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THE SCHOOL'S ETHNOGRAPHY: TEACHING VOICES, SUBJECTS, KNOWLEDGE AND CULTURES/ A ETNOGRAFIA DA ESCOLA: ENTRELACANDO VOZES, SUJEITOS, CONHECIMENTOS E CULTURAS/ LA ETNOGRAFIA DE LA ESCUELA: ENTRELAZANDO VOZES, SUJETOS, CONOCIMIENTOS Y CULTURAS.

Introducao

De que modo a etnografia contribui para conhecer a escola atraves de seus referenciais culturais, seus sujeitos, praticas e saberes? A etnografia, como processo de pesquisa, nos auxilia a conhecer as interacoes que acontecem no interior da escola e da sala de aula. A busca pela compreensao da relacao dos sujeitos com o conhecimento e a cultura escolar, neste artigo, se da pela utilizacao do referencial etnografico de pesquisa na Educacao, mais detidamente no campo da escola. E de entendimento que a etnografia da escola permite ao pesquisador desenvolver um olhar mais sensivel para as questoes que constituem este universo.

E diante da centralidade da cultura (HALL, 1997) que se pretende situar o juizo sobre a escola, tambem, como uma instituicao cultural, em muito relacionada ao seu papel de convergencia de discursos da vida social. Hall (1997), em uma perspectiva pos-colonial, nos fala de dimensoes culturais interligadas, a saber, a globalizacao, as transformacoes da vida local e cotidiana, a relacao entre identidades e subjetividades.

Neste entrelacar das dimensoes da cultura, entende-se conhecimento como espaco-tempo de contradicao no ambito da escola. Nas palavras de Lopes (1999, p. 25):

"[...] trata-se de um conhecimento selecionado a partir de uma cultura social mais ampla, que passa por um processo de transposicao didatica, ao mesmo tempo que e disciplinarizado; e, tambem, podemos entender que constitui-se no embate com os demais saberes sociais, diferenciando-se dos mesmos. Em sintese, o conhecimento escolar define-se em relacao aos demais saberes sociais, seja o conhecimento cientifico, o conhecimento cotidiano ou os saberes populares" (idem).

Partindo da relacao conhecimento e cultura, destaca-se o vies etnografico, com base na Antropologia, se utilizando de elementos para que os espacos educacionais sejam investigados de modo a possibilitar, como nos indica Dauster (2007, p. 31), a "construcao de um saber hibrido ou de fronteira, alem de um olhar mais complexo sobre os fenomenos educacionais". Ainda, como afirmam Mattos e Castro (2005), que a etnografia como abordagem teorico-metodologica utilizada para estudar os processos de construcao da realidade em sala de aula pode facilitar ao pesquisador um entendimento desse espaco.

O pesquisador aproxima-se dos contextos escolares na tentativa de compreender os cenarios e processos engendrados em seu interior. Andre (1996) explica que o uso da etnografia permite ao pesquisador "entender como se processam os mecanismos de dominacao e de resistencia, de opressao e de contestacao ao mesmo tempo em que sao veiculados e reelaborados conhecimentos, atitudes, valores, crencas, modos de ver e de sentir a realidade e o mundo" (p. 41).

Parafraseando Geertz (1989, p.32) pesquisar "a escola na escola" constitui-se como uma forma de retratar a realidade pesquisada de modo mais fiel possivel. O autor explica que o antropologo nao estuda "as aldeias" ele estuda "nas aldeias" sendo, portanto, este o seu locus de estudo e nao o seu objeto do estudo. Este processo possibilita aos leitores que "la" nao estiveram realizar suas proprias leituras da escola, sobre as experiencias, valores e o "como" se constroi a realidade de alunos e professores.

Nos apoiamos no questionamento de Mattos (2006) sobre "quem pode fazer etnografia?" para buscar as conexoes entre este tipo de pesquisa, o contexto escolar e as interacoes entre os sujeitos.

