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THERAPEUTIC TABLES AND HEALTHY TABLES: PLATONIC TEXTS IN DIALOGUE WITH HIPPOCRATIC AND GASTRONOMIC LITERATURE/MESAS TERAPEUTICAS E MESAS SAUDAVEIS: PLATAO EM DIALOGO COM A LITERATURA MEDICA E GASTRONOMICA.

INTRODUCAO

Herdeiro da "escola socratica", o pensamento filosofico de Platao tem por motivo central de reflexao o ser humano ([phrase omitted]), inserido na polis. Homem do seu tempo, o fundador da Academia convoca para a construcao da matriz filosofica humanista dos seus escritos uma serie de debates que, contemporaneamente, acendiam as discussoes tanto em circulos intelectuais mais restritos, como em fora populares. Dessa paleta vasta de "temas na moda", elegi refletir sobre as inter-relacoes que resultam da permeabilidade de fronteiras de atuacao de duas esferas do quotidiano correlacionadas, ambas atinentes ao dominio do cuidar do corpo ([phrase omitted]) e ambas partilhando um mesmo campo de intervencao (a comida): a cozinha e a medicina. As fontes escritas que nos chegam da Epoca Classica, cronologia alargada que contextualiza o estudo do corpus platonico, sao unanimes em evidenciar que essa aproximacao entre o conhecimento do cozinheiro e o do medico animava a agenda dos Gregos. Helenistas como John Wilkins (2001) e Maria Jose Garcia Soler (2008) tem chamado a atencao para o tratamento que lhe foi dado no teatro comico. Mais recente e particularmente rico, nao so pela analise das fontes, mas tambem pelo completo balanco que faz do estado da arte, em Platao sobretudo, e o estudo de Fernando Notario (2015) "Plato's political cuisine. Commensality, food and politics in the Platonic thought". (1) Como bem observa um dos estudiosos de referencia em medicina antiga, Philipp J. Van der Eijk (2005, 14), a filosofia ate 400 a.C. nao apresenta separacao entre investigacao teorica e pratica, conforme atesta o interesse dos pensadores desse periodo classico rotulados de "filosofos", que tambem refletem e escrevem sobre etica, politica, tecnologia, ciencias da natureza e dominios da doenca e da cura.

Importa, por conseguinte, esclarecer que contributo novo pode a minha proposta de analise trazer a uma linha de pesquisa ja trilhada por outros investigadores, do dialogo entre textos filosoficos, medicos e de literatura gastronomica. O meu objetivo consiste em apurar em que medida as convergencias e divergencias entre estes tres tipos de textos revelam a presentificacao, por parte de personagens platonicas, quer de teses cientificas e de opinioes populares em termos de dietetica, quer da coabitacao de correntes culinarias diversas e suas analogias com a pratica medica. Nao reservo para o termo do meu estudo os resultados dessa analise, mas apresento-os de imediato:

1. Platao veicula o principio fundador ([phrase omitted]) da medicina como [phrase omitted] (explanado no tratado hipocratico Da medicina antiga): o estabelecimento de um regime proprio para os doentes ([phrase omitted]), distinto do das pessoas saudaveis ([phrase omitted]).

2. Platao radicaliza o retrato medico das "mesas terapeuticas" como espaco de secundarizacao do prazer (da diversidade e quantidade) alimentar, veiculado no CH. Assiste-se ao extremar da concecao da mesa saudavel prescrita pelo medico ([phrase omitted]), em contraste com a opinio communis de que as mesas da autoria do mestre de culinaria ([phrase omitted]) sao "mesas de delicias".

3. Essa radicalizacao convive com uma outra distincao, entre "mesas de sobrevivencia" e "mesas de delicias", sendo estas ultimas conotadas com a decadencia moral, evidente na cidade doente ([phrase omitted]) e ausente, por contraste, da cidade sa ([phrase omitted]), ambas descritas na Republica.

4. O confronto entre esta polarizacao platonica e fragmentos sobreviventes de literatura gastronomica sua contemporanea demonstra que o filosofo apenas da testemunho da visao negativa da "alta cozinha", partilhada por um determinado setor aristocratico, silenciando o "resgate moral" que outros setores promoveriam (conflito bem evidente no poema gastronomico do poeta siciliano Arquestrato). Como a diaita prescrita pelos medicos tambem pode ser um produto de luxo, verifica-se que Platao ignora essa nocao de "alta medicina", ate porque, no fundo, nao se compaginava com o seu programa de negacao do estatuto de techne verdadeira a "alta cozinha".

O meu estudo estrutura-se, pois, em quatro partes, cada uma compreendendo a reflexao que conduziu a estas conclusoes. Antes de passar a essa analise, e porque coloco em dialogo fontes de autorias distintas, convem ter presente que a leitura que proponho, sempre que assinalo ideias convergentes entre os dialogos de Platao e os tratados do CH, nao deve ser de que se confirma, por essa via, a influencia exercida pelos textos hipocraticos na obra do filosofo. Uma tal interpretacao e demasiado redutora, pois existiram outros textos medicos, que se perderam na longa transmissao ate ao sec. XXI. Alem de que, como bem chama a atencao Laurence Totelin (2013, p. 119-120), a oralidade foi outra forma de transmitir praticas, teorias e vocabulario medico, estendendo-se o universo da cura tambem a leigos e praticantes de uma "medicina popular". (2) Atesta-se, sim, a presenca inegavel da medicina na koine cultural (intelectual e popular) da Epoca Classica grega.

1. ARCHE CIENTIFICA DA MEDICINA: DIETA DE DOENTES VERSUS DIETA DE PESSOAS SAUDAVEIS

E no tratado Da medicina antiga ([phrase omitted]), comumente designado VM (De vetera medicina), que se afirma (cap. 3) estar a 'origem' ([phrase omitted]) da ciencia medica ([phrase omitted]) na descoberta da necessidade de diaitai diferenciadas para os doentes e para as pessoas saudaveis, diaitai respetivamente denominadas no cap. 8 de [phrase omitted]. O 'estilo de vida' ([phrase omitted]) tem por pilares o que se come e bebe, a que justamente se pode chamar de "dieta alimentar", mas inclui 'ainda outros aspetos da vida' ([phrase omitted], VM 3.1). Um dos textos hipocraticos em que mais detalhadamente se apresenta o sentido holistico de diaita e precisamente o Da dieta ([phrase omitted]). Os dominios fundamentais do 'modo de vida' sao tres, devendo juntar-se aos dois anteriores o exercicio fisico. (3) Contudo e nos alimentos, naquilo que, por se ingerir, imediatamente interfere com o corpo, que o foco das atencoes do medico-autor de VM se centra. Tanto assim e que, nao satisfeito com a identificacao do processo responsavel pela origem da ciencia medica, a diaita dos doentes, o autor anonimo do tratado estabelece o que, em linguagem moderna, poderiamos chamar de "proto-historia" da arte medica.

