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Speech Therapy Practice in the Intensive Care Unit of a hospital of infectious diseases of Alagoas/Atuacao da fonoaudiologia em unidade de terapia intensiva de um hospital de doencas infecciosas de Alagoas.

INTRODUCAO

As Unidades de Terapia Intensiva (UTI) foram implantadas no Brasil a partir de 1970 e com seu surgimento melhorou o atendimento a pacientes graves, que antes era realizado na enfermaria, com area fisica inadequada e escassez de recursos tecnologicos e humanos [1].

Os servicos de terapia intensiva ocupam areas hospitalares destinadas ao atendimento de pacientes criticos que necessitam de cuidados complexos e especializados. A realidade vivenciada pela equipe multiprofissional que atua em terapia intensiva e permeada por variados sentimentos e emocoes e a rotina exige uma excelente capacitacao tecnico-cientifica e preparo profissional para lidar com a perda, com a dor e com o sofrimento [2].

A fonoaudiologia teve uma insercao recente no ambiente hospitalar. A fonoaudiologia na UTI esta inserida em diversas areas de atuacao, dentre elas UTI neonatal, pediatrica, coronariana, queimados, trauma e oncologica. A avaliacao fonoaudiologica na UTI visa identificar as possiveis alteracoes funcionais que interferem na fase oral e faringea da degluticao. Para uma avaliacao clinica fidedigna, e necessaria a utilizacao de itens descritos na literatura, como o teste da agua, a oximetria de pulso e ausculta cervical [3].

No ambiente hospitalar, a reabilitacao realizada por este profissional envolve a dificuldade de deglutir (disfagia) e os aspectos cognitivos e comunicativos. No caso da disfagia, considerando o acidente vascular encefalico, a intubacao orotraqueal prolongada e a traqueostomia como fatores de risco [3-5].

Em relacao a comunicacao de pacientes internados em UTI de doencas infecciosas, o fonoaudiologo pode atuar avaliando, planejando e discutindo com os demais profissionais da equipe multiprofissional aspectos relacionados aos incentivos cognitivos bastante importantes para o paciente internado na UTI, considerando que pode favorecer as dificuldades dos individuos com desordens neurologicas [6].

O fonoaudiologo deve ser um profissional inserido em servicos de saude que valorizem a assistencia humanizada, uma vez que, o processo de humanizacao perpassa habilidades e atitudes comunicativas que sao escopo e intervencao do fonoaudiologo. Alem disso, a Politica Nacional de Humanizacao (PNH) e base do sucesso de procedimentos terapeuticos e, principalmente, um exercicio da cidadania [7].

As doencas infecciosas estao entre as mais prevalentes nas Unidades de Terapia Intensiva. Infelizmente, dados brasileiros fundamentados a respeito da prevalencia de infeccao em UTI sao escassos [8]. Desta forma, informacoes sobre a atuacao fonoaudiologica na reabilitacao de pacientes internados nas unidades de terapia intensiva em hospitais de doencas infectocontagiosas sao praticamente inexistentes.

Desta forma o objetivo deste estudo foi descrever a atuacao fonoaudiologica em Unidade de Terapia Intensiva no hospital de referencia do Estado de Alagoas.

METODOS

Este estudo foi aprovado pelo Comite de Etica e Pesquisa (CEP) da Uncisal com o numero de protocolo 834.026 em 2014.

A pesquisa foi realizada em um Hospital Escola da Universidade de Ciencias da Saude do Estado de Alagoas (UNCISAL), referencia em doencas infecto-contagiosas no estado. Foram incluidos os registros de todos os pacientes internos nesta unidade no periodo de janeiro a dezembro de 2014, a partir de 24 anos de idade, pois segundo descricao do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) [9] caracterizam adultos e idosos. Abaixo dessa faixa etaria, desvincula-se do perfil desta Unidade de Terapia Intensiva por caracterizar a populacao infanto-juvenil. Foram excluidos os pacientes que evoluiram a obito apos as primeiras 24h de internacao.

