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Sin as an existential category: a philosophical-theological reflection/O pecado como categoria existencial: uma reflexao teologico-filosofica.

Que o cristianismo deva ser crido e nao compreendido, de acordo com a otica de Anti-Climacus, (1) pseudonimo de Soren Kierkegaard, autor de A doenca para a morte e Pratica do Cristianismo, e o que sustenta que o pecado nao e uma negacao, mas sim uma posicao, quer dizer, uma posicao existencial. O autor aponta que tal reflexao tem sua origem na ortodoxia crista, que "rejeita qualquer definicao de pecado que seja alguma coisa meramente negativa--fraqueza, afetacao, finitude, ignorancia, etc." (KIERKEGAARD, 1980, p. 96). Com isso, Anti-Climacus passa, mais claramente, a apontar que o pecado e uma posicao e, enquanto tal, se opoe a compreensao, esta que e fruto da especulacao, pois o pecado, assim como toda categoria tipicamente crista, e uma posicao que so se pode conhecer a partir de uma revelacao por parte de Deus, pois e necessario crer nisto e nao compreender, tendo em vista que o pecado, no interior do Cristianismo, e um dogma (KIERKEGAARD, 1980, p. 96).

Pretendemos, neste artigo, nos debrucar sobre a questao do pecado como uma posicao existencial e, portanto, algo que so pode ser legitimamente pensado a partir da propria experiencia humana, demonstrando que, de acordo com a exposicao do autor em questao, o pecado nao e uma categoria a respeito da qual se possa especular idealmente e que e somente na experiencia existencial, atraves da fe, que se pode apreende-la corretamente.

O problema em se compreender o pecado e que a compreensao quase que automaticamente acaba por transforma-lo em uma negacao, tal como e explicitado pelo autor:

A duplicidade na parte da especulacao mostra-se em um outro ponto ainda relacionado. A categoria do pecado ou como o pecado e definido e crucial para a categoria do arrependimento. Ja que a negacao da negacao e tao especulativa a unica possibilidade e que o arrependimento precisa ser a negacao da negacao--e assim o pecado se torna negacao.--Incidentalmente seria certamente desejavel se em algum momento algum sobrio pensador explicasse em que medida o puramente logico, que e um remanescente da primeira relacao da logica com a gramatica (dois negativos afirmam) e da matematica--em que medida o logico tem validade no mundo da realidade efetiva, no mundo das qualidades, se no todo a dialetica das qualidades nao e algo diferente, se a "transicao" nao possui outro papel aqui. Sub specie aeterno modo [sob o aspecto da eternidade, no modo da eternidade] etc., nao ha espaco algum; assim sendo, tudo e e simplesmente nao ha transicao. Postular neste meio abstrato e eo ipso o mesmo que nulificar. Mas olhar para a realidade efetiva da mesma maneira beira a loucura. In abstracto pode-se tambem dizer: o Perfectum segue o Imperfectum. Mas se no mundo da realidade efetiva uma pessoa concluisse que isso se segue e segue-se imediatamente que uma obra que ela nao completou (imperfectum) estivesse completa, ela certamente estaria louca. Da mesma forma se da com a entao chamada posicao do pecado se o meio em que ela esta colocada e puro pensamento; o meio e por demais ilusorio para ser levado a serio (KIERKEGAARD, 1980, pp. 96-97).

O problema apresentado nesta citacao e que, alem de a especulacao acabar por macular a concepcao crista de pecado, tornando-o em uma mera negacao, uma concepcao de pecado oriunda de uma especulacao, que e sempre feita no campo da idealidade, ela nao possui lugar na realidade efetiva.

Fica claro na citacao acima que, alem do interesse radicalmente cristao de Anti-Climacus em defender que o pecado e uma posicao e que, portanto, deve-se crer nele, ou seja, deve-se possuir uma relacao com esta categoria a partir da fe, o proprio autor deseja salientar e, por que nao dizer, criticar a especulacao que e feita em detrimento da experiencia existencial. Essa especulacao se preocupa em desenvolver conceitos que cabem muito bem no interior da idealidade mas que nao possuem nenhuma aplicacao na experiencia existencial do ser humano.

