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Tempo e memoria nas gravuras de Evandro Carlos Jardim.

Time and memory in Evandro Carlos JardimS intaglio etchings

Introducao

O trabalho poetico de Evandro Carlos Frasca Poyares Jardim (Sao Paulo, 1935) se faz atraves de sucessivos registros de aproximacao com os elementos que compoem seu cotidiano: a arvore, a montanha (o pico do Jaragua), a xicara, a prensa de gravura em metal, a borboleta na janela, e tudo o que ele ve a partir de seu atelie. Ha em suas obras um projeto que retrata as transfiguracoes da paisagem.

Aos 83 anos, Evandro segue com vitalidade produzindo gravuras, atento ao seu entorno, gravando e imprimindo uma imagem atras da outra. Na gravura em metal, o artista trabalha sobre uma placa (usualmente cobre) com instrumentos cortantes como ponta-seca, buril, raspador, brunidor, utilizando tambem breu, acidos, mordentes e vernizes de protecao para elaboracao da imagem na matriz de metal, com linhas, hachuras e meios-tons. Posteriormente, esta imagem gravada na matriz sera entintada e transferida para o suporte, normalmente o papel. E ai se completa o ciclo da gravura: matriz gravada e estampa impressa.

Evandro Carlos Jardim iniciou seus estudos no campo da arte aos 18 anos, quando ingressou na Escola de Belas Artes de Sao Paulo, em 1953. Em 1956, estudou gravura em metal com Francesc Domingo Segura. Em paralelo a carreira artistica, Jardim desenvolveu tambem atividade docente em varias instituicoes de Sao Paulo, como professor no ensino secundario, e depois no ensino superior: na Escola de Belas Artes; na Fundacao Armando Alvares Penteado (FAAP), e na Escola de Comunicacoes e Artes da Universidade de Sao Paulo (ECA/USP). Docente na graduacao e pos-graduacao, Jardim foi professor de toda uma geracao de gravadores, contribuindo para a formacao de artistas nao so em Sao Paulo, como de muitas outras regioes do Brasil, atraves de inumeros cursos que ministrou em diversas cidades. Desde a juventude, participou de inumeros saloes, sendo premiado diversas vezes. Evandro participou de exposicoes individuais e coletivas em varios museus do mundo. Entre as exposicoes mais importantes podemos destacar a Bienal de Veneza e as Bienais Internacionais realizadas em Sao Paulo. E, em 1974, recebeu o Premio de Melhor Gravador do Ano, concedido pela Associacao Paulista dos Criticos de Arte (APCA).

1. Materializar as transformacoes produzidas pela luz

Nos processos operacionais intrinsecos as gravuras em metal de Evandro Carlos Jardim ha uma combinacao que liga uma objetividade artesanal primorosa com a subjetividade de sua imaginacao criadora.

Suas gravuras sao intimistas, silenciosas, e fixam "interiores quietos ou a pequena paisagem ao redor da casa" (Morais, 1986:s/p), pois traduzem objetos que ficaram imersos no tempo (Figura 1).

Vejo nas imagens produzidas por Evandro Carlos Jardim um extremo cuidado com as delicadezas que compoem a vida. A imagem convida o olhar a dedicar-se a ela. Sutilezas, densidades, pequenas incisoes, uma linha branca que demarca o contorno arredondado do pires, ou pequenas manchas na lateral da xicara, que nos instigam a decifra-las. Misterio.

Evandro dizia que a obra de arte e, em si, misteriosa. "Ela e misteriosa ate o momento em que voce pode comecar a entende-la como manifestacao humana sensivel" (Jardim, 2018:s/p). Em entrevista em video, Evandro comenta a importancia da luz em seus trabalhos: "Abril e o mes desta luz que estamos vendo [...] e a preparacao de abril no trabalho propoe uma mudanca de luz durante os doze meses" (Jardim, 2018).

Ele esta interessado nessa luz que constroi "as imagens do mundo das figuras [...] do mundo visivel, durante o ano" (Jardim, 2018). E esse e seu desafio: materializar as transformacoes que a luz produz nos objetos e nas figuras visiveis atraves desta linguagem que ele escolheu: a gravura.

