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Sarmiento and his monsters: warlords, desert and violence in Argentina of the 19th Century/Sarmiento e seus monstros: caudilhos, deserto e violencia na Argentina do seculo XIX.

O argentino Domingo Faustino Sarmiento nasceu na provincia de San Juan em 1811 e faleceu em 1888 em Assuncao. Foi jornalista e escritor, pertencente aos intelectuais da famosa Geracao de 1837, exercendo tambem atividades publicas significativas: participou do Ejercito Grande que lutou e derrubou o governo de Rosas, e mais tarde seria sucessivamente governador da provincia de San Juan, embaixador da Argentina nos Estados Unidos e presidente da Argentina. Apesar da enorme importancia intelectual e politica que teve em seu tempo, ainda e um autor pouco estudado em nosso meio. O proposito deste texto e abordar os aspectos mais chamativos na producao escrita de Domingo Faustino Sarmiento, um intelectual e politico multifacetado que ao longo de muitos anos publicou uma vasta obra buscando explicacoes para "atraso" e "barbarie" da Argentina, e por extensao para a America Latina como um todo; a compreensao destes "males" de origem seria condicao fundamental para que se chegasse aquela situacao contraria, o "progresso" e a "civilizacao" desenvolvidos nos grandes centros europeus, e que se encaminhavam a passos largos nos Estados Unidos.

O artigo esta constituido em quatro partes. A primeira traz alguns aspectos da formacao intelectual de Sarmiento. Na sequencia serao abordadas as suas concepcoes acerca da historia e como procurava no passado as explicacoes para o real. A terceira parte tratara das causalidades que o autor levantava para justificar o atraso da sociedade argentina, onde aparece claramente o que eles supunham fossem razoes naturais. A quarta parte salientara como Sarmiento propunha solucoes para os "males" do pais.

Para tanto, a escolha de um numero limitado de textos e arriscada, a obra de Sarmiento tem dimensoes gigantescas (1). Para atender aos objetivos propostos, dois livros servirao como eixo principal deste artigo: sua obra mais conhecida, Facundo, quando se afirmou como escritor em 1845 (SARMIENTO 1952); Conflicto y armonias de las razas, uma obra de "su vejez", de 1883 (SARMIENTO 1883). O exame de livros escritos com quase quarenta anos de interregno permitira observar que os "males" que afligiam Sarmiento eram os mesmos, mas que havia mudancas sutis nas suas interpretacoes sobre eles. Apoiando estes textos principais serao eventualmente trabalhados outros livros, contemporaneos daqueles: Facundo sera cotejado algumas vezes com El Fray Aldao, tambem de 1845 (SARMIENTO 1889); Recuerdos de provincia, de 1850 (SARMIENTO 2001); Argiropolis o la capital de los estados confederados del Rio de la Plata, tambem de 1850 (SARMIENTO 2011) e Campana del Ejercito Grande, de 1852 (SARMIENTO 1852). Ja Conflicto y armonias de las razas, tera eventualmente a companhia de El Chacho, de 1868 (SARMIENTO1973) e Conferencia sobre Darwin, de 1882 (SARMIENTO 2009).

Sarmiento: o autodidata e seus "cursos"

Domingo Faustino Sarmiento foi um dos tantos intelectuais americanos dos anos Oitocentos que procuraram "diagnosticar os males" do continente para buscarem a partir dai as solucoes cabiveis. Este autor foi um pioneiro--foi a partir de 1845 que produziu seus textos mais consistentes--na formulacao de uma matriz explicativa para os problemas da Confederacao Argentina e, por extensao, da America Latina, que foram muito bem representadas pelo binomio "civilizacao e barbarie", que ele tambem criou. A interpretacao de Sarmiento influenciou o pensamento de muitos intelectuais contemporaneos, nao apenas na Argentina, mas em paises onde viveu e escreveu artigos jornalisticos ou livros, como no Uruguai, no Chile e no Brasil. Mesmo nos Estados Unidos, que se tornou um modelo para os projetos que tinha em relacao a Argentina, editou alguns dos seus principais escritos.

Salientando a importancia ainda presente de Sarmiento, Diana Quattrochi-Woisson observa que a procura de uma identidade para o pais ainda passa pelo binomio "civilizacao-barbarie" tao caro ao autor, e que seus questionamentos sobre os "males" ainda se fazem presentes entre politicos e intelectuais (QUATTROCHI-WOISSON 1995, p. 38-39). Outros autores salientam os "combates" as ideias de Sarmiento desde distintas correntes politicas, desde o chamado Revisionismo Historico (STORTINI 2004) as faccoes de esquerda de inspiracao marxista (DEVOTO 2004). Mesmo fora do pais, Sarmiento serve como exemplo de intelectual que "renegou" sua identidade americana, professando sua escolha pelo paradigma civilizatorio europeu; e o caso do cubano Roberto Fernandez Retamar, que em Caliban, seu estudo sobre Marti, traz justamente Sarmiento como seu contraponto: "Los interlocutores no se llamaban entonces Prospero y Caliban, sino civilizacion y barbarie, titulo que el argentino Domingo Faustino Sarmiento dio a la primera edicion (1845) de su gran libro sobre Facundo Quiorga" (FERNANDEZ RETAMAR 2004, p. 44).

Nascido na cidade de San Juan, capital da provincia argentina de mesmo nome, em 15 de fevereiro de 1811, e falecido em Assuncao do Paraguai em 11 de setembro de 1888, Sarmiento foi contemporaneo de quase todo o longo ciclo de guerras civis que assolaram o Rio da Prata durante o seculo XIX. Neste periodo de transicao, as sociedades platinas que se haviam desvencilhado da dominacao colonial, passavam por serias dificuldades para se reorganizarem politicamente. As tentativas dos produtores de Buenos Aires, articulados ao mercado, externo em impor seus interesses, enfrentavam a resistencia das oligarquias fundiarias nao exportadoras a construcao de um Estado nacional, e as lutas internas foram ininterruptas praticamente de 1810 a 1862, quando se sacramentaria o pacto politico conhecido por Estado Oligarquico. A elite pecuaria de regiao portenha detinha a producao de maior valor comercial, e almejava um Estado centralizado--ou unitario--ao passo que as demais provincias procuravam sobreviver autonomamente, defendendo projetos federales nas disputas contra os portenhos.

Foi nesse meio que se destacou Domingo Faustino. Pertencendo a um grupo importante de jovens intelectuais, que se tornaram conhecidos como La Generacion de 1837, desde muito cedo se envolveu e participou das principais discussoes politicas do seu tempo (SHUMWAY 1975, p. 131-187). Carlos Altamirano tambem salienta a importancia que os homens daquela geracao, especialmente os que eram ligados ao Salon Literario de Buenos Aires (ALTAMIRANO 2005, p. 30). O proprio Sarmiento mencionou a importancia que teve seu amigo Manuel Quiroga Rosas, que em 1838 o entusiasmara com "las nuevas ideas que agitaban el mundo literario en Francia", citando autores como "Villemain y Schlegel en literatura, Jouffroi, Lerminnier, Guizot, Cousin, en filosofia e historia; Tocqueville, Pedro Leroux en democracia" (SARMIENTO 2001, p. 147). Este convivio de dois anos com os amigos Cortinez, Aberastain, Quiroga Rosas, Rodriguez e outros, Sarmiento considerou um "curso" de filosofia e historia, uma forma retorica de referir-se a seu autodidatismo (SARMIENTO 2001, p. 148). Os intelectuais do Salon Literario sao mencionados tambem em outras obras para marcar a presenca de um pensamento "civilizatorio" no pais que seria ferreamente perseguido e exterminado pelo governo de Rosas (SARMIENTO 1952, p. 157).

Dono de uma formacao intelectual tao diversificada, e apreendida de forma pouco sistematica pelas dificuldades para uma formacao academica convencional, e dificil classifica-lo em relacao aos movimentos culturais de seu tempo: dizer que ele se identificava com o Romantismo, com o Historicismo, 32 com o Ecletismo, com o Liberalismo, entre outros, a partir dos autores que privilegiava, traz o risco de interpreta-lo de maneira esquematica (ALTAMIRANO 2005, p. 39). Para este autor, nao se pode simplesmente abordar Sarmiento enquanto portador de uma doutrina explicativa da historia, do pensamento e da sociedade argentina, tampouco tratar das propriedades literarias do seu texto sem contextualiza-lo. Assim, se e inegavel que ele fez parte de um movimento progressista num pais dividido entre caudilhos da campanha e doctores da cidade, ele procurou obstinadamente uma interpretacao consistente para o passado (ALTAMIRANO 2005, p. 40). Neste sentido, Carlos Altamirano afirma que a historia escrita por Sarmiento era "iluminada con el auxilio de una teoria", como descreve: "Para Sarmiento, que en esto adoptaba uno de los preceptos de la concepcion romantica de la historia, entre el personaje y su medio existia una unidad organica: se reflejaban mutuamente" (ALTAMIRANO 2005, p. 46).

Outros autores, como Celina Lacay, discutem se esta influencia do Romantismo sobre Sarmiento foi tao importante. Salienta a autora que todas as ilacoes que se fazem entre Sarmiento e o Romantismo se baseiam nas afirmacoes que ele mesmo presta em seus textos, como no caso de Recuerdos de provincia (LACAY 1986, p. 47); quando ele publicou o livro em 1850 ele certamente ja havia lido os autores romanticos, mas isto nao afianca que estes ja estivessem presentes na sua formacao (LACAY 1986, p. 49). Para um autor que possibilita interpretacoes multiplas, como sugere Natalio Botana (SARMIENTO 2011, p. 13), provavelmente a que melhor lhe cabe e aquela tao inspirada que lhe atribuiu, em Historia de Sarmiento, o escritor Leopoldo Lugones: "Facundo y Recuerdos de provincia son nuestra Iliada y nuestra Odisea" (apud ALTAMIRANO 2005, p. 39).

