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Sexo e anarquia: uma combinacao explosiva.

Anarchism & Sexuality: Ethics, Relationship and Power.

HECKERT, Jamie; (1) CLEMINSON, Richard. (2)

Oxon: Routledge Taylor; New York: Francis Group, 2011. 232 p.

Com lancamento simultaneo na Inglaterra, nos EUA e no Canada, esta coletanea, que abarca temas como sexo, anarquismo, teoria queer, politica e cultura, vai, certamente, impactar os leitores brasileiros discutindo conexoes inexploradas nessa latitude. Trata-se de uma coletanea interdisciplinar importante para os Estudos Feministas, a Teoria de Genero, a Sociologia da Sexualidade e os Estudos Gays e Lesbicos. A intencao dos autores era produzir um texto iconoclasta de leitura vibrante, com forma e conteudo inusuais, conseguiram!

Alem de as discussoes serem originais e atuais, oferece uma entrevista inedita na qual Judith Butler atualiza ideias sobre cultura e politica, sexo e genero. O livro contempla as tradicoes do pensamento anarquista em friccao direta com o lebenswelt da sexualidade contemporanea. Questiona, subverte e transborda as divisoes autocraticas entre o politico e o pessoal, os desejos hetero e homossexuais, o ativismo e a producao de conhecimento, poesia e prosa, derrubando as categorias disciplinadas do conhecimento. Trata-se de uma obra queer, por excelencia, em estilo e conteudo.

A coletanea e resultado da Conferencia Anarquismo e Sexualidade, realizada na Universidade de Leeds, em 2006, cujo objetivo foi discutir anarquia sexual sem preconceitos politicos e culturais.

Qual a importancia do anarquismo para entender a sexualidade? O que significa o anarquismo sexual alem de desordem ou amoralidade?

Os autores entendem o anarquismo sexual nao como ideologia, mas como "etica das relacoes de poder", que, colocadas em pratica, seriam completamente diferentes daquelas promovidas pelo Estado, pelo capitalismo, pela supremacia branca e pelo sexismo.

Promovem um anarquismo compromissado com a diversidade, uma etica que contrasta com a sociedade massificada, o Estado regulador e a racionalidade burocratica, mas respeita e defende a diversidade cultural e ecologica.

Anarquia sexual aparece como sinonimo da decadencia ocidental, contra ela emerge o fundamentalismo politico e/ou religioso, defendendo a 'ordem sexual natural' e a hierarquia de genero como trincheiras contra essa ameaca a civilizacao, que ataca as fundacoes da sociedade, a forma de terrorismo, o caos.

Porem, o maior perigo reside no fato de o anarquismo e o inconformismo sexual terem poder de corroer as estruturas sobre as quais se assentam as relacoes de poder. Despertam desejos perigosos que provocam a resistencia daqueles cujo poder depende da manutencao do status quo.

Se as relacoes de dominacao sustentamse na diferenciacao dos papeis de genero e na organizacao da sexualidade, anarquiza-las corroi a estrutura social, forja novas atitudes corporais, conecta o social a literatura e a arte, apoia politicas feministas e a liberacao gay.

Trazer o anarquismo sexual dos poroes do ativismo politico para as salas da academia, integrar conhecimento ao compromisso politico, desafiar o status quo educacional e contribuir para novas abordagens e visoes de mundo foi processo doloroso que enfrentou a estigmatizacao da falta de seriedade academica por lidar com temas pouco 'nobres'. O preconceito institucional e o desprezo dos pares, frequentemente, recaem sobre os que realizam estudos anarquistas, gays e lesbicos. A resposta foi uma avalanche de producao e publicacoes desses estudos, abrindo possibilidades e oportunidades para que outros novos atravessassem o umbral do 'templo do saber'. Essa e outra razao para encarar o livro como desafio e resistencia.

