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SOB O SOL TROPICAL: O IMIGRANTE PORTUGUES NO RiO DE JANEIRO DE ALUISIO AZEVEDO/UNDER THE TROPICAL SUN: THE PORTUGUESE IMMIGRANT IN ALUISIO AZEVEDO'S RIO DE JANEIRO.

E, no entanto, o sol, unico causador de tudo aquilo.
                                      Aluisio Azevedo, O Cortico.


Antoine Compagnon ja havia alertado que qualquer citacao nao e ato desprovido de vontade politica, uma vez que e motivada pelo desejo daquele que cita de "pilhar" do citado a precisao de uma ideia que, nao livre de inveja, bem lhe poderia ter ocorrido! No entanto, a citacao se torna ainda mais "grave" quando ganha o lugar de epigrafe, porque:
Sozinha no meio da pagina, a epigrafe representa o livro--apresenta-se
como seu senso ou seu contrassenso--, infere-o, resume-o. Mas, antes de
tudo, ela e um grito, uma palavra inicial, um limpar de garganta antes
de comecar realmente a falar, um preludio ou uma confissao de fe: eis
aqui a unica proposicao que manterei como premissa, nao preciso de mais
nada para me lancar. Base sobre a qual repousa o livro, a epigrafe e
uma extremidade, uma rampa, um trampolim, no extremo oposto do primeiro
texto, plataforma sobre qual o comentario ergue seus pilares.
(COMPAGNON, 1996, p. 80)


Uso, pois, um trecho do romance como "trampolim" para repensar algumas--das muitas!--assertivas que se cristalizaram como leitura definitiva para O Cortico, de Aluisio Azevedo. No entanto, e preciso que se tenha em vista que minha epigrafe esta aqui mais a servico do "contrassenso" do que do "senso"; ou, por outras palavras, quero que fique claro que ela surge como um duplo trabalho de "pilhagem": primeiro, tomada do romance publicado em 1890, e depois retirada de inumeros textos criticos que, invariavelmente, recuperam esta passagem para dar conta das terriveis condicoes climaticas a que estavam submetidas as personagens de uma narrativa que, para muitos ensaistas, depositou nos rigores de uma natureza inclemente a explicacao para o descompasso de suas criaturas de papel, provando assim a inquestionavel subserviencia da ficcao de Aluisio Azevedo aos ditames cientificistas do "romance experimental" preconizado por Zola. Contrariando as ideias de Antonio Candido, que igualmente se apropria do mesmo trecho do romance (usando-o em seu "De cortico a cortico" (1998), ensaio onde defende que tanto o "Carapicus" quanto o "Cabeca de Gato", bem como o novo "Avenida Sao Romao" (1) sao, a seu modo, representacoes do espaco nacional), Paulo Franchetti resume de maneira exemplar o uso que se fez de minha ja agora epigrafe:
O alcance de O Cortico, assim, aparece bem reduzido em relacao ao
esforco de Candido de dota-lo de um forte sentido nacional. E ele se
deixa mais facilmente ler como aquilo que parece de fato ser: um
romance de carregado estilo naturalista, no qual a forca determinante
na conformacao e destino dos personagens nao e tanto o meio social ou
os caracteres herdados, mas o ambiente natural, isto e, o clima dos
tropicos, regido pelo sol escaldante, que o narrador textualmente
afirma, ao narrar a guerra entre os miseraveis, tratar-se do "unico
causador de tudo aquilo". (FRANCHETTI, 2011, p. 94)


Antes de problematizar o determinismo nefasto com que o sol dos tropicos seria, ou nao, capaz de aprisionar o destino das personagens, gostaria de comecar por lembrar--atraves de inevitavel digressao--que uma epigrafe como esta jamais seria "preludio", "premissa", "base", ou "palavra inicial" de uma reflexao que nao se debrucasse sobre a literatura produzida depois das reflexoes de Rousseau. O mesmo Paulo Franchetti, partindo das reflexoes de Gustave Lanson, adverte que foi o pensamento rousseauniano que trouxe o fora para dentro da literatura da Europa de entao, transformando a natureza em objeto de estudo e de expressao. Contrabandeando aqui a traducao feita por Franchetti, aproprio-me da reflexao de Lanson, sem deixar de concordar com o tradutor quando este desconfia de certo exagero--de clara diccao oitocentista--, cometido pelo critico frances no afa de afirmar a singularidade da obra de Rousseau:
[...] antes de Rousseau, a natureza nao tinha lugar na literatura. Ele
a transforma em soberana: ela se torna objeto de estudo e de expressao.
E o sinal de uma grave mudanca: terminou a literatura psicologica.
Enquanto apenas o homem era assunto do livro, ele era visto por dentro:
agora a natureza divide com ele a atencao do escritor, e dai resulta
que, tomando-o com a natureza, ele e visto dentro da natureza, isto e:
por fora. A literatura sera entao pitoresca, mais do que psicologica:
mesmo para descrever a alma, ela olhara o corpo. Rousseau ve Julia
loira e Clara morena; mudando a cor dos cabelos dessas mulheres toda a
composicao do romance se embaca. (2) (FRANCHETTI, 2013)


