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Speeches and power in Tacitus' Histories/Os discursos e o poder nas Historiae de Tacito.

Contexto

Na passagem da Republica para o Principado, o senado ve-se privado da administracao do territorio, do comando do exercito e da ges tao financeira (1). Estes dominios transitam para o princeps, que, gradualmente, consolida a sua soberania e acaba por ganhar contornos regios e ate misticos (2). Esta profunda inflexao da conjuntura politica exige a cada senador que reveja o seu codigo etico e as formas possiveis de rea Liza-Lo. Antes mesmo das mudancas na vida dos seus membros, o senado, enquanto instituicao, conhece tambem os efeitos do renovado organograma do Estado. A obra de Tacito testemunha a sua Luta desesperada por encontrar um Lugar e um papel no mais recente quadro das entidades publicas, onde sobressai, a um ritmo crescente, como um elemento decorativo, com grandes dificuldades em manter uma actividade autonoma e produtiva, de tal modo que, quando se faz um Levantamento dos actos senatoriais, fica patente, acima de tudo, a sua ineficacia como forca de accao na narrativa. Esta caracteristica colectiva manifesta-se, por exemplo, no valor que as personagens lhe atribuem nas suas faLas.

Pisao

O ano de 69 d. C. e particularmente rico em candidatos ao poder e em generais que invocam o apoio do senado, nos abundantes discursos aos militares e ao povo (3). O primeiro e Pisao Liciniano, adoptado por Galba a 10 de Janeiro, na sequencia das primeiras noticias de sedicao que chegavam da Germania. Entretanto, na urbe, a guarda pretoriana comecara a transferir-se para o lado de Otao. Por isso, Pisao dirige-se a coorte que, supostamente, estaria a zelar pela seguranca do palacio e dos seus ocupantes, numa tentativa de a dissuadir da traicao (Hist. 1. 29):

"Sextus dies agitur, commilitones, ex quo ignarus futuri, et siue optandum hoc nomen siue timendum erat, Caesar adscitus sum. Quo domus nostrae aut rei publicae fato in uestra manu positum est, non quia meo nomine tristiorem casum paueam, ut qui aduersas res expertus cum maxime discam ne secundas quidem minus discriminis habere: patris et senatus et ipsius imperii uicem doleo, si nobis aut perire hodie necesse est aut, quod aeque apud bonos miserum est, occidere."

"Seis dias se passaram, camaradas, desde que, ignorando o meu futuro e se devia adoptar este nome ou teme-lo, eu fui reconhecido Cesar; com que consequencias para a nossa casa ou para a Republica, esta nas vossas maos decidi-lo; nao porque, em meu nome, um desfecho demasiado infeliz me apavore, visto que, tendo experimentado a adversidade, eu fico, neste preciso momento, a saber que nem mesmo a prosperidade tem menos riscos; e do meu pai e do senado e do proprio imperio o destino que me condoi, se, para nos, for hoje necessario morrer ou, o que, aos olhos dos bons, e igualmente deploravel, matar."

Imbuido de devocao filial e patriotica, Pisao une a situacao da sua familia a do Estado (quo domus nostrae aut rei publicae fato) para sugerir que a destruicao de uma significa a destruicao do outro. Numa gradacao progressiva, procura mostrar aos soldados que a aclamacao de Otao implicaria eliminar o imperador de direito (patris), deixar o senado, que apoiara a sua ascensao, a merce do usurpador (et senatus) e desencadear uma guerra de faccoes que, em ultima instancia, poria em causa a unidade do imperio (et ipsius imperii). Porem, o facto de Galba ter sido oficialmente investido pelo senado, nao e suficiente para mante-lo no poder. Pisao afirma literalmente que a evolucao do quadro politico depende da vontade da guarda pretoriana: in uestra manu positum est. De um modo geral, toda a sua intervencao e insegura e melancolica, logo desde a frase de abertura, em que se confessa objecto passivo de uma adopcao que poderia ser-lhe fatal (Caesar adscitus sum) (4). Pisao sente-se, agora, tao incapaz de definir o seu percurso (ignarus futuri) como quando fora exilado (aduersas res expertus) porque Nero, a semelhanca dos antecessores, perseguira todos os que a arvore genealogica tornava automaticamente potenciais candidatos a imperador. Dai que o seu estado de espirito se exprima em disjuntivas (siue ... siue ...) e em sentimentos contraditorios (optandum / timendum). Na sua vida, nao ha projectos: tudo e fruto da vontade alheia ou do acaso (fato; casum; uicem).

