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Sobre estruturas formais de acoes praticas.

O proposito do artigo

O fato de a linguagem natural servir as pessoas que fazem sociologia, leigos ou profissionais, como circunstancias, como topicos e como recursos de suas investigacoes, fornece a tecnologia de suas investigacoes e ao seu raciocinio sociologico pratico as suas proprias circunstancias, seus topicos e seus recursos. Os sociologos encontram essa reflexividade em ocasioes reais de suas investigacoes na forma de propriedades indexicais de linguagem natural. Por vezes, essas propriedades sao identificadas atraves da observacao sumaria de que uma descricao, por exemplo, na medida em que pode ser parte constitutiva das circunstancias que descreve, inevitavelmente "elabora" essas circunstancias de inumeras formas e e por elas "elaborada". Essa reflexividade assegura a linguagem natural propriedades indexicais caracteristicas, tais como as seguintes: a definibilidade das expressoes reside em suas consequencias; definicoes podem ser usadas para assegurar uma colecao definida de "consideracoes" sem que haja delimitacao; a definibilidade de uma colecao e assegurada por meio de possibilidades circunstanciais de elaboracao indefinida (1).

Caracteristicas "indexicais" nao sao proprias dos relatos de leigos. Tambem sao conhecidas nos relatos de profissionais. Por exemplo, a "formula" em linguagem natural "a realidade objetiva dos fatos sociais e o principio fundamental da sociologia" (2) e ouvida por profissionais, de acordo com a ocasiao, como definicao das atividades dos membros da Associacao, seu slogan, sua tarefa, meta, realizacao, motivo de ostentacao, conversa de vendedor, justificativa, descoberta, fenomeno social ou limitacao de pesquisa. Como qualquer outra expressao indexical, para quem sabe como ouvi-la, as circunstancias transitorias de seu uso conferemlhe definibilidade de sentido como definicao, ou tarefa, ou meta, etc. (3) Alem disso, conforme demonstrado por Helmer e Rescher (4), em nenhuma ocasiao se assegura a formula uma definibilidade que exiba estruturas que nao aquelas exibidas por referencias diretas. Quer dizer, quando se analisa a definibilidade da expressao atraves dos metodos predominantes de logica e linguistica, ela exibe pouca ou nenhuma estrutura de que os metodos disponiveis possam dar conta ou tornar interessantes. Os metodos de analise formal da sociologia sao frustrados de uma forma diferente por essas expressoes: sua definibilidade de sentido nao se ampara em estruturas que possam ser identificadas nas expressoes reais atraves do uso dos metodos matematicos disponiveis, para especificar um sentido, de forma definitiva. Numa busca por rigor, segue-se uma pratica engenhosa atraves da qual tais expressoes sao, primeiramente, transformadas em expressoes ideais. Entao, as estruturas sao analisadas como propriedades dos ideais, e os resultados sao atribuidos as expressoes reais como propriedades suas, embora com ressalvas de "modestia cientifica apropriada".

As propriedades indexicais da linguagem natural asseguram a tecnologia das investigacoes sociologicas, leigas e profissionais, a seguinte pratica inevitavel e irremediavel como sua marca: onde quer e por quem quer que seja feito, o raciocinio sociologico pratico procura remediar as propriedades indexicais do discurso pratico; ele faz isto no interesse de demonstrar a relatabilidade ** ** racional das atividades cotidianas; e ele faz isto para que suas avaliacoes sejam garantidas pela observacao e relato metodicos de particularidades situadas e socialmente organizadas das atividades cotidianas, o que naturalmente inclui particularidades da linguagem natural.

As praticas remediadoras do raciocinio sociologico pratico tem o objetivo de realizar uma diferenciacao plena entre as expressoes objetivas e as indexicais por meio da qual torna possivel a substituicao das expressoes objetivas pelas indexicais. Atualmente, essa diferenciacao e substituibilidade fornecem a sociologia profissional sua tarefa infinita (5).

Esses motivos e recomendacoes sao facilmente observados na maioria das apresentacoes em congressos, embora talvez encontrem maior expressao nos trabalhos de Blalock, (6) Douglas (7), Inkeles (8), Lazarsfeld (9), Levy (10), Moore (11), Parsons, (12) e Spengler (13), que os utilizam para localizar as tarefas necessarias para a teorizacao sociologica, para citar realizacoes e destacar metodos e resultados como estoque profissional disponivel para troca. O programa remediador do raciocinio sociologico pratico especifica-se naquelas praticas tipicas da investigacao sociologica profissional, tais como a elaboracao e defesa de uma teoria sociologica unificada, construcao de modelos, analise custo-beneficio, uso de metaforas naturais para reunir situacoes mais amplas sob a experiencia de uma situacao conhecida localmente, uso de situacoes laboratoriais como esquemas experimentais de inferencia, relatos esquematicos e avaliacoes estatisticas de frequencia, reprodutibilidade, efetividade etc. de praticas de linguagem natural e de varias situacoes sociais que implicam em seu uso, e assim por diante. Por conveniencia, reuniremos tais praticas da tecnologia pratica da sociologia profissional sob o termo "analise construtiva".

Existem interesses irreconciliaveis entre a analise construtiva e a etnometodologia nos fenomenos da relatabilidade racional de atividades cotidianas e na tecnologia pratica do raciocinio pratico sociologico que as acompanha. Essas diferencas tem um de seus focos nas expressoes indexicais: em concepcoes divergentes dos lacos entre expressoes objetivas e indexicais, e em concepcoes divergentes da relevancia dos indexicais para as tarefas de esclarecer as conexoes entre rotina e racionalidade em atividades cotidianas. Numerosos fenomenos que a analise construtiva tem ignorado por completo sao detalhados nos estudos etnometodologicos de Bittner (14), Churchill (15), Cicoure1 (16), Garfinkel (17), MacAndrew (18), Moerman (19), Pollner (20), Rose (21), Sacks (22), Schegloff (23), Sudnow (24), Wieder (25) e Zimmerman (26). Seus estudos mostraram especificamente (1) que as propriedades das expressoes indexicais sao propriedades ordenadas (27) e (2) que elas sao propriedades ordenadas e uma realizacao pratica continua de cada ocasiao real de fala e conduta comuns. Os resultados de seus estudos fornecem uma alternativa ao reparo de expressoes indexicais como sendo esta tarefa central da construcao de teoria geral na sociologia profissional.

A tarefa alternativa da construcao de uma teoria geral e descrever especificamente essa realizacao em sua variedade organizacional. As finalidades deste artigo sao localizar essa realizacao como fenomeno e especificar algumas de suas caracteristicas; descrever algumas estruturas nas praticas que compoem essa realizacao; e perceber sua obviedade, imenso interesse e grau de difusao que ela tem entre os membros, sejam eles leigos ou analistas profissionais de atividades cotidianas. Fazemos isto com o objetivo de indicar um relato alternativo das estruturas formais nas acoes praticas aos relatos que compoem o trabalho e as realizacoes do raciocinio sociologico pratico, onde quer que ele ocorra: entre leigos, claro, mas com predominancia esmagadora na sociologia profissional contemporanea, bem como em outras ciencias sociais, e, em todos os casos, sem grandes adversarios.

Metodos de investigacao sociologica dos membros

Alfred Schutz (28) disponibilizou para o estudo sociologico as praticas do conhecimento de senso comum de estruturas sociais de atividades cotidianas, circunstancias praticas, atividades praticas e raciocinio sociologico pratico. O seu trabalho demonstrou de forma original que esses fenomenos tem propriedades peculiares e que, por isso, constituem em si mesmos area legitima de investigacao. As obras de Schutz nos ofereceram inumeras instrucoes em nossos estudos das circunstancias e das praticas da investigacao sociologica pratica. Os resultados desses estudos encontram-se detalhados em outras publicacoes. Eles fornecem justificativa empirica para uma politica de pesquisa que e exclusiva aos estudos etnometodologicos. Essa politica estabelece que as praticas de teorizacao e investigacao sociologicas, os topicos dessas praticas, as descobertas dessas praticas, as circunstancias dessas praticas, a disponibilidade dessas praticas como metodologia de pesquisa e tudo o mais sao, do inicio ao fim, metodos dos membros para a teorizacao e a investigacao sociologicas. Inevitavelmente, e sem que haja esperanca de remedio, as praticas consistem em metodos dos membros para combinar conjuntos de alternativas, metodos dos membros para combinar, testar e verificar o carater factual da informacao, metodos dos membros para dar um relato das circunstancias de escolha e das escolhas, metodos dos membros para avaliar, produzir, reconhecer, garantir e obrigar a consistencia, coerencia, efetividade, eficiencia, engenhosidade e outras propriedades racionais de acoes individuais e concertadas.

A nocao de "membro" e o cerne da questao. Nao empregamos o termo "membro" com referencia a uma pessoa. Refere-se, sim, ao dominio da linguagem natural, o qual entendemos da seguinte maneira.

Observamos que as pessoas, na medida em que estao falando uma linguagem natural, de alguma forma estao envolvidas na producao objetiva e exposicao objetiva de conhecimento de senso comum de atividades cotidianas como fenomenos observaveis e relataveis. Perguntamos: o que faz com que a linguagem natural permita aos falantes e ouvintes ouvirem, e de outra forma, testemunharem a producao e exibicao objetivas de conhecimento de senso comum, e de circunstancias praticas, acoes praticas, bem como de raciocinio sociologico pratico? O que faz com que a linguagem natural torne esses fenomenos observaveisrelataveis, ou seja, fenomenos relat-aveis ***? Para falantes e ouvintes, as praticas da linguagem natural de alguma forma exibem esses fenomenos nas particularidades da fala, e que esses fenomenos sao exibidos e por si so, e, por isso, exibivel em descricoes adicionais, comentarios, perguntas e outras formas de narrar.

Os interesses da pesquisa etnomotedologica estao voltados para a confirmacao, por meio de analises detalhadas, de que fenomenos relat-aveis sao realizacoes praticas do inicio ao fim. Falaremos do "trabalho" dessa realizacao para enfatiza-la como um curso de acao continua. "O trabalho" e feito como combinacoes de praticas atraves das quais os falantes, nas particularidades situadas da fala, querem dizer algo diferente do que podem dizer em apenas tantas palavras, ou seja, como "praticas de glosa". A compreensao das praticas de glosa e central em nossos argumentos; maiores detalhes serao discutidos no Apendice.

I. A. Richards (30) oferece um exemplo tematico. Ele sugere o uso de pontos de interrogacao para isolar trechos falados ou escritos, por exemplo, ?pesquisa social empirica?, ?sistemas teoricos?, ?sistemas de sequencias?, ?variaveis psicologicas sociais?, ?praticas de glosa?, como forma de instruir o leitor a proceder da seguinte maneira: o modo como a frase em destaque deve ser compreendida esta, de inicio, especificamente indeterminado. Como ela deve ser compreendida e tarefa de uma leitura, em que um procedimento desconhecido sera usado para tornar o texto compreensivel. Ja que nada a respeito do texto ou do procedimento precisa ser decidido por enquanto, nos esperaremos o tempo que for necessario. Quando e se tivermos lido e conversado sobre o texto, revisaremos o que se pode fazer com ele. Assim, poderemos ter usado o texto, nao como termos indefinidos, mas como uma glosa de um contexto vivo, cujos caminhos, como um procedimento de montagem do sentido, nao achamos necessario (31) especificar.