Sua dedicacao a elaboracao das gravuras e surpreendente. As pequenas manchas, os sutis lavis que funcionam como meios-tons aquarelados na imagem, a sobreposicao de gravacoes ate que a imagem se forme do modo como ele tinha imaginado, tudo isso traz a tona a densidade das formas que contemplamos em suas estampas.

Suas gravuras nos devolvem, atraves de um dominio tecnico apurado e sensivel, aquilo que talvez quisessemos esquecer ou rechacar: a imprevisibilidade que nos circunda, a subjetividade de cada olhar, a incerteza diante da realidade, o fugaz que ha em cada cena, a finitude do que esta diante de cada um de nos, ou a nossa surpresa com a fragilidade da propria vida.

Conforme o critico de arte Frederico Morais, as gravuras de Evandro Carlos Jardim funcionam como uma "especie de diario intimo", ou como um caderno de notas (Morais, 1986:s/p). O caderno de notas, nas palavras da artista e professora Claudia Franca, seria este receptaculo que recebe as formas e as ideias: o lugar para o "deposito de lembrancas materiais diversas, ocorrencias e experiencias de um sujeito, ao sabor de uma frequencia temporal" (Franca, 2014:71).

Mas, se em algumas imagens temos esta sensacao de intimidade e silencio, em outras, vemos o registro de tudo o que o artista vai coletando em suas caminhadas pela cidade de Sao Paulo. O ponto "zero" e seu atelie, e as imagens nos mostram ate onde sua vista alcanca.

2. O Atelie como "ponto zero"

No atelie de Evandro Carlos Jardim, na Granja Julieta (bairro da capital paulista), ha uma bancada de peroba com as marcas da trajetoria do artista. "O professor Pietro Maria Bardi, quando me visitava, ficava admirado com esta bancada", conta ele (Jardim apud Kiyomura, 2018:s/p). Nela podemos ver as marcas e as impressoes deixadas pelo uso diario das ferramentas. A bancada fica "diante de uma grande janela. O sol entra e vai distribuindo a luz sobre os sulcos e incontaveis linhas na madeira, sugerindo a paisagem do tempo" (Kiyomura, 2018:s/p). A passagem do tempo e as mudancas de luz criam novas paisagens, nas linhas decalcadas nestas superficies.

O circulo (Figura 2) esta presente em muitas de suas obras e constitui-se como referencia a este lugar, o atelie. Como uma elaboracao intelectual, o circulo representa o tempo ciclico, ou o centro de um espaco imaginario. O circulo e tambem esse tempo pessoal, "um tempo do entendimento, da percepcao, da observacao" (Jardim apud Macambira, 1998:113).

Agua-forte, agua-tinta, ponta-seca e buril constituem as imagens, com elementos que compoem e recompoem series sem um fim predeterminado ou muito definido.

A origem da gravura em metal remonta 1445, cuja tecnica foi iniciada por ourives. A gravura pressupoe um 'beijo', um encontro, uma troca entre a matriz e o suporte contra o qual e pressionada. As 'gravuras originais' sao gravadas e impressas a mao, normalmente em edicoes pequenas, assinadas e numeradas pelo artista. Evandro Carlos Jardim nao se interessa pela multiplicacao em larga escala de suas imagens, optando por edicoes restritas.

Existe ainda uma caracteristica particular ao gravador e sua obra: diferente do desenhista ou do pintor que trabalham diretamente sobre a materia definitiva de sua criacao (o papel ou a tela, por exemplo), o gravador utiliza a matriz como um estagio intermediario, pois suas acoes se dao neste outro meio, que nao e o definitivo de sua realizacao. O gravador nao consegue verificar imediatamente o resultado de uma pincelada, de uma incisao ou de um traco realizado sobre a superficie da matriz, pois necessita imprimir a estampa para enxergar o andamento de seu trabalho. O mais importante na edicao das imagens, para Evandro Carlos Jardim, e que este processo o ajuda a pensar, e a entender o modo como deve organizar as imagens que cria.