Buscando responder a pergunta--Quem pode fazer etnografia?--, diria que qualquer pesquisador culturalmente sensivel pode faze-la, embora minha resposta aos meus alunos seja: aquele que sente um grande desconforto na boca do estomago, com algo que nao vai bem na sociedade e que nao passa por ele ou ela muito facilmente, isto e, se algum fenomeno social esta "caindo mal" para voce, este e o seu objeto de estudo. Portanto, qualquer pesquisador bem treinado em etnografia e com uma pergunta socialmente relevante deve fazer pesquisa etnografica (MATTOS, 2006, p.6).

Estudar as praticas de sala de aula de modo especifico e de cada sujeito e, portanto, uma forma compreender os proprios processos das relacoes dos sujeitos com o conhecimento e a cultura escolar. O caminho que foi escolhido para mapear tais itinerarios, foram os instrumentos de pesquisa: observacao participante, entrevista, caderno de campo, producao textual e documentos oficiais. A partir da abordagem etnografica entende-se que os proprios sujeitos escolares sao parte dessa construcao de relacao com o conhecimento e a cultura escolar.

A pesquisa de campo ocorreu com observacoes em sala de aula que foram desenvolvidas semanalmente durante sete meses em uma escola publica de Ensino Medio na rede estadual de Educacao do Rio de Janeiro em Nova Iguacu. Participaram da investigacao estudantes do 2 e do 3 anos do Ensino Medio. As aulas observadas foram de Quimica em um regime de colaboracao, ou seja, dentre o universo de docentes na escola, o professor de Quimica se dispos a participar da pesquisa como colaborador. Dessa forma, as aulas, o patio e a sala de professores foram espacos de observacao de forma semanal.

Os jovens-estudantes sao os sujeitos da pesquisa que, tambem, fazem parte da juventude do pais. Jovens, meninos e meninas, afrodescendentes em sua grande maioria; oriundos das classes populares, sendo moradores da Baixada Fluminense, regiao com serias questoes sociais e economicas, como por exemplo, falta de estrutura cultural como teatros e falta de saneamento basico, como agua e esgoto. Regiao tambem marcada por tracos da violencia e presenca de drogas ilicitas.

As observacoes geraram notas de campo, que geraram os relatorios de campo, e, enfim, sistematizaram-se os dados da pesquisa. Alem da observacao participante tambem foram entrevistados alguns estudantes, aos quais solicitamos que realizassem uma producao de texto perguntando sobre suas aprendizagens e tambem sobre suas expectativas a partir do inventario de saber de Charlot (2005), de forma que tivemos, como dados, a observacao participante com a descricao densa, entrevistas etnograficas e a producao textual, alem de documentos produzidos pela Secretaria Estadual de Educacao.

Apos o campo, tivemos uma etapa de sistematizacao e analise de dados, foi preciso retornar as entrevistas realizadas e as descricoes do caderno de campo para compor as analises do trabalho e levantar as categorias tematicas. Nesse processo tambem se elegeram outras informacoes para compor o panorama dos dados: informes sobre a instituicao em redes sociais, analise de reportagens em midias, notas em associacoes, falas de estudantes em videos. Indica-se que a escola produz e tambem e produtora de uma conjuntura compreendendo aqui uma abordagem dialogica da pesquisa com idas e vindas. Apos a organizacao em blocos de textos, os mesmos foram lidos, relidos e sistematizados em categorias em consonancia com o Atlas.ti. Contudo, o olhar do pesquisador no processo artesanal de feitura da pesquisa ainda foi a principal forma de analise dos dados (MILLS, 2009).