Ao fazer remontar a invencao da dieta alimentar civilizada (aquela em que se substitui o cru da "dieta selvagem" --[phrase omitted], VM 3.4--pelo cozinhado), o mesmo e dizer a "cozinha", o termo de sofrimentos, de doencas e de mortes dos homens desse passado distante, provocados por inadequada alimentacao, o autor estabelece mais do que uma linha evolutiva direta entre os dois conhecimentos. Na verdade, ele afirma que, por trazer saude aos homens, essa 'descoberta' ([phrase omitted]), da cozinha (acrescentamos nos), poderia mais justamente ser chamada de medicina (VM 3.6).

No entanto o Autor de VM tem consciencia de que ha diferencas "epistemologicas" evidentes entre as duas formas de conhecimento em causa (a cozinha e a medicina), traduzidas na maior complexidade que assiste a segunda ([phrase omitted], VM 7.3). E precisamente em relacao a este ponto--a concecao de techne--que se regista uma divergencia de fundo entre a VM e o dialogo platonico onde o assunto assume protagonismo, o Gorgias. (4) Na longa fala de Socrates (464b-466a) em que se procede a distincao entre a verdadeira e a 'disfarcada' ([phrase omitted], 464c) ou aparente 'arte de cuidar do corpo' ([phrase omitted]), a chamada 'arte da adulacao' ([phrase omitted]), torna-se antes de mais evidente a separacao epistemologica, de base moral, entre a 'arte da medicina' ([phrase omitted]) e a 'arte culinaria' ([phrase omitted]). Retomarei a questao da diferenciacao etica abaixo, quando desenvolver o relevo da hedone para as duas areas de especializacao. Agora interessa-me, antes, destacar, juntamente com Mark Schiefsky (2005, p. 345-348), que ha uma divergencia epistemologica de fundo entre o pensamento medico e o do filosofo que estamos a considerar, Platao. Ou seja, enquanto na VM se admite que a 'competencia profissional' ([phrase omitted]) envolve tanto conhecimentos teoricos ([phrase omitted]) como procedimentos rotineiros, decorrentes da percecao e da memoria ([phrase omitted]), em Platao assiste-se a depuracao absoluta do conceito de techne, reduzido a um dominio do logos. (5)

A razao para se assistir, no pensamento filosofico, a esta distincao epistemologica tem por base um fundamento etico, uma vez que Socrates considera que o objetivo de uma techne e o 'grau superlativo do bem' ([phrase omitted], Grg. 464c-d), diversamente de uma empeiria, que persegue o 'grau superlativo do prazer' ([phrase omitted], ibidem). Entramos, assim, no ponto 2 da minha analise. Repare-se, desde ja, a importancia que tem o uso de superlativos, pois dessa referencia infere-se que ha graus diversos de 'bom' e de 'prazer' e, em particular para o que a minha discussao sobre a mesa diz respeito, infere-se que o dominio da confecao de alimentos, incluido por Socrates no ramo da 'adulacao' da 'arte de cuidar do corpo', e um dominio muito especifico da cozinha: o da 'preparacao de iguarias' e nao o da alimentacao basica. E essa enfase na satisfacao maxima do palato, viabilizada pelo que chamariamos de "mesas de delicias", que e remetida por Platao para o universo da empeiria. Vejamos, de seguida, que lugar e reservado ao prazer gastronomico nas mesas terapeuticas e nas mesas saudaveis, tanto nos escritos do CH como nos dialogos de Platao.

2. LUGAR DA HEDONE NO DISCURSO DIETETICO MEDICO E NO DISCURSO DIETETICO PLATONICO

No tratado Da medicina antiga (5.2) afirma-se:
   [phrase omitted].

   Realmente ainda hoje todos quantos nao fazem uso da
   medicina, os Barbaros e alguns Gregos, vivem o mesmo
   regime que as pessoas de saude, em funcao do prazer,
   sem se privarem de nada que desejem e sem terem de
   se conter. (6)


Ou seja, no subtexto deste retrato da dieta das pessoas saudaveis, le-se o perfil tipologico das "mesas terapeuticas", prescritas pelo medico a quem tiver de recorrer a sua techne. Nesses casos o regime deixa de ser orientado para o agradavel ([phrase omitted]), exige privacao e contencao. Quer isto dizer que a hedone deixa de ser central na arte medica, mas nao que se anula por completo. Prova dessa secundarizacao deteta-se nas parcas (e, na maioria das vezes, subentendidas) alusoes, feitas nos tratados medicos, a importancia do 'gosto agradavel' da comida, i.e., ao 'prazer' que se retira da sua ingestao.

Comecemos por dar conta da insistencia em prescrever comidas 'saborosas, agradaveis' (sentidos contidos no adj. [phrase omitted]), ideia que pode ainda estar subentendida na contraindicacao de se servir aos pacientes pratos 'desagradaveis, sem gosto/sabor' (adj. gr. [phrase omitted]) e na alusao ao 'bom cheiro' (adj. [phrase omitted]) exalado por determinadas comidas. Por conseguinte, alem do paladar, igualmente o olfato sobressai como sentido estimulante do apetite (tambem) dos doentes.

Paradigmatica e, a respeito do lugar que o 'prazer/ gosto agradavel' ocupa nas mesas terapeuticas, a maxima 38 do livro II dos Aforismos:
   [phrase omitted].

   Deve escolher-se preferencialmente bebida e comida de
   qualidade um pouco inferior, embora mais saborosa,
   em vez das de melhor qualidade, mas mais insipidas.


Alem do paladar, tambem o olfato do doente e passivel de ser estimulado, como se depreende de um trecho do [section]41 do tratado Dos padecimentos. Ai se prescreve a preparacao de um prato de lentilhas 'bem cheirosas' ([phrase omitted]), comida a servir no regime alimentar de um paciente que, depois de uma purga medicamentosa, fique com febre.

O principio que nestes trechos esta implicito--de que a cozinha terapeutica se deve moldar as vontades, gostos e habitos alimentares de cada doente, pelo que e uma "cozinha personalizada" (7)--noutros passos do CH e claramente evidenciado. A unica ressalva e de que a concessao feita a hedone pelos medicos nao pode conduzir ao agravamento do estado debilitado de saude do paciente, como ainda esclarece o Autor do tratado Dos padecimentos ([section]44).
   [phrase omitted].

