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SERGIO AUDANO, Classici lettori di classici. Da Virgilio a Marguerite Yourcenar.

SERGIO AUDANO, Classici lettori di classici. Da Virgilio a Marguerite Yourcenar, Foggia, Edizioni Il Castello, 2012. 316 pp. ISBN 978-88-6572-080-6

Falar de modelo classico, de fonte de inspiracao, de arquetipo literario nunca e uma operacao simples: quais sao as manifestacoes do classico nos autores posteriores? E de que maneira as citacoes contribuem para que uma obra ou um autor se tornem "um classico"? Mas sobretudo, como avaliar o uso de um classico por parte de um autor que por sua vez procura ser escolhido como modelo? E a partir destas interrogacoes que se constroi este livro de Sergio Audano (daqui em diante A.), que integra os volumes da Echo, coleccao dedicada a permanencia do classico. Nao e decerto de estranhar que, num estudo como este, se de amplo espaco ao "riuso" das sententiae vergilianas, que--como e sabido--conhecem ainda hoje uma grande difusao. O uso das sententiae pode ser dividido em dois grandes grupos: as citacoes passivas, que se limitam ao emprego de material linguistico isoladamente retirado do contexto, as citacoes que--ao serem feitas--acabam por evocar o ambiente textual de origem em todos os seus aspectos (literario, filosofico e as vezes tambem ideologico). A. concentra-se especialmente sobre as segundas, transformando a analise da citacao num belissimo percurso historico, literario e filosofico.

No primeiro capitulo ("Genesi e fortuna di un verso virgiliano ...", pp. 21-64) A. analisa a famosa sententia de Aen. 6, 663 ("Inventas aut qui vitam excoluere per artis") e ilustra as reinterpretacoes senequianas do verso, nomeadamente nas cartas 64 e 90: o tema da inventio artis, segundo o A., e aqui analisado em chave antiposidoniana. O Rodiense tinha atribuido aos filosofos a invencao das artes praticas para o Cordubense, essa atribuicao e injusta, uma vez que, especialmente do texto de Ep. 90, "emerge [...] la superiorita della dimensione intellettuale, attribuibile in unica istanza ai philosophi, indegni pertanto di aver potuto escogitare le arti manuali, legate alla sfera dell'ordinarieta". Muito menos densa, do ponto de vista filosofico, e a reinterpretacao do verso por parte de Silio Italico. Tal comoAen. 6,663, Pun. 537-539 descrevem a condicao ultraterrena dos "primeiros inventores", mas com uma inovacao digna de nota, que justifica a definicao de oppositio in imitando a que A. recorre: ao contrario do que acontecia no modelo vergiliano, aos poetas e aos inventores nao cabe um lugar privilegiado, pois eles "risultano accomunati nelle tenebre alle altre anime". A analise de A., passando pela mediacao de Dante e Petrarca (mas sem ignorar as reinterpretacoes de Aen. 6, 663 feitas por Servio, Macrobio e Lactancio), conclui-se com a explicacao do processo historico e cultural em que amadureceu a escolha da Academia de Suecia de escolher o verso, ainda que com algumas alteracoes ("inventas vitam iuvat excoluisse per artes"), como lema das medalhas do premio Nobel: e aqui que o auto poe a tonica sobre a importancia da investigacao e da busca do verdadeiro como valores transversais as epocas, que a sententia vergiliana e capaz de resumir "contro ogni forma di fanatismo, antico e moderno".