A glosa de Richards consiste em praticas de fala atraves do uso de textos especificos de tal forma que o modo como o carater compreendido desses textos tera por fim operado permanece o tempo todo nao dito, embora o curso da conversa possa ser direcionado de forma a compor um contexto que encaixe no texto, e que, atraves disso, confira as replicas do texto caracteres funcionais notados, mutaveis, porem nao ditos, tais como "texto no inicio", "texto como resultado final", "fluxo de fala que liga os dois" (32), e assim por diante.

Aparentemente, os falantes podem, poderao, poderiam, devem e de fato procedem de maneira que a glosa de Richards de um texto e um exemplo tematico para poder atingir, reconhecidamente definibilidade razoavel, clareza, identificacao, substituicao, ou relevancia das particularidades notacionais da linguagem natural. E, aparentemente, os falantes podem proceder por meio da glosa, e fazer o imenso trabalho que fazem com linguagem natural, mesmo que no decorrer de sua conversa nao seja sabido, e que nunca, nem mesmo "no fim", seja possivel para eles dizerem em tantas palavras do que exatamente estao falando. Enfatizamos: isso nao quer dizer que os falantes nao saibam do que estao falando, mas, pelo contrario, sabem do que estao falando daquela maneira.

A glosa de Richard e apenas uma dessas maneiras. Praticas de glosa existem em grande quantidade empirica. De forma infinita, porem especifica e analisavel, as praticas de glosa sao metodos para producao de entendimento observavel e relatavel, por meio da, dentro da e a respeito da linguagem natural. Dentre as varias maneiras de se exibir-ao-falar e se exibir-para-contar que e como a fala e entendida, as praticas de glosa sao "membros", sao "dominio da linguagem natural", sao "conversar com sensatez", sao "falar direito", sao "falar ingles" (ou frances ou qualquer outro idioma), sao "discurso claro, consistente, cogente, ou seja, discurso racional".

Entendemos que o dominio da linguagem natural consista nisto: nas particularidades de sua fala, um falante, em concerto com outros, e capaz de explicar essas particularidades e esta, atraves disso, querendo dizer algo diferente do que pode dizer em tantas palavras; ele o esta fazendo sobre contingencias desconhecidas em ocasioes reais de interacao; e, ao faze-lo, o reconhecimento de que esta falando e de como esta falando nao sao especificamente questoes para comentarios competentes. Quer dizer, as particularidades de sua fala nao oferecem oportunidades para estorias a respeito de sua fala que valham a pena contar; tampouco suscitam perguntas que valham a pena fazer, e assim por diante.

A ideia de "querer dizer algo diferente do que ele pode dizer em tantas palavras" requer cometario. Nao se trata tanto de "algo diferente do que ele diz" quanto de que qualquer coisa que ele diga fornece os materiais mesmos a serem usados na compreensao do que ele diz. Por mais extenso ou explicito possa ser o que o falante diz, essa extensao ou explicitude nao suscitam uma tarefa de decidir a correspondencia entre aquilo que ele diz e aquilo que ele quer dizer, a qual e resolvida citando-se sua fala in verbatim (34). Ao inves disso, sua propria fala, na medida em que se torna (35) parte da mesma ocasiao de interacao, passa a ser mais uma contingencia dessa interacao. Ela se estende e elabora indefinidamente as circunstancias que explica, contribuindo assim para o seu proprio carater relatavelmente razoavel. O que e dito confere ao carater relatavelmente razoavel da fala suas diversas vicissitudes. Em suma, o dominio da linguagem natural e ate o fim, e sem alivio, uma realizacao ocasionada.

Interesse da etnometodologia por estruturas formais de acoes praticas

A etnometodologia, assim como a analise construtiva, concentra seus interesses de maneira insistente nas estruturas formais de atividades cotidianas. Contudo, as duas entendem estruturas formais de maneiras diferentes e incompativeis entre si.

Chamamos atencao para o fenomeno de que estruturas formais estao disponiveis nos relatos da sociologia profissional, onde sao reconhecidas por profissionais e por eles reivindicadas como conquista singular da sociologia profissional. Esses relatos de estruturas formais sao feitos atraves do dominio que os sociologos tem da linguagem natural, e requerem esse dominio como condicao sine qua non para uma leitura profissional adequada. Isso confere aos relatos sobre estruturas formais feitos por sociologos profissionais o seu carater de fenomeno de interesse da etnometodologia, nao distinto de qualquer outro fenomeno de membros em que o dominio da linguagem natural esteja semelhantemente envolvido. Os estudos etnometodologicos de estruturas formais estao voltados para o estudo de tais fenomenos, buscando descrever os relatos dos membros a respeito de estruturas formais onde quer e por quem quer que sejam feitos, ao mesmo tempo em que se abstem de qualquer julgamento quanto a sua adequacao, valor, importancia, necessidade, praticidade, sucesso ou consequencialidade. Chamamos a essa politica de procedimento de "indiferenca etnometodologica".

A "indiferenca" etnometodologica nao pode ser vista como uma posicao que afirmaria que nao importa o quao extenso possa se tornar uma obra como a de Berelson, ainda assim seria possivel encontrar problemas. Tampouco, sob esse aspecto, poderiamos afirmar que na medida em que a eficacia preditiva da sociologia profissional assumisse uma forma assintotica, seria possivel contar com uma margem de erro como propriedade estavel dentro da qual a pesquisa poderia continuar. Contar com o fato de que, dadas as orientacoes estatisticas da sociologia profissional, sempre se teria uma "variacao inexplicada" nao e nossa forma de localizar fenomenos ainda nao explicados. Nosso trabalho nao se posiciona, portanto, em qualquer relacao modificadora, elaboradora, contribuidora, detalhadora, subdivisora, explicadora, construtora de fundacoes quanto ao raciocinio sociologico profissional, tampouco nossa "indiferenca" e dirigida a essas ordens de tarefas. Ao inves disso, nossa "indiferenca" e para com todo o raciocinio sociologico pratico, e esse raciocinio envolve para nos, em qualquer forma de desenvolvimento, com qualquer erro de adequacao, em quaisquer formas, inseparavel e inevitavelmente, o dominio da linguagem natural. O raciocinio sociologico profissional nao esta, de maneira alguma, destacado enquanto fenomeno merecedor de nossa atencao de pesquisa. Pessoas que fazem estudos etnometodologicos nao podem "se importar" mais ou menos com o raciocinio sociologico profissional do que podem "se importar" com as praticas do raciocinio legal, raciocinio conversacional, raciocinio adivinhatorio, raciocinio psiquiatrico e tudo o mais.

Dado o procedimento etnometodologico da "indiferenca", entendemos por estruturas formais atividades cotidianas (a) na medida em que elas exibem sob analise as propriedades de uniformidade, reprodutibilidade, repeticao, padronizacao, tipicalidade e assim por diante; (b) na medida em que essas propriedades sao independentes da producao especifica de agrupamentos; (c) na medida em que a independencia de grupos especificos e fenomeno sujeito ao reconhecimento dos membros; e (d) na medida em que os fenomenos (a), (b), e (c) sao realizacao pratica e situada de cada agrupamento especifico.

O desenvolvimento de estruturas formais acima contrasta com o que predomina na sociologia e nas ciencias sociais, na medida em que o procedimento etnometodologico da "indiferenca" fornece as especificacoes (c) e (d) estudando atividades cotidianas como realizacoes praticas continuas.

Outra diferenca entre o tratamento de estruturas formais da etnometodologia e o da analise construtiva manifesta-se na caracteristica de que e por meio do dominio da linguagem natural que os analistas construtivos recomendam e entendem que seus relatos de estruturas formais fornecem metas e realizacoes singulares de sua tecnologia de pesquisa e teoria. E atraves do dominio da linguagem natural que analistas construtivos entendem a realizacao dessa recomendacao como a tarefa infinita da analise construtiva. Os relatos de estruturas formais feitos pela analise construtiva sao, assim, realizacoes praticas, do inicio ao fim. A linguagem natural fornece a analise construtiva seus topicos, circunstancias, recursos e resultados como formulacoes em linguagem natural de particularidades ordenadas da conversa e conduta dos membros, de movimentos e distribuicoes territoriais, de relacoes de interacao e todo o resto.

Etnometodologicamente, tais praticas atraves das quais sao feitos os relatos de estruturas formais abrangem os fenomenos do raciocinio sociologico pratico. Obviamente, essas praticas nao sao monopolio dos membros da Associacao. O restante do artigo examina esse fenomeno. O artigo resenha os metodos dos membros para producao e reconhecimento de estruturas formais de atividades cotidianas atraves do exame de suas praticas de formulacao.

O fenomeno

Na medida em que investigacoes que usam ou tratam da fala dos membros sao feitas, o investigador exibira, invariavelmente, a preocupacao de esclarecer essa fala no interesse da investigacao. Assim, por exemplo, um comentario feito por um entrevistado, "Ela nao gostava daqui, entao nos mudamos", pode dar ao pesquisador a oportunidade de fazer coisas como dar a elocucao um nome, dizer quem e "ela", onde e "aqui", quem o "nos" inclui. Na ampla literatura da logica e da linguistica, esses termos tem sido chamados de indicadores, particulas egocentricas, expressoes indexicais, expressoes ocasionais, indices, modificadores, expressoes pronominais e sinais reflexivos. Uma lista desses termos comecaria com "aqui", "agora", "isto", "aquilo", "eu", "ele", "voce", "ai", "logo", "hoje", "amanha".

A respeito desses fenomenos, comecamos por observar que essas elocucoes sao regularmente tratadas por todos como oportunidades para praticas reparadoras; que tais praticas nao sao nativas apenas a pesquisa, mas a todos os usuarios da linguagem natural; que sem saber com o que lidou uma determinada pesquisa, alguem poderia listar os termos que necessitariam ser esclarecidos, ou traduzidos, ou substituidos, ou de outra forma remediados, e que os termos poderiam ser localizados e seus remedios propostos e provados para todos os fins praticos, com ou sem pesquisa e com ou sem saber ate onde vao as preocupacoes semelhantes dos outros. A ampla e antiga literatura de logica e linguistica que influencia o trabalho de pesquisadores e um afluente minoritario na torrente desse trabalho onipresente.

Tratamos como fato que pesquisadores, quaisquer pesquisadores, leigos ou profissionais, que iniciam um texto, ingenuos ou nao em logica e linguistica, veem-se envolvidos na tarefa de esclarecer tais termos que nele ocorrem. O que se deve fazer com esse tipo de fato? O que nos, neste artigo, queremos fazer com esse fato?

Se, sempre que donas-de-casa entrassem numa sala, cada uma, por iniciativa propria, fosse ate o mesmo lugar e comecasse a limpa-lo, poderia-se concluir que certamente o lugar precisava ser limpo. Por outro lado, poderia-se concluir que existe algo a respeito do lugar e a respeito das donas-de-casa que torna o encontro de um com o outro uma ocasiao de limpeza, caso em que o fato de limpar, ao inves de ser evidencia de sujeira, seria ele mesmo um fenomeno.

Expressoes indexicais tem sido "estudadas" e tratadas de forma identica inumeras vezes, nao apenas com ingenuidade, mas, o que e mais interessante, com uma aparentemente necessaria desconsideracao das realizacoes anteriores. A literatura academica oferece evidencia do quanto esse trabalho de reparacao e antigo. O Dissoi Logii (36), um fragmento de texto que data aproximadamente de 300 a.C., dedica atencao a sentenca "Eu sou um iniciado", porque ela apresenta dificuldades. A questao e a verdade ou falsidade de uma sentenca, quando, se, dita por A, era verdadeira, mas, se dita por B, era falsa; se, dita por A, em um momento, era verdadeira, mas, se dita por A, em outro momento, era falsa; se, dita por A a respeito de um estado de A, era verdadeira, mas, se, dita por A a respeito de um outro estado, era falsa.

