a mesma posicao relativa nos PPGs da area sem, contudo, significar que tem qualidade equivalente quanto aos quesitos avaliados.

Al gu m as areas de aval iacao tentam ad otar o pri ncipio essencialista definindo "tipos ideais" para cada uma das notas, isto e, definindo que caracteristicas, em relacao a cada um dos quesitos, um PPG deve ter para receber determinada nota. Entretanto, essa postura acaba sendo pressionada pela ideia de que, assim, as comissoes de avaliacao estariam "prejudicando" a propria area na comparacao com outras areas de conhecimento.

Focando especificamente o Qualis como um desses instrumentos de padronizacao da avaliacao, e frequente ouvir de membros do Conselho Superior ou de coordenadores de programas menos afeitos aos estudos bibliometricos que tal ou qual area nao e rigorosa na atribuicao de suas notas porque os pontos de corte que utiliza para construir os estratos do Qualis sao inferiores aqueles usados por areas consideradas como de referencia (geralmente as Ciencias Exatas ou Biologicas). Ou ainda, em se tratando das Ciencias Humanas e Sociais, que e inaceitavel ter classificados nos estratos superiores periodicos publicados exclusivamente em portugues, portanto, com circulacao internacional limitada.

E sabido que os fatores de impacto sao influenciados por muitos aspectos que nao estao diretamente relacionados com a qualidade da producao, tais como o tamanho da comunidade cientifica em cada area, o prestigio de subareas do conhecimento dentro de um mesmo campo, o numero medio de autores por artigo, a lingua da publicacao, o pais de residencia dos autores, entre outros (LEEUWEN et al., 2001; WALTER et al., 2003; TAYLOR; PERAKAKIS; TRACHANA, 2008; RUANO-RAVINA; ALVAREZ-DARDET, 2012).

As diferentes areas do conhecimento tem distribuicoes especificas e nao comparaveis (GLANZEL; MOED, 2002). Analise de todos os periodicos indexados na base Scopus, segundo as areas do conhecimento e com indicadores de impacto do ano de 2012, mostra que a distribuicao dos fatores de impacto e muito variavel. Considerando apenas as Ciencias Exatas e da Terra, observa-se que o valor maximo do fator de impacto chega a 14,88 para os periodicos da Matematica e Ciencia da Computacao, 26,13 para os de Geociencias, 39,73 para os de Quimica e 41,56 para os de Astronomia e Fisica. Na area das Ciencias Medicas, o maior valor passa de 100. Portanto, nao se pode simplesmente comparar valores do fator de impacto dos pontos de corte de cada estrato.

Do mesmo modo, e sabido que nas areas de Ciencias Humanas e Sociais ate recentemente havia um numero reduzido de periodicos indexados em bases bibliometricas; portanto, para a maioria dos veiculos nao havia nenhuma medida de impacto disponivel, sem contar o fato de que parte da publicacao nessas areas se faz preferencialmente por meio de livros e coletaneas. Essa tradicao comeca a mudar pressionada pelo uso crescente desses indicadores em diversos processos de avaliacao do desempenho academico. Hoje e possivel encontrar na base SCImago um numero consideravel de periodicos classificados em Ciencias Sociais (5.092), inferior apenas ao numero dos periodicos da area medica. Assim, em medio prazo seria possivel pensar em um uso crescente desses indicadores abarcando todas as areas de avaliacao. Esse problema requer dois conjuntos de solucoes, uma aplicavel aquelas areas de avaliacao que utilizam medidas de impacto para a construcao do Qualis Periodicos; outra, aplicavel aquelas areas que nao utilizam nenhuma medida de impacto por nao ser tradicao em suas areas de conhecimento.

Para as 31 areas de avaliacao que utilizam medidas de impacto na construcao do Qualis, a opcao de tornar as classificacoes comensuraveis, ou seja, capazes de expressar grandezas diferentes, porem com o mesmo significado relativo em cada campo, seria a adocao de percentis preestabelecidos para cada um dos estratos (BORNMANN, 2013). Por exemplo, se todas as areas adotassem como ponto de corte para o estrato A1 o percentil 95 da distribuicao de um determinado indicador ou conjunto de indicadores de impacto, seria imediatamente comparavel a producao qualificada nesse estrato para as diferentes areas do conhecimento, visto que os periodicos ai classificados corresponderiam aos 5% superiores, isto e, aos 5% com maior impacto em cada uma das areas.