Estudiosos da teoria queer e da anarcos-sexualidade atingem audiencias variadas, constroem pontes para transpor gaps entre teoria e ativismo, colocam nos saloes nobres os becos escuros, 'onde um vago Ravachol mistura enxofre e limalha de ferro numa velha marmita', deixando a sociedade rica, armada e santificada em panico. A linguagem academica sob nova roupagem e a garantia ao acesso das ideias sao a materia constitutiva das pontes, sem medo ou pudor de publicar em panfletos ativistas, mesmo rechacados por carecer de status academico, desqualificados. O que se pretende e forjar uma metodologia anarquista, renunciando os controles, desafiando limites e hierarquias e promovendo espaco para novas ideias emergirem.

Inspirados na ascensao de movimentos globalizados e ondas do anarquismo ativista/ academico, colocam a etica anarquista em pratica, direcionam o foco para a equidade de raca, classe e genero, liberdade e violencia e o fim da sociedade do controle.

Duas transformacoes recentes na geopolitica mundial do seculo XX reacenderam o interesse pelo conjunto teorico e por recursos praticos do anarquismo para mudar o rumo da sociedade: o pensamento pos-estruturalista e a ascensao de movimentos globais anticapitalistas.

Foucault, Deleuze, Guattari, inspirados nos movimentos de Maio de 1968, contribuiram criticamente com as tradicoes anarquistas. Os franceses complementam, sem substitui-las, sofisticam a natureza do poder e das subjetividades e terminam por ecoar nos pensamentos feministas, pos-colonialistas e teorias queer.

Em segundo lugar, a longa historia de acao direta inspira zapatistas, taticas queer, protestos em massa contra a Organizacao Mundial do Comercio em Seattle, 1999, sem comando definido, embora sob influencia de ativistas conhecidos, como John Zerzan, que promovem manifestacoes globais explosivas.

Se o anarquismo tradicional desafiou nacionalismos e hierarquias de classe, a teoria queer, nos anos 1990, criticou a identidade sexual, estavel e centrada nas fronteiras do corpo e da sexualidade, reavaliou discursos fixos e interrogou sobre diferencas naturais e hierarquias sexuais.

Os ensaios deste livro tratam da etica da liberdade, da resistencia e do poder cotidiano, realizados de varias maneiras, atraves de multiplos instrumentos. Como etica cotidiana, busca escutar mais que falar, nao fala pelo outro nem o representa; etica do cuidado, em vez do controle. Amor e solidariedade articulados a sexualidade anarquica sao a resposta a uma sociedade desconectada, atomizada e autoritaria. Escutamos nossos corpos, desejos, os outros humanos e nao humanos, imaginamos nossas vidas, vivenciando nossa sexualidade.

Como podem sexualidade, paixao e desejo ajudar a repensar os rumos da sociedade em temas menos vibrantes como economia, ecologia e poder? Como se coloca em pratica o anarquismo sexual? Como se transforma a liberdade politica em algo queer? E esse o desafio dos autores que compoem a coletanea.

Jane Alexander, em "Alexander Berkman: Sexual Dissidence in the First Wave Anarchist Movement and its Subsequent Narratives", retoma o passado do anarquismo, reacessa os escritos de Berkman na prisao e desenterra sua experiencia num contexto temporal. Berkman ve o injusto preconceito da sociedade contra o amor entre homens e descreve a diluicao do seu proprio preconceito, na experiencia da prisao, com o companheiro de cela--'kiddie'--, revelando como o amor surge nos ambientes mais inospitos.

Stevphen Shukaitis, em "Nobody knows What an Insurgent Body can do: Questions for Affective Resistance", ressignifica a intimidade no interior das solidariedades do feminismo e das lutas queer. Discute a remuneracao do trabalho domestico e a efetividade de lutas que se dao as custas do afeto, da comunalidade e da afeicao entre participantes nos movimentos sociais. Nao interessa saber se a luta e efetiva, eficiente, organizada, mas se e afetiva, se resiste as relacoes de poder e constroi novas relacoes entre os resistentes. Afetividade, como o elemento essencial nas lutas de resistencia, promoveria maior efetividade aos esforcos para reconfigurar as relacoes sociais.

