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School essays and diaries: scandalous writing/Redacoes escolares e diarios: escritas do escandalo.

Elogio da madrasta (2009) e O caderno rosa de Lori Lamby (2005) sao obras que se equilibram tensamente entre a inocencia e a sexualidade, entre o perigo das palavras e a potencia da literatura. Entende-se melhor a complexidade desta situacao quando anunciamos o assunto espinhoso: a sexualidade infantil. Ate que ponto a arte pode mexer nos vespeiros culturais? Mais especificamente, qual e o limite da literatura que conspurca um dos ideais mais arraigados do nosso imaginario atual--a inocencia infantil?

Elogio da madrasta e o nome do romance de Mario Vargas Llosa, e tambem e o titulo da redacao escolar que o pequeno Alfonso escreve, causando o rompimento dramatico entre o pai Rigoberto e a madrasta Lucrecia. A partir da caligrafia infantil de tracos claros e redondos, do testemunho do garoto-- que acabara de fazer a primeira comunhao--que se deitava com a madrasta, o casal sofrera a total ruina do seu idilio amoroso. No conteudo maldito ou escandaloso do texto da crianca, a possibilidade de uma narrativa confessional, que concentraria a verdade da sexualidade infantil e quica a da propria infancia. Contudo, ha um detalhe: o texto nao e reproduzido no romance. Lido e acessado apenas pelo consternado Rigoberto, a redacao do pequeno Fonchito e apenas um indicador virtual das artimanhas da crianca escritora.

Por outro lado, aquilo que foi apenas sugerido em Vargas Llosa apareceria em toda a sua nudez em O caderno rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst. Nessa pequena novela em formato de diario, a pequena Lori narra todas as estripulias sexuais praticadas enquanto se prostitui com a ajuda da mae. A menina de 8 anos assume as redeas da narracao e relata, com muito prazer, de onde vem o dinheiro que ganha para comprar todos os brinquedos anunciados na televisao. Um dos livros mais escandalosos de Hilda Hilst, o famoso caderno rosa traz a escrita infantil em toda a sua potencia ludica e sexual, de certa forma realizando aquilo que Elogio da madrasta apenas anunciou como possibilidade. Na escrita de Lori, a vazao do dizer infantil, que descortinaria o misterio da sexualidade.

Tais narrativas, portanto, representam as criancas como seres sexuais e, o que e mais incomodo, sedutores. Sendo mais agentes do que vitimas na relacao com os adultos, as criancas de Llosa e Hilst ainda por cima se afirmam como escritoras, donas de seu discurso e, ao que tudo indica, de sua libido. Contrariando o que se depreende da etimologia do infante--o infans e o sujeito desprovido de fala, de linguagem--, essas criancas nao so falam e tem poder de agencia, como tambem elaboram em cadernos coloridos e redacoes escolares o seu proprio erotismo.

Contudo, a questao seria assim tao simples? Redacao, diario, escrita em primeira pessoa, testemunho, verdade? Nas obras de Llosa e Hilst, as criancas supostamente estao aprendendo a escrever, mas isso bastaria para pressupormos a limpida verdade por tras do seu discurso? Na escrita do infante, o abrir-se da sexualidade infantil? Antes de respondermos, adianto que as criancas de Vargas Llosa e Hilda Hilst se escondem nas tramas do texto: aquilo que parece uma verdade por demais escandalosa e moralmente incomoda-- a crianca enredada no sexo com os adultos--, subjaz um elaborado trabalho com a linguagem, agenciando tantos os temas da iconografia erotica tradicional como o mais profundo experimentalismo da forma. Ou seja, para alem da pedofilia rasteira e inescrupulosa, um jogo sofisticado com a arte e com a linguagem, em que a escrita infantil da volteios diante dos olhos do leitor. E a crianca mesmo quem escreve? E um adulto que simula o infante escritor?

Nem um nem outro: diante de nos, escritores que talvez tenham chegado bem perto--perto ate demais, de acordo com alguns leitores sensiveis. De fato, Mario Vargas Llosa e Hilda Hilst talvez tenham se aproximado perigosamente daquilo que poderia ser a escrita infantil, ou ate mesmo a propria infancia e sua insondavel sexualidade. Mas nao tanto para estabelecer um conceito ou essencia; fizeram-no, sim, entendendo que a linguagem e o universo da infancia se encontram na brincadeira com a lingua e com a arte. Como num jogo de encaixe de pecas sortidas (verbais e imageticas), a crianca brinca de (se) achar e de (se) esconder no mundo da criacao, da linguagem e do erotismo. A questao, nesse caso, se imporia nao tanto para as criancas, mas para nos mesmos: estamos prontos para jogar? Conseguiriamos levar a brincadeira ate o fim?