Esses poderiam ser os pontos de corte para os estratos, de tal modo que, em qualquer area de avaliacao, os periodicos classificados no estrato B5 fossem aqueles com fator de impacto igual a zero ou sem fator de impacto medido; no estrato B4 estariam os periodicos com fator de impacto maior do que zero e inferior ou igual ao valor do percentil 25; no estrato B3 ficariam as revistas com impacto entre o percentil 25 e a mediana (P50); no estrato B2, aquelas com impacto entre a mediana e o percentil 75; no estrato B1, os periodicos com impacto entre o percentil 75 e o percentil 90; no estrato A2, as revistas com impacto entre o percentil 90 e o 95, e, finalmente, no estrato A1, aquelas acima do percentil 95.

Assim, o Qualis das areas seria imediatamente comparavel, e a producao dos PPGs poderia ser avaliada com base na proporcao de artigos em cada estrato, pois eles teriam todos o mesmo sentido. Para as demais areas que ainda nao utilizam medidas de impacto, seria necessario estabelecer criterios de transicao e politicas de incentivo aos periodicos nacionais para que busquem a indexacao nas bases bibliometricas; e, aos autores, para que comecem a publicar em periodicos ja indexados nessas bases. Somente dessa forma, sera possivel dar maior visibilidade a producao cientifica do pais e incentivar a publicacao de pesquisas de qualidade em todas as areas do conhecimento.

O Quadro 5 mostra a distribuicao dos fatores de impacto para cinco areas selecionadas das Ciencias Sociais e Humanas. O mesmo principio discutido anteriormente se aplicaria neste caso. Atualmente na base SCImago estao listadas cinco revistas brasileiras de Administracao, sete de Economia, tres de Direito, seis de Geografia e 18 de Educacao. Destas, tomando por base os pontos de corte apresentados na tabela, tres seriam classificadas no estrato B5, 25 no estrato B4 e 11 no estrato B3, pois nenhuma delas apresenta fator de impacto acima do valor mediano. Entretanto, uma vez que na atualidade os artigos produzidos na pos-graduacao brasileira nao se destinam a essas publicacoes, seria necessario estabelecer alguns criterios comuns que permitissem estipular a equivalencia entre as classificacoes das diferentes areas. Por exemplo, para ser classificada no estrato A1, a revista deveria estar indexada em pelo menos uma base bibliometrica, ter impacto diferente de zero e ter artigos publicados em outra lingua alem do portugues. E assim, sucessivamente, poderiam ser determinados criterios qualitativos para o preenchimento de cada estrato. Se esses esforcos, por um lado, restringem a flexibilidade de cada area no estabelecimento de suas proprias regras, por outro, poderiam contribuir para um sistema mais coeso e racional de avaliacao.

10 DECIMO PONTO: USOS INDEVIDOS DO QUALIS PERIODICOS

O Qualis Periodicos, como anteriormente assinalado, e um dos instrumentos utilizados na avaliacao dos programas de pos-graduacao, tendo sido introduzido fundamentalmente para qualificar a producao bibliografica sob a forma de artigos dos mencionados programas. Ha, no entanto, usos indevidos ou inadequados desse instrumento, seja no processo de avaliacao, seja em outros ambitos da politica academica ou cientifica.

Apesar das tentativas da Diretoria de Avaliacao de estabelecer regras comuns, nem todas as areas do conhecimento fazem um uso adequado desse instrumento. A intencao inicial de utilizar os estratos para efetivamente discriminar de forma adequada os distintos tipos de produtos pode ficar seriamente comprometida se no processo de construcao os estratos nao forem exaustivos e mutuamente exclusivos. Alem disso, a proposta original pressupunha que a producao seria avaliada por meio da pontuacao obtida pela multiplicacao do numero de artigos em cada estrato pelo seu peso ou fator de ponderacao. Assim, se em uma area for atribuido o peso 10 aos artigos no estrato A1 e o peso 5 aos artigos no estrato B1, haveria equivalencia entre um artigo A1 e dois artigos B1. Entretanto, nem todas as areas vem utilizando o Qualis dessa forma, preferindo simplesmente comparar proporcoes de artigos nos estratos superiores ou acima de um determinado estrato. Desse modo, os sete estratos nao sao efetivamente utilizados.