A ultima etapa do processo de producao do relato etnografico e escrever o texto final de um processo de formacao para a pesquisa reflete um desafio proposto em "estar la" e escrever aqui, entendendo o antropologo como autor (GEERTZ, 2002). A escrita final pressupoe idiossincrasias que aparecem ao longo do texto. Pressupoe analisar e compreender a partir da ideia de reimaginacao posta no plano cultural da significacao de sentidos. Escrever o texto etnografico e criar a emergencia de sentidos possiveis, mas tambem impossiveis para quem nao viveu o campo tal qual o etnografo. Importante destacar que ha rasuras, lacunas, contradicoes, sendo a etnografia um saber de fronteira, ela nos coloca em perigo, pois nao permite uma fixacao. Mas, de forma emblematica, da fronteira se pode ver um horizonte mais largo, mais possivel.

O papel do etnografo na compreensao da narrativa etnografica

A opcao por utilizar a abordagem etnografica, neste estudo, reflete a busca pela perspectiva do sujeito pesquisado e a compreensao da relacao entre a etnografia, o pesquisador e o campo. Considerou-se, alem dos sujeitos pesquisados neste estudo, a condicao de aluno vivenciada por [nos] pesquisadores nos diferentes niveis do percurso academico.

Considera-se na Etnografia o deslocamento como acao que e promovida quando inicia-se o trabalho de campo, o contato com os sujeitos e a tentativa de nos emaranharmos em uma cultura diferente da nossa. A esse respeito, se diz do processo de estranhamento que e, de certo modo, necessario para encontrar, com efeito, o entendimento esperado sobre as diversas formas de conceber, como nesse estudo, a relacao do sujeito com o conhecimento e a cultura.

Neste estudo, e possivel destacar dois aspectos que situam o sujeito aluno e a escola sob o aspecto unico, singular de suas trajetorias. O primeiro aspecto estaria justamente em considerar que alunos e alunas no processo de serem e se tornarem, constroem em suas narrativas a singularidade das experiencias vivenciadas em ambientes educacionais. O segundo estaria relacionado com a propria vivencia do pesquisador, enquanto sujeito aluno, indicando uma possibilidade de compreender, em ambientes educacionais diversos, o processo de outros sujeitos se tornarem alunos. Isso se da pela atitude do pesquisador com a qual "outros sistemas de referencia que nao sao os seus proprios seriam por ele percebidos" (DAUSTER, 2007, p.15), possibilitando ao pesquisador ampliar a sua percepcao dos modos de pensar, sentir e se fazer distintas daquelas que sao suas.

O pesquisador busca espacos e sujeitos para aproximar-se de suas realidades com a finalidade de compreende-los. Geertz (2008) ainda propoe um questionamento, que podemos tomar como no proprio processo de pesquisar, quanto a possibilidade de "individuos pertencentes a uma determinada cultura" (pesquisadores) serem capazes de, possivelmente, compreender "individuos que pertencem a outra" (sujeitos investigados) (p.223). Atividade esta, que permanece sem uma resposta, mas que Geertz a compara aos espectadores de um espetaculo de sombras; "o que os olhos veem e o que ouvem os ouvidos nao e o mesmo que a mente percebe" (p.223). Refletir sobre o material empirico requer do pesquisador um "aprofundar" constante na teoria que servira de aporte teorico-epistemologico.

"Fazer etnografia", explica Geertz (1989), vai alem de uma viagem em busca de lugares e sujeitos desconhecidos, passando por uma descricao densa do campo estudado e chegando a uma tentativa de "ler (no sentido de construir de uma leitura de) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses (...) escrito nao com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitorios de comportamento modelado" (p.20). A ideia de Geertz (1989) versa sobre os processos de traducao que todo etnografo precisa realizar, desvendar mundos por meio da descricao densa.

Autores (ANDRE, 1996; MATTOS, 1992; 2001) que utilizam o referencial etnografico nas suas pesquisas, definem etnografia como a descricao de uma cultura, a preocupacao com o significado, com a maneira propria com que as pessoas veem a si mesmas, as suas experiencias e o mundo que as cerca; "o pesquisador deve tentar apreender e retratar essa visao pessoal dos participantes" (GEERTZ, 1989, p.29).