Para os problemas que sentencas como essa constituem, desde ha muito estao disponiveis solucoes programaticas. Comecaria-se substituindo o "eu" por um nome proprio; adicionariase uma data; especificaria-se um estado, em relacao ao qual o falante fosse "um iniciado". Uma quantidade de trabalho espantosa tem sido dedicada a tais fenomenos. Na proxima secao, esse trabalho sera brevemente caracterizado.

Uma caracterizacao das expressoes indexicais

A consciencia das expressoes indexicais nao apenas ocorre nos textos mais antigos, ela ocorre na obra de grandes autores ao longo de toda a historia da logica. Todo grande filosofo fez comentarios a respeito delas. Considerem-se, por exemplo, Charles S. Peirce (37) e Ludwig Wittgenstein (38): Peirce, porque geralmente e citado como marco inicial do interesse dos logicos e linguistas modernos, pelos indexicais, e Wittgenstein, porque, quando se leem seus estudos posteriores, tendo-se em conta que ele esta examinando a fala de filosofos como fenomenos indexicais, e esta descrevendo esses fenomenos sem pensar em um remedio, percebe-se que seus estudos consistem em um corpus sustentado, extenso e penetrante de observacoes de fenomenos indexicais.

Tomamos emprestados comentarios de logicos e linguistas para caracterizar as expressoes indexicais. Edmund Husserl (39) falou de expressoes (1) cujo sentido nao pode ser precisado pelo ouvinte sem que, necessariamente, este saiba, ou presuma algo, acerca da biografia e dos propositos do usuario da expressao, das circunstancias da elocucao, do curso previo do discurso ou da relacao especifica de interacao real ou potencial que existe entre usuario e ouvinte. (2) Bertrand Russell (40) apontou que descricoes que as envolvem aplicam-se somente a uma coisa em cada ocasiao de uso, mas a diferentes coisas em diferentes ocasioes. (3) Essas expressoes, disse ele, sao usadas para fazer afirmacoes inequivocas, cujo valor de verdade, nao obstante, parece mudar. (4) Nelson Goodman (41) escreveu que cada uma de suas "elocucoes" constitui uma palavra e refere-se a certa pessoa, momento ou lugar, porem da nome a algo nao nomeado por alguma replica da palavra. (5) Sua denotacao e relativa ao usuario. (6) Seu uso depende da relacao entre o usuario e o objeto ao qual a palavra diz respeito. (7) O tempo de uma "expressao indexical temporal" e relevante para o que ela nomeia. (8) De maneira semelhante, a regiao exata que uma "expressao indexical espacial" nomeia depende da localizacao de sua elocucao. (9) Expressoes indexicais e as proposicoes que as contem nao podem ser repetidas livremente em um dado discurso, uma vez que nem todas as suas replicas ai contidas sao tambem traducoes delas.

Logicos e linguistas, em suas tentativas explicitas de recuperar a conversa comum em suas particularidades estruturais, avaliam essas expressoes como transtornos obstinados (43). Os transtornos dos indexicais sao dramaticos onde quer que haja investigacoes direcionadas a fazer com que a conversa pratica atinja a formulacao e a capacidade de decisao entre alternativas de sentido, ou fato, ou o procedimento metodico, ou a concordancia entre "colegas culturais". As caracteristicas das expressoes indexicais tem motivado entre profissionais incontaveis estudos metodologicos direcionados ao seu remedio. De fato, o trabalho dos praticantes de uma ciencia, qualquer ciencia, para livra-la desses transtornos, porque, e, da forma como tal trabalho ocorre em todas as ciencias, confere a cada uma o seu carater distinto de preocupacao e produtividade quanto a questoes metodologicas. Qualquer que seja a ciencia, as situacoes reais de atividades investigativas praticas proporcionam aos pesquisadores inumeras oportunidades e motivos para tentar remediar expressoes indexicais. Assim, virtualmente sem excecoes, estudos metodologicos, leigos e profissionais, onde quer que ocorram, tem-se preocupado em remediar as expressoes indexicais, ao mesmo tempo em que insistem em manter como ojetivos de seus estudos uma diferenciacao programaticamente relevante entre expressoes indexicais e objetivas, e uma substituibilidade programaticamente relevante de expressoes indexicais por objetivas. Nesses estudos programaticos das propriedades formais de linguagens naturais e de raciocinio pratico, as propriedades dos indexicais, ao mesmo tempo em que fornecem aos investigadores ocasioes motivadoras de acoes de remediadoras, permanecem obsinadamente, inevitaveis e irremediaveis.

Tais preocupacoes "metodologicas" nao estao confinadas as ciencias. Encontra-se entre os participantes de conversa uma preocupacao generalizada com as falhas da linguagem natural. Eles atribuem falhas ao uso da linguagem feito por outros membros, de quem dizem ter vocabulario pobre. Tais preocupacoes sao acompanhadas por uma recomendacao generalizada de que termos, elocucoes e discurso sejam esclarecidos, e outras deficiencias, que consistem nas propriedades de expressoes indexicais, sejam remediadoras remetendo-se os termos ao "seu contexto" (ou seja, as recomendacoes familiares a respeito da "relevancia decisiva do contexto").

Mais exatamente, chamamos a atencao especial para uma pratica conversacional que tem franca intencao metodologica. E possivel encontrar participantes de conversa no decorrer de uma conversa, e como caracteristica reconhecida dessa conversa, formulando sua conversa. Nas secoes seguintes, discorrer-se extensamente sobre a formulacao feita na conversa.

Nomeando, identificando, definindo, descrevendo, explicando etc. uma conversa, ou seja, formulando uma conversa como caracteristica dessa conversa

Entre os participantes de conversa, e uma caracteristica imensamente comum das conversas que elas exibam para as partes suas proprias caracteristicas familiares de "dialogo autoexplicativo". Um membro pode tratar um ou outro trecho da conversa como oportunidade para descrever aquela conversa, explica-la, ou caracteriza-la, ou explana-la, ou traduzi-la, ou resumi-la, ou definir sua essencia, ou chamar atencao para sua obediencia as regras, ou comentar seu desrespeito as regras. Quer dizer, um membro pode usar algum trecho da conversa como oportunidade para formular a conversa, como nos seguintes dialogos.

A: Voce acha que o governo federal pode chegar e julgar aquele homem por assassinato?

B: Nao.

B: E problema estadual.

A: [Bom deixa eu te fazer uma pergunta.]

***

B: Voce nao criticaria de jeito nenhum.

A: Westmoreland (1a).

B: Os militares,--a--essa operacao recente.

A: E claro que eu criticaria.

B: [Bem certamente voce nao demonstra isso!]

***

JH: Nao e legal ter um monte de gente como voces aqui no escritorio?

SM: [Voce ta pedindo pra gente sair, nao mandando a gente sair, certo?]

***

HG: Preciso de exemplos de pessoas evadindo perguntas. Me faz o favor de evadir algumas perguntas pra mim?

NW: [Ah, meu caro, nao sou muito bom em evadir perguntas.]

***

(Com alegria cansada, um residente em psiquiatria fez uma pausa no meio de uma estoria que contava a um membro do corpo docente, seu supervisor, a respeito de sua descoberta dos textos de Harry Stack Sullivan.

Membro do corpo docente: [Ha quanto tempo voce esta se sentindo assim?]

Policial de Boston para um motorista: [Voce me perguntou onde fica a Sparks Streets, nao foi? Entao, acabei de te falar.]

Esses trechos ilustram o ponto que, junto com o que quer que possa estar acontecendo numa conversa, pode ser uma caracteristica da conversa para os participantes que eles estejam fazendo algo mais, a saber, o que estao fazendo e dizer-em-tantas-palavras-o-que-estamos-fazendo (ou do que estamos falando, ou quem esta falando, ou quem somos, ou onde estamos, etc.)

Chamaremos as praticas dos participantes de conversa de dizer-em-tantas-palavras-o-que-estamos-fazendo de fazer formulacao. No lugar de hifens, usaremos colchetes para designar que o trecho em questao e uma formulacao. Nas conversas anteriores, a formulacao que esta sendo feita por um dos participantes aparece entre colchetes.

Dois fenomenos sao de especial interesse para nos. (1) Observamos a respeito das praticas de formulacao que nao apenas elas sao feitas, mas sao tambem reconhecidas pelos participantes como caracteristicas constitutivas da conversa nas quais sao feitas. Falaremos disso dizendo que "uma formulacao esta sendo feita" e, para os participantes, algo "exibido na fala". (2) Observamos, alem disso, que a formulacao, como caracteristica testemunhada da conversa, esta disponivel para o relato ou observacao ou comentario dos participantes, e coisas do genero. Para termos uma maneira de falar disso, diremos que uma formulacao foi feita e "exibivelpara contar".

Cada um dos dialogos proporciona um exemplo do primeiro fenomeno. Um exemplo do segundo fenomeno encontra-se no fato de que relatamos essas conversas e chamamos atencao, com o uso dos colchetes, para o trabalho de formulacao que esta sendo feito em cada uma. Os colchetes sao usados para designar as seguintes caracteristicas da formulacao:

(1) Sobretudo, a formulacao e um fenomeno relat-avel. Quer dizer (a) e um fenomeno que os membros fazem acontecer; que os membros desempenham. (b) E observavel pelos membros. (c) Na medida em que os membros podem fazer o fenomeno e observa-lo, ele e reportavel. (d) O fenomeno e feito e reportavel pelos membros por meio de textos, tais como os que estao entre colchetes. E feito tambem por meio de roteiro, elocucoes ou graficos, ou seja, por meio de demonstracoes notacionais circunstancialmente especificas. (e) O texto entre colchetes e uma fase de um empreendimento interacional. E (f) o texto esta significando algo diferente do que o falante pode dizer em tantas palavras.

(2) Todas as caracteristicas anteriores sao realizacoes praticas sobre as exigencias da interacao real.

(3) A expressao, [], e precedida de "fazendo" para enfatizar que a conversa-relatavel-comouma-realizacao-pratica consiste apenas, e inteiramente, em seu proprio trabalho. A expressao "fazendo" tambem e usada para enfatizar que esse trabalho de conversa relatavel e um trabalho feito pelos membros. Quer dizer, esse trabalho tem vinculos essenciais com o dominio da linguagem natural.

Ate aqui, nossas ilustracoes tem sido escolhidas a partir do trabalho de leigos. Por entre colchetes, e seus efeitos, tambem sao relevantes para o trabalho dos cientistas sociais. Se pusermos entre colchetes praticas topicalizadas das ciencias sociais com as quais seus praticantes falam de tecnicas de coleta de dados, de desenhos de pesquisa, de adequacao descritiva, de regras de evidencia e coisas semelhantes, perguntamos, entao, qual e o trabalho para o qual esses topicos sao seus textos relataveis. Por exemplo, linguistas falam de "analisar uma sentenca com o uso de marcadores de sintagma". Pondo esse texto entre colchetes com marcadores de glosa [analisar uma sentenca com o uso de marcadores de sintagma], compreendemos que agora nos e dirigida a pergunta: qual e o trabalho para o qual "analisar uma sentenca com o uso de marcadores de sintagma" e o texto relatavel do trabalho? Os colchetes tem, no caso acima, a mesma relevancia que perguntarmos: qual e o trabalho para o qual [jogar um jogo de xadrez de acordo com as regras do xadrez] e o texto relatavel desse trabalho?