Num mundo em que somente os adultos tem acesso a palavra--libertinos e literatos que detem o poder de criacao, da fantasia erotica--, as criancas surpreenderao ao mostrar que sao capazes de jogar o jogo. Criadoras e criativas, elas brincarao com o mundo da arte e desvelarao formas desconcertantes, que farao libertinos e pornografos corarem de vergonha. A partir de uma folha de redacao e de um mimoso caderno rosa, a infancia se escondera nos enredamentos da linguagem e, nesse constante negaceio diante da representacao literaria, nem por isso deixarao de provocar sustos nos adultos (leitores e personagens) com suas escabrosas imagens e palavras.

A redacao e a tradicao

O mundo criado por Mario Vargas Llosa reprocessa toda uma especifica tradicao iconografica e literaria que, ao longo dos seculos, tratou e retratou o corpo e a vida dos sentidos, o sexo e as paixoes. Ja a obra de Hilda, por seu turno, e dedicada "A memoria da lingua", que aparece intensamente citada e parodiada a reboque de um processo complexo de intertextualidade, fundamental para compreendermos O caderno rosa... Em suas respectivas e diferenciadas tessituras, ambas as obras pagam tributo a grandes mestres do passado, seja deslocando-os parodicamente de seus contextos originais, seja reatualizando-os como saber que esclarece o presente.

O agente de seguros Rigoberto esconde, na sua biblioteca e nos seus cadernos, uma miriade de imagens e citacoes de autores classicos e contemporaneos que lhe alimentam o espirito e a libido. Enredando a propria esposa Lucrecia nas suas maquinacoes lubricas, que sempre se passam a noite no quarto do casal, o libertino cria enredos eroticos motivados ou refigurados por imagens consagradas da tradicao artistica. Nessa perspectiva, a forma de Elogio da madrasta estabelece um jogo de modelo e inspiracao com alguns classicos da pintura atraves de seis telas que pontuam momentos de inflexao do enredo. (1)

Na obra de Llosa, a relacao entre literatura e pintura permite "descontextualizar de forma radical as telas e converte-las em outras telas (cenas verbais), deslocando contextos, modificando hierarquias (...)" (CHIARA, 1996: 214-215). Por entre as cenas pictoricas e verbais que estabelecem um singular jogo ecfrastico, o pequeno Alfonso ira, aos poucos, se instalar no relacionamento entre pai e madrasta. A infancia, a principio, entra nesse reino da imaginacao soberana e assume ares mitologicos, eroticamente magicos, representando quase uma porta de entrada para deleites cada vez mais plenos e abismais. Nesse sentido, o querubim que e Alfonso se desvanece como uma das varias figuracoes pictoricas que povoam o mundo de Rigoberto e Lucrecia, o que atenua o teor polemico e potencialmente obsceno na relacao sexual entre enteado e madrasta. Conforme diria o pequeno cupido, numa das fantasias mitologicas de Elogio...: "Nem ela nem eu temos esses problemas de consciencia e de moral. Eu, porque sou um deusinho pagao, e ainda por cima inexistente, pura e simplesmente uma imaginacao dos humanos (...)" (VARGAS LLOSA, 2009: 80). Atraves dessa metafora, percebe-se que Alfonso proporciona a madrasta a vivencia de "uma coisa nao vivida e sim sonhada ou lida" (VARGAS LLOSA, 2009: 115):

Dona Lucrecia se inclinou e se aproximou dele. Apoiou a bochecha em suas costas lisas, sem um pingo de gordura, com um brilho de orvalho, em que se insinuava, como uma diminuta cordilheira, a coluna vertebral. Fechou os olhos e lhe pareceu ouvir o lento movimento do sangue temporao sob aquela pele elastica. "Esta e a vida pulsando, a vida vivendo", pensou, maravilhada. (VARGAS LLOSA, 2009: 114-115)