Pelas palavras de Pisao, o senado e colocado, no ambito do conflito politico em questao, do lado daqueles a quem nao cabe decidir, mas acatar a decisao de outros e, desta forma, distancia-se do exercito, que assume o protagonismo da accao. Em contrapartida, e associado ao povo. Os dois simbolos republicanos nao influenciam o desenrolar dos acontecimentos e comportam-se como espectadores do confronto entre generais e legioes, a espera de conhecerem o vencedor, para o aclamarem. E notorio que estao desfasados em relacao ao regime em vigor e aos problemas por ele criados.

Otao

No entanto, o rival de Pisao tambem garante que tem o apoio do senado e do povo, quando fala, pouco depois, no acampamento da guarda pretoriana (Hist. 1. 38):

"Ac ne qua saltem in successore Galbae spes esset accersit ab exilio quem tristitia et auaritia sui simillimum iudicabat. Vidistis, commilitones, notabili tempestate etiam deos infaustam adoptionem auersantis. Idem senatus, idem populi Romani animus est: uestra uirtus expectatur, apud quos omne honestis consiliis robur et sine quibus quamuis egregia inualida sunt."

"E nao fosse haver alguma esperanca, pelo menos, no sucessor de Galba, foi buscar ao exilio quem, em azedume e em avareza, ele julgava o seu total semelhante. Vos vistes, camaradas, com que invulgar tempestade ate os deuses, perante esta infausta adopcao, manifestaram a sua aversao. A disposicao do senado, a disposicao do povo romano e a mesma: e da vossa valentia que se esta a espera! Em vos reside toda a robustez necessaria aos designios honrados, que, sem vos, ainda que excepcionais, nada valem."

Todos os pretendentes ao poder se sentem avalizados a usar o nome do senado e do povo em causa propria porque a sua posicao no conflito nao e decisiva, nem constante. Daqui resulta um aparente paradoxo: se nao tem meios para imporem um candidato da sua preferencia, qual e o motivo da relevancia que os varios concorrentes atribuem ao seu apoio? A resposta e, evidentemente, a legitimidade que so eles lhes podem conferir. O imperador tem de receber o imperium e a tribunicia potestas atraves de um decreto do senado, secundado por uma lei da assembleia popular (5), e a ascensao pelas armas agudiza ainda mais a necessidade do reconhecimento oficial.

Otao comeca por denegrir Galba e Pisao, acusando-os de terem um temperamento dificil e de serem avarentos (tristitia et auaritia), argumentos muito adequados a sua audiencia indisciplinada e determinada a nao sair da crise politica de maos vazias (6). Depois, recorre a autoridade divina, no intuito de comprovar a sua visao pessoal dos adversarios. Em His. 1. 18, Tacito conta que o dia 10 de Janeiro de 69 d. C. se assinala por fortes trovoadas, que, todavia, nao demovem Galba de levar por diante a adopcao de Pisao. Portanto, Otao aproveita as contingencias atmosfericas para demonstrar que estes nao sao uma solucao auspiciosa no que diz respeito a escolher alguem para dirigir os destinos de Roma (notabili tempestate etiam deos infaustam adoptionem auersantis). Por fim, e na sequencia das entidades etereas, sao referidos o senatus populusque Romanus. A anafora (Idem ... idem ...) insiste na ideia de que a legalidade estaria do lado dos soldados, caso resolvessem agir, na medida em que contavam com o aval de ambos (7). Por isso, a proposta de derrubar Galba e Pisao para aclamar Otao, e apelidada de honesta e egregia. Contudo, o final do excerto citado deixa claro que a iniciativa tem de partir do exercito, que e instigado a accao numa interpelacao directa, reforcada pela aliteracao da semivogal (uestra uirtus). O sujeito indeterminado (expectatur) faz saber que existe uma 'expectativa' generalizada relativamente a intervencao dos militares, os unicos que detem a indispensavel capacidade de concretizacao, conforme sublinham, reiteradamente, o adjectivo omne, a antitese uirtus--robur / inualida e o poliptoto apud quos ... sine quibus.

