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THE BODY IN THE POEM, AND THE POEM AND ITS BODY IN THE LITERATURE OF FEMALE AUTHORSHIP. AN EXAMPLE IN CECILIA MEIRELES/O CORPO NO POEMA E O POEMA E SEU CORPO NA LITERATURA DE AUTORIA FEMININA: UM EXEMPLO EM CECILIA MEIRELES.

O sujeito--o eu--existe somente encarnado; nenhuma distancia pode se constituir entre ele e seu corpo. Todavia o corpo transcende o eu a toda hora no--ou pelo-sono, na fadiga, na possessao, no extase, na morte. Ele sera futuramente, um cadaver. (CORBAIN, 2005, p.8)

O corpo na poesia se expressa no corpo do poema. Ha um corpo de quem escreve e de quem le intermediado por um papel ou tela que tem tambem o seu corpo, e neste inscrito, o texto com toda sua materialidade. O corpo e a materia, o texto tambem.

Quando se fala ou pensa em um texto escrito por mulher, se pensa em corpo de mulher. E possivel imaginar por tras da letra, cabelos compridos, maos pequenas segurando a caneta ou o lapis, quadris largos, utero, vagina. Dificilmente quando temos um texto de autora, nao realcamos o fato de ser ela, pois historicamente, o corpo feminino estava alijado da condicao do mundo quem dira da escrita. A diferenca anatomica entre homens e mulheres se tornou o fator de interiorizacao das ultimas pela ligacao, historicamente construida pelo patriarcado, de suas funcoes biologicas com a natureza.

No instante em que a humanidade comecou a se afastar da natureza, atraves da criacao de uma sociedade artificial, iniciou-se o binarismo filosofico: natureza/ cultura, corpo/mente--grandes responsaveis pela opressao das mulheres, ja que, esses dualismos foram postos em posicao hierarquica. Tanto e que:

Para Platao, o corpo e uma traicao da alma, da razao e da mente que sao aprisionadas pela materialidade corporal. Aristoteles distingue, tambem a materia da forma, distincao que sera depois reconfigurada pela tradicao crista, onde a separacao mente / corpo foi correlacionada a distincao entre o que e imortal e o que e mortal (...) Para o cristianismo, fica bem clara a distincao entre uma alma dada por Deus, e uma materia pecaminosa e lasciva. (XAVIER, 2007 p.17)

Tentou-se configurar essa dualidade, construida dentro do discurso, e transformada em niveis superior e inferior, como verdade universal, relacionando o homem e a mulher com cada um dos niveis. O sexo biologico foi um fator determinante para a camada a que cada sujeito pertenceria nessa polarizacao. O orgao genital traria em si o reconhecimento social para qual andar e para qual destino sua totalidade corporal lhe levaria.

Neste sentido, a mulher, caberia a reproducao, deixando o mundo da acao e do conhecimento para os homens. Mas nem todas se reconheciam dentro desse dualismo discursivo, construido principalmente por palavras:

O dualismo cartesiano se opoe a teoria feminista, uma vez que oposicoes binarias, hierarquizam e classificam os termos polarizados, privilegiando um em detrimento do outro [...] O que as feministas em geral, condenam e a associacao da oposicao macho/femea com oposicao mente/ corpo, postura historica da filosofia que trabalha com ideias e conceitos leia-se mente, termos que excluem as consideracoes sobre o corpo. (XAVIER, 2007, p.19)

O cartesianismo foi o grande veiculador da ideia de uma mente separada do corpo. Ao dizer a maxima "penso, logo existo", Descartes confinou a existencia material ao pensamento e juntou a luz e a razao como partes indissociaveis. O logocentrismo se associou ao falo e fez o macho da especie sentir-se dono do seu corpo e de outros corpos. Embora essa lei de dominio e poder se materializasse na submissao de corpos diferentes, era pela voz que ela se empunha, mais do que pela forca. A psicanalise criou a ideia de que a mulher seria propicia a patologizacao da mente ao sentir a falta do falo. Embora na cultura falogocentrica (1), a mente estaria acima do corpo ou fora dele, na mulher os dois estariam intimamente ligados pela histeria ou pelo desejo manifestado. Um desejo nao teorizado pelas palavras (XAVIER, 2007).

O dualismo cartesiano se desfaz quando percebemos que; para a mente existir, ela necessita de um corpo e que ela nada mais e do que a subjetividade corporificada, ou a corporalidade psiquica. O corpo nao deixa de ser uma construcao discursiva marcada pelo desejo e pelas marcas politicas, geograficas e culturais. Contudo, a diferenca entre cada uma delas se da pela corporalidade da palavra que as nomeia.

De acordo com Guberman (1999), existem diferentes corpos, todos referenciados pela linguagem e que se dividem em: corpo fisico, metafisico, social, cosmico, erotico e poetico. O corpo fisico do autor aparece no texto de forma denotativa, mas quando transformado em signo representa uma parte do corpus da escritura. O corpo metafisico e o alem do fisico, traz o pensamento e a visao do outro, espirito, do enfrentamento do nada. Ja o corpo social, e aquele determinado pela interacao entre o sujeito e a sociedade, ou ele se integra, ou ele se marginaliza. O corpo cosmico "revelado pelo corpo individual, amplia seu universo semantico em busca de um tu coletivo, extrapolando o mundo reduzido em que se insere e cedendo espaco para o universal" (GUBERMAN, 1999 p.2 e 3). Ainda existe a definicao de corpo erotico e de corpo poetico, os dois se apresentam no poema, o erotico com

0 corpo objeto de sublimacao, enquanto o poetico, encarnado no proprio poema, "surge a partir do corpo fisico, move-se pelo desejo de criacao e presentificado pelo instante poetico, transforma-se em metafora do real imaginado, revelando se como corpus da escritura" (GUBERMAN, 1999 p.2 e3).

