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Tele-visions in contemporary interfaces/Tele-visoes em interfaces contemporaneas.

Introducao

O Dicionario Aurelio on-line define interface como um "dispositivo (material e logico) gracas ao qual se efetuam as trocas de informacoes entre dois sistemas"; como o "limite comum a dois sistemas ou duas unidades que permite troca de informacoes" etc.

No estudo das televisualidades as vezes atualizamos o verbete aureliano com sentidos mais proximos ao de dispositivo, e as vezes mais proximos ao de limite comum a dois sistemas, mas as duas definicoes sao concernentes a problematizacao fenomenologica da TV sob o impacto das novas midias. Assim, contemporaneas, nos termos de Agamben (2009) seriam as interfaces que coexistem no presente, e que, no conjunto, conseguem falar da TV, das outras midias e da epoca em que elas estao se realizando. Nessas interfaces coalescem multiplas temporalidades historicas da TV: sincronicas, diacronicas ou anacronicas, elas sao sintomaticas de todas as coalescencias que habitam o "nosso tempo", temporalidades particularmente criticas (ou dialeticas) quando se manifestam em tantos e diversos espacos (as interfaces) nos quais se presentificam ou atualizam hoje.

As interfaces de que estamos falando tem quase sempre uma faceta mais visivel ao usuario/espectador (as vezes chamada de interface grafica) que e uma parte especifica da interface que nao deve ser confundida com o todo, pois se trata "apenas" de uma manifestacao ou visualizacao da mesma. Faltam-nos ainda alternativas para designar com maior precisao do que se trata em cada caso, e seguimos falando, no caso de audiovisuais, em telas, mesmo sabedores da insuficiencia do termo. Em todo o caso, trata-se daquele espaco da interface em que as narrativas audiovisuais se dao a ver e ouvir desenrolando-se, e que seguiremos convenientemente chamando aqui de tela. Nas telas se disfarcam a percepcao todas as demais facetas da interface da midia, que, no entanto, continuam agindo sobre o que se ve e se ouve.

Para avancar em nossos apontamentos, inicialmente e necessario reconhecer a existencia contemporanea dos seguintes principais formatos de telas que importam ao artigo:

--o de monitores de TV;

--o de computadores;

--o de dispositivos moveis.

Nem todos os conteudos televisivos sao ofertados em cada uma das situacoes, mas em cada um desses formatos pode-se assistir aos mesmos conteudos televisivos ainda que de modos distintos por conta:

--do tamanho das telas dos suportes;

--dos modos operacionais de cada midia;

--da mobilidade do suporte e do espectador.

Alem disso, muitas vezes se ignora ou negligencia a experiencia estetica, o repertorio cultural e a competencia tecnica do usuario, que deseja ou precisa navegar ativamente por todas as diferentes interfaces intermediarias que o levam finalmente ate o ecran de visualizacao dos conteudos em um dispositivo fixo ou movel, no qual, entao, se assiste aos mesmos conteudos em imagens que diferem "apenas" na forma de sua "espacializacao".

Frisamos essa apenas aparente banalidade a partir de Bergson (passim), para quem todas as coisas (sic) sao um misto de duas tendencias: uma que e virtual, da ordem do tempo e da duracao da coisa (e a ordem dos conceitos e da memoria); e uma que e sua atualizacao ou realizacao numa forma, e que e da ordem do espaco e da materialidade da coisa, nos quais a coisa segue durando como potencia e devir, aguardando outras suas atualizacoes. As duracoes no tempo diferem de natureza umas das outras (sao coisas verdadeiramente diferentes); as atualizacoes diferem entre elas apenas em grau (nao sao outras coisas, apenas outras atualizacoes da mesma coisa).

Diferencas de grau e diferencas de natureza sao as diferencas propostas pelo autor para problematizar os mistos que, a seu ver, sao frequentemente "mal colocados", na filosofia e na ciencia. Essa problematizacao atravessa a obra do filosofo, sendo que ela foi sistematizada como metodo (a intuicao, ou metodo intuitivo) por Deleuze (2004). Bergson (passim) propoe refletir criticamente sobre a especificidade das coisas. Para ele, as coisas podem diferenciar-se umas das outras no espaco/forma (falsas diferencas) ou diferenciar-se de si mesmas no tempo (as verdadeiras diferencas).