Igualmente atento e o amplo estudo ("Bruto e il lungo percorso di una 'sententia' virgiliana ...", pp. 65-162, dividido em duas partes) sobre as reinterpretacoes da figura de Bruto imortalizada pelas palavras de Aen. 6, 817-823, pronunciadas por Anquises no seu discurso antecipatorio da historia heroica de Roma, que aqui refiro: "vis et Tarquinios reges animamque superbam/ ultoris Bruti, fascisque videre receptos?/ consulis imperium hic primus saevasque securis/ accipiet, natosque pater nova bella moventis/ ad poenam pulchra pro liberiate vocabit,/ infelix, utcumque ferent ea facta minores:/ vincet amor patriae laudumque immensa cupido". Qual e o juizo que o poeta de Mantua emitiu sobre o homem a quem a tradicao romana atribuia a fundacao da res publica e que, em nome dos interesses da propria res publica, nao hesitou em condenar a morte os seus filhos? A. afirma que, no geral, a figura de Bruto e retratada positivamente, e mostra-se proximo da leitura de Eduard Norden (Aeneis Buch VI, Leipzig, 1906, pp. 312-316), aprovada por Antonio La Penna ("L'impossibile giustificazione della storia", Bari, 2005, p. 367), segundo a qual toda a resenha historica do sexto livro, e logo todos os elementos que dela fazem parte, seria de entender como uma tentativa de enraizar historicamente a figura de Augusto "im nationalen Erdreich" (E. Norden, cit., p. 315). A adesao de A. a tese de E. Norden, e A. La Penna porem, nao e passiva: "Virgilio"--diz A.--"non fa emergere solo la lue". Se por um lado Bruto e o campeao dos valores vetero-republicanos, por outro lado ele representa a ruptura traumatica de uma relacao parental. Um optimo exemplo da forca ancipite das palavras de Vergilio e dado pelo sintagma animamque superbam do v. 817. A quem deve ser referido? Aos reis Tarquinios aludidos no mesmo verso (Tarquinios reges) ou, por enjambement ao vingador Bruto do verso seguinte (ultoris Bruti)? Superbus--e quase superfluo relembra-lo--e o adjectivo que tradicionalmente pertence aos Tarquinios: a solucao mais obvia seria logo associar o sintagma a Tarquinios reges do v. 817. Mas precisamente porque obvia, ela correria o risco de se traduzir no que Matthew Leigh ('Vincet amor patriae laudumque immensa cupid' ...", Athenaeum, 100, 2012, 283) define "an essential banalisation of Vergil's poetic language". Existe outro elemento que abona a favor da ligacao do sintagma animamque superbam a Bruto: o hiperbato da enclitica, que sugere uma separacao entre os membros Tarquinios reges e animamque superbam e, por simetria, uma associacao dos membros animamque superbam e ultoris Bruti (sobre essas questoes, remeto para Damiano Moscatelli, "Sulla raffigurazione di Bruto nel VI libro dell'Eneide", Maia, 63, 2011, onde o autor comenta a discutivel pontuacao--virgula depois de superbam--das edicoes de E. Norden, cit., e Mario Geymonat, 'Publius Vergilius Maro', Opera, Roma, 2008, bem como os loci similes assinalados em comentario por E. Norden, cit., pp. 393-395. Relembro que a escolha de unir animamque superbam a Tarquinios reges e a consequente opcao editorial de colocar uma virgula depois de superbam tem precedentes nos comentarios de Servio e Donato). Existe outro problema, desta vez relativo nao tanto ao referente do sintagma animamque superbam quanto a area semantica que superbus abrange. O adjectivo, como e sabido, pode comportar-se como vox media; embora maioritariamente usado na sua acepcao negativa, pode ter tambem valor positivo, como nos demonstra o proprio Vergilio em Aen. 2, 504. A hipotese do uso edificante, para M. Leigh (cit., p. 284), e quase certamente de rejeitar: superbus e empregue numa zona do texto muito proxima dos Tarquinios, aos quais estava tradicionalmente associada uma opiniao hostil (cf. e.g. Cicero, Resp. 2, 45). Corroboram a leitura de M. Leigh os dados apresentados por Roland G. Austin, P. Vergili Maronis Aeneidos liber sextus, Oxford, 1977, pp. 251-252), que nos levam a concluir que superbus, no poema, e usado quase sempre negativamente. Mas vejamos o que dizia Giovanni Pascoli (Epos, Firenze, 1958, a.l.): "[...] l'aggiunto di Tarquinio passa al suo nemico, dal cattivo al buon senso". Esta interessante solucao anfibologica e aceite por D. Moscatell (cit., p. 585), o qual, analisados os poucos, mas significativos casos, em que superbus e usado num sentido positivo, ou moralmente neutro, comenta: "[...] l'operato di Bruto puo essere definito 'superbo' in senso stretto, cioe superiore rispetto alla norma assiologica interiore, giacche sacrifica i figli nel nome della patria e del rispetto delle leggi, e, per questo motivo, superiore anche rispetto alla gerarchia di valori standar".