Em todas essas definicoes, quando passadas para o texto, os diferentes corpos se imbricam na escrita para formar o corpus da escritura. Expressa a dor e o desejo em forma de signo, o corpo na linguagem traz claro o corpo do sujeito que a produz, sendo o corpo deste sujeito um texto inscrito de memorias. Para Otacvio Paz, o poeta converte: "el lenguage en cuerpo. Las palabras ya no son cosas de ser signos, se animan, cobran cuerpo" (Paz, 1999, p.76) (2). Em relacao ao texto produzido por um corpo de mulher, principalmente o texto poetico, apresentarei como este corpo, definido historicamente como o outro, ou o corpo excluido do discurso, se expressou ou se metamorfoseou no corpus da escritura.

A mulher na sociedade patriarcal, embora restrita aos dominios do corpo, foi alijada de sua subjetividade, ou melhor, de construir uma subjetividade propria. E como se ela tivesse um corpo com acesso negado a sua existencia, a consciencia de si mesmo. O corpo referenciado como o paradigma nao era o dela, este nao fazia parte da construcao da memoria, e se nao habitava a memoria, so poderia residir no esquecimento. O silencio, a falta, a lacuna e a inconsciencia acabaram sendo terrenos conhecidos pelas mulheres, nao porque elas preferissem ou fosse--lhes natural o espaco a margem, mas porque foram reduzidas a estes. Saber se desse lugar vazio e sem nome, a mulher escritora conseguiu criar uma linguagem especifica, um texto corporal unico parece-me que foi o ideal de uma critica feminista que via na valorizacao das diferencas, o principio da igualdade. Uma escritura elaborada por maos que apalpavam constantemente o silencio so poderia vir e nascer como rasgo e como grito no vao. Os textos do corpo negado so podem operar contra o discurso.

Decidi trabalhar a relacao entre corpo e texto em Cecilia Meireles conhecida pela critica pela descorporificacao. Ela ja morreu organicamente, isto e, teve um fim em seu corpo material. Sobraram os corpos dos seus textos. Temos aqui duas significacoes que se relacionam o corpo e o texto. Para Isabel Leal, "e texto tudo o que no discurso se desprende das condicoes normais de comunicacao e significacao e funciona como uma clareira, uma zona de treguas no interior das linguagens" (LEAL, 1990, p.307). A linguagem e sempre referenciada a um corpo ja que tem como objetivo o proprio ser humano.

O corpo de cada um e um texto porque somos o produto de tantos discursos construidos sobre nos "na combinacao unica e possivel daquilo que dizem que somos, com o que julgamos ser, com o que queremos ser, com o que somos de facto (seja isso o que for). O grande signo dessa individualidade e o corpo" (LEAL, 1990 p.307). O sujeito tem materialidade. O poema tambem. O sujeito se apaga de certa maneira para o seu texto nascer. Esta seria a morte do autor teorizada por Barthes. Mas o autor nao morre completamente. Seu corpo nao se apaga de todo, apenas se transforma em palavra. Ha uma cisao entre o corpo e o texto, ao mesmo tempo em que se descobrem mutuamente. Apaga-se o sujeito para que haja a verdadeira revelacao, a que se fara pela escritura. A poesia descorporizada pode revelar aquilo que se quer apagar: o corpo, o autor, no caso aqui, a autora. Para Lucia Castello Branco, (1994) e no apagamento do traco que o sujeito aparece. A subjetividade se torna uma formulacao que se constroi e se desconstroi, marca-se diante do tempo e se dissolve em um simulacro de intencoes. Os fios do eu.

A construcao da subjetividade do sujeito passa pelo tecido da textualidade. E essa textualidade se corporifica, enquanto o corpo se textualiza. Seu sentido nasce atraves do discurso e e atraves do discurso que o sujeito ganha materialidade. Tal como uma parte da linguagem, o corpo sempre procura esquivar-se da utilidade economica. Ele e aquilo que resta e sobrevive ao saber organizado. A realidade segmentada pelo discurso normativo. O corpo de cada sujeito e unico e particular, forma-se assim a subjetividade--e este corpo se torna incomunicavel. Desvelar o texto e desnudar o corpo, desvelar o corpo e desnudar o texto. Percorrer os labirintos da significacao.

Cecilia Meireles foi considerada exemplo de descorporificacao na poesia. Chamada de eterea. Etereo vem de eter--que significa mais leve do que o ar. Significa volatil, divino, aquilo que nao se materializa. Em grande parte, a poesia desta autora foi amplamente aceita por esta aparente descorporizacao. Isto e, por seus textos nao apresentarem a primeira vista o corpo, mais precisamente o corpo feminino. Ela foi aplaudida por trazer um texto fluido, vaporoso e sublime. Aplaudida e estereotipada ao mesmo tempo. O que era visto como virtude, tambem foi transformado em defeito, visto pela otica dos movimentos de vanguardas. Mas e na ausencia deste corpo que ele se faz presente. E colocando a veste e o veu que transparecem a pele e a face. A palavra costurada forma o texto e o texto como tecido costura um novo corpo.
   A dona contrariada

   Ela estava ali sentada,
   do lado que faz sol-posto,
   com a cabeca curvada,
   um veu de sombra no rosto.
   Suas maos indo e voltando
   por sobre a tapecaria
   paravam de vez em quando:
   e entao, acabava o dia.

   Seu vestido era de linho,
   cor da lua nas areias.
   seus labios cor de vinho
   dormia a voz das sereias.
   Ela bordava, cantando.
   E a sua cancao dizia
   a historia que ia ficando
   por sobre a tapecaria.