Em verdade, o Romantismo que surge na avalanche iluminista e revolucionaria do seculo XVIII nao vai voltar as costas para a "literatura psicologica", como exageradamente pretendeu Gustave Lanson. Paralelo ao apelo ao subjetivismo, e certo que a literatura romantica ira valorizar o espaco de sobremaneira, tornando-o, nao raras vezes, um elemento estruturador de sua narrativa e um motivo precipitador da aventura lirica, vivida pela poesia dos ultimos anos dos setecentos e estendida para alem da metade dos oitocentos. Se concordarmos com a ja classica reflexao feita por Antonio Candido (1981), no que diz respeito ao inicio de uma literatura nacional no Brasil, consideraremos o Romantismo a nossa primeira diccao literaria. Para o critico, mais livre das influencias estrangeiras e a procura de um discurso que construisse esteticamente uma identidade para a entao "jovem" nacao, os nossos artistas romanticos, mais especificamente os prosadores, deram especial atencao a "descricao dos tipos humanos e formas de vida social nas cidades e nos campos", caracteristica que leva o ensaista a defender que o "romance brasileiro nasceu regionalista e de costumes" (CANDIDO, 1981, p. 113).

O que para esta reflexao interessa e o fato de Antonio Candido entender que o dito regionalismo "[...] nasceu em parte como fruto da dificuldade de desdobrar a sociedade urbana em temario variado para o romancista" (CANDIDO, 1981, p. 126), uma vez que a sua ainda precaria fisionomia citadina nao permitia as variacoes de tempo e de espaco como, em comparacao, uma Franca secular voluptuosamente se oferecia a pena de Balzac. Se a cidade brasileira nao era a urbe francesa de Sthendal, ou a inglesa de Jane Austen, e certo que ainda assim conseguiu gerar ficcao que, de um Memorias de um sargento de milicias aos perfis femininos de Jose de Alencar, acabou por enfrentar o cerco da ambientacao rural, abrindo caminho para que a prosa realista-naturalista erguesse o Rio de Janeiro do fim do Segundo Imperio e o dos primeiros anos da Primeira Republica. Mais campo ou menos cidade, Antonio Candido foi categorico ao afirmar que:
Por isso mesmo, o nosso romance tem fome de espaco e uma ansia
topografica de apalpar todo o pais. Talvez o seu legado consista menos
em tipos, personagens e peripecias do que em certas regioes tornadas
literarias, a sequencia narrativa inserindo-se no ambiente, quase se
escravizando a ele. Assim, o que se vai formando e permanecendo na
imaginacao do leitor e um Brasil colorido e multiforme, que a criacao
artistica sobrepoe a realidade geografica e social. Esta vocacao
ecologica se manifesta por uma conquista progressiva de territorio.
(CANDIDO, 1981, p. 114)


Nao posso negar que a ideia de que "nosso romance tem fome de espaco" me seduz e chego mesmo a concordar com ela, embora aportada num raciocinio que, de certa forma, vai na contramao do que na sequencia Antonio Candido acaba por defender, ou seja, que nossos "tipos, personagens e peripecias" nao estabelecam um "legado", pois estariam "escravizados" a uma emergencia de espaco avassaladora. A meu ver, e seguindo outro ensinamento do ensaista, "o enredo existe atraves das personagens; as personagens vivem no enredo. Enredo e personagem exprimem, ligados, os intuitos do romance, a visao da vida que decorre, os significados e valores que o animam" (CANDIDO, 2004, p. 53-54). Se o intuito de nossa ficcao em prosa foi dar vez a uma "ansia topografica de apalpar todo o pais", ela so se concretizou porque esteve emblematicamente misturada na cor e cheiro de Gabriela; no corpo virginal de Iracema; na feiura descarada e multietnica de Macunaima; na dubiedade sertaneja, brutal e desejosa de Riobaldo e de Diadorim; na miseria agreste de Fabiano e de Sinha Vitoria; nos citadinos olhos de ressaca de Capitu; ou ainda na existencia anacronica, desprotegida e retirante de Macabea. Por outras palavras, e nas personagens do romance brasileiro que nossa topografia melhor se inscreveu e garantiu, para fora das paginas dos livros, a perenidade.

