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Tecelas da existencia.

Resumo: Neste ensaio, entrelaco fios de vidas das mulheres negras que estao atadas ao fio da minha vida. Com os fios soltos das cancoes de Zeze Motta e dos escritos da filosofa Hannah Arendt, teco este texto-existencia. Na leitura dos ensaios e poemas de Marlene Nourbese Philip, escritora afro-caribenha, me inspiro nao so para resistir as amarras culturais hegemonicas, mas tambem para transcende-las, criando possibilidades de escrita que vincule a dinamica da fala com a dinamica da acao, compondo um texto que se movimenta ora como danca, atraves do espaco, ora como uma cancao, ritmada pelo tempo, pois criar e dancar uma coreografia e uma forma de fazer historia. Como investiga Selma Trevinos, trata-se de uma ferramenta para animar o passado ou uma "escrita" acerca de algo que ja foi feito, se concordamos que cada corpo carrega sua propria historia e individualidade, memoria, sentimentos e emocoes. Na busca do entendimento desta minha breve existencia, danco, escrevo, teco palavras com fios desfiados da fior do utero das minhas ancestrais. Vasculho minhas lembrancas e, na memoria corporal, decifro a dor, encontro a raiz da violencia, observo o medo, destilo a alegria, enfeito a docura, mergulho na paz e conheco a liberdade.

Palavras-chave: memoria corporal: liberdade: existencid: mulheres afro- brasileiras.

Abstract: In that essay I interweave threads of the black women's lives that are tied to the thread of my life. With the free threads of Zeze Motto's songs and of philosopher Hannah Arendfs writings, I weave this text-existence. In the reading of the essay and poems of Marlene NourbeSe Philip, writer Afro-Caribbean, I am inspired not only to resist the hegemonic cultural ties, but also transcend them, creating possibilities of writing that links the dynamics of the speech with the dynamics of the action, to compose a text that is moved some times as a dance through the space, other times as a song, with its rhythm determinedby time, because creating and dancing a choreography is a form of making history. As investigates Selma Trevinos it is a tool to encourage the past, or a "writing" concerning something that was already done, if we agree that each body carries his/her own history and individuality, memory, feelings and emotions. In the search for the understanding of my existence I dance, I write, I weave words with frayed thredds of the flower of the womb of my ancestral ones. I search my memories and in the corporeal memory I decipher the pain, I find the root of the violence, I observe the fear, I distil the happiness, I decorate the sweetness, dive in the peace and I know the freedom.

Key Words: Body Memory: Freedom; Existence: African Brazilian Women.

Weavers of Existence

Da flor aos fios do algodao

[Inverno de 2012]

Sentada no sofa, na sala de seu apartamento de um dormitorio, iluminada pela luz outonal de uma tarde de domingo, esta Felicia, minha mae, com a linha de algodao cru entrelacada em seu dedo indicador da mao esquerda e com a agulha de croche na mao direita, a ligar os pequenos elos. Ela me conta a historia da transferencia dos ossos do meu irmao Israel. Fala dos restos da blusa azul aderida ao esqueleto e dos fios de cabelo ainda presos ao cranio. Atento para a sua narrativa acerca da vida e da morte. Ela, que deu a luz aquele que esta agora vivo so entre os espacos vazios dos ossos emaranhados de linha azul. Percebo ... o fio que tece a vida e o mesmo que prende o corpo na teia da morte. Minha mae reconhece a textura de um fio que esta ligado a ela, pois constata que aquele fio e ela, do mesmo modo que aqueles ossos sao dela, e sao ela tambem. Ela e a vida que permanece mesmo na morte. Ela vive para ensinar essas licoes de pertencimento. Gestacao e tecer o ser com o fio da vida, cordao umbilical aparentemente cortado, porem, Invisivel e eternamente atado. Selar o misterio do existir com a liberdade do voo, sustentado pelo respirar interligado. Interdependente.

Volto o olhar para minha mae a dialogar sobre os ossos secos do meu irmao. Vejo o seu rosto enigmatico e pergunto silenciosamente: "Onde mora a tua dor?" Provavelmente nos ossos, bem profundo de seu ser quase centenario. Quantas camadas de sofrimento, de luta, de luto estao ai revestidas nessa sua pele negra? Sua jovialidade, vontade de viver e independencia fazem todos se espantarem quando ela, animada, diz sua idade: "Noventa anos!", que ela comemora duas vezes, 10 de outubro e 5 de novembro, data em que foi registrada.

Felicia Gama de Almeida, nascida em 10 de outubro de 1922, em Sao Jose do Rio Preto, no estado de Sao Paulo, filha de Luiz Gama de Almeida e de Maria Candido. Aos tres meses de idade, minha mae e sua familia vao morar em uma fazenda na regiao de Jacui, no estado de Minas Gerais, para trabalharem como lavradores. Em sua infancia, acompanhada de outras criancas de sua idade, brincava de boneca e de roda no terreiro. Na juventude, ia para os bailes acompanhada de seus irmaos; animada, dancava ao som dos acordes dos sanfoneiros convidados. Mas a rotina tambem incluia o trabalho na colheita do cafe, o cuidado aos animals, a fiacao e a tecelagem do algodao. Foi nesse ambiente que minha mae, Felicia, aprendeu a tecer os fios resistentes da liberdade, ao ouvir as historias da sua avo tecela. E desde pequena, ao brincar com a flor do algodao, observava a avo ensinar a irma Joana, pois "a filha mais velha deveria aprender o oficio e passar para as mais novas", como lembra minha mae, com um tom de voz um tanto Inconformado. No desembaracar das fibras, no enrolar e corar das meadas e dos novelos, ela atentava para as maos negras da avo que fiavam na roca com destreza a branca flor do algodao, agora em fio, intercruzado no tear, tornando-se teia, trama que veste o corpo, cobre a cama, acolhe a vida, pois, em meio a malha da linha cruzada no tear, e enquanto cuidava de um machucado na perna de um neto ou trocava a roupa da neta, a avo contava e Felicia ouvia suas historias sobre a participacao de seus tios na Guerra de Canudos e dos dias da avo vividos na senzala. "Ana Candido de Jesus nasceu livre, em Pouso Alegre, Minas Gerais, mas foi criada na senzala"--diz minha mae pelo telefone:" ... ela era uma escrava livre".