A., depois de um percurso exegetico que o fazia parecer inclinado para a atribuicao de animamque superbam aos Tarquinios (no texto de Aen. 6, 817-823, referido na p. 66, ele acolhe a pontuacao de E. Norden), acaba por deixar irresoluta a ambiguidade vergiliana, que assim explica: "Rimane, a mio avviso, tuttora valida [...] l'ipotesi di un'ambiguita intenzionale da parte del poeta, motivata dal fatto che Virgilio intende problematizzare, sotto l'aspetto etico, la decisione di Bruto di uccidere i propri figli ed evidenziare [...] la drammatica contraddittorieta di fondo che, invece, l'interpretazione politica strettamente corrente tendeva a uniformare, esaltando in modo unilaterale la scelta del primo console di tutelare la res publica, anche a costo della morte dei figli". Na minha opiniao, A. atribui a Vergilio uma atencao excessiva pelas possiveis implicacoes eticas do gesto de Bruto. Se e verdade, como explica D. Moscatelli (cit., p. 582) com uma feliz expressao, que Bruto determina uma "inversione del normale decorso biologico" (o pai que sobrevive aos filhos, circunstancia neste caso agravada pelo facto de os filhos morrerem por decisao do pai), tambem e verdade que a decisao de Bruto e atribuida uma firmeza que nao deixa entrever problematizacoes de tipo etico. Com efeito, na resenha historica, Bruto nao e o unico pai que condena a morte a sua prole. No v. 824, Vergilio refere o caso de Torquato, o qual tambem sancionou a pena capital para o filho Tito Manlio que, contrariando as suas ordens, tinha atacado um manipulo de latinos (cf. Livio, 8, 7). O recurso a violencia sumaria, mesmo quando dirigida contra consanguineos, nao e apresentado como uma aberracao ou como um desvio do rumo natural das coisas, mas sim como uma logica e inevitavel consequencia da incorruptibilidade e do apego a res publica: e claramente concebido como um valor, e nao como um des-valor. Nao posso, por isso, deixar de concordar com as palavras de A. La Penna ("Qualche problema nella rappresentazione della rassegna storica del VI libro dell'Eneide", Maia, 55, 2003, 231-232): "Si capisce bene perche subito dopo vengono Cesare e Pompeo [cf. gener, v. 831 e socer, v. 830] e segue l'apostrofe dolorosa ad essi rivolta da Anchise: essi sono proprio il contrario degli exempla di amor patriae e di concordia nell'interesse della patria che rientrano nel gruppo precedente". E de acrescentar que Vergilio nao manifesta nenhuma atitude simpatetica para com os filhos de Bruto, que sucumbiram ao mais severo dos castigos, pois deles limita-se a por em realce as veleidades belicas: [...] natosque [...] nova bella moventis (nova bella veicula a ideia de uma novidade chocante, isto e, filhos que se revoltam contra o pai, tal como foi chocante a situacao de conflito que se criou entre romanos e sabinos, cf. Aen. 8, 637: novum [...] bellum, devido a um rapto que se consumou sine more, v. 635--ver Robert A. Gurval, Actium and Augustus ..., Univ. Mich. Press, 1995, pp. 219-220. Na minha opiniao, porem, nao e de excluir que atras do sintagma nova bella se esconda tambem um monitus referido a eventuais planos sediciosos, que turbariam aquela pax em torno da qual Augusto tinha construido boa parte da sua propaganda). A bem dizer, a verdadeira compaixao do poeta parece ser toda para o consul: "infelix, utcumque ferent ea facta minores". Objectar-se-a que o adjectivo infelix, alem de ter o valor passivo de '"vitima de circunstancias' desfavoraveis", pode ter o valor activo de "portador de desgraca" (cf. e.g. Cicero, Phil. 2, 64): neste segundo caso, uma sombra de hostilidade cairia sobre a figura de Bruto. Mas dar a infelix um valor passivo, na minha opiniao, inscreve-se mais coerentemente na arquitectura ideologica da obra, que as palavras de Eneias