Sabedora da extensao que tomou esta digressao, volto agora a O Cortico e a minha ja quase esquecida epigrafe, retomando-a para tentar desestabilizar algumas "certezas" sobre um romance que, a priori, se prestou muito facilmente a exemplo da tal fome topografica defendida por Antonio Candido. De fato, o espaco parece ser mesmo o grande protagonista, e muitas foram as leituras que defenderam esse ponto de vista, exaltando seus aspectos descritivos marcados por um tom naturalista, que condicionariam as personagens-tipo a um anonimo segundo plano. Muitas destas interpretacoes--e aqui me valho da de Paulo Franquetti--insistem na presenca avassaladora e corrosiva de um sol que condenaria a animalidade os moradores do cortico: "E, no entanto, o sol, unico causador de tudo aquilo". A frase aparece inclusa na narracao da briga que pos em lados opostos os moradores do cortico de Joao Romao e os do Cabeca de Gato, gracas a morte de um dos seus, o capoeira Firmo, assassinado pelo portugues Jeronimo, mestre da pedreira de Romao. Separado do contexto, o trecho realmente parece acusar o sol--e toda a realidade tropical que ele encerra--da responsabilidade pela ferocidade de homens e mulheres que lutam numa batalha campal. No entanto, se lido dentro do paragrafo que o abriga, acho que fica impossivel manter exclusivamente a negatividade defendida por tantos criticos que dela se valeram para apontar a nota naturalista que acompanharia a descricao da realidade espacial que cercava os moradores. Vejamos:
Os Carapicus enchiam a metade do cortico. Um silencio arquejado sucedia
a estrepitosa vozeria do rolo que findara. Sentia-se o hausto
impaciente da ferocidade que atirava aqueles dois bandos de capoeiras
um contra o outro. E, no entanto, o Sol, unico causador de tudo aquilo,
desaparecia de todos nos limbos do horizonte, indiferente, deixando
atras de si as melancolias do crepusculo, que e a saudade da terra
quando ele se ausenta, levando consigo a alegria da luz e do calor.
(AZEVEDO, 2011, p. 212)


O sol de fato so surgira em negativo, quando for recuperado pelas descricoes que denunciam a precariedade das condicoes a que estavam submetidas as personagens, na sua maioria trabalhadores explorados que viviam sob o jugo da mais-valia, num pais de heranca escravocrata que tacanhamente engatinhava o seu aburguesamento. Em parte, adiantando o que o Romance de 30 do seculo XX (ou Regionalista, para quem assim o preferir) iria transformar em proposta--primeiro ideologica, e depois estetica--, o narrador de Aluisio Azevedo desvela, atraves de um discurso artisticamente acurado, a demanda do homem com espaco, tornando os corpos de seus personagens--e a "topografia" social que eles encerram--em lugar de problematizacao historica, salvando-os, a meu ver, do estrito lugar de "peca" de um exercicio "experimental", como quis certo naturalismo empedernido (3), bem como boa parte da critica que despendeu esforcos no sentido de ai alocar a obra de Aluisio Azevedo. Como nem tudo cabe nas "gavetas", a capacidade estetica do autor de O Cortico retira o sol da previsivel funcao "tropicalmente" determinista (4), ilumina seus personagens, pondo-os em luta contra uma realidade social, que e, esta sim, a verdadeira vila, e nao qualquer forma de representacao da natureza--seja humana ou nao--, pois nao raras vezes se encontram unidas numa mesma cadeia de sofrimento e de exploracao:
Aqui, ali, por toda parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol,
outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de
palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a
picareta; de outro afeicoavam lajedos a ponta de picao; mais adiante
faziam paralelepipedos a escopro e maceta. E todo aquele retintim de
ferramentas, e o martelar da forja e o couro dos que la em cima
brocavam a rocha para lancar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe, que
vinha do cortico como de uma aldeia alarmada; tudo dava a ideia de uma
atividade feroz, de uma luta de vinganca e de odio. Aqueles homens
gotejantes de suor, bebados de calor, desvairados de insolacao, a
quebrarem, a espicacarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de
demonios revoltados na sua impotencia contra o impassivel gigante que
os contemplava com desprezo, imperturbavel a todos os tiros que lhe
desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe abrissem as
entranhas de granito. (AZEVEDO, 2011, p. 58)