A TV que nos interessa aqui e a que dura e devem como midia. Essa TV que dura e, ja, porem, uma atualizacao da tele-visao. Para facilitar o entendimento, no artigo estaremos chamando de "TV" a consagrada e habituada "midia" televisao, que e, no entanto, uma das atualizacoes rizomaticas (realizacoes na materia/ forma) de uma virtualidade ou duracao que a precede e transcende: a tele-visao. Na medida em que nos fomos aprofundando na fenomenologia bergsoniana, depreendemos que--considerando o que o filosofo propos quando disse que todas as coisas tem dois modos: o de ser (sua virtualidade ou duracao) e o de agir (suas atualizacoes ou realizacoes na materia); e considerando o que o filosofo propos quando disse que todas as coisas sao um misto de duas tendencias (a virtual e a atual, relativas ao seu tempo/duracao e ao seu espaco/materializacao, respectivamente)--a TV pode ser entendida tanto como uma atualizacao da tele-visao (um dos modos de agir da tele-visao) quanto uma virtualidade ela mesma (o modo de ser de uma especie da tele-visao que se atualiza e age como TV atualizando-se em outras materialidades nas quais continua, porem, em devir, como televisualidade).

Embora possa parecer que estamos complicando o entendimento do tema sob o vies adotado para sua analise, parece-nos que o estudo da midia tem sido as vezes bastante simplificadora quando reduz seu entendimento a analise dos conteudos veiculados por ela, o que e ainda mais problematico e insuficiente sob a convergencia dos meios oportunizada pela digitalizacao de conteudos de qualquer midia e por sua dispersao na internet. Uma parte da arqueologia da midia vem recuperando um pouco esse horizonte quaseabandonado. E uma parte dos estudos de TV vem recuperando as complicadas reflexoes de McLuhan e Powers (1993) sobre a mensagem dos meios, sobre as relacoes entre figura e fundo e sobre as leis da midia. E nessas duas direcoes que nos interessam mais a genealogia e a fenomenologia dos meios e os estudos da mensagem do meio, duas visadas que se coadunam mais adequadamente com as proposicoes de Bergson (2005) sobre as especies e sua evolucao criadora, as quais nos permitem avancar no discernimento da midia TV como uma das especies resultantes da evolucao criadora da tele-visao.

Por isso, dentre tantas visadas possiveis sobre o tema decidimos abordar aqui algumas que tratam de manifestacoes da TV durante (sua tendencia virtual no tempo ou duracao) no ecran de quaisquer midias e nas diversas interfaces por elas utilizadas (sua tendencia de realizacao/atualizacao no espaco, forma, formato ou materialidade).

Reitera-se que, conforme a midia na qual se queira assistir aos conteudos passa-se por varias interfaces ate se chegar aquela em que os conteudos veiculados mais se parecem com os veiculados pela televisao. Assim, cada interface pode ser pensada como um dispositivo, e tambem como o limite entre dois sistemas, porquanto sua diversidade e ubiquidade liquefazem os sentidos antes solidos que distinguiam a tela do teor da tela, o qual, no mais das vezes e um teor imagetico.

Entretanto, em muitos casos ja nao se trata do limite de cada sistema, mas do limiar entre eles: ai, poderiamos considerar todas e quaisquer telas de imagens, desde, por exemplo, as da pintura rupestre e as a tinta/oleo em couro, madeira e "telas" etc. ate as quais se projetam imagens a laser em predios e fachadas etc., e as que se gravam em roupas, adesivos, nos corpos etc. Isso e admissivel porque, hoje, gracas ao memorialismo permitido e estimulado pela tecnologia--que e capaz de presentificar em quaisquer suportes quaisquer imagens produzidas em qualquer suporte e em qualquer tempo historico--isso torna todos os sistemas contemporaneos (no sentido historico).