Ao ler alguns trechos da Lei do Ventre Livre e o seu contexto, as palavras contraditorias da minha mae podem fazer sentido. Essa lei, de no. 2.040, sancionada em 28 de setembro pela Princesa Imperial Regente Isabel, em nome do Imperador D. Pedro II, e na qual pode-se ler, em seu artigo primeiro: "Os filhos de mulher escrava que nascerem no Imperio desde a data desta lei serao considerados de condicao livre", coloca uma limitacao a essa liberdade, em seu primeiro paragrafo, quando prescreve:
   Os ditos filhos menores ficarao em poder o sob a
   autoridade dos senhores de suas maes, os quais terao
   a obrigacao de cria-los e trata-los ate a idade de oito
   anos completos. Chegando o tilho da escrava a esta
   idade, o senhor da mae tera opcao, ou de receber do
   Estado a indenizacao de 600$000, ou de utilizar-se dos
   servicos do menor ate a idade de 21 anos completos.
   No primeiro caso, o Governo recebera o menor e lhe
   dara destino, em conformidade da presente lei. (1)


Nesse sentido, a definicao de "escrava livre" e assim aplicada, minha tataravo escravizada gestou em seu ventre um ser livre; no entanto, o ambiente em que Madrinh'Ana nasceu, a saber, uma senzala, era um lugar para pessoas escravas.

"E bem possivel que nos seja dificil compreender nossa propria historia se nascemos em 1771, em Berlim, e essa historia ja tenha comecado dezessete seculos antes, em Jerusalem". (2) Se altero essa frase de Arendt, mudando para 1871, em Pouso Alegre, Minas Gerais, e o inicio dessa historia para quatro seculos antes, em algum pais do continente africano, mudo tambem a personagem para minha bisavo Madrinh'Ana. Reflito a indagacao de Arendt:
   O que e o ser humano sem sua historia? Produto da
   natureza e nada de pessoal. A historia da
   personalidade e mais antiga do que o produto da
   natureza, inicia-se antes do destino individual e pode
   proteger ou destruir aquilo que ha e permanece em
   nos da natureza. Quem deseja ajuda e protecao da
   vasta Historia, na qual nosso insignificante nascimento
   rapidamente se perde, deve ser capaz de conhecela
   e compreende-la. (3)


Assim, aproximadamente oitenta anos depois, fico a imaginar a minha bisavo a contar e a recontar sua historia para as netas, enquanto habilmente tecia em seu tear, lembrando-as que os fios presos da franja bordada da malha nao deveriam esquecer que ja foram flores livres de algodao ali do campo.

Madrinh'Ana filosofava com tal clareza que enfatizava que era um ser livre, independente do ambiente em que nasceu. Ela se recusava a aclimatar-se no mundo, cujo risco esta em
   [...] ver nossa vida como o desenvolvimento do 'produto
   da natureza', a sequencia continuada daquilo que
   sempre tomos. O mundo, nesse caso, torna-se urna
   escola no sentido mais amplo e as pessoas,
   educadoras ou corruptoras. E lamentavel apenas que,
   para seu desenvolvimento harmonioso, a natureza
   humana seja tao dependente da sorte quanto o trigo
   do bom tempo. Pois, se o vida falhar realmente nas
   poucas coisas mais importantes que dela sao
   naturalmente esperadas, o desenvolvimento, unica
   continuidade no tempo que a natureza conhece, e
   interrompido e a dor e avassaladora. E o ser humano,
   dependente apenas da natureza, e derrotado por
   sua inexperiencia e sua inabilidade de compreender
   mais do que a si mesmo.


Minha mae escutou muito as historias de sua avo e as incorporou bem, ao ponto de hoje eu poder escreve-las aqui e repetir o proverbio yoruba que diz: "Se posso colocarme de pe e porque minhas costas estao apoiadas em minhas ancestrais."

Das fibras emaranhadas a preparacao para fiacao

Destarte, neste ensaio entrelaco fios de vidas das mulheres negras que estao atadas ao fio da minha vida. Em conversas com minha mae Felicia, que minha vida em seu ventre teceu, escuto sua historia marcada por sua mae, minha avo Maria, e pela mae de sua mae, minha bisavo Ana. Mas ha tambem os fios soltos: a cantora e atriz Zeze Motta, que com seu canto me encanta, e com seu corpo me instigou a aceitar o meu corpo negro; a filosofa Hannah Arendt, cuja vida e obra tem me ensinado a tecer a experiencia do pensamento; e a minha filha, tecida em mim com os fios do misterio, que me faz crer no milagre dos novos comecos. Tornome tambem tecela, teco este texto-existencia. Na busca do entendimento desta minha breve existencia, danco, escrevo, teco palavras com fios desfiados da flor do utero das minhas ancestrais. Linhas multicoloridas gestam minusculas letras esculpidas em meu ser. Vasculho minhas lembrancas e, na memoria corporal, decifro a dor, encontro a raiz da violencia, observo o medo, destilo a alegria, enfeito a docura, mergulho na paz e conheco a liberdade. Aprendo, no convivio familiar, nas presencas e nas ausencias da minha mae, a aprimorar os sentidos: ver o invisivel e ouvir as vozes do silencio.

Por um momento pensei que a minha singularidade passasse pela minha voz; mas, em busca de um modelo, encontrei vozes parecidas. Talvez por desconhecimento ou, ao contrario, por um outro tipo de conhecimento, descobri que a distincao e um exercicio sutil. Se, no mundo de aparencias, as vezes muitos seres desaparecem na multidao, na polifonia mundana o mesmo pode acontecer. A distincao da propria voz se apresenta em graus variados, conforme o grau da escuta de si, de modo que a escuta de si proprio e o primeiro passo no caminho em direcao a escuta do outro. Parece-me que quanto mais ouco a mim mesma, mais ouco o outro. Por isso, a percepcao de si esta sempre vinculada a percepcao do outro. E talvez seja por essa razao a dificuldade de descolar o outro de si, chegando ao ponto de dizer e chamar o outro de eu mesmo.

As letras das cancoes entoadas pela cantora e atriz Zeze Motta assumem, neste texto-existencia, texturas de fios musicais, trazendo a sonoridade das entranhas das tecelas. Zeze Motta, com sua voz, embalou o meu corpo jovem em formacao; em seu corpo negro e nu na tela do cinema, vi meu corpo espelhado no dela e comecei a aprender os vocabulos do termo liberdade inscritos em minha memoria corporal. Na leitura dos ensaios e poemas de Marlene Nourbese Philip (1997), escritora afro-caribenha, inspiro-me, nao so para resistir as amarras culturais hegemonicas, mas tambem para transcende-las, criando possibilidades de escrita que vinculem a dinamica da fala com a dinamica da acao, compor um texto que se movimenta, ora como danca atraves do espaco, ora como uma cancao ritmada pelo tempo, pois criar e dancar uma coreografia e uma forma de fazer historia.