Alguem poderia argumentar, desejando fazer uma defesa do Cristianismo, que compreende-lo daria a ele mais credibilidade, talvez ate que esta possibilidade facilitaria a crenca na religiao crista. No entanto, Anti-Climacus afirma que o Cristianismo precisa ser crido, de modo que o proprio Cristianismo deseja que seja assim.

Eu posso muito bem compreender (e isto nao e de modo algum muito divino para ser compreendido) que alguem que tem que compreender de qualquer forma e que consegue pensar a respeito apenas do que se diz ser compreensivel achara isto muito deficiente. Mas se todo o cristianismo se volta para isso, que ele deve ser crido e nao compreendido, que ou ele deve ser crido ou alguem deve estar escandalizado ou ofendido por ele--e entao tao louvavel querer compreende-lo? E um merito tao grande ou nao e, em vez disso, insolencia ou falta de reflexao querer compreender aquilo que nao deseja ser compreendido? Se um rei decide estar completamente incognito, para ser tratado, sem excecao, como um homem comum, e correto entao prestar-lhe reverencia porque as pessoas geralmente consideram uma grande honra faze-lo? Ou nao e de fato uma autoafirmacao e o proprio pensamento de alguem contra a vontade do rei se uma pessoa faz o que ela quer em vez de se submeter? (KIERKEGAARD, 1980, p. 98).

De acordo, entao, com a reflexao de Anti-Climacus, nao somente e impossivel compreender o cristianismo, bem como suas categorias, como o pecado, como o proprio Cristianismo nao deseja ser compreendido e sim crido. Querer compreender o Cristianismo ja constitui, automaticamente, uma oposicao a ele, significa diminuir sua importancia, ja que o proprio autor afirma que o ato de compreender alguma coisa faz da compreensao algo maior do que aquilo a respeito do que ela reflete (Cf. KIERKEGAARD, 1980, p. 97). Talvez, por isso, pareca a alguem a quem a compreensao e muito estimada que a resolucao de que o cristianismo deve ser crido e por demais deficiente, pois a compreensao, especialmente em ambientes intelectuais, e tida em grande estima enquanto toda materia de crenca e desprezada como algo de menor valor. E aqui que se apresenta mais claramente a afirmacao presente na citacao acima de que ou se cre no cristianismo--e no pecado, bem como em todas as demais categorias cristas--ou se e ofendido por ele.

Assim, nos parece que as palavras sopradas por Kierkegaard a Anti-Climacus (KIERKEGAARD, 2016, p. 341) nao sao de inspiracao propria do autor dinamarques mas sim ressonancias da teologia de Martinho Lutero, tendo em vista que ele foi educado sob uma forte tradicao luterana. O elemento luterano que marca essa reflexao de Anti-Climacus e a chamada theologia crucis ou teologia da cruz.

Em seu livro Lutero e a teologia da cruz, Alister McGrath afirma que "para Lutero, o unico locus autentico do conhecimento humano de Deus e a cruz de Cristo, na qual Deus se revela, mas na qual ele paradoxalmente se oculta." (MCGRATH, 2014, p. 202). Mas, o que tal afirmacao nos ajuda a entender? O que significa dizer que Deus se revela e, ao mesmo tempo, se oculta na cruz?

De acordo com MCGRATH (2014), e em 26 de abril de 1518, durante o chamado Debate de Heidelberg ou Disputa de Heidelberg, especificamente nas teses 19 e 20, que se comeca a evidenciar na teologia de Lutero a teologia da cruz:

19

Nao se pode designar condignamente de teologo quem enxerga as coisas invisiveis de Deus compreendendo-as por intermedio daquelas que estao feitas; [...]