Mattos e Castro (2010) afirmam que e a etnografia holistica que oferece referencial necessario para situar a perspectiva dos participantes na pesquisa ao pressupor aspectos da cultura como dimensao emblematica para a compreensao da vida em sociedade. Estes aspectos incluem: organizacao social, economica, estrutura familiar, religiao, politicas praticas, rituais, padroes de aculturamento e de comportamento ritualizados (PELTO, 1970, p. 18). Pressupoe ainda, que os diferentes aspectos de uma cultura formam um conjunto unico e unificado, de pecas interdependentes (MEAD, 1973, p. 246). O foco desses estudos esta na cultura dos grupos bem como em descrever, analisar e compreender esta cultura como um todo e ao mesmo tempo como singular.

A opcao pelo referencial etnografico ultrapassa a intencao de captar pelo olhar do pesquisador o ponto de vista do aluno, implica em uma aproximacao visando conhecer as praticas que configuram o quadro de referencias do processo de construcao desse aluno enquanto alunos e dos modos de pertencimento exigidos pela escola. Como afirma Geertz (1989) o etnografo busca em seus informantes o que nao e capaz de perceber, utilizando em seus relatos as expressoes "com que", ou "por meios de que", ou "atraves de que" para descrever o que e percebido pelo "outro".

E, pois, na condicao de "espectador", que o pesquisador utilizando o referencial etnografico procura descrever o espaco da escola. Na medida em que o uso da etnografia nos estudos em Educacao, cria novos parametros para se (re)pensar as praticas escolares. Sugere-se que o interesse da pesquisa nao deve estar somente voltado para o ato de pesquisar, mas para a producao de conhecimento. Ao produzir conhecimento percebe-se a fronteira de onde se esta e para onde e possivel caminhar.

Neste escopo, a pretensa invisibilidade, assim como a neutralidade do pesquisador em relacao ao seu campo de pesquisa, e que permite encontrar justamente na ideia de estranho, sendo assim, a chave para entender os problemas e solucoes que surgem no ambiente escolar envolvendo seus atores na responsabilidade de responder as expectativas por resultados "esperados" de sucesso que acabam, muitas vezes, em fracasso.

Qual a importancia de conhecer o aluno da Educacao brasileira atraves da abordagem etnografica? Quais sao as praticas e propostas pedagogicas pelas quais o conhecimento escolar e elaborado pelo aluno? Como se da a elaboracao desse conhecimento? Estas sao algumas das questoes que direcionam o olhar do pesquisador no contexto de pesquisa.

A proposta de ouvir o aluno encontrou nos estudos etnograficos uma via pela qual suas individualidades sao evidenciadas na totalidade da escola, para desse modo criar possibilidades de se repensar as praticas de sala de aula. Esta proposta surge como uma resposta aos questionamentos sobre a validade de emergir as vozes dos sujeitos e ouvi-los. Neste sentido, nessa pesquisa a voz do sujeito significa ouvir o que eles tem a dizer sobre as questoes propostas para a realizacao do estudo, ou seja, como o sujeito da pesquisa elabora e reelabora o seu saber sobre o objeto de pesquisa, (re)significando-o. A palavra carrega um dizer unico. E necessario ouvir. Para compreender o sujeito e antes preciso ouvir e analisar a sua fala a partir dela mesma. As analises partem do que ele expressa atraves de sua narrativa. A interpretacao se da pelo envolvimento do pesquisador com o sujeito da pesquisa de modo a perceber as nuances do processo de fazer sentido de sua fala.

Dessa forma, mapeando e clarificando quem sao os sujeitos incluidos no sistema de ensino atraves de suas subjetivacoes identitarias, podera ser explicado o "como" dos processos de ensino-aprendizagem. Ainda que, pela composicao das palavras "ensino-aprendizagem", estas parecam trafegar numa via com unica direcao e velocidade, mas implicam em sujeitos e modos de funcionamento diferenciados que necessariamente conduzirao a resultados inesperados. Compreender o aluno podera contribuir para a melhoria dos resultados do ensino e aprendizagem e levar a processos de inclusao mais realisticos do ponto de vista cognitivo, nos quais o individuo possa ser reconhecido como sujeito do seu proprio conhecimento.