Historia: explicar com o auxilio de uma teoria!

Ciente de que a luta pela independencia nao trouxera o desenvolvimento para as jovens nacoes latino-americanas, procurou pelas causas que explicassem o atraso da sociedade argentina em relacao as nacoes desenvolvidas. O significado de suas obras teria uma importancia enorme para justificar o modelo liberal como forma de desenvolvimento nacional, e pode-se observar nos seus textos uma vasta erudicao em relacao as principais contribuicoes cientificas, literarias e artisticas dos paises europeus "civilizados". Foi, alem disto, um homem de enorme atuacao politica a exemplo de seus contemporaneos. Conforme alerta Leandro Losada, "No por casualidad se ha senalado que la Generacion del '37 estuvo mas atenta a la reflexion sobre la sociedad que a los debates mas puramente esteticos." (LOSADA 2009, p. 98). Esta analise da sociedade inicialmente nao foi pensada com propositos propriamente politicos, como continua o autor:

En su momento de surgimiento, la Generacion del '37 penso una intervencion en la sociedad desde un lugar propiamente intelectual, como lo condensa despues de todo, su objectivo de maxima: "completar" el proceso iniciado en mayo de 1810 con una renovacion cultural y de ideas (LOSADA 2009, p. 98).

Uma caracteristica deste grupo era uma composicao "nacional", com representantes de outras provincias alem de Buenos Aires; se Echeverria e Lopez eram portenhos, Alberdi vinha de Tucuman e Sarmiento de San Juan, por exemplo (LOSADA 2009, p. 99).

Assim, a trajetoria que no futuro teriam alguns dos seus membros--como os casos exemplares de Sarmiento, Alberdi e Mitre--mostra que a participacao politica nas questoes nacionais nao estava distante dos seus interesses, mas para este autor "un caracter mas definido de "grupo de accion" fue una respuesta al tenso panorama que se delineo despues de 1838-1840" (LOSADA 2009, p. 98).

Sarmiento afirma nos seus Recuerdos de provincia que ainda muito jovem assistira e as manifestacoes fanaticas do Conego Castro Barros, que em 1827 defendia a campanha de Facundo Quiroga contra o presidente Rivadavia, identificando-a como uma luta da religiao contra a impiedade dos governantes portenhos: "Furibundo, frenetico, andaba de pueblo en pueblo, encendiendo las pasiones populares contra Rivadavia y la reforma, y ensanxhando los caminos para bandidos, como Quiroga y otros, a quienes llamaba los Macabeos" (SARMIENTO 2001, p. 141). O historiador Ariel de la Fuente ao tratar das guerras civis em La Rioja destaca o papel que teve esta pretensa defesa da religiao catolica pelos caudilhos como forma de associa-los ao atraso e a "barbarie" (FUENTE 2007, p. 208-209).

Quase ao final deste mesmo livro, Sarmiento adianta que, alem de ser protagonista na identificacao dos principais problemas argentinos e sul-americanos, foi tambem aquele que propos as solucoes mais arrojadas:

Sin duda que nadie me disputara en America Latina la triste gloria de Haber ajado masla presuncion, el orgullo y la inmoralidad hispanoamericana, persuadido de que menos en las instituciones que em las ideas y los sentimientos nacionales, es preciso obrar en America Latina una profunda revolucion [...] De ahi tambien el doble remedio indicado com igual anticipacion, emigracion europea y educacion popular [...] (SARMIENTO 2001, p. 181).

Parte desta "descoberta" que Sarmiento alega ser sua aparece numa de suas formas prediletas de escrever, a biografia. Se, como escreveu Natalio Botana, em Facundo ele afirmara que a autoridade politica se fundamentava "en el asentimiento indeliberado que una nacion da a un hecho permanente", residia na relacao de Rosas com a sociedade de seu tempo a presenca da "barbarie" (SARMIENTO 2011, p. 13). Alem da biografia de Facundo Quiroga, forma encontrada para explicar a Argentina de Rosas, ele ainda escreveu as dos caudilhos Fray Aldao e Chacho Penaloza, alem de nomes internacionais importantes como Franklin e San Martin. Aqui estaria para ele o grande merito da biografia: explicar as tendencias de uma sociedade em seu tempo atraves de uma historia de vida, e tambem divulgar bons exemplos e ideias (ALTAMIRANO 2005, p. 61). Para este historiador, esta associacao feita por Sarmiento entre biografia e historia, aparte sua originalidade, nao teve muitos seguidores, o que ja tinha sido observado por Martinez Estrada (ALTAMIRANO 2005, p. 25). Facundo alem de tudo foi um sucesso editorial: sua apresentacao inicial foi em formato de folhetim no jornal chileno El Progreso, com o titulo de "La vida de Quiroga".

Tambem Celina Lacay observara que em Facundo e El General Fray Aldao, ambas de 1845, ja apareciam os elementos que ela julgava essenciais para a ideia de historia de Sarmiento:

a) La historia como inteligibilidad; b) Cada individualidad historica aparece como representacion de una sociedad. Establece una relacion entre los hechos historicos, tendencias dentro de una sociedad e individualidades; c) Senala la existencia de partidos que expresan tendencias sociales irreconciliables entre si; d) Universalidad de la historia; e) La historia es un encadenamiento de distintas etapas cuyo resultado es el progreso (LACAY 1986, p. 54).

Esta tentativa de mostrar que homem e sociedade estabelecem uma relacao biunivoca foi captada por Natalio Botana de forma arguta que, "atribuyendo a Rosas el papel de quien practicando un vicio genera, sin quererla, la consecuencia de recrar alguna virtud", Sarmiento nao percebe a sociedade de forma estatica (SARMIENTO 2011, p. 15). Assim,

Parecia entonces que la historia, en una suerte de desenvolvimiento dialectico, habia dispuesto los elementos constitutivos de un poder de hecho, sin duda necesario, para limitarlo posteriormente o, sin mas vueltas, destituirlo [...] la hipotesis de que desde el seno de la guerra civil entre unitarios y federales se habia formado un poder de facto sin el cual nopodrian desarrollarse la sociedad politica y la libertad civil (SARMIENTO 2011, p. 16).

A nocao de que Sarmiento nao fazia uma simples compilacao de documentos ou que simplesmente arrolava diatribes contra os representantes da "barbarie" ja seria visivel em afirmacoes do proprio escritor, que confessava sua admiracao por Michelet. Neste sentido, Carlos Altamirano cita uma frase lapidar de Sarmiento em Los estudios historicos en Francia: "El historiador de nuestra epoca va a explicar con el auxilio de uma teoria, los hechos que la historia ha transmitido sin que los mismos que la describian alcanzasen a compreenderlos" (apud ALTAMIRANO 2005, p. 31). O mesmo autor observa ainda que na obra referencial ja de 1883, tida coma a mais amadurecida e ambiciosa, Conflicto y armonias de las razas en America Latina (SARMIENTO 1883), "revela el tributo que paga al clima positivista, pero no esta a altura de aquellos" (ALTAMIRANO 2005, p. 37). Isto muito provavelmente se relacione ja com a afirmacao da Teoria da Evolucao das Especies de Charles Darwin, que Sarmiento tratou de apropriar (SARMIENTO 2009).

Mas para o argentino a historia era fundamentalmente um territorio de combate. Para ela, os europeus em geral, e os franceses em particular, nao compreendiam a America Latina, incapazes, portanto, para avaliar a "barbarie" presente em Rosas e no caudilhismo. Alem de polemizar, Sarmiento tambem se propunha como capaz de planejar solucoes para a Argentina depois da eventual queda de Juan Manuel de Rosas. Em 1850, prenunciando as guerras de 1851 contra Oribe e de 1852 contra o proprio Rosas, o escritor lancou dois livros que apontam isto: Recuerdos de provincia (SARMIENTO 2001), ao menos nas paginas finais, e mais claramente Argiropolis o la capital de los estados confederados del Rio de la Plata (SARMIENTO 2011), onde antecipa a futura "federalizacao" de Buenos Aires (ALTAMIRANO 2005, p. 37).

Esses "combates" de Sarmiento sugerem a Carlos Altamirano uma insolita comparacao sobre a defesa obstinada que Sarmiento fazia de suas ideias junto aos seus pares na Franca com a mentalidade dos caudilhos platinos: "Hagamos aqui un paralelo: Sarmiento procedera a desafiar en el terreno intelectual, como lo habia hecho Rosas en el terreno militar, a los sabios y politicos europeos" (ALTAMIRANO 2005, p. 42-43). Esta analogia tambem havia ocorrido a Felix Luna no capitulo sobre Juan Facundo Quiroga de seu livro Los Caudillos: "Sarmiento acerto en la condicion sustancial de Quiroga porque en el fondo era tan barbaro como el. Tenia su misma pasion, su misma desmesura" (LUNA 1971, p. 137).