20

mas sim quem compreende as coisas visiveis e posteriores de Deus enxergando-as pelos sofrimentos e pela cruz. [...] (LUTERO, 2004, p. 49)

Ao se referir a coisas visiveis e posteriores a Deus Lutero esta fazendo referencia direta ao texto biblico de Exodo, capitulo 33, que apresenta a autorrevelacao de Deus a Moises:

Moises respondeu a Iahweh: "Rogo-te que me mostres tua gloria." Ele replicou: "Farei passar diante de ti toda a minha beleza, e diante de ti pronunciarei o nome de Iahweh. Terei piedade de quem eu quiser ter piedade e terei compaixao de quem eu quiser ter compaixao." E acrescentou: "Nao poderas ver a minha face, porque o homem nao pode ver-me e continuar vivendo." E Iahweh disse ainda: "Eis aqui um lugar junto a mim; poe-te sobre a rocha. Quando passar a minha gloria, colocar-te-ei na fenda da rocha e cobrir-te-ei com a palma da mao ate que eu tenha passado. Depois tirarei a palma da mao e me veras pelas costas. Minha face, porem, nao se pode ver." (Exodo, 33, 18-23).

Ao falar de coisas posteriores a Deus, em latim posteriora Dei, o reformador alemao esta se referindo a esta passagem sobre Moises. O pedido feito por este a Deus lhe e negado e o que a divindade permite e somente um rapido vislumbre de suas costas durante sua passagem. A enfase de Lutero neste texto ao refletir sobre as posteriora Dei e devidamente explicada por McGrath:

A referencia de Lutero ao posteriora Dei, na tese 20, enfatiza que, como Moises, podemos ver Deus apenas pelas costas: a nos e negado um conhecimento direto de Deus ou uma visao de sua face [...] A cruz realmente revela Deus--mas essa e uma revelacao de posteriora Dei. Essa revelacao e a revelacao de um Deus cuja mao impede o observador de ver completamente o que esta acontecendo: e um Deus que passa, mas nao para; e um Deus visto pelas costas, mas cuja face nao pode ser vista. Pelo fato de serem as posteriora Dei que sao reveladas, essa revelacao de Deus deve ser vista como revelacao indireta de Deus--mas e, mesmo assim, uma revelacao genuina. (MCGRATH, 2014, p. 203)

Podemos entender a partir da explicacao de McGrath que a teologia da cruz de Lutero destaca o carater oculto da revelacao divina em detrimento de uma revelacao direta. Uma teologia que visa defender uma revelacao direta de Deus aos homens e chamada por Lutero de 'teologia da gloria' e opoe-se diametralmente a 'teologia da cruz'.

O texto biblico de Exodo 33 apresenta uma imagem que, de fato, colabora com a construcao da teologia da cruz. Aplicada a leitura de Lutero do episodio da crucificacao de Cristo, o que para o reformador e o centro normativo de todo o cristao para entender os misterios do mundo (MCGRATH, 2014, p. 204), a forma como Deus se revelou a Moises da todo o fundamento necessario para a teologia da Cruz: uma vez que Deus afirmou que nenhum homem pode permanecer vivo depois de ver a sua face (Exodo 33, 20), que Jesus afirmou que quem o ve, ve igualmente a Deus (Joao 14, 9) e que o apostolo Paulo afirma que ainda vemos as coisas como quem ve espelhos mas um dia haveremos de ver a Deus face a face (1Corintios 13,12), o unico acesso possivel do ser humano a Deus e sua revelacao paradoxalmente oculta no sofrimento e na cruz.

Ao fazermos uma leitura atenta das teses 19 e 20 do Debate de Heidelberg, podemos identificar ali uma interessante distincao entre interacoes racionais e visuais e a revelacao divina (Cf. MCGRATH, 2014, p. 204). No artigo 19, Lutero faz referencia aqueles que buscam a revelacao de Deus a partir das coisas criadas por ele, daquelas ja existentes no mundo e na natureza. No artigo de numero 20 a referencia recai sobre aquele que busca a revelacao de Deus "nas coisas visiveis e posteriores de Deus, enxergando-os pelos sofrimentos e pela cruz" (LUTERO, 2004, p. 49). Apenas estes ultimos podem ser verdadeiramente chamados de teologos.