Encaminho meu raciocinio, portanto, na contramao do que afirma Alfredo Bosi (1994, p. 190) sobre Aluisio Azevedo, para ele um autor que "[se] ateve a sequencia de descricoes muito precisas onde cenas coletivas e tipos psicologicamente primarios fazem, no conjunto, do cortico a personagem mais convincente do nosso romance naturalista". Obviamente, nao estou questionando a importancia do espaco dentro da narrativa e em nada me incomoda o aclamado protagonismo dado ao Carapicus; mas, antes, o que gostaria de problematizar sao assertivas como "Existe o quadro: dele derivam as figuras" (BOSI, 1994, p. 190), que a meu ver parecem esquecer que sao primeiro estas figuras que, atraves de suas existencias, sustentam a arquitetura do enredo, dando ao espaco a verossimilhanca necessaria para que chegue mesmo, aos olhos de muitos leitores, a ganhar o lugar de protagonista. Por outras palavras, e na topografia do corpo de Rita Baiana, de Jeronimo, de Joao Romao, de Bertoleza, enfim, e na existencia referencialmente historica das personagens--todas habitantes da "cozinha social" (5) do Brasil do fim do Segundo Imperio e dos primeiros anos da Primeira Republica (6)--que esta ficcao se concretiza. Com permissao para a ousadia, corrijo Bosi: existem as figuras: delas derivam o quadro!

Carlos Reis (2015, p. 89) ja havia advertido que "[...] sao as personagens e os lugares que formam os referentes primarios da narrativa literaria", raciocinio que em muito encontra eco nos estudos da mais atual geografia cultural que igualmente entende o lugar como uma circunstancia espacial em demanda com o humano, juncao que afinal acaba por defini-lo como uma dimensao humanizada por excelencia. Ainda que se tratando de uma "outra forma de geografia", fica claro, portanto, que os lugares da ficcao mantem estreita dependencia da personagem, ao mesmo tempo que ratificam uma profunda e irrompivel ligacao com o mundo real e com o conhecimento que dele temos. Esquecer disso significaria dar azo a "[...] radicalizacao da autonomia que [mundos possiveis ficcionais] reclamam--mesmo quando parecem apontar nesse sentido", e defender uma "[... ] absurda concepcao dos textos ficcionais como textos autotelicos e desligados do mundo" (REIS, 2015, p. 78).

Gostaria de pensar agora a geografia imposta pelo corpo de Rita Baiana, ou antes quereria problematizar o "mundo possivel"--fatalmente alegorico, porque antes de tudo literario--erguido pelos passos sensuais de uma personagem que parece inebriar e seduzir a realidade quase sempre grotesca que tem a sua volta. E claro que a percepcao alegorica da fisicalidade desta personagem nao passou despercebida de grande parte da critica que a viu sempre plena "de fora", marcada pela paisagem brasileira, uma especie de atlas geografico de exuberante exterioridade, que redundava num exemplo de vazio subjetivo. Dentre essas leituras, destaco a feita por Luiz Dantas (1990), que magistralmente a separa da Nana de Zola (Nana de 1880), por entender que a personagem francesa e muito mais generalizante do que se pode a primeira vista imaginar, uma vez que encarna a alma e o destino da mulher pobre, emparedada em meio a cidade burguesa, afastada--por sua origem social--da cultuada civilidade da Europa oitocentista, presa a bestialidade dos instintos, firmando-se como representante de um exotismo social que afinal engloba aquilo que vulgarmente era chamado de povo! Na contramao da protagonista oriunda da referencialidade historica da Franca de Napoleao III, Luiz Dantas defende:
Ao lado de Nana, a personagem de Rita Baiana, a Iracema mestica,
moderna, urbana e anti-romantica [sic] de Aluisio Azevedo, se delineia
de forma mais completa. O seu erotismo dissolvente, secretado pela
paisagem esplendorosa, atributo de seu exotismo, e reforcado e agravado
por ela ser igualmente um produto da miseria. Ela esta duplamente
distante. Atavismo impossivel de exorcizar, se o pais e sensual pela
propria natureza e se a sensualidade e um atributo da pobreza, o Brasil
erotico e consequentemente o Brasil miseravel. (DANTAS, 1990, p. 465)


O exotismo geografico encarnado por Rita Baiana ganha, assim, uma outra perspectiva: ela e a terra selvagem, a memoria de um Brasil pobre mas incontrolavel, que faz frente ao modelo burgues imposto pelo neocolonialismo que aqui chegava de segunda mao, com fisionomia agraria, latifundiaria, escravocrata, clientelista, coronelista, e marcado por uma politica "de arranjos". Rita Baiana e, ao fim e ao cabo, uma forma arcaica, uma mulher-floresta que destoava do programa civilizador que, nao sem custo, quis redesenhar um Rio de Janeiro inspirado no projeto modernizador de sociedade urbana, erguido modelarmente pela Franca do Barao de Haussmann (1853-1870). Na classica cena em que Jeronimo ve a mulata dancar pela primeira vez e antes mesmo do portugues gozar com a visao do "paraiso", o narrador deixa claro que e o proprio "paraiso" que tem imenso prazer de assim o ser; afinal, Rita danca "numa sofreguidao de gozo carnal num requebrado luxurioso que a punha ofegante", arrastando "a todos, despoticamente, desesperando aos que nao sabiam dancar" (AZEVEDO, 2011, p. 89), pois:
Naquela mulata estava o grande misterio, a sintese das impressoes que
ele [Jeronimo] recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do
meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma
quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas
brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se nao torce a
nenhuma outra planta; era o veneno e era o acucar gostoso; era o sapoti
mais doce que o mel e era a castanha do caju que abre as feridas com
seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traicoeira, a lagarta
viscosa, a muricoca doida, que esvoacava havia muito tempo em torno do
corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras
embambecidas pela saudade da terra, piscando-lhe as arterias, para lhe
cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma
larva daquela nuvem de cantaridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e
espalhavam-se pelo ar numa fosforescencia afrodisiaca. (AZEVEDO, 2011,
p. 90)