Um equivoco da guarda pretoriana oferece a Otao a oportunidade de ser o autor da mais exuberante defesa da importancia do apoio do senado. O transporte nocturno de um acervo de armas destinado a uma coorte recem-chegada de Ostia e entendido pelos militares como um estratagema para equipar secretamente os escravos dos senadores. O erro de interpretacao quase custa a vida a um numeroso grupo de membros da sua ordem que, na mesma altura, jantavam no palacio e que, perante a irrupcao dos soldados, sao obrigados a debandar de forma pouco edificante, a altas horas da noite, pelas ruelas da cidade, em busca de um refugio (Hist. 1. 80-82) (8). No dia seguinte, reposta a verdade dos factos, Otao desloca-se, mais uma vez, ao acampamento dos pretorianos, para proferir um discurso mais de conciliacao que de admoestacao (Hist. 1. 84):

"Paucorum culpa fuit, duorum poena erit: ceteri abolete memoriam foedissimae noctis. Nec illas aduersus senatum uoces ullus usquam exercitus audiat. Caput imperii et decora omnium prouinciarum ad poenam uocare non hercule illi, quos cum maxime Vitellius in nos ciet, Germani audeant. Vlline Italiae alumni et Romana uere iuuentus ad sanguinem et caedem depoposcerit ordinem, cuius splendore et gloria sordis et obscuritatem Vitellianarum partium praestringimus? Nationes aliquas occupauit Vitellius, imaginem quandam exercitus habet, senatus nobiscum est: sic fit ut hinc res publica, inde hostes rei publicae constiterint. Quid? Vos pulcherrimam hanc urbem domibus et tectis et congestu lapidum stare creditis? Muta ista et inanima intercidere ac reparari promisca sunt: aeternitas rerum et pax gentium et mea cum uestra salus incolumitate senatus firmatur. Hunc auspicato a parente et conditore urbis nostrae institutum et a regibus usque ad principes continuum et imortalem, sicut a maioribus accepimus, sic posteris tradamus; nam ut ex uobis senatores, ita ex senatoribus principes nascuntur."

"Poucos foram culpados; dois serao punidos; os restantes, apagai a memoria de uma noite tao feia. E aqueles gritos dirigidos ao senado nao devem chegar aos ouvidos de nenhum exercito, em parte alguma. Trata-se da cabeca do imperio e da joia de todas as provincias: puni-la, por Hercules, nem aqueles que, neste preciso momento, Vitelio incita contra nos, que sao os Germanicos, o ousariam! Entao, podem ser filhos da Italia e uma juventude verdadeiramente romana a reclamar o sangue e o massacre de uma ordem que, com o seu esplendor e a sua gloria, nos permite ofuscar a sordidez e a obscuridade dos partidarios de Vitelio? Umas tantas nacoes, foi o que Vitelio ocupou; algo parecido com um exercito, e o que ele tem--o senado esta connosco! Por conseguinte, do nosso lado perfila-se a Republica; do dele, os inimigos da Republica. Como? Vos acreditais que a solidez desta cidade tao bela esta nas casas e nos tectos e num amontoado de pedras? Isso sao coisas mudas e inanimadas: que elas caiam e sejam reparadas, e normal--a eternidade do Estado e a paz dos povos e a minha, como a vossa vida, e na incolumidade do senado que assentam. Ele foi instituido, sob os auspicios, pelo pai e fundador da nossa cidade e, desde os reis ate aos principes, foi continuo e imortal; da mesma maneira que nos o recebemos dos antepassados, tambem devemos transmiti-lo a posteridade, pois, tal como, de entre vos, nascem senadores, e de entre os senadores que os principes nascem."