Lutero esta chamando de verdadeiro teologo a qualquer um que busque ver a Deus, ver no sentido proprio da palavra, de utilizar a visao, onde Deus, de fato, se revelou visivelmente: no sofrimento e na cruz. Um teologo da gloria, de acordo com o argumento de Lutero, observa o que foi compreendido e um teologo da cruz compreende o que foi visto (Cf. MCGRATH, 2014, p. 204). Quem busca a revelacao de Deus a partir das coisas criadas nao esta fazendo outra coisa que especulando a partir da criacao para, diretamente, alcancar a revelacao de Deus, ou seja, compreender para ver. Comecamos, aqui, a vislumbrar o ponto de contato entre o teologo de Wittenberg e o pseudonimo do filosofo de Copenhagen.

Uma teologia que tem como centro um "Deus crucificado e oculto" (MCGRATH, 2014, p. 205) posiciona-se contra uma compreensao teologica construida com bases na especulacao. Um ponto de partida racional com pressupostos seculares impede o acontecimento de uma interacao com a cruz e com a revelacao de Deus atraves dela, pois passa-se a interpreta-la atraves de uma lente que carrega consigo ideias pre-determinadas, concepcoes filosoficas e culturais que nos fazem olhar para a cruz de maneira estranha a sua propria estrutura conceitual. De acordo com McGrath, Lutero enfatiza que a cruz precisa ter liberdade para determinar por si mesma tal estrutura (MCGRATH, 2014, pp. 205-206).

A chamada teologia da gloria, por sua vez, posiciona-se de modo plenamente contrario a teologia da cruz e, por causa disso, e criticada em todos os sentidos por Martinho Lutero: "a teologia comeca ao pe da cruz; ela nao comeca em algum lugar qualquer para, entao, integrar a cruz as suas categorias predeterminadas" (MCGRATH, 2014, p. 206). A teologia da gloria, no entanto, prioriza a racionalidade, valorizando as coisas com as quais a mente humana sabe lidar, ela depende da capacidade humana de compreender para que, assim, possa-se especular teoricamente a respeito da cruz, interpretando-a e traduzindo-a em meras ideias abstratas. A teologia da cruz, ao contrario, depende nao do compreender mas sim da capacidade humana de perceber, "de observar o que esta acontecendo e de refletir sobre o seu significado mais profundo, embora nao possa compreende-lo completamente. Uma 'teologia da cruz' da prioridade aquilo que e vivenciado" (MCGRATH, 2014, p. 206. [grifo nosso]).

A dimensao de atuacao da teologia da cruz e a da experiencia humana e tudo o que ela abarca, da existencia e nao da idealidade logica, da vivencia e nao da especulacao. Ou seja, o que Lutero esta apontando e que a autenticidade de uma vida crista se da no interior de um mundo fragil e ambiguo, numa existencia humana que se divide entre crer e, ao mesmo tempo, duvidar, ser justo e, ao mesmo tempo, pecador, porque e esta a realidade que nos e dada. "Vivendo, ate mesmo morrendo e sendo condenado," afirma Lutero, "e que se faz um teologo, nao compreendendo, lendo ou especulando" (LUTERO apud MCGRATH, 2014, p. 210).

Que todo o texto de Anti-Climacus tenha recebido influencia da teologia da cruz de Lutero e plenamente plausivel para alem da influencia do luteranismo na formacao de Soren Kierkegaard, pois o proprio autor afirma a respeito do pseudonimo que este se julga um cristao em nivel extraordinariamente alto (Cf. KIERKEGAARD, 1978, p. 6174). Utilizando-se da "centralizacao normativa" (MCGRATH, 2014, p. 204) da cruz como fundamento dos modos autenticamente cristaos de enxergar o mundo, Anti-Climacus aplica-a radicalmente a todo o Cristianismo. Logo, assim como o Deus que se revela na cruz e se oculta nela, de modo que o cristao deve crer em sua revelacao mesmo que nao a compreenda, todo o Cristianismo deve ser--e exige ser--crido em vez de compreendido racionalmente, pois compreender racionalmente o Cristianismo e diminui-lo a dimensao de quem o compreende.