No artigo simplificaremos a discussao, mas reiteramos o enfrentamento necessario do limiar entre os sistemas, limiar ja percebido e apontado por Benjamin (2006), um pensador que nao conseguimos excluir nunca de nossas consideracoes sobre a imagem. As telas de cinema, TV, computador e dispositivos moveis sao hoje as mais referidas e percebidas como tais; entretanto, todos os suportes, cada um com sua tela, cada uma veiculando uma multiplicidade fantastica de teores imageticos de qualquer origem multiplicaram-se de tal modo que e quase impossivel definir aonde comeca e aonde acaba um sistema e qual e o regime visual prevalente num e noutro. Nas interfaces historicamente mais recentes pode-se dizer que quase sempre ha televisualidades, porquanto sempre ha nelas vestigios, tracos ou lembrancas da televisao, desde o proprio teor/tema veiculado ate os formatos, as esteticas e as linguagens utilizados na construcao dos conteudos audiovisuais nelas veiculados.

Nas interfaces anteriores isso ja acontecia, mas de novo optamos por simplificar a discussao no artigo, embora nem sempre seja possivel nao recorrer a elas na analise da tele-visao, que e uma televisualidade que transcende a da midia TV. Entretanto, isso se torna mais evidente hoje, possivelmente por conta do grande impacto que a TV causou no regime de visibilidade de imagens/ textos, uma vez que as visualidades de TV tiveram um mais rapido e massivo alastramento nos habitos de recepcao e consumo de imagens do Ocidente desde meados do seculo passado.

Porem, a simples presenca de restos, cacos ou rastros da televisao em tais interfaces justifica que as entendamos como telas de TV? Se sim, entao, temos de admitir tambem, por exemplo, que os filmes aos quais assistimos na televisao sao cinema, e que a Monalisa de Michelangelo projetada na fachada de um predio, ou gravada numa camiseta, e pintura ... Ou seja, quando se liquefazem os limites fisicos e epistemologicos de cada midia, vivemos em transito no limiar de todas, e e fascinante o caos que dai decorre! Varios autores falaram sobre a liquefacao da modernidade, e nao vamos repeti-los, ainda que estejam subsumidos nos argumentos aqui expostos. Dentre eles, com certeza Bauman (2001) e o que mais impacta nosso vies.

A televisao liquida e a liquefacao dos sentidos identitarios de TV

As vezes parece que tudo que sabiamos ate ontem sobre as coisas se desmancharam no ar--ou que se as estejamos liquefazendo. Mas, a nosso ver, apesar do embaralhamento das coisas umas nas outras, elas seguem durando, cada uma delas, ontologicamente, diferenciando-se rizomaticamente de si enquanto atualizacoes da tele-visao, uma das alternativas que a cada vez mais temos considerado. Mas o mesmo ocorre com as diferenciacoes de si ou atualizacoes do cinema, ou da TV etc., dependendo de qual seja a coisa (sic) que estejamos pautando como objeto de pesquisa.

Se quisermos entender a duracao televisual, ou seja, o que dura da ontologica midia TV sob a remediacao de conteudos televisivos nas interfaces hoje existentes nas quais eles sao veiculados e moldurados como tais, e precipuo propor que uma interface--qualquer interface--e um territorio de experiencia e significacao (uma moldura, portanto) discreto ou discretizado (disfarcado), no qual se ofertam sentidos identitarios as coisas para que elas sejam entendidas como sendo tais ou quais coisas. Molduras sao quadros ou territorios de significacao e experiencia dos construtos midiaticos de coisas. Ou seja, as coisas que vemos e ouvimos do conteudo veiculado pelas midias sao por elas interfaceadas. Elas sao construidas, tecnica e esteticamente, nos modos peculiares de ser e agir de cada midia, com a aparencia imaginaria de uma pessoa, fato, acontecimento, narrativa etc. Nos termos propostos por McLuhan (1993), essa (inter) mediacao--desejavelmente discreta em seu modus operandi singular--e que e a mensagem do meio. Entao, moldurar e um modo de enquadrar e significar o que e enquadrado assim e nao de outro jeito: e produzir um ponto de vista sobre as coisas, ou um enquadre (frame) razoavel da sitiacao de algo num ambiente cultural especifico, nos termos de Goffman (1986).