Rita Baiana, "a palmeira virginal e esquiva que se nao torce a nenhuma outra planta", parece que foi capaz de seduzir ate seu criador, porque so isso explica o exercicio do dispendio provocado na narrativa que se alvoroca numa diccao que foge do tom cientifico, da dureza do registro e da elucubracao racional toda vez que tem de abrir lugar para abrigar a presenca desta personagem. E Rita quem mais facilmente leva o narrador a perder o desejado distanciamento critico, e provoca um excesso descritivo--uma verdadeira orgia imagistica--que rompe com o sentido documental do relato para, sem pudor, atacar sensoriamente o corpo de uma personagem que cheira e sabe bem, ao mesmo tempo em que preenche os olhos do leitor que nao se pode furtar a devorar um corpo de papel que se oferece tao lexicalmente! Estamos diante de uma personagem de duplo poder: com seu corpo vivo no enunciado seduz Jeronimo e a todos por onde passa; com sua presenca inscrita pela enunciacao, ataranta os olhos e a imaginacao do leitor desavisado ha mais de um seculo!

No entanto, e preciso lembrar de que nem todas as personagens femininas estao marcadas por esta exuberancia indomavel que, se ainda nao e capaz de vencer o status quo, tambem nao e vencida, resistindo na sua diferenca dentro de um romance em que nada, ou quase nada, parece ficar no mesmo lugar, apesar da imutabilidade das forcas que representam o poder constituido. De fato, assistimos apenas ao troca-troca de lugares que mostra que, para cada novo habitante da ascensional "Avenida Sao Romao", uma infinidade anonima de moradores toma de assalto as vielas do "Cabeca de Gato", deixando claro que o mundo da miseria pode ser "naturalmente" reconstituido. Digo "naturalmente" porque recupero a ideia de Affonso Romano de Sant'anna (1973) que defendia que O Cortico deveria ser lido a partir de um eixo interpretativo que privilegiasse o enfrentamento entre os valores que representavam a "natureza" X e os que representavam a "cultura". Para o critico, Joao Romao encarnaria esta forca natural (porque bruta), que palmo a palmo disputaria com o aculturado, (porque aburguesado) Miranda, a posse de uma terra que, em verdade, nao pertencia a nenhum dos dois. Confesso que me custa um pouco ver Miranda como representante confortavel de uma burguesia que, originariamente imigrante, conseguiu enriquecer e prosperar atraves do trabalho duro, ja que, no caso dele, teve de casar com uma brasileira que lhe cobria de vergonha, ao lhe acinzentar a virilidade e a honra, conduta que a sociedade de entao nao costumava perdoar facilmente. A meu ver, Miranda--guardadas as devidas proporcoes--casou-se com uma tambem "palmeira esquiva que se nao torce a nenhuma outra planta" e com ela selou seu destino, transformando a promessa de enriquecimento atraves de um casamento de conveniencias numa "africa" nunca efetivamente conquistada, firmando-se como mais um "jeronimo" traido pelo corpo-terra brasileira:
Mas entao, ele Miranda, que se supunha a ultima expressao da ladinagem
e da esperteza; ele, que, logo depois do seu casamento, respondendo
para Portugal a um ex-colega que o felicitava, dissera que o Brasil era
uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas redeas um homem fino
empolgava facilmente; ele, que se tinha na conta de invencivel
matreiro, nao passava afinal de um pedaco de asno comparado com o seu
vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo de uma
brasileira mal-educada e sem escrupulos de virtude! Imaginara-se
talhado para Grandes conquistas, e nao passava de uma vitima ridicula e
sofredora!.... Sim! No fim de contas qual fora a sua africa?....
Enriquecera um pouco, e verdade, mas como? A que preco? Hipotecando-se
a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de reis, mas incalculaveis
milhoes de desgostos e vergonhas? [...] Qual era afinal a sua grande
existencia? Do inferno da casa para o purgatorio do trabalho e
vice-versa! Invejavel sorte, nao havia duvida! (AZEVEDO, 2011, p. 31)