Em seu embate com uma sociedade dinamarquesa e, mais especificamente, com uma igreja oficial, luterana, que se apega a tradicao filosofica hegeliana, tradicao que valoriza a especulacao, o movimento dialetico do pensamento, para alcancar o Absoluto, a teologia da cruz de Lutero fornece a Anti-Climacus o posicionamento teologico necessario para apontar e combater tal postura, tendo em vista que o pseudonimo recorre a teologia do proprio Lutero para demonstrar o problema de se relacionar com o Cristianismo a partir da especulacao.

Para alem da reflexao especificamente teologica tecida por Anti-Climacus neste momento de A doenca para a morte, cabe aqui uma reflexao a respeito da experiencia existencial, tambem destacada por Lutero, como vimos acima, que acontece em meio a realidade efetiva e que esta sempre acompanhando, como uma especie de coadjuvante, a construcao da reflexao religiosa da obra em questao, de modo que podemos perceber que mesmo tratando de elementos particularmente teologicos, ainda assim e perceptivel o quanto a preocupacao principal do autor esta diretamente ligada com a experiencia existencial de cada individuo singular.

Temos visto ate este momento que o pecado como posicao em contraposicao a compreensao do mesmo (e aqui deve-se englobar todo o Cristianismo, tanto no que diz respeito a posicao quanto a impossibilidade da compreensao) revela que ele nao e uma materia pertencente a idealidade, a respeito do qual se deve especular e construir conceitos, mas sim que todo o Cristianismo, com todas as suas inerentes categorias, pertence a realidade efetiva, quer dizer, ao campo da experiencia existencial onde, como o autor ja afirmou anteriormente, cada individuo humano nao existe a priori mas e o que e a cada instante, ou seja, esta em constante processo de vir a ser, em devir (KIERKEGAARD, 1980, pp. 30, 94).

Em tal realidade nao cabe a compreensao, mas o proprio existir, o proprio fazer-se, tornar-se si mesmo a partir de cada experiencia existencial, e a respeito dela nao cabem conceitos construidos sob o dominio da idealidade, de modo que na existencia o que predomina nao e a compreensao oriunda da especulacao, mas sim a posicao que e assumida diante de cada caso particular. Tal posicao nao e considerada a partir da reflexao mas e assumida de acordo com aquilo em que se acredita. Esta nossa reflexao destaca um outro elemento perceptivel no pensamento religioso de Anti-Climacus, a saber, que o Cristianismo e essencialmente existencial. E por isso, portanto, que deve ser crido em vez de ser compreendido, porque deve ser experimentado existencialmente em vez de idealmente especulado.

Em uma sociedade em que compreender era algo de suma importancia, onde havia nos meios intelectuais uma forte influencia do idealismo alemao, Anti-Climacus afirma que do que as pessoas carecem e de um pouco de ignorancia socratica (KIERKEGAARD, 1980, p. 99). E importante destacar o carater socratico dessa ignorancia, pois se mal compreendida ela pode soar como uma ignorancia comum que configura uma negacao, algo que, como vimos, ja foi previamente descartado pelo autor no que diz respeito ao pecado. Sob o questionamento, quase um lamento, de quantos em algum momento pensaram desta maneira a respeito da ignorancia do

ironista grego, o autor pseudonimo afirma que a ignorancia socratica aparece como uma especie de temor e de adoracao a Deus e e ainda capaz de afirmar que sua ignorancia era uma versao do dito judaico "o principio da sabedoria e temer a Iahweh" (Salmos, 111, 10) e e por isso que Socrates foi reconhecido como o homem mais sabio.