Sintomatico desta contradicao interna, quando de certa forma ele se comporta como aqueles a quem combate--mesmo que noutro campo de batalha--pode ser a epigrafe que escreveu justamente para seu Recuerdos de provincia, um dos mais celebres trechos de Macbeth de Shakespeare (que ele, alias, atribuiu erradamente a Hamlet): "Es este un cuento que, con aspavientos y gritos, refiere un loco, y no significa nada" (SARMIENTO 2001, p. 13). No prologo do livro, Susana Zanetti e Margarita Pontieri chamam a atencao para que estas contradicoes se traduziriam em uma tensao em aparentemente tres condicoes em que Sarmiento se apresenta no texto: ao mesmo tempo ele e autor, narrador e protagonista (SARMIENTO 2001, p. 10).

Na sequencia serao apresentados alguns dos principais aspectos desenvolvidos pelo escritor para explicar os "males" da Argentina, por extensao da America Latina. Em que pese a importancia das referencias que faz ao "despotismo" do Oriente, tanto em seu passado historico ou mitologico (muitas referencias ao Antigo Testamento) quanto nas nacoes contemporaneas, chama a atencao a insistencia no mundo feudal da Europa, como se fosse uma etapa ja ultrapassada pela "civilizacao", um modelo a ser buscado tambem para a America do seu tempo (ALTAMIRANO 2005, p. 57).

Um diagnostico "feudal" para a America: civilizacao e barbarie

O antagonismo expresso pelo binomio "civilizacao e barbarie" parte de uma visao paradigmatica das sociedades europeias, interpretando os casos distintos como desvios deste paradigma (CHIARAMONTE 1983, p. 52-63). Nesse sentido, para os autores romanticos do seculo XIX, entre eles Sarmiento, as sociedades latino-americanas estariam "atrasadas" em relacao as europeias, com elementos que as aproximavam delas e outros que teriam um carater desviante. A ausencia de "progresso" das antigas colonias apos a independencia inspirou Sarmiento a buscar relacoes de causalidade que justificasse aquele "atraso", apoiando o raciocinio numa interpretacao evolutiva. Mais tarde, os Estados Unidos entrariam nesta comparacao com a America Latina, o que mudaria esta ideia de uma progressao linear das sociedades. Assim, os problemas que apresentava a Argentina--e a America Latina por extensao--se deviam a causas naturais (ZORRILLA s/d, p. 9-10): uma relacionada as origens etnicas, e outra ao meio ambiente; derivadas delas sobrepunham-se a oposicao entre campo e cidade, e a persistencia do "feudalismo".

O problema das racas

No inicio de sua obra mais madura, Conflicto y armonias de las razas en America Latina (SARMIENTO 1883), o autor inicia o texto com questoes que servem de mote para o seguimento do texto. A pergunta "?Que es la America?" que intitula os prolegomenos do livro, seguem-se as seguintes:

Es acaso esta la vez primera que vamos a preguntarnos quienes eramos cuando nos llamaron americanos, y quienes somos cuando argentinos nos llamamos.

?Somos europeos?--!Tantas caras cobrizas nos desmienten!

?Somos indigenas?--Sonrisas de desden de nuestras blondas damas nos dan acaso la unica respuesta.

?Mixtos?--Nadie quiere serlo, y hay millares que ni americanos ni argentinos querrian ser llamados.

?Somos Nacion?--?Nacion sin amalgama de materiales acumulados sin ajuste ni cimiento?

?Argentinos?--Hasta donde y desde cuando, bueno es darse cuenta de ello. Ejerce tan poderosa influencia el medio en que vivimos los seres animados, que a la aptitud misma para soportarlo se atribuyen las variaciones de razas, de especies y aun de genero.

Es nuestro animo descender a las profundidades de la composicion social de nuestras poblaciones; y si por medio del examen hallasemos que procedemos de distintos origenes, apenas confundidos en una masa comun, subiriamos hacia las alturas lejanas de donde estas corrientes bajaron, para estimar su fuerza de impulsion, o la salubridad de las aguas que las forman, o los sedimentos que arrastran consigo (SARMIENTO 1883, p. 14).

De alguma forma, estas tantas perguntas acompanhavam Sarmiento desde seu despontar como pensador dos problemas nacionais. Desde seu Facundo (SARMIENTO 1952) a natureza do homem americano se fez muito presente. Assim, a dicotomia entre "civilizacao e barbarie" tem na questao racial uma ampla relacao de equivalencias que termina necessariamente em "homem europeu" e "homem americano". Neste ensaio de etnologia--a expressao e do proprio Sarmiento--o branco europeu e um tipo humano "superior" ao amerindio, ao negro e ao asiatico, sendo esta a contingencia ultima de seu crescimento intelectual, e consequentemente social e politico. Alem da presenca das racas inferiores, o autor salienta os indesejaveis efeitos da miscigenacao havida desde os tempos coloniais:

El pueblo que habita estas extensas comarcas, se compone de dos razas diversas, que mezclandose forman medios tintes imperceptibles, espanoles y indigenas [...] La raza negra [...] ha dejado sus zambos y mulatos [...] eslabon que liga al hombre civilizado con el palurdo [...] Por lo demas, de la fusion de estas tres familias ha resultado un todo homogeneo, que se distingue por el amor a la ociosidad y incapacidad industrial (SARMIENTO 1952, p. 23-24).

Aqui Sarmiento observa que foi o proprio sistema de exploracao colonial que causou este problema, na medida em que a necessidade de bracos fez com que os espanhois obrigassem os naturais da terra ao trabalho; dada a incapacidade inata destes, houve a opcao pela escravidao africana, o que se somaria a uma trajetoria destinada ao fracasso das sociedades latino-americanas:

Mucho debe haber contribuido a producir este resultado desgraciado la incorporacion de indigenas que hizo la colonizacion. Las razas americanas viven en la ociosidad, y se muestran incapaces, aun por medio de la compulsion, para dedicarse a un trabajo duro y seguido. Esto sugirio la idea de introducir negros en America, que tan fatales resultados ha producido. Pero no se ha mostrado mejor dotada de accion la raza espanola cuando se ha visto en los desiertos americanos abandonada a sus propios instintos (SARMIENTO 1952, p. 24).

Alem da concepcao da superioridade dos brancos em relacao aos demais, aparece de uma maneira mais velada, uma relativa inferioridade do europeu meridional em relacao ao do norte. Esta questao sera mais tarde de suma importancia para a apreensao que Sarmiento buscaria no evolucionismo de Darwin como apoio para suas ideias (SARMIENTO 2009). A mistura das racas--o que estava bem de acordo com as principais correntes etnologicas da epoca--seria ainda mais nefasta, provocando "degeneracao" dos descendentes de espanhois, sem trazer beneficios para os "inferiores".

Ja a ausencia de misturas raciais seria destacada como uma das explicacoes para o sucesso da colonizacao na America do Norte, na esteira da qual se construia o poderio dos Estados Unidos da America:

El norteamericano es, pues, el anglosajon, exento de toda mezcla con razas inferiores en energia, conservadas sus tradiciones politicas, sin que se degraden con la adopcion de las ineptitudes de raza para el gobierno, que son organicas del hombre prehistorico, bravo como un oso gris, su companero en los bosques de los Estados Unidos, amansado como una llama en la vasta extension del Peru, perezoso, sucio y ladron, como en las Pampas, y ebrio y cruel como en todo el mundo, incluso en las antiguas misiones, sino era hipocrita consumado, no obstante los idilios y consejas que esparcia por el mundo una sociedad de sabios, la cual daba la tonica de los cantos que debia entonar la orden en todas las lenguas para glorificacion de Dios y de su propio engrandecimiento (SARMIENTO 1883, p. 128).

Por mais ironica que pareca esta passagem, havia real admiracao do autor pelo trabalho realizado pelos jesuitas; no entanto, o seu "fracasso" se devera a uma ausencia das condicoes necessarias aos indigenas para o progresso e, alem disto, "porque los jesuitas hicieron mas, y fue estimular por motivos religiosos el odio natural del salvaje al hombre civilizado, del indio al blanco, del vencido al vencedor" (SARMIENTO 1883, p. 165).

A respeito dos negros, Sarmiento nao e menos mordaz, atribuindo sua presenca na America a partir de uma avaliacao equivocada--inspirada por uma ideia caridosa de Las Casas--que nos tempos contemporaneos ao autor cobrava seus efeitos. Neste sentido, fazia eco aos cientistas que percorriam as selvas africanas preocupados com a preservacao dos nativos. Assim como em relacao aos indigenas, o contato inter-racial com os negros deveria ser evitado:

Los negros figuran ya en la politica americana como los indios en America; y acaso los negros alla, en el Sur al menos, en sus hijos, tendran que expiar el error de sus antecesores de haber sacado del Africa y de su modo de ser, razas que Dios reserva para mundos futuros, acaso para el que preparan Livingstone, Stanley y Brazza en el Rio Congo, el Zambrezi y sus tributarios (SARMIENTO 1883, p. 39).

Neste mesmo trecho, o autor informa que Buenos Aires em 1770 tinha uma populacao ao redor de 16.000 habitantes, dos quais tres ou quatro mil eram criollos, mais uns mil peninsulares. "Todos los otros habitantes (once mil) son mulatos, mestizos y negros" (SARMIENTO 1883, p. 39). Para o autor, pois, a tarefa de um governo realmente preocupado com o "progresso" passaria necessariamente por um redimensionamento da populacao. Antecipava-se a justificativa para uma nova imigracao europeia, que se daria no apogeu do Estado oligarquico. Tal imigracao tinha uma conotacao de "depuracao" racial, essencial dentro da tarefa "civilizadora" do Estado. Papel analogo tambem era reservado--e isto desde os tempos de Rivadavia--para a Conquista del Desierto, com a ocupacao militar da Patagonia e exterminio dos indigenas, aos moldes da ocupacao das Grandes Planicies nos Estados Unidos.