   De quanto pao, condutos (8) e bebidas os doentes desejarem
   ponham-nos a sua disposicao, se [dai] nao vier
   nenhum mal ao corpo.


Refira-se uma ultima ocorrencia da mencao expressa ao papel (secundario, mas ainda assim existente) da hedone nas "mesas terapeuticas" do CH. A dieta de verao apresentada pelo autor do tratado Da dieta (68. 13), com o objetivo de contrabalancar o clima da estacao, determina a exclusao dos alimentos secos e quentes. Uma vez que um dos alimentos proibidos e o pao, que constituia a base da alimentacao da epoca e, consequentemente, por ser identitario mais dificil era abdicar dele, ha o cuidado de registar a condescendencia feita, neste caso, a hedone ou gosto do doente:
   [phrase omitted].

   Continuar com esta dieta ate ao solsticio, de modo a,
   no decurso deste periodo de tempo, privar-se de tudo
   o que e seco, quente, negro e puro, e do pao, salvo se
   for so um bocadinho, em atencao ao gosto.


E caso para dizer que "comida de doente" nao tem de ser (nao deve ser) desprovida de (bom) gosto.

Ha, no entanto, em consequencia do estado debilitado dos pacientes, necessidade de alterar as quantidades habituais de consumo de alimentos e bebidas. (9) Nao estranhemos, por isso, que, em dois momentos do Gorgias, Socrates, por um lado, se faca porta-voz da ma fama que a opiniao comum (a dos mais novos e dos adultos sem senso, os [phrase omitted] e os [phrase omitted]) tinha da dieta dos doentes, pelo outro, convirja com o CH quanto a admissao de que a hedone desempenha um papel nas dietas medicas. O que iremos aclarar e que essa inclusao resulta do valor etico (e nao estetico, de mera fruicao dos sentidos) que o 'prazer/gosto' assume na heuristica medica. Na fala em que identifica a culinaria como empeiria e a medicina como techne, Socrates declara que, na visao do homem comum, 'a melhor comida' (uso do superlativo [phrase omitted], na expressao [phrase omitted]) e a feita pelos "mestres de culinaria" (opsopoioi) e a 'pior comida' ([phrase omitted]) e a dos medicos (Grg. 464d-e). O filosofo repudia, ainda, a ideia de que so a comida preparada pelo cozinheiro e boa, com o seguinte argumento: porque visa o prazer sem o melhor ([phrase omitted], Grg. 465a). Ou seja, fica implicito que ha uma hedone dietetica aceitavel, aquela que convive com a nocao de [phrase omitted], que no contexto medico, que e o que nos interessa ao presente debate, significa 'melhor para a saude'. Que, em linguagem medica, falar de 'melhor' corresponde a 'saudavel' e que 'alimentacao saudavel' e o dominio de conhecimento do medico sao ideias que ecoam em outros dois dialogos platonicos, o Alcibiades (1. 108e) e o Ion (531e), respetivamente.

No dialogo entre Socrates e o jovem Alcibiades, aspirante a conselheiro politico dos Atenienses em materia decisiva como a da agenda militar de Atenas (Alc. 1. 107c), a proposito do principio de que so quem possui determinada techne esta habilitado a opinar com conhecimento sobre 'o melhor' ([phrase omitted]) na respetiva area, o mestre evoca o exemplo do medico. Perante a incapacidade do discipulo em identificar 'o melhor' nos dominios em que se dizia especialista (o guerrear e o fazer a paz), Socrates nao esconde a sua surpresa e recorre a analogia com a ciencia do medico. Nesse passo evidencia-se que caberia ao medico definir 'o melhor' ([phrase omitted]) em materia alimentar ([phrase omitted]) e que essa qualificacao tem por equivalente 'o mais saudavel' ([phrase omitted]). Repare-se que existe sintonia entre os criterios enunciados por Socrates como determinantes na avaliacao de uma dieta correta (10) e a teorizacao hipocratica presente em VM (caps. 9-10). Tanto num sitio, como no outro, se fala de selecao e de quantidades de alimentos, bem como do momento de consumo adequado. (11) No dialogo Ion (531e), por seu turno, assistimos a nova evocacao do medico como o detentor da techne que permite 'falar da melhor maneira' ([phrase omitted]) 'dos alimentos saudaveis' ([phrase omitted]).

Contudo o que por diversas vezes vem enfatizado nos dialogos de Platao e a opiniao comum do desprazer das mesas terapeuticas, precisamente retratadas pela privacao de gosto e reducao das porcoes ingeridas. Retomemos o Gorgias, agora no passo 521d-522a, em que Socrates recorre a analogia entre a sua situacao de julgado e a de um medico acusado por um 'mestre de culinaria' ([phrase omitted]) num tribunal de jurados imaturos ([phrase omitted]). Na fala imaginaria de acusacao, deparamos com o claro confronto entre a mesa dos cozinheiros e a "mesa terapeutica" da autoria de medicos, caracterizada esta ultima por comidas mal saborosas e pela carencia alimentar, mesa onde marcam presenca beberagens extremamente amargas ([phrase omitted], 522a), fome e sede ([phrase omitted], ibidem). Consequentemente, nessa leitura pejorativa do acusador, o efeito causado nos corpos dos pacientes e de emagrecimento ou debilitacao (cf. uso do vb. [phrase omitted], ibidem). Oposta a essa terapia repleta de maldades (apelidada em 521e de [phrase omitted] ... [phrase omitted]) e a mesa repleta de delicias e abundante ([phrase omitted]) de um especialista na preparacao de banquetes, o opsopoios, assim como oposto e o efeito provocado em quem dela se serve: engordar (cf. uso do vb. [phrase omitted], 522a).

Noutro dialogo de Platao retoma-se a ideia de que as "mesas terapeuticas" podem ser desagradaveis ao paladar, caracterizando-se pela [phrase omitted] (Prt. 334c). Desta vez e o sofista que da nome ao dialogo que, buscando um exemplo, no quotidiano, da legitimidade de se recorrer a algo que nao e 'bom' ([phrase omitted]) em nome da 'utilidade' ([phrase omitted]), usa por referencial ilustrativo a dieta alimentar prescrita pelo medico. O trecho em apreco tem ainda o particular interesse de testemunhar o papel que o cheiro (e nao so o paladar) desempenha na experiencia da hedone alimentar, pois evoca-se a condescendencia contida na prescricao de adicionar uma 'pequenissima quantidade' ([phrase omitted]) de azeite a comida dos doentes. Na verdade, segundo a opiniao do sofista, o azeite era um alimento proibido na mesa terapeutica, exceto se fosse util na facilitacao da ingestao de alimentos desagradaveis ao olfato. Subjaz, uma vez mais, a opiniao comum de que a comida de doente nao so sabe mal, como nao cheira bem.