Realizou-se coleta de dados em registros de livro ata correspondente ao periodo de Janeiro a Dezembro do ano de 2014 no local da pesquisa, considerando-se: o tempo de internacao na UTI, as patologias de base, periodo de intervencao fonoaudiologica, definindo assim a caracterizacao da mesma.

Por ser uma pesquisa retrospectiva, na qual nao houve identificacao dos sujeitos internados, nao foi necessario o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo solicitado declinio deste ao CEP. O local da pesquisa autorizou a realizacao desta.

Os dados foram coletados por meio de uma ficha estruturada para a aquisicao das informacoes essenciais da pesquisa, a saber: tempo de internacao, tempo de intervencao fonoaudiologica, hipoteses medicas de base, tipo de intervencao fonoaudiologica e desfecho da internacao dos pacientes (Anexo 1), registrados em uma planilha eletronica Excel (2007) e analisados por meio de metodo estatistico.

As variaveis foram descritas com distribuicao de frequencias. Foram construidas tabelas e graficos. Para verificar a associacao entre as variaveis intervencao fonoaudiologica, por meio de fonoterapia ou gerenciamento fonoaudiologico, entendendo-se este como um acompanhamento do quadro disfagico do paciente, e o desfecho da internacao dos pacientes foi aplicado o teste qui-quadrado para dois grupos independentes (com e sem intervencao fonoaudiologica). O nivel de significancia de 0, 05 foi aceito para rejeitar a hipotese de nulidade.

RESULTADOS

Foram selecionados para este estudo 183 registros de pacientes presentes no livro ata de ocorrencia da Fonoaudiologia do ano de 2014. Entretanto, 17 desses registros foram excluidos da pesquisa pelo fato dos pacientes terem entrado em obito em menos de 24h de internacao na UTI infecto-contagiosa. Desta forma, apenas 166 registros de pacientes foram analisados neste trabalho, sendo 77 (46, 4%) de pacientes com intervencao fonoaudiologica e 89 (53, 6%) de pacientes sem intervencao fonoaudiologica segundo registros do livro ata.

Quanto ao tempo de internacao na UTI, foi observado que 160 pacientes permaneceram menos de 1 mes internados na UTI, no qual, dos 77 pacientes atendidos pelo fonoaudiologo, 72 (93, 5%) ficaram internados neste periodo e 5 (6, 5%) entre 1 e 3 meses. Dos 89 pacientes que nao tiveram intervencao do fonoaudiologo, 88 (98, 9%) ficaram internados em menos de 1 mes e apenas 1 paciente (1, 1%) entre 1 e 3 meses. O predominio do tempo de internacao ser menor que 1 mes ocorreu devido ao fato de que os pacientes que eram atendidos pela fonoaudiologia recebiam alta da UTI e, no caso daqueles que nao tinham intervencao do fonoaudiologo, por se encontrar em grave estado geral, inviabilizando a intervencao. Em nenhum dos grupos, houve registro de pacientes que tenham ficado internado em um periodo compreendido entre 4 e 6 meses ou acima de 7 meses.

Quanto a hipotese diagnostica medica, foi observada a presenca de 4 patologias de base que foram mais registradas entre os 77 pacientes com intervencao fonoaudiologica, sendo a SIDA acometendo 27 pacientes (55, 8%) e a tuberculose acometendo 20 pacientes (35%) as mais frequentes. Alem disso, foram encontrados registros de 13 pacientes (16, 8%) acometidos pela meningite e 3 pacientes (3, 8%) com tetano, tambem foram registradas outras patologias de base menos frequentes (filariose, leptospirose, dengue hemorragica, virus influenza de subtipo A -H1N1, hepatopatia, encefalite, ascite, entre outras) que acometeram um total de 43 pacientes (55,8%) e que foram reunidas em um unico grupo. Algumas doencas oportunistas tambem foram registradas, sendo a toxoplasmose cerebral a mais frequente acometendo 14 pacientes (17, 8%), seguida da tuberculose que acometeu 7 pacientes (8, 8%) e a candidiase que acometeu 5 pacientes (6, 5%). Todas estas doencas estavam associadas a SIDA.