A determinacao pelo meio ambiente

Sarmiento era um voraz leitor dos naturalistas de seu tempo: Lineu, Agassiz, Cuvier, os visitantes Bompland, Humboldt e Bravard, e mais tarde o proprio Darwin. As apreciacoes que desenvolvia sobre estes autores eram quase sempre muito apropriadas, mostrando o carater realmente "cientifico" que buscava para apoiar suas teses. Neste sentido, ele assumira como que o meio ambiente era o determinante em ultima instancia da infinita variedade da vida na Terra: "Ejerce tan poderosa influencia el medio en que vivimos los seres animados, que a la aptitud mismo para soportarlo se atribuyen las variaciones de las razas, de especies y aun de genero" (SARMIENTO 1883, p. 14).

De acordo com esta optica que e propria da visao historicista romantica de seu tempo, a interdependencia de homem e paisagem, no exame do caso argentino entrariam em jogo duas variaveis que se somavam: a extensao territorial que implicava num vazio populacional relativo, e a hostilidade caracteristica do ambiente natural na regiao pampiana:

El mal que aqueja a la Republica Argentina es la extension; el desierto la rodea por todas partes, se le insinua en las entranas; la soledad, el despoblado sin una habitacion humana [...] Esta extension de las llanuras imprime, por otra parte, a la vida del interior cierta tintura asiatica que no deja de ser bien pronunciada [...] Asi es como en la vida argentina empieza a establecerse por estas peculiaridades el predominio de la fuerza brutal, la preponderancia del mas fuerte, la autoridad sin limites y sin responsabilidad de los limites y sin responsabilidad de los que mandan, la justicia administrada sin formas y sin debates (SARMIENTO 1952, p. 23).

Neste sentido, Facundo poderia ser pensado como portador de um "espirito" da natureza que o rodeava, expressao de uma epoca e de seu povo (ALTAMIRANO 2005, p. 57). Assim, nao e de estranhar que Sarmiento, vez por outra, se apoie em novelistas, como faz nas diversas vezes em que equipara a dura vida dos habitantes dos pampas argentinos com aquelas dos norte-americanos, descrita nos romances, como a serie The leatherstocking tales, de James Fenimore Cooper. Para Carlos Altamirano, haveria aqui ate certa curiosidade pelo aspecto "poetico", ou ate "romantico" desta "barbarie" trazida pela literatura (ALTAMIRANO 2005, p. 51). Para Adolfo Prieto, a consagracao de Cooper com os romances O ultimo dos moicanos e A pradaria, de grande difusao nos Estados Unidos e fora deles, "permitieran directas analogias con las modalidades de la vida pastoril em la Argentina, se proponia como una combinacion de atractivos irrenunciables en las circinstancias y en el contexto en los que Sarmiento decidia sus opciones de escritor" (PRIETO 2003, p. 168). Neste sentido, e exemplar o que escreveu Sarmiento:

Cuando leia en el Ultimo de los mohicanos de Cooper, que Ojo de Halcon y Uncas habian perdido el rastro de los Mingos en un arroyo, dije para mi: van a tapar el arroyo. Cuando en La pradera el Trampero mantiene la incertidumbre y la agonia mientras el fuego los amenaza, un argentino habria aconsejado lo mismo que el Trampero sugiere al fin, que es limpiar un lugar para guarnecerse, e incendiar a su vez, para poder retirarse del fuego que invade sobre las cenizas del punto que ha incendiado. Tal es la practica de los que atraviesan la Pampa para salvarse de los incendios del pasto (PRIETO 2003, p. 33).

Da mesma forma que Cooper, Adolfo Prieto destaca a importancia igualmente cobrada pelo poema La cautiva de Esteban Echeverria que, incorporado em Facundo (SARMIENTO 1952), reconheceria uma continuidade entre estes escritores romanticos do seculo XIX que se empenhavam, nao apenas no desenvolvimento das respectivas literaturas nacionais, como atribuiam a elas a possibilidade de divulgacao das peculiaridades dos seus paises. Sarmiento, em relacao a isto, "establecia, de paso, un estatuto de excelencia desde el que podia saludar la aparicion de los primeros escritos distintivos de los miembros de su generacion" (PRIETO 2003, p. 169-170).

A vida no desierto--e que praticamente nao se alterou quando se estabeleceram as estancias de criacao--obrigara seus povoadores ao convivio com o sacrificio dos animais, habituando-os ao sangue derramado, o que se estenderia mais tarde aos inimigos nos campos de batalha. Tambem o uso dos cavalos, muito prolificos nos pampas, formava outra das bases para as montoneras (2) nas guerras civis; neste sentido, Sarmiento salienta a precocidade com que iniciava esta a intimidade dos homens da campanha com as montarias e com os instrumentos de trabalho das grandes propriedades pecuarias:

Los ninos ejercitan sus fuerzas y se adiestran por placer en el manejo del lazo y de las boleadoras [...]; cuando son jinetes, y esto sucede luego de aprender a caminar, sirven a caballo algunos quehaceres; [...] cuando la pubertad asoma, se consagran a domar potros salvajes [...]. Aqui principia la vida publica, dire, del gaucho, pues que su educacion ya esta terminada (SARMIENTO 1952, p. 29).

A referencia aos cavalos como inseparaveis das plebes rurais se estendeu aos demais habitantes do "deserto". Neste sentido, o papel dos homens brancos que se haviam "degenerado" nestes espacos, ao inves de trazer habitos "civilizados" contribuira para aumentar o carater indomito dos indigenas. Comparando com as areas andinas, onde o uso do cavalo pelos indigenas era impossivel, Sarmiento adverte:

Por el contrario, en Venezuela y la Republica Argentina los llaneros y la montonera han ejercido suprema influencia en las guerras civiles, habilitando a las antiguas razas a mezclarse y a refundirse, ejerciendo como masas populares de a caballo la mas violenta accion contra la civilizacion colonial y las instituciones de origen europeo, poniendo barreras a la introduccion de las formas en que reposa hoy el gobierno de los pueblos cultos (SARMIENTO 1883, p. 158).

Percebe-se, pois, que somada a "natural" inferioridade das racas que povoavam a America Latina, acrescentar-se-ia a negatividade do meio ambiente, que torna os homens selvagens, ociosos e virtualmente irredutiveis a "civilizacao".

Finalmente, alem do efeito que exerce diretamente sobre os homens, a geografia do pais permite outra deducao sagazmente feita por Sarmiento para justificar a necessidade de um governo unitario, centralizado em Buenos Aires: a propria natureza assim o exigia, ja que se tratava da unica abertura para o Atlantico, sendo o Rio da Prata a confluencia "natural" de todos os principais rios, vale dizer de todo o pais:

Norte America esta llamada a ser una federacion, menos por la primitiva independencia de las plantaciones, que por su ancha exposicion al Atlantico y las diversas salidas que al interior dan en San Lorenzo al Norte, el Misisipi al sur y las inmensas canalizaciones al centro. La Republica Argentina es una y indivisible (SARMIENTO 1952, p. 22).

Portanto, os Estados Unidos--quase sempre citados como modelo para a organizacao politica da Argentina--tinha razoes para adotar um sistema federalista a partir de caracteristicas naturais que nao se repetiam no Rio da Prata.

O campo contra a cidade

Algumas consideracoes sao pertinentes antes de considerarmos os escritos de Sarmiento em relacao ao contraponto entre campo e cidade no espaco platino. No inicio de suas atividades literarias e jornalisticas, Sarmiento nao tinha a mesma repulsa ao Federalismo que ja caracterizava contemporaneos seus, Juan Bautista Alberdi e Esteban Echeverria em particular. Provavelmente isto se deva pela amizade que desfrutava com Nazario Benavidez, o governador de San Juan que pertencia ao Partido Federal; mesmo alinhado com Rosas, Benavidez era tolerante com Sarmiento, e nao o perseguiu apesar dele defender suas ideias liberais (ALTAMIRANO 2005, p. 32). Por outro, nao foi ele o criador da celebre antinomia "civilizacao e barbarie", que ja fazia parte do vocabulario intelectual da Ilustracao, e que na Argentina estava presente desde o inicio do seculo XIX; a Sarmiento de pode atribuir a enfase no uso desta formula e sua disseminacao no pensamento americano, e mesmo ocidental (ALTAMIRANO 2005, p. 50).

Ha uma contradicao no "diagnostico" da barbarie feito por Sarmiento: o mesmo ambiente hostil que serviu para justificar a rusticidade e brutalidade dos habitantes do pampa, tambem se mostra farto e generoso, pois o gado "alcado" supria todas as necessidades imediatas. Aquelas planicies que constituiam o desierto por um lado, de outra parte nao estimulavam o desenvolvimento da inteligencia humana e o trabalho coletivo na luta contra as adversidades:

La procreacion espontanea forma y acrece indefinidamente la fortuna; la mano del hombre esta por demas; su trabajo, su inteligencia, su tiempo no son necesarios para la conservacion y aumento de los medios de vivir. Pero sin nada de esto necesita para lo material de la vida, las fuerzas que economiza no puede emplearlas como el romano: faltale la ciudad, el municipio, la asociacion intima, y por tanto, faltale la base de todo desarrollo social; no estando reunidos los estancieros, no tienen necesidades publicas que satisfacer: en una palabra, no hay 'res publica' (ALTAMIRANO 2005, p. 27).