De acordo com a reflexao de Anti-Climacus, a ignorancia de Socrates era como uma veneracao a Deus a partir de uma tomada de posicao, como um juiz que se coloca na fronteira entre o homem e Deus a fim de impedir que ambos se misturem, tornando-se um so (KIERKEGAARD, 1980, p. 99). Nao podemos aqui afirmar com certeza se tal interpretacao da ignorancia socratica empreendida pelo autor pseudonimo possui algum fundamento teorico ou se e uma reflexao original de Kierkegaard mas certamente ela assume a forma do interesse kierkegaardiano em criticar a especulacao dialetica hegeliana por meio da qual dois conceitos opostos acabam por tornar-se um no Absoluto. A critica ironica do pensador de Copenhagen ataca o carater da especulacao que acaba por pretender mesclar Deus e o homem em um unico ser ou conceito e, contra isto, o filosofo apropria-se da ignorancia de Socrates a fim de fazer frente a ela. Anti-Climacus destaca como uma "tarefa completamente etica" (KIERKEGAARD, 1980, p. 99) que alguem admita nao ser obrigado nem estar apto a compreender o Cristianismo, o que exigiria uma autonegacao de tamanho consideravel, tendo em vista os tempos especulativos nos quais vivia o pensador dinamarques (Cf. KIERKEGAARD, 1980, p. 99). Esta autonegacao nos aparece como humildade e esta intimamente relacionada no escrito aqui analisado com a ignorancia socratica, considerando-se o destaque que o autor da para a semelhanca de sua interpretacao do sentido de reverencia a Deus da ignorancia socratica e o ja citado dito judeu a respeito da sabedoria.

O que Anti-Climacus parece querer ao aproximar a ignorancia socratica e o cristianismo e defender a diferenca qualitativa existente entre o homem e Deus. E desse modo que Socrates e pensado como um juiz na fronteira entre ambos, pois a sabia ignorancia do filosofo grego mantem bem definida a linha que separa o homem de Deus, e e por isso que a divindade, atraves do oraculo de Delfos, lhe atribui o titulo de homem mais sabio. E claro que tal reflexao sobre a ignorancia socratica e bastante conveniente para a argumentacao de Anti-Climacus e dificilmente poderia ser feita se fosse considerado somente o contexto geografico e temporal de Socrates. Entretanto, tal apropriacao da ignorancia socratica e coerente e legitima sua critica ao pensamento especulativo. Se, a principio, em A doenca para a morte o autor utilizou-se da concepcao socratica de pecado a fim de, ao critica-la, criticar tambem a especulacao idealista da modernidade (KIERKEGAARD, 1980, p. 81-96), agora o mesmo Socrates serve de exemplo para favorecer a postura que o individuo deve assumir diante da incompreensibilidade do cristianismo e da existencia na critica contra o pensamento especulativo.

E da seguinte maneira que Anti-Climacus harmoniza a ignorancia socratica e o Cristianismo:

O cristianismo ensina que tudo o que e essencialmente cristao depende somente da fe; quer, portanto, ser precisamente uma ignorancia socratica e com temor de Deus que por meio da ignorancia guarda a fe contra a especulacao, vigiando para que o abismo da diferenca qualitativa entre Deus e o homem possa ser mantido como e no paradoxo e na fe, a fim de que Deus e o homem, ainda mais terrivelmente do que nunca no paganismo, nao se transformem de algum modo, philosphice, poetice [filosoficamente, poeticamente], numa unidade--no sistema. (KIERKEGAARD, 1980, p. 99).

Fica, assim, claro todo o proposito do autor pseudonimo em refletir sobre a ignorancia socratica: nao e ela que se adequa ao Cristianismo mas sim o Cristianismo que em sua condicao de depender unica e exclusivamente da fe que, diante da especulacao e da compreensao, se comporta como a ignorancia socratica, ignorante em relacao a especulacao mas, pela fe, cheio de sentido e de temor diante de Deus em sua diferenca qualitativa. Fica tambem mais tangivel o que o autor aqui deseja evitar ao fazer sua critica: que o Cristianismo seja assimilado pelo sistema, pois, na verdade, este tipo de assimilacao ja acontecia claramente e e chamada pelo pensador de Copenhagen de Cristandade. Tal assimilacao do Cristianismo, reforcamos, e, aos olhos de Anti-Climacus, impossivel de ser realizada pois ele, o Cristianismo, deve ser apenas crido.