No caso em pauta, trata-se de ofertar sentidos de TV as coisas assim molduradas nas interfaces que elegemos analisar. Entretanto, ai nos novamente nos atrapalhamos com os limiares da televisao, justamente porque seus limites estao se liquefazendo na intensa televisualizacao que assombra as multiplas telas e interfaces hoje existentes relacionadas (ou nao) a TV. Entao, se no artigo interessa-nos entender essa midia chamada de"televisao"replicada, mimetizada ou lembrada em interfaces de outras midias, suportes e fluxos, e preciso convocar para a reflexao os estudos sobre a producao, circulacao e recepcao de conteudos televisivos; sobre programas, generos, discursos e formatos de TV; e sobre o impacto do atual estagio da tecnica, da cultura e da economia politica sobre a TV, como um todo ou como uma de suas facetas em particular. Tambem e preciso convocar estudos que revisam teorias e metodos de pesquisa sobre televisao e televisualidades; e estudos relacionados a natureza tecnocultural, discursiva, etica e estetica de produtos ou conteudos televisuais; alem dos estudos historicos, arqueologicos e memoriais da televisao, e sua relacao com outras midias, e os estudos de audiovisualidades televisivas.

Na revisao do estado da arte que fizemos encontramos dois textos mais ou menos recentes que se coadunam com tal perspectiva: o de Cannito (2009) e o de Galvao (2006). Nesses textos os autores problematizam o estatuto da TV sob as novas midias, tem interesse em especificar e entender a acao das diferentes interfaces sobre esse estatuto e pontuam a ingerencia da cultura sobre a tecnica e vice-versa. Para tanto, ao comparar qualidades proprias do meio TV, da internet e dos dispositivos moveis sob esse vies, eles chamam a atencao para alguns aspectos do fenomeno que precisamos/queremos comentar.

A primeira diz respeito ao fluxo televisual, ao qual temos imputado--a partir de Kilpp (2003)--forte primazia para o discernimento da TV de outras midias. Sobre isso, Cannito propoe que a criacao televisiva implica a criacao de fluxos. A grande maioria dos programas de televisao tambem e organizada como fluxo, uma serie de quadros razoavelmente autonomos que se sucedem. A autonomia dos blocos (modularidade) permite que mudancas sejam feitas, quadros retirados, estendidos, tudo em constante dialogo com a audiencia (Cannito, 2009, p. 26)

Ou seja, a TV, ainda que tenha uma grade de programacao razoavelmente solida, opera na veiculacao dos conteudos sempre atenta a audiencia, que tambem esta em fluxo. Ainda que os espacos (e tempos) publicitarios vendidos para tal ou qual horario imponham algum limite as emissoras, estas podem manipular em tempo real o que estao veiculando com vistas a manter o espectador conectado--o que nao prejudica os anunciantes, pois eles tambem estao sequiosos pela audiencia.

Ja Galvao refere o impacto da estrutura da programacao televisiva sobre toda a producao audiovisual contemporanea:

A estrutura de programacao, principalmente de programas que demandam atencao exclusiva para o entendimento de seu conteudo, somada a tendencia de mudar constantemente de canal ate encontrar algo que seja interessante, tem impacto direto na estrutura e no desenvolvimento de conteudo audiovisual na atualidade (Galvao, 2006, p. 11).

Parece-nos que a navegacao (mais ou menos aleatoria) que fazemos na internet, por exemplo, assemelha-se ao zapping com o qual procuramos alcancar um conteudo no qual pausar/pousar nossa atencao. Esse conteudo encontra-se sitiado, de modos bastante similares, em "interfaces de transito", nas quais sao ofertadas "janelas para o mundo" dentre as quais decidimos a cada passo por qual delas queremos seguir navegando. Mesmo quando se trata, por exemplo, de pinturas, fotografias ou filmes on-line, nos deparamos com essa estrutura "janelada", "canalada", enquadrada, fragmentada e segmentada como a forma de organizacao e sistematizacao dos conteudos colecionados pela rede mundial de computadores para serem consumidos de multiplas formas pelo usuario/ espectador. Janelas de musicas e de filmes arquivados na rede sao exemplos magistrais disso: se os encontra por inteiro, em versoes "originais" ou remixadas; e se os encontra em partes das versoes "originais" ou remixadas.

Por isso, concordamos com Galvao quando ele diz que o modelo linear, de conteudo (integral ou parcial, "original" ou remixado) programado para ser exibido com hora certa e data marcada perde espaco para o conteudo disponibilizado sob demanda (on-demand), disponivel a todo o tempo, a toda hora, de acordo com a vontade do usuario-consumidor (Galvao, 2006, p. 17).