Torna-se interessante aqui um paralelo entre estas observacoes de Sarmiento com diagnostico analogo feito pelo "ilustrado" espanhol Felix de Azara em sua celebre "memoria" de 1800 (AZARA 1943). (3) A abundancia do gado bovino era responsavel pela ociosidade nas areas rurais, pois todos os escassos bens de que a plebe rural dispunha para a vida frugal que levava provinham do abate das reses xucras.

Desta forma, a campanha argentina apresenta um atraso que precisa ser revertido atraves de uma modificacao levada em dois sentidos: desenvolvimento de comunicacoes que desfizessem o isolamento, e mudancas na atividade economica, trazendo populacoes "superiores" que vejam no trabalho da terra uma possibilidade de riqueza, e buscando sua riqueza individual tragam o bem da coletividade--uma sintese quase do pensamento liberal.

Por outro lado, se na campanha se localiza todo o atraso, e nas cidades portuarias que se concentrava quase uma transposicao da civilizacao europeia. As multiplas atividades proporcionadas pela cidade, beneficiada com o contato facil com o exterior, faziam dela a antitese do que se operava no interior. Sarmiento e explicito quando atribui aos governos unitarios o projeto "civilizador" com bases na cidade:

El ano 1820 se empieza a organizar la sociedad, segun las nuevas ideas de que esta impregnada; y el movimiento continua hasta que Rivadavia se pone a la cabeza del gobierno. Hasta este momento Rodriguez y Las-Heras han estado echando los cimientos ordinarios del gobierno libre (SARMIENTO 1952, p. 79).

Neste sentido, os anseios por modernidade e superacao do passado colonial seriam tao generalizados que a capital portenha poderia avancar em relacao aos modelos europeus. A conjuntura da Restauracao se constituia num obstaculo que nao era vivido pela jovem nacao que se organizava, sob a lideranca de Buenos Aires:

Rivadavia viene de Europa, se trae a la Europa; mas todavia desprecia a la Europa; Buenos Aires (y por supuesto, decian, la Republica Argentina) realizara lo que la Francia republicana no ha podido, lo que la aristocracia inglesa no quiere, lo que la Europa despotizada echa de menos. Esta no era una ilusion de Rivadavia; era el pensamiento general de la ciudad, era su espiritu, su tendencia (SARMIENTO 1952, p. 79).

Para Sarmiento nao existia qualquer possibilidade de chegar ao progresso que nao passasse pelo desenvolvimento urbano. Neste sentido, o avanco da "civilizacao" se confundia com refinamento e elegancia, o que se coadunava com os padroes parisienses e londrinos. Assim escreveu ele:

La ciudad es el centro de la civilizacion argentina, espanola, europea; alli estan los talleres de las artes, las tiendas del comercio, las escuelas y colegios, los juzgados, todo lo que caracteriza, en fin, los pueblos cultos. La elegancia en los modales, las comodidades del lujo, los vestidos europeos, el frac y la levita, tienen alli su teatro y su lugar conveniente (SARMIENTO 1952, p. 25).

No entanto, como salienta Adolfo Prieto, o escritor exagerou ao atribuir as ciudades provinciais argentinas as caracteristicas que eram proprias a Buenos Aires. Ao identificar uma "ruralizacao" (CHIARAMONTE 1991, p. 21-54)--que efetivamente ocorreu como consequencia ao processo de descolonizacao nas antigas ciudades coloniais das provincias, Sarmiento as eleva a um grau de desenvolvimento urbano que nunca haviam ostentado. Escreve Prieto:

Al extender el estatuto de Buenos Aires, ciudad comercial, al resto de las ciudades del pais, que no lo eran, impresiona tanto como una decision politica tendiente a analizar un frente de oposicion neto a todo lo significado por la campana, como una determinacion literaria de trabajar con los efectos simplificadores del contraste (PRIETO 1996, p.163).

Fica assim bem caracterizada uma dualidade observada por Sarmiento; conviviam simultaneamente duas sociedades, e aquela que se inseria no mundo moderno, necessariamente transformaria a outra. Esta e a base para o raciocinio de Sarmiento de que existem etapas historicas a serem transpostas: o mundo moderno esta presente "objetivamente" nas cidades ou no litoral, mas o interior, onde predominam as atividades rurais ainda aos moldes coloniais, esta atrasado em relacao a este desenvolvimento, pertencendo a uma etapa ainda "feudal".

Carlos Altamirano atenta para outra condicao atribuida por Sarmiento as cidades do espaco platino, alem daquela mais visivel de que na campanha e nos seus caudilhos residia a "barbarie", por incompatibilidade com o carater agregador dos espacos urbanos, oposto a dispersao do "deserto", que favorecia os poderes pessoais. Sarmiento referia-se a duas guerras sustentadas pelas cidades--especialmente Buenos Aires--ao longo do seculo XIX: uma vitoria delas contra a ordem colonial espanhola; e uma guerra inconclusa dos caudilhos provincianos e suas montoneras que se dirigia contra qualquer tipo de ordem social (ALTAMIRANO 2005, p. 49).

Este e o aspecto central da sua obra, pois e a primeira vez que surge o "diagnostico feudal" (CHIARAMONTE 1983) como explicativo para os problemas da Argentina no rumo da "civilizacao".

As montoneras e o feudalismo

Para Sarmiento, os gauchos eram homens abarbarados, que formavam as montoneras a servico dos caudilhos, atuando como se fossem milicias pessoais. Ele acentuava que estes campeiros viviam em meio ao morticinio dos animais, ao uso das armas brancas e ao correr de sangue, nas tarefas cotidianas do pastoreio, o que traria um condicionamento "natural" a uma vida voltada para a violencia. Apos o "aprendizado" nas estancias, o uso das armas brancas passaria a ser motivo de muitos conflitos nas reunioes em boliches e pulperias, lugares frequentados pelos ociosos e malentretenidos que buscavam diversao e confusoes:

El gaucho, a la par de jinete, hace alarde de valiente, y el cuchillo brilla a cada momento, describiendo circulos en el aire, a la menor provocacion, o sin provocacion alguna, sin otro interes que medirse con un desconocido; juega a las punaladas, como jugaria a los dados. [...] Su objeto es solo 'marcarlo', darle una tajada a la cara, dejarle una senal indeleble (SARMIENTO 1952, p. 42).

Nos casos em que ocorriam homicidios--fossem eles intencionais ou involuntarios--os criminosos habitualmente encontravam guarida em lugares mais afastados, pois sempre haveria algum caudilho precisando de homens adequados para suas forcas irregulares. As autoridades legais nao tinham, assim, possibilidades de punirem ou sequer capturarem estes foragidos da justica:

Si sucede una "desgracia", las simpatias estan por el que desgracio; el mejor caballo le sirve para salvarse a parajes lejanos, y alli lo acoge el respeto o la compasion. Si la justicia le da alcance, no es raro que haga frente, y si "corre la partida", adquiere un renombre desde entonces, que se dilata sobre una ancha circunferencia (SARMIENTO 1952, p. 43).

Os chefes destes bandos, formados por "barbaros" que resultaram do condicionamento combinado de fatores raciais e ambientais, passando pela criacao no meio das carnificinas das estancias de criacao, seriam os responsaveis por associacoes que se dispersavam na vastidao dos pampas, ciosos de seus interesses privados e avessos a programas centralizadores que afetassem suas prerrogativas.

Para Sarmiento--mesmo "sin buscar tipos historicos como los Borgias" (SARMIENTO, 1883 p. 167)--estas caracteristicas definiam estas sociedades como "medievais" ou "feudais", e os caudilhos das montoneras provinciais seriam as versoes contemporaneas dos "baroes" da Europa medieval:

Ignoro si el mundo moderno presenta un genero de asociacion tan monstruoso como este. [...] Es, en fin, algo parecido a la feudalidad de la Edad Media, en que los barones residian en el campo, y desde alli hostilizaban las ciudades y asolaban las campanas, pero aqui faltan el baron y el castillo feudal. Si el poder se levanta, es momentaneamente, es democratico: ni se hereda, ni puede conservarse, por falta de montanas y poblaciones fuertes (SARMIENTO 1883, p. 27).

O caudilho exercia um poder pessoal em relacao aos seus comandados sem a intermediacao de quaisquer instituicoes sociais "civilizadas" tais como partidos politicos, eleicoes ou formas democraticas de representacao. Num outro texto estas relacoes de natureza "feudal" sao bem explicitadas, e a popularidade de caudilhos como Facundo Quiroga ou Chacho Penaloza so era compreensivel pela "barbarie" no campo:

La tradicion es, por otra parte, el arma colectiva de estas estolidas muchedumbres embrutecidas por el aislamiento y la ignorancia. Facundo Quiroga habia creado desde 1825 el espirito gregario; al llamado suyo, reaparecia el levantamiento en masa de los varones a simple orden del comandante o jefe: la primitiva organizacion humana de la tribu nomade, en pais que habia vuelto a la condicion primitiva del Asia pastora. El sentimiento de obediencia se transmite de padres a hijos y al fin se convierte en segunda naturaleza. El Chacho no uso la coercion que casi siempre es necesaria para los gobiernos cultos llamar varones a la guerra (SARMIENTO 1973, p. 75).