Se falamos do texto relatavel do trabalho como "glosa apropriada", podemos perguntar: qual e o trabalho para o qual [falar sem parar num coquetel] e a glosa apropriada? Qual e o trabalho para o qual [A distribuicao de tamanhos equilibrados de grupos formados livremente] e a glosa apropriada? A figura 1 mostra essas relacoes.

[FIGURE 1 OMITTED]

Um ultimo comentario sobre os colchetes: seu uso nos lembra que as praticas de glosa sao fases de empreendimentos interacionais. Empreendimentos de aparencia inteligivel e especifica de atividades cotidianas organizadas sao feitos inevitavel, unica, e exclusivamente por falantes competentes, que podem faze-los apenas e inteiramente atraves das particularidades de demonstracoes notacionais em linguagem natural. Empreendimentos de glosa sao realizacoes praticas. Eles sao fenomenos imensamente variados, porque diferem entre si, na forma como sao regidos por um mundo de "fato social", embora seja um mundo de fato social que e uma realizacao dos membros. Como realizacoes praticas, os empreendimentos de glosa sao tao imensamente variados quanto os arranjos organizacionais, pois os arranjos organizacionais sao realizacoes dessa natureza.

De acordo com a ocasiao, fazer formulacao podem ser as tarefas, os objetivos, as regras, os comportamentos obrigatorios, as realizacoes, os episodios passageiros ou as circunstancias permanentes dos membros. O trabalho nao esta restrito a circunstancias especiais. Ao contrario, ele ocorre rotineiramente, e em escala macica. Os membros sao particularmente conhecedores, sensiveis e habilidosos com esse trabalho; com os modos de faze-lo, asseguralo, remedia-lo e coisas semelhantes.

Fazendo conversa relatavelmente definida

Usamos a metafora das donas-de-casa e dos lugares para caracterizar a predominancia e a insistencia dos membros no trabalho de fazer formulacoes como solucoes das propriedades de expressoes indexicais. Mas, conforme notamos, na medida em que as formulacoes consistem em glosas, e na medida em que as propriedades que as formulacoes exibem como demonstracoes notacionais--propriedades usadas por falantes para realizar discurso racional--sao propriedades de expressoes indexicais, os proprios recursos da linguagem natural asseguram que fazer formulacao e, em si, para os membros, fonte rotineira de reclamacoes, falhas, problemas e solucoes recomendadas, essencialmente (v. p. 177-8).

Julgamos que o fenomeno critico consista nisto: com predominancia e insistencia onipresentes, os membros fazem formulacoes como solucoes para caracteristicas problematicas que as expressoes indexicais apresentam a suas tentativas de satisfazer os objetivos de, em ocasioes reais, distinguir entre expressoes indexicais e objetivas, e, em ocasioes reais, fornecer expressoes objetivas como substitutas das indexicais. Observamos que, entre os membros, formulacoes solucionadoras sao medidas fortemente defendidas para realizar assuntos apropriados, problemas apropriados, metodos apropriados, e resultados validados para o estudo de estruturas formais de fala pratica e raciocinio pratico. Observamos que a defesa dos membros de formulacoes solucionadoras e acompanhada de praticas com as quais os membros sao, de forma igualmente forte, conhecedores e habilidosos, praticas pelas quais os falantes garantem e recebem garantia de que as formulacoes nao sao a maquinaria atraves da qual a fala relatavelmente racional, clara e definida e feita. Tais praticas sao vistas nos seguintes fenomenos.

(1) Existem inumeras atividades conversacionais em execucao para as quais estao disponiveis inumeros nomes para nomea-las como fenomenos conversacionais; as pessoas sabem os nomes, conseguem mencionar os nomes, resumir atraves dos nomes, e assim por diante, e, todavia, no curso das atividades, os nomes nao sao muito usados. De fato, um fenomeno comum, porem pouco entendido, consiste em casos em que, ao fazer [dizer em tantas palavras o que se esta fazendo], a atividade e reconhecidamente incongruente, ou macante, ou fornece evidencia de incompetencia, ou motivacao oculta, e assim por diante.

(2) Existe uma enorme coerencia topica nas conversas cotidianas, e mesmo assim, a formulacao de topicos por parte dos participantes de conversa e algo muito especial: raramente ela e feita; em qualquer caso especifico ela nao e apenas provavelmente discutivel, mas e talvez insoluvelmente discutivel; e embora se tenha fala que seja topica, nomes topicos nao sao inseridos.

(3) Ocorre como uma realizacao comum em conversas cotidianas, e, para os participantes de conversa, fornece evidencia comum de competencia conversacional, que os participantes de conversa intitulem textos relevantes, procurem, lembrem-se de, reconhecam ou oferecam textos relevantes sem que esses textos sejam topicalizados, casos em que o sucesso da procura, lembranca, oferta, reconhecimento e tudo o maisdepende da vagueza de topico, objetivo, regra de busca, regra de relevancia e todo o resto, e casos em que o trabalho de armazenamento e recuperacao de textos relevantes incorpora essa vagueza como caracteristica essencial do seu desenho.

(4) Outro fenomeno foi descrito num estudo anterior (46). Pediu-se a estudantes que escrevessem sem serem notados o que ouviram os participantes de uma conversa cotidiana dizerem, e, depois, escrevessem ao lado o que as partes realmente estavam falando. O fenomeno e este: os estudantes, tendo recebido a tarefa de dizer em tantas palavras o que as partes estavam falando de fato, imediatamente viram que o trabalho de satisfazer a tarefa elaborava inevitavelmente suas proprias caracteristicas. De alguma forma, eles viram imediatamente que a propria tarefa que haviam recebido--"Diga-me, como se eu nao soubesse, do que os participantes estavam falando, literalmente"--era falha, nao no sentido de que o ouvinte nao saberia ou nao poderia ou nao desejaria compreender, ou que nao havia tempo, ou papel, ou disposicao, ou vocabulario, ou palavras em ingles para dize-lo, mas que

Eu havia solicitado que eles realizassem a tarefa impossivel de "reparar" a incompletude essencial de qualquer conjunto de instrucoes, nao importa o quao cuidadosas ou elaboradas elas pudessem ser. Eu havia solicitado a eles que formulassem o metodo que os participantes haviam usado ao falarem como regras de procedimento a serem seguidas para dizer o que os participantes disseram, regras que resistissem a qualquer exigencia de situacao, imaginacao e desenvolvimento ... [Essa era a tarefa] que requeria que escrevessem "mais", que eles acharam cada vez mais dificil e por fim impossivel, e que passou a ter suas caracteristicas elaboradas pelos proprios procedimentos para faze-la.

Julgamos que a importancia crucial desses fenomenos e que eles fornecem qualidades especificas para a observacao de que, para o membro, nao e no trabalho de fazer formulacoes sobre a conversa que o membro esta fazendo [o fato de que nossas atividades conversacionais sao relatavelmente racionais]. As duas atividades nao sao identicas nem intercambiaveis.

Notamos tambem que fazer formulacao e "ocasionado". Com isso, queremos dizer que os momentos, lugares e pessoas atraves dos quais a formulacao e feita--as especificacoes concretas, definidas, claras, determinadas de onde? quando? quem? o que? quantos?--inevitavelmente e sem solucao, sao feitas como fenomenos relataveis. Alem disso, nao apenas os membros podem usar regras especificas para estabelecer o carater ocasionado de uma formulacao, mas o insucesso no uso de regras especificas pode ser usado por um membro para descobrir o que a formulacao esta fazendo numa conversa, na qual o fato de formular nao significa para aqueles que a fazem que faze-la e definidor do seu trabalho, mas, ao inves disso, que faze-la pode ser considerado uma brincadeira, ou ser obstinado e coisas semelhantes.

Em resumo, fazer formulacao sobre a conversa em si exibe para participantes de conversa uma orientacao para [o fato de que nossas atividades conversacionais sao relatavelmente racionais]. Fazer formulacao nao e o meio definitivo pelo qual o fato e ele proprio feito ou estabelecido. A pergunta de o que esta fazendo quem faz a formulacao--que e uma pergunta dos membros--nao e resolvida pelos membros consultando o que a formulacao propoe, mas se engajando em praticas, que compoem o carater essencialmente contextualizado da acao de formulacao. Mesmo a mais breve consideracao de fazer formulacao em uma conversa nos leva--falante inocente ou cientista social--ao fenomeno em uma conversa de fazer [o fato de que nossas atividades conversacionais sao relatavelmente racionais].

O que estamos propondo, quando propomos que a pergunta o que esta fazendo quem faz a formulacao e resolvida pelos membros se engajando em praticas que compoem o carater essencialmente contextualizado da acao de formulacao? Que tipo de trabalho e aquele para o qual [o fato de que nossas atividades conversacionais sao relatavelmente racionais] e a glosa apropriada?

Estruturas formais do discurso relatavelmente racional: a "maquinaria"

Aprendemos a perguntar sobre o trabalho de participantes de conversa: de que tipo de "maquinaria" compoem-se as praticas de fazer [conversa relatavelmente racional]? Sera que existem praticas para fazer e reconhecer [o fato de que nossas atividades sao relatavelmente racionais] sem, por exemplo, fazer uma formulacao da situacao na qual as praticas estao "contextualizadas"? Qual o trabalho para o qual [o fato de que nossas atividades sao relatavelmente racionais] e um texto relatavel? Qual o trabalho para o qual [definicao, univocidade, desambiguacao e singularidade de particularidades conversacionais sao asseguradas pela competencia dos participantes de conversa com a fala em contexto] e uma glosa apropriada?

Fazemos essas perguntas, porque aprendemos com os fenomenos que sao problematicos para os participantes de conversa que "momentos", "lugares" ou "pessoas", por exemplo, com os quais eles dizem em tantas palavras quem, ou onde, ou quando, ou desde quando, ou quanto tempo desde que, ou quanto mais, ou com quem, ou o que, sao fenomenos contextualizados. Mais precisamente, sao fenomenos essencialmente contextualizados.

Por "fenomenos contextualizados" queremos dizer que existem praticas especificas, tais que: (1) elas compoem o que um membro esta fazendo quando ele faz e reconhece [o fato do momento, lugar, pessoa, etc. relevantes]; (2) elas sao feitas com ou sem formular qual agora, ou qual onde, ou com quem, ou desde quando, ou por quanto tempo mais, e coisas semelhantes; (3) elas compoem o trabalho dos membros para o qual [praticas de linguagem objetiva, consistente, cogente--ou seja, racionais] e uma glosa apropriada; e (4) elas atendem aos tres primeiros criterios satisfazendo as seguintes restricoes (as quais nos referimos com o adjetivo "essenciais"):

(1) Elas sao motivo de reclamacao por parte dos membros; sao falhas, sao inconvenientes, problemas, fundamentos apropriados para acao corretiva, ou seja, solucionadora.

(2) Elas nao tem solucao no sentido de que cada medida que e tomada para realizar uma solucao preserva especificamente as caracteristicas para as quais se procurou a solucao.

(3) Elas sao inevitaveis, sao inescapaveis; nao ha esconderijo para o seu uso; nao ha moratoria, nao ha pausa; nao ha alivio em lugar nenhum do mundo.

(4) Ideais programaticos caracterizaram seus funcionamentos.

(5) Os ideais estao disponiveis como "regras faladas simples" para fornecer relatos de descricao adequada para todos os fins praticos, ou explicacao adequada, identidade adequada, caracterizacao adequada, traducao adequada, essencia, analise, regra etc.