Nos pacientes que nao tiveram intervencao fonoaudiologica, foram observadas 5 patologias de base que foram mais registradas entre os 89 pacientes, sendo as mais frequentes: tuberculose que atingiu 29 pacientes (32, 5%) e SIDA que tambem acometeu 29 pacientes (32, 5%). Alem disso, foram encontrados registros de 10 pacientes (11, 2%) acometidos pela meningite, 8 pacientes (8, 9%) acometidos pela leptospirose e 2 pacientes (2, 2%) com tetano. Outras patologias menos frequentes tambem foram registradas (dengue, acidente ofidico, endocardite, cancer de utero, esofagite, hidrocefalia, hepatopatia, entre outras) acometendo um total de 62 pacientes (69, 6%) e sendo reunidas em um unico grupo. Algumas doencas oportunistas foram registradas, sendo a toxoplasmose cerebral a mais frequente aparecendo em 15 pacientes (21, 3%), seguida da tuberculose que acometeu 10 pacientes (16, 8%) e a candidiase que acometeu 8 pacientes (9%). Todas estas doencas estavam associadas a SIDA.

Vale ressaltar que mais de uma hipotese diagnostica medica foi registrada em um mesmo paciente nos casos de HIV soropositivos, reforcando a imunossupressao destes.

A fonoterapia foi o tipo de intervencao fonoaudiologica que predominou na maioria dos pacientes assistidos pelo fonoaudiologo na UTI de doencas infecto-contagiosas. Dos 77 pacientes, em 40 (51, 9%) foi realizada fonoterapia e 37 (48, 1%) foi realizado monitoramento (Tabela 1). Na fonoterapia era realizada estimulacao sensorio motora oral com exercicios para adequacao de tonus, sensibilidade e mobilidade dos orgaos fonoarticulatorios (OFA's), alem de estimulacao da linguagem em pacientes com SIDA associada a neurotoxoplasmose. Nos pacientes apos ventilacao mecanica invasiva e em alguns casos de tuberculose, tambem foram trabalhados aspectos de voz como a qualidade vocal na escala que considera grau de rouquidao-R, grau de aspereza-A, grau de soprosidade-S, grau de astenia-A, grau de tensao-T e grau de instabilidade-I (RASATI), pitch (sensacao de frequencia- grave/agudo) e loudness (sensacao de intensidade- baixo/alto).

O gerenciamento ocorreu em pacientes que foram avaliados e nao apresentaram demanda fonoaudiologica, permanecendo em observacao enquanto internos para acompanhamento da integridade das funcoes oromotoras e outros estavam em grave estado geral decorrentes de um maior numero de doencas oportunistas ou admitidos na UTI em franca insuficiencia respiratoria evoluindo para intubacao orotraqueal.

[FIGURE 1 OMITTED]

Nos 40 pacientes que tiveram intervencao fonoaudiologica as doencas de base predominantes foram SIDA (n = 14; 33, 3%) e meningite (n = 12; 28, 5%), sendo que este tipo de intervencao tambem ocorreu em alguns pacientes com tuberculose (n = 8; 19, 1%), em todos os pacientes com tetano (n = 3; 7, 1%) e em outras patologias de base como H1N1, filariose, ascite, hepatopatia, encefalopatia (n = 5; 12%) (Figura 1).

Nos 37 pacientes que tiveram gerenciamento as doencas de base mais frequentes foram SIDA (n = 13; 33, 3) e tuberculose (n= 12; 30, 8%), sendo observado este tipo de intervencao em um paciente com meningite (n= 1; 2, 6%) e em outras patologias de base como leptospirose, doenca pulmonar obstrutiva cronica, hepatite entre outras (n= 13; 33, 3%) (Figura 2).