O carater imaginario da figura de Fonchito se reporta a um rol tradicional de imagens apolineas, cuja interposicao parece vedar qualquer tentativa de visao realista ou profana da imagem da crianca. Alfonso se apresenta com a roupagem angelical que remete a figura de Cupido na tradicao romana. Propiciador do amor, salvaguarda de Eros, ele descortina novas fronteiras eroticas para Lucrecia e, indiretamente, para Rigoberto. Por outro lado, seu aspecto fragil e ao mesmo tempo sedutor tambem replicaria a beleza dos efebos, objeto de fascinio do pensamento grego (Cf. FOUCAULT, 2010: 235 285). A infancia, portanto, se apresenta como um manto costurado de referencias a tradicao da inocencia e da imortalidade:

Os cachos despenteados de cabelo dourado, a boca entreaberta por causa da surpresa mostrando a dupla fileira de dentes branquissimos, os grandes olhos azuis arregalados tentando resgata-la das sombras da soleira. Dona Lucrecia permanecia imovel, observando-o com ternura. Que menino bonito! Um anjo de nascenca, um desses pajens daquelas gravuras galantes que seu marido escondia e trancava a quatro chaves. (VARGAS LLOSA, 2009: 12)

A relacao entre pintura e literatura marcara a obra ate o ultimo momento, quando a verdade vira a tona no lar aparentemente perfeito: descoberta a redacao de Alfonso, o "elogio da madrasta", Lucrecia e sumariamente expulsa de casa e Rigoberto se entrega amargamente a reclusao. A proposito desse desfecho, de uma maneira ao mesmo tempo fortemente alegorica, porem altamente difusa, o afresco de Fra Angelico intitulado "A anunciacao" tematiza um celebre episodio da mitologia crista e, ao mesmo tempo, instiga o ultimo capitulo da narrativa de Vargas Llosa, que se torna uma especie de glosa ao quadro. Vemos, dessa forma, que a pintura, antes um instrumento de excitacao dos sentidos e da criatividade erotica para os adultos de Llosa, tambem pode dar ensejo a catastrofe das revelacoes: a experiencia tragica e sexual de Lucrecia com o enteado se refigura e dialoga com a cena da anunciacao do anjo Gabriel a Maria. De fato, a equivalencia simbolica entre o menino Alfonso e a aparicao enigmatica do anjo Gabriel assinala um suposto recuo da narracao, o que parece demarcar o proprio recuo da figura do infante. Como o anjo Gabriel, que anuncia acontecimentos vindouros e subitamente desvanece diante dos olhos da mae de Jesus, a presenca de Fonchito tambem se dissolve em meio aos acontecimentos dramaticos do desfecho de Elogio de madrasta.

E interessante notar que, com esse expediente ficcional, o personagem infantil parece resistir a configuracao pelas tintas, na medida em que, no mundo erudito de fantasias pictoricas dos adultos, ele se esconde por tras da evanescencia de uma metafora: o enigmatico anjo mensageiro. De sua mensagem, o unico vestigio sera a redacao escolar, o "elogio" que paira como texto maldito na revelacao final do romance. Nesse sentido, e certo dizer que o misterio do pequeno Alfonso resiste duplamente: nao so por entre o jogo de correspondencias e reiluminacoes mutuas entre pintura e literatura, mas tambem como enigma textual, ja que a redacao intitulada "elogio da madrasta" nao e reproduzida ou sequer descrita na obra de Vargas Llosa. Permanece como um deitico narrativo, texto inconcebivel e temido, misto de escrita infantil e pornografia que parece impossivel de imaginar ou representar.

Nessa perspectiva, deparamo-nos com um texto que seria supostamente o relato da sexualidade infantil, que a retiraria da virtualidade e a traduziria na limpidez do discurso do inocente. Ha aqui, certamente, um paradoxo: trata-se de um texto que se declara fonte inequivoca de uma verdade, mas nao e dado nenhum indicio de sua representacao na obra. Nao ha pintura, imagem ou, ainda, molde discursivo a que recorrer para dar conta desse escrito. O final de Elogio da madrasta, portanto, paira sobre essa lacuna que e o texto de Fonchito: entrelugar que concentra a chave de todo o romance, ao mesmo tempo em que se impoe como texto indefinivel para o leitor. O enigma literario fica ainda mais desconcertante quando Alfonso alude a simplicidade e a objetividade de seu discurso:

Foi meu pai quem disse que ela estava me corrompendo. Eu so escrevi aquela redacao, contando o que nos faziamos. A verdade, ora. Nao menti nada. Eu nao tenho culpa de que a tenha mandado embora. Quem sabe era verdade o que ele disse. Quem sabe ela estava mesmo me corrompendo. Se meu pai disse, deve ser. (VARGAS LLOSA, 2009: 156)