Toma o exemplo da organizacao espanhola Precarias a la Deriva, na qual o peso da afetividade consolidou novas formas de luta, o biossindicalismo, para considerar a necessidade de cada trabalhador, segundo seu genero e posicionamento sexual.

Lena Eckert, em "Post(-)Anarchism and the Contrasexual Practices of Cyborgs in Dildotopia", demonstra como o poder entrincheira-se nos microcosmos cotidianos. Pensa o simbolismo lacaniano do falo, Foucault e as tecnologias do self contextualizadas na critica fundacional posanarquista: se o poder simbolico se difunde por todos os lugares, ha a exigencia de uma resistencia igualmente dispersa por todos os lugares.

Eckert questiona a funcao simbolica do falo, na esteira de Preciado, e o debate sobre a contrassexualidade com a subversao do dildo, implodindo a diferenca sexo/genero baseada num orgao sexual. Ao destronar o falo, o dildo representa uma sexualidade sem diferenca sexual, ja que a arquitetura corporal e politica, preconiza a erotizacao do corpo inteiro, reconfigurando as hierarquias do prazer apos a descentralizacao do falo. Apropria-se de Butler, do discurso da performatividade normativa e do falo lesbico; e de Haraway, com a imagem do cyborg na dildopia pos-humana, como cidadao contrassexual.

Em "On Anarchism: An Interview with Judith Butler", Heckert explora questoes de genero, sexualidade e poder. Ela contrasta o movimento gay ocidental com outras formas de anarquismo queer. Ve o primeiro sendo recrutado e afiliado ao Estado, buscando assegurar posicoes de privilegio e ignorando a violencia do Estado racializado; e o ultimo tentando desmantelar as hierarquias. Ela faz um jogo binario, mas resiste a tentacao de esbocar uma divisao entre fora e dentro do Estado, contra ou a favor da lei. Em vez disso, aponta fragilidades nos codigos legais e nos regimes, proporcionando espacos para a possivel subversao em favor da soberania popular. Butler conecta Benjamim e Althusser com os Anarchists Against the Wall, os zapatistas, as questoes cotidianas de dignidade e sobrevivencia, revela a possivel e valiosa fronteira entre o ativismo politico e a academia com formato queer. Essa grande contribuicao estimula o engajamento entre a teoria feminista e o posanarquismo.

Laurence Davis, em "Love and Revolution in Ursula Le Guin's Four Ways to Forgiveness", nos leva, pelas suas maos, a imaginar a vida como escudo protetor contra restricoes autoritarias para impedir que outras pessoas deem forma a nossa existencia. (3) Davis coloca amor e revolucao entrelacados em "Four Days to Forgiveness (1995)". Aqui, o anarquismo nada vale se nao implicar a revolucao da vida cotidiana. Na contramao dos movimentos marxistas, a revolucao anarquista revolve modos de vida e relacoes de amor e sexo. "Four Days" traz quatro historias de traicao, perdao, politica, revolucao social e amor. Amor e sexualidade nao sao suplementos ou pano de fundo para acao politica, mas elementos fundamentais para sua realizacao. Em Le Guin, ciumes e traicao prendem-se a nocoes e expectativas de genero rigidas, transformadas atraves de reciprocidade e expressao revolucionaria. O poder se dissolve, se anula na "pratica revolucionaria paciente, construtiva, organica e aberta, em ultima analise, enraizada na transformacao do espirito individual (p. 114).

Lewis Call tambem se debruca sobre a ficcao em "Structures of Desire Postanarchist Kink in the Speculative Fiction of Octavia Butler and Samuel Delaney". Os autores afro-americanos discorrem sobre topicos desconfortaveis, mas inspiradores de formas de vida alternativas. Embora nao tenham associacao com o anarquismo, em vez de dissolver as formas de poder, brincam com elas, atraves da bondage e disciplina, e do sadomasoquismo, formas consensuais de desejo e erotismo fortemente contrastadas com praticas nao consentidas, nao eroticas e nao eticas, praticas de poder indesejadas que caracterizam a escravidao e que, ate hoje, atingem os afrodescendentes. Call ve nos jogos de poder uma estrategia para curar as feridas psiquicas da escravidao.