(6) E fornecido "nos estudos de logicos praticantes" cada "primo pobre" dos ideais, assim como expressoes indexicais sao primas pobres de expressoes objetivas; assim como o senso comum e primo pobre do conhecimento cientifico; assim como as praticas e conhecimentos de nativos sao primos pobres das praticas e conhecimentos profissionais dos afazeres, praticas e conhecimentos dos nativos; assim como os descritores de Calvin N. Mooer sao primos pobres dos conjuntos, categorias, classes ou colecoes na logica formal; ou, porque estruturas formais em linguagem natural sao primas pobres das estruturas formais em linguas inventadas. Por "primos pobres" entendemos "transtornos vergonhosos, porem necessarios", "versoes menores", "nao-fenomenos", "nenhuma razao para celebracao", "duplos feios" aos quais os membros recorrem para legitimar as reivindicacoes dos parentes que foram a faculdade e voltaram educados. Ideais nao sao monopolio das academias, tampouco seus primos pobres estao confinados as ruas. Sempre em companhia uns dos outros, estao disponiveis em grande variedade, pois sao tao comuns quanto a fala. Sendo banidos da existencia teorica atraves do contraste ironico que os membros fazem entre conhecimento de senso comum e conhecimento cientifico, eles sao tambem dificeis de se localizar e se relatar com o uso desse contraste.

(7) As seis caracteristicas de praticas especificas acima sao reconhecidas com unanimidade entre os membros. Os membros tambem sao unanimes no uso dessas caracteristicas para detectar, sentir, identificar, localizar, nomear--ou seja, formular--um ou outro sentido de acontecimentos praticos como "uma estrutura invariante de aparencias".

Praticas de fala, na medida em que satisfazem tais restricoes, estao inescapavelmente ligadas as especificidades da fala, e, portanto, as praticas de fala sao, inescapavelmente, exibidas e testemunhadas como particularidades ordenadas de fala. Praticas de fala, na medida em que satisfazem a tais restricoes, exibem as caracteristicas de "independencia de grupo de producao" ou "invariante a imigracoes e emigracoes de pessoal do sistema" ou "invariante a transformacoes de contexto" ou "universais". Elas exibem caracteristicas de invariancia, conferindo aos metodos dos membros seu carater relatavel de metodos usados inevitavelmente com os quais particularidades sao recuperadas, produzidas, identificadas e reconhecidas como particularidades conectadas; como particularidades em relacoes de acarretamento, relevancia, inferencia, alusao, referencia, evidencia; quer dizer, como colecoes de particularidades, ou classes, ou conjuntos, ou familias, ou grupos, ou multidoes.

Os membros fazem uso delas para detectar varias maneiras de fazer [invariancia] em suas praticas. Porque os membros o fazem assim, faremos uso delas da mesma maneira; a saber, como restricoes que as praticas de fala devem satisfazer, se contarmos essas praticas como recursos dos membros para fazer e reconhecer [adequacao racional para fins praticos de linguagem natural]. Elas proporcionam caracteristicas das praticas com as quais os membros realizam e reconhecem o discurso racional em suas particularidades indexicais, ou seja, "fala pratica".

Quais sao essas praticas? (47)

Aprenderemos algumas delas se pedirmos uma lista de expressoes indexicais, o quao extensa ela pode ser. Para responder a essa pergunta, precisamos de um procedimento que nos consiga uma lista de termos indexicais. Tal procedimento esta facilmente disponivel, pois notamos que qualquer "uma" das propriedades de expressoes indexicais citadas nas. 169-70, e qualquer combinacao delas, pode ser lida como prescricao para encontrar os termos em uma ocasiao real de discurso, uma elocucao real, ou um texto real.

Quando isso e feito, observamos o seguinte.

Podem-se procurar termos indexicais em qualquer ocasiao real, e qualquer ocasiao real fornecera termos indexicais. Qualquer que seja o numero de termos em um texto real, esse texto fornecera membros (48). Uma ocasiao real sem nenhum texto fornecera membros. Qualquer membro da lista de termos indexicais pode ser usado como prescricao para a localizacao de replicas. A listagem de qualquer replica de um membro da lista e um procedimento adequado para a localizacao de outro membro. Qualquer procedimento para encontrar-se um membro e adequado para encontrar-se todos os termos de uma linguagem da qual eles sao membros, o que inclui "todos"--o que quer dizer que, ao encontrarmos todos os termos de uma linguagem da qual sao membros, estamos explorando e usando o uso de "todos" feito pelos membros. "Uma", "qualquer uma" e "todas" as listas de termos indexicais exibem as mesmas propriedades que os membros especificos de "uma", "qualquer" e "todas as" listas. Qualquer texto, sem excecao, que for examinado com o uso de qualquer ou quaisquer propriedades de uma lista de propriedades de termos indexicais fornecera membros a lista. Qualquer lista de termos indexicais pode ser estendida indefinidamente, assim como o pode qualquer lista de propriedades de termos indexicais. Cada procedimento para encontrar e acrescentar mais membros a lista de propriedades exibe as mesmas propriedades que os membros por ela encontrados. Cada lista de propriedades de expressoes indexicais pode ser estendida indefinidamente. Tudo o que e valido acima para "termos" e igualmente valido para "expressoes" e "elocucoes". Finalmente, as propriedades anteriores permanecem invariantes a operacoes tais como procurar por, reconhecer, colecionar, contar, formar frases com, traduzir, identificar, ou executar provas de consistencia, ou computacoes sobre membros da lista.

Consequencias

Vimos o que e como os membros fazem [o fato de que nossas atividades sao relatavelmente racionais]. Vimos que o trabalho e feito sem a necessidade de se fazer formulacoes; que os termos que tem de ser esclarecidos nao devem ser trocados por formulacoes que nao fariam o que eles fazem; que eles sao organizaveis como uma "maquinaria" para fazer [atividades relatavelmente racionais]; e que o fenomeno abstrato da [racionalidade relatavel] esta disponivel para os nativos, para os etnometodologos, e para os cientistas sociais, ja que a "maquinaria", por ser "maquinaria" dos membros, na maneira em que e especificamente usada para fazer [atividades relatavelmente racionais] e, portanto, parte do fenomeno como seu aparato de producao e reconhecimento. Demos a esse trabalho certa estrutura. Tentamos exibir sua obviedade, seu enorme interesse e pervasividade para os membros.

(1) Parece nao haver no mundo espaco suficiente para a proposicao definitiva de formulacoes de atividades, identificacoes e contextos. As pessoas nao podem estar nao-consequencialmente, nao-metodicamente, nao-alternativamente, etc. envolvidas em fazer [dizer em tantas palavras o que estamos fazendo]. Elas nao podem estar empenhadas em nao-consequencialmente, nao-metodicamente, nao-alternativamente dizer, digamos, "Isso afinal e uma sessao de terapia de grupo" ou "Com respeito aos papeis gerenciais, o tamanho e complexidade das organizacoes esta crescendo, logo os requisitos necessarios para gerencialas com sucesso, tambem".

Que nao haja no mundo lugar para formulacoes como solucoes serias para o problema da ordem social tem a ver com a recomendacao predominante nas ciencias sociais de que as formulacoes podem ser feitas com fins praticos para realizar descricao empirica, para realizar justificacao e teste de hipoteses e todo o resto. Formulacoes sao indicadas, portanto, como recursos com os quais as ciencias sociais podem realizar rigorosas analises de acoes praticas que sao adequadas a todos os fins praticos.

Nos nao estamos dizendo que seja um problema especifico no mundo que nao se possa descobrir o que alguem quer dizer--o que qualquer pessoa quer dizer com qualquer coisa nova dita, ou com qualquer ultima coisa dita--empregando-se o procedimento de requisitar uma formulacao para cada trecho de fala. Mas, estamos, sim, dizendo que, na medida em que as formulacoes sao indicadas como sendo definidoras de "fala significativa", ha algo de errado, porque "fala significativa" nao pode ter esse sentido. O que equivale, ou a dizer que a fala nao e significativa, a menos que construamos uma linguagem que esteja sujeita a tais procedimentos, ou que isso nao poderia ser o que e "fala significativa", e nem "acoes significativas". Estamos dizendo, sim, que nao devemos supor que para que as pessoas, no decorrer de suas conversas e outras cotidianas cotidianas, ajam de forma ordenada, um conjunto de coisas que tem de estar envolvido e que elas sejam sempre capazes de, digamos, formular suas relacoes de funcao e sistematicamente invocar as consequencias dessas relacoes. Porque se for o caso de nao haver no mundo lugar para isso, entao, para nao mais que todos os fins praticos, ou a atividade ordenada e impossivel, ou essa exigencia de atividade ordenada e, em qualquer caso real relevante, irrelevante, cogente, absurda, errada, certa, etc., essa exigencia formulavel em qualquer caso real como qualquer desses ou de outros, separadamente ou combinados,.

(2) Percebemos, inicialmente, a nocao de que a formulacao poderia poupar dificuldades com os indexicais. (49) Vimos que a formulacao nao poderia fazer isso e, alem disso, que os indexicais nao precisariam ser poupados de dificuldades. Vimos que as caracteristicas que supostamente deveriam ser solucionadas sao onipresentes. Deve-se, entao, ter em mente o fato de que nenhum dos termos precisa ser poupado.

(3) A conquista da sociologia profissional e ter formulado a relatabilidade racional de estruturas sociais de atividades praticas como preceitos da analise construtiva. Como anteriormente observado, as estruturas sociais de atividades cotidianas sao entendidas pelas formulacoes da analise construtiva como consistindo em propriedades, tais como uniformidade, padronizacao social, repeticao, reprodutibilidade, tipicalidade, categorizabilidade, relatabilidade da conduta ordinaria, da fala, das distribuicoes territoriais, das crencas a respeito de uma coisa ou outra que sao invariantes a mudancas de grupos de producao. A tecnologia pratica da teorizacao da analise construtiva esta disponivel, em seu auge, na obra de Talcott Parsons, Paul Lazarsfeld, e nas tecnicas de analise aleatoria de sistemas. Observamos que seus praticantes insistem que as praticas da analise construtiva sao realizacoes dos membros. Aprendemos com os praticantes que e como a aplicacao adequada de seus preceitos a demonstracoes de estruturas formais, em ocasioes reais, exige competencia dos membros. Observamos, tambem, que particularidades dos procedimentos e dos resultados da analise construtiva fornecem aos membros claras amostras de "situacoes" vagamente conhecidas (50). Em cada ocasiao real de uso, particularidades dos procedimentos e particularidades dos resultados fornecem aos membros a combinacao de vagueza inevitavel e insoluvel com relevancia igualmente inevitavel e insoluvel. A partir dos praticantes nos entendemos que a combinacao de vagueza e relevancia essenciais esta disponivel apenas para membros, para a producao, avaliacao e reconhecimento dos membros. Em suma, aprendemos com os praticantes da analise construtiva que nossas descobertas a respeito da formulacao podem ser estendidas a analise construtiva.