3. SENTIDO POLITICO-MORAL DA "MESA" E DA MEDICINA EM PLATAO

Como ficou ja claro, a "mesa"--entendida como universo onde interagem produtos, pessoas e ideias --assume-se em Platao como metafora de valores (Notario, 2015; Romeri, 2015). Cumprindo a "funcao ilustrativa" que lhe e propria, permite ao autor tornar evidente aos olhos do publico uma teoria. (12) No caso que temos em maos--o dos regimes alimentares terapeuticos e saudaveis--os sentidos politico e etico estruturam-se a partir do "dialogo" (entendido como confronto de ideias) entre o quotidiano medico e o quotidiano culinario. Centro a minha discussao na Republica, uma vez que e ai que os dois universos sao claramente colocados ao servico da definicao do que e moralmente bom ou prejudicial a polis. No primeiro caso, o retrato feito e o da cidade sa ([phrase omitted], R. 372e); no segundo, o da cidade doente (literalmente uma cidade com os humores inflamados: [phrase omitted], ibidem). Importa reter que a autoria destas apreciacoes valorativas e a mesma (Socrates) e que visao bem distinta dessa e a do seu interlocutor (o jovem aristocrata Glaucon). Um encarna a voz da sabedoria, o outro a da insensatez (propria dos jovens e dos adultos sem formacao filosofica) (13).

Mas seria empobrecedor reduzir os modelos distintos de diaita aprovados por Socrates e pelo aristocrata Glaucon a evidencias de um confronto geracional. Na perspetiva do jovem interlocutor, o mestre propoe um modelo ultrapassado, completamente alheio as praticas do seu tempo (e nao exclusivo do gosto da sua geracao), como decorre do seu comentario ao modo de vida proposto como o adequado aos cidadaos de Calipolis (R. 372d-e):
   [phrase omitted].

   E ele retorquiu: se planeasses uma cidade de porcos, com
   que forragem diferente desta a alimentavas? Ao inves,
   pergunto eu, como e que devia ser, Glaucon? Fazer-se
   aquilo que e habitual, respondeu ele. Na minha opiniao,
   quem nao quiser estar desconfortavel [deve] reclinar-se
   em leitos, e a mesa [deve] comer tanto condutos como
   sobremesas das que ha atualmente.


Esta "leitura" de Glaucon autoriza-nos a interpretar esse confronto ideologico como um choque entre "modernismo" e "conservadorismo" em materia de concecao das praticas alimentares. Na otica de um individuo alinhado com as 'normas' (uso do vb. [phrase omitted]) de convivio contemporaneas, a nocao de conforto (subentendido na negacao do vb. [phrase omitted]) tem por marcadores identitarios tanto o mobiliario, como os viveres servidos. Desta resposta do aristocrata sobressaem dois principios basilares da vida em sociedade, o nomos e a techne, responsaveis por um modo de vida civilizado. Na verdade, o comentario de Glaucon que transcrevi denota que o modelo apresentado por Socrates foi reduzido a uma proposta radicalmente naturalista, onde a physis deixa marcas na mesa desenhada, tanto ao nivel dos alimentos, como do espaco das refeicoes. A refeicao proposta pelo mestre e vegetalina (admitindo um unico apontamento animal, ainda assim de um derivado do leite, o queijo) e muito elementar em termos de proposta nutritiva e tecnica. Numa primeira definicao (372a), resume-se a diade alimentar primordial grega: o cereal-pao ([phrase omitted]) e o vinho ([phrase omitted]). So mediante a instigacao de Glaucon, Socrates reve a sua concecao primeira de um quadro de vida feliz (ou seja, caracterizado pelo 'convivio agradavel'--cf. [phrase omitted] 372b). E e por sugestao do interlocutor que lhe acrescenta a componente alimentar suplementar da refeicao grega, genericamente designada de opson. Ou seja, a base da alimentacao, os cereais (sejam eles confecionados em papas ou paes: mazai ou artoi), indispensaveis na mesa, e acrescentada uma serie de alimentos que, por nao dispensarem o recurso ao pao para serem levados a boca, se podem denominar por meio de um termo equivalente, com esse sentido generico de 'ser conduzido pelo pao': 'conduto'. Que e esse o sentido corrente da palavra grega opson e nao o de 'iguaria' depreende-se do elenco de alimentos suplementares avancados por Socrates para a sua "mesa saudavel", como ele expressamente sublinha (372d) no termo do retrato da cidade que mais adiante apelidara de cidade sa ([phrase omitted], 372e). (14) Fazem parte dessa mesa alimentos que integrariam uma cozinha modesta e tradicional. O custo dos produtos seria muito baixo, uma vez que os ingredientes convocados sao cultivares comuns (hortalica: [phrase omitted]; azeitonas, figos, grao-de- -bico e favas) ou mesmo plantas silvestres (bolbos, comestiveis/'cozinhaveis' dos campos, (15) bagas de murta e bolotas). As tecnicas de confecao tambem nao se desviam desse padrao de simplicidade, materializado na hoje chamada cozedura "em branco" (isto e, apenas em agua simples: vb. [phrase omitted]) dos vegetais e no 'assar nas brasas' (vb. [phrase omitted]) das bagas e das bolotas. Igualmente tradicionais eram as outras duas tecnicas de transformacao implicitas nessa mesa saudavel, ambas desenvolvidas para prolongar a curta vida dos ingredientes em estado natural: as conservas em sal (simplesmente denominadas de 'salgas': [phrase omitted]) e a producao de queijo.

Do ponto de vista do contexto material da refeicao, Socrates coloca a tonica no despojamento tecnologico, evocando um regresso do homem a um estadio quase pre-civilizacional, anterior ao fabrico de utensilios e moveis de cozinha, primitivismo simbolicamente retratado no servir a comida em "travessas" de juncos ou folhas, colocadas no chao, sob o qual diretamente se reclinam os convivas. Desnecessarias nessa mesa eram a olaria e a carpintaria, tecnicas ao servico do 'cuidar do corpo'.