Nao acreditamos, porem, que os grandes negocios oportunizados pela modularidade praticada pelas emissoras de TV off-line possam levar, no curto prazo, a substitui-la pela oferta sob demanda, pois esta atrapalha, no atual estagio da tecnica, a logica operacional das empresas associadas ao negocio chamado comunicacao.

Isso se coaduna fortemente com a implicacao da audiencia nas decisoes empresariais atuais, porquanto, por exemplo, como diz Cannito, a TV tambem realiza um papel de janela: por meio dela se observa o mundo acontecer. Assim como cada janela pode mostrar um pedaco do mundo especifico e diferente, tambem canais e programas sao distintos e mostram narrativas ou jogos diversos. Assim como se pode fechar e abrir a janela, pode-se ligar e desligar a TV. Mas no momento em que se decide olhar por ela, o interesse e de apenas observar, [...] apenas ver (Cannito, 2009, p. 42).

Acontece que esse desejo de "apenas ver", sentado na poltrona, o que "se passa" em uma ou noutra janela para o mundo (ainda que, talvez, todos ja saibamos tratar-se de ficcoes) e frustrado, tanto para o espectador quanto para o anunciante, pelos conteudos acessados on-demand, porque sua logica "fere" paradoxalmente a inercialidade desejada ao menos por alguns espectadores. Isso ocorre porque a internet e um meio preponderantemente de arquivo [e o] fluxo entao pode acontecer ate, por exemplo, o fim da rolagem do video escolhido. Mas depois o fluxo para novamente e a interface exige um novo pedido do usuario (Cannito, 2009, p. 25).

Entao, na internet, a TV consegue expandir fantasticamente a difusao dos conteudos que veicula, mas fica refem das logicas das plataformas de video, ou seja, das logicas do acesso a arquivos sob demanda. Nada mal para os conteudos; mas para as emissoras pode ser um problema, pois assim nao se consegue manter nos antigos termos a vinculacao entre conteudo, horario da programacao e audiencia--o tripe que sustentou ate hoje o negocio das TVs off-line.

De outro lado, o espectador-usuario precisa fazer varias coisas diferentes e a mais que antes (off-line) para acessar os conteudos televisivos via internet. Ou seja, o que antes era colocado como um "mal" da televisao (uma sua insuficiencia), agora, minimizado por novas formas de consumo, torna-se, ao menos para alguns consumidores, um outro tipo de "mal": sob a logica do conteudo disponibilizado por demanda, o espectador/usuario "precisa fazer alguma coisa para ver". Ele ate pode seguir sentado na poltrona, e ele ate continua podendo escolher a janela para o mundo por onde o ver. Mas, ele nao pode mais reclamar tao facilmente de que alguem esta decidindo por ele o que, quando e como vera o que quer ver. Agora que as oportunidades e os modos de agir aumentaram e se diversificaram, ele e "obrigado", em contrapartida, a agir se quiser avancar em alguma nova especie de fluxo.

Alem disso, perdeu-se aquele sentimento que antes nos irmanava de estar assistindo com todos ao mesmo tempo aos mesmos conteudos.

Pensamos que tal circunstancia e um novo desafio ao discernimento. E nao culpamos as novas interfaces por um problema que talvez sequer seja um problema, pois reconhecemos o merito, apontado tambem por Cannito, de que cada vez mais,

uma mesma obra pode ser vista de varias formas, em varias interfaces. [E] Dizer que uma interface e mais "limitada" que a outra nao passa de um ponto de vista pessoal ou de um preconceito estetico. [...] Cada interface oferece ao publico diferentes possibilidades para a recepcao de uma mesma obra. [E decorre que] A definicao de uma interface em funcao de outra se torna mais dificil, menos tecnica, quase cultural (Cannito, 2009, p. 135).

Ou seja, quando o autor, nessa breve citacao, parece nos convidar a nos esquivarmos da tecnica a favor da cultura, no fundo esta nos lembrando da ingerencia de uma sobre a outra. Entao, quando achamos oportuno pensar a "tela" como "interface" foi porque o segundo termo (cultura) permite flexionar mais expressamente o limite dos "sistemas" e acentuar o carater "logico" do dispositivo material, alem de (des) acentuar os conteudos que tendem a fixar nossa atencao no panorama assistido no ecran porque e o que e mais util no presente a acao do espectador: ver o que se passa nessa janela para o mundo.