de Aen. 4, 361 bem resumem: "Italiani non sponte sequor". Eneias e o recipiente, ainda que activo, de um destino ja tracado, e nao o protagonista autonomo de um enredo que ele nao teceu (Claudia Teixeira, "O heroismo na Eneida ...", Humanitas, 58, 2006, 65, fala, a este proposito, de "inexistencia de uma agregacao solidaria entre as facetas sociais e politicas desse heroismo [i.e., de Eneias] com o plano da individualidade [...]". Em suma, o sujeito humano torna-se objecto de uma decisao que lhe e superior (nao creio ser possivel aceitar a proposta de Mark Petrini, The Child and the Hero ..., Univ. Mich. Press, 1999, p. 57, segundo a qual infelix "suggests not only unhappiness, but also lack of progeny (here through loss)": para dar a infelix esse significado, deveriamos supor um emprego de tipo etimologico. Mas infelix, etimologicamente, remete para a esfera da esterilidade, e nao pode ser o caso de Bruto. Sobre infelix em Aen., ainda util Arthur S. Pease, Publi Vergili Maronis Aeneidos liber quartus, Cambridge--Mass., 1935, pp. 145-146). Acrescento que--como reconhece o proprio A. -, as palavras de Anquises, que entregam "ai posteri l'ardua sentenza" ("ferent ea facta minores"), acabam por por o acento sobre o juizo positivo que as geracoes posteriores a Bruto, no tempo de Vergilio, ja tinham dado do primus consul. Significativas, a esse proposito, sao as consideracoes de Cicero em Resp. 2, 45 e 2, 51 e o conto de Dionisio de Halicarnasso (8, 1-8). O binomio "Bruto--heroi positivo" continuara vivo na epoca imperial, como nos demonstra, ainda que com algumas perplexidades, o testemunho de Plutarco, Pubi. 6, 5-6 (e possivel que tudo isto tenha influenciado a traducao de E. Norden, cit., p. 99, "Unglucklich, ob auch noch so sehr die Nachwelt / Die Tat einst ruhmt [...]"--ver tambem o comentario, ibid., p. 329 -, criticada por Egil Kraggerud, "Notes on Anchises'hspeech ..." in M. Asztalos, C. Gejrot (eds.), Symbolae Septentrionales ..., p. 64: na opiniao do estudioso noruegues, o verbo "ruhmen"--"louvar"--representa uma interpretacao indevidamente positiva do latino ferre. Mas cf. o ferie sermonibus de Livio, 4, 5). Em suma, parece-me dificil supor que Vergilio tenha usado a fama de Bruto, que era uma boa fama, para veicular ou insinuar escondidamente a possibilidade de um juizo negativo ou ancipite. Tenho alias a sensacao de que evocar a boa fama de Bruto podia funcionar como uma estrategia de resolucao em positivo das possiveis complicacoes derivantes do gesto extremo do primus consul: isto e, uma estrategia para evitar as problematizacoes. Igualmente debatida e a interpretacao de laudumque immensa cupido. Excluida a hipotese de que as palavras sejam o fruto de uma interpolacao devida a gramaticos posteriores (cf. e.g. Ennio Quirino Visconti, Oeuvre. Iconographie romaine. Tome premier, Milao, 1818, pp. 38-39: "[...] n'est qu'une cheville ajoutee par quelque grammairien a la clausule vincet amor patriae"), A. coloca as interrogacoes do costume: foi um legitimo desejo de gloria, justificado pelos extraordinarios meritos do primus consul, ou um desejo desmedido de prestigio pessoal? Tambem neste caso, A. acaba por advir a uma conclusao extremamente prudente: a expressao laudumque immensa cupido possuiria uma "indeterminatezza, molto probabilmente non casuale, che ha generato notevoli discussioni tra commentatori antichi e interpreti moderni". Como ja expliquei, esta posicao mediana, embora motivada por argumentos de inegavel subtileza psicologica, nao me convence completamente. O que nao se pode negar, porem, e que A., ao analisar as "discussioni tra i commentatori antichi e moderni", revela um conhecimento das dinamicas de recepcao certamente invulgar. Refere, de entre muitas, a reinterpretacao de