A acumulacao de antiteses e inevitavel para definir os dois lados do conflito: as tropas de Vitelio sao barbaras (Germani), as de Otao sao 'verdadeira mente' romanas (9); Vitelio conta com nacoes e legioes, Otao tem o apoio do senado. Este e exaltado como o guardiao ancestral dos auspicios do Estado (GUILLEN, 1978, p. 21 e n. 17; MANNINO, 1979 p. 18-45; CORNELL, 1995, p. 142-143, 251-252; FORSYTHE, 2005, p. 109-110): os imperadores, tal como outrora os reis, desaparecem ciclicamente, mas o imperium nao se extingue com eles, porque e preservado pelos patres, para evitar a desagregacao de Roma e a perda da sua essencia original, que ultrapassa a mera existencia material (Muta ista et inanima). As posicoes sao invertidas: enquanto Pisao coloca o seu destino, o do pai adoptivo, o do senado e o do imperio 'nas maos' dos militares, Otao afirma que sao estes, ele proprio, a paz e o imperio que dependem do senado (aeternitas rerum et pax gentium et mea cum uestra salus incolumitate senatus firmatur). Todavia, o sentido literal destas palavras e traido pelas suas explicacoes, de acordo com as quais a sua vantagem, com base no apoio do senado, consiste em 'esplendor e gloria' (splendore et gloria), por contraposicao a baixeza de condicao dos apoiantes do seu adversario (sordis et obscuritatem Vitellianarum partium). O valor 'decorativo' da prestacao do senado, na crise de sucessao, e reforcado pelos epitetos que lhe sao atribuidos: Caput imperii et decora omnium prouinciarum. Ter a seu favor aquela que fora, e que, teoricamente, continuava a ser, a cupula politica e religiosa do mundo romano, garante a causa de Otao a aura de legalidade de que ele precisa para poder invocar o argumento tipico da guerra civil, ja usado, muito antes, por Pompeu contra Cesar e por Augusto contra Marco Antonio: hinc res publica, inde hostes rei publicae.

Suetonio Paulino

Depois de alguns confrontos menores, relativamente favoraveis, com os Vitelianos, os generais de Otao discutem se devem avancar para um embate decisivo ou procrastinar (10). O mais prestigiado, entre eles, defende que um adiamento desgastaria as forcas adversarias porque, em comparacao, nao dispunham de tantos recursos de manutencao (Hist. 2. 32):
   Contra ipsis omnia opulenta et fida, Pannoniam Moesiam
   Dalmatiam Orientem cum integris exercitibus, Italiam
   et caput rerum urbem senatumque et populum, numquam
   obscura nomina, etiam si aliquando obumbrentur (...).

   Pelo contrario, eles tinham tudo o que e abundancia
   e lealdade: a Panonia, a Mesia, a Dalmacia, o Oriente,
   com os seus exercitos intactos; a Italia e a cabeca do Estado,
   a urbe, bem como o senado e o povo, nomes nunca
   obscuros, mesmo se, por vezes, se ensombravam (...).


Suetonio Paulino faz o elenco dos meios que lhes assistem. A enumeracao desenvolve uma gradacao progressiva de importancia, a comecar pelas provincias com os respectivos exercitos, passando pela Italia e por Roma, para encerrar com o senado e com o povo. O catalogo progride do pragmatismo para o simbolismo, do concreto para o abstracto. Ate a Italia, os seus membros sao justapostos em assindeto, enquanto Roma, o senado e o povo sao introduzidos pelo polissindeto. Esta mudanca sintactica separa dois tipos de apoio e faz surgir o segundo bloco como um apendice do primeiro, que, embora transmita um acrescimo de autoridade, e claramente acessorio. As provincias representam os fulcrais recursos militares; a Italia pode oferecer suporte logistico; mas a urbe e referida com o titulo fatal de caput rerum. A expressao equivale a caput imperii, que, no ultimo discurso de Otao, e um epiteto do senado. O facto de ser aplicado ora a uma, ora a outro, revela que se trata de metaforas retoricas convencionais. No ultimo lugar da lista, o senado e o povo valem apenas pelo nome (numquam obscura nomina (11)). Embora a litotes negue a sua irrelevancia, a concessiva seguinte (etiam si), corroborada pelo adverbio aliquando, tem o efeito de anular o tom peremptorio inicial; o verbo obumbrentur confirma a sugestao contida em obscura, ao coloca-los na 'sombra' dos verdadeiros protagonistas, ou seja nos bastidores da accao.