Ja foi destacado neste artigo o papel que tiveram as biografias na obra historica de Sarmiento. No entanto, muitas vezes de discute porque a suas escolhas em relacao a Aldao e Facundo se--como ele mesmo salienta nestes livros--o alvo de seus ataques era Rosas. Adolfo Prieto oferece uma interessante interpretacao, ligada ao proprio ato de escrever uma biografia, que teria muito menos cuidados quando o personagem tratado ja tivesse falecido:

Tambien en el reemplazo de la figura de Rosas por la de Quiroga parece advertirse esta practica de acomodacion. Rosas, la obsesion por Rosas, es transparente a lo largo del texto, pero el gobernador de Buenos Aires, en la plenitud de su ciclo vital, era improbable sujeto de una biografia. Quiroga, en cambio, lo era, porque, muerto desde hacia diez anos, tenia clausuradas sobre su memoria, su historia y su leyenda, todas las llaves de interpretacion y fabulacion disponible (PRIETO 1996, p. 164).

Desta determinacao nao fugiam sequer representantes do clero. Muitas vezes houve parocos e capelaes envolvidos nas montoneras, na medida em que os principais lideres unitarios preconizavam governos laicos, com separacao da Igreja do Estado; no entanto, o caso do Padre Aldao foi muito significativo para este diagnostico "feudal" que Sarmiento imputava ao mundo rural argentino. Filho de importantes proprietarios de terras de Mendoza, o religioso Felix Aldao ainda muito jovem esteve presente de forma ativa na batalha da Guarda Vieja em 1817, nas tropas de Las Heras:

Era el capellan segundo de la division que, arrastrado por el movimiento de las tropas, exaltado por el fuego del combate, habia obedecido al fatidico grito de !a la carga! precursor de matanza y exterminio de San Lorenzo. Al regresar la vanguardia victoriosa al campamento fortificado que ocupaba el coronel Las Heras con el resto de su division, las chorreras de sangre que cubrian el escapulario del capellan, revelaron a los ojos del jefe, que menos se habia ocupado en auxiliar a los moribundos, que en aumentar el numero de los muertos (SARMIENTO 1889, p. 3).

O envolvimento do padre Aldao com a politica de sua provincia, que resultou mais tarde no cargo de governador, tornou-o um dos principais seguidores de Rosas. Assim, suas funcoes religiosas tornaram-se praticamente nulas, obscurecidas pela sua atuacao militar e pela adocao de habitos pouco adequados aos seus votos, como o alcoolismo e o concubinato. Sarmiento e implacavel: "El desprecio que concitaba su posicion equivoca estaba presente en sus ojos, y aun en la epoca de su tirania, la palabra fraile lo heria como una mordedura". Aldao, entao, escondia suas relacoes excusas: "Alli, lejos de las miradas del publico, en seno de su familia, podia verse llamado de padre por sus hijos, sin mas zozobra que el recuerdo amargo de que en otro sentido se le habia llamado el padre Aldao" (SARMIENTO 1889, p. 7). Na biografia de Aldao, Sarmiento procura associa-lo aquela imagem do alto clero oriundo das familias da aristocracia na Europa medieval.

Numa das tantas arengas contra Rosas, Sarmiento acentua que a violencia do caudilho tinha fortes raizes na sociedade rural do Rio da Prata, da qual ele nao era mais do que seu representante mais evidente: "Rosas no ha inventado nada; su talento ha consistido solo en plagiar a sus antecesores, y hacer de los instintos brutales de las masas ignorantes un sistema meditado y coordinado friamente". No mesmo paragrafo, no entanto, Sarmiento atribui a Rosas a disseminacao e o uso corriqueiro da degola como uma forma da atrair o apoio da plebe adotando um dos seus "barbaros" costumes:

El ejecutar con el cuchillo, "degollando" y no fusilando, es un instinto de carnicero que Rosas ha sabido aprovechar para dar todavia a la muerte formas gauchas, y al asesino placeres horribles; sobre todo, para cambiar las formas "legales" y admitidas en las sociedades cultas, por otras que el llama americanas y en nombre de las cuales invita a la America a que salga en su defensa [...] (SARMIENTO 1952, p. 48).

De acordo com sua ojeriza aos projetos radicais havidos no inicio do Movimento de Maio de 1810, Sarmiento foi obrigado a fazer uma comparacao da selvageria praticada pelos partidarios de Rosas com o periodo em que os jacobinos dominaram a Convencao, impondo o chamado Terror durante as jornadas de 1793: "En Francia en 1793 se guillotinaba a los que sabian leer por aristocratas; en la Argentina se los deguella por salvajes, y aunque el chiste parezca ridiculo, no lo es cuando el asesino que os burla asi, tenga el cuchillo fatal en la mano" (SARMIENTO 1883, p. 11).

Deste fascinio exercido por Rosas sobre as multidoes nao estiveram ausentes os negros. Sarmiento da conta do papel dos negros na Guerra de Independencia, tomando parte ativa nos batalhoes de Belgrano e San Martin; os remanescentes formaram coletividades perifericas na cidade portenha conhecidas por candombes, por associacao aos tambores homonimos que rufavam nas suas festas. Sobre eles escreveu Sarmiento:

Los candombes fueron el terror de Buenos Aires durante la tirania de Rosas, que hizo de Manuelita [filha de Rosas] la patrona de la institucion. Un dia se pasearon las calles de Buenos Aires, ebrios de entusiasmo, precedidos por sus candombes y marimbas, aquellos africanos reunidos en Clubs patrioticos, tras de banderas rojas, como hoy las sociedades francesas, espanolas e italianas, banda de musica al frente. Dia de pavor para los blancos, hijos de espanoles, que prepararon, ejecutaron y levaron a termino la Independencia, proscritos ahora, y entregues a los dioses infernales, a los gritos de !mueran los salvajes unitarios !viva el ilustre Restaurador! que lanzaban mil bocas de semblantes negros y brillantes (SARMIENTO 1883, p. 40-41).

Assim como fizera em relacao a James Fenimore Cooper, o autor utiliza o romance Uncle Tom's cabin, de Herriet Beecher Stowie, como parametro de comparacao com a situacao dos negros nos Estados Unidos. Esta e uma das poucas criticas que o autor fez em relacao ao pais do norte, lembrando que o problema dos negros escravos so seria resolvido pela Guerra da Secessao (SARMIENTO 1883, p. 41). (4)

A criacao em 1836 do uso obrigatorio das insignias coloradas representativas do Partido Federal (5) motivou uma original interpretacao de Sarmiento sobre o significado desta escolha, que seria relacionada ao sangue derramado nas guerras civis pelas montoneras, numa apologia aos usos da "barbarie". Na mesma ocasiao, o autor faz referencia a Bandeira Nacional desenhada por Belgrano e adotada na assembleia que proclamou a Independencia em 1816:

Los colores argentinos son el celeste y el blanco; el cielo transparente de un dia sereno, y la luz nitida del disco del sol; la paz y la justicia para todos. [...] ?Sabeis lo que es el color colorado? [...] ?No es el "colorado" el simbolo que expresa violencia, sangre y barbarie? (SARMIENTO 1952 p. 87-88).

Espertamente Sarmiento nao fez alusao ao Escudo Nacional tambem desenhado por Belgrano, que contem no centro um "barrete frigio" vermelho, simbolo herdado da Revolucao Francesa. Ao contrario, o autor associa a cor vermelha as "hordas barbaras" da Asia e da Africa, nao por acaso presente nos pavilhoes dos paises islamicos, que ja haviam deixado suas marcas de violencia na Espanha antes da Reconquista. Segundo uma tradicao que ainda persiste, apontava Artigas--um dos caudilhos mais vilipendiados por ele--como o introdutor do uso do vermelho como representacao politica da "barbarie" no Rio da Prata:

Artigas agrega al pabellon argentino una faja diagonal "colorada". Los ejercitos de Rosas visten de "colorado".

Su retrato se estampa en una cinta "colorada".

[...] La reaccion encabezada por Facundo y aprovechada por Rosas se simboliza en una cinta colorada que dice: !terror, sangre, barbarie!

[...] Ultimamente [Rosas] consagra este color oficialmente, y lo impone como una medida de Estado (SARMIENTO 1952,. p. 88-89). (6)

Muitos anos depois ainda afirmava que Artigas era um precursor da "barbarie" nas suas campanhas militares contra Buenos Aires, atribuindo tais caracteristicas ao passado criminoso que teria levado: "Artigas, como se ha visto era um salteador, nada mas nada menos. La tradicion de salteadores, tan antigua como la abundancia de ganados alzados, le servia de base de operaciones" (SARMIENTO 1883, p. 170-171).

Em Sarmiento, as conotacoes depreciativas de "barbarie" e "selvageria" derivadas deste ambiente, terminam por qualificar uma forma de vida que ja foi ultrapassada pela civilizacao europeia, cabendo aos organizadores da nova sociedade argentina--representantes legitimados pelo projeto civilizador--a superacao desta etapa. Desta forma, caberia a intelectualidade das cidades dar estas diretrizes, para os executores politicos do programa liberal.

Solucoes drasticas para os grandes males

O diagnostico de que a situacao da Argentina se devia a que um importante contingente populacional se encontrasse num estagio atrasado do desenvolvimento--caracterizado a partir do politico como "feudal"--e de suma importancia como marco da historiografia latino-americana. Paula Bruno salienta que apos a queda de Rosas em 1852, os antigos componentes da famosa "Generacion del 1837" procuraram seus lugares na nova organizacao politica: "su formacion en tiempos rivadavianos, la sociabilidad en Buenos Aires primero y en el exilio despues, la elaboracion de textos programaticos, el antirrosismo ferviente y la voluntad de proyectar la nacion" seriam caracteristicas suficientes para atribuir-lhes o carater de "padres fundadores"(BRUNO 2011, p. 13). Deste grupo, certamente foi Sarmiento aquele que reivindicou para si a primazia na discussao e propostas para o mundo que se abria com o fim da Confederacao de Rosas, como salientou em Recuerdos de provincia (SARMIENTO 2001, p. 181).