Agostinho de Hipona (Ctv. 5, 18, 1), que preferiu ver em Bruto a matriz da degeneracao das estruturas republicanas: a res publica estava destinada a colapsar porque as suas sementes eram corruptas. A releitura do Hiponate opoe-se a de Tolomeo de Lucca (De regimine principum, 3, 5), que, pelo contrario, ve na decisao de Bruto de condenar a morte os seus filhos um positivo exemplo de zelus legalis iustitiae. Mas a exegese mais interessante e certamente a de Vittorio Alfieri, que fez de Bruto o sujeito de uma importante tragedia, Bruto primo. E no tratado Del principe e delle lettere (2, 7), porem, que o escritor de Asti nos entrega o seu mais claro juizo sobre Aen. 6, 817-823. Em aberta polemica contra Vergilio, Alfieri afirma que Bruto nao era o "vendicatore crudele e vanaglorioso" que o poeta quis retratar, mas sim um "cittadino liberatore". O uso da expressao laudumque immensa cupido, para Alfieri, deve-se a vontade vergiliana de invalidar a imagem positiva de Bruto veiculada pelo adjectivo pulcher, que o poeta usa--porque obrigado pela evidencia dos factos, e nao por genuina conviccao--para designar a libertas em nome da qual o primus consul lutou: "[...] dovendogli sfuggire per forza l'epiteto di pulcra a liberiate, intieramente lo cancella tosto coll'aggiungervi il laudum immensa cupido". A hostilidade de Vergilio para com Bruto, segundo Alfieri, e explicavel a luz de uma simetria que nao e dificil intuir: os Tarquinios sao os tiranos contra os quais Bruto surgiu, tal como Augusto e o tirano ao servico de quem Vergilio escrevia, interpretando o espirito "cortigianesco" tipico de Pietro Metastasio, ao qual--como e sabido--Alfieri, na sua autobiografia (Vita di Vittorio Alfieri da Asti scritta da esso), atribuiu a pratica da "genuflessioncella d'uso" (parece-me evidente que a leitura de Alfieri e viciada por reflexoes que sao completamente estranhas ao texto da Aen. Interessantes, a este proposito, as consideracoes de Nicola Terzaghi, "Il panegirico di Plinio a Traiano ...", in Vittorio Alfieri. Studi commemorativi ..., Firenze, 1951, p. 118). E tendo em vista estes dados que A. confecciona uma das partes mais saborosas do seu estudo. Na tragedia Bruto primo, 5. acto, w. 54-56, Alfieri escreve: "[...] Oggi de' Roma/ ad alta prova ravvisar, qual fera/ brama ardente d'onor noi tutti invada". Estas palavras, pronunciadas por Valerio, satelles de Bruto, ecoam indubitavelmente o modelo vergiliano: "[...] utcumque ferent ea facta minores:/ vincet amor patriae laudumque immensa cupido". Como e evidente, o verbo italiano invadere substitui o latino vincere, mas as diferencas vocabulares nao sao as unicas. A. nota muito subtilmente que a dimensao temporal tambem muda: nao cabe aos minores a avaliacao da figura de Bruto. A posteridade, que tanta importancia tem no verso vergiliano, nao existe nesta seccao da tragedia de Alfieri, tal como nao existe na frase que encerra a peca, pronunciada desta vez por Bruto: "l'uom piU infelice, che sia nato mai". Aqui e o primus consul quem, no tempo verbal presente, e no tempo presente que ele vive, emite o seu juizo sobre si proprio. A urgencia, para Alfieri, e a de transpor para a contemporaneidade a forca convulsiva da figura de Bruto, infeliz por ter tomado a decisao mais dolorosa da sua vida, mas limpido exemplo de integridade que, como o povo de Roma finalmente livre do jugo monarquico, "[...] al giudicar non d'altro/ mai si preval, che della ignuda legge". E no presente, contra as atitudes deferentes dos intelectuais cortesaos, que se desenvolve a luta de Alfieri, modelo de escritor engage. Dos dados que foram aqui expostos, podem-se facilmente intuir os excelentes servicos que as reflexoes de A. prestarao aos estudiosos da polemica alfieriana contra o "cortigianismo".