Sobre as nocoes de interface

Temos bastante em conta todos os insights de Manovich (passim) sobre o que o autor chama de cultura do software e de software cultural. Ele traz decisivas contribuicoes aos estudos das midias e da cultura sob o impacto dos softwares. Mas ate mesmo Manovich escorrega, e ha bastante imprecisao ou vagueza em sua nocao de interface, ainda que sua "interface cultural" seja uma metafora bastante produtiva para a reflexao que fazemos.

Por isso, entendemos que seria produtivo a discussao se todo pesquisador que diz estudar essa coisa complexa (ou complicada) dissesse na largada de seus textos o que entende e como usa ou usara o conceito de interface, e em que campo o tem aplicado e sob quais paradigmas. E a esses que lancamos umas perguntas e umas provocacoes:

e se a imagem do corpo fosse pensada como a interface de todas as imagens?

e se a imagem fosse pensada como a interface da coisa e da coisa percebida?

e se a coisa fosse a propria interface, qual seria seu virtual e suas atualizacoes na materia, seu modo de ser e de agir?

A nosso ver, essas sao algumas questoes sobre a interface das quais pouco se fala. Mas que poderiam inventar verdadeiros problemas de pesquisa acerca dela. Ou seja, fala-se muito dos modos de agir da interface; mas qual e a tendencia da coisa interface, o seu modo virtual de ser? O que e essa coisa que se atualiza nessa e naquela interface?

Manovich (passim) tambem insiste em sugerir o cinema como interface do audiovisual, embora o cinema, a nosso ver, seja apenas uma das interfaces do audiovisual. Entao, o que e mesmo interface para o autor? O que seria para outros autores que temos lido aquilo que eles chamam de audiovisual de interface? Uma virtualidade ou uma sua atualizacao na materia? E o que e interface em cada uma dessas situacoes?

Tomemos por referencia algumas imagens medias de interfaces graficas nas quais eram veiculados conteudos televisivos na internet no periodo em que as estivemos monitorando, lembrando que:

estivemos focando a atencao nos seguintes formatos de telas: o de monitores de TV, o de computadores, o de dispositivos moveis;

em cada um desses formatos pode-se assistir aos mesmos conteudos televisivos ainda que de modos distintos por conta: do tamanho das telas dos suportes, dos modos operacionais de cada midia, da mobilidade do suporte e do espectador.

Um dos movimentos que fizemos foi comparar a visualizacao de conteudos televisivos na internet acessada em computador nos anos de 2007 e 2016, quase dez anos depois. Vejamos os prints das interfaces graficas (manipuladas) nas figuras abaixo:

Nessas interfaces observamos que em 2007 as emissoras analisadas que primeiro ensaiaram sua insercao na internet intentavam preservar mais seus formatos (molduras) off-line: a Bloomberg off-line ja tinha um formato grafico que combinava interfaces televisivas com interfaces praticadas em ambientes on-line; a TV Justica cravou (sobrepos/incrustou) a tela de veiculacao de conteudos televisivos na interface grafica on-line; a TV Record fez o mesmo, mas a tela de exibicao de conteudos televisivos estava nitidamente moldurada por um monitor de TV graficamente desenhado na interface grafica on-line.

Em 2016, verificamos no design na interface grafica a prevalencia da logica das interfaces graficas on-line na molduracao de conteudos televisivos. E verdade que a imagem mostrada (da NASA TV) e de uma emissora que nao existia off-line; mas varias outras emissoras a adotaram. Nesses casos, havia construtos identitarios da midia TV nas molduras contornadas em vermelho na figura, construtos esses tipicamente televisivos, construidos off-line e demarcados (moldurados) on-line para que os conteudos se parecessem aos conteudos televisivos.

Outro movimento que fizemos foi comparar a visualizacao de conteudos televisivos na internet acessada em computador em 2016 com sua visualizacao, no mesmo ano, em tablets e smartphones. Vejamos os prints de algumas interfaces graficas (manipuladas) nas figuras a seguir:

Assim, verificamos que, sempre, ao se chegar a tela de visualizacao de conteudos televisivos, assistia-se efetivamente aos mesmos conteudos, ainda que em telas de diferentes tamanhos/formatos. Isso acontecia tanto no caso de webTVs (a allTV, no exemplo) quanto no caso de TVs on-line (a Band, no exemplo), sendo que o ecran televisual nos dois casos era diferente e proprio da circunstancia de se tratarem, no caso, de TVs nativas da internet e de TVs off-line transmitindo na internet: no primeiro caso ve-se a imagem "limpa" de quaisquer sobreposicoes graficas, e, na segunda, a manutencao dos grafismos utilizados nas transmissoes off-line (contornados por nos em vermelho para destaca-los).