A maioria dos pacientes que tiveram algum tipo de intervencao fonoaudiologica recebeu alta da Unidade de Terapia Intensiva sendo transferidos para outras unidades do hospital. Na analise estatistica com o teste Qui Quadrado, esse achado foi altamente significante (p<0, 000) demonstrando que existe uma relacao importante entre a intervencao fonoaudiologica e o destino e sobrevida dos pacientes que estao internados na UTI de doencas infecto-contagiosas (Tabela 2).

[FIGURE 2 OMITTED]

DISCUSSAO

A atuacao do fonoaudiologo em hospitais possibilita uma avaliacao precoce e um diagnostico diferencial nos casos de disfagia, tendo como objetivo a prevencao, assim como evitar e/ou minimizar complicacoes clinicas ao paciente 10.

A participacao desses profissionais na equipe multidisciplinar objetiva a prevencao e reducao de complicacoes decorrentes das alteracoes no sistema estomatognatico, contribuindo assim para a reducao do tempo de internacao e da taxa de re-internacoes por complicacoes [5].

O tempo de internacao dos pacientes na UTI de doencas infecciosas na pesquisa foi menor que 1 mes, de forma semelhante foi observado em estudos em pacientes HIV positivos no qual tiveram um tempo medio de internacao no hospital de doencas infecto-contagiosas em aproximadamente 22 dias, coincidindo com um outro estudo realizado em uma UTI no Acre que evidenciou media de internacao de 20 dias [1, 11].

Tais relatos sugerem que nao necessariamente o tipo de patologia determina o prolongamento da internacao hospitalar, mas a criticidade do quadro geral.

Neste estudo, a fonoterapia foi o tipo de intervencao fonoaudiologica que predominou na UTI de doencas infecciosas. Na pratica clinica e possivel observar que a disfagia e uma manifestacao frequente entre os pacientes na UTI corroborando com outra pesquisa realizada em uma UTI de um Hospital no Maranhao que observou a existencia de alta incidencia de quadros de disfagia orofaringea nos pacientes internados [12]. Sendo assim, a fonoterapia para ajustar os aspectos miofuncionais que repercutem na degluticao torna-se essencial para a reabilitacao dos pacientes internados na UTI de doencas infectocontagiosas.

O gerenciamento tambem foi realizado nos pacientes com ventilacao mecanica invasiva (VMI) via intubacao orotraqueal considerando o grave estado geral desses pacientes e, associado, o menor tempo de internacao, discordando com os resultados de outro trabalho que observou que os pacientes em VMI com grave estado geral permanecem longo periodo em UTI, inviabilizando quaisquer tipo de atuacao de reabilitacao pela caracterizacao do quadro clinico [5]. Observa-se, portanto, concordancia apenas na relacao entre gravidade do quadro geral e inviabilidade de intervencao.

Neste estudo, a SIDA, tuberculose, meningite e tetano foram as patologias de base mais registradas nos pacientes atendidos pelo fonoaudiologo na UTI.

A SIDA e uma sindrome causada pelo retrovirus da familia Retroviridae, o HIV-1 e o HIV-2, que se manifesta por uma diminuicao quantitativa e qualitativa dos linfocitos T. Os pacientes HIV positivos com manifestacoes de doenca avancada frequentemente tem contagem de linfocitos CD4+ abaixo de 200 celulas/[mm.sup.4], aumento dos niveis plasmaticos de ribonucleic acid (RNA) do HIV, e as manifestacoes clinicas indicativas de grave imunocomprometimento [13].

Nos pacientes com SIDA, observam-se lesoes intra-orais, alteracao do tonus, mobilidade, forca e sensibilidade dos orgaos fonoarticulatorios, repercutindo na adequacao das funcoes estomatognaticas. Outros estudos tambem definem esta interpretacao considerando a disfagia e as alteracoes de mastigacao como condicoes marcantes dos pacientes com SIDA [14].