A partir dessa fala, poderiamos dizer que Fonchito sabia estar sendo corrompido? Denunciava, assim, a madrasta que tanto amava? Ou, como todo menino bom e obediente, apenas endossa o julgamento moral do pai, nao enxergando maldade nas suas "brincadeiras" com Lucrecia? No final de tudo, acabam-se os quadros e as fantasias visuais, e resta o texto, o elogio maldito. Mas, sob que forma? Que palavras, descricoes ou frases se lhe adequam? Como aquilo que parece tao limpida verdade pode ter concretizacao tao difusa na obra de Llosa, e tao dificil no imaginario do leitor?

O caderno rosa e a pornografia

Interessantemente, observamos que, muitas vezes, uma obra literaria pode responder ao enigma proposto por outra. Conforme afirmamos antes, Hilda Hilst parece ter concretizado esse inimaginavel da escrita infantil que surge como miragem em Vargas Llosa. Lori Lamby, de certa forma, nos mostra aquilo que Alfonsito apenas mostrara ao pai: o relato da crianca entre a visao de mundo da inocencia e o enredamento nas fantasias sexuais dos adultos. Escrita "in loco", saida diretamente da mente infantil, tornando-se ainda mais inaudita por tentar narrar a sexualidade insondavel do infante. Nao seria por outro motivo que O caderno rosa de Lori Lamby se tornaria uma das obras mais controversas de Hilda Hilst, especialmente para aqueles que pouco conhecem o trabalho da escritora e que se deixam levar pela superficie polemica e pornografica da obra.

E necessario reconhecer, por outro lado, que a "verdade" de Lori Lamby acaba ate mesmo por suplantar a do filho de Dom Rigoberto, porque, agora, estamos na presenca de uma crianca que, inequivocamente, gosta do que faz e, ainda por cima, faz por dinheiro. Hilda Hilst nao so responde ao desafio proposto por Vargas Llosa como tambem leva a sexualidade infantil as raias do obsceno, na direcao do pornografico, do aviltante e do mercadologico. Dessa maneira, em comparacao a Elogio da madrasta, O caderno rosa se torna um discurso duplamente inimaginavel: realiza o discurso infantil em sua plenitude e, alem disso, insere-o de maneira impensavel no mundo do prazer consentido, do gozo escatologico, do dinheiro e da exploracao do corpo. Obra duplamente inimaginavel, portanto, mas que, dessa vez, se apresenta inequivocamente diante de nossos olhos incredulos.

Eis as superficies "intragaveis" da obra: a protagonista, de antemao, declara aquilo que sera o dado inescapavel para quem deseja focar o carater escandaloso do texto: "Eu tenho oito anos. Eu vou contar tudo do jeito que eu sei porque mamae e papai me falaram para eu contar do jeito que eu sei" (HILST, 2005: 13). Cada episodio sexual narrado por Lori tem como pano de fundo esse detalhe escabroso: os 8 anos, na primeira pessoa do singular. A pequena conta com a ajuda da mae para vender o seu corpo a toda sorte de homens reprovaveis, com a suposta bencao do pai escritor. No entanto, e importante lembrar que o entrecho "nauseante" ganha plena potencia no momento em que se torna escrita: "Eu disse que nao queria copiar ninguem, queria que fosse um caderno das minhas coisas" (HILST, 2005: 38).

As vivencias sexuais sao relatadas em um diario confeccionado pela menina, e e nesse exato contexto em que mais pesam a idade de Lori e o fato de que ela narra a partir de seu proprio ponto de vista. Trata-se da inocencia diretamente conspurcada, uma presuncao perigosa do que seja a sexualidade infantil. Por fim, tudo fica ainda pior quando sabemos que Lori Lamby escreve sua propria obra inspirada no escritor fracassado que e o seu pai, instado a escrever uma obra pornografica que finalmente venda mais que os seus livros, sofisticados e pouco apreciados pelo mercado editorial. Com isso, fica claro que Lori escreve nao apenas para se expor, mas escreve para vender. Seria o epitome da exploracao mercadologica do corpo da crianca e da propria infancia.