   Veio um passaro da altura
   e a sombra pousou no pano,
   como no mar da ventura
   a vela do desengano.
   Ela parou de cantar,
   desfez a sombra com a mao,
   depois, seguiu a bordar
   na tela a sua cancao.

   Vieram os ventos do oceano,
   roubadores de navios,
   e desmancharam-lhe o pano,
   remexendo-lhe nos fios.
   Ela pos as maos por cima,
   tudo compos outra vez:
   a cancao pousou na rima,
   e o bordado assim se fez.

   Vieram as nuvens turva-la.
   Recomecou de cantar.
   No timbre da sua fala
   havia um rumor de mar.
   O sol dormia no fundo:
   fez-se a voz, ele acordou.
   Subiu para o alto do mundo.
   E ela, cantando, bordou.
   (MEIRELES, 2001, p.384 e 385)


No poema acima, a Dona Contrariada, titulo sugestivo que afirma uma oposicao e um enfrentamento, o enfrentamento da Dona (mulher--artista), ha uma narrativa contada pela poeta de uma mulher que enfrenta os mais vis tumultos e obstaculos para fazer a sua arte, bordar a sua cancao, preencher com linhas a sua tela. A Dona Contrariada inicia o seu labor artistico-artesanal de cabeca curvada, a posicao da cabeca feminina outorgada pela sociedade patriarcal. Devo ressaltar que curvar e diferente de baixar, embora sejam sinonimos, pois se para bordar um tecido, algumas vezes a bordadeira precisa baixar a cabeca, isso nao significa que ela precisa curvar a mesma. Curvar a cabeca significa humilhar-se, dobrar-se, se o sujeito se curva, curva diante de alguem. E nem sempre para bordar, principalmente tapetes, ha a necessidade de baixar a cabeca, muito menos curvar-se, o que comprova o carater inicial de uma postura imposta a bordadeira-poeta.

Apesar da posicao inicial imposta, ela persiste e trabalha, acaba o dia e ela continua tecendo o seu bordado como se tecesse um texto (semelhancas entre tecer, texto e tecido foram abordadas ja no bordado da primeira parte desta tese). O preenchimento do vazio da tela se da como da pagina em branco e a bordadeirapoeta nao deixa nada parar o seu canto e nem o seu bordado--tela e tapete. Ela contraria todas as determinacoes historicas e sociais, sua cabeca curvada se torna uma estrategia para que nao vejam o seu prosseguimento. Borda a sua historia, canta o seu tecido e mesmo quando desmancham o seu pano (quer dizer, quando retiram as condicoes e o material para a poesia), a dona poeta contraria a todos e magicamente suas maos fazem a cancao pousar na rima, quer dizer, o texto bordado e tecido ganha asas e voa significacoes.

E nao ha maior enfrentamento do que o seu corpo de mulher e de poeta pousando no texto, sendo tecido, tanto o pano quanto o ato de tecer se tornam o instrumento do fazer poetico. O rosto pode estar escondido em um veu de sombra, como foram todos os rostos de mulheres e das mulheres artistas diante de uma historia contada pelos homens. Contudo, ele ainda existe por debaixo desse veu e respira, escreve e tece uma historia continua e uma arte singular por debaixo do pano permanece. Os obstaculos naturais, que a poeta-bordadeira-cantadora enfrenta e que escondem o seu rosto, enquanto desmancham a sua arte, nao deixam de ser os parametros canonicos de uma sociedade patriarcal que decide qual rosto deve aparecer, qual historia deve se contar e qual arte deve se mostrar.

So que a sociedade patriarcal nao contava com as donas contrariadas que persistem, apesar dos desmanches e dos veus, em cantar e bordar, em se criarem artistas. E se nada ainda tiverem para fazer poesia: nem panos, nem agulhas, nem tecidos e, se todos os ventos do oceano roubarem seus navios e destruirem a sua arte, elas ainda terao seus corpos como livros que, em dado momento, saltam do escuro para a historia. Assim como Barbara Heliodora, a poeta da Inconfidencia, em que os esbirros da rainha rasgaram seus manuscritos. Barbara Heliodora e tida como a primeira poeta do Brasil que se tem registro. Mulher do poeta Alvarenga Peixoto, e tambem vista hoje como uma das participantes da Inconfidencia Mineira. Quando a conjuracao foi descoberta, Alverenga pensou em delatar seus companheiros para escapar de sua sentenca. Barbara Heliodora o impediu, dizendo que mais valia a honra do que a propria vida. Depois que seu marido foi deportado para o exilio na Africa, a punicao a sua familia nao terminou e a coroa portuguesa determinou que se retirasse quase todos os bens de Heliodora e seus filhos. No momento em que os soldados (esbirros) invadiram a propriedade do casal para a sentenca derradeira, conta-se que os mesmos encontraram os cadernos de poesia de Barbara, rasgando-os imediatamente. Esse ato (rasgar os escritos de uma mulher) se transfigura de muito simbolismo sobre o lugar do texto de autoria feminina em uma sociedade patriarcal, cabendo a mulher apenas o silencio e o apagamento.