Ha, contudo, outros usos indevidos do Qualis fora do ambito da avaliacao dos programas que deveriam ser evitados. Entre esses possiveis usos, tres serao aqui destacados: pelos editores cientificos, pelos comites de assessoramento do CNPq e pelas proprias universidades ou institutos de pesquisa na avaliacao de docentes e pesquisadores. O uso da classificacao do Qualis pelos editores cientificos para obtencao de fomentos e pelas agencias para aprova-los e bastante discutivel em se tratando da competicao entre periodicos dos diferentes campos cientificos, na medida em que as classificacoes sao incomensuraveis, como anteriormente demonstrado. As caracteristicas da classificacao com suas regras de proporcoes pre-fixadas para os estratos superiores, e os diferentes criterios classificatorios usados pelas diferentes areas, alem da possibilidade do recurso a inducao ou sobrevalorizacao de determinados periodicos, tornam seu uso como aferidor da qualidade do periodico, fora do ambito da avaliacao de programas, bastante discutivel.

Um periodico pode ter qualidade e atender a todos os criterios formais desejaveis, mas, por ser publicado em portugues e receber poucas citacoes nas bases internacionais, estar classificado em um estrato como B3 ou B4. Isso nao significa que nao deva receber o fomento adequado, inclusive para superar essa situacao, podendo, por exemplo, traduzir todos os artigos para o ingles e, assim, aumentar sua probabilidade de receber citacoes.

Nas avaliacoes dos pesquisadores feitas pelos comites assessores do CNPq para a concessao de bolsas de produtividade, de auxilios diversos ou de fomento a pesquisa, o uso do Qualis para avaliar a producao cientifica individual e bastante incorreto e inadequado. Os comites deveriam analisar detidamente os criterios usados em cada area de avaliacao e adapta-los para as finalidades da avaliacao da producao individual. Diversas areas, como, por exemplo, a Saude Coletiva, classificam no estrato B2 periodicos com impacto acima da mediana da area, portanto, todos os artigos publicados em periodicos B2 ou superiores poderiam ser considerados de qualidade equivalente. Tendo em vista as travas representadas pelas regras comuns da classificacao, o que diferencia os periodicos classificados nos quatro primeiros estratos e apenas o valor dos indicadores de impacto, sem que, necessariamente, essas diferentes quantitativas remetam a diferencas fundamentais na qualidade da pesquisa publicada. Muitas vezes, a diferenca tem mais a ver com o tema da pesquisa do que com a qualidade intrinseca, dados os diferentes padroes de citacao observados nas subareas de um mesmo campo cientifico. Do ponto de vista das avaliacoes do CNPq para a area de Saude Coletiva, por exemplo, faria mais sentido separar os artigos usando apenas tres estratos do Qualis, e nao os sete originais. Os artigos publicados em periodicos classificados nos estratos B2 a A1 formariam um grupo, aqueles publicados em periodicos dos estratos B3 e B4 formariam outro grupo, e o terceiro seria formado pelos artigos publicados em periodicos do estrato B5.

As mesmas limitacoes apontadas para a avaliacao da producao individual dos pesquisadores se aplicam a avaliacao da producao docente para fins de promocoes na carreira academica ou para definicao de incentivos financeiros definidos pelas universidades e outras instituicoes de ensino superior. Os comites academicos encarregados dessas avaliacoes teriam de adaptar o Qualis de cada uma das areas de avaliacao antes de aplica-lo indiscriminadamente. Nesse caso em particular, como as avaliacoes, muitas vezes, implicam a comparacao entre as diferentes unidades academicas, o problema se torna ainda maior exatamente pela incomensurabilidade das classificacoes.

11 CONSIDERACOES FINAIS

Como todo instrumento de classificacao utilizado em processos avaliativos, o Qualis Periodicos apresenta uma serie de vantagens, mas traz tambem uma serie de dificuldades e problemas. Ha margem para varios desenvolvimentos dessa ferramenta, tornando-a mais apropriada para a finalidade que motivou sua criacao.

E, para que esse processo de desenvolvimento e aprimoramento ocorra, e necessario que exista melhor compreensao sobre os diferentes aspectos envolvidos. Em primeiro lugar, e preciso compreender os motivos e os pressupostos por tras do instrumento. Em segundo lugar, e essencial ter clareza sobre os principios classificatorios adotados. Em seguida, e necessario combinar diferentes fontes de informacao e indicadores de impacto, buscando minimizar as limitacoes inerentes a cada um, e, finalmente, e importante desenvolver um sistema que permita a comparacao entre diferentes areas e elimine as contradicoes atualmente existentes no sistema.

http://dx.doi.org/ 10.21713/2358-2332.2016.v13.947

Rita de Cassia Barradas Barata, doutora em Medicina Preventiva pela Universidade de Sao Paulo (USP) e professora-adjunta da Faculdade de Ciencias Medicas da Santa Casa de Sao Paulo, Sao Paulo, SP, Brasil. E-mail: rita.barradasbarata@gmail.com.