A divergencia de opinioes entre Glaucon e Socrates e responsavel pelos sentidos contrastantes que ambos dao a mesa acabada de descrever. Onde o mestre ve elevacao moral (propria de um modelo de cidade que apelida de 'verdadeira' e 'sa'), o jovem encontra um primitivismo bestial. Onde Glaucon (e outros com a mesma mentalidade) vislumbra conforto, o filosofo encontra luxo e doenca. Repare-se que os marcadores identitarios dessa sofisticacao responsavel pela decadencia da polis sao tanto materiais como humanos. Assim, ao quadro construido por Socrates contrapoem-se, na 'cidade de luxo' e 'inflamada de humores' ([phrase omitted] e [phrase omitted]), os espectaveis, num esquema de contra-argumentacao, leitos, mesas e demais mobiliario, 'condutos', (16) perfumes importados, (17) acompanhantes femininas e guloseimas das mais variadas. Do ponto de vista culinario, recorte sobre o qual incide agora a nossa analise, as implicacoes de adotar um modelo de cidade deste tipo, como tem o cuidado de sublinhar Socrates, traduzem-se no aparecimento de duas novas classes de servidores ([phrase omitted], 373c): os [phrase omitted] e os [phrase omitted]. Ambos especialistas de 'culinaria' (arte respetivamente designada pelo recurso aos adj. sinonimos derivados desses dois substantivos: [phrase omitted] e [phrase omitted]), devem as respetivas titulaturas ao facto de a profissionalizacao da cozinha se ter operado nos dominios em que a alimentacao mais se desviou do modelo alimentar basico (simples e predominantemente vegetalino), a saber: o dominio da preparacao de condutos requintados (opsa) e o dominio do abate/sacrificio de animais (ingrediente que marca a mesa nao do quotidiano, mas do excecional) (18). Os dois substantivos (opsopoios e mageiros) podem ser em portugues indiscriminadamente traduzidos por 'cozinheiro' ou 'mestre de culinaria'.

Podemos recorrer a um passo anterior da Republica (332c-d) para aclarar o porque de opsa ter evoluido do sentido generico de 'conduto' (sentido evidente no quadro da 'cidade sa') para o sentido especifico de conduto requintado ou 'iguaria' (sentido latente na descricao da 'cidade doente'). Nesse trecho coloca-se na boca do poeta Simonides as definicoes quanto ao que a medicina, por um lado, e a culinaria pelo outro, tinham por conveniente e devido ([phrase omitted]) dar a que. Dito por outras palavras, responde-se a questao: qual e a funcao de cada techne? Quanto a techne iatrike:
   [phrase omitted].

   E evidente que [da] aos corpos medicamentos, alimentos
   e bebidas--disse ele.


Ja a techne mageirike:
   [phrase omitted].

   [Da] aos condutos os temperos.


Repare-se que, embora as duas technai manipulem alimentos, Platao recorre, no caso da medicina, a termos de sentido neutro (um para os solidos --[phrase omitted]--e outro para os liquidos--[phrase omitted]), reservando a culinaria um substantivo geral para designar tudo o que se come acompanhado de pao ([phrase omitted]). Mais significativa e a identificacao da producao de hedysmata (a letra "agregadores de prazer") como o fator responsavel por elevar a confecao de opsa ao estatuto de techne. Como ja destaquei no ponto 2 deste estudo, com a culinaria estamos no dominio de prevalencia da hedone, integracao denunciada na propria etimologia da palavra grega para 'tempero', formada da raiz [phrase omitted]-. Quer isso dizer que o opsopoios tinha o conhecimento que lhe permitia manipular os temperos e ingredientes basicos por forma a obter um conduto de sabor agradavel, o mesmo e dizer em transformar ingredientes comuns em 'iguarias'.

Ainda que do vastissimo universo de literatura culinaria tecnica produzida pelos Gregos, a partir do sec. V a.C. e durante todo o Periodo Helenistico, nos tenha chegado, gracas ao labor de resgate do bibliofilo Ateneu de Naucrates (secs. II-III d.C.), apenas um punhado de nomes de autores, de titulos de obras e de brevissimos excertos desses escritos, a verdade e que a denominacao que foi atribuida a essas obras e que em portugues se traduz por "Livros de Culinaria", revela bem que a autonomizacao do saber radica na "preparacao de condutos", pois tais obras sao designadas [phrase omitted]. (19) Mesmo descontando que o que se preservou deve ser entendido como uma escolha condicionada pelo filtro mental de Ateneu e das fontes a que teve acesso ou que selecionou (na sua maioria anti-epicuristas), o quadro geral que se pode extrair desse receituario especializado em 'iguarias' confirma a forte presenca e a grande diversidade de temperos (os tais 'agregadores de prazer' ou [phrase omitted]) envolvidos na confecao de comida. A titulo ilustrativo, basta trazer a colacao o trecho dos Deipnosophistai ("Sabios a Mesa") de Ateneu em que o autor regista dois preparados diversos para uma receita com o mesmo nome, hyposphagma, ja que tem por ingrediente identitario o sangue do animal sacrificado (ou 'degolado', conforme sugere a etimologia do nome grego em causa: [phrase omitted]) (20). Os autores de livros de culinaria ai referenciados sao datados dos secs. IV (Glauco) e III a.C. (Erasistrato). Veja-se (Ath. 7.324a):
   [phrase omitted]

   O hyposphagma e, segundo Erasistrato afirma no seu
   Livro de Culinaria, um molho de ervas. Eis a sua receita:
   "o hyposphagma, preparado para carnes assadas,
   e feito de sangue bem misturado com mel, queijo, sal,
   cominho e silfio, tudo cozido com vinagre. Quanto
   a Glauco de Locros, eis a receita que tem escrita no
   seu Livro de Culinaria: "o hyposphagma e sangue,
   silfio, carne cozida, mel, vinagre, leite, queijo e ervas
   aromaticas picadas."


Retomando o texto platonico da Republica no momento em que o deixei--nas necessidades da 'cidade de luxo' em materia de pessoal especializado --importa considerar o lugar dos medicos. E caso para concluir que, ao admitir que esses sao profissionais que nem a 'cidade sa' pode dispensar, Socrates exprime a convergencia de pensamento com a explicacao hipocratica que coloca a origem da medicina na descoberta da necessidade de criar dieteticas diferenciadas para doentes e para pessoas saudaveis. Ou seja, fica implicito que, mesmo no modelo de polis tido por 'verdadeiro', as "mesas terapeuticas" tem o seu lugar e sao da competencia medica. Numa 'cidade doente', e em consequencia da prevalencia das "mesas de delicias" que a arte culinaria dos cozinheiros profissionais invade de excessos de prazer (entre os quais Socrates destaca a docaria, os [phrase omitted]), os medicos tornam-se mais necessarios do que no modelo saudavel primeiramente proposto. Ha, pois, uma relacao direta entre o incremento da arte culinaria e da medicina, uma vez que esta vem restabelecer a saude que aquela arruinou.