Sera ainda neste mesmo ensaio que Affonso Romano de Sant'anna (1973) levantara uma outra hipotese, a que recorro para em seguida desenvolver um outro raciocinio. Neste livro, as mulheres funcionariam como elementos de troca que facultariam a mobilidade do masculino--mais especificamente de Joao Romao--do espaco da "natureza" para o espaco da "cultura". O critico usa como exemplos emblematicos Zulmira e Bertoleza, especies de moeda gastas na ascensao social do imigrante portugues que as tantas se cansa de "ter vivido como vivera ate ali, curtindo privacoes, em tamancos e mangas de camisa" (AZEVEDO, 2011, p. 133), e decide, sob o corpo da escrava que ate ali explorara e de olho no corpo da vizinha que lhe serviria de passaporte para chegar a Rua do Ouvidor, modificar-se:
Por que se nao habituara com as roupas finas, e com o calcado justo e
com a bengala, e com o lenco [...] e com tudo que os outros usavam
naturalmente sem precisar de privilegio para isso?... Maldita
economia!--Teria gasto mais, e verdade! Nao estaria tao bem!... mas,
ora adeus! Estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem
quisesse! Seria um homem civilizado!... (AZEVEDO, 2011, p. 134).


Bertoleza e sintomaticamente construida no avesso de Rita Baiana. Ela e o Brasil que tem de morrer e morre porque, para a sua condicao de utensilio necessario ao enriquecimento alheio jogado fora no momento em que perde a sua serventia, a morte e, sem duvida, uma opcao melhor do que a vida. O discurso abolicionista incide sub-repticiamente na cena violenta que encerra o livro: como uma cusparada disparada na direcao do leitor "de bem", Bertoleza, a escrava espoliada e enganada pelo amo a quem serviu como quem serve "a seu homem", encontra a morte usando a mesma faca com que construiu a riqueza do explorador que veio de fora e que sistematicamente dilapidou a escravizada terra brasileira: "A medida que ele galgava posicao social, a desgracada fazia-se mais e mais escrava e rastreira. Joao Romao subia e ela ficava la embaixo, abandonada como uma cavalgadura de que ja nao precisamos para continuar a viagem" (AZEVEDO, 2011, p. 165). Levantando o veu da hipocrisia burguesa, Aluisio Azevedo termina seu romance sem punir a infamia que norteou os passos de muito de suas personagens, criando "uma polemica e faz[endo] com que os leitores dos bairros ricos do Rio de Janeiro descobrissem quais eram as bases da sociedade na qual viviam"(MERIEN, 2013, p. 526).

A dureza que reveste o fim da narrativa espelha a crueza do tempo referencialmente historico, tempo que encenava nos tropicos um neocolonialismo de segunda mao, que rapidamente transformou a jovem Primeira Republica num exemplo de territorio onde o enriquecimento ainda acontecia gracas a escravizacao do trabalho alheio e a espoliacao sem criterios dos recursos naturais, nao sendo gratuito que tanto Bertoleza quanto a pedreira sejam as sombras que protegem o enriquecimento especulativo de Joao Romao. Se os antigos colonizadores agora eram imigrantes empobrecidos que, como seus antepassados, igualmente buscavam o sonho da riqueza na terra "em [que] se plantando tudo da", a verdade e que, na segunda metade dos oitocentos, a presenca lusa nao era mais tolerada de forma obediente ou pacifica, pois o antilusitanismo ja era entao a resposta brasileira a rechacada presenca portuguesa, nao apenas nos quadros politicos do tempo, mas principalmente no comercio varejista, que movimentava a economia das principais cidades da recente Republica. Para os brasileiros:
Portugueses eram marinheiros, eram pucas, eram pes-de-chumbo, termo
este que designava, essencialmente, os soldados das Divisoes
Auxiliadoras Portuguesas [...]. Finalmente, tambem o perfil do
imigrante portugues funcionou como incentivo ao antilusitanismo [...].
Tal processo gerou consequencias que reforcaram o estereotipo negativo
do imigrante portugues, especialmente aos olhos das elites: nao era
este o imigrante com o qual elas sonhavam para a construcao de um
Brasil europeizado e, de preferencia, proximo a um ideal ariano. E, por
outro lado, era um concorrente para o brasileiro pobre, que precisava
espremer-se para caber em uma ordem escravista e que teve que enfrentar
a concorrencia lusitana apos a abolicao. (SOUZA, 2005, p. 143)