Seria redutor dizer que a parte do volume que foi ate agora apresentada e um estudo sobre a recepcao: ao analisar a "fortuna" das sententiae vergilianas, o autor oferece brilhantes suposicoes sobre a genese respectiva. Ao escrever Aen. 6, 663, Vergilio tinha em mente Lucrecio e o Cicero de Resp. e Off.? E, ao fazer o seu retrato de Bruto, qual foi o peso exercido pela tradicao referida por Cicero em Resp. 2, 45? Em suma, A. nao desperdica a ocasiao para relembrar ao leitor que Vergilio e nao so um classico, como tambem um leitor de classicos: neste sentido, Classici lettori di classici tem o inegavel merito de chamar a atencao para o tributo que o poeta de Mantua paga aos grandes da literatura latina que o precederam. A solidez da preparacao filologica de A. e o seu profundo conhecimento das literaturas antigas, por seu lado, tem o merito de nos relembrarem que quem se ocupa de "Fortleben" tem a obrigacao de conhecer a "materia prima", na sua inteireza e quando ainda esta em vida, para depois poder re-conhecer o que dela sobreviveu: os autores podem ser estudados, mas--salvo os casos de tradicao indirecta--nao podem ser conhecidos mediante a sua recepcao.

A atencao dedicada a releitura alfieriana de Aen. 6, 817-823 antecipa os conteudos do quarto capitulo ("Leggere l'antico dopo Alfieri: le ambiguita di Massimo D'Azeglio ...", pp. 163-194). A fruicao dos classicos, em Alfieri, e filtrada pela experiencia politica: os grandes poetas como Vergilio e Ovidio sao preteridos em prol da "storiografia di matrice politica e anti-tirannica, a cominciare da Livio e Plutarco". A observacao e muito apropriada: a versao de Livio sobre a historia de Bruto e, por Alfieri, considerada como sendo a unica fidedigna e capaz de contrabalancar as distorcoes vergilianas. Quanto a veneracao por Plutarco, sera suficiente recordar que o escritor de Asti, na sua autobiografia, definiu os bioi, "il libro dei libri". Alfieri, segundo A., antecipara a atitude para com os classicos de Massimo D'Azeglio. A formacao classica de D'Azeglio nao era ma: conforme aprendemos de I miei ricordi, 1.a parte, cap. 7, era capaz de escrever em latim de fisica e de logica (mas tinha imensos problemas com o grego). Mas e de dizer que o ensino das linguas antigas, e em geral da cultura classica, na Italia do fim do seculo XVIII--inicio do seculo XIX, era ministrado quase exclusivamente por representantes do clero e estava bem longe dos canones rigorosos ja ha muito radicados em paises como a Alemanha (que nessa altura comecava a dotar a filologia classica de um estatuto cientifico), os Paises Baixos, a Gra-Bretanha, a Franca: a filologia cientifica, em Italia, comecou com um atraso monstruoso (a bibliografia sobre o tema e vastissima. Aqui citarei unicamente Girolamo Vitelli, "Ricordi di un vecchio normalista", in Nuova Antologia, 53, 1 de Abril de 1930). O proprio D'Azeglio (ibidem) manifestava-se fortemente critico para com o sistema de ensino das linguas antigas e da cultura classica, que tachava de inuteis e responsaveis por lhe terem subtraido tempo que poderia ser empregue na aprendizagem do ingles ou do alemao. O estudo de A. vai no sentido de demonstrar que o "repudio" de D'Azeglio deixa abertas algumas fendas nas quais a cultura classica acaba por se inserir, aflorando--por exemplo - nas numerosas citacoes daquele Plutarco que Alfieri tanto amava e na reproducao de conteudos com toda a probabilidade dependentes das reflexoes dos mais importantes autores latinos. Cf. e.g. I miei ricordi, 2.a parte, cap. 2, onde