Neste sentido, de apagamento e silenciamento que a historia as confinou, as poetas, as artistas, as mulheres ainda terao o seu corpo para inscrever ao seu canto: "Seu vestido era de linho,/cor da lua nas areias. /seus labios cor de vinho/ dormia a voz das sereias [...] Ela pos a mao por cima/ tudo recompos outra vez [...] Vieram as nuvens turva-la/ Recomecou a cantar/ No timbre de sua fala/ havia um rumor de mar". E o que e a nuvem para turvar o seu corpo, quando a sua voz tem o rumor do mar? Seu corpo e seu texto, funde-se com ele, borda na pele a sua historia e canta o seu destino. E nao ha nada que possa desviar a poeta dele, nem o patriarcado. Quando o sujeito que tece o texto e uma mulher, todas as agulhas-canetas sao instrumentos de uma nova consciencia:

[...] la lucha que libran algunas muyeres que escriben (..) por plasmar la palavra que las espresen--esto es, su cuerpo, sus vivencias, su sentir que expresse, al mismo tempo, al mundo y que les permita, ademas dar testimonio de su proprio processo y consciencia de escritoras (GONZALEZ, 1990 p.26) (3)

A descorporificacao esconde a corporificacao. A negacao e apenas aparente. Ela afirma o lado que estava obscuro. Aqui, o corpo no discurso. O corpo feminino parece circundar a morte, a nao afirmacao. Henriqueta Lisboa, poeta contemporanea a Cecilia, em uma entrevista a Edla Van Steen (1982), afirma que o tema da morte e um "assunto infinitamente sugestivo, aberto a todas as hipoteses e voos imaginarios" e que "nenhum poeta de maior seriedade deixou de lado esse tema". E como se a escrita de autoria feminina procurasse a propria essencia do ser, o misterio poetico e a revelacao do inefavel, na busca pela infinitude. O desejo de permanecer alem do tempo. A morte e a limitacao e a finitude do corpo. O que vai sobrando sao os elementos--figuras da luta sem tregua com a escrita. Cada poeta mulher aqui travou a sua--rasgando as palavras de sua referencialidade. Restou um nome. Restou "la palabra escuchada, cifrada, dicha y escrita desde el cuerpo, desde el propio ser de mujer, como la unica posibilidade de transcendencia senal del espiritu" (PRADO, 1990, p.27) (4).

Cecilia Meireles e eterea, porque queriam encontrar com a luz na voz da sombra. A luta com as palavras e ardua, e preciso levitar-se. Sobrepor com o texto, o corpo. Como diz Cecilia Meireles a Henriqueta Lisboa em uma carta de 24 de setembro de 1947: "Sabemos tao bem como as palavras sao impossiveis para comunicar o que elas nos trazem no seu misterio que eu sei que V. me perdoara dizer lhe apenas minha melancolica surpresa." (Manuscrito, Arquivo de Escritores Mineiros, Acervo de Henriqueta Lisboa, maio de 2015)

A melancolia e a arte de procurar esse corpo na eteriedade. Melancoliza-se porque a falta nao se preenche, o corpo nao se encaixa na sombra, e as palavras ja nao dizem. Materializam-se as imagens agora. E e isso que podemos notar nas tecituras dos textos de Cecilia Meireles. E impossivel negar que houve um corpo que os houvesse gerado. E que este deixou seu rastro nas figuras semanticas criadas, pois, a mulher que escreve sofre uma angustia semelhante ao ato de gestar e parir: "El processo de la escritura es su proprio proceso fisico, fisiologico, etico, intelectual, es una palabra vital. La historia se da a luz desde la escritura" (GONZALEZ, 1990, p.28) (5). Nesse sentido, a mulher escreve como se parisse, o processo de criacao se gesta. E nao so as mulheres poetas, mas tambem para muitos escritores, a criacao artistica e gestar. E possuir um utero imaginario.

Fala-se na descorporificacao da poesia de Meireles, mas nao se menciona que se descorporifica o que ja existe. Se ha falta do corpo, e porque em algum momento esse corpo existia, e porque em algum lugar esse corpo se esconde. Mesmo que dele so reste uma voz que ira se confundir com a luz ou se guardar na sombra. A fala e plena, e presenca. O discurso parte do eu e esse eu se constroi junto com o seu corpo. A voz vira vestigio da materia que se transforma em palavra: "Haja luz; e houve luz" (BILIA SAGRADA, Genesis, capitulo i vers.3) "No principio era o Verbo, e o Verbo se fez carne" (BIBLIA SAGRADA, Joao, capitulo 1 vers.i).

Contudo, a fala apesar de presenca e perene. Ela se desmancha com a luz. Seu corpo se dissolve por meio as sombras. A escrita parece vencer a porosidade, parece materializar a voz. Ela ainda e capaz de vencer o proprio corpo. Vence o corpo unico e particular, nao so de quem a cria, mas tambem de quem a recria no processo de leitura. A construcao da escrita passa antes entao pela construcao de si: "a construcao de si opera-se antes de tudo pela sexualidade--e mais amplamente pelo corpo. E pelo corpo, e principalmente o corpo que deseja, mas que tambem e ameacado que o retorno a si vence as aventuras do mundo". (TOURAINE, 2004, p. 56).

O espaco da sexualidade nao se restringe apenas ao organismo, ela e o espaco do desejo, e este vai alem de sua vivencia fisica. A dinamica do desejo comporta a dimensao discursiva. O discurso se cruza com outros discursos, mas tambem com outros corpos. Ha um duplo processo de elaboracao de enunciados e formas, neste entrelacamento de textos e corpos, que se nomeia de intertextualidade. Para Guberman (1999), nao se pode pensar em estudar o corpo na poesia, apenas o relacionando com a sexualidade, mas tambem deve se entender como funciona o desejo. O desejo e a acao do querer apropriar-se do outro. Escrever e tentar essa apropriacao atraves das palavras. Corporiza-se em palavras. E se essa corporizacao tiver um sexo, um genero? As palavras nao tem sexo, dirao. Mas e quando um poeta como Octavio Paz diz: "o poeta e "homem de desejos" (PAZ, 2012 p.73)? O desejo, visto como responsavel pelo ato da criacao poetica, seria apenas uma emocao do homem? E somente o homem, por ter desejo, seria capaz de criar a poesia?