A desarticulacao do "feudalismo" em que se encontrava o pais passava necessariamente pelo fim dos caudilhos e suas montoneras, especialmente o principal deles, o poderoso Juan Manuel de Rosas, governador de Buenos Aires. Talvez a principal questao fosse a interdicao para a navegacao dos rios tributarios do Rio da Prata: ela afetava as provincias nao apenas do litoral argentino como tambem as do centro e norte do pais, alem dos paises vizinhos (Brasil, Uruguai e Paraguai), e as grandes potencias europeias que tinham disputavam as vantagens comerciais do espaco platino (Franca e Inglaterra). Sobre este aspecto, Sarmiento foi muito enfatico em Argiropolis (SARMIENTO 2011), especie de "projeto" nacional que escreveu em 1850:

La mas ligera inspeccion de la carta geografica nuestra que el Paraguay, Corrientes, Entre Rios y Santa Fe tienen en los rios que atraviesan su territorio, medios faciles de exportacion y de contacto con el comercio europeo. [...] del viaje de exploracion del Bermejo, resulta que Tucuman, Salta y Jujuy encontrarian en aquella via acuatica exportacion provechosa de sus productos. La provincia de Cordoba, limitrofe de Santa Fe, encontraria en la canalizacion del Tercero y en su inmediacion al Parana una via de exportacion menos costosa y que puede hacerse comun a Santiago del Estero y Catamarca, no excluyendose de esta via las provincias de Cuyo (SARMIENTO 2011, p. 82).

Impressiona mais esta insistencia de Sarmiento em terminar com o "desierto" atraves do estimulo aos transportes, quando e possivel constatar hoje que, mais de trinta anos depois daquele livro, ele tivesse no seu canonico Conflicto y armonias de las razas (SARMIENTO 1883) quase repetido suas palavras:

La cuestion de la libre navegacion de los rios que desembocan en el Plata es hoy una cuestion europea, americana y argentina a la vez, y Rosas tiene en ella guerra interior y exterior hasta que caiga, y los rios sean navegados libremente. Asi lo que no consiguio por la importancia que los unitarios daban a la navegacion de los rios se consigue hoy por la torpeza del gaucho de la Pampa (SARMIENTO 1883, p. 167).

Uma das mais esperadas transformacoes nas comunicacoes que terminariam com o desierto eram as ferrovias. Obcecado pelo rapido progresso na ocupacao dos espacos "vazios" nos Estados Unidos, que desenvolviam sistemas de canais e estradas de ferro, Sarmiento no final da decada de 1860 escreveria que o papel da educacao era central, devendo ser uma atribuicao governamental o estimulo ao ensino generalizado. Para o inicio deste processo, Sarmiento contava com o regresso de todos quantos no exilio puderam, nao apenas frequentar cursos e universidade, como observarem as sociedades mais avancadas para terem modelos para as mudancas necessarias na Argentina:

Los jovenes estudiosos que Rosas ha perseguido se han desparramado por toda la America, examinado las diversas costumbres, penetrado en la vida intima de los pueblos, estudiado sus Gobiernos, y visto los resortes que en unas partes mantienen el orden sin detrimento de la libertad y del progreso, notando en otros los obstaculos que se oponen a una buena organizacion (SARMIENTO 1952, p. 169).

Esta era uma tarefa que exigia a participacao de todos aqueles que haviam sido oprimidos pela ditadura de Rosas, especialmente porque a recuperacao do pais passava pela implantacao de uma "civilizacao" que ate entao fora negada. Neste sentido, os trabalhos que vinham pela frente poderiam ser arduos:

Tal es la obra que nos queda por realizar en la Republica Argentina. Puede ser que tantos bienes no se obtengan de pronto, y que despues de una subversion tan radical como la que ha obrado Rosas, cueste todavia un ano o mas de oscilaciones el hacer la sociedad entrar en sus verdaderos quicios (SARMIENTO 1952, p. 172). (7)

Para Sarmiento isto so seria uma possibilidade se fosse constituido um governo unitario forte, centralizado na regiao mais rica e civilizada da Argentina. Para tanto, ele proprio participou da grande campanha militar que se concertou para a derrubada de Rosas. Em 1851 o Imperio do Brasil, em alianca com os unitarios argentinos exilados e a adesao de Urquiza, governador de Entre Rios, interveio no Estado Oriental a favor dos colorados, que desde 1843 enfrentavam em Montevideu o assedio dos blancos, aliados de Rosas. No ano seguinte, a mesma alianca seria dirigida contra o governador de Buenos Aires, que seria derrotado na Batalha de Caseros em 3 de fevereiro de 1852.

Participando das atividades diplomaticas do novo governo de Justo Jose de rquiza, Sarmiento escreveu para Mitre em abril de 1852 elogiando a ordem que via na capital do Imperio. Na busca de exemplos "civilizados" admirou a erudicao do Imperador Pedro II, deixando de lado o problema da escravidao, que tanto criticara em obras anteriores:

El Emperador, joven de veintiseis anos, estudioso y dotado de cualidades de espiritu y corazon que lo harian un hombre distinguido en cualquiera posicion de la vida, se ha entregado con pasion al estudio de nuestros poetas, publicistas y escritores sobre costumbres y caracteres nacionales. Echeverria, Marmol, Alberdi, Gutierrez, Alsina etc, etc. Son nombres familiares a su oido, y por lo que a mi respecta, habiame introducido favorablemente Civilizacion y barbarie, hace tiempo, y en primera edicion, habiendose procurado despues Sud America, Argiropolis, Educacion popular etc (SARMIENTO 1852, p. 87).

Mais tarde, Sarmiento abandonou o vencedor Urquiza, que procurava organizar um governo federal com apoio das provincias, legitimando-o com um projeto de Constituicao de um dos principais representantes da Generacion de 1837, Juan Bautista Alberdi. (8) Agregou-se ao governador de Buenos Aires, o unitario Bartolome Mitre, que apos manter por alguns anos a provincia separada da Confederacao Argentina, terminaria por derrotar militarmente Urquiza, procurando uma pacificacao com os caudilhos provincianos. Ainda enfrentaria as montoneras de Angel Vicente Peaaloza, o Chacho, em 1863, e de Felipe Varela em 1867, mas lancou as bases de uma organizacao nacional.

Manteve sempre a opiniao de que o governo deveria destruir totalmente as sobrevivencias da "barbarie" nas provincias interioranas, resistentes aos rumos do progresso. Foi dele uma famosa carta dirigida a Mitre em 20 de setembro de 1861: "Pero dejese de ser mesquino. No trate de economizar sangre de gauchos. Esto es um abono que es preciso hacer util al pais. La sangre es lo unico que tienen de seres humanos". Na biografia que escreveu de Chacho Penaloza logo apos o assassinato deste pelas tropas de Mitre, retomou a questao da guerra sem quartel que deveria ser movida contra as montoneras e seus caudilhos:

El barbaro es insensible de cuerpo, como es poco impresionable por la reflexion, que es la facultad que predomina en el hombre culto; es por tanto poco susceptible de escarmiento. Repetira cien veces el mismo hecho si no ha recibido el castigo en la primera.

En las revoluciones politicas con gobiernos y ejercitos revolucionarios, las leyes de la guerra entre naciones, protegen a los rebeldes.

Los "guerrillas" desde que obran fuera de la proteccion de gobiernos y ejercitos, estan fuera de la ley y pueden ser ejecutados por los jefes en campana (SARMIENTO 1973, p. 74). (9)

E, pois, nitida no autor a preocupacao com uma modificacao da sociedade por via do politico, ja que a avaliacao de ambos quanto ao atraso se define por peculiaridades politicas. Todo o encadeamento logico montado a partir de causas "naturais" e, portanto, passiveis de compreensao, serve como justificativa para a implantacao de uma forma liberal de governo que fosse capaz de atualizar o desenvolvimento da republica.

Muitos anos depois Sarmiento teria a ocasiao de apoiar-se na Teoria da Evolucao das Especies de Charles Darwin--vitoriosa contra o criacionismo remanescente do Antigo Regime--que para ele era uma corroboracao bem acabada das ideias que havia apreendido em suas profusas leituras. Em 19 de maio de 1882 pronunciou uma conferencia para o Circulo Medico em Buenos Aires em homenagem ao cientista recentemente falecido. No inicio de sua fala, cita Felix de Azara--que reunira uma colecao de especies equivalente aquela do grande Lineu--e os cientistas que fizeram dos pampas seus objetos de pesquisa: Bompland, o primeiro frances que, junto a Humboldt, permaneceu toda sua vida na Argentina; depois D'Orbigny e Bravard, que realizaram importantes estudos geologicos e paleontologicos; finalmente, nao poderia deixar de lado a presenca aquelas alturas de cientistas nacionais, como os casos pioneiros de Burmeister e Gould (SARMIENTO 2009, p. 17).

Apos abordar diversos pensadores que antecederam e forneceram com suas investigacoes subsidios importantes para a Teoria da Evolucao, e de discorrer sobre as andancas do homenageado, Sarmiento ao final da primeira parte da conferencia afirma:

[...] y yo, senores, adhiero a la doctrina de la Evolucion asi generalizada, como procedimiento del espiritu, porque necesito reposar sobre un principio harmonioso y bello a la vez, a fin de acallar la duda, que es el tormento del alma.