Referencias

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BORNMANN, L. How to analyze percentile citation impact data meaningfully in bibliometrics: the statistical analysis of distributions, percentil rank classes and top-cited papers. Journal of the American Society for Information Science and Technology, Carolina do Norte, USA, v. 64, n. 3, p. 587-595, 2013.

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Recebido em 28/03/2016

Aprovado em 27/06/2016
Quadro 1--Numero de titulos e aplicacao das regras comuns a listagem
de cada area de avaliacao, Qualis 2014

Area de Avaliacao                 Titulos   A1+A2   A1+A2+B1    C

CIENCIAS EXATAS E DA TERRA
Astronomia e Fisica                 739     18,8      41,8     20,0
Ciencia da Computacao               636     17,3      36,9     22,2
Geociencias                         565     23,4      47,3     5,3
Matematica, Probabilidade e         563     23,4      47,2     0,9
  Estatistica
Quimica                            1.088    18,8      40,3     17,9
ENGENHARIAS
Engenharias I                       866     19,7      34,3     14,1
Engenharias II                      966     26,1      50,0     0,0
Engenharias III                    1.375    23,9      45,7     4,1
Engenharias IV                      844     23,8      48,2     3,2
MULTIDISCIPLINAR
Biotecnologia                      1.528    21,9      42,6     11,7
Ciencias Ambientais                1.396    22,9      47,5     5,0
Ensino                              686      9,3      23,5     3,4
Interdisciplinar
Materiais                           602     18,4      40,5     13,0
CIENCIAS AGRARIAS
Ciencia de Alimentos                621     19,2      39,1     18,2
Ciencias Agrarias I                1.601    19,6      46,2     7,4
Medicina Veterinaria                749     21,9      45,5     0,0
Zootecnia e Recursos Pesqueiros     670     16,7      34,6     26,3
CIENCIAS BIOLOGICAS
Biodiversidade                     1.539    16,0      36,1     23,5
Ciencias Biologicas I              1.520    23,4      47,8     0,5
Ciencias Biologicas II             1.564    21,6      43,4     13,2
Ciencias Biologicas III             895     18,5      34,1     22,0
CIENCIAS DA SAUDE
Educacao Fisica                     772     24,5      47,9     0,0
Enfermagem                          573     24,1      46,8     2,4
Farmacia                           1.199    22,3      44,5     10,9
Medicina I                         2.084    24,0      47,9     3,2
Medicina II                        1.984    23,9      47,5     4,1
Medicina III                        711     22,2      45,3     9,1
Nutricao                            479     21,3      48,2     3,5
Odontologia                         946     25,7      42,3     1,2
Saude Coletiva                     1.177    22,0      40,4     5,0
CIENCIAS HUMANAS
Antropologia                        270     11,5      27,8     5,9
Ciencia Politica e Relacoes         391     15,9      25,3     16,1
  Internacionais
Educacao                           1.333     9,4      19,5     34,9
Filosofia                           304     14,5      35,2     14,8
Geografia                           488     18,9      32,0     14,5
Historia                            682     14,5      28,0     17,0
Psicologia                          895     23,6      46,4     2,3
Sociologia                          664      8,4      18,8     16,1
Teologia                            142     11,3      26,1     19,7
CIENCIAS SOCIAIS APLICADAS
Administracao e Turismo            1.054    19,6      32,5     2,5
Arquitetura, Urbanismo e Design     311     21,2      27,7     8,7
Ciencias Sociais Aplicadas I        477      9,9      28,3     19,7
Direito                             657     11,4      22,8     41,4
Economia                            504     11,3      25,0     11,3
Planejamento Urbano e Regional/     481     17,9      39,9     2,5
Demografia
Servico Social                      197     10,7      20,3     24,9
LINGUISTICA, LETRAS E ARTES
Artes /Musica                       346     11,0      21,7     31,5
Letras e Linguistica                890     13,8      24,4     32,9

Fonte: elaboracao propria.