Como investiga Selma Trevinos (2008), trata-se de uma ferramenta para animar o passado ou uma "escrita" acerca de algo que ja foi feito. Contudo, o que foi esquecido, ao contrario de ser ausencia de algo que nao esta mais la, pode ser a presenca esquecida de algo que ja esteve ali. No caso de uma escrita pautada na memoria corporal, Trevinos sugere que ter uma memoria de um movimento fora do corpo nao aniquila o movimento em si. Movimento, quando criado por um corpo vivo, tem a vida do criador envolta nisso. No momento em que outro corpo e motivado a encarnar esses movimentos, eles voltam a vida novamente. Nem a repeticao desses movimentos pode aniquilar a identidade do corpo da dancarina, principalmente se concordamos que cada corpo carrega sua propria historia e individualidade, memoria, sentimentos e emocoes. Desse modo, toda vez que o mesmo corpo executa um movimento de sua propria criacao ou nao toda a sua bagagem vem junto.
Dos fios de algodao ao tear

   "Abre as asas sobre mim
   Oh! senhora liberdade
   Eu fui condenado
   Sem merecimento
   Por um sentimento
   Por uma paixao
   Violenta emocao, pois
   Amar foi meu delito
   Mas foi um sonho tao bonito
   Hoje estou no fim
   Senhora liberdade
   Abre as asas sobre mim
   Nao vou passar por inocente
   Mas ja sofri terrivelmente
   Por caridade
   O liberdade
   Abre as asas sobre mim"
   Musica "Senhora liberdade".

   Autores: Wilson Moreira e Nei Lopes.

   Interprete: Zeze Motta


Escuto a voz da minha mae a dizer que sua mae era famosa na regiao, ela trabalhava na colheita de cafe e recebia por safra mais de 100 Reis, que na epoca era suficiente para os gastos da familia por um ano. Com um dos filhos, ela ia a cidade e comprava mantimentos e tecidos para roupas. Era ela tambem quem administrava todos os ganhos da familia. Alem do trabalho na lavoura de cafe, vo Maria era uma eximia costureira, confeccionava vestido de noiva, enxovais de bebes e ternos masculinos com quatro bolsos, como lembra minha mae.

Maria Candido era a filha cacula de Madrinh'Ana, seus irmaos eram Jose, Joao--que recebeu o nome do pai por se parecido com ele: loiro de olhos azuis--e Sebastiao. Madrinh'Ana veio a falecer com 103 anos, em Pouso Alegre, e nessa longa vida foi parteira das sete filhas e dos quatro filhos da vo Maria: Joana, Joao, Maria, Bernardo, Geraldo, Felicia, Aparecida, Binha, Ze Benedito, Dita e Tereza. Meus avos maternos, Maria Candido e Luiz Gama de Almeida, educaram a prole com muito zelo e dedicacao; em alguns momentos, esse zelo se mostrou de forma ambigua, trazendo a tona conflitos de interesses, sofrimento e humilhacao, a exemplo da historia dos casamentos de minha mae.

Como examina Arendt, (4)
   A Historia como uma categoria de existencia humana
   e, obviamente, mais antiga que a palavra escrita, mais
   antiga que Herodoto, mais antiga mesmo que Homero.
   Nao historicamente falando, mas poeticamente, seu
   inicio encontra-se, antes, no momento em que Ulisses,
   na corte do rei dos Feacios, escutou a estoria de seus
   feitos e sofrimentos, a estoria de sua vida, agora algo
   fora dele proprio, um 'objeto' para todos verem e
   ouvirem. O que fora pura ocorrencia tornou-se agora
   'Historia'. [...] a cena de Ulisses e paradigmatica, tanto
   para a Historia como para a Poesia; a 'reconciliacao
   com a realidade', a catarse, que segundo Aristoteles
   era a propria essencia da tragedia, constituia o objetivo
   ultimo da Historia, alcancado atraves das lagrimas da
   recordacao. O motivo humano mais profundo para a
   Historia e a Poesia surge aqui em sua pureza impar:
   visto que ouvinte, ator e sofredor sao a mesma pessoa,
   todos os motivos de pura curiosidade e ansia e
   informacoes novas, que sempre desempenharam, e
   claro, um amplo papel, tanto na pesquisa historica
   como no prazer estetico, acham-se, naturalmente,
   ausentes do proprio Ulisses, que se teria enfastiado mais
   que comovido se a Historia nao passasse de noticias e
   a Poesia fosse unicamente entretenimento.


Eis o destino deste texto-existencia: entrelacar geracoes como possibilidade de reconciliacao.

Felicia tinha 18 anos quando saiu da regiao de Jacui, em Minas Gerais, e mudou com seus pais, irmaos e irmas para o interior do estado de Sao Paulo para trabalhar como empregada domestica e cozinheira. Tinha um grupo de amizades e sua rotina envolvia, nesse periodo, ir a missa e visitar os familiares no sitio: morava na casa dos patroes. E assim, como participava da mesma comunidade religiosa, conheceu a familia dos Guimaraes.

O senhor Anibal Teodoro Guimaraes era da irmandade do Nosso Senhor dos Passos, e Felicia, juntamente com uma das filhas desse senhor, participava na congregacao como Filha de Maria. Nessa convivencia, iniciou-se um interesse mutuo do pai e do filho pela mesma jovem. O pai, viuvo, com 52 anos, com nove filhos, atentou para a entusiasmada e bela jovem pela qual seu filho Rodolfo, de 18 anos de idade, estava enamorado. Sentindo-se injusticado pela balanca da vida, por ela ter-lhe dado tantos filhos e filhas e subtraido a saudosa esposa, espelhou-se no filho, viu-se novamente jovem e ocupou o lugar deste. Seu filho, embora com 18 anos, pequeno ali ficou, parado no tempo interno do pai. Esse pai que a experiencia de vida e as posses materiais lhe deram audacia suficiente para pedir a mao da jovial Felicia em casamento, nao para o seu filho, mas para ele mesmo. Em segredo, meus avos consentiram ao homem viuvo acompanhar Felicia a missa. Naquele dia, lembra minha mae, seu patrao falou: "--O seu pai esta ai." Ela, surpresa, exclamou:"--Meu pai!?" Nao. Nao era o seu pai. Na primeira vez, ela conseguiu se desvencilhar e nao Ir, mas, na segunda vez, la foi ele feliz com a sua noiva. Sim, foi nesse dia que ele a apresentou para todos na igreja. Ela ainda nao acreditando. Mas, tres meses antes desse dia, minha avo havia iniciado um plano que trouxe muitos conflitos e dor para minha mae, que ate hoje reverberam nos relacionamentos familiares, como no na fiacao e embaracos nos fios da linha da vida.