Nos pacientes HIV positivos que apresentam comorbidades neurologicas associadas e importante a intervencao fonoaudiologica em virtude das repercussoes organicas inerentes ao quadro, principalmente por ser a degluticao uma funcao de controle neurologico com consideravel implicacao no seu estado geral. Esta analise e reforcada pelo estudo de autores que afirmam que todos os pacientes HIV positivos que apresentam disfagia neurogenica tem diagnostico confirmado de toxoplasmose cerebral no qual a atuacao fonoaudiologica e fundamental visando adequacao de consistencia, temperatura, volume dos alimentos e posturas mais favoraveis a uma alimentacao segura e eficiente [15].

A tuberculose constitui uma doenca infecciosa, cujo agente e o bacilo de Koch [16]. Tosse por mais de duas semanas, producao de catarro, febre, sudorese, cansaco, dor no peito, falta de apetite e emagrecimento sao os principais sintomas da tuberculose. Nos casos mais avancados, pode aparecer escarro com sangue [17].

Em pacientes portadores da tuberculose a terapia fonoaudiologica inclui tecnicas inicialmente indiretas de estimulacao da degluticao, passivas e ativas, treinamento vocal para aumento do tempo maximo de fonacao e melhora da coordenacao pneumo-fonoarticulatoria [18]. Neste estudo, a fonoterapia nos pacientes com tuberculose foi realizada com enfase na motricidade orofacial por meio de tecnicas indiretas e diretas para favorecer adequacao dos orgaos fonoarticulatorios e suas funcoes; e naqueles submetidos a ventilacao mecanica invasiva por tempo prolongado foram trabalhados aspectos na area da voz como adequacao do pitch, elevacao da loudness, melhora da qualidade vocal e coordenacao pneumofonoarticulatoria.

A meningite caracteriza-se por uma inflamacao na meninge com etiologia definida por agentes bacterianos, fungicos e virais, provocando amplo espectro de sinais e sintomas, tais como aumento da cefaleia, vomitos, rigidez na nuca, constipacao e sinais neurologicos [19, 20]. Observou-se neste estudo alteracoes fonoaudiologicas com repercussoes no tonus e mobilidade dos orgaos fonoarticulatorios, dificuldade na funcao da degluticao e alteracoes vocais. Desta forma, realizaram-se tecnicas de terapia indiretas ou diretas de acordo com o nivel de consciencia apresentado pelo paciente; bem como manobras posturais para auxiliar na degluticao eficiente e segura para manutencao da via oral de alimentacao. Alem disso, fez-se uso da terapia vocal para ajuste da qualidade vocal, pitch e loudness.

O tetano e uma doenca infecciosa nao contagiosa, causada pela tetanospamina (TS) produzida por cepas toxigenicas da bacteria Clostridium tetani. A infeccao geralmente ocorre pela introducao de esporos do Clostridium. A TS impede a liberacao de neuromediadores inibitorios que atuam no motoneuronio inferior aumentando sua frequencia de disparos. Clinicamente, a liberacao de disparos do motoneuronio inferior manifesta-se por hipertonia muscular, e por espasmos musculares aos estimulos sensoriais, principalmente visuais e auditivos. A musculatura mais frequentemente e precocemente acometida no tetano e a musculatura proximal, com riso sardonico, trismo, rigidez de nuca e engasgos [5].

O tetano e uma patologia de base no qual o fonoaudiologo tem importante atuacao considerando que as dificuldades na degluticao e fonacao, trismo e sialorreia sao alguns dos sintomas encontrados nos pacientes com esta patologia nas Unidades de Terapia Intensiva [5]. Neste estudo a intervencao do fonoaudiologo reforcou os relatos literarios, enfatizando a adequacao do tonus da musculatura orofacial com relaxamento e alongamento da musculatura responsavel pela abertura mandibular, exercicios favorecedores da articulacao da fala e manobras posturais para efetivar a degluticao. Alem da terapia vocal apos intubacao orotraqueal e posterior traqueostomia para favorecer regularidade vibratoria de pregas vocais e protecao de vias aereas inferiores.