Uma indagacao como essa, deixa implicita a ideia de que o poeta e homem e nao mulher. Uma afirmacao dita em um ato falho, afinal, diria o patriarcado, homem seria a expressao de humano, quase que um nome neutro para simbolizar os dois. Contudo, foram as teorias de genero que identificaram que, por tras da suposta neutralidade da palavra homem, existe o proprio patriarcado afirmando que o ser humano considerado completo, inclusive modelo de corpo e de mente, e o do sexo masculino. A mulher seria um ser humano incompleto, menor e deficiente. Seu corpo visto como erro da natureza. Nesse sentido, a mulher que escreve seria um desvio duplo da natureza, pois como humano incompleto nao teria desejo, indispensavel para a criacao poetica. Na verdade, as mulheres aprenderam a negar seus desejos durante a historia. Desta maneira, a poesia nascida de maos femininas nao emerge sem antes enfrentar a negacao do desejo. Ela e o fruto do enfrentamento dessa negacao que vira afirmacao. Paz continua:

De fato, a poesia e desejo. Mas esse desejo nao esta vinculado ao possivel nem ao verossimil. A imagem nao e o "impossivel inverossimil", desejo de impossiveis: a poesia e fome de realidade. O desejo aspira sempre a suprimir as distancias, como se ve no desejo por excelencia: o impulso amoroso. A imagem e a ponte que o desejo constroi entre o homem e a realidade. O mundo do "oxala" e o mundo da imagem por comparacao de semelhancas, e o seu principal veiculo e a palavra "como" isto e aquilo. Nela o desejo entra em acao: nao compara nem mostra semelhancas, mas revela--e mais: provoca--a identidade ultima de objetos que nos pareciam irredutiveis. (PAZ, 2012, p.73)

A linguagem representa as vestes de um texto coletivo, fruto do pensamento de uma sociedade. Percebo que o corpo se metamorfoseia em palavras, sua significacao explode em gestos que revelam poemas. Ha uma logica natural na construcao desse corpo, principalmente se mulher, mas que perpassa toda uma historia de apagamento, exclusao e silencio. A poesia gerada por esse corpo nao pode ser igual aquela gerada por um corpo presentificado, historiografado, estudado e tido como referencia. O corpo feminino e descorporificado constantemente por essa civilizacao centrada no falo. Por essa razao, escrever sendo mulher e um constante desapagar, fazer a luz e iluminar os tracos e os contornos silenciados. E em seguida, apagar de novo, descorporifica-se.

De acordo com Corbin (2009) acreditava-se ha mais de mil anos, que os orgaos sexuais femininos tinham uma estrutura igual aos masculinos, ou seja, a mulher por dentro, teria um corpo de homem. Segundo ainda esse pesquisador da historia do corpo, Aristoteles acreditava que a mulher era um vaso, um receptaculo vazio, no qual o homem depositava a sua semente (CORBIN, 2009, p.185). Ja Hipocrates, considerava o orgasmo feminino indispensavel para a criacao de uma nova vida. Haveria uma ordem cosmica na liberacao dos fluidos femininos e masculinos em comunhao para gerar outro corpo, outro ser: "Assim se estabelecia, naturalmente, uma relacao logica entre o prazer e a fertilidade, entre a frigidez e a esterilidade" (CORBIN, 2009, p.186).

A visao hipocratiana do corpo feminino e de suas funcoes reprodutivas nao sobreveviveu a Idade Media e nem ao Renascimento, pois a Ciencia desmistificou essa ligacao entre prazer e concepcao. O corpo feminino torna-se um perigo e a reproducao aconteceria independente do desejo e das acoes das mulheres:

O conjunto das relacoes estabelecidas entre os homens e mulheres se encontram, a partir disso, redefinidas. Os partidarios da subordinacao a mulher recorrem a biologia. Jean Jacques Rousseau, no quinto livro de Emilio, havia apontado as diferencas, consideradas naturais, que distinguiam os dois sexos. O macho, ativo e forte, e macho em certos momentos. A mulher e mulher a cada instante de sua vida. Tudo, nela, evoca o seu sexo. Portanto, e necessario garantir-lhe uma educacao particular. A crenca segundo a qual os avancos da civilizacao acentuam a diferenca entre o homem e a mulher embasa solidamente a divergencias dos papeis. Esta divisao, acredita-se, deve ordenar todas as relacoes sociais, sobremaneira o discurso e o jogo amoroso. A mulher descobre o desejo quando focaliza seus sentimentos sobre um individuo O homem pode ser invadido por uma necessidade de mulher que uma parceira casual podera satisfazer. Essa diferenca radical nas modalidades do desejo fundamenta o duplo padrao da moral. (CORBIN, 2009, p.187)

Corbin analisa neste trecho, de que forma a Ciencia esta imbricada com a ideologia de que o corpo feminino era feito para a reproducao. Toda pouca literatura medica que se fara tendo o corpo da mulher como objeto de estudo e para justificar o destino e a submissao das mulheres ao casamento, ao marido e aos filhos. Seu corpo seria uma construcao da natureza para reproduzir outros corpos e nao para criar. Se ate a criacao da vida em seu ventre seria obra da semente do homem, imagine a producao de seus textos. Seu corpo--uma fabrica como disse Jorge de Lima em seu poema Mulher Proletaria: "Mulher proletaria--unica fabrica/que o operario tem, (fabrica de filhos)" (LIMA, 2003 p.286 e 287).

Se seu corpo so serviria a reproducao e seu desejo deveria se focar em um homem so, as mulheres que ousassem escrever poesias, que nao fossem reproducoes de metaforas e versos do senso comum e que, na vida pessoal, nao casassem ou casassem mais de uma vez, estariam fugindo das regras e subvertendo seus corpos e seus textos. Cecilia Meireles escapou a logica reprodutiva e amorosa a que estava fadada o corpo da mulher e o texto da mulher, pois ela casou duas vezes, assim como escreveu poesias em um grande exercicio de criacao, nao reproduzindo as mesmices literarias destinadas as poetisas. Denominamos aqui de poetisas as mulheres que escreviam versos dentro dos parametros patriarcais de como deveria ser uma poesia feita por mulher, geralmente sao aquelas que participavam de saloes, saraus e datas comemorativas com versos comedidos e de figuras doces e vistas como femininas. Diferente da poeta, a que escrevia para ultrapassar estereotipos determinados ao seu genero e a sua escrita para fazer literatura. Para isso, deve escrever com todo o seu corpo de mulher real e nao com o corpo de mulher moldado pelos homens.