Sem que Felicia fosse consultada em relacao aos seus desejos, vontades e escolhas, sua mae organizou a sua festa de casamento, encomendou o vestido de noiva, tudo financiado pelo senhor Anibal. Quinze dias antes do casamento, sua mae foi busca-la no trabalho para os preparativos da cerimonia. Ela ainda nao acreditava que iria se casar mesmo com aquele senhor. E, no dia do casamento, numa conversa no quintal com a prima que duvidqva que ela iria se casar com "aquele velho", respondeu-lhe a provocacao: "-Na hora eu vou dizer que nao caso com gosto." Minha avo, ouvindo a historia, irritada e com a possibilidade de "passar vergonha," deu-lhe varios tapas, marcando seu rosto tao visivelmente que nem o veu pode esconder. Durante a festa do casamento, um ex-namorado de Felicia, inconformado, tirou-a para dancar e confidenciou em seus ouvidos sua indignacao de ter sido preterido. A cena feriu os olhos do noivo, que avqncou em direcao ao ex-pretendente com uma faca na mao, que, para tristeza de todos, fez com que a festa acabasse mais cedo.

Passaram-se tres meses. Felicia Gama de Almeida Guimaraes volta para a casa dos pais acompanhada de seu marido. Ele veio traze-la, pois, ate o momento, embora tivessem compartilhado a mesma cama, nada acontecia em relacao ao desejo. Sua mae, em uma conversa franca, ameacou-a de retirar-lhe a sua bencao. A ameaca de ser amaldicoada pela propria mae foi o suficiente para Felicia retornar para a casa do marido acompanhada por ele. E suas experiencias intimas iniciais foram marcadas pelo desconhecimento do proprio corpo e pelo desencanto. Ignorava por completo como as criancas vinham ao mundo; ao ver a mae com crises de vomitos durante a gestacao, indagava silenciosa: "Sera que se nasce pela boca?" Em breve, por experiencia propria, ela saberia que a resposta seria nao. Em novembro de 1947 nasce seu primeiro filho, Pedro Luiz Guimaraes. Ela se viu no meio de uma familia com dez filhos. Numa situacao distinta, com filhas e filhos com a mesma idade dela e com alguns mais velhos. Havia as criancas que ela ajudava a cuidar e agora tambem ela tinha o seu proprio bebe. Configurava-se uma fragil trama de relacionamentos que veio a se desmanchar ao romper o fio que a unia. Anibal, enquanto trabalhava na sua serralheria, contraiu o virus da meningite e veio a falecer antes que seu filho Pedro completasse tres anos de idade. Com a morte de seu protetor, Felicia passou por seu calvario. As filhas mais velhas de Anibal assumiram a casa no periodo em que ele estava doente, iniciando uma relacao perniciosa com Felicia, que se agravou apos a morte do seu marido, levando a sua expulsao da casa, apenas com a roupa do corpo e o filho no colo.

Em varios momentos, ouvi minha mae relatar esse periodo de sua vida no qual ela veio a sofrer varias privacoes, dentre elas, que suas enteadas a deixavam sem comer. Ela, que ainda amamentava o filho, perdeu muitos quilos e alguns dentes. Voltando a trabalhar como cozinheira, seus patroes acolheram a ela e seu bebe. Com o passar do tempo, ela recupera seu bem-estar e sua beleza--comenta que colocou duas coroas de ouro nos dentes. Ao voltar viuva para a casa do pai de seu filho para buscar documentos, gera espanto aos olhos das enteadas. Para minha mae, contar e recontar a sua historia foi uma filosofia que ela aprendeu com sua Madrinh'Ana. Uma filosofia tecida no trabalho domestico, no cuidado ao outro, na experiencia de vida e no sofrimento diante da morte. Dessa filosofia caseira e materna surge uma teia de pensamentos, distinta de Platao e Aristoteles, que, na analise de Arendt, (5)
   [...] haviam descoberto, na atividade do proprio
   pensamento, uma recondita capacidade humana
   para libertar-se de toda a esfera dos assuntos humanos,
   os quais nao deveriam ser levados demasiado a serio
   por homens (Platao) porque era patentemente
   absurdo pensar que o homem fosse supremo ser
   existente (Aristoteles). Enquanto procrlacao, poderia
   ser suficiente para a maioria, 'imortalizar' significava
   para o filosofo coabitar com as coisas que existem
   para sempre, ali estar presente em um estado de
   atencao ativa, mas sem nada fazer, sem desempenho
   de feitos ou realizacao de obras.


Para uma mulher como minha mae, a procriacao nao parece ser suficiente para "imortalizar"; a natalidade, tal como a atividade de pensar, tem a insignia da liberdade.

E assim, no seu renovado deslumbramento, Felicia encontra o amor. Manoel Antonio Freire conquista o seu coracao e a pede a sua mae em casamento. Pedido recusado. Maria Candido desfolha sua ambiguidade entre o zelo e a ambicao. Do casamento com Anibal, motivado por suas posses, almejava uma robusta seguranca, mas com sua morte se transformou em minguadas, aparentemente permanentes, pensoes para Felicia e seu filho. A uniao matrimonial com Manoel, homem natural de Feira de Santana, estado da Bahia, origem que seus pais subestimavam, colocava em risco a perda de tal heranca. No entanto, fortalecida, Felicia resistiu as ameacas e, entre a perda da pensao e a obediencia desmedida aos seus familiares, escolheu casar-se com seu novo pretendente sem pompas externas, mas com vertente alegria interna. As consequencias foram nefastas; seus pais se apossaram de seu filho Pedro, pois nao queriam abrir mao da pensao da crianca, uma das garantias financeiras para o sustento da mae de Felicia, que agora assinava Felicia Gama de Almeida Freire. Para muitos, a emancipacao pode parecer resistencia a submissao, mas e bem mais que isso. Ao comentar as palavras de Pindaro: "Este e o maior pesar: estar com os pes fora do certo e do belo que se conhece (forcado) pela necessidade?". Arendt (6) escreve:
   Necessidade que me impede de fazer o que sei e
   quero pode surgir do mundo, ou de meu proprio corpo,
   ou de uma insuficiencia de talentos, dons e qualidades
   de que o homem e dotado por nascimento e sobre os
   quais ele tem tanto poder quanto sobre as demais
   circunstancias; todos esses fatores, sem exclusao dos
   psicologicos, condicionam exteriormente o individuo
   no que diz respeito ao quero e ao sei, isto e, ao proprio
   ego; o poder que faz face a essas circunstancias, que
   liberta, por assim dizer, o querer e o conhecer de sua
   sujeicao a necessidade, e o posso. Somente quando o
   quero e o posso coincidem, a liberdade se consuma.


