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Sem comeco, meio e fim: o ultimo romance de J.M. Coetzee.

Sem começo, meio e fim: o último romance de J.M. Coetzee

COETZEE, John Maxwell. Diary of a Bad Year. London: Harvill Secker, 2007. 231 p. ISBN 978184655120-8.

Diary of a Bad Year [Diário de um ano ruim. Trad. de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.] é o décimo nono livro ou o décimo quarto romance do sul-africano John Maxwell Coetzee, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, em 2003. Embora a obra de Coetzee possa ser tentativamente dividida entre coletâneas de ensaios (como Stranger Shores e Inner Workings, respectivamente de 2001 e 2007) e ficção, esta última pode ser ainda subdividida entre a ficção calcada no ambiente de apartheid e pós-apartheid, com tonalidades pós-coloniais (À espera dos bárbaros, de 1980; Foe, de 1986; Desonra, de 1999) e aquela mais recente, estranhamente "autobiográfica" (Elizabeth Costello e Homem lento, respectivamente de 2003 e 2005), caracterizando o período pós-Nobel, no qual o autor se muda "definitivamente" para a Austrália. Diary of a Bad Year, parte do qual foi lida pelo próprio autor na FLIP de 2007, poderá ser incluído nessa última categoria, embora os romances de Coetzee sejam esquivos a qualquer classificação.

O protagonista do "romance" Diary of a Bad Year, John C, um autor sul-africano, branco, de 72 anos, atualmente morando na Austrália, foi convidado para escrever suas reflexões sobre a situação do mundo. A primeira parte, chamada "Strong Opinions" (talvez uma crítica a Nabokov e sua coletânea homônima de entrevistas) será uma das contribuições por vários autores a um livro que seria publicado na Alemanha; a segunda parte intitula-se "Second Dairy", a qual a personagem Anya jocosamente chama "Soft Opinions". Os ensaios versam sobre as suas opiniões (às vezes, esquerdistas; às vezes, jocosos, mas sempre iconoclastas), abrangendo temas como a universidade, a música, a literatura, a democracia, o terror, a tortura, a prisão de Guantânamo, a culpabilidade e vários outros assuntos, inclusive críticas a Bush e Blair e à vida política na Austrália. Todavia, Anya, uma filipina bonita de 29 anos ("[with] a derrière so near to perfect as to be angelic"), moradora do mesmo prédio, entra na vida de John C, quando a contrata para digitar o manuscrito. O relacionamento entre John C e Anya tem profunda influência sobre a vida dos dois, transformando, inclusive, o relacionamento dela com Alan, o companheiro amoral com o qual ela vive. Empreendedor financeiro, trabalhando na ilegalidade, Alan tenta transferir as economias de John C para a sua própria conta bancária, mas desiste diante dos argumentos de Anya. Por sua vez, esta desenvolve profunda compreensão a um ancião que está rápida e inexoravelmente se aproximando da morte.

Não é fácil captar o enredo de Diary of a Bad Year, já que o romance é construído de três narrativas paralelas, visualmente localizadas por linhas que dividem as páginas do livro. A primeira estratificação, predominante, consiste em ensaios curtos e incisivos sobre a moralidade política, sexual e social da humanidade e, às vezes, sobre a literatura. Principalmente, versam sobre o tema da "vergonha herdada". "Dishonour is no respecter of fine distinctions. Dishonour descends upon one's shoulders, and once it has descended no amount of clever pleading will dispel it". Verifica-se, contudo, algo muito estranho num romance quando o relacionamento "metafisicamente sexual" é menos interessante do que várias páginas de comentários críticos. Ao longo do romance, os ensaios tornam-se pedantes, já que não há nada novo sobre o qual outros ensaístas não tenham discursado. Todavia, não deixam de ser prova do talento do autor que é capaz de imiscuir opiniões filosóficas e assuntos corriqueiros, além de instigar reflexões sobre a angústia nos países democráticos e em diferentes circunstâncias ao redor do mundo.

A segunda estratificação refere-se aos pensamentos de John C durante o período em que os ensaios são redigidos, ou seja, a narração autodiegética visa mostrar o desenvolvimento de seu relacionamento com Anya (semelhante ao papel de Marijana, a enfermeira croata que cuida de Paul Rayment, em Homem lento), a qual lhe proporciona assistência física e psíquica. Essa narração, descrevendo as emoções e as frustrações de John C, contrasta-se com os trechos cerebrais da primeira estratificação. Ressaltam-se suas experiências no contexto de seu corpo debilitado pela velhice, diante de uma mulher atraente para quem a vida intelectual vem em segundo lugar. "What has begun to change since I moved into the orbit of Anya is not my opinions themselves so much as my opinions of my opinions". Na terceira estratificação, situada ao pé da página, encontra-se a voz (ou pensamentos) de Anya, a qual discursa sobre e critica as possíveis e latentes intenções eróticas ("a metaphysical ache") de John C e sua extremada intelectualidade. Todavia, ela tem posição ética diante das propostas e atitudes fraudulentas de seu companheiro Alan e desenvolve uma atitude humanitária diante da velhice.

A inter-relação entre as três estratificações constitui o enredo desse "romance" no qual parece que Coetzee está mais interessado em sua relação com seus leitores do que na credibilidade e na caracterização de seus personagens. O leitor, sentindo-se manipulado pela forma diegética, pergunta-se quão engajadores poderiam ser os enredos ficcionais, quando comparados às relações mais imediatas entre o protagonista (com semblantes superficiais do autor) e sua platéia, de modo especial, quando ele se mostra "[as] some odd extinct creature [...] on the point of turning into stone". A sutileza de Coetzee vem, em seguida, na declaração: "Tread carefully [...] You may be seeing less of my inmost depths than you believe".

O desenvolvimento do "romance" acontece entre a desconstrução das idéias polêmicas e a segunda e a terceira narrativas paralelas; a primeira, compreendendo anseios frustrantes típicos de anciãos, aproximando-se ao isolamento e à morte; a outra, exemplificando tudo contra o qual John C está se rebelando. Semelhante às estratégias usadas nos outros seus "romances", na primeira década do século 21, é no ato da leitura que se percebe a linha movediça coetzeeana entre a mimese e a metaficção, por meio de "jogos" que revelam a percepção pelo autor do romance como forma flexível, repleta de possibilidades. Em razão de seu experimentalismo, essa abordagem pode não parecer ou ser bemsucedida, embora não se possa acusar Coetzee de se mergulhar na insignificância e nas trivialidades. Todavia, o mapeamento dos nexos esquivos entre os ensaios, o solitário John C, a compreensão de Anya e a amoralidade de Alan produzem um "romance" altamente revelador e crítico da condição humanidade. Este motif é uma metodologia que o estica além da forma, muito mais do que aquela praticada nos seus romances mais recentes, fazem com que Diary of a Bad Year seja, talvez, o "romance" menos tradicional de Coetzee.

Received on January 16, 2008.

Accepted on may 28, 2008.

Thomas Bonnici

Departamento de Letras, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Universidade Estadual de Maringá, Avenida Colombo, 5790, 87020-900, Maringá, Paraná, Brasil. E-mail: bonnici@wnet.com.br
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Author:Bonnici, Thomas
Publication:Acta Scientiarum Language and Culture (UEM)
Article Type:Reseña de libro
Date:Jan 1, 2008
Words:1241
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