Entende-se que e pela dinamica das interacoes entre os processos educacionais e seus sujeitos que e produzido o conhecimento no qual a pesquisa concorre para contribuir com explicacoes e compreensao sobre os fenomenos sociais observados neste espaco-tempo de relacoes.

As vozes da escola: o cenario etnografico

As vozes da escola, ora apresentadas, destacam tres perspectivas acerca das explicacoes dos alunos sobre a interacao entre cultura e conhecimento pautadas nos eixos das relacoes de amizade, processos de ensino-aprendizagem e aspiracoes de futuro.

Ao passo que a pesquisa se desenvolve, tambem se desenvolvem diversas compreensoes sobre o objeto de estudo proposto. Aqui, a relacao dos jovensestudantes do Ensino Medio de uma escola publica estadual com o conhecimento escolar. A etnografia torna-se, tambem, um paradigma que, igualmente, se desenvolve com o objeto de estudo.

Mattos (2017) chama atencao para a ideia de que a etnografia, em tempos de caos, tem ganhado destaque no meio academico por tornar-se uma condicao necessaria que vem dando sentido a pesquisa educacional na e sobre a escola. A autora continua nos instigando a pensar que "a beleza e o misterio da busca do etnografo e encontrar historias inesperadas, as historias que desafiam as teorias prontas" (MATTOS, 2017, p. 121).

A reflexividade proposta pela etnografia aqui exercida, auxilia no entendimento de que o processo de producao de conhecimento na pesquisa educacional e um composito da relacao reflexividade--vozes discentes--praticas de significacao na escola. Tais dimensoes mobilizam o questionamento sobre que escola e que conhecimento--escolar--hao de existir no futuro.

Bhabha (2011), mais uma vez, sinaliza para a ideia de que, ao olhar para tras, vamos indo para frente. Esse paradoxo proposto e uma forma de, a partir da linguagem, construir uma via possivel como chave de resposta. O existir, talvez, e o que esta permeado, ou mesmo impregnado, de sentidos que precisam transcender a ideia de verdade colonial moderna. Aqui, argumenta-se, entao, que a escola e o lugar da existencia e resistencia de diversas formas de crencas e conhecimentos presentes hoje no mundo moderno: docentes resistindo em suas redes e estudantes em resiliencia.

A epoca da pesquisa, ano corrente de 2015, ja se ventilavam possibilidades de mudanca/reforma para o Ensino Medio. Algo que, efetivamente, se concretizaria no ano de 2017. No entanto, em uma conversa em sala de aula, alguns estudantes falam sobre o Exame Nacional de Avaliacao do Ensino Medio (ENEM) e tambem sobre uma mudanca na estrutura do sistema de ensino. As falas abaixo, de duas jovensestudantes, refletem essas compreensoes de que "o novo" e o futuro se entrelacam, permeando novas compreensoes de que escola e que conhecimento, ou conhecimentos, existirao.

Sou a favor de um novo ensino medio, porem precisamos ser preparados para o futuro, porem nao sabemos o que nos espera (Fala de Nina Simone em sala de aula, registro de campo, 2015).

Um novo ensino medio nos dara mais oportunidades para nossos futuros como: bolsas para escolas militares, bolsas para a faculdade, mais ensinos para passar no ENEM, mais cursos gratuitos, mais conhecimentos gerais, mais oportunidades para arranjar um trabalho e entre outras oportunidades ... (Fala de Teresa, registro de campo, 2015).