Ela escrevia como se parisse, mas nao de acordo com a concepcao do homem de gestar e parir, engendrada por tantos seculos na literatura, na ciencia e na sociedade. Parir o texto aqui e resgatar a autonomia criativa e o papel ativo da mulher em todos os campos da vida. E criar como faziam as deusas. Talvez por isso que ela nao se subordinou as escolas e aos modismos literarios de filiacao masculina como o Modernismo. Pois, a mulher que escreve nao quer ser mero vaso ou receptaculo vazio para a semente textual do homem, seus textos sao frutos de suas maos e de suas respiracoes. Ha um desejo claro da autora de nao aderir passivamente a simples reproducao de ideias ou formas textuais criadas por um movimento quase todo masculino. O que querem as escritoras, e mostrar na literatura e na vida que elas sao donas de seus corpos e que seus textos sao frutos de seus corpos, por isso lhes pertencem. Como bem disse Mario de Andrade sobre Cecilia Meireles:

Eu acuso Cecilia Meireles de varias culpas contra a poesia. E nem me parece duvidoso que a maior destas culpas seja ela ter se candidato a um premio da Academia. Que estranha, volupia, muito feminina, de perder, a teria levado a essa aventura? ... E disso lhe aconteceu outra culpa, nao menor, a de conquistar o premio![...] Cecilia Meireles tera querido ternamente elevar a coletividade academica se sacrificando a si-mesma em ser premiada pela Academia. E eis nos diante da madrigalesca licao da maior sinuca literaria destes ultimos meses: a academia acaba de ser premiada por ter concedido um premio a poetisa Cecilia Meireles. (ANDRADE, 1955). (6)

A poeta carioca teria se excluido do Modernismo por opcao propria. Ela nao se via contemplada naquele movimento, sua concepcao estetica e seus valores espirituais e por que nao, corporais nao se encaixavam nas novas regras. Sim, porque um estigma de sua poesia e o de que esta seria descorporea, fluida, perene. Ha aqui uma clara percepcao de sujeito que embasa esse julgamento, e que; privilegia uma ideia de corpo linear, unico, um territorio estavel do sujeito e de genero masculino por excelencia. Um corpo que tenha dominio de todas as suas sensacoes e sentimentos e com uma mente que comanda (CORBIN, 2005). Quando se afirma que Meireles e descorporea, pergunto qual a concepcao de corpo que embasa essa afirmacao. Nao e a mesma que esta em seus poemas, a qual nao e a concepcao de corpo do patriarcado.

De acordo com Ana Pizarro (2005), no momento politico em que viviam nossas tres autoras no Brasil, o governo ditatorial de Vargas pregava a moral "Lar, Escola e Patria" com muita veemencia, sendo estes tres lemas a base do regime autoritario. Esse regime necessitava de uma a mulher sem sexualidade, sem corpo para poder impor o autoritarismo dentro da familia. A intensa repressao que vem do Estado traz consigo o reforco de que as familias precisam ser monogamicas e religiosas e a mulher seria o sujeito a fazer esses valores vingarem, sem a mulher nao haveria moral. Pizarro cita Gilberto Vasconcelos que afirma que no periodo Varguista:

[...] o corpo e desvalorizado, os sentidos a parte mais degradante do homem. A espiritualizacao do corpo e do amor constitui a contrapartida do odio a sexualidade. A isso se entrelaca a misoginia de fundo patriarcal [...] A apologia reacionaria da mae, sua descarnalizacao tem como funcao converte-la no suporte da familia autoritaria, a qual e inimaginavel sem sua dessexualizacao e da crianca. (VASCONCELOS apud PIZARRO, 2005 p.34)

Se os valores impostos por um governo autoritario estavam ligados diretamente a descorporificacao da mulher e, em contrapartida, a sua profunda espiritualizacao, e de imaginar que esses valores tenham contaminado a recepcao critica das obras escritas por mulheres, na medida em que esses seriam os valores procurados em seus textos. A espiritualizacao da poesia ceciliana se inicia na ansia social, consciente e inconsciente, de procurar no texto escrito da considerada maior poeta brasileira, os valores que satisfizessem a imagem da mulher ideal do periodo. Sua poesia deveria ser espiritualizada, descorporea, desencarnada e sem sexualidade para se converter em uma poesia feita por uma mulher perfeita e completa (como disse Mario de Andrade sobre Cecilia e Gabriela Mistral).

Lendo Viagem, por exemplo, que a autora carioca considera sua primeira grande obra, vejo o corpo, presente o tempo todo na tecitura de seus versos. Mas um corpo desregrado, desencaixado, aberto e espontaneo, onde as sensacoes sao proeminentes. Como no poema Excursao, um dos primeiros poemas de Viagem, no qual os olhos, nariz, boca se misturam e seus sentidos se integram a paisagem: "Estou vendo aquele caminho/cheiroso da madrugada/pelos muros escorriam/flores moles da orvalhada/ na cor do ceu, muito fina/ via-se a noite acabada" (MEIRELES, 2001, p.230). O corpo e metonimico. O caminho se cheira, a flores escorrem pelo muro ou sera o muro que escorre com as flores?