Quadro 2--Exemplos de classificacao homogenea e heterogenea de
periodicos nas diferentes areas de avaliacao, Qualis 2013-2014

Area de Avaliacao            Science         Nature         Anais da
                          (FI = 17,710)   (FI = 42,351)     Academia
                                                           Brasileira
                                                          de Ciencias
                                                          (FI = 1,065)

Astronomia                     --              A1              --
Biodiversidade                 A1              A1              --
Biotecnologia                  A1              A1              --
Ciencias Agrarias              A1              A1              A1
Ciencia de Alimentos           --              --              B2
Ciencias Ambientais            A1              A1              B1
Ciencias Biologicas I          A1              A1              --
Ciencias Biologicas II         A1              --              B4
Ciencias Biologicas III        A1              --              --
Engenharias II                 --              A1              --
Geociencias                    --              A1              B1
Medicina I                     --              --              B2
Medicina II                    --              A1              B2
Medicina Veterinaria           --              --              B2
Quimica                        --              A1              B2
Zootecnia                      --              --              B1

Fonte: Webqualis Capes. Disponivel em: <www.sucupira.capes.gov.br>.
Acesso em: out. 2015.

Quadro 3--Exemplos de classificacoes heterogeneas para periodicos
brasileiros de escopo multidisciplinar, Qualis 2014

Area de avaliacao               Cadernos de    Dados--Revista de
                               Saude Publica   Ciencias Sociais
                                (FI=1,097)        (FI= 0,327)

Direito                             A1                A1
Ciencia Politica                    --                A1
Historia                            --                A1
Planejamento Urbano,                A1                --
  Regional e Demografia
Sociologia                          --               A1
Administracao e Turismo             A2                A2
Antropologia                        A2                --
Ciencias Ambientais                 A2                B1
Ciencias Sociais Aplicadas I        A2                --
Enfermagem                          A2                --
Ensino                              A2                --
Odontologia                         A2                --
Psicologia                          A2                --
Saude Coletiva                      A2                --
Servico Social                      A2                A2
Ciencias Agrarias                   B1                B2
Educacao Fisica                     B1                --
Engenharias III                     B1                --
Nutricao                            B1                --
Economia                            B2                B2
Educacao                            B2                --
Engenharias IV                      B2                --
Medicina I                          B2                --
Medicina II                         B2                --
Medicina Veterinaria                B2                --
Biodiversidade                      B3                --
Biotecnologia                       B3                --
Farmacia                            B3                --
Medicina III                        B3                --
Ciencias Biologicas I               B4                --
Ciencias Biologicas II              B4                --
Ciencias Biologicas III             B4                --
Ciencia da Computacao                C                --

Area de avaliacao                Ciencia &
                               Saude Coletiva
                                 (FI=0,761)

Direito                              --
Ciencia Politica                     --
Historia                             --
Planejamento Urbano,                 A2
  Regional e Demografia
Sociologia                           --
Administracao e Turismo              --
Antropologia                         --
Ciencias Ambientais                  --
Ciencias Sociais Aplicadas I         --
Enfermagem                           B1
Ensino                               A2
Odontologia                          B1
Psicologia                           A2
Saude Coletiva                       B1
Servico Social                       --
Ciencias Agrarias                    --
Educacao Fisica                      B1
Engenharias III                      --
Nutricao                             --
Economia                             --
Educacao                             --
Engenharias IV                       --
Medicina I                           B3
Medicina II                          B3
Medicina Veterinaria                 --
Biodiversidade                       --
Biotecnologia                        --
Farmacia                             B3
Medicina III                         --
Ciencias Biologicas I                --
Ciencias Biologicas II               --
Ciencias Biologicas III              --
Ciencia da Computacao                --

Fonte: WebQualis Capes. Disponivel em: <www.sucupira.capes.gov.br>.
Acesso em: out. 2015.

Quadro 4--Fatores de Impacto correspondentes a percentis selecionados
da distribuicao dos periodicos das areas de Ciencias Exatas e da Terra,
2012

Percentil   Matematica   Computacao   Fisica   Quimica   Geociencias

P25           0,380        0,430      0,340     0,530       0,240
P50           0,645        1,010      0,850     1,310       0,750
P75           1,118        1,920      1,790     2,640       1,690
P90           1,900        3,158      3,266     4,286       2,661
P95           2,441        4,032      5,926     5,906       3,290

Fonte: elaboracao propria.

Quadro 5--Fatores de impacto correspondentes a percentis selecionados
da distribuicao dos periodicos das areas de Ciencias Sociais e Humanas,
2012

Percentil   Economia   Administracao   Educacao   Geografia   Direito

P25          0,193         0,240        0,160       0,090      0,130
P50          0,515         0,580        0,460       0,315      0,380
P75          1,130         1,230        0,940       0,733      0,870
P90          1,980         2,229        1,500       1,236      1,314
P95          2,833         3,170        2,052       1,787      1,701

Fonte: elaboracao propria.
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Author:Barata, Rita de Cassia Barradas
Publication:Revista Brasileira de Pos-Graduacao
Date:Jan 1, 2016
Words:8165
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