A primeira fala, de Nina, evidencia que "precisamos estar preparados para o futuro". Contudo, a mesma jovem estudante indica que "nao sabemos o que nos espera". A imprevisibilidade e instabilidade do porvir coloca em relevo uma dimensao importante das acoes cotidianas na vida escolar, a alegoria do tempo. A existencia que se da pelo imprevisivel ou mesmo pelo instavel. Como planejar e se saber em uma perspectiva instavel e desafiadora? Assim, Pinar (2016) indica que a temporalidade pode ser encarada como uma alegoria possivel de analise das relacoes.

Alegoria reconhece o conhecimento academico como sendo importante para seu proprio beneficio, ate mesmo porque implica sua importancia educacional. A alegoria ressalta que nossas vidas individuais sao estruturadas por circulos de influencia cada vez mais alargados: da familia, passando pelos amigos e chegando aos nossos conterraneos (PINAR, 2016, p. 209).

A escola poderia ser uma alegoria dessa dimensao temporal em que se vive o ontem, o hoje e o amanha? Dessa forma, as contradicoes trazidas por Nina sao necessarias para se pensar "assim como o futuro, o pensamento serio e criativo e quase sempre enigmatico, as vezes contraditorio, ate mesmo incalculavel" (PINAR, 2016, p. 213).

A segunda fala, de Teresa, evidencia uma relacao entre o que e e a possibilidade de novas conquistas. Bolsa para outras escolas e para a faculdade, mais ensino, aqui entendido possivelmente como conhecimento, para "passar no ENEM". Tal fala traz como destaque a dimensao da avaliacao na triade escola-conhecimento-avaliacao. A avaliacao ganha uma multiplicidade de sentidos que sao trazidos na fala de Teresa na compreensao de avaliar para aprender, passar, conquistar, arranjar trabalho, ter oportunidade. Vasconcellos (2016) ja evidenciara que a multiplicidade de sentidos da avaliacao no contexto escolar e um importante objeto de estudo, pois a partir dela podem-se compreender processos mais complexos que envolvam, desde o cotidiano escolar ate as politicas publicas de educacao. A narrativa destaca a existencia pela possibilidade da materializacao do conhecimento.

Ainda na ideia de existencia da escola e do conhecimento, retoma-se uma compreensao de Bhabha (2011) sobre o entrelugar das culturas a partir das memorias e narrativas de si. Dessa modo, a fala de Lucas Reboucas, em sua producao textual, revela uma ideia de aprender significada de diferentes modos e espacos-tempos: igreja, vida, a escola ... revela-se uma dimensao transcendente do existir.

Muita coisa ja me aconteceu, por mais que pareca a minha historia e bastante grande, aprender na igreja e um bem muito maior, mas tem coisa que a gente aprende na vida, a escola te ensina e ajuda a ter um futuro melhor, mas o mundo tambem vai te ensinar, caminhos se escolhem, passo a passo a gente cresce, se reproduz, envelhece e morre. Aprender faz parte da nossa vida, temos muito que aprender com Deus e com o mundo e todos os dias aprendemos mais, o mundo esta ai para derrubar, mas minha fe em Cristo sempre vai prevalecer, esse e um motivo para eu estar feliz, uma razao eterna para viver (Relato de Lucas, producao de texto, 3a serie do Ensino Medio).

Ao entrelacar vida, fe e futuro, Lucas Reboucas destaca uma dimensao importante das relacoes e condicoes materiais presentes na existencia da escola e do conhecimento: a dimensao da transcendencia. Embora se advogue a ideia que as instituicoes publicas precisam, e devem, ser laicas, os seus sujeitos em transito atravessam essa premissa colocando subjetividade e significacao a partir de si.

Ao falar que "temos muito que aprender com Deus e com o mundo", Lucas significa o conhecimento a partir da experiencia do espiritual. No entanto, e sobre a razao da ciencia que esperamos as compreensoes de mundo (PEREIRA, 2012). Como entao aliar ciencia moderna a transcendencia existente e presente no dia a dia da escola?

