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SATURACAO TEORICA EM PESQUISAS QUALITