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TIMOTHY SAUNDERS, CHARLES MARTINDALE, RALPH PITE, MATHILDE SKOIE (ed.), Romans and Romantics.

TIMOTHY SAUNDERS, CHARLES MARTINDALE, RALPH PITE, MATHILDE SKOIE (ed.), Romans and Romantics, Oxford, Oxford University Press, 2012. XXII + 431 pp. ISBN 978-0-19-958854-1

A longevidade da literatura nao esta dissociada da multiplicacao de interpretacoes a que os textos foram sendo sujeitos ao longo dos seculos, porquanto os seus leitores neles encontram novidade continua que motiva, em termos artisticos, a criacao de novas obras (literarias, pictoricas, escultoricas, cinematograficas, etc.), ao mesmo tempo que eles podem servir de fundamento teoretico para ideias conservadoras ou revolucionarias nos campos social, economico ou politico (veja-se como os estudos de genero se tem apropriado de textos antigos, por vezes em desconsideracao pelo contexto historico que os produziu). Nesse sentido, o papel que Roma veio a assumir no periodo de implantacao das ideias liberais (e, por associacao, na literatura romantica) despertou o interesse nos criticos, que ha decadas exploram de que modo a civilizacao romana (com os seus herois da republica e os viloes do principado) configurou um exemplo de actuacao politica na Europa dos finais do seculo XVIII e primeiras decadas do seculo XIX. Fornecendo argumentos e um imaginario capazes de sustentar e propagandear as novas correntes ideologicas, Roma (muito mais do que a Grecia) viria a tornar-se modelo historico para as transformacoes de monarquias em republicas, como sucedeu em Franca. Na verdade, por defeito, a republica era um regime romano. Os escritores romanticos acabariam, compreensivelmente, por dar brado dessa relacao, indo, todavia, muito alem da questao politica, criando afinidades literarias que podem e devem ser estudadas.

A este proposito, o trabalho editado pelos academicos Timothy Saunders (Volda Univ. College), Charles Martindale (Univ. de Bristol), Ralph Pite (Univ. de Bristol) e Mathilde Skoie (Univ. de Bergen e de Oslo) retoma uma questao fundamental, muitas vezes marginalizada (em favor do "romantismo helenico"): a ligacao entre Romantismo e Antiguidade romana.

Em seis paginas, o prefacio da conta da importancia do trabalho colectivo apresentado, ajuizando sobre a interaccao entre duas epocas cujo contacto tem tido pouca atencao: "Without the Romantics, the ancient Romans would not look the same to us as they do today" (p. v). O mesmo texto enuncia as perguntas para as quais a obra procura resposta: "how has Romanticism been shaped by its reception of Roman antiquity? and how have subsequent understandings and representations of Roman antiquity, including our own, in turn been influenced by Romanticism?" (p. v).

A justificacao para um tao vasto (e prolongado) silencio tera que ver com a persistencia de alguns "myths about both the Romans and the Romantics that tend to locate them at the opposite poles of a strict antithesis". E o caso da famigerada ideia de que o Romantismo e a recusa de tudo o que provem da Antiguidade, a oposicao ao "classico" (ideia fortemente implementada em Portugal, diga-se); outro preconceito enraizado e o que defende que o Romantismo foi eminentemente filelenico (os romanticos foram, nesta perspectiva "venerators of the supposedly vital, original, and authentic culture of the Greeks", p. vi); finalmente, persiste a ideia de que uma correcta apreciacao da civilizacao romana exige que se ignorem os preconceitos romanticos sobre os Romanos. Nesse sentido, "This volume challenges every one of these myths" (p. VI).

O estudo apresenta-se enquanto contributo para uma definicao de conceitos latos e declaradamente rarefeitos como sao os de Antiguidade romana e Romantismo. Conscientes de que o ultimo tem uma longa tradicao de definicoes, que nenhuma delas abrange satisfatoriamente aquilo que se quer definir (um periodo? um estilo?), diz-se que "Romanticism (...) is a much of a product--and as much a shifting, unstable product--of its reception" (p. VII). Devera interpretar-se o outro conceito da mesma forma: "Roman antiquity is at least as much of a vast, internally variegated, inconsistent, shifting, and variously defined grouping as Romanticism". Quando se fala de Roma, fala-se da cidade e de uma "particular selection of artefacts, texts, historical figures, legends, laws, ideas, social and political practices" (p. VII), por isso referir a cultura romana como algo coeso e imutavel presta-se a interpretacoes inexactas. Se foi fundada em 753 a.C., Roma caiu mais de mil anos depois, vindo a compreender "different sets of values, qualities, and lessons", de onde se depreende, com acerto, que "the ancient Rome and ancient Romans they encounter are by no means all of a kind" (p. VII).