Y aqui me acerco ya al terreno adonde queria llevar la teoria de Darwin, para explicar la influencia social que tales movimientos en las ideas ejercen en nuestra epoca (SARMIENTO 2009, p. 36).

Na segunda parte assevera que a teoria para ser boa tinha necessariamente que ser bela! Alem disto, ela provava que a propria evolucao se dava em direcao ao mais belo, portanto ao que de melhor poderia ser encontrado na natureza, fossem flores ou as mais variadas criacoes derivadas do desenvolvimento do pensamento humano:

Los que contemplan el espectaculo de un baile aristocratico, pueden verificar si entre armonias de la musica y la cadencia e los movimientos, las jovenes confirman de instinto la teoria de Darwin, para la mejora y embellecimiento, revistiendose de todos los atractivos y seducciones de las bellas artes, en colores, formas y apendices (SARMIENTO 2009, p. 51).

Deve-se salientar que o "encontro" de Sarmiento com Darwin foi o coroamento de uma trajetoria intelectual na qual foi um precursor na America Latina, se no for considerado um dos principais pensadores do seculo XIX. As contribuicoes que ele trouxe para o debate com desassombro, poderiam ser consideradas como um "positivismo" avant la lettre, ou mesmo como uma antecipacao do que viria a ser denominado "darwinismo social", algo que o proprio Darwin recusou-se a aceitar. Neste sentido, vale citar os ultimos paragrafos escritos na biografia de Chacho:

Las costumbres que Rugendas y Palliere disenaron com tanto talento, despareceran con el medio ambiente que las produjo, y estas biografias de los caudillos de la montonera figuraran en nuestra historia como los megaterios y gliptodontes que Bravard desenterro del terreno pampeano. Monstruos inexplicables, pero reales (SARMIENTO 1973, p. 75, grifos do autor).

Conclusao

Talvez nao coubesse nesta conclusao discorrer sobre meu "encontro" com Sarmiento! No entanto, foi esta aproximacao que provavelmente me encaminhou na direcao dos estudos sobre o Rio da Prata do seculo, e especialmente sobre os caudilhos e suas montoneras. No inicio dos anos 1970, num breve interregno democratico entre duas ditaduras, os monstruos inexplicables haviam sido novamente "desenterrados" e seus fantasmas assombravam o cenario politico de entao: nao por casualidade, o grupo armado da esquerda peronista se chamava Montoneros, numa alusao aos "guerrilheiros" que no seculo anterior haviam "resistido" ao liberalismo dos vendepatrias defendidos por Sarmiento. Procurar no passado compreender aquele presente tao turbulento propiciou, naquele distante ano de 1974, minha primeira leitura do Facundo, o que depois se repetiria muitas e muitas vezes; logo a seguir vieram El Chacho e outros mais. Mas tao importantes quanto as leituras de Sarmiento foram aquelas de seus criticos. Sim, porque, nao apenas a importancia, como tambem a virulencia dos escritos de Sarmiento nao permitem "meios-termos": se por um lado ele foi praticamente o criador de uma matriz de interpretacao do passado argentino sobre o qual se fundou a historiografia liberal, ou seja, aquela considerada "oficial", por outro, ele recebeu as mais duras diatribes de variados autores e de diferentes correntes politicas. O espaco deste texto permite que eu aborde apenas algumas delas, que a meu juizo sao significativas.

A primeira foi a do entao jornalista Jose Hernandez, futuro autor do celebre Martin Fierro, no livro Vida del Chacho (HERNANDEZ 1973) que e uma resposta a biografia de Sarmiento no mesmo ano de 1863, onde rebate ponto por ponto as opinioes deste sobre o caudilho de La Rioja; para Hernandez, os verdadeiros criminosos eram os unitarios que governavam o pais--o presidente Mitre e seus oficiais, alem do proprio Sarmiento--fazendo no seu texto um libelo a favor dos gauchos perseguidos e condenados pela "civilizacao". (10) Em tempos mais contemporaneos, um dos maiores apologistas dos caudilhos, o escritor e historiador Felix Luna, atribui a Sarmiento o mesmo grau de violencia que ele atribuia aos caudilhos, interpretando esta postura como um resquicio da sua origem provinciana que procurava exorcizar (LUNA 1971).

Dentre os muitos autores estrangeiros que abordaram Sarmiento, o escritor Fernandez Retamar no seu Caliban (FERNANDEZ 1988) retrata o argentino como o contraponto por excelencia de Jose Marti; se o poeta cubano havia feito ao longo de sua obra poetica e jornalistica o resgate das raizes mesticas do continente americano, motivando a apologia da Nuestra America, o argentino representaria a negacao desta mesma America, fazendo da defesa da "civilizacao" europeia uma justificativa para a sociedade internamente excludente, e defensora da dominacao estrangeira criada pelas oligarquias exportadoras. Nao muito diversa e a opiniao de Eduardo Galeano: em seu livro As caras e as mascaras (GALEANO 2004), Sarmiento mereceu tres citacoes, todas elas acusando-o de entreguista:a caracterizacao de Artigas como criminoso, a defesa da abertura aos estrangeiros, e o racismo e preconceito que justificavam a defesa da "civilizacao" europeia. Mesmo o norte-americano Shumway, um estudioso da literatura platina que procura fazer uma analise mais isenta, nao interpreta de forma muito diferente a obra de Sarmiento (SHUMWAY 1995, p.131-187).

Finalmente, os escritos do polemico autor argentino exerceram influencias entre os autores brasileiros. Bastaria lembrar que uma obra tao significativa como Os sertoes de Euclides da Cunha (CUNHA 2009) tem sua estrutura montada sobre uma determinacao a partir do ambiente--"A terra"--e da populacao que vive nestes sertoes--"A gente"--que inicia com a celebre frase: "O sertanejo, e, antes de tudo, um forte." Ja a sua leitura entre os autores rio-grandenses, preocupados com a genese e o papel historico dos gauchos do passado, motivou a procura da origem lusitana dos campeiros do Rio Grande do Sul, que os faria muito diferentes dos gauchos castelhanos (VELLINHO 1973).

Portanto, os estudos sobre Sarmiento mantem-se atuais, e ainda referenciais para a compreensao das identidades nacionais e regionais no espaco platino. Alem disto, este autor e um exemplo acabado daqueles poderosos intelectuais do seculo XIX, cuja erudicao abarcava os mais variados campos do conhecimento e das artes. Assim sendo, quem se interesse pelo processo de construcao dos Estados nacionais na America Latina, que tenha gosto pela historiografia do seculo XIX, ou mesmo procure mapear algumas das relacoes entre a historia e a literatura nao pode passar ao largo da obra de Domingo Faustino Sarmiento!

Nos seus ultimos dias opos-se aos governos Celman e Rocca, pouco interessados em desenvolver o potencial economico do pais, resumindo suas criticas na celebre frase: "La oligarquia con olor a bosta de vaca gobierna el pais".

Enviado em: 30/9/2011

Aprovado em: 1/12/2011

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Cesar Augusto Barcellos Guazzelli

Professor associado

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

cguazz@terra.com.br

Avenida Mariland, 1719/301--Sao Joao

90440-191--Porto Alegre--RS

Brasil

(1) Boa parte dos principais livros de Sarmiento em suas edicoes originais esta disponibilizada on line atraves do Proyecto Sarmiento obras completas en Internet edicion bicentenario: http:// www.proyectosarmiento.com.ar/.

(2) Montonera era uma palavra pejorativa criada pelos espanhois com referencia as tropas irregulares de Artigas durante o cerco de Montevideu em 1811; e derivada de monton: a rale (ANSALDI 1973).

(3) Azara sera mais tarde citado por Sarmiento como um dos grandes naturalistas e etnologos do espaco platino, comparando-o mesmo a Lineu (SARMIENTO 2009, p. 17).

(4) Este terror aos negros que aderiram a Rosas foi demonstrado por Echeverria, outro escritor da Generacion de 1837, na novela El matadero (ECHEVERRIA 1999).

(5) Usavam-se faixas, lencos ou vinchas vermelhas, muitas vezes com os dizeres !Viva la Federacion, Mueran los Salvajes Unitarios!

(6) Ao que parece nao foi Artigas quem primeiro usou o vermelho, mas Mariano Moreno e seus seguidores durante as Invasoes Inglesas de 1806; de qualquer forma, este grupo se identificava com os Jacobinos, e esta simbologia do radicalismo de 1893 tampouco era cara para Sarmiento.

(7) Mais tarde, como governador de San Juan e como presidente da Argentina Sarmiento destacou-se pela disseminacao de escolas publicas e estimulo ao ensino.

(8) Com este intelectual seu contemporaneo, Sarmiento manteve uma longa polemica por artigos e livros.

(9) Esta era uma criacao do final do seculo XVIII. Aos exercitos regulares e seus soldados, o tratamento dos vencedores deve ser digno e respeitoso. As milicias irregulares eram passiveis de execucoes sumarias. A palavra guerrilla foi criada na resistencia espanhola a ocupacao napoleonica, mantendo este carater pejorativo ate as lutas por libertacao no seculo XX.

(10) Este tema seria retomado por Jose Hernandez em 1972, no poema canonico El gaucho Martin Fierro, a mais importante criacao da literatura gauchesca.
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Title Annotation:dossier/Dossie
Author:Guazzelli, Cesar Augusto Barcellos
Publication:Historia da Historiografia
Date:Nov 1, 2011
Words:12189
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