O casamento de Felicia com Manoel trouxe uma vida cheia de experiencias novas. Admirada com a propria ousadia, recorda as vezes que foi retirar o marido da prisao:

Depois que nos casamos, foram seis anos de casado, nos aprontamos tanto que o Manoel foi duas vezes pra cadeia e depois eu fui presa com ele. Tres vezes nos fomos presos. Porque o Manoel bebia, aprontava la no bar. E eu ia la tirar ele. Eu estava gravida da Izabel. Cheguei la e falei para o delegado que prendeu ele, que era o Mario Moretti, que eu tambem ia morar na cadeia porque eu nao podia trabalhar. Ai ele ... nao ... ele respondeu para mim, ele queria brigar comigo: Eu sou o delegado. Eu respondi:--Pois e, senhor, eu trouxe uma mala. O Ismael, ele tinha um aninho, pois o Ismael era bem baixinho, pequenininho, bem arrumadinho, eu tambem bem arrumada, fomos embora la para a cadeia ficamos la umas tres horas, eu com o Ismael, ate o delegado tirar o Manoel da cadeia. Depois foi por causa de uma galinha, eu bati numa mulher que estava gravida e ela se machucou, teve que ir para o hospital. Ai eu fui presa, fui presa eu e o Manoel. (7) (Felicia Gama de Almeida Freire)

A religiosidade tambem foi marcante. Ela, de Filha de Maria torna-se vidente, abrindo as sessoes espiritas em um centro espirita e depois na sua propria casa, onde Manoel era Pai de Santo. No nascimento do filho Israel Antonio Freire, as atitudes da parteira chamam a sua atencao e, sensibilizada com as oracoes, converte-se posteriormente ao cristianismo. A relacao com Maria Candido e Luiz Gama, pais de Felicia, era mantida com visitas regulares, com a precisa dose de ambiguidade.

Tessituras existenciais

[Verao 2012]

"Bromina e flor da noite Que nasce depois da tarde Passa o tempo que passar, Nao esqueco da minha Amada." Autor desconhecido

Minha mae recitou esses versos para nos enquanto deslizava a agulha de croche em mais uma lacada, sentada no sofa. Ao recordar a declaracao de amor que meu pai escreveu para ela, lamenta ter perdido a carta datada de 1957 na enchente nos anos 90, em sua casa, em Sao Jose dos Campos. Ela se levanta de onde esta sentada nessa tarde de verao para pegar a certidao de casamento, e o fio azul engancha em seu botao, arrastandose pela sala, formando um grande triangulo. Pergunto quantos filhos ao todo ela concebeu e ela comeca a enumerar a ordem dos dez: Pedro, Ismael, Izabel, Jacinta--ocorre o primeiro aborto--Israel, Raquel (que veio a falecer com meningite aos 10 meses de idade), Ida--ocorre o segundo aborto--, e nasce Ester em 1968, a tempora.

Comecei a entender o sentido de uma conversa, quando, num dia, ela falando da diferenca entre os filhos e as filhas, mostrou a mao esquerda aberta, apontou para cada um dos dedos e falou: "Esta vendo cada dedo aqui da minha mao? Nenhum e igual a outro, mas todos pertencem a mao". Dez dedos de suas maos, dez filhos de seu ventre com insignia livre. Nas belas palavras de Arendt: (8)
   Nao se trata tanto de que o homem possua a liberdade
   como de equaciona-lo, ou melhor, equacionar sua
   aparicao no mundo, ao surgimento da liberdade no
   universo; o homem e livre porque ele e um comeco e,
   assim, foi criado depois que o universo passara a existir:
   [Initium] ut esset, creatus est homom, ante quem nemo
   fuit. No nascimento de cada homem, esse comeco e
   reafirmado, pois, em cada caso, vem a um mundo ja
   existente alguma coisa nova que continuara a existir
   depois da morte de cada individuo, porque e um
   comeco, o homem pode comecar; ser humano e ser
   livre sao uma unica e mesma coisa. Deus criou o
   homem para introduzir no mundo a faculdade de
   comecar: a liberdade.


E aconteceu em 8 de maio de 1961, eu, filha de Felicia Gama de Almeida Freire e Manoel Antonio Freire, nasci em Presidente Prudente, no interior do estado de Sao Paulo.

Anos atras, perguntei a minha mae acerca da atmosfera do meu nascimento, e escrevo em meu diario:
   Era sabado, vespera do dia das maes, meu pai
   perguntou a minha mae se estava tudo bem. Ele tinha
   que descarregar um caminhao e queria saber se o
   bebe chegaria ou nao. Tudo transcorreu normalmente
   naquele dia. Domingo, dias das maes, as criancas
   foram para a Escola Dominical com meu pai. Minha
   mae ficou cuidando da casa e nada parecia
   interromper sua rotina. Tirava a agua do poco para
   lavar as pocilgas quando a bolsa rompeu. Meu pai,
   ao retornar e perceber o que acontecera, chamou a
   vizinha, dona Adelaide, que veio em seguida e fez o
   exame de toque para saber se estava na hora. Sua
   mao manchou-se de sangue, estava tudo bem com o
   bebe, mas ele nao havia sinalizado que queria sair
   dali. Comecou o trabalho de parto, isto sim. O
   nascimento mesmo foi as dezessete horas e quinze
   minutos. Horario preciso, minha mae diz que meu pai
   fazia questao que registrasse na data e no horario,
   para que nao tivessemos problemas na hora do
   casamento. A parteira chamou meu pai para ajudar
   minha mae a colocar algumas ervas e amarrar as
   faixas em volta da barriga para nao deixar nenhum
   residuo. Ela deveria ficar deitada e o bebe seria
   levado ate ela para ser amamentado. Minha mae me
   diz que nasci bem tranquila e assim fiquei o tempo
   todo. Ela tambem contou que passou tao bem que no
   quarto dia pos-pario resolveu fazer uma faxina na
   pocilga e acabou passando mal. Ela acrescenta que
   nasci de parto normal, que ganhou a maquina de
   costura e pode fazer todo o meu enxoval. (9)