No entanto, e imprescindivel reconhecer que, da mesma maneira que Elogio da madrasta, o mundo de Lori Lamby e feito de tintas: nao a das pinturas a oleo, mas a da pena da ficcao e dos livros. O fato de a empreitada de Lori Lamby ser concomitante ao novo e degradante esforco literario do pai e indicativo de outras camadas subjacentes a obra, para alem do escandalo da pedofilia. Tudo no Caderno rosa pode ser ainda mais relativizado quando se descobre que a narrativa do pai de Lori e tambem sobre as aventuras sexuais de uma ninfeta, o que introduz um possivel jogo de mascaras entre narradores. No mais, ha ainda a dissolucao mimetica final: no desfecho do caderno, Lori admite que as suas memorias, na verdade, sao recriacoes suas, a partir de livros lidos em segredo da biblioteca libertina paterna, de fitas de video e revistas que apimentavam a vida conjugal dos progenitores, e de trechos copiados da propria obra pornografica que seu pai preparava para o mercado editorial.

O escandalo do Caderno rosa, a partir de entao, passa a ser nao tanto de corrupcao da imagem infantil, mas uma questao de ousadia da linguagem: o disparate de Lori Lamby nao e o de uma ninfeta assumidamente corrupta, mas sim de uma escritora que rompe todas as barreiras do bom gosto e da moral. O desconforto com as memorias sexuais de uma menina de 8 anos, obviamente, nao se atenua, sejam elas ficcionais ou nao; porem, o que passa a ser escandaloso, de fato, e a sua criatividade: "O papi e mami, todo mundo la na escola, e voces tambem, falam na tal cratividade [sic], mas quando a gente tem essa coisa, todo mundo fica bravo com a gente" (HILST, 2005: 96).

Tal representacao da infancia certamente se aproxima de uma inocencia farsesca, que surge numa instancia ficcional diametralmente oposta a que vimos anteriormente. O erotismo que o personagem de Fonchito anuncia e retrata sutil e esteticamente, a partir da linguagem muitas vezes barroca e edulcorada do narrador de Vargas Llosa, a menina de Hilda Hilst joga na "cara" do leitor, com palavras incomodamente singelas, que ganham subitamente um chocante vies pornografico:

Ai, tio, eu nao quero que voce fique pobre, e tao gostoso ter dinheiro, tao tao gostoso que ontem de noite na minha caminha, eu peguei uma nota de dinheiro que a mamae me deu e passei a nota na minha xixiquinha, e sabe que eu fiquei tao molhadinha como na hora que o senhor lambe? sabe porque eu fiz assim? eu pensei assim: se o dinheiro e tao bonzinho que a gente dando ele pra alguem a outra gente da tanta coisa bonita, entao o dinheiro e muito bonzinho. E eu quis dar um presente pro dinheiro. E um bonito presente pro dinheiro e fazer ele se encostar na minha xixiquinha, porque se voce, e o homem peludo, e o outro, e o Juca tambem gosta, ele, dinheiro, tambem gosta ne, tio? O senhor gostou de eu inventar xixiquinha em vez de xixoquinha? (HILST, 2005: 89)

Lori chafurda na insana fantasia de sua narrativa, unindo consumismo, exploracao do corpo e pedofilia, veiculando uma acida critica cultural a reboque do tratamento chocante da sexualidade infantil e do ludismo da linguagem da crianca. Contudo, antes de aferirmos confiabilidade a esse discurso polemico, secundados pelas interpretacoes socialmente responsaveis acerca da infancia, e necessario perceber que o mundo kitsch carregado de rosa de Lori Lamby nao e tanto uma tentativa realista de representacao da infancia, e sim uma afetacao da infantilidade, que, a despeito da violencia com que se mistura a pornografia, chama inevitavelmente a atencao para a estrategia de clicherizacao, de modalizacao da linguagem. A linguagem infantil e o sexo surgem como fatores que concorrem para um efeito de choque, de curto-circuito entre essas instancias, resultando numa especie de esgarcamento da verossimilhanca que desfigura a infancia na direcao de um infantilismo encenado. Nessa perspectiva, o elemento parodico deve ser levado em conta no que tange as representacoes da infancia e do sexo, que sao ressaltadas no livro como inequivocas formas de linguagem, pedindo "um estado de disponibilidade discursiva para as possibilidades ludicas das palavras" (CHIARA, 2003: 208).