Expostos estes principios orientadores, cada trabalho que constitui o volume acaba por ser uma resposta concreta--por se concentrar num aspecto individual e desenvolver a argumentacao a partir de casos particulares--ao desafio de desconstrucao daqueles lugares-comuns seculares. O corpus sobre o qual os autores preparam as respostas e muito diversificado, pois e notavel a vastidao dos contributos reunidos, nao so em termos da sua filiacao institucional (universidades norueguesas, inglesas, americanas, italianas), mas sobretudo pela diversidade das formacoes dos autores (Estudos Classicos, Literaturas Russa, Inglesa, Italiana, Norueguesa e Filosofia, Historia, Historia da Arte). Alem disso, neste volume encontram-se ensaios de investigadores mais novos e menos conhecidos, ao lado de nomes obrigatorios na area dos estudos de recepcao (como Timothy Webb ou Charles Martindale).

Na Introducao, Ralph Pite (pp. 1-20) explica as "respostas romanticas a Antiguidade romana", esclarecendo ainda a questao da "influence of Romanticism on Roman studies", nomeadamente quanto a enfase romantica na autenticidade e independencia do genio do autor individual e ao tratamento de tematicas como a natureza e o amor, que mereceram da parte dos romanticos especial atencao.

Seguem-se dezoito ensaios do livro, divididos por tres seccoes que irei descrever. A Parte I trata de Romantismos (um plural com reminiscencias dos estudos do Romantismo de Lovejoy, ideia rebatida por Rene Welleck). O texto de Jonathan Sachs ("Republicanism: Ancient Rome and Literary Modernity in British Romanticism", pp. 23-42) retoma a ideia expressa noutra obra do academico (Roman Antiquity, 2010), de que os ideais politicos modernos na Gra-Bretanha sao devedores da Republica Romana. No ambito da reflexao estetica dos irmaos Schlegel, Madame de Stael ou de Percy Shelley, Timothy Saunders discute o conceito de originalidade, imitacao e influencias (pp. 65-86), defendendo que os Romanos nao se limitaram a imitar os Gregos. Mathilde Skoie ("Romantic Scholars and Classical Scholarship: German Readings of Sulpicia", pp. 87-108) estuda a recepcao de Sulpicia na critica literaria alema durante o Romantismo; dando atencao a Heyne, Dissen e Gruppe, a A. consegue distinguir atitudes diferentes em cada um destes comentadores (deve-se a Gruppe a ideia de Sulpicia ser uma autora diferente de Tibulo). Genevieve Liveley ("On love", pp. 109-124) demonstra, a partir da versao da poesia de Ovidio, como o mito de Narciso contribuiu para a configuracao do sujeito lirico da poesia romantica inglesa (Shelley, Byron, Coleridge, mas nao so) enquanto amante.