D'Azeglio define, em termos so aparentemente modernos, o que julga ser a essencia da heranca de Roma, isto e, "la glorificazione della forza a danno del diritto". Na verdade, como explica justamente A., as relacoes de forca num sistema de poder ja tinham sido tematizadas por Cicero, no terceiro livro de Resp., onde o autor, mediante as personagens de Lelio e Filo, refere as antilogias de Carneades sobre a justica. Tacito tambem tinha reflectido aprofundadamente sobre o problema, no discurso de Calgaco (Agr: 29-32), de que todos nos conhecemos a celebre sententia: ubi solitudinem faciunt, pacem appellant.

O quinto ensaio ("Mito e antimito di Roma nella questione meridionale", pp. 195-224) leva-nos a Italia do Sul do vintenio fascista, que viu o escritor Cario Levi condenado ao exilio na regiao da Basilicata por causa da sua actividade contra o regime. A atencao de A. foca-se na retomada de conteudos vergilianos na obra mais importante de Levi, Cristo si e fermato a Eboli. Em contratendencia a propaganda mussoliniana, Levi--segundo A.--usa a epica augustana num sentido antiprovidencial: nao e a luz da civilizacao que raia sobre o atormentado "Mezzogiorno d'Italia", mas sim a da invasao cultural. Os troianos, numa perspectiva antiaugustana, nao sao os portadores de civilizacao, mas sim aqueles que impuseram a forca valores que a "civilta contadina" dos "antichissimi italiani" nao podia perceber. As gentes italicas que conheceram a vinda de Eneias e dos outros troianos eram camponeses, tal como o povo da Basilicata que Levi teve a oportunidade de conhecer. Nao e dificil completar a simetria: os troianos representam aquela cultura fascista que Marcello Aurigemma ("Cario Levi", in Letteratura italiana. I contemporanei, Roma, 1969, v. 3, p. 367) definiu "statolatrica e teocratica", responsavel por ter invadido uma "cultura contadina autonoma".

No ensaio sobre Marguerite Yourcenar, o sexto ("Eraclito e l'eterno ritorno nei Memoires ...", pp. 225-244), o autor oferece uma leitura original e, pelo que me consta, inedita, do afastamento de Adriano da vida publica posterior a morte de Antinoo, tal como Yourcenar o descreve no capitulo 5 das Memoires. A dor que aflige o imperador, segundo A., e descrita em tons muito proximos dos que Cicero usou em ad Att. 12, 14, ao falar da morte da sua Tulliola e da escolha terapeutica de escrever a Consolatio. Sobre esse problema, Adriano tinha ja reflectido no capitulo 4: aqui, o imperador comenta o escrito consolatorio que lhe tinha enviado o retor Numenio (que--como nos relembra Yourcenar nos Carnets de notes de 1988, p. 345, citando a Suda, v. 518--realmente tinha escrito uma consolatio a Adriano, depois da morte de Antinoo). Para o imperador, a ideia de que a alma sobrevive ao corpo e so uma estrategia "pour nos incliner a la resignation": a verdadeira consolatio repousa na ideia "du changement et du retour", que e a marca do pensamento de Heraclito. Mas como sabemos que, ao ecoar o tema do eterno retorno, e ao atribuir a Adriano a procura de um modelo consolatorio alternativo, a escritora se refere ao filosofo de Efeso? A. propoe uma leitura ao recuo, pela qual todas as manifestacoes dipersas da presenca heraclitiana encontrariam um ponto de convergencia no capitulo 2 das Memoires, onde Heraclito, alias, e explicitamente citado. Por ocasiao da visita a Osroes da Partia, Adriano tem a oportunidade de conhecer um bramane, para o qual--nas palavras do imperador--a austeridade, a morte, o espirito de renuncia sao uma maneira de fugir ao fluxo mutavel