Atuando nos niveis enunciativo e diegetico, a encenacao parodica da infantilidade em Hilda Hilst nao abre mao do riso e da violencia, na medida em que os referentes introduzem uma ordem de experiencia do fake, do artificio. Assim, o devassamento do corpo infantil nao passa da manipulacao de uma quase boneca: Lori, uma figuracao parodica da infancia, nao abre brechas para uma narrativa do aviltamento fisico e moral da infancia; as "coxinhas" e o "bumbum" permanecem intactos. Apesar do conteudo sexual, a boneca reproduz, de forma afetada e modalizada, todos os cliches de imagem e de linguagem atribuidos as criancas e, de certa maneira, a representacao assume a plasticidade de um quase desenho animado nonsense e libertino:

Ele comecou a me lamber como o meu gato se lambe, bem devagarinho, e apertava gostoso o meu bumbum. Eu fiquei bem quietinha porque e uma delicia e eu queria que ele ficasse lambendo o tempo inteiro, mas ele tirou aquela coisona dele, o piupiu, e o piupiu era um piupiu bem grande, do tamanho de uma espiga de milho, mais ou menos. Mami falou que nao podia ser assim tao grande, mas ela nao viu, e quem sabe o piupiu do papi seja mais pequeno, do tamanho de uma espiga mais pequena, de milho verdinho. Tambem nao sei, porque nunca vi direito o piupiu do papi. (HILST, 2005: 14)

Entre "coninhas" e "doninhas", procurando no dicionario as palavras que desconhece, brincando com os sons e os significados delas, a ingenua Lori Lamby nos da a possibilidade de pensar os proprios limites da potencia criativa da literatura, e da propria brincadeira com a linguagem. Assim, apos a desconstrucao mimetica do memorialismo que demarca o fim do diario--o mundo brutal e comico descrito no caderno arrematado como suposto produto da pena de Lori Lamby--, a pedofilia do Caderno rosa se torna objeto de uma reflexao mais no campo da lingua e do significante do que no campo da referencialidade e do sentido. Dessa forma,

O sexo tematizado no Caderno rosa poe a nu as possibilidades e impossibilidades de a palavra conferir imagens estaveis da realidade e evidencia o carater 'artificial', 'artistico', do como dizer. O realismo assume sua face equivoca para o leitor que so poderia participar de seu jogo se aceitar a premissa de desiludir-se e decidir de vez por todas a assumir seu papel no jogo constelar da linguagem. (CHIARA, 2003: 70)

Nesse sentido, assumir nosso papel de leitores dessa "doce e terna e perversa bandalheira" (HILST, 2005: 95) permite descortinar momentos privilegiados, em que a linguagem infantil surge menos como lugar-comum discursivo em meio a pornografia e mais como percepcao singular dos afetos, da realidade e da linguagem:

Sabe que eu estou fazendo uma confusao com as linguas? Nao sei mais se a lingua do Juca foi antes ou depois da lingua daquele jumento do sonho. Mas sera que essa e a lingua trabalhada que o papi fala quando ele fala que trabalhou tanto a lingua? (HILST, 2005: 83)

A escrita de Lori se torna, entao, um ato de "lamber" a lingua, a memoria da lingua. Uma possibilidade, portanto, de brincar com as linguas, com (o) prazer:

Entao eu repeti isso uma porcao de vezes, e ai eu senti uma especie de dor de barriga, mas uma dor de barriga muito gostosa, a gente nem liga pra essa dor. E uma dor coisa bonita, uma dor coisa maravilhosa (HILST, 2005: 67)

Escritas e criancas

Entre cupidos e bonecas falantes, a possibilidade de surpreender inesqueciveis imagens. Por entre as varias camadas de tradicao pictorica e literaria, as criancas surgem em cenas memoraveis, que provam a habilidade narrativa de Vargas Llosa e Hilda Hilst, criando seres ficcionais singulares e perturbadores. As criancas de Llosa e Hilst parecem partilhar de uma certa translucidez, nao so por aderirem as injuncoes do imaginario adulto, mas principalmente por se apresentarem como seres de tinta e palavras, conformados pelo imperio da arte. Alfonso e o querubim que se esgueira pelas cenas mitologicas de Rigoberto e Lucrecia. Lori Lamby e a boneca que fala, que se apresenta, acima de tudo, pelo seu "tatibitati escandaloso" (CHIARA, 2003: 68), um ser feito de pura linguagem. As criancas, portanto, sao feitas da mesma materia que constitui a imaginacao do adulto, inequivocamente revestidas de imaginario.