Toda a questao a respeito da especulacao, no entanto, nao e de modo algum de interesse do autor pseudonimo. Ele mesmo--se esta sendo ironico ou nao talvez seja impossivel determinar--afirma que nao e sua preocupacao tratar dela no texto em questao (Cf. KIERKEGAARD, 1980, p. 98). O que e de fato seu interesse e destacar o ensino do Cristianismo de que o pecado e uma posicao. Tal ensino nao pode ser compreendido, nao e coerente tentar faze-lo--apesar de possivel, mas sempre sob o risco de descaracteriza-lo, porque e um dogma, como apresentado pela ortodoxia, e como dogma deve-se apenas acreditar nele ou nao, sem mediacao.

Conclusao

O que se pode concluir, portanto, da preocupacao de Anti-Climacus em destacar tao veementemente que o pecado nao e uma negacao, ou seja, um elemento logico que cabe dentro do pensar especulativo, mas sim uma posicao, quer dizer, algo de carater explicitamente existencial, incapaz de ser assimilado pela compreensao? Conclui-se que mesmo no interior da complexa e intensa reflexao teologica de Anti-Climacus, realizada, mesmo que nao diretamente explicitada, a partir da teologia da cruz de Lutero, ainda assim mantem-se como fio condutor sua preocupacao com a dimensao existencial do ser humano em oposicao ao pensamento especulativo do idealismo alemao, tao popular na Dinamarca de sua epoca.

A superioridade da experiencia existencial sobre a especulacao ainda pode ser aqui ilustrada pela critica feita por Anti-Climacus na primeira parte de A doenca para a morte ao pensador que constroi um sistema. Nesta critica o pseudonimo afirma que se em relacao ao sistema de tal pensador for levada em conta sua experiencia existencial, entao se chegara a conclusao de que o pensador nao vive neste grande e belo edificio que construiu, mas, ridiculamente, numa cabana, no quartinho de um zelador ou mesmo na casinha do cachorro (Cf. KIERKEGAARD, 1980, pp. 43-44).

Referencia Bibliografica

BIBLIA DE JERUSALEM. Sao Paulo: PAULUS, 2002.

LUTERO, Martinho. Obras selecionadas, v. 1, os primordios --Escritos de 1517 a 1519. Traducao por Annemarie Hohn et al. Sao Leopoldo: Sinodal, Porto Alegre: Concordia, Canoas: Ulbra, 2004.

MCGRATH, Alister. Lutero e a teologia da cruz. Traducao por Markus Hediger. Sao Paulo: Cultura Crista, 2014.

KIERKEGAARD, Soren. Soren Kierkegaard's Journals and Papers. Ed. e trad. de Howard V. Hong e Edna H. Hong com auxilio de Gregor Malantschuk. v. 1-6, v. 7 Index. Bloomington, London: Indiana University Press, 1967-78. (versao eletronica).

--. Pos-escrito conclusivo, nao cientifico, as Migalhas filosoficas. Traducao de Alvaro Luiz Montenegro Valls e Marilia Murta de Almeida. Petropolis: Vozes, Sao Paulo: Editora Universitaria Sao Francisco, 2016.

--. The Sickness Unto Death. Edited and translated with introduction and notes by Howard V. Hong and Edna H. Hong. New Jersey: Princeton University Press, 1980.

DOI: 10.12957/ek.2018.38301

Dndo. Matheus Maia Schmaelter

matheus.lc@gmail.com

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

(1) O proprio Kierkegaard afirma que as obras de seus pseudonimos nao devem ser atribuidas a ele (KIERKEGAARD, 2016, p. 342), de modo que julgamos relevante manter aqui a indicacao de autoria ao pseudonimo e nao ao pensador dinamarques.
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Author:Schmaelter, Matheus Maia
Publication:Ekstasis: Revista de Hermeneutica e Fenomenologia
Date:Dec 1, 2018
Words:4286
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