Esse nao encaixe de Cecilia aos preceitos do Modernismo foi tomado por uma boa parte da critica como uma prova de sua inadequacao ao espaco e tempo, como se ela estivesse fora das discussoes sobre a renovacao estetica que se promulgava, como cita Ana Cristina Cesar (1993) em seu livro: Escritos no Rio. Neste livro, Cesar faz uma analise da poesia de Meireles tendo em vista, a revolucao na linguagem e na forma literaria que o Modernismo propos. Ela conclui que Cecilia escreveu uma poesia tradicional na forma e pouco ousada na linguagem, repetindo estereotipos imageticos ligados a mulher como a nuvem, a flor e o jardim. Contudo, Ana Cristina Cesar nao leva em consideracao a capacidade que teve Cecilia de renovar esse mesmo quadro imagetico, transpondo do comum para o indizivel e colocando o corpo feminino em transfiguracao na natureza.

Neste sentido, dificilmente a critica falogocentrica pensaria em analisar o corpo na obra da poeta carioca, pois a imagem de poeta efemera e espiritualizada ja ganhou proporcoes dificeis de contornar. Porem, algumas vezes ele aparecia como na leitura filosofica de Ruth Cavelieri (1984), para a qual o corpo tem o papel preponderante na elaboracao de imagens. A corporificacao das metaforas e uma forma de despertar o sensual concreto dessas imagens, na qual se entrelacam para dar a medida do poema. Revelar o corpo sutilmente em partes para que possa assim, nao apenas encontrar a unidade, mas lutar contra o desregramento do tempo, "livrar o corpo da licao da areia" (MEIRELES). Segundo CAVALIERI (1984), Cecilia "opera com o corpo como opera com o tempo, desintegra para unir; reduz para conduzir a microcospia do ser" (CAVALIERI, 1984 p.60). Igual a estes trechos do poema Mar Absoluto, no qual une a transfiguracao do corpo na natureza, com a tematica da solidao mais profunda do ser encarnada na figura do mar:
   Mar Absoluto

   Foi desde sempre o mar
   E multidoes passavam e empurravam
   como um barco esquecido

   Agora recordo que falavam
   da revolta dos ventos,
   de linhos, de cordas, de ferros
   de sereias dadas as costa.

   E o rosto de meus avos estava caido
   pelos mares do Oriente, com seus corais e perolas,
   e pelos mares do Norte, duros de gelo.
   [...]
   E fico tonta.

   acordada de repente nas praias tumultuosas.
   E apressam-me, e nao me deixam sequer mirar a rosa dos ventos.
   "Para adiante! Pelo mar largo!
   Livrando o corpo da licao da areia!
   Ao mar!--Disciplina humana para a empresa da vida!"

   Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
   A solidez da terra, monotona
   Parece-nos fraca ilusao.
   Queremos a ilusao grande do mar.
   Multiplicada em suas malhas de perigo.
   (MEIRELES, 2001 p.448 e 449)


No poema Mar Absoluto, o mar e reverenciado como um grande ser que regula a vida e os corpos de todos que dele dependem. Ele representa um grande Deus que exerce o poder de vida e de morte sobre todos os seres em volta como era a Grande Deusa Mae no matriarcado. Sao seres maiores, atemporais porque sobrevivem a todos os ventos do tempo e, em sua infinitude de tamanho e de idade, mostram como os seres a sua volta sao pequenos e finitos. A relacao aqui e de corpos, o corpo imenso do mar em contraste com os corpos pequenos que dele dependem, eles sao "as multidoes com seus barcos esquecidos" (MEIRELES, 2001). O mar guarda os segredos, as historias, ele e o presente e o passado e nesse instante, aparece o corpo lirico recordando e legitimando o poder que dos oceanos emana.

Recordar tem o significado de trazer a tona, vir a memoria (HOLANDA, 1986), ou seja, emergir do fundo para cima, trazer o que estava escondido para a superficie. Assim faz tambem o mar, reino da melancolia, escondendo e revelando historias, segredos e corpos. A poeta recorda, isto e, emerge destes mares os rostos de seus avos que simbolizam herancas culturais, e o passado tornado o presente. Segundo Cavalieri, o rosto unifica os fragmentos corporais, algo constante na poesia de Cecilia em que transbordam as imagens de olhos, boca, labios, maos e sensacoes como cheiro, imagem, sons para que possa se fundir a natureza: "o rosto se destaca como metafora de um nucleo de recomposicao" (CAVALIERI, 1984 p. 60). O mar integra por excelencia, ele liga um polo a outro e todos os continentes, devolve para os fragmentos de terra "a solidez da terra monotona" a nocao de que fazem parte de um mesmo corpo--planeta. Ele reconstroi os rostos de seus avos, a face de seu passado, faz o seu sangue, corpo submerso da pele, encontrar-se com as vozes mais profundas que esse mar entoa do passado ao presente, da historia ao eterno, do fundo a superficie, do sonho a realidade, de dentro para fora, do vazio para a plenitude, do espirito para o corpo e da vida para morte. Resta a solidao, mar absoluto de todos os seres.

Neste sentido, sera a natureza a unificadora do corpo fragmentado, em pedacos, na poesia ceciliana. No poema Mar Absoluto essa unificacao se materializa na figura do mar, ou o vento e os passaros no texto da Dona Contrariada que mesmo estes seres desmanchando o tecido--o corpo de pano, obrigam as maos da poeta, trazer todo o seu corpo para dentro da costura do texto para que este se construa como um todo.

O mar e uma figura constante na poetica ceciliana. Ele e infinito e senhor do planeta ao mesmo tempo, utero da vida, liquido amniotico, ser imenso que paira alem das ondas e do ceu. Por isso, nada mais certo do que chama-lo de mar absoluto e que de alguma forma se liga ao corpo feminino, quando reverenciado como um lugar da origem da vida comparado com a agua primordial em que um bebe se envolve dentro da mae. O mar e masculino em portugues, mas nao se deve esquecer que em outras linguas como o frances, ele e feminino: mer, palavra que se pronuncia nesta lingua igual a mae--mere.