'Nao uso a tecnica da gravura como multiplicadora de imagem, uso-a como uma forma de pensar meu trabalho, conta, para explicar por que faz edicoes de no maximo cinco copias. 'Nao gosto de entregar o trabalho de edicao a um tecnico impressor. O processo de fazer e editar a gravura me ajuda a entender as imagens que crio e como devo reorganiza-las'. (Moraes, 1991:s/p)

A imagem se mantem 'virtual' enquanto possui existencia exclusiva na matriz; apenas depois de ser transferida para o suporte saberemos o que de fato ocorreu. Estas impressoes que sao feitas ao longo do processo de realizacao da imagem na matriz se chamam "provas de estado", pois servem para que o artista possa conferir cada estagio do que esta sendo gravado na matriz. Durante esta etapa de elaboracao das imagens, nas gravuras de Evandro Carlos Jardim, muitos detalhes podem ser acrescentados ou literalmente apagados.

A imagem e gravada atraves de sucessivas aplicacoes de acidos sobre uma chapa de cobre, denominada matriz, que depois recebe tinta e vai a prensa para transportar a imagem ao papel. Esse e o processo convencional, que Evandro enriquece ao acrescentar ou eliminar figuras em inumeras gravacoes adicionais que destroem as imagens inicialmente tracadas. (Moraes, 1991:s/p)

Esta peculiaridade da gravura exige do gravador um esforco intelectual e sensivel constante. Suas acoes se projetam no tempo, suas apostas se dao no espaco em que realiza suas intervencoes; e a imagem que, na matriz, e apenas promessa, so se completa depois que a estampa e impressa.

Os processos operacionais, sejam eles manuais, mecanicos ou eletronicos fazem parte do repertorio do gravador. Evandro Carlos Jardim ensina que o gravador precisa conversar com as ferramentas (o material instrumental), e com a materia para chegar a um acordo. E e necessario superar (ou anular) a falta de coerencia gerada pela ignorancia, dai a necessidade da educacao e da informacao. A obra de arte sera a resultante da objetividade artesanal e da subjetividade (intuicao) criadora. Estas duas instancias da obra andam juntas, e e impossivel dissocia-las. A obra de arte e fruto, antes de tudo, de uma experiencia estetica (Jardim, 2000).

No entanto, a pergunta que deve ser feita se da em relacao ao presente ou ao passado: o passado e importante ou ele seria um obstaculo? A propagacao das tecnicas ancestrais, como e o caso da gravura em metal, se faz de forma igual ou desigual? (Jardim, 2000).

Elementos tecnicos provenientes de epocas diversas podem conviver harmoniosamente na mesma matriz de metal. E, neste sentido, Evandro se pergunta: haveria possibilidade de articulacao de estruturas pertencentes a sistemas diferentes? Ha ruptura entre eles? Ha processos que estao encerrados? Ha tecnicas que nao interessam mais? A gravura seria uma delas? Ou a gravura se reinventa e se mantem? (Jardim, 2000).

Ele nao deixa duvidas: temos que verificar de que modo os residuos do passado dificultam ou facilitam o que se faz hoje.

Se a tradicao e entendida, no Ocidente, como a repeticao deformas dos mestres, passa a ter um sentido negativo. Porem, se a tradicao for entendida como a transmissao da "forca vital" que passa de uma geracao a outra, entao, ela passa a ter uma acepcao positiva. E e por ai que a gravura levanta as maiores polemicas. (Jardim, 2000:s/p).

Para Evandro, a tradicao na gravura deve ser vista no bom sentido, como transmissao desta forca vital. Ele segue com este pensamento, e dedica sua vida a aprimorar esta linguagem que ele elegeu como manifestacao expressiva (Jardim, 2018).

3. A atmosfera de um lugar

Apesar do repertorio reduzido de imagens, as arvores (Figura 3), os passaros, o atelie, os frutos, ou um cavalo morto, funcionam como uma especie de dicionario visual. O que vemos, atraves das gravuras de Jardim, e tambem um convite a refletir sobre o tempo, sobre a memoria e sobre a (falta de) permanencia das coisas ao nosso redor. As ideias que ele pretende colocar em pratica funcionam como um "desenho absolutamente aberto" (Jardim, 2018:s/p).