Assim, sempre me pareceu estranho a "acusacao" que sobre este romance recaiu: a de que ele defendia a superioridade portuguesa, argumento levado a cabo por parte da critica ao privilegiar a escolha de suposto "branqueamento" feita por Rita Baiana, ao trocar Jeronimo por Firmo; e por Bertoleza, ao se ligar a Joao Romao. Leonardo Mendes lucidamente recorda ser ja impossivel naquele momento falar-se de exaltacao "colonialista", visto que o antilusitanismo era uma realidade historica com que a obra de Aluisio Azevedo de perto mantinha estreito dialogo:
Em O Cortico, um comentario do narrador no capitulo XV--o de que a
mulata Rita Baiana teria escolhido o portugues Jeronimo como parceiro
por ser ele de uma "raca superior"--e inflacionado pela critica a ponto
de obliterar completamente o desprezo com que o narrador trata todos os
portugueses (incluindo o vilao Joao Romao) na economia do romance. Isso
se verifica nao so aqui, mas tambem em O Mulato, e em escritos esparsos
como "Casas de Comodos", no qual os portugueses proprietarios de
quartos para alugar aparecem como "malandros" que viviam da exploracao
da miseria de brasileiros desvalidos, entre os quais se encontravam os
poetas boemios. No contexto politico do inicio da Republica, a
xenofobia antilusitana faria piada de qualquer teoria de superioridade
racial do portugues. (MENDES, 2013, p. 18)


Leonardo Mendes defende que o romance de Aluisio Azevedo flagra "as vozes da cozinha" no Brasil do fim da Monarquia e do inicio da Republica, apontando a circularidade do enredo como um sinal que coloca em "suspeicao a possibilidade do progresso, da justica e da verdade--tudo aquilo que almejava o metodo experimental" (MENDES, 2013, p. 19), criando com isso um naturalismo a brasileira, "uma autentica antiepopeia [sic] do mesquinho e do banal, com herois ambiguos, fechada sobre si mesma" (MENDES, 2013, p. 20). Repito que a ideia das "vozes da cozinha" em muito me seduz, de tal maneira que, para mim, mais do que um romance naturalista, Aluisio Azevedo acaba por escrever uma narrativa que anuncia aquilo que o futuro Romance de 30 no Brasil e o neorrealismo portugues irao transformar em projeto estetico, projeto este que, convenhamos, usou e abusou da diccao naturalista no que ela tinha de melhor a oferecer!

O que nao se pode de fato perpetuar e a leitura equivocada que insistiu em defender a apologia feita pelo autor de O Cortico em relacao a suposta superioridade da figura do imigrante portugues sob a horda de outros tantos desgracados. O que ha no livro e uma ironia desencantada que denuncia a luta por pequenos poderes num mundo pleno de desvalidos, sejam eles burgueses medianos que casam por interesse e vivem as expensas dos caprichos da verdadeira dona da casa; sejam burros de carga, avarentos e mesquinhos, que fazem tudo e mais alguma coisa em nome do enriquecer; sejam ainda aqueles que, fracos de valores e de espirito, nao sao capazes de resistir a tentacao libertaria que se personifica num corpo de mulher. Assim, e preciso nao esquecer que a inveja, a cobica ou o desejo que estes personagens despertam so sao possiveis naqueles que, como eles, sofrem aprisionados na "cozinha social" do Rio de Janeiro da segunda metade do seculo XIX. Neste sentido, torna-se previsivel o olhar despeitado que Joao Romao lanca sobre Miranda; a cobica financeira de Miranda sobre a prosperidade visivel da "besta" de trabalho que lhe parecia o vizinho; a inevitavel e necessaria "associacao de cama e mesa" firmada por Bertoleza com Joao Romao; e a desejosa vontade de Rita Baiana em se destacar atraves do enlace com um portugues--uma especie em diferenca--, capaz de ratificar o poder de seducao que a distinguia socialmente em meio a uma anonima multidao. Se revistos com cuidado, nao ha, em nenhum dos casos, a hipotese de superioridade racica ou etica do portugues como grande parte da critica preferiu entender. Na verdade, o imigrante e visto como veiculo/instrumento capaz de garantir a melhoria, a liberdade, o prazer ou o repouso para corpos irremediavelmente presos num espaco opressor.

Com este romance, Aluisio Azevedo profeticamente anuncia o fim de uma cidade posta abaixo nos primeiros anos do seculo XX atraves da politica draconiana do governo de Pereira Passos que, com seu processo de "higienizacao", varreu para o cume das recentes favelas a "sujidade" represada nos antigos corticos. Voltando ao inicio destas consideracoes, considero que este livro encena de maneira enviesada a "fome de espaco" apontada por Antonio Candido, ja que ela esta presente tanto no nivel da enunciacao, como no nivel do enunciado. Se o narrador parecer ter verdadeira predilecao pelas descricoes que recuperam a paisagem que serve de cenario "organicamente vivo" ao seu enredo, as personagens de O Cortico estao igualmente marcadas por uma obsessao espacial que as faz desejar ora a evasao, ora a ultrapassagem--seja metaforica ou concreta--de um "lugar" histori-co-social que, mais que o sol, era sim, a meu ver, o "unico causador de tudo aquilo".