O mar que e a mae, a mae que e o mar, envolve com poder todas as coisas iniciais e ancestrais, tanto da historia humana, quanto da historia do planeta. Aquelas que nao se nomeiam e que nao se escrevem. A poeta celebra neste poema um corpo uno, maior que a extensao entre sua mao e a escrita, um corpo absoluto, imenso e redondo igual aos oceanos cobrindo toda extensao do corpo da Terra. O corpo que se costura aqui e aquele que pare como o mar pariu as primeiras formas de vida. Absoluto em unir historias, vidas, seres e desejos. E como se esse poema pedisse que o limite da forma (aquele que determina a diferenciacao do corpo) fosse abolido em prol de uma intensa reconfiguracao das polaridades, onde o feminino e o masculino se completam em uma extensa androgina linguagem poetica. Cecilia Meireles tece seus poemas em plena corporeidade imagetica, dona contrariada pelos plenos mares absolutos de sua poesia.

Referencias Bibliograficas

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ANDRADE, Mario. Viagem, in: O empalhador de passarinho. 2[degrees] edicao Sao Paulo: Martins, 1955.

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CASTELLO BRANCO, Lucia. A Traicao de Penelope. Sao Paulo: Annablume, 1994.

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HOLLANDA, Heloisa Buarque. Tendencias e Inpasses: o feminismo como critica da cultura. Rio de Janeiro: Racco, 1994.

LEAL, Isabel. O corpo como texto e como discurso in: Analise Psicologica, 3 (VIII)1990: 307-310. http://www.isabel-leal.com/portals/1/pdfs/1990_3_307.pdf, acesso em 13/11/2016.

MEIRELES, Cecilia. Carta a Henriqueta Lisboa. Rio de Janeiro, 24 de setembro de 1947. Carta manuscrita localizada em Belo Horizonte no Arquivo de Escritores Mineiros, UFMG.

MEIRELES, Cecilia. Poesia Completa I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. Sao Paulo: Cosac Naify, 2012.

PRADO, Gloria. La Lucha sin tregua em la escritura de algunas mujeres in: GONZALEZ, Aralia. Mujer y Literatura Mexicana y Chicana Culturas em contacto. Tijuana: El Colegio de Mexico, 1990.

PIZARRO, Ana. Gabriela Mistral el proyecto de Lucila. Santiago: LOM Ediciones, 2005.

STEEN, Edla Van. Entrevista com Henriqueta Lisboa. Sao Paulo: Acervo de Escritores Mineiros, Manuscrito, 5 de maio de 1982.

TOURAINE, Alain. O mundo das mulheres. Trad. De Franscisco Morais. Petropolis, Vozes, 2004.

XAVIER, Elodia. Que Corpo e Esse? O corpo no imaginario feminino. Florianopolis: Mulheres, 2007.

(1) Alem do termo falocentrico (sociedade pautada no falo), a Psicanalise Moderna tambem usa o termo logofalocentrismo, o qual seria mais completo, pois completaria o dominio do falo com o do logos (pensamento, razao). E um neologismo com origem na teoria da Deconstrucao de Jacques Derrida e representa a primazia que o homem obteve na construcao do significado das palavras.

(2) A linguagem em corpo. As palavras quando coisas deixam de ser signos, se animam, cobrem o corpo.

(3) A luta que defende algumas mulheres que escrevem por modelar a palavra que as expressem--esta e, seu corpo, suas vivencias, seu sentir que expresse, ao mesmo tempo, o mundo e que as permita, ademais dar o testemunho de seu proprio processo e consciencia de escritoras. (traducao de minha autoria).

(4) A palavra escutada, cifrada, dita e escrita pelo corpo, pelo o proprio ser da mulher, como a unica possibilidade de transcendencia sinalizada pelo espirito. (traducao de minha autoria).

(5) O processo da escritura em seu proprio processo fisico, fisiologico, etico e intelectual, e uma palavra vital. A historia se da a luz a partir da escritura. (traducao de minha autoria).

(6) Este texto de Mario de Andrade inserido no livro O empalhador de Passarinho, mostra bem como a critica masculina se comportava na epoca diante da ousadia, nao so da existencia de um texto escrito por uma mulher, mas desta mulher disputar com esse texto os espacos publicos literarios vistos como propriedades do homem. O que se subtende no texto de Andrade e que, nao bastasse a poeta escrever, ainda cometia o enfrentamento de galgar reconhecimento e espaco dentro de um territorio tido como masculino, como e o caso da Academia. Logico que ele como um bom critico conserta esse espanto inicial ao dizer que era Cecilia que premiava a Academia, e nao ao contrario. No final de sua analise, Andrade constroi uma visao sobre a poesia de Meireles que pode ser prepoderante para o entendimento estereotipado que sua poesia ganhou entre os criticos homens, isto e, de uma poesia ligada ao sentimento e as emocoes, trecho o qual eu transcrevo: "E assim, pude retirar do poema de Cecilia Meireles o meu poema, a minha intuicao, o que para mim foi uma definicao nova de certo momento irracional que eu ja observara, mas ainda nao sentira, nao conhecera poeticamente no seu poder de comparacao, de experiencia, de simbologia. Sentimento profundo, definicao reveladora que so pude obter pela graca da poesia. E pela forca criadora de Cecilia Meireles".

Adrienne K. S. Morelato

UNESP. Email: adriennekatiadidi@bol.com.br
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Author:Morelato, Adrienne K.S.
Publication:Revista Artemis
Date:Jan 1, 2019
Words:7395
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