Em tensao parodica ou reverencial com a tradicao classica e a "memoria da lingua", tudo muda de figura quando as criancas resolvem escrever. As ligacoes entre aquilo que ficou em suspensao em Vargas Llosa e aquilo que aparece concreta e pornograficamente em Hilda Hilst aparecem quando pensamos no estatuto dos textos escritos por esses pequenos sedutores. Refiro-me aqui nao apenas ao texto polemico que, supostamente, daria voz a sexualidade infantil, mas tambem a determinadas condicoes de escrita e de leitura que, em Hilda Hilst, recebem um tratamento mais acabado, numa autentica praxis literaria que concretiza determinadas alusoes feitas nos livros de Llosa.

Em outras palavras: existe uma forte instabilidade na condicao de Lori Lamby como autora ou narradora do Caderno rosa, assim como Alfonso estabelece uma relacao difusa com o texto de que seria autor. A redacao "Elogio da madrasta" e um texto de inequivoca autoria, porem sem uma unica alusao ao seu conteudo. Diante desse texto maldito e enigmatico, esbarramos na dificuldade de religa-lo a uma voz univoca e delimitada, conectando a palavra escrita aquele que a escreve, o discurso ao seu autor. O escrito supostamente choca Rigoberto pela absurdidade das indecencias transcritas em caligrafia infantil, que destroem o seu mundo libertino e para sempre o separarao de Lucrecia. Mas ha um silencio em torno dessa redacao escolar. Tratar-se-ia de uma censura por parte de Vargas Llosa? Ou, talvez, a impossibilidade de concretizar verbalmente as intencoes de um personagem irrepresentavel pelas tintas, e ate mesmo pelas palavras?

Para alem da discussao sobre a verossimilhanca do escrito infantil, o que permanece e a soberania de um texto insondavel, e essa parece ser a pista seguida por Hilda Hilst: O Caderno rosa ... encerra um texto sem fundo, que circula pelos varios referentes possiveis, sem conseguir preencher qualquer protocolo de interpretacao e sem apontar uma voz narrativa unica que de conta do texto dito infantil e sexualizado. Na diccao de Lori Lamby, as imagens e as linguagens se misturam, e a figura da crianca acaba por se transformar em pura superficie verbal.

Os textos das criancas, em Elogio da madrasta e O caderno rosa de Lori Lamby, apresentam, portanto, determinadas fendas ou falhas, pelas quais aquele que supostamente esta por tras do discurso se dilui como sujeito dono de uma voz. Os escritos chamaram atencao por supostamente representarem uma verdade: a sexualidade infantil dita na primeira pessoa do singular, com todas as repercussoes e interpretacoes possiveis, desde as acusacoes de pedofilia ate uma possivel representacao do mundo pulsional infantil. Contudo, sendo ao mesmo tempo tudo e nada disso, os textos infantis recuam como questao insoluvel, permanecendo unica e exclusivamente como texto: escrita sem padrao previsivel na lingua, como em Fonchito; escrita infantilizada ao extremo, de "be-a-ba", porem sem sujeito fixo que se lhe atribua, como em Lori Lamby.

Com seus enigmas textuais, as criancas causaram a ruina dos universos imaginarios dos adultos. A soberania de Dom Rigoberto e Lucrecia cai por terra quando Fonchito decide por tudo no papel. Analogamente, quando Lori decide escrever a sua propria bandalheira, papai e mamae irao direto para a casa de repouso. Nessas puras superficies ficcionais, a possibilidade de o escrito infantil superar as expectativas de adultos: da brincadeira com o universo e a linguagem da crianca, surgem jogos e risos, brincadeiras eroticas, insinuacoes inocentes, ilusoes abismais. No entanto, quando Fonchito e Lori Lamby se escondem nas malhas textuais e, principalmente no caso desta ultima, se tornam seres literalmente feitos de palavras, a infancia passa a resistir duplamente: nao so como escrito escandaloso, que assusta o esteta libertino e o escritor pornografo, mas tambem como escritura autonoma, livre dos condicionamentos que determinam a estabilidade dos discursos adultos em geral.

O reconhecimento dessa dupla resistencia do escrito infantil advem da constatacao de uma segunda "cena" em meio ao escandalo da sexualidade infantil. Nas tramas de Elogio da madrasta e O caderno rosa de Lori Lamby, os pequenos escritores reviram e escandalizam a autoridade estetica dos pais. Todavia, com esse gesto, eles tambem sublinham uma especie de revolta ou de resistencia mais ampla, a saber, negando concepcoes que lhes exigem uma voz e uma sexualidade univocas, a inserirem a infancia ora no terreno da vitimizacao, ora na esfera corrupta da pedofilia. Portanto, o texto-tabu representa, implicitamente, um elemento de subversao do universo adulto, remetendo a uma cena subjacente em que, para alem da cena familiar de revolta a autoridade paterna, a crianca nega tambem um discurso alheio ao seu.