O desenho epercurso; o desenho e designio; o desenho eprojeto. [...] o primeiro desenho e um desenho que nos visita, que nos forma, e que nos propicia manifesta-lo de acordo com nossas intencoes e nossas necessidades de expressao. (Jardim, 2018:s/p)

Desde o final da decada de 1980, o que importa a Evandro Carlos Jardim e a apreensao da atmosfera de um lugar. Estes registros sao feitos a partir da captura das diferencas de luz e espacialidade de um lugar, confrontando os limites de distancia ate onde sua vista alcanca. Redesenhar este trajeto faz parte de um trabalho ao qual se dedica ha mais de 40 anos. Algumas imagens, como por exemplo a serie de Interlagos (bairro vizinho a seu atelie), sao retomadas mais de 30 anos depois de seu inicio.

Conclusao

A trajetoria de Evandro Carlos Jardim conta com mais de 50 anos de producao ininterrupta de gravuras em metal, desenhos e pinturas. Observacao e registro sao partes deste trabalho que acontece no tempo, no qual Evandro recupera cenas, personagens e eventos do seu cotidiano.

Suas gravuras nos fazem repensar sobre nossa propria historia, e nos reconduzem ao comum ou ao banal de nossas vidas. No entanto, seu objetivo nao e retratar a paisagem real, mas sim, transfigurar as aparencias do real.

Referencias

Associacao Profissional de Artistas Plasticos de Sao Paulo (2018). [Consult. 2018-12-26] Disponivel em URL: http://www.apap. art.br/associados/280/evandro-carlosjardim/#prettyPhoto

Cole, Ariane Daniela et alli (2010). A poetica de Evandro Carlos Jardim: Figuras, seres, tempo e lugares. Relatorio Cientifico do Projeto de Pesquisa. Sao Paulo: Mackpesquisa.

Enciclopedia Itau Cultural de Arte e Cultura Brasileiras (2018). Sao Paulo: Itau Cultural.

Franca, Claudia. (2014). Cadernos de notas: (des)folhamentos de tempo. Farol (Vitoria), v. 10: 70-76.

Jardim, Evandro Carlos (2018). Entrevista com Evandro Carlos Jardim (video). Associacao Profissional de Artistas Plasticos de Sao Paulo (2018). [Consult. 2018-12-26] Disponivel em URL: http://www.apap. art.br/associados/280/evandro-carlosjardim/#prettyPhoto

Jardim, Evandro Carlos (2000). Curso de Gravura em Metal ministrado pelo artista. Anotacoes pessoais, mimeo.

Kiyomura, Leila (2018). Evandro Carlos Jardim observa a gravura na arte contemporanea Jornal da USP, Sao Paulo, 31/08/2018.

Macambira, Ivoty (1998). Evandro Carlos Jardim. Sao Paulo: Edusp.

Moraes, Angelica (1991). A cidade pelos mapas imaginarios de Jardim. Jornal da Tarde, Sao Paulo, 13/06/1991.

Morais, Frederico (1986). DACOLECAO: os caminhos da arte brasileira. Introducao Cesar Luis Pires de Mello; texto Frederico Morais; apresentacao Julio Bogoricin. Sao Paulo: Julio Bogoricin.

ANGELA RAFFIN POHLMANN, Brasil, artista visual.

Artigo completo submetido a 30 de dezembro de 2018 e aprovado a 21 janeiro de 2019

AFILIACAO: Universidade Federal de Pelotas. Rua Alberto Rosa, 62, Bairro Centro, CEP: 96010-770, Pelotas, RS, Brasil. Email: angelapohlmann@gmail.com

Leyenda: Figura 1 * Evandro Carlos Jardim. Em casa. Gravura em metal. 18,5 cm x 21 cm, 1974. Fonte: Enciclopedia Itau Cultural, 2018.

Leyenda: Figura 2 * Evandro Carlos Jardim. Da serie: A noite no quarto de cima. Gravura em Metal, (s/d). Fonte: Cole, 2010.

Leyenda: Figura 3 * Evandro Carlos Jardim. A Visao Mais Distante da Arvore. Gravura em Metal. (s/d). Fonte: Enciclopedia Itau Cultural.
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Title Annotation:Artigos originais
Author:Raffin Pohlmann, Angela
Publication:GAMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2655
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