No pano de fundo do meu nascimento, esta o desejo de preencher a dor da perda da minha irma Raquel, que nqsceu em 10 de mqio de 1959, como consto no registro civil de seu noscimento, de no. 46.568, que manuseio neste momento com extremo cuidado. Sua precoce morte fez com que minha mae e meu pai redobrassem seus cuidados para que nao viessem a perder outro bebe. Quondo eu tinho tres onos, minho mae entrou em crise nervosa e foi internada, ficando ausente por seis meses. Meu pai assumiu sozinho o cuidado da prole. Passados quatro anos do meu nascimento, minha mae engravida, mas, em virtude dos trabalhos pesados, ela perde outra crianca. Marcou assim o meu ser: escuto o jorro do jato de urina na parede do vaso de louca branco, laranja, amarelo claro, agua, sangue, secrecao. O corpo filtra, transforma, elimina: suor, aroma, odor, olfato. O corpo distingue: exala, inala, respira, transpira, choro, lagrima, agua salgada, mar. O corpo afoga a dor: enchente, nascente, mare, crescente. Menstruo: nao gesto, gestacao invisivel, carne liquida. Enterro num chumaco de algodao. Absorvo o vermelho carmesim no branco que escorre no vaso de louca. Vida que vai pelo esgoto, arroto, escroto, necrofilo, morto. Aborto.
   Eu fico com essa dor
   Ou essa dor tem que morrer
   A dor que nos ensina
   E a vontade de nao ter
   Sofrer de mais que tudo
   Nos precisamos aprender
   Eu grito e me solto
   Eu preciso aprender
   Curo esse rasgo ou ignoro qualquer ser
   Sigo enganado ou enganando meu viver
   Pois quando estou amando e parecido com sofrer
   Eu morro de amores, eu preciso aprender (10)


As maos de Felicia sao pequenas, suas rugas indicam o trabalho do tempo, os dedos e unhas arredondados. Embora nao as toque muito, conheco-as bem. Seu intenso cuidado ao guiar-me pelas ruas e ao dar-me limites tambem. Suas maos esfregando as roupas na tabua de madeira de uma velha arvore, pendida do quintal. Suas maos pequenas erguiam com determinacao o ferro de passar roupas a brasa. Tambem notei suas maos costurando o enxoval para a nova crianca que ali em breve chegaria. Observei essas maos a manter a casa limpa, a cuidar das filhas e dos filhos, a nutrilos. Presenciei tambem sua furia, arremetendo objetos que tinha nas maos, no chao ou em quem a provocara. A medida que minhas maos foram crescendo, fui me distanciando das maos da minha mae. Aprendi a ler os livros e o tempo marcado no relogio antes de entrar na escola, aos sete anos. Era o centro das atencoes ao ler para todos o que via em minha frente. E apreciava a leitura das Escrituras Sagradas. Ja acompanhava minha mae em seu trabalho como revendedora da Christian Gray e da Avon, e tambem como vendedora de roupa. Durante as primeiras series do ensino fundamental, fiquei responsavel pelas cobrancas, e, para garantir alguns trocados a mais, apos a escola eu levava o almoco para minha vizinha, que trabalhava como enfermeira em um hospital. Equilibrando-me pelos trilhos, eu ia dancando e cantarolando a musica Raindrops Keep Failing on My Head, de Billy Joe Thomas. Trilhos por onde, caminhando sol a pino, acompanhava minha avo Maria em suas visitas aos parentes distantes.

Recebi o meu diploma de quarto ano sem a presenca da minha mae. Nos primeiros meses da quinta serie, voltamos a morar em Santos, algo que ja havia acontecido antes, pois meu pai era estivador e, conforme a safra, nos moravamos proximos ao porto ou a plantacao. Recordo-me de um domingo em que sai de casa para fazer uma caminhada assim que mudamos para Santos, em 1972. No caminho, decidi ir em direcao ao mar. Cheguei a praia da Biquinha apos umas quatro horas de caminhada, praia que frequentava quando crianca. Sentei-me na areia, estava de vestido, nao havia levado roupa de banho. Aos poucos fui sentando mais perto da agua. Nao demorou muito e eu estava a me banhar com roupa e tudo. Voltei assustada para sentar-me na areia, apos ser derrubada por uma onda. Esperei o vestido secar e, mexendo na areia, encontrei uma moeda de cinquenta centavos. Era suficiente para pagar a passagem. Silenciosa durante o trajeto do onibus, eu lia a cidade; cheguei em casa no final da tarde. Fui recebida pelo olhar curioso e preocupado da minha mae, ao qual respondi com o gesto de quietude daquela que guardava o mar dentro de si. Dois anos se passaram quando, numa tarde, pela ultima vez, visitei minha avo Maria, que estava internada no Hospital dos Estivadores, cuja conta meu pai, genro que ela inicialmente desdenhou, ajudou a pagar. Comecei a estudar num curso noturno de uma escola publica e a trabalhar durante o dia. Aos "catorze anos incompletos", consegui emitir minha carteira de trabalho. As atividades foram varias: empacotadeira numa fabrica de doce, balconista numa livraria, recepcionista, auxiliar de escritorio. Minha adolescencia era tambem preenchida com passeios pela praia, cinema, jogos de xadrez, danca nas matines e leituras de romances e fotonovelas.

Na juventude comecei a fazer, junto com minha irma Izabel, o curso pre-vestibular. Chegavamos as onze horas da noite em casa. Encontravamos, em cima do fogao, a janta pronta que minha mae preparara. Nesse periodo, aconteciam reunioes do Movimento Negro em casa, com Henrique Cunha Junior e meu irmao Ismael Antonio Freire, estudantes universitarios em Sao Carlos. Nos finais de semana em que nos visitava em casa, Ismael chegava vestindo batas e com trancas africanas, cortava nosso cabelo no estilo black-power (poder negro) e me ensinou que black is beautiful (negro e lindo). A reprovacao no vestibular para o curso de Farmacia e Bioquimica na USP foi uma grande decepcao. Levou-me a avaliar minhas escolhas e uma delas ocorreu no campo espiritual. Faco minha profissao de fe e me torno membro da Igreja Metodista. Completamente envolvida com o Sagrado e, apos varias tentativas de estudar numa universidade publica, em 1981 faco inscricao no vestibular, na Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) para Educacao Religiosa e, na segunda opcao, para o curso Pedagogia--Habilitacao Magisterio para Deficientes Mentais. Recordo-me com uma mala pequena na mao e minha mae percebendo que ali continham mais roupas que o necessario para quatro dias. Foi quando confirmei, resoluta: "Passe ou nao no vestibular, eu nao volto para casa." A mala ja se foi, outras malas maiores ocupam hoje espaco aqui em casa, mas ainda guardo comigo, para nos aquecer nos dias frios, a manta de solteiro que minha mae me deu naquele dia. Embora atualmente eu raramente ande de maos dadas com ela, estamos mais proximas a cada dia, pois caminhamos lado a lado. Acompanhei-a e a ajudei a se levantar quando caiu no caminho do hospital em que meu pai estava internado. Observei suas maos passarem na fronte risonha de meu pai, em um dos dias mais tristes de minha vida. Alguns anos se passaram e testemunhei minha mae pousar suas vivas e quentes maos sobre as maos frias do meu irmao, congelando o seu coracao. Comecei a perceber a sabedoria no proverbio do filosofo romano Seneca, quando ele diz: "Ducunt volentem fata, nolentem trahunt" (As Parcas guiam aquele que quer, aquele que nao quer, elas arrastam). Na mitologia grega, as Parcas eram tres: Cloto, Laquesis e Atropos: tinham como ocupacao tecer o fio do destino humano e, com suas tesouras, cortavam-no quando muito bem entendiam.