A formulacao nao se estende a analise construtiva como sua glosa, tampouco ela esta formulando uma generalizacao da experiencia de analise. Muito menos ainda, esta formulando uma generalizacao das praticas de sociologos profissionais. Ela pode ser estendida na medida em que fazer [analise construtiva] e o que os membros fazem; como, por exemplo, [dizer especificamente em tantas palavras o que estamos fazendo], ou [dizer o que se quer dizer e querer dizer o que se diz em poucas e bem-escolhidas palavras], ou [retirar dos titulos de celulas os transtornos das expressoes indexicais], ou [mapear o sistema de numeros reais em colecoes de expressoes indexicais], ou [abstrair paradigmas metodologicos a partir do trabalho da PSE (2a)], ou [pensar sequencialmente]. Porque fazer [analise construtiva] e o que os membros fazem, o que observamos sobre a formulacao tambem e observado nas praticas de sociologos profissionais fazendo [analise construtiva]. Nesse trabalho, vemos membros tomando cuidado para construir descricoes livres de contexto, instrucoes relevantes, anedotas perspicazes, proverbios cogentes, definicoes precisas de atividades cotidianas, e formalizacoes de praticas de linguagem natural livres de contexto e usando a competencia do membro como pratica de linguagem natural para assegurar que sejam feitas e reconhecidas [evidencias adequadas], [descricao objetiva], [procedimento definido], [instrucoes claras, consistentes, cogentes e relevantes], [conversas computaveis] e todo o resto. Nesse trabalho, vemos a insistencia de sociologos profissionais na competencia dos membros para assegurar essas explicacoes como realizacoes concertadas.

A maquinaria das realizacoes de glosa dos profissionais e descrita apenas em linhas gerais pelas praticas descritas nas p. 174-9 como maquinaria dos membros para fazer [fala racional para fins praticos]. Como essas explicacoes sao feitas nao foi elucidado para alem de comentarios etnograficos fornecidos por praticantes de sociologia, leigos e profissionais. O que varios tipos de empreendimentos, [formulacoes sociologicas objetivas], [instrucoes definidas] e tudo o maissao como realizacoes conversacionais nao e sabido.

(4) A partir de uma inspecao do trabalho da analise construtiva, aprendemos que a relatabilidade racional de atividades cotidianas como realizacoes praticas e relatada pelos membros como consistindo nas praticas da analise construtiva. A partir desse trabalho, aprendemos tambem que tais relatos sao eles proprios caracteristicas legitimadas dessa realizacao pratica. A partir de suas praticas, aprendemos que estruturas formais das praticas da analise construtiva, que, no sentido descrito nas p. 176-179, sao estruturas formais das praticas de linguagem natural dos membros, nao estao disponiveis para os metodos da analise construtiva. Nao estamos propondo um argumento de "impossibilidade", no sentido de uma prova logica, tampouco estamos oferecendo um relato em principio da analise construtiva. Tampouco estamos indicando "uma atitude em relacao a", "uma posicao sobre" ou "uma abordagem para" a analise construtiva. Tampouco estamos dizendo que estruturas formais nao estao disponiveis para a analise construtiva devido a "incapacidade treinada", "preferencias habituais", "interesses pessoais" e coisas semelhantes. Enfatizamos, sobretudo, que nao estamos oferecendo conselho, elogio, ou critica.

Ao inves disso, estamos observando essa indisponibilidade como um fenomeno. A respeito dessa indisponibilidade, observamos que ela e invariante as praticas da analise construtiva. Isso nao quer dizer que o fenomeno de alguma forma "desafie" os esforcos da analise construtiva. A indisponibilidade das estruturas formais e assegurada pelas praticas da analise construtiva, pois ela consiste nas suas praticas. A indisponibilidade de estruturas formais e caracteristica invariante de cada ocasiao real de analise construtiva, sem excecao, sem pausa, sem alivio ou solucao, sem deixar de fora nenhuma ocasiao real, nao importa o quao transitoria ou duradoura, a indisponibilidade sendo reportavel, assegurada, feita e reconhecida, nao apenas com unanimidade, mas com necessaria unanimidade por quem quer que faca sociologia--ou, de maneira equivalente, por quem quer que saiba falar.

O fato de que estruturas formais das praticas de linguagem natural dos membros nao estejam disponiveis para os metodos da analise construtiva estabelece o estudo do raciocinio sociologico pratico. Estudos etnometodologicos tem usado essa indisponibilidade para localizar um ou outro "pedaco" da analise construtiva e examinar como sua realizacao e, para os membros, um fenomeno relatavel. A disponibilidade desses estudos estabelece a existencia, de fato, de uma alternativa aos prospectos e perspectivas desta conferencia, pois, embora as estruturas formais da analise construtiva nao estejam disponiveis para a analise construtiva, elas nao estao de outra forma indisponiveis; elas estao disponiveis para a etnometodologia. Que isso seja assim e menos interessante do que a pergunta se elas estao disponiveis unicamente para a etnometodologia.

Apendice

Notas sobre glosa

Seguem-se exemplos de diferentes metodos para fazer compreensao observavel-relatavel, ou seja, compreensao relat-avel. Eles foram escolhidos a partir de uma colecao de relatos de ocasioes cotidianas em que pessoas que, da mesma maneira que reconhecem ou entendem que todas sabem falar, estao envolvidas em querer dizer concertadamente algo diferente do que podem dizer em tantas palavras.

Os exemplos destinam-se a especificar "praticas de glosa" como um topico. A definicao precedente e usada como regra fraca para servir aos nossos interesses de expandir e organizar a colecao: de busca, deteccao, exclusao, intitulacao, e assim por diante. Deve-se le-la como regra fraca por enquanto? Ocorreu-nos, naturalmente, que uma definicao mais exata e uma meta da coleta dos exemplos. Esse objetivo e familiar aqueles que querem que seus estudos de linguagem natural sejam tomados com seriedade. Naturalmente, nos tambem consideramos esse objeto, mas, no que concerne as glosas, nao as consideramos com demasiada seriedade, porque aprendemos que, ao se estudarem explicacoes, e a partir do que aprendemos sobre praticas de glosa, esse objetivo nao e interessante. E interessante, ao inves disso, que o objetivo nao possa ser alcancado. Veremos isso a partir de alguns dos exemplos. Alem disso, que uma definicao fraca seja usada para formular como meta uma definicao forte a que se busca chegar por meio do uso de uma definicao fraca, e para a realizacao da qual a definicao fraca e um recurso, e outra esperanca que nao pode ser satisfeita. Ou melhor, e uma esperanca que e satisfeita dessa maneira: adquire-se uma habilidade, que conta como dominio reconhecido da linguagem natural. E isso, tambem, e interessante. Outras caracteristicas sao fornecidas pelas maneiras especificas e definidas com que essa meta nao pode ser satisfeita, e parecem resumir-se nisto: a definibilidade de praticas de glosa esta disponivel para o estudo sem que faca qualquer diferenca que estejam faltando definicoes, ou que estas sejam fracas, frouxas, etc. Descobrimos que essa e uma caracteristica "logica" que se repete. Ela nos fascina, e estamos a sua procura onde quer que possamos.

Talvez praticas de glosa possam ser especificas a pessoas. Nao estamos certos. Em todo caso, os exemplos foram escolhidos para ilustrar diferentes modos em que sua producao e organizada como realizacao pratica concertada. Por exemplo, a glosa de Richard consiste em um metodo pelo qual textos a-serem-compreendidos sao miniaturizados em maneiras desconhecidas de se chegar a um sentido definido, onde nenhum relato de um modo para chegar a qualquer sentido definido a que o processo chegue e solicitado por aqueles que o estao fazendo, ou precisa por eles ser fornecido. Duas variacoes dessa caracteristica tematica sao fornecidas no caso das "miniaturas" e naqueles em que definicoes sao usadas em uma primeira aproximacao a outras mais fortes.

Miniaturas. E possivel comprar um motor de plastico numa loja de modelismo, que dira algo a respeito do funcionamento de motores de automovel. O motor de brinquedo preserva certas propriedades do motor de automovel. Por exemplo, mostrara como os pistoes se movem com relacao ao virabrequim: mostrara por meio de luzes que piscam qual e a sequencia de ignicao dos pistoes, e assim por diante. Como veremos, tambem e interessante e relevante que, para fazer os pistoes funcionarem, o usuario precisa girar a manivela do motor com o dedo.

Chamemos esse motor de brinquedo de relato de um estado de coisas observavel. Fazemos as seguintes observacoes sobre as caracteristicas desse relato. Primeiramente, assim como ele fornece uma representacao precisa das caracteristicas da situacao real, e assim como ele fornece uma representacao precisa de algumas relacoes e algumas caracteristicas da situacao observavel, ele tambem fornece especificamente e deliberadamente uma ideia falsa de algumas das caracteristicas essenciais dessa situacao. Em segundo lugar, ao prover as caracteristicas de forma deliberadamente falsa, ele estabelece que essas provisoes deliberadamente falsas devem estar presentes, se se pretende que o relato seja tratado como relato daquela situacao. Em terceiro lugar, em virtude dessa falsa provisao, o relato e considerado pelo usuario como "parecido", que "lembra" a situacao para a qual ele quer usalo para representar. Em quarto lugar, o conhecimento das formas em que o relato--por exemplo, o motor de brinquedo--prove caracteristicas de forma falsa e, para o usuario, uma forma de controle, para permitir que ele seja usado como relato da situacao real. Em quinto lugar, a miniatura, por exemplo, o motor de brinquedo, na totalidade de suas caracteristicas reais especificas, quaisquer que sejam, e para quaisquer usos que sejam feitos dela, e entendida inteiramente pelo usuario como tendo o status de guia para acoes praticas na situacao real, seja no que for que ela possa consistir como ocasiao real, quando o usuario deve lidar com o motor real. Em sexto lugar, esse uso pretendido diz respeito, exclusivamente, a escolha do usuario ao decidir para si a adequacao da miniatura e o uso correto da miniatura. Por fim, seu uso e acompanhado pela disposicao do usuario, em qualquer ocasiao em que possa encontrar uma caracteristica da situacao real sobre a qual a miniatura prove caracteristicas de forma falsa, de conferir total legitimidade a situacao real, e de ratificar a miniatura sem ter, necessariamente, o impulso de corrigi-la.

Uma definicao usada em uma primeira aproximacao lembra a glosa de Richard e as miniaturas no sentido de que fornece ainda uma outra forma de realizar definibilidade reconhecida da fala sem nunca especificar como e feita essa definibilidade.

Definicoes usadas em uma primeira aproximacao ocorrem em artigos nos quais um autor a principio pode fornecer uma definicao acompanhada pelo pedido de que sua frouxidao seja perdoada ate aquele momento; de que por quaisquer motivos ele nao a definira mais precisamente ali, mas, se o leitor permitir-lhe o carater provisorio, ele prosseguira com seus argumentos e, em um segundo momento, fornecera uma segunda definicao, que podera, entao, ser substituida.

O seguinte exemplo de uma definicao desse tipo acrescenta outra caracteristica. Foi escolhido, porque fornece uma amostra que o leitor pode usar para ver por si proprio um caso em que a definibilidade da fala e alcancada, embora como a definicao da fala e feita seja essencialmente nao-especificavel.

Consideremos a seguinte definicao como primeira aproximacao de "glosa".

Desejo falar sobre pessoas que sabem conversar--falantes de uma lingua--envolvidos em inumeras praticas de querer dizer algo diferente do que podem dizer em tantas palavras no decorrer de ocasioes reais de interacao. Desejo reunir suas praticas sob o termo "glosa". Desejo usar essa definicao por enquanto como regra para localizar ocasioes reais relevantes, nas quais amostras possam ser procuradas, e por meio das quais amostras possam ser comparadas, descritas, agrupadas, nomeadas, legendadas, e assim por diante. Uma definicao mais precisa sera tratada como objetivo de nossas investigacoes. Na medida em que, no decorrer de nossas coletas, formos aprendendo mais sobre aquilo a que me refiro com o termo "glosa", e na medida em que formos capazes de dar a causa de nossa preocupacao maior definibilidade, reescreveremos a definicao de maneira a formular a partir das amostras, e a partir das reflexoes por elas motivadas, suas caracteristicas essenciais e as conexoes essenciais entre essas caracteristicas.