Jamie Heckert, em "Fantasies of an Anarchist Sex Educator", aborda temporalidade, corporeidade, etica e emocao na educacao sexual e sexualidade juvenil, um campo atraente para a teoria feminista e o pos-anarquismo. Discorre sobre o poder das historias, atraves das historias sexuais, como os individuos percebem relatos de violencia domestica ou como e a experiencia de crescer como diferente no mundo monocromatico sexualmente. Ouvir a si e aos outros abre caminho para a realizacao erotica e o desejo anarquico. Intensivamente pessoal e profundamente politico, contar historias e fonte de conhecimento queer, cuja centralidade esta na conexao e no amor. Isso nao pode ser adiado para depois de nenhuma revolucao.

Kolarova, em "Sexuality Issues in the Czesch Anarchist Movement", resgata a tradicao do inicio do seculo XX, interrompida pelo comunismo, e apresenta o anarquismo tcheco que reemergiu nos anos 1980. A autora analisa como a sexualidade insere-se no anarquismo tcheco que antes privilegiava os aspectos economicos e as organizacoes industriais, como incorpora questoes do feminismo e direitos gays. O custo dessa insercao foi tornar as anarcofeministas e o movimento queer alvo de violencia dos fascistas, durante as Paradas Gays, em represalia a cooperacao entre ambos.

Galvin Brown, em "Amateurism and Anarchism in the Creation of Autonomous Queer Spaces", oferece estudos de casos da geografia autonoma queer. O questionamento da autoridade nao se limita ao plano politico, inclui formas de expertise como os exemplos demonstram. Essas formas de expertise operam como escolas de anarquismo, sem Bakunin ou ativismo, mas num acampamento pagao ou boates queers, Brown viaja por experimentos de relacoes sociais autonomas. Assim procedendo, coloca-nos frente a um futuro queer possivel, outro mundo alem-Estado, alem-capitalismo, alemsocialismo.

E preciso ter em mente que hierarquias nao sao espacos de controle perfeito, as brechas autonomas fissuram e rompem a solidez da estrutura hierarquica. Rompemos hierarquias quando percebemos e nos relacionamos, com o outro, como iguais.

Brown ressalta a importancia do ritual na tessitura da comunidade, os queer pagaos partilham o ritual como experiencia de estar junto, trocar a dor e a delicia de estar vivo.

Concluindo, Kristina Weaver, em "Afterwords: On the Phenomenology of Fishbowls", compartilha o experimento da estrutura do desejo utilizada durante a Conferencia em Leeds, com a criacao de um espaco queer autonomo. Sua narrativa convida a organizarmos eventos com novos formatos, como campos para novas possibilidades.

Referencias

LE GUIN, Ursula K. "The Operating Instructions." In: __. The Wave in the Mind: Talks and Essays on the Writer, the Reader, and the Imagination. Boston, MA: Shambala, 2004. p. 206-210.

Loreley Gomes Garcia

Universidade Federal da Paraiba

Notas

(1) Jamie Heckert e um estudioso independente, como muitos teoricos do anarquismo. Fundador da Anarchist Studies Network, escreve sobre etica, erotismo e ecologia em periodicos academicos e ativistas.

(2) Richard Cleminson e professor e pesquisador do Centro Interdisciplinar de Estudos de Genero da Universidade de Leeds e editor associado da revista inglesa Anarchist Studies.

(3) Ursula LE GUIN, 2004, p. 208.
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Title Annotation:articulo en portugues; Anarchism & Sexuality: Ethics, Relationship and Power, Jamie Heckert, Richard Cleminson
Author:Gomes Garcia, Loreley
Publication:Revista Estudo Feministas
Article Type:Resena de libro
Date:Jan 1, 2012
Words:2508
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