A medida que puxo o fio da meada da memoria, percebo as maos tecelas da minha mae na minha escolha profissional e formacao academica. Na juventude, durante o ensino medio, comecei a participar de seminarios promovidos pelo Rotary Club sobre os efeitos da poluicao na populacao da cidade de Cubatao e atentei-me a tematica do desenvolvimento de criancas anencefalicas. Como essas criancas sobreviviam? Quem cuidava delas? Tal interesse motivou-me a enveredar para a area da saude. No entanto, os insucessos no vestibular nesse campo de estudo e o interesse por outros assuntos conduziram-me para o magisterio. Hoje, olhando em retrospectiva, percebo que, inconscientemente, a relacao materna guiava cada passo no caminho. Assumi o magisterio, e a mente indagativa me levava a querer conhecer mais; eu desconhecia a origem e o que doia tao profundamente em mim. Elegi a relacao mae-crianca como foco de meus estudos no mestrado e no doutorado. No mestrado, pesquisei as interacoes das maes adolescentes e seus bebes. Orientava. Perguntava. E no doutorado investiguei a relacao de criancas com e sem cegueira; criancas com suas maes e educadoras. Escavava lentamente a memoria corporal, tornei-me especialista em danca cenica, realizei dois estagios de pos-doutorado tendo a cegueira como guia. Tateio, na superficie da pele, a resposta a pergunta silenciosa que fiz acerca do lugar da dor em minha mae, como mencionada no inicio deste texto. Sim, a resposta esta numa camada mais profunda dos dedos das maos da minha mae. Esta em mim.

Nas tessituras do silencio, encontro com a lembranca do gesto daquele que se foi. Escrevo sem pensar no sentido do gesto, mas me ocupo do vazio que ele me deixou e me percebo esvaziada. Nesse vazio, olhei para ver o que ela faz enquanto rezo, oro, imploro, escuto. Danco no rastro do gesto tecido pelas ausencias. Meus ossos dao forma, apoio, resistencia ao que se mantem. Marco os passos, ergo um braco, fecho a mao em punho. A batida da sola do pe, alternada no tempo, provoca o ritmo, descreve a danca. O braco direito levantado acompanha o movimento com as maos cerradas, dando equilibrio ao pe que se alterna uma assimetria que sustenta a mao cerrada em riste, que fala sem palavras acerca do poder. Essa e a minha danca, esse e o meu caminhar oriundo dos reconditos do meu corpo em sintonia com o chao, a terra que piso e com a voz que grito:--Livre! Mas falo isso em todas as linguas, pois meu corpo o diz. E me faco entender no silencio. Resistencia, os ossos como apoio de um gesto, de um movimento, de uma acao. Os ossos que desenham no ar uma acao, revelam uniao, mas o corpo que dqnca e q voz que encantq traduzem comunhao. Para quem ve, e por quem sou vista, pode tal acao ter sentidos diferentes, quem podera dizer? Ao dancar, nem percebi que o bater os pes no chao acalmava meu coracao. Aterra sofrida removia, e gravida sentia, poderiam flores ali nascer? A luva de fogo do sofrimento me tocava, queimava minha vontade de viver. Eu dancava mais rapido, era o passo mais forte, era o contato com o chao que guardava os ossos ja ressequidos de desilusao.
O fios da existencia

   O por do sol
   Vai renovar brilhar de novo o seu sorriso
   E libertar
   Da areia preta e do arco-iris cor de sangue
   Cor de sangue, cor de sangue, cor de sangue
   O beijo meu. Vem com melado decorado cor de
   rosa
   O sonho seu. Vem dos lugares mais distantes, terras
   dos gigantes
   Super-homem, super-mosca, super-carioca, super
   eu, super-eu
   Deixa tudo em forma, e melhor nao ser
   Nao tem mais perigo, digo ja nem sei
   Ela esta comigo, digo so nao sei
   O sol nao adivinha, baby e magretinha
   O sol nao adivinha, baby e magretinha
   No coracao do Brasil

   Musica "Magrelinha". Autoria: Luiz Melodia,
   interprete: Zeze Motta


A vida afetiva caminhava concomitantemente com minha vida profissional, e muitas pessoas riem quando digo que minha educacao sexual foi atraves de livros. Minha mae e minhas irmas contribuiram muito com isso. Lembrome de que, quando alguma jovem na vizinhanca engravidava precocemente, eu escutava a minha mae dizendo: "Filha minha nao vai me dar este tipo de desgosto", ou outra de suas maximas: "Eu confio em minhas filhas". Em minha saida de casa para estudar fora, algumas conversas enviesadas comecaram a tecer uma rede de intrigas entre nos. Eu ouvia comentarios maliciosos quando visitava minha familia. Minha mae dizia que minhas irmas falavam para ela: "A senhora vai ver o diploma que ela vai trazer para casa". Em outras palavras, eu voltaria para casa gravida, com um bebe. Considerando a rigidez da educacao familiar e religiosa que recebi, somada a minha timidez, sempre acompanhada de uma risonha extroversao, achei por bem estudar. Foi no termino da graduacao que tive meu primeiro namorado. Casei-me apos concluir o doutorado. A carreira como prioridade fez com que adiasse a maternidade. Afetos e desafetos levaram ao fim de uma paixao e do casamento. E dancei nos espacos vazios do meu ser.

Destarte, comunicar a morte do meu irmao e acompanhar minha mae em seu processo de luto foi uma experiencia de imenso valor para a minha compreensao da maternidade. Sentia ali os limites do fio da vida que, ao romper, desabrochou a rigidez da dor escondida em meu ser. Descobri com Hannah Arendt que
   O fato decisivo que determina o homem como
   consciente, um ser de lembrancas, e o nascimento
   ou a natalidade, quer dizer, o fato de que nos entramos
   no mundo por nascimento. O fato decisivo que
   determina o homem como um ser desejado e a morte
   ou mortalidade, o fato de que nos deixaremos o
   mundo atraves da morte. Medo da morte e
   insuficiencia de vida sao as fontes de desejo. Em
   contraste, gratidao para a vida que tem sido
   determinada como fonte de recordacao e
   apreciada, ate mesmo para uma vida em miseria. (11)


Dessa fiacao, comecei a tecer a existencia em liberdade. No meu ventre livre do medo e da dor e, em meio a paz e a esperanca, gestei, no processo de adocao, a pequena Hannah, "o sol nao adivinha, baby e magrelinha, no coracao do Brasil".