Nas duas figuras (3 e 4), na esquerda inserimos tambem uma imagem media da interface grafica que, na navegacao, precede a interface grafica na qual os conteudos televisivos se dao finalmente a ver. Fica bem claro que ela nada tem a ver com as interfaces graficas da TV off-line: sao tipicamente imagens medias de interfaces de internet criadas para dispositivos moveis (tablet e smartphone, no caso)--outras molduras e molduracoes correspondem a outros sentidos enunciados para os conteudos a serem acessados na navegacao em curso.

Dependendo da expertise do usuario, ele chegaria mais ou menos rapidamente a essa interface, sendo que em alguns casos, alem da expertise do usuario, os aplicativos das emissoras e os dos dispositivos moveis em questao alterariam substantivamente a experiencia do usuario-navegador ate que ele alcancasse os conteudos televisivos inicialmente buscados. Depreendese, portanto, que a experiencia de cada individuo ou perfil de individuo, em cada estagio da tecnica, ingere sobre os sentidos dos conteudos televisivos finalmente acessados.

Nos movimentos que fizemos autenticamos um conjunto de interfaces graficas que, ao serem acessadas no transito, dao a ver as interfaces (discretas ou discretizadas) as quais quisemos dar destaque no artigo, sendo que em cada uma das interfaces graficas da primeira camada visivel havia rastros das segundas, mais profundas, nas quais, a sua vez, quando acessadas por um perfil ou outro do usuario e dos aplicativos, havia rastros de terceiras, quartas, etc., sendo que todas as interfaces graficas intermediarias deram pistas, mas nao conseguiram nunca mostrar "a" interface das televisualidades.

Consideracoes finais

Se a interface (como dispositivo material e logico) das televisualidades relaciona-se ao limite comum a dois sistemas (o da midia TV off-line e o da midia TV on-line, tanto na internet quanto nos chamados dispositivos moveis), observamos que esse vies ou perspectiva de analise--que considera apenas e/ou preponderantemente as interfaces graficas finais de visualizacao dos conteudos televisivos--nao da conta do que esta em curso ao equiparar a dispersao de conteudos televisivos pela internet e por dispositivos moveis a dispersao da televisao nessas midias.

A nosso ver, o que esta em curso nao e um, mas dois fenomenos: a dispersao (e convergencia) da midia TV, e a dispersao (e convergencia) de conteudos televisivos. E, a partir do que dissemos/mostramos, concluimos que o transito, ele mesmo, a experiencia, ela mesma, esse confim, ele mesmo, sao o que espraiam (dispersam e convergem) as televisualidades em interfaces contemporaneas.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2018.3.28757

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Recebido em: 07/10/2017

Aceito em: 25/01/2018

Dados do autora:

Suzana Kilpp | sukilp@unisinos.br Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Professora e pesquisadora do Programa de Pos-graduacao em Ciencias da Comunicacao Endereco da autora:

Programa de Pos-graduacao em Ciencias da Comunicacao, Universidade do Vale do Rio dos Sinos Av. Unisinos, 950. Bairro Cristo Rei 93.022-750, Sao Leopoldo, RS, Brasil

Suzana Kilpp

Programa de Pos-graduacao em Ciencias da Comunicacao, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Sao Leopoldo, RS, Brasil ORCID: 0000-0001-7045-6773

<sukilp@unisinos.br>

Caption: Figura 1--Conteudos televisivos acessados em telas de computador

Caption: Figura 2--Conteudos televisivos acessados em telas de computador

Caption: Figura 3--Conteudos televisivos acessados em telas de tablet

Caption: Figura 4--Conteudos televisivos acessados em telas de smatphone
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No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
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Title Annotation:AUDIOVISUAL
Author:Kilpp, Suzana
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Sep 1, 2018
Words:4899
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