Notamos que, com qualquer ocasiao real candidata ao exame, a definicao e usada em um grau de auto-encaixamento indefinidamente especificado. Nem por isso seu sentido e bloqueado ou reprimido por qualquer antinomia; nem nos confunde a "profundidade" de sua recursividade.

Citacoes antropologicas. Um antropologo retorna do campo com seus cadernos de campo para a companhia de seus colegas de profissao.

Tendo passado uma temporada no campo, ele tem a tarefa de transformar seus textos em um relatorio profissionalmente aceitavel. Em seus seminarios, Manning Nash (51), por exemplo, lembra a pos-graduandos as caracteristicas complementares da critica e do trabalho de campo: Um dia, cada qual tera o seu momento de retornar de uma sociedade estranha e tera de relatar suas descobertas em sentencas declarativas coerentes. O antropologo tera que escrever em detalhe o que aprendeu com os nativos, para quem e provavel que tenha sido um estranho, no sentido crucial de que, por meses, talvez durante toda sua estada, a lingua deles provavelmente nao estava sob seu controle. Ele nao precisa dar um relato de como colheu suas notas de campo. Raramente os antropologos relacionam suas notas e como foram colhidas, expandidas, analisadas, revisadas, e as outras maneiras como foram usadas, as circunstancias de campo, como caracteristicas constitutivas dessas circunstancias. E ainda menor a frequencia com que relatam como transformaram as notas em um relatorio que se pretende que seja lido por co-profissionais. Nao obstante, "a forma como isso e feito" e tratada por todos--escritor e colegas--como relataveis contingencialmente nas ocasioes em que a "escrita" e feita e nas ocasioes em que o relatorio e lido e discutido. E com respeito a tais circunstancias de trabalho profissional que o uso de citacoes antropologicas e uma pratica interessante e relevante de glosa.

O procedimento de relato em citacoes antropologicas e o seguinte. O antropologo passa a reescrever os textos em forma de relatorio usando um procedimento que chama de "escrever". Uma tarefa predominante desempenhada pelo "escrever" e propor um relato do que seus nativos, na lingua que eles falavam, serao tratados como tendo estado de fato, e nao supostamente, falando, dado que o antropologo nao pode e nao deseja dizer finalmente e em tantas palavras do que estavam realmente falando. Dessa forma, ele relata aos colegas que eles falaram de tal maneira, definidamente. Entao, por exemplo, ele cita os nativos em seus termos nativos e trata esses termos atraves do mecanismo de um "glossario". Quer dizer, ele indica a colegas que ele querera dizer, atraves das suas traducoes dos termos dos nativos, o que os nativos estavam de fato falando, que ele tratara os nativos e suas praticas como autoridade final, embora, no que elas possam consistir para alem daquilo que ele escreveu, ele nao pode dizer e diz. O escritor quer dizer o que o nativo quer dizer de fato, dado que o escritor escolhe ser cuidadoso ao especificar em tantas palavras "o que o nativo quer dizer de fato". Esse "o que o nativo quer dizer de fato", que e incorporado ao relatorio como parafrase do profissional a respeito dos relatos dos informantes nativos, e glosado para o relatorio conforme ele esta disponivel em uma ocasiao real atraves do trabalho de metodos profissionalmente nao-especificados de autoria e leitura.

Ate onde sabem os profissionais, praticas de glosa antropologica proporcionam aos antropologos praticas e circunstancias que os diferenciam de outros profissionais. A associacao profissional consiste na disponibilidade de leitores competentes e de circunstancias inexplicadas sobre as quais esse tipo de escrita e glosado. Atraves de filiacao a uma associacao, a definibilidade de sentido e a facticidade do relatorio sao intimamente vinculadas ao contexto conversacional, aos mecanismos de conversa, a "maquinaria" conversa-cional, nos quais, e por meio dos quais aquilo que e de fato e nao supostamente relatado tera sido "visto para se dizer" ter sido escrito em tantas palavras.

Ratificar um evento no qual voce nao apostou ilustra uma pratica atraves da qual se descobre uma definibilidade dentro de um ordenamento conversacional, sendo que o ponto de interesse e que a definibilidade e descoberta pela exploracao das diferencas entre a ordenacao temporal na producao do evento e a ordenacao temporal relatavel do evento produzido. A pratica e a seguinte: voce esta conversando com outra pessoa: a pessoa ri. Voce se surpreende por um momento, pois nao era sua intencao dizer algo engracado. Ao ouvir a outra pessoa rindo, voce sorri para atribuir ao riso da outra pessoa a caracteristica de que o riso dela detectou sua espirituosidade, mas esconde o fato de que a outra pessoa, ao rir, lhe deu a oportunidade de "reivindicar um credito" que voce nao buscava.

A Glosa de Rose. O professor Edward Rose, colega da Universidade de Colorado, relata uma pratica que faz uso deliberado da propriedade de que a definibilidade de particularidades circunstanciais consiste nas suas consequencias. Ele usa essa propriedade da seguinte forma, para descobrir definidamente o que ele estava fazendo.

Ao visitar uma cidade em que nunca esteve, Rose e recebido no aeroporto por seu anfitriao. Estao indo para casa de carro, quando Rose [olha] pela janela--quer dizer, Rose, depois de fazer [olhar para frente] faz entao [observar algo que passa] virando a cabeca de acordo com o movimento do veiculo. O problema de Rose e conseguir que seu interlocutor lhe forneca aquilo que ele estava observando. Fazer as particularidades notaveis de [olhar para frente] e [observar algo que passa] e seu arranjo sequencial sao o cerne da questao e constituem a engenhosidade de Rose. Continuando a fazer [olhar pela janela], Rose comenta: "isso realmente mudou". Seu anfitriao pode dizer algo como: "so foram reconstruir o quarteirao dez anos depois do incendio". Rose, ao dizer "Isso realmente mudou" descobre na resposta, e fazendo uso da resposta, o que ele, Rose, estava falando a principio. A partir dai, ele continua a formular a questao concertada e razoavel que as duas partes estao fazendo acontecer como as qualidades especificas reconheciveis, reais, ouvidas claramente no decorrer de uma conversa: "nao diga. Quanto custou?", etc..

Data de envio: 19/06/2012

Data de aprovacao: 17/12/2012

Data de publicacao: 06/02/2013

Notas

0 trabalho para este artigo foi patrocinado em parte pelo Escritorio de Pesquisa Cientifica da Forca Aerea, subsidio AF-AFOSR-757-67. Uma versao deste artigo, "On "Setting" in Conversation", foi lida nos encontros anuais da Associacao Sociologica Americana em San Francisco, 31 de agosto de 1967, na sessao de Sociolinguistica, presidida pelo Dr. Joshua Fishman. Hubert L. Dreyfus, Elliot G. Mishler, Melvin Pollner, Emanual Schegloff, Edward A. Tiryakian, Lawrence Wicder, e Don H. Zimmerman fizeram comentarios sobre o artigo. Agradecemos em particular a David Sudnow e Joan Sacks por sua generosidade com as tarefas editoriais. Muitas das reflexoes do artigo foram motivadas por um excepcional Trabalho de Conclusao de Curso, "Gloss Achievements of Enterprises", de Nancy McArthur.

(1) As propriedades de expressoes indexicais sao longamente discutidas nas p. 169-70.

(2) Emile Durkheim, The Rules of Sociological Method, Chicago, University of Chicago Press, 1938.

(3) Esta propriedade e elucidada em Don H. Zimmerman e Melvin Pollner, "Making sense of making sense: explorations of members' methods for sustaining a sense of social order", manuscrito nao publicado.

(4) Olaf Helmer and Nicholas Rescher, The Epistemology of the Inexact Sciences, Santa Monica, RAND Corporation, October 13 1958.

(5) Com "tarefa infinita" queremos dizer que a diferenca e substituibilidade motiva investigacoes cujos resultados sao reconhecidos por membros como campo para novas inferencias e investigacoes. E com respeito a diferenca e substituibilidade como metas de investigacao que os membros entendem "tarefa infinita" como referencia ao carater "aberto" do fato sociologico, ao corpo "auto-limpante" do conhecimento cientifico social, ao "estado presente de um problema", a resultados cumulativos, a "progresso" e todo o resto.

(6) Hubert M. Blalock, Jr., 'The Formalization of Sociological Theory' in Theoretical Sociology, Perspectives and Developments, editado por John C. McKinney e Edward A. Tiryakian, Appleton Century Crofts, New York, 1970.

(7) Jack Douglas, 'The general theoretical implications of the sociology of deviance,' in John C. McKinney e Edward A. Tiryakian (Eds.), op. cit.

(8) Alex Inkeles, 'Sociological theory in relation to social psychological variables,' in John C. McKinney e Edward A. Tiryakian (Eds.), op. cit.

(9) Paul Lazarsfeld, 'The place of empirical social research in the map of contemporary sociology,' in John C. McKinney e Edward A. Tiryakian (Eds.), op. cit.

(10) Marion J. Levy, Jr., 'Theory of comparative analysis,' in John C. McKinney e Edward A. Tiryakian (Eds.), op. cit.

(11) Wilbert E. Moore, 'Toward a system of sequences', in John C. McKinney e Edward A. Tiryakian (Eds.), op. cit.

(12) Talcott Parsons, 'General sociological theory,' in John C. McKinney e Edward A. Tiryakian (Eds.), op. cit.

(13) Joseph Spengler, 'Articulation of economic and sociological theory,' in John C. McKinney e Edward A. Tiryakian (Eds.), op. cit.

(14) Egon Bittner, 'Police discretion in emergency apprehension of mentally ill persons,' Social Problems, vol. 14, Winter 1967, p. 278-92; 'The police on skid-row: a study of peace keeping,' American Sociological Review, vol. 32, October 1967, p. 699-715.

(15) Lindsey Churchill, 'Types of formalization in small-group research,' Review Article, Sociometry, vol. 26, September 1963; 'The economic theory of choice as a method of theorizing,' artigo apresentado nos encontros da Associacao Sociologica Americana, 31 de agosto de 1964; 'Notes on everyday quantitative practices,' in Harold Garfinkel e Harvey Sacks, eds. Contributions to Ethnomethodology, Indiana University Press (em arquivo).

(16) Aaron Cicourel, Method and Measurement in Sociology, Glencoe, The Free Press, 1964; The Social Organization of Juvenile Justice, New York, John Wiley and Sons, 1968.

(17) Harold Garfinkel, Studies in Ethnomethodology, Englewood Cliffs, Prentice-Hall, Inc., 1967.

(18) Craig MacAndrew, 'The role of "knowledge at hand" in the practical management of institutionalized idiots,' in Harold Garfinkel e Harvey Sacks, eds., Contributions to Ethnomethodology, Indiana University Press, (em arquivo); com Robert Edgerton, Time Out: A Social Theory of Drunken Comportment, Aldine Publishing Co. (no prelo, 1968. Esclarecimento dos editores: o livro em questao foi publicado com o titulo "Drunken Comportment: A Social Explanation'", Chicago, Aldine Publishing Co., 1969).

(19) Michael Moerman, 'Ethnic identification in a complex civilization: who are the Luc?,' American Anthropologist, vol. 65, 1965, p. 1215-30; 'Kinship and commerce in a Thai-Lue village,' Ethnology, vol. 5, 1966, p. 360-4; 'Reply to Naroll,' American Anthropologist, vol. 69, 1967, p. 512-13; 'Being Lue: uses and abuses of ethnic identification,' American Ethnological Society, Proceedings of the 1967 Spring Meeting, p. 153-69, Seattle, University of Washington Press, 1968.