Contudo, falta-nos ainda convocar um ultimo passo da Republica (403e-404e), por forma a percebermos que as criticas veiculadas nos dialogos de Platao a culinaria visam um padrao alimentar praticado apenas por individuos das elites aristocraticas e endinheiradas, uma vez que supoe disponibilidade economica para contratar ou comprar profissionais e produtos mais caros. Estamos a falar nao da "cozinha tradicional", a base de produtos sazonais e envolvendo tecnicas de confecao e ambientes (de producao e consumo) menos dispendiosos, mas da "alta cozinha", para usar a expressao Haute Cuisine, modelada por Jack Goody nos inicios dos anos 80. (21)

O interesse da minha analise consiste em apontar que, em materia de concecao de "alta cozinha", o pensamento extraido dos textos de Platao, porque condicionado pelo quadro teorico-etico considerado no ponto 2 a proposito da hedone, e forcosamente univoco. Verifica-se que diverge da visao apresentada no mais extenso texto de literatura gastronomica do sec. IV a.C., o poema do siciliano Arquestrato. Passarei, de seguida, a ponderar as duas concecoes de "alta cozinha" existentes ao tempo de Platao.

4. "ALTA COZINHA" E "ALTA MEDICINA" NA LITERATURA DIETETICA E GASTRONOMICA E EM PLATAO

O que o trecho em que se discute a alimentacao ([phrase omitted], R. 403e), como parte integrante da diaita dos Guardiaes de Calipolis, revela e que, a imagem do recomendado em termos de exercicio fisico (dominio da [phrase omitted]), a comida deve pautar-se pela simplicidade e conveniencia. (22) Recorrendo, uma vez mais, a funcao ilustrativa da analogia, Socrates explica os sentidos de 'simples' e 'conveniente' atraves do exemplo do regime alimentar dos herois homericos. Uma vez que o filosofo lanca mao do discurso da alteridade para definir a identidade em causa, da argumentacao apresentada sobressai o reverso do modelo que se quer caraterizar. Se a alimentacao 'simples' e 'conveniente' (aos Guardiaes-soldados) e aquela em que nao se come peixe, a carne admitida e a grelhada e nao a cozida, nao se faz uso de 'agregadores de (bom) gosto' (hedysmata), nem de um leque variado de condutos ([phrase omitted], 404d), nem das 'delicias da docaria' ([phrase omitted] ... [phrase omitted], ibidem), no negativo desse regime alimentar deteta-se o perfil de uma culinaria acessivel aos grupos privilegiados da sociedade.

Repara-se que, alem do predominio da hedone, outros criterios julgados denunciadores da subentendida "nao simplicidade" e "inconveniencia" desta "alta cozinha" sao a 'variedade' (poikilia) de pratos e a complexidade dos meios tecnicos envolvidos na confecao. (23) Nao obstante a evidente exclusao da culinaria de luxo da diaita idealizada para Calipolis, Platao esta bem ciente de que esse e um modelo nao so familiar aos seus contemporaneos mais abonados, mas cuja popularidade se traduzia mesmo na existencia de uma corrente culinaria passivel de se identificar como escola-modelo desse padrao de "alta cozinha" (a que chama "Mesa de Siracusa") e na criacao de territorios gastronomicos (de que destaca os opsa sicilianos e a docaria da Atica). (24)

Recorro, agora, a fonte mais extensa, ainda que igualmente fragmentada, de literatura gastronomica grega contemporanea de Platao, o poema em hexametros dactilicos de Arquestrato. Natural da Sicilia, cuja cidade-mae os testemunhos antigos admitem poder ter sido tanto Siracusa como Gela, Arquestrato compos nao mais um livro tecnico de culinaria, um opsartytikon biblion, em prosa, mas procurou elevar a materia gastronomica ao patamar mais alto da literatura, nao tendo sido alheio a esse designio de ilustracao de um genero socialmente menor (ate pela origem servil dos cozinheiros) a escolha do mais distinto metro, o da epica homerica. Nao me deterei numa analise detalhada de materias filologicas, nem do contributo da obra para a historia da alimentacao grega das epocas classica e helenistica, assuntos que ja abordei noutras ocasioes. (25) Antes sintetizarei em que medida a Hedypatheia de Arquestrato encerra a denuncia da existencia de duas visoes sobre a "alta cozinha" ou as "mesas de delicias" gregas ao tempo de Platao.

Na sua obra, o poeta da conta da tensao existente entre uma visao negativa (a unica apresentada por Platao), critica em relacao as modas culinarias emanadas da Sicilia, e uma visao positiva do requinte gastronomico. O grande interesse de colocar em dialogo o discurso platonico e o de Arquestrato deriva, a meu ver, do facto de, no poema deste ultimo, depararmos com a harmonizacao, no conceito de "alta cozinha" ou "mesa de delicias", de principios apresentados como excludentes uns dos outros no texto filosofico: hedone, simplicidade e conveniencia (ao estado de saude). O que o poema vem provar e que nao e apenas numa "mesa do passado" (predominantemente vegetalina e despojada de iguarias requintadas) que se representa/simboliza um modo de vida virtuoso. A proposta de Arquestrato e de que ha uma "mesa do presente" que consegue essa harmonizacao entre requinte gastronomico e excelencia moral, a que proponho se chame "mesa de delicias simples".

Vejamos como e que o texto de Arquestrato contradiz, a meu ver intencionalmente, a justeza de incluir entre os marcadores identitarios da "cozinha nao simples" (isto e, da "alta cozinha" inconveniente a uma 'cidade sa') o peixe. Esse e o conduto mais representado no corpus de fragmentos do poema preservado por Ateneu para os vindouros. Condiz este recorte com a intencao do compilador de apresentar um Arquestrato de gostos luxuosos, uma vez que o consumo de pescado em fresco e de especimes de grande porte (como sao os casos mais frequentes no poema) estava vedado, por razoes economicas, a maioria da populacao grega. Produto raro na mesa do quotidiano, e natural que fosse elevado ao estatuto de comida de luxo, suscetivel de atencao particular por parte dos profissionais de culinaria. A formula-rainha da "escola" de cozinheiros mais afamados a epoca, a "Mesa Siciliana" como lhe chama Platao, consistia nao so em complexificar as tecnicas de confecao, como em diversificar grandemente os temperos. Essa e a particularidade tecnica da moderna cozinha siciliana que Platao ataca nos seus textos e da qual o poeta gastronomo tambem se distancia, conforme atesta o frg. 46:
   Nao deixes que se aproxime de ti nenhum tipo de Siracusa,
   nem de Italia, quando estiveres a confecionar esse
   prato. A verdade e que nao sabem preparar os melhores
   peixes ([phrase omitted] ... [phrase omitted]); antes os estragam
   por completo ([phrase omitted]), pois tem o mau gosto ([phrase
   omitted]) de acompanhar toda e qualquer ([phrase omitted]) comida
   de queijo e regam-na com uns salpicos de vinagre e um
   molho salgado enriquecido com silfio. No entanto sao,
   de todos, os que melhor sabem arranjar os malditos
   peixes de terceira ([phrase omitted]), criados nas rochas, e
   conseguem acompanhar um banquete de todo o tipo
   de comidinhas ([phrase omitted]) pegajosas ([phrase omitted]) e mal
   condimentadas ([phrase omitted]).