das coisas, ao qual Heraclito ("notre Heraclite", no texto frances), por seu lado, cientemente se entregou. A analise faz-se subtilmente filologica na analise do lexema "conflagration", que Yourcenar usa no capitulo 3 para designar o incendio de Troia. Para A., o uso do termo, neste contexto da obra, evoca a divida do Portico para com Heraclito no que diz respeito a elaboracao da doutrina da [phrase omitted] (cf. Simplicio, De caelo 294 = SVF 2, 617) e deve ser enquadrado no contexto da reviviscencia do estoicismo no tempo de Adriano. O estudo conclui-se com uma consideracao sobre a natureza do dialogo entre Yourcenar e Heraclito, que--para A.--deve ser lido nao numa perspectiva "misticheggiante o para-magica", mas sim a luz da incapacidade de encontrar respostas nas teorias filosoficas e religiosas que imperavam no segundo pos-guerra. A reaccao da escritora francesa tera sido entao a de "valorizzare al meglio la capacita dell'individuo di interrogarsi liberamente, senza dogmi preventivi di ogni tipo, sulle grandi questioni esistenziali, a partire dase stessi, come [...] insegna Eraclito in uno splendido, icastico frammento (fr. 101 D.-K.: [phrase omitted])". Permito-me acrescentar que, na minha opiniao, o fragmento que A. indica (e que conhecemos gracas a Plutarco, Mor. 1118 C), poderia servir de tagline (nao digo epigrafe so porque essa ja foi escolhida, e bem, pela autora) do romance de Yourcenar, autentico mergulho na interioridade do ser humano.

Encerram o volume tres "Note di lettura". Na primeira ("Eccessi smaniosi del dolore ...", pp. 245-252), A. estuda a maneira como Marcial reinterpreta os estilemas da laudatio funebris em homenagem a individuos da classe servil em 5, 37 (epigramma longum), epicedio para a vemula Erocio, que revela a grande sensibilidade que o poeta tinha pelo [phrase omitted]. Na segunda ("Due note su Petrarca e il genere consolatorio", pp. 253-268), analisa a capacidade de Petrarca de fundir, num unico registo literario, material proveniente de diversas fontes classicas. Neste caso especifico, A. ocupa-se da maneira como Petrarca consegue reutilizar numa carta consolatoria (Fam. 14, 3, 6) os conteudos de Cicero, Resp. 6, 14, e Catulo, 3, 11-12. A terceira nota ("Sacra profanis miscere ...", pp. 269-278) ilustra um possivel eco lucreciano num "moteto sacro" de Nicola Porpora (mas A. prefere a vertente Nicolo), importante compositor italiano activo no primeiro quartel do seculo XVIII.

As gralhas parecem-me ser poucas. Eu, pelo menos, so detectei duas: "ricevi" em vez de "riceva" na p. 167 e immense em vez de immensa na p. 292 (na indicacao bibliografica do artigo de M. Leigh, cit.). O volume contem um Index locorum, infelizmente viciado por alguns erros tipograficos que, contudo, a editora e o autor tiveram o cuidado de assinalar mediante a difusao de um "foglio volante" com indicacao dos errata corrigenda. A acribia com que os textos sao analisados, a clareza das solucoes propostas e a exigencia constante de problematizacao que transparece em todas as palavras de A. tornam este volume uma aquisicao extremamente util, quer para os estudiosos da antiguidade classica, quer para quem se ocupa de literaturas modernas e contemporaneas. Eu, pessoalmente, aprendi muitissimo dele.

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GIUSEPPE CIAFARDONE

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Author:Ciafardone, Giuseppe
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2016
Words:4698
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