E a partir de Bhabha (2011) que pressupomos uma compreensao de sujeito que, na fronteira entre a razao e a emocao, ou mesmo, entre o conhecimento proposto pela ciencia e pela fe, se posiciona. E o entrelugar cultural que Lucas Reboucas toca em sua historia de si, mas que permeia uma "compreensao teorica da cultura como diferenca" (BHABHA, 2011, p. 83), utilizando-se da propria ideia de tempo e conhecimento. Dito de outra forma, a voz do jovem estudante do Ensino Medio faz ressoar uma dimensao que a pesquisa nao tinha se proposto a pensar, mas que, ao fazer parte do campo, faz saltar uma questao de analises progressivas das categorias que sao defendidas, consubstanciadas e retroalimentadas pelo indizivel, que aqui foi dito.

O relato de Lucas e pungente porque diz do lugar de uma outra visao e compreensao do mundo, que tambem e presente na escola, disputando novos sentidos sobre as narrativas que envolvem o conhecimento escolar. Nas palavras de Bhabha (2011, p. 91), tais falas "desdobram a cultura parcial a partir da qual emergem para construir visoes de comunidades e versoes de memorias e historias". E a vida que, pulsando fora da escola, tambem interfere na instituicao.

Por fim, temos uma dimensao politica do existir. Uma dimensao pautada no movimento estudantil em todo pais de que "ocupar, lutar e resistir", sao tambem formas de existir na instituicao escola. Nesse sentido, evidenciam-se dois fragmentos sobre a dimensao politica pautada na voz que ressoa no ambiente escolar e fora dela.

A fala e de uma participante da pesquisa que, em uma entrevista, relatou seus planos para o futuro, mas tambem a relacao entre politica, justica e transparencia.
   Meu plano para o futuro e viver em um mundo em que a politica
   seja justa e limpa, cursar medicina, ter filhos e desejo que eles
   crescam em um mundo sem preconceitos (Entrevista com Tereza
   Cristina, estudante da 1a serie do Ensino Medio).


A estudante fala sobre um plano pessoal para o futuro, micro, mas que se confunde com um plano macrossocial. Deseja na sua relacao pessoal com o mundo cursar medicina e ter filhos, mas que eles possam crescer em um mundo melhor. Contudo, prenuncia sua fala evidenciando que esse mundo tenha uma "politica justa e limpa". Qual seria o papel da educacao, da escola e do conhecimento nesse contexto? Possivelmente, haveria um caminho a seguir para a resposta esperada. Porem, e lancada a reflexao e suas problematizacoes sem previsao de um coro unissono.

As falas acima sao vozes propositivas sobre formas de pensamento, construcoes de subjetividades, sobre utopias que desejamos. O projeto universal de escola, dessa forma, deixa a margem diferentes sentidos para a ideia de politico. Algo que aqui se deseja pensar numa abordagem da nocao de poder existir. E no caminho da existencia de cada sujeito presente, diante das diferentes realidades sociais que permeiam o ambiente escolar que se pensa tambem a defesa do proprio conhecimento escolar. Na esteira das palavras de Mignolo (2008), a escola pode se pensar de forma desobediente, gerando, assim, uma desobediencia epistemica presente em seus curriculos e sujeitos.

As vozes discentes, aqui presentes, sao formas de teorizacoes capazes de tornar visiveis as experiencias de seus sujeitos. Qual seria a funcao da escola? A proposicao durkhemiana, ainda presente nos dias de hoje, revela que o lugar da alteridade precisa emergir, mas que contraditoriamente ja e presente nos sujeitos escolares que se constituem, em necessidade primordial, para nos fazer pensar em uma educacao do presente e do futuro.

Consideracoes finais: refletindo sobre o futuro da escola

Pesquisar a escola na escola constituiu-se pela possibilidade de ouvir e refletir sobre as vozes dos sujeitos que, nas interacoes, entrelacam culturas e conhecimentos como producao escolar. Producao esta que e, muitas vezes, negligenciada na escola em funcao do cumprimento de curriculos em dias letivos. O que os alunos trazem e produzem na escola e mensurado em termos de avaliacao, sendo reduzidos ao quanto valem e representam nos indices educacionais.