Referencias bibliograficas

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Monica Figueiredo e Mestre e Doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pos-doutorada pela Universidade de Coimbra (Portugal), onde desenvolveu trabalho de pesquisa sobre a obra de Eca de Queiroz e suas personagens femininas. Atualmente e professora de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Assina inumeros ensaios criticos publicados no Brasil e no exterior, em que investiga nao apenas a escola realista portuguesa, mas a relacao mantida pela literatura oitocentista com a contemporaneidade. E-mail: mnfigueiredo@hotmail.com

Recebido em: 16/01/2018

Aceito em: 15/07/2018

Monica Figueiredo

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, RJ--Brasil

ORCID 0000-0003-2057-6894

(1) A historia centra-se no cotidiano do cortico Carapicus que, destruido por um incendio, e reerguido pelo seu dono, ja agora em franca fase de aburguesamento, ostentando indisfarcaveis melhorias que reafirmavam o processo de refinamento a que Joao Romao se dedicara com afinco canino. O Cabeca de Gato, antigo concorrente, passa a ser o destino possivel para aqueles que ja nao mais cabiam no novo Avenida Sao Romao, firmando-se como um deposito para os mais socialmente rejeitados.

(2) Segundo indicacao de Paulo Franchetti, o trecho traduzido e " Gustave Lanson. Histoire de la litterature francaise. Paris: Librairie Hachette, s/d, p. 802, traducao minha" (FRANCHETTI, 2013).

(3) Lucidamente, Leonardo Mendes problematiza os rigores de certa vertente naturalista: "A relacao entre o Naturalismo e a ciencia e mais problematica do que o ensaio "O romance experimental" da a entender, mas a centralidade do texto na construcao dos esquemas de compreensao do romance naturalista contribuiu para que ele fosse colocado inteiro na esfera politica do que Alain Touraine chama de "modernidade triunfante". O termo descreve a modernidade como uma epopeia da razao que conduz inexoravelmente as sociedades ao aperfeicoamento civilizatorio. Se a civilizacao moderna e um processo inelutavel e libertador, em nome dela se justificam ate mesmo as pretensoes imperialistas que a Europa nutriu e implementou naqueles mesmos anos em que Zola escrevia romances cientificos. O romance naturalista teria participado do grande empreendimento expansivo, depredador e autoritario que foi a civilizacao moderna da segunda metade do seculo XIX. Sem muito esforco, o medico-romancista se transforma num colonizador de corpos, sejam eles os corpos das mulheres, das prostitutas, dos pobres ou dos "pervertidos", todos aqueles que habitavam as cozinhas da sociedade. Como tal, o romance naturalista e compreendido como um discurso empenhado no abafamento de conflitos sociais e na instituicao de normas, verdades identitarias, racismos e violencias. E possivel que este enquadramento critico nao faca justica ao romance naturalista frances" (2013, p. 17).

(4) Affonso Romano de Sant'anna, igualmente, defende a inevitabilidade determinista provocada pelo sol, utilizando o mesmo trecho do romance como exemplo: "Definidos totemicamente com suas bandeiras os grupos se aproximam com suas armas (navalhas) e com suas musicas (danca dos capoeiras). Tem inicio o torneio, que culmina com o incendio desencadeado pela Bruxa--sempre envolvida com o fogo. E para explicar a genese do confronto, surge o narrador reafirmando a ideologia naturalista e servindo-se dos modelos da serie cientifica: "E, no entanto, o sol, unico causador de tudo aquilo" (1973, p. 115-116).

(5) Parto da definicao de Leonardo Mendes (2013, p. 17), citada na nota 3.

(6) Ao apresentar o projeto ficcional "Brasileiros antigos e modernos"--em A Semana de 31/10/1885--, Aluisio Azevedo afirmava pretender escrever cinco romances (entre eles O Cortico) que abarcassem "a sociedade brasileira do Imperio desde o seu nascimento ate a sua ruina que ele sentia proxima". Planejava o autor reunir ali "todos os tipos brasileiros, bons e maus, do seu tempo e compendiar em forma de romance, todos os fatos de nossa vida publica, que jamais serao apresentados pela Historia" (MERIEN, 2013, p. 504).
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Figueiredo, Monica
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Article Type:Ensayo critico
Date:Sep 1, 2018
Words:6765
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