Antonio Primo

A semelhanca de Suetonio Paulino, Antonio Primo e um defensor da contemporizacao como uma eficaz estrategia militar. Porem, em tempo de guerra, a perspectiva dos despojos e o furor belico tornam a espera dificil de suportar. A medida que se aproximam de Roma, as legioes dos Flavios vao ficando cada vez mais impacientes por enfrentarem o exercito de Vitelio, que, entretanto, se instalara na capital. Para refrear o seu impeto, e necessario mostrar-lhes as desvantagens de um ataque imediato (Hist. 3. 60):
   Satis gloriae proelio Cremonensi partum et exitio
   Cremonae nimium inuidiae: ne concupiscerent Romam
   capere potius quam seruare. Maiora illis praemia et
   multo maximum decus, si incolumitatem senatui
   populoque Romano sine sanguine quaesissent. His ac
   talibus mitigati animi.

   Era suficiente a gloria que, com a batalha de Cremona,
   se gerara e, com a destruicao de Cremona, era
   demasiada a antipatia: eles nao deviam cobicar uma
   Roma conquistada, em vez de uma preservada. Maiores
   seriam, para eles, os premios e muito maior ainda o
   brilho da dignidade, se assegurassem a incolumidade do
   senado e do povo romano sem derramamento de sangue.
   Estas palavras e outras que tais acalmaram os animos.


Mais uma vez, o senado e colocado, juntamente com o povo, numa posicao de passividade e de fragilidade: nao so nao sao eles que determinam os destinos de Roma, como dependem da vontade do exercito, inclusivamente para manterem a sua integridade fisica. Contudo, na senda dos oradores anteriores, Antonio Primo tambem tem consciencia de que uma exibicao de respeito pelos dois antigos baluartes da constituicao confere legitimidade as operacoes militares. Por isso, atraves de um jogo de antiteses em que se contrapoem, por um lado, popularidade e impopularidade (satis gloriae / nimium inuidiae), por outro, subjugacao e proteccao (capere / seruare), faz ver aos seus soldados que, depois de terem saqueado e incendiado Cremona (12), nao podiam voltar a comportar-se como uma forca invasora, sob pena de parecer que nao estavam a lutar contra Vitelio, mas contra a Republica, que o senado e o povo representavam.

Conclusao

No final do periplo por estes discursos que contem referencias ao senado, verifica-se que, no contexto de uma grave crise politica, as personagens nao esperam dele a resolucao pragmatica dos problemas publicos. A sua inaptidao para ditar a escolha do imperador e evidente e ressalta da afinidade com o povo, o seu par igualmente inactivo na tradicional formula republicana, e do contraste com o dinamismo do exercito. A sua relevancia institucional assenta, antes, na competencia de legitimacao que herda do passado e que e fundamental para evitar a desintegracao constitucional do Estado. Os indicios da sua incapacidade de accao nao se restringem aos discursos das personagens e dispersam-se pela narrativa. Por exemplo, em Hist. 1. 55, senado e povo sao lembrados pelo proprio exercito. Por norma, este renova anualmente o juramento de lealdade ao imperador. Porem, no inicio de 69 d. C., duas das legioes estacionadas na Germania Superior recusam-se a faze-lo em nome de Galba e, 'para nao parecer que estavam a por de parte o respeito pelo poder, invocavam no seu juramento os nomes ja gastos do senado e do povo romano' (ne reuerentiam imperii exuere uiderentur, senatus populique Romani oblitterata iam nomina sacramento aduocabant). O acto nao reveste qualquer pretensao de restauracao republicana. A expressao oblitterata iam nomina ressalva, desde logo, a vanidade da referencia a duas entidades cujo protagonismo politico estava irrevogavelmente confinado ao passado. Nao obstante, a atitude dos legionarios comporta um fundo legal, na medida em que, quando um imperador morre, os seus poderes constitucionais regressam aos orgaos que os atribuem a partida. Portanto, os militares agem, na verdade, como se estivessem numa situacao de vazio do poder e, tal como nos discursos analisados, a mencao do senado e do povo traduz apenas o proposito de manter uma aparencia de legalidade.