E crescente o aumento de pesquisas que sao realizadas em escolas publicas no Brasil, nos mais diferentes programas de pos-graduacao ou atraves de editais de pesquisa. Cabe destacar que sao poucos os que privilegiam as vozes dos alunos como sujeitos primarios na pesquisa. Observar o contexto escolar sem que os proprios sujeitos informem sobre o local confere ao pesquisador os dados necessarios para sua pesquisa, mas nao se apoiam na perspectiva do outro para interpretar aquele local, reconhecido por todos os sujeitos escolarizados, mas que guarda um semnumero de explicacoes e vivencias. A etnografia, enquanto abordagem teoricometodologica de pesquisa, permite o acesso ao campo da escola e, mais detidamente, aos sujeitos e suas explicacoes sobre as situacoes cotidianas observadas. E pela possibilidade de estranhar o familiar que o pesquisador etnografico encontra as respostas para informar aos leitores sobre a realidade a partir das explicacoes dos sujeitos da pesquisa, os alunos.

Reflexividade, vozes discentes e praticas de significacao formam o tripe em que se ancorou essa pesquisa para buscar o entendimento sobre a cultura e a producao do conhecimento entre os sujeitos da pesquisa. O entendimento deles, expressos nos trechos das entrevistas, indicam que o futuro a partir da educacao esta alicercado nas politicas publicas que possam oferecer bolsas de estudo e acesso ao ensino superior o que viabilizaria uma vida em uma sociedade justa e livre de preconceitos. Entrelacam, ainda, a fe e a crenca num futuro de possibilidades.

Explicacoes que refletem a cultura como diferenca que afasta os individuos, ao contrario de ser o entendimento de que somos diferentes com possibilidades de trocas significativas para o enriquecimento das experiencias coletivas. Cada aluno carrega em si as experiencias que acumulou ao longo dos anos de escolarizacao e memoria das situacoes de interacao, que possibilitaram trocas afetivas e sociais reproduzidas ao longo da vida. As aspiracoes de futuro se pautam mais no que socialmente terao como possibilidade, distante da pauta de aprovacao escolar em que estao invariavelmente submetidos.

Sinalizamos, neste artigo, o modo como a etnografia da escola oferece pistas para o entendimento, ao fazer emergir as vozes dos sujeitos, sobre o proprio processo de escolarizacao pautado no entrelacamento entre cultura e producao do conhecimento. Esse entrelacamento conduz para uma reflexao critica sobre a realidade da escola reconhecida nas explicacoes dos sujeitos.

Entendemos que a etnografia ao aproximar o pesquisador da realidade da escola o conduzira as multiplas experiencias escolares existentes. Estes achados de pesquisa podem servir de referencial as politicas publicas em educacao, de modo que assegurem qualidade aos processos educacionais para uma vivencia de sociedade mais justa, com igualdade de oportunidades respeitando a diferenca que nos constitui como sujeitos em si.

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DOI: 10.12957/periferia.2019.39126

Luis Paulo Cruz Borges (1)

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Paula Almeida de Castro (2)

Universidade Estadual da Paraiba

(1) Doutor em Educacao pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mestre em Educacao pela Faculdade de Formacao de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor do Instituto de Aplicacao Fernandes Rodrigues da Silveira da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ CAp-UERJ. E-mail: borgesluispaulo@yahoo.com.br

(2) Graduacao em Psicologia pela Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro (2003). Mestrado em Educacao pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2006). Doutorado em Educacao pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2011). Professora Doutora de Formacao de Professores da Educacao Basica da Universidade Estadual da Paraiba Centro de Educacao.

Caption: Figura 1--Relacao entre etnografia e producao de conhecimento Fonte: BORGES, 2018.
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Author:Borges, Luis Paulo Cruz; de Castro, Paula Almeida
Publication:Periferia
Date:May 1, 2019
Words:5378
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