Apesar dos progressos alcancados no tratamento e controle da infeccao pelo Human Immunodeficiency Virus (HIV), a Sindrome da Imunodeficiencia Adquirida (SIDA) persiste como uma das principais causas de morte no mundo, alem disso, infeccoes oportunistas permanecem sendo a maior causa de hospitalizacao e morte em pessoas vivendo com HIV/SIDA [21].

No estudo, as doencas oportunistas associadas ao HIV/SIDA em pacientes com e sem intervencao fonoaudiologica foram, em ordem de prevalencia, respectivamente: toxoplasmose cerebral, tuberculose e candidiase corroborando com a literatura no qual e observado que essas doencas sao as 3 coinfeccoes mais comuns em pacientes notificados com HIV/ SIDA [13, 15].

A coinfeccao HIV e tuberculose e uma das principais responsaveis pelo acrescimo da morbidade e mortalidade em pacientes com imunodeficiencia, pois se por um lado a infeccao pelo HIV aumenta a ocorrencia de tuberculose, por outro a tuberculose interfere diretamente na sobrevida de pessoas com HIV, diminuindo-a [12, 22]. Tal evidencia foi constatada pelo elevado numero de obitos nos pacientes que apresentaram as duas patologias associadas.

Segundo os dados do Ministerio da Saude a toxoplasmose cerebral e uma doenca neurologica mais frequente em pacientes com SIDA, ocorrendo em 20-30% dos portadores de HIV [23]. Os dados do estudo foram de encontro a estes achados com variacao de 2% do menor valor da faixa percentual considerado pela OMS, a nao coincidencia pode ter sido influenciada pelo numero absoluto dos internos da pesquisa.

As candidiases orais representam uma das lesoes mais comuns em pacientes portadores do HIV/ SIDA. Alguns estudos afirmam que mais de 75% dos pacientes infectados apresentam candidiase [15], em discordancia com os achados desta pesquisa, na qual a candidiase aparece como terceira coinfeccao mais frequente em pacientes portadores do HIV/SIDA. Pode-se inferir que talvez tenha existido uso anterior de medicacao para suavizar os sintomas desta comorbidade, uma vez que se caracteriza por manifestacoes fisicas (em cavidade oral), portanto, lesao perceptivel nao necessariamente identificada por uma intervencao medica previa o que pode favorecer a automedicacao em alguns individuos.

Quanto ao desfecho da internacao dos pacientes, neste estudo a maioria dos pacientes com intervencao fonoaudiologica foi transferida para outras enfermarias do hospital. Evidencia-se o diferencial da intervencao fonoaudiologica na reabilitacao destes pacientes, favorecendo a alta da UTI. Um estudo observou uma taxa de obito maior comparada com a taxa de transferencia em pacientes com HIV positivos num hospital de doencas infecciosas [11]. Contudo essa nao possuia o fonoaudiologo em seu quadro clinico.

Ao serem admitidos na UTI os pacientes sao classificados de acordo com seu estado. De uma maneira geral, os pacientes considerados em estado regular sao aqueles cujas funcoes vitais estao alteradas, porem, existe estabilidade hemodinamica. Os pacientes considerados com estado geral comprometido sao aqueles em que ha estabilidade hemodinamica, porem, cursam com alteracoes refratarias das funcoes vitais. Pacientes em estado geral grave se encontram em instabilidade hemodinamica [24]. O obstaculo na atuacao fonoaudiologica se caracteriza apenas pela inviabilidade de intervencao nos casos graves que poderia determinar uma piora na instabilidade hemodinamica.

Constatou-se que na atuacao fonoaudiologica nesta UTI predominou a organizacao da musculatura orofacial e cervical, e identificacao das alteracoes da funcao de degluticao. Desta forma, foi proporcionada reabilitacao e conducao da alimentacao por via oral. E importante ressaltar a reabilitacao vocal e os incentivos cognitivos, principalmente nos casos com repercussoes respiratorias e neurologicas.