A segunda parte ("Romantics") reune textos que se podem descrever como estudos de caso, dedicados a um autor romantico singular: Stuart Gillespie (pp. 127-144) estuda a recepcao de Juvenal (com especial atencao dada a Satira VIII) em Wordsworth, e Bruce Graver (pp. 145-160) analisa a influencia da filosofia estoica (de acordo com teorias de Cicero e Seneca) na obra deste poeta, embora se facam comparacoes com outros autores, sobretudo Coleridge. Juan Christian Pellicer (pp. 161-182) trata da recepcao das Eclogas e das Georgicas em Beachy Head (1807), poema de Charlotte Smith, tracando uma abrangente contextualizacao, que nao dispensa a referencia a outras obras da mesma autora, responsavel pela reintroducao do soneto na poesia inglesa romantica, e de escritores como Gray. Quanto ao valor simbolico de Roma, Catharine Edwards (pp. 183-201) defende que ele sustenta os conceitos de desejo e perda na Corinne (1807), da Madame de Stael, e Timothy Webb (pp. 203-224) distingue as perspectivas de Percy e Mary Shelley e de Byron, tanto em obras de nao ficcao como na poesia, sobre a capital do imperio. Jostein Bortnes (pp. 225-241) dedica o seu ensaio a recepcao de Ovidio em Pushkin, na forma como ambos exprimiram o sentimento de exilio. Jorgen Magnus Sejersted (pp. 243-262) explora como a organizacao do estado republicano de Roma, a filosofia estoica (e tradicional associar Catao de Utica a Cristo) e o narcisismo (de matriz ovidiana) estao presentes na obra de inspiracao biblica A Criacao, Homem e Messias (1830), de Henrik Wergeland. Partindo da educacao formal classica dos escritores romanticos, das viagens a Italia para educar o gosto, Carl J. Richard (pp. 263-282) considera significativa a influencia do pastoril, da mitologia (transmitida pelas Metamorfoses, de Ovidio) e da lei natural e transcendentalista (de indole estoica) na obra dos autores americanos Ralph Waldo Emerson e Nathaniel Hawthorne.

Os ensaios que constituem a terceira parte da obra ("Receptions") demonstram como os romances escritos nas ultimas decadas do seculo XIX, The Amazon, de Carel Vosmaer (lido por Elizabeth Prettejohn, pp. 285-303), e Marius the Epicurean, de Walter Pater (estudado por Stefano Evangelista, pp. 305-326), sao mais correctamente compreendidos se se tiver como orientacao as interpretacoes que de Roma e das suas ideias filosoficas fizeram os escritores romanticos. O primeiro destes textos estabelece um dialogo de enorme relevo com a pintura de Lawrence Alma-Tadema; o segundo desenvolve questoes teoricas como a definicao de Romantismo e o conceito de romance historico. Ja no inicio do seculo XX, o poeta Thomas Hardy escreve Poems of the Past and the Present (1902), obra de heranca romantica em que Roma ocupa um lugar central, como Ralph Pite faz notar (pp. 327-346).

Fora da literatura, Roma aparece no periodo romantico por meio da opera: Erling Sandmo (pp. 347-362) analisa tres pecas em que sobressaem as figuras de governante (La Clemenza di Tito, de Mozart), de fantasma (Aeneas i Cartago, de Joseph Martin Kraus) e de profeta (Les Troyens, de Hector Berlioz). Piero Garofalo (pp. 363-383) olha para os primordios do cinema italiano, no inicio do seculo XX, e ve em tres filmes (Gli ultimi giorni di Pompei, 1908, Nerone, 1909, Cabiria, 1914), mas com referencias a outras obras (como o romance Salammbo, de Flaubert, a proposito de Cabiria), a tematizacao de assuntos historicos de Roma, provando o fascinio que as ruinas e a destruicao do imperio continuaram a exercer muito alem do Romantismo.

No posfacio, Glenn W. Most (pp. 385-394) reafirma a posicao de Roma como tema obrigatorio dos estudos do Romantismo: a nova historia de Niebuhr (que, recorde-se, viria a influenciar Oliveira Martins na sua Historia da Republica Romana) e a recolha de poesia de Macaulay sao produto de uma revitalizacao romantica de Roma, cuja importancia cultural nao e despicienda para ajudar a interpretar o mundo.

Finalmente observe-se que o volume Romans and Romantics poderia tornar-se mais amigo do leitor estudioso se algumas opcoes editoriais tivessem sido tomadas, sobretudo no que diz respeito a bibliografia (cada texto com o seu elenco bibliografico e nao uma lista unica final). Como acontece em outros livros da mesma editora, um indice remissivo de nomes facilita a consulta pontual.

Sublinhe-se que a importancia da obra deve muito a leitura das literaturas perifericas (os principais textos sao, porem, acerca das literaturas inglesa e alema, espaco onde o Romantismo teve expressao mais original, e seus autores canonicos). Se e preciso vencer obstaculos criados por preconceitos academicos e cientificos, o volume Romans and Romantics e uma pequena porta aberta para aquele jardim que fica para la da toca do coelho.

Ricardo Nobre

Centro de Estudos Classicos da

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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Author:Nobre, Ricardo
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2016
Words:1861
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