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Temas e discursos em destaque: inquietacoes e analyses.

POSSENTI, Sirio. Questoes para analistas do discurso. Sao Paulo: Parabola Editorial,

2009.183 p. ISBN 978-85-88456-94-5.

Em Questoes para analistas do discurso, o professor e pesquisador Sirio Possenti, vulto sempre polemico nas pesquisas em Analise do Discurso no Brasil, reune uma serie de reflexoes acerca de tematicas que fomentam debates nos eventos cientificos em que circulam e, em Nota previa, o autor ja anuncia a heterogeneidade temporal e tematica com que devemos nos deparar por ocasiao da leitura de sua obra que se constitui de catorze capitulos-artigos, os quais, frutos de suas participacoes em eventos, provem de momentos distintos de sua carreira academica e permeiam focos diversos de sua area do conhecimento.

No primeiro artigo-capitulo, Relacoes entre a analise do discurso e leitura, o linguista pontua a participacao fundamental da Analise do Discurso (AD) nas investigacoes acerca do processo de leitura e o diz demonstrando consciencia de que a AD nao atua diretamente sobre a totalidade dos processos que envolvem o ler, apesar de embasar a analise de muitas pesquisas sobre o tema. Resgata, ainda, as duas principais abordagens da teoria discursiva sobre a questao: a que prima pelo estudo do dispositivo social de circulacao dos textos e a vertente que se volta a questao do sentido propriamente ditto--vertente para a qual ele destina maior enfoque.

O segundo capitulo--O discurso a respeito de leitura em editoriais da ALB--trata de uma palestra realizada por Possenti por ocasiao do 12 COLE (Congresso de leitura), que se deve, segundo as explicacoes do autor, a preocupacoes, acerca de discursos recorrentes em boletins informativos da Associacao de Leitura do Brasil (ALB) e em textos produzidos por alguns de seus dirigentes nos editoriais da revista "Leitura: teoria e pratica". Entre as teses que o abateram e o motivaram a tratar do tema estao a ideia de que nao se conhece a realidade da leitura no Brasil e de que ha indicacoes que permitiriam dizer que a situacao e bem melhor do que se pensa. Em conclusao, o autor constata que "parece continuar sendo verdade que se le muito pouco, embora se leia mais do que se pensa(va). E e apenas porque ainda se le muito pouco que o discurso que repete esta tese se mantem (p. 38).

O terceiro artigo-capitulo, Ler embalagens, salienta o carater heterogeneo inerente nao so as embalagens de produtos (embora o titulo assim o antecipe), mas ao que ele vai chamar de textos de embalagens: bulas, receitas, contratos, propagandas, informacoes sobre montagens e uso de aparelhos etc. A partir da heterogeneidade constitutiva desses objetos, o autor recupera os ditos de Foucault a despeito dos discursos dispersos e o faz para ressaltar a nocao de nao- unicidade. Nesse caminho, Possenti descreve os recursos verbovisuais usados em embalagem de cookies de suco de soja e, a partir de um gesto de leitura sobre composicoes discursivas publicitarias, quimicas e legais, mostra que, tao dispersos quanto a essencia dos textos analisados e descritos, estao os proprios sujeitos enunciadores dos mesmos.

Em O linguistico e o sentido, o autor discute temas que implicam concepcoes diferentes e, por vezes, equivocadas dos fenomenos: a homonimia, a polissemia, os implicitos, as posicoes vazias e a ambiguidade. Ao longo dessas analises, Possenti nos fornece uma reiteracao bastante oportuna de conceitos e teoricos da AD em contraste a concepcoes de outras teorias linguisticas conhecidas e procura chamar atencao para o fato de que cada objeto analisado requer um olhar conceitual preciso, que so sera pertinente, entre outros aspectos, a partir de uma definicao clara da teoria linguistica escolhida e de uma visao cuidadosa sobre como funciona a memoria discursiva.