O mundo dos adultos e o da responsabilidade: quando, chocados, procuramos a crianca por tras das palavras, obedecendo aos nossos instintos sociais de protecao ou (o que e ainda mais temerario) buscando vislumbrar uma representacao da sexualidade infantil, estamos movidos precisamente por esse desejo de responsabilidade, de atribuicao de referentes, de papeis de mocinho e vilao. Furtando-se a isso, obscurecendo as estruturas tradicionais de enunciacao, o discurso infantil instaura, ao contrario, uma irresponsabilidade, no sentido de que se ausenta da autoria de seu discurso, permitindo-lhe, ainda por cima, brincar com o impensavel: o sexo, a infancia, a moral e a arte.

As escritas infantis nas historias de Mario Vargas Llosa e Hilda Hilst, portanto, se alimentam da "extrema perturbacao provocada pela ambiguidade narrativa causada pelo jogo entre o que a crianca sabe e o que ignora, entre a inocencia e uma sabedoria perversa" (CHIARA, 1996: 199). Nesse sentido, o texto do infante e produto de uma linguagem inquieta e, acima de tudo, soberana, com todos os seus perigos e armadilhas. Certamente, como escritores, Llosa e Hilst estavam conscientes do impacto de sua representacao do infantil. No entanto, devemos reconhecer que essa escrita infantil e tambem fruto da potencia da arte, prova de que a literatura ainda pode causar impacto, sendo, contudo, mero faz de conta. A pergunta, entao, se volta para nos: conseguimos ainda prosseguir com a brincadeira? No terreno docemente pantanoso da infancia?

O que significam essas ... fantasias--gaguejou, em meio a horrivel confusao que lhe atormentava a alma.--Voce ficou doido, pequeno? Como pode inventar essas sujeiras tao indecentes? (VARGAS LLOSA, 2009: 140)

http://dx.doi.org/10.1590/1517-106X/172-377

Referencias bibliograficas

CHIARA, Ana Cristina de Rezende. "Lori Lambe a memoria da lingua". In: NUNEZ, Carlinda Fragale Pate (Org.). Armadilhas ficcionais: modos de desarmar. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.

CHIARA, Ana Cristina de Rezende. Leituras malvadas. Tese de doutorado. PUC-Rio, Rio de Janeiro, 1996.

FOUCAULT, Michel. Historia da sexualidade II. O uso dos prazeres. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque. Sao Paulo: Graal, 2010.

HILST, Hilda. O caderno rosa de Lori Lamby. Rio de Janeiro: Globo, 2005.

VARGAS LLOSA, Mario. Elogio da madrasta. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

Renan Ji

Universidade Federal Fluminense

Niteroi, RJ

Brasil

(1) Em ordem de aparicao no romance, eis o conjunto das telas: Candaules, rei da Lidia, mostra sua mulher ao Primeiro Ministro Giges (1648), de Jacob Jordaens, oleo sobre tela, Museu Nacional de Estocolmo; Diana depois de seu banho, (1742), oleo sobre tela, Museu do Louvre; Venus com o Amor e a Musica (s.d.), de Tiziano Vecellio, oleo sobre tela, Museu do Prado, Madri; Cabeza I (1948), de Francis Bacon, oleo e tempera, colecao Richard S. Zeisler, Nova Iorque; Caminho para Mendieta 10 (1977), de Fernando de Szyszlo, acrilico sobre tela, colecao particular; A anunciacao (c.1437), afresco, Mosteiro de San Marco, Florenca. Fonte: VARGAS LLOSA, 2009: 4.

Renan Ji e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense e recentemente defendeu a tese intitulada Sexo de anjos: mito, infancia e sexualidade na literatura. Atua nos seguintes temas: mito, mitologia, literatura e cultura classicas e suas reatualizacoes nas poeticas da modernidade, literatura e cultura brasileiras, erotismo e pornografia na literatura, critica e teoria do teatro.

Recebido em: 14/03/2015

Aprovado em: 20/05/2015
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Ji, Renan
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:Jul 1, 2015
Words:5363
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