DOI: http://dx.doi.org/10.14195/1984-249X_15_4

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Submetido em Janeiro de 2015 e aprovado em Maio de 2015

Carla Susana Vieira Goncalves *

* Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Centro de Estudos Classicos e Humanisticos--Coimbra, Portugal--csvg@fl.uc.pt

** O tema e recuperado e adaptado da minha dissertacao de doutoramento: Arduus Rerum Modus. O Senado em Tacito (Coimbra, 10 de Dezembro de 2010).

(1) SYME, 1968, p. 394; GUILLEN, 1978, p. 69, 147; TALBERT, 1984, p. 375-379, 392-430; EDER, 1993, p.105-106; PERRIN; BAUZOU, 1997, p. 208, 248; MOMMSEN, 1999, p. 89-93; OAKLEY, 2009, p. 184; WILLIAMS, 2012, p. 214.

(2) BLOCH, 1942, p. 58-64; PETIT, 1967, p. 125-127, 209-234; SYME, 1968, p. 322-323, 459-475; GUILLEN, 1978, p. 139, 197-198; RAMAGE, 1987, p. 38-54; JACQUES; SCHEID, 1992, p. 29-36; PERRIN; BAUZOU, 1997, p. 203-204, 242-243; CIZEK, 1998, p. 72-95; GOWING, 2005, p. 125-126.

(3) Para um estudo geral da tecnica de composicao dos exemplares oratorios presentes na obra de Tacito, ver DANGEL, 1991; especialmente para os livros 1-3 das Historiae, ver KEITEL, 1991. O primeiro artigo dedicate preferencialmente a questoes formais; o segundo as ideias principais dos discursos e as relacoes tematicas entre eles.

(4) Sobre a ineficacia oratoria dos discursos nas Historiae e o desfasamento dos seus argumentos em relacao as reais circunstancias politicas, ver LEVENE, 2009, p. 212-224, especialmente p. 221 para o discurso de Pisao.

(5) O cumprimento de todas as formalidades pode ocupar uma unica sessao do senado ou distribuir-se por varias semanas e ate meses. O imperador pode ainda ser eleito membro dos colegios sacerdotais, consul e pontifice maximo. Sobre a investidura, ver PETIT, 1967, p. 238-239; JACQUES; SCHEID, 1992, p. 22-26; PERRIN; BAUZOU, 1997, p. 241.

(6) A respeito da proverbial auaritia de Galba e, em particular, do donativo insistentemente procurado pelos pretorianos e sistematicamente recusado por Galba, ver tambem Plut. Galb. 22-23, Suet. Gal. 16-17, Dio 64. 2-3.

(7) Num discurso a assembleia popular, que Tacito se limita a resumir, Otao volta a 'exaltar o consenso do povo e do senado a seu favor' (consensum populi ac senatus pro se attolens: Hist. 1. 90).

(8) O incidente tambem e relatado por Plut. Oth. 3, Suet. Otho 8 e Dio 64. 9. Para um retrato da Roma labirintica, com base na obra de Marcial, ver TORRAO; ANDRADE, 2008, onde estao patentes as dificuldades de circulacao que as ruas da capital ofereciam, incluindo a noite.

(9) O retrato convencional do exercito barbaro, herdado dos Persas de Esquilo e das Historias de Herodoto, e analisado por ASH, 2002, p. 37-72 como uma estrategia deliberadamente adoptada por Tacito para retratar as forcas em confronto na guerra civil a semelhanca de um exercito inimigo, entenda-se de Roma, e, segundo o seu estudo, e uma caracteristica extensivel as tropas dos Flavios. A autora continua a aplicar este criterio de interpretacao na sua edicao critica do segundo livro das Historiae, como demonstra, por exemplo, o seu comentario acerca do comportamento de Vitelio em Hist. 2. 89: ASH, 2007, p. 348-349.

(10) Episodio relatado, de forma mais concisa, em Plut. Oth. 8 e Suet. Otho 9.

(11) Cf. Hist. 1. 30, ainda no discurso de Pisao: 'res publica et senatus et populus uacua nomina sunt.

(12) Para uma analise historica da segunda batalha de Cremona, em que Tacito e uma das fontes seguidas, ver WELLESLEY, 2000, p. 128-150.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Goncalves, Carla Susana Vieira
Publication:Revista Archai: Revista de Estudos Sobre as Origens do Pensamento Ocidental
Article Type:Ensayo
Date:Jul 1, 2015
Words:4213
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