(20) Don H. Zimmerman e Melvin Pollner, op. cit.

(21) Edward Rose, 'Small languages,' in Harold Garfinkel e Harvey Sacks, eds., Contributions to Ethnomethodology, manuscrito nao publicado; A Looking Glass Conversation in the Rare Languages of Sez and Pique, Programa em Processos Cognitivos, Relatorio no. 102, Boulder, Instituto de Ciencia Comportamental, Universidade do Colorado, 1967; Small Languages: The Making of Sez, Parte 1, Escritorio de Pesquisa Sociologica, Relatorio no. 16, Parte 1, Boulder, Instituto de Ciencia Comportamental, Universidade do Colorado, June, 1966.

(22) Harvey Sacks, Social Aspects of Language: The Organization of Sequencing in Conversation, manuscrito nao publicado.

(23) Emanuel Schegloff, 'Sequencing in conversational openings,'American Anthropologist volume 70, p. 1075-95, 1968. 'The First Five Seconds,' Ph.D. dissertation, Department of Sociology and Social Institutions, University of California, Berkeley, 1967.

(24) David Sudnow, Passing On: The Social Organization of Dying, Englewood Cliffs, Prentice-Hall, Inc., 1967; 'Normal crimes: sociological features of a penal code in a public defender's office,' Social Problems, Winter 1965, p. 255-76.

(25) D. Lawrence Wieder, 'Theories of signs in structural semantics,' in Harold Garfinkel e Harvey Sacks, ed., Contributions to Ethnomethodology, manuscrito nao publicado.

(26) Don H. Zimmerman e Melvin Pollner, op. cit.; Don H. Zimmerman, 'Bureaucratic fact finding in a public assistance agency,' in Stanton Wheeler, ed., The Dossier in American Society (Esclarecimento dos editores: o texto de Zimmerman foi publicado com o titulo "Record-keeping and the intake process in a public welfare agency," in Stanton Wheeler (Ed.) On Record: Files and Dossiers in American Life, Basic Books: New York, 1970.); 'The practicalities of rule use,' in Harold Garfinkel e Harvey Sacks, eds., Contributions to Ethnomethodology, manuscrito nao publicado; 'Paper Work and People Work: A Study of a Public Assistance Agency,' Tese de Doutorado, Departmento de Sociologia, Universidade da California, Los Angeles, 1966.

(27) ou seja, socialmente organizadas no sentido em que este artigo fala de estruturas formais como realizacoes.

(28) Alfred Schutz, Collected Papers I: The Problem of Social Reality, 1962; Collected Papers II: Studies in Social Theory, 1964; Collected Papers III: Studies in Phenomenological Philosophy, 1966, The Hague, Martinus Nijhoff; The Phenomenology of the Social World, Chicago, Northwestern University Press, 1967.

(29) Ver notas de rodape 16-26.

(30) I. A. Richards, Speculative Instruments, Chicago, University of Chicago Press, 1955, p. 17-56.

(31) Queremos dizer que nenhuma especificacao foi solicitada e que em outras praticas de glosa poderia ser diferente.

(32) Estes comentarios sao adaptados de sugestoes que recebemos de Samuel Todes, 'Comparative phenomenology of perception and imagination: Part I: Perception,' The Journal of Existentialism, vol. VI, Spring 1966, p. 257-60.

(33) Isto nao deve ser enfatizado tao fortemente. Como usamos o presente perfeito para relatar a glosa de Richard, existe o risco de que nossa descricao seja lida como se nos estivessemos indicando que a glosa de Richard defina a maneira de se fazer fala clara e definida. A glosa de Richard e apenas uma maneira de se fazer fala clara e definida. Existem outras. As outras tambem consistem em praticas de glosa, que sao diferentes da explicacao de Richard. A glosa de Richard e usada como exemplo, nao como definicao.

(34) O trecho seguinte fornece dois exemplos estruturalmente distintos. (1) Nao apenas o falante esta depreendendo, a partir do que foi dito, o que quis dizer a pessoa cuja fala ele esta citando, mas (2) todo o corpo de fala e introduzido pelo falante com a demonstracao de que ele sabe o que quer dizer a fala do falante imediatamente anterior, ou seja, e dita com "Eu sei o que voce quer dizer" como parte inicial.

T: Eu sei exatamente o que voce quer dizer. Nos, nos passamos por isso todo ano. Meu pai disse, "Nada de presente" E nos tentamos analisar o que

B: Nada de presente quer dizer nenhum presente ou quer dizer outros presentes?

T: Nao, ele ele deu um motivo pra nao comprar "nenhum presente". E eu estava questionando o motivo. Nao achei que era, o motivo era legitimo. Nao achei que era o verdadeiro motivo. Ele disse, "Bom, voce sabe que o Natal, todas as lojas, eh, bom, elas enchem o bolso de grana do Natal, enchem o bolso, e o Natal esta ficando comercializado, entao, por isso, eu nao quero ser sugado por esse negocio. Nao vou dar presente esse ano."

J: "Voce pega o seu dinheiro e compra alguma coisa que voce quer de verdade, e eu vou pegar o meu e comprar alguma coisa que eu quero de verdade".

T: Mas nos achamos que devia ter algo por tras, porque se alguem tem a consciencia do, que o Natal esta ficando muito comercializado, eh, ele deve se sujeitar a essa ideia e rejeitar ele completamente, e acabar sem dar nenhum presente, ou sera na verdade por que ele nao, nao e uma pessoa que gosta de dar presente mesmo?

B: E

T: E isso e so uma desculpa esfarrapada pra nao dar presente. E no fim das contas, acho que nos chegamos a conclusao que devia ser um tipo de, uma combinacao, e ele na verdade nao e tao pao-duro.

(35) O sentido desenvolvimentista de "tornar-se" e o pretendido; nao o sentido de um desenvolvimento que ocorreu no passado e que esta agora terminado. Para enfatizar "processo", pode-se ler a sentenca da seguinte maneira: "Ao inves disso, sua propria fala, na medida em que esta se tornando parte da mesma ocasiao de interacao esta se tornando outra contingencia dessa interacao". Comentarios similares podem ser feitos sobre "mais uma".

(36) William Kneale and Martha Kneale, The Development of Logic, London, Oxford University Press, 1962, p. 16.

(37) Charles S. Peirce, Collected Papers, vol. 2, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1932, paras 248, 265, 283, 305.

(38) Ludwig Wittgenstein, Philosophical Investigations, Oxford, Basil Blackwell, 1953.

(39) Expressoes ocasionais sao discutidas em Marvin Farber, Foundation of Phenomenology, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1943, p. 237-8; e C. N. Mohanty, Edmund Husserl's Theory of Meaning, The Hague, Martinus Nijhoff, 1964, p. 77-80.

(40) Bertrand Russell, Inquiry into Meaning and Truth, London, Allen and Unwin, 1940, capitulo 7, p. 102-9.

(41) Nelson Goodman, The Structure of Appearance, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1951, p. 290f.

(42) Uma revisao de expressoes indexicais pode ser encontrada em Yehoshua Bar-Hillel, 'Indexical expressions,' Mind, vol. 63, (ns), 1954, p. 359-79.

(43) Hubert L. Dreyfus, Philosophical issues in artificial intelligence,' Publications in the Humanities, no. 80, Department of Humanities, Massachusetts Institute of Technology, Cambridge, Mass., 1967; Hubert L. Dreyfus, Alchemy and Artificial Intelligence, P-3244, Santa Monica, RAND Corporation, Dezembro, 1965.

(44) Pede-se ao leitor que leia "todas as ciencias" como quaisquer investigacoes direcionadas a deteccao e avaliacao de efetividade de atividades praticas e a producao de relatos dos membros acerca dessa efetividade. Alem das ciencias ocidentais ensinadas na academia, incluimos as "etnociencias" que os antropologos descreveram, por exemplo, etnomedicina, etnobotanica e todo o resto; bem como o enorme numero de disciplinas empiricas que tem sua efetividade nas e como atividades praticas como seu fenomeno duradouro: feiticaria azande, xamanismo yaqui, hidromancia, astrologia, alquimia, pesquisa de operacoes e todo o resto.

(45) Nao e apenas porque os membros podem fazer formulacao e observa-la que a formulacao e relatavel. Na medida em que os membros estao fazendo a formulacao e observando a formulacao ser feita, esta e relatavel; ou na medida em que os membros fazem a formulacao e observam que ela foi feita, esta e relatavel; ou na medida em que os membros ao faze-la observam que ela tera sido feita, esta e relatavel; na medida em que os membros ao faze-la observam que ela poderia ter sido feita, etc. A consideracao criterial nao e a disponibilidade de verbos conjugados, mas a estrutura temporal de tais empreendimentos. Estruturas temporais de empreendimentos de formulacao naturalmente incluem a disponibilidade, para os membros, de referencias temporais na linguagem natural.

A inadequacao da estrutura da sentenca pode ser algo benefico, se marcar a relevancia e disponibilidade dos diversos "parametros" temporais, profundos e desenvolvidos, de membros fazendo formulacoes como empreendimentos relataveis. Chama-se a atencao em particular para o trabalho que esta sendo feito por David Sudnow sobre parametros temporais de trocas de olhares relataveis.

(46) Garfinkel, op. cit., p. 29-30.

(47) Como precisamos consultar os membros para aprender quais sao estas praticas, devemos requisitar dos metodos que usamos para localizar estas praticas, e das praticas localizadas por tais metodos, que elas satisfacam as mesmas restricoes. Os argumentos para justificar esta afirmacao e para demonstrar que o metodo que usamos e adequado com respeito a estes requisitos encontram-se detalhados em Harold Garfinkel, 'Practices and structures of practical sociological reasoning and methods for their elucidation,' in Contributions toEthnomethodology, Indiana University Press (em arquivo).

(48) "Membro" da lista tem o significado convencional de item da lista.

(49) Ressaltamos como as praticas de raciocinio sociologico pratico buscam solucionar as propriedades indexicais da fala: elas buscam essencialmente faze-lo.

(50) Tomamos emprestados comentarios feitos por Hubert L. Dreyfus sobre Wittgenstein e Merleau-Ponty durante seu seminario informal, Harvard University, marco de 1968.

(51) Comunicacao pessoal.

* Reimpresso de Theoretical Sociology: Perspectives and Developments, John C. McKinney e Edward Tiryakian (Eds.), Appleton-Ccntury-Crofts; 1969.

** Optamos por traduzir accountabale por relatavel, embora reconhecamos o carater polissemico e polemico desta traducao, pois a expressao verbal to account for admite como traducoes possiveis reportar, explicar, justificar, contar e prestar contas. Entendemos, no entanto, que a nocao de relato pode dar conta desses inumeros sentidos.

*** Mantemos aqui o jogo de palavras feito no original com account-able.

(1a) O nome provavelmente refere-se a William C. Westmoreland, general do exercito dos Estados Unidos, comandante das tropas norte-americanas na Guerra do Vietna, entre 1964 e 1968 (N dos T).

(2a) No original, encontra-se somente a sigla ESR, sem nenhuma explicacao para o leitor. Acreditamos tratar-se da expressao Ethnomethodological SOciological Research, que traduzimos por Pesquisa Sociologica em Etnometodologia.
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Author:Garfinkel, Harold; Sacks, Harvey
Publication:Veredas - Revista de Estudos Linguisticos
Date:Jul 1, 2012
Words:13838
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