E nitido o afastamento em relacao a um padrao de requinte apostado no excesso de molhos e condimentos intensos e luxuosos (caso do silfio, importado de Cirene). No entanto, o modelo de "alta cozinha" louvado por Arquestrato nao exclui os hedysmata, antes revela fazer um uso criterioso dos mesmos. Mais: os principios que ditam a selecao de temperos revelam a proximidade ja apontada por Laurence Totlin (2009) entre "alta cozinha" e "alta medicina". (26) Tal como na "cozinha terapeutica", tambem na cozinha "cientifica" de uma nova vaga de cozinheiros se tem em conta o principio da [phrase omitted], ou seja, da harmonizacao das naturezas ([phrase omitted]) dos ingredientes. Sempre que nao se verifica esse equilibrio e fusao perfeita de elementos diversos, e porque ha excesso ou carencia (ambos prejudiciais). Arquestrato faz nos seus versos a apologia da moderacao, conforme denuncia o apelo a contencao de ingredientes, na receita de bonito entrouxado (frg. 36):
   Contudo se, mesmo assim, desejas saber, meu caro
   Mosco, qual e a melhor forma de arranja-lo, ei-la: em
   folhas de figueira, com oregao nao em grande quantidade
   ([phrase omitted]). Nada de queijo ([phrase omitted]),
   nem de outras futilidades ([phrase omitted]). Trata-o antes de
   forma simples ([phrase omitted]): faz um embrulho de
   folhas de figueira, atado em cima com um junco, depois
   coloca-o sob o calor das cinzas, atento ao momento em
   que esta assado--e ve la nao o deixes queimar!


A palavra de ordem nesta "alta cozinha" e, como se evidencia no frg. acabado de citar, a simplicidade, ideia que repetidamente ocorre no poema, quer atraves de vocabulario com o sentido de "simples" (adv. [phrase omitted]) e "natural" (subst. [phrase omitted]), como em termos com valor semantico contrarios (i. e. "rebuscado"/adj. [phrase omitted], "excessivo"/adv. [phrase omitted] e "multiplo"/adj. [phrase omitted]), estes ultimos aplicados a praticas que repudia (identificadas, como percebemos, com a outra corrente siciliana de alta cozinha). No geral a "mesa de delicias simples" funde a tradicao e a novidade, exemplo disso e uma cozinha em que se harmonizam os hedysmata basicos da dieta mediterranea (azeite, sal e ervas aromaticas autoctones) com um ingrediente nao comum na dieta do grego em geral, o peixe fresco.

Denunciadora da permeabilidade de fronteiras entre a "alta cozinha" e a dietetica e a consciencia que aquela revela ter da necessidade de procurar na confecao dos pratos (os opsa) o equilibrio entre dynameis distintas dos ingredientes. Da presenca desse fundamento cientifico nas "mesas de delicias simples" nos da conta Arquestrato por mais de uma vez (frgs. 37 e 50), quando alerta para o facto de a correta selecao dos hedysmata ser determinada pela physis do ingrediente principal (em ambos os casos peixes). Ou seja, quando aquela for gorda e de evitar temperos gordurosos (situacao que levaria ao predominio de um elemento constituinte sobre outros que entram no prato). A eles ha que recorrer quando a 'natureza' e a inversa, i. e. seca ou rija. (27)

Para finalizar, falta considerar que, ao contrario do que poderia sugerir a obra de Platao (que explora sobretudo a antitese entre uma mesa austera prescrita pelos medicos e uma mesa de delicias dos cozinheiros), uma certa "cozinha terapeutica" do CH (de que tambem fazem parte as receitas de preparados farmacologicos) tem em comum com a "alta cozinha" a presenca de ingredientes exoticos e caros (como a mirra e o incenso, trazidos do Oriente). Tal como esta, na opiniao de Laurence Totelin (2009, p. 127-131), a "alta medicina" e uma medicina dietetica orientada para a elite. Alias, essa oferta de cuidados medicos de luxo tambem deve ser entendida como estrategia de "marketing" dos profissionais, propria de uma fase em que a competitividade entre praticantes para afirmarem o seu nome no "mercado" passava por propor "produtos medicos" inovadores (King 1995, p.207). Estas "mesas terapeuticas" da "alta medicina", porque visavam impressionar os pacientes (Totelin 2013, p. 125), recorriam a ingredientes importados e dispendiosos, por forma a convencer a potencial clientela das elevadas competencias dos seus profissionais (Lloyd 1983, p. 82).

O que se verifica pela analise a receitas dessa "alta cozinha", sobretudo presentes nos tratados ginecologicos do CH, e que, tal como sucede com a culinaria moderna requintada, a inovacao nao virou costas a tradicao. Do ponto de vista do utente, o sentido social extraido desta "alta medicina" e identico ao da "alta cozinha. Ou seja, o consumo de pharmaka caros deve igualmente ser entendido como uma estrategia de afirmacao do paciente como membro de uma elite de gostos luxuosos. Talvez por tudo isso, atrevo-me a concluir que a "alta medicina", com tantos pontos de contacto com a "alta cozinha", nao podia ter lugar nos dialogos de Platao!

DOI: https://doi.org/10.14195/1984-249X_23_8

ENDNOTES

(1) Sobre cozinha e filosofia, vd. ainda Tefler (1997), Onfray (1996, 1999), Korsmeyer (2002), Kaplan (2012) e, mais recentemente, Romeri (2015), estudo este em que se defende que, nos dialogos Politico, Republica e Leis, Platao estabelece uma relacao direta entre regimes alimentares e formas de governo.