Ja o capitulo, Sobre lingua e discurso, aponta para o preocupante abandono do material propriamente linguistico por algumas teorias que so se tem interessado por fatores situacionais ou circunstanciais. Da mesma maneira, Possenti alerta para a incoerencia teorica de algumas posturas e se propoe a trilhar alguns autores como Foucault e Bakhtin que, fundamentais a AD, nao deixam de reconhecer a relevancia da materialidade linguisticotextual dos objetos de analise.

Na sequencia, o setimo capitulo, Observacoes esparsas sobre discurso e texto, trata da constante confusao que se faz entre o que e realizar uma analise de discurso ou de texto. Possenti explica que essa divisao normalmente e fruto da escolha de dispositivos teorico-metodologicos pelo analista ou pelos proprios resultados obtidos e, mais especificamente, pela crenca recorrente de que a AD trabalha unicamente com textos, como objeto de analise, e que, portanto, possa ser configurada como mais uma teoria de analise textual.

Em Dez observacoes sobre a questao do sujeito, Possenti ressalva que este e um dos temas mais recorrentes nas brigas conceituais entre algumas vertentes de estudos linguisticos e a AD e opta por tracejar, neste capitulo, dez teses que contemplam questoes que ele ja defende ou aponta ao longo de seu incessante estudo sobre o sujeito.

No capitulo 9, o artigo Enunciacao, autoria e estilo vem demarcar a tese de Possenti sobre como esses tres temas podem ser tratados conjuntamente (e o esboca por meio de uma investida a textos escolares) e na perspectiva dos estudos discursivos, desde que algumas condicoes sejam atendidas por ocasiao de analises, tais como a retirada da nocao de estilo do dominio do romantismo (com apologia a Bakhtin), a redefinicao da concepcao de autoria para alem da relacao autor-obra (sob apoio das palavras de Foucault) e a adocao de uma concepcao de enunciacao que possa dar conta simultaneamente da producao dos discursos a partir de uma posicao e como acontecimento irrepetivel.

No capitulo Indicios de autoria, situa-se como a nocao de autoria tem sido recorrente em pesquisas diversas e, na maioria desses estudos, e abordada em consonancia aos conceitos de locutor e singularidade. Remetendo-se a escrita na escola, Possenti elege o tratado de Foucault sobre a tematica numa delineacao das diferencas entre autor e escritor, saindo, assim, da nocao de obra para mostrar como um texto deve ser avaliado unicamente em termos discursivos para que nao se caia apenas na verificacao de categorias da textualidade ou ate de categorias da gramatica.

A nocao de acontecimento e o titulo do decimo primeiro capitulo. Nele, o autor explica como essa nocao tem relevancia para a AD por sua relacao com a enunciacao e com a historia. E, apesar de considerar sumaria a contribuicao de Pecheux para o tratamento do assunto, considera que a AD nao privilegiou suficientemente a questao.

Com o capitulo Slogans que se retomam, trata da concepcao de memoria com o objetivo de, a partir de analises de alguns slogans politicos, questionar se esses exemplos condizem a memoria discursiva (defendida pela AD) ou a uma memoria de sujeitos (num sentido mais cognitivo ou pragmatico), e o faz em defesa da tese de que, nas propagandas politicas, "a memoria invocada deve ser algo mais que a maquinaria discursiva [...] na medida em que o efeito pretendido tem a ver com as retomadas e as associacoes realizadas pelos eleitores" (p. 128).

Ducrot e a analise do discurso e o capitulo em que Possenti segue um percurso de construcao (aproximacao de Ducrot a AD francesa) e desconstrucao (separacao das duas teorias com ressalvas a ambas), a partir do tratamento aos conceitos de implicito, topoi e polifonia. A proposta do autor e que tais conceitos discutidos por Ducrot sao muito proximos as ideias defendidas em AD--o que, segundo Possenti, deveria ser considerado pela linha discursiva (em formulacao do problema) mais que a aceitacao dos resultados propostos pelo outro.