No dia em que a conheci no abrigo, havia tres folhas com desenhos colados na paredes; no primeiro, havia uma crianca com uma familia, e estava escrito: "toda crianca tem direito a uma familia"; no segundo, tinha uma crianca numa escola, e estava escrito que toda crianca tem direito a educacao, e outro continha uma crianca sozinha. A pequena apontou para este e disse: "Essa aqui sou eu." Li e estava escrito: "Toda crianca tem direito a um nome e a uma nacionalidade". Pensei: "E ela!" Eu tinha escolhido o nome de Hannah, pois queria que a crianca fosse inspirada pelo nome. Hannah Arendt foi uma pessoa que sobreviveu a muitas atrocidades, problematizou e filosofou sobre o que viu e amou no mundo. Hannah, nome hebraico, quer dizer Ana. A pequena recebe o nome tambem de sua tataravo, e renova o cla das tecelas da existencia.

A historia poderia acabar por aqui, mas me interesso pelo momento de transfigurar o mundo da acao sob os auspicios da ficcao e mostrar que a historia continua, pois, se se e livre para pensar e escrever a propria historia, entao trata-se de um novo comeco.

[Outono, 2011]

As maos da minha avo Maria segurando o cachimbo com seu olhar distante, e as historias de Madrinh'Ana, que ressoam em meu corpo atraves do toque das maos da minha mae, impermearam minha pele de memoria. Diferente da dos ossos, mas de igual valor. A memoria da pele negra e imemorial. Eterna. Lembro-me das minhas ancestrais ao observar tres mulheres Xhosa sentadas na roda com uma fogueira acessa no meio, elas com rostos pintados de branco, turbantes na cabeca, tecidos vermelhos enrolados no corpo. Sinto que algo maior esta acontecendo ali, naquele encontro de curandeiros e curandeiros, um grupo de vinte pessoas, de estranhas somente nos, as convidadas brasileiras: eu e a pequena. Africa do Sul, Cidade do Cabo. Ali chego para estudar sobre a danca e o perdao. Por um ano vivemos naquele solo sagrado. Caminhando de maos dadas com minha filha e indagando se o corpo esquece, olhei nos olhos do minha sombra, conversei com a violencia que mora em mim, tornei-me conhecida entre os sem-teto, chorei a morte das criancas em Soweto, escutei as vozes do silencio de diferentes liderancas espirituais; dancarinos e dancarinas de diversos grupos culturais mostraram-me as texturas da reconciliacao.

No silencio, medito no proverbio de autoria atribuida a Salomao: "O Coracao alegre e bom remedio, mas o espirito abatido faz secar os ossos." Descubro que os ossos guardam a memoria da alegria e da dor. Dor que tendoes e articuldcoes conhecem bem. Porque doi. Posso dancar com dor e tambem com a dor em mim. Dor que nao e minha dor. Dor compartilhada. A alegria, sim, depois de saber quem e a dor que habita o corpo. Alegria vem da descoberta despida do manto da dor. A Alegria, memoria que traz esperanca e traz vida a existencia. A dor, o medo e a violencia tem algum laco de parentesco. Do mesmo modo que a reconciliacao, o amor, a fe, a esperanca, a paz e a alegria fazem parte da mesma familia de sentimentos. O que faz secar os ossos e a dor, o medo, a violencia. O que da vida ao espirito e o perdao, a reconciliacao, a amorosidade, a paz e a alegria.

A escuta da linguagem corporal de minha mae fez com que eu fosse para a Africa do Sul em busca de perdao e reconciliocao com o mundo, e, com isso, esculpir uma estetica do silencio. Na ciranda da vida, caminho lado a lado com minha filha, de maos dadas tambem, tentando dar outros sentidos para o tocar das maos, novos codigos de amor e liberdade que esta escrita revela. Dedico esta historia as mulheres negras tecelas da minha existencia. Enquanto isso, na sala de um apartamento ensolarado pela luz primaveril, escrevo e tambem observo minha mae, com uma linha de algodao entrelacada nos dedos, com a agulha de croche, ensina a pequena Hannah a fazer correntinhas ... Para Ana.

Referencias

ARENDT, Hannah. Rahel Varnhagen: a vida de uma judia alema na epoca do romantismo. Rio de Janeiro: RelumeDumara, 1994.

--. Entre o passado e o futuro. Sao Paulo: Perspectiva, 2000,

--. Love and Saint Augustine. Edited Joanna Vechiarelli Scott and Judith Chelius Stark. Chicago & London: The University of Chicago Press, 1996.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

CAMPBELL, Joseph. Para viver os mitos. Sao Paulo: Cultrix, 2000.

PHILIR Marlene Nourbese. 'African roots and continuities: race, space and poetics of moving." In:--. A genealogy of resistance and other essays. Toronto, Ontario: The Mercury Press, 1997.

RICOEUR, Paul. "O texto como identidade dinamica". In: --. A hermeneutica biblica. Sao Paulo: Loyola, 2006; p.116-129.

SALOMAO. "Proverbios". In: Biblia da mulher. Barueri: Sociedade Biblica do Brasil, 2009, p. 1030.

TREVINOS, Selma. Reconstruction: a conversation between past and present. New York. 2008. Artigo nao publicado.

[Recebido em junho de 2013 e aceito para publicacao em maio de 2014]

Ida Mara Freire

Universidade Federal de Santa Catarina

(1) Referencias encontradas no site do Tribunal de Justica do Rio Grande do Sul. Disponivel em: <http://jij.tjrs.jus.br/paginas/docs/legislacao/Lei_2040_28set1871.html>.

(2) Hannah ARENDT, 1994, p. 15.

(3) ARENDT, 1994, p. 16.

(4) ARENDT, 2000, p. 74.

(5) ARENDT, 2000, p. 76.

(6) ARENDT, 2000, p. 208.

(7) Entrevista com Felicia Gama de Almeida Freire por telefone em 21 jan. 2013.

(8) ARENDT, 2000, p. 216.

(9) Registrado em diario pessoal em 26 dez. 2000.

(10) Musica "Dores de Amores". Autoria: Luiz Melodia, interprete: Zeze Motta.

(11) Traducao livre de: "The decisive fact determining man as a conscious, remembering being is birth or natality," that is, the fact that we have entered the world through birth. The decisive fact determining man as a desiring being was death or mortality, the fact we shall leave the world in death. Fear of death and inadequacy of life are the springs of desire. In contrast, gratitude for life having been given at al lis the spring of remembrance, for a life is cherished even in misery." (ARENDT, 1996, p. 51)
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Title Annotation:Ponto de vista; articulo en portugues
Author:Freire, Ida Mara
Publication:Revista Estudo Feministas
Article Type:Ensayo critico
Date:May 1, 2014
Words:9274
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