(2) Sobre o papel destes profissionais ou amadores populares da arte de curar, frequentemente desacreditados pelos escritores do CH, que neles viam concorrentes, leia-se MacNamara (2003-04).

(3) Complementam a acecao de 'regime de vida' outros quatro dominios, a saber: banhos, atividade sexual, repouso (sono e morfologia do leito) e ocupacao do tempo (trabalho e ocio). Vd. Soares, 2014.

(4) Para um estudo comparativo do conceito de arte culinaria em Xenofonte, Platao e Aristoteles, vd. Soares 2012.

(5) Como bem sublinha o comentador da VM, Mark Schiefsky, no apendice I ao seu estudo e traducao ("VM and medical empiricism", p. 345-360), coube a Platao iniciar a separacao/contraste ente techne e empeiria e a Aristoteles desenvolve-la. Em termos de textos medicos, assiste-se, na esteira deste extremar de posicoes, ao aparecimento de duas correntes opostas na medicina helenistica, justamente denominadas de Empirica e Racionalista, ja que os primeiros faziam assentar a ciencia medica na pratica medica, apoiada na experiencia profissional, e os segundos nos postulados teoricos.

(6) Todas as traducoes do grego sao da minha autoria.

(7) Esta denominacao inspira-se nas palavras de um dos mais reconhecidos estudiosos do Corpus Hippocraticum, Jacques Jouanna (1998, p. 45): "Medicine, therefore, is a sort of a personalized cooking".

(8) Usamos o termo "conduto" porque, como explicaremos abaixo, a letra significa todos os alimentos que sao conduzidos a boca pelo pao.

(9) Cf. VM 5.3: ... [phrase omitted], [phrase omitted] (...[os medicos] reduziram a quantidade de alimentos, e estabeleceram, em vez dessa abundancia, muito menos [alimentos]).

(10) Cf. Plat. Alc. 1. 108e: [mathematical expression not reproducible] (qual dos alimentos e melhor, em que momento e em que quantidade).

(11) Esta ultima mencao em VM (10.1) deduz-se do uso de [phrase omitted], o antonimo de [phrase omitted] ('oportuno').

(12) Sobre o papel da analogia enquanto recurso discursivo ao servico da acessibilidade ao pensamento teorico, sobretudo no CH, leia-se Schiefsky (2005, p. 324-327). Classico na questao da analogia e da polaridade enquanto recursos argumentativos tipicos do pensamento grego continua a ser o estudo de Lloyd (1966).

(13) Os andres anoetoi referidos supra (Grg. 464e).

(14) Cf. 372d: [phrase omitted] (E assim, depois de levarem a vida em paz, com saude, e, como e provavel, morrendo velhos, hao-de deixar aos descendentes uma vida do genero desta).

(15) Cf. 372c: [phrase omitted].

(16) Condutos nao discriminados, mas que, por contraste com a modestia e a tradicao dos seus homologos enumerados para a mesa simples da proposta de Socrates, devem ser dispendiosos e exemplo da moderna culinaria.

(17) Como se deduz da referencia a mirra e ao incenso, nativos do oriente.

(18) Excecional, ou seja, desviante da mesa padrao predominantemente vegetalina, e a mesa dos herois homericos, em Platao evocada como modelo eventual da mesa dos Guardiaes.

(19) Sobre essa literatura especializada, vd. Bilabel (1921), Dalby (1996, p. 109-111) e Soares (2010).

(20) Nome construido da juncao do prefixo (com sentido proposicional [phrase omitted]--'por causa de, devido a') e do tema [phrase omitted]--(tema nominal da familia do verbo [phrase omitted], que significa 'degolar, imolar, sacrificar', e que se aplicava as vitimas sacrificiais, justamente denominadas de [phrase omitted]).

(21) In Goody 1982.

(22) Conforme se depreende das formas adjetivais que a qualificam: [phrase omitted] e [phrase omitted], R. 404b.

(23) Complexidade denunciada no processo de coccao que mais bateria de cozinha requer, o cozer (excluido da cozinha 'simples' e 'conveniente').

(24) Romeri (2015. p. 166-167) ja chamou a atencao para a condenacao desse padrao alimentar em que predomina o luxo gastronomico, conotado com o excesso de prazer, na Carta VII (326b-d), texto de claro teor biografico. Neste caso, a destemperanca no comer vem associada ao governo por excelencia dado a hybris, a tirania, politeia adotada pelos Siracusanos. Em suma, a dieta alimentar e metafora de conduta moral e politica dos cidadaos das poleis.

(25) Cf. Soares (2016a e 2016b).

(26) Destacamos a seguinte sintese feita pela helenista (p. 127): "Along the same lines, we could imagine that wealthy Greeks had access to Haute Medecine, characterized by variety, novelty, and luxury. If we consider the Hippocratic catalogues of recipes as a type of Haute Medecine, immediately their eclectic nature becomes less puzzling; Haute Medecine is characterised by variety, by the mingling of expensive, 'fashionable' remedies with re-interpreted folk remedies of all kinds. Like chefs, Hippocratic physicians created their repertoires of recipes by picking up from a variety of traditional sources, but above all by creating new recipes based on 'exotic', luxury and flamboyant ingredients. We could also suggest that, as is the case with Haute Cuisine, Haute Medecine experienced a sexual transposition of tasks: it was in the hands of male physicians, whereas folk medicine in Greek society could be practiced by both men and women".

(27) Veja-se o exemplo do frg. 37: "Mas quando, no momento em que Orion mergulhar no ceu, a mae dos cachos carregados de vinho deixar cair a sua farta cabeleira, pega num sargo assado, temperado por cima ([phrase omitted]) com queijo, com um bom tamanho, ainda quente e cortado com um vinagre bem forte, pois e um peixe por natureza ([phrase omitted]) rijo. A todo o peixe que for duro, o que recomendo e que te lembres de o tratar desta maneira. Mas o que e por natureza ([phrase omitted]) saboroso ([phrase omitted]), tenro e gordo da carne, esfrega-o apenas com umas pedras de sal e azeite. A verdade e que contem em si mesmo a essencia do prazer ([phrase omitted] ... [phrase omitted])".

BIBLIOGRAFIA CITADA

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Submetido em agosto e aprovado para publicacao em novembro, 2017

Carmen Soares--Universidade de Coimbra (Portugal)

Centro de Estudos Classicos e Humanisticos

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Author:Soares, Carmen
Publication:Revista Archai: Revista de Estudos Sobre as Origens do Pensamento Ocidental
Date:May 1, 2018
Words:8270
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