No penultimo capitulo, Observacoes sobre interdiscurso, Possenti se propoe a comentar algumas definicoes de interdiscurso, colocando em questionamento a concepcao interdiscursiva existente em Pecheux (1990) e em Courtine (1981), a partir de discussoes que recuperam nocoes de interditos, pre-construidos e formacoes discursivas, e sinaliza-se mais favoravel a proposta de Maingueneau de substituir a nocao de interdiscurso pela consideracao de tres instancias distintas: o universo discursivo, o campo discursivo e os espacos discursivos.

Sobre dois conceitos de Foucault e o titulo que encerra a coletanea. Aludindo a uma fala de Roberto Baronas no GEL de 2005, quando este alertava que muitas pesquisas em AD repetem, como cliches, analises que se escondem a partir da mencao a Pecheux, Bakhtin e Foucault, pela representatividade desses teoricos na linha, Possenti acrescenta que, frequentemente, leituras desses autores sao tambem equivocadas como, por exemplo, as que atribuem a Foucault discussoes estendidas sobre saber e verdade com inovacoes, que nao condizem com os pressupostos teoricos do frances.

Por fim, faz-se pertinente ressaltarmos a relevancia deste projeto de Possenti aqui resenhado. A nosso ver, na dispersao contemporanea e recorrente dos conhecimentos engendrados nas producoes academicas que figuram nas mesas redondas, conferencias, palestras e comunicacoes em eventos distintos, o empreendimento de um pesquisador de peso como Possenti, no sentido de nos oferecer uma obra em que temos acesso ao fio condutor de suas concepcoes, sem a necessidade de uma busca incessante no universo perdido dos CDrom e anais de ventos, representa um gesto inigualavel de carinho pelos leitores.

Somada a esse apreco, ja demonstrado em outra coletanea de textos seu o premio que nos foi deixado pelo autor se configura na maneira como trilha suas inquietacoes sobre temas tao (de) batidos pelos analistas do discurso. Em sua fala, fica sempre aberto o convite tanto a uma cumplicidade de pensamentos por parte do leitor, quanto a uma imediata naofiliacao as suas propostas (dada, inclusive, certa "polemicidade" no tratamento dos assuntos e autores). Nesse ultimo caso de recepcao, concomitante a discordancia conceitual esta a fomentacao de uma necessidade de empreender-se na pesquisa em busca de dizeres capazes de promover, junto aos seus, um debate, no minimo, enriquecedor. Nossa unica restricao e que a riqueza de suas postulacoes parece ser passivel de apreciacao, em especial, por aqueles que ja trilham (ou conhecem) os caminhos epistemologicos da AD, tal como sugere o titulo de seu livro, por se tratar realmente de questoes para analistas do discurso.

Received on May 9, 2009. Accepted on June 22, 2009.

Referencias

COURTINE, J. J. Analyse du discours politique; le discours communiste adresse aux chretiens. Langages 62. Paris: Didier-Larousse, 1981.

PECHEUX, M.; FUCHS, C. A proposito da analise automatica do discurso: atualizacao e perspectiva. In.

GADET, F.; HAK, T. (Org.). Por uma analise automatica do discurso. Uma introducao a obra de Michel Pecheux. Campinas: Unicamp, 1990. p. 161-252.

License information: This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.

DOI: 10.4025/actascilangcult.v31i2.6985

Elaine de Moraes Santos (1) * e Maria Celia Cortez Passetti (2)

(1) Faculdade de Ciencias e Letras de Campo Mourao, Av. Comendador Norberto Marcondes, 733, 87302-060, Campo Mourao, Parana, Brasil.

(2) Universidade Estadual de Maringa, Av. Colombo 5790, 87020-900, Maringa, Parana, Brasil. * Autor para correspondencia. E-mail: elainemsmga@hotmail.com
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Title Annotation:texto en portugues
Author:de Moraes Santos, Elaine; Cortez Passetti, Maria Celia
Publication:Acta Scientiarum Language and Culture (UEM)
Article Type:Resena de libro
Date:Apr 1, 2009
Words:2022
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