CONCLUSAO

Com esta pesquisa foi possivel identificar a SIDA, tuberculose, meningite e tetano como as patologias de base que mais acometem os pacientes assistidos pelo fonoaudiologo na UTI de um hospital de doencas infectocontagiosas. Sendo o unico obstaculo a intervencao fonoaudiologica o grave estado geral de alguns pacientes, que determina inviabilidade da atuacao, pela possibilidade de agravamento do quadro em virtude da instabilidade hemodinamica.

A proposta de reabilitacao mais utilizada foi a fonoterapia com enfase na organizacao da musculatura orofacial e cervical e reabilitacao das alteracoes de degluticao no caso de SIDA e meningite; e reabilitacao vocal e das alteracoes de degluticao nos casos de tuberculose e tetano.

Portanto, a atuacao fonoaudiologica na Unidade de Terapia Intensiva de um hospital de doencas infectocontagiosas engloba aspectos de motricidade orofacial e disfagia como areas de reabilitacao mais utilizadas, favorecendo a alta dos pacientes internos nesta unidade.

doi: 10.1590/1982-0216201618112015

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Anexo 1
FICHA DE EXTRACAO DE DADOS

Registro: __          Genero: __
Data: __              Mes: __
1 - Numero de pacientes internos __
2 - Tempo de internacAo do paciente:

() menor que 1 mes
() Entre 1 e 3 meses
() Entre 4 e 6 meses
() Entre 7 e 9 meses
() Entre 10 e 12 meses

3 - Tempo de intervencAo fonoaudiologica junto ao paciente:

() menor que 1 mes
() Entre 1 e 3 meses
() Entre 4 e 6 meses
() Entre 7 e 9 meses
() Entre 10 e 12 meses

4 - Hipotese diagnostica medica de base:

() Tuberculose () SIDA () Tetano () Meningite () Outras

5 - Tipo de intervencAo fonoaudiologica:

() Fonoterapia __
() Monitoramento __


Diego Lucas Ramos e Silva (1)

Fabricio Osman Quixada Lira (1)

Julio Cesar Cavalcanti de Oliveira (1)

Marisa Siqueira Brandao Canuto (2)

(1) Universidade de Ciencias da Saude de Alagoas-Uncisal, Maceio, Alagoas, Brasil.

(2) Santa Casa de Misericordia de Maceio, Hospital Escola Dr. Helvio Auto e Universidade de Ciencias da Saude de Alagoas-Uncisal, Maceio, Alagoas, Brasil.

Conflito de interesses: inexistente

Recebido em: 24/07/2015

Aceito em: 30/10/2015

Endereco para correspondencia:

Marisa Siqueira Brandao Canuto.

Rua Ariosvaldo Pereira Cintra, no. 758, Serraria, Condominio Le Parc, bloco 01, apartamento 05

Maceio-AL-Brasil

CEP: 57046-295

E-mail: marisasbc@yahoo.com.br
Tabela 1. Tipo de intervencao fonoaudiologica na unidade de terapia
intensiva infecto-contagiosa

                N     %

Fonoterapia     40   51, 9
Gerenciamento   37   48, 1

N = numero de pacientes % = porcentagem

Tabela 2. Relacao entre a intervencao fonoaudiologica com o destino
dos pacientes na unidade de terapia intensiva de doencas infecto-
contagiosas

         Com intervencao fonoaudiologica

              N                %

Alta          53              68, 8
Obito         24              31, 2

         Sem intervencao fonoaudiologica   P valor

              N                %

Alta          25              28, 1         P<0,000
Obito         64              71, 9

N = Numero de pacientes % = valor percentual

* Teste qui quadrado, P valor = Probabilidade de significancia < 0, 05
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Title Annotation:texto en portugues
Author:e Silva, Diego Lucas Ramos; Lira, Fabricio Osman Quixada; de Oliveira, Julio Cesar Cavalcanti; Canut
Publication:Revista CEFAC: Atualizacao Cientifica em Fonoaudiologia e Educacao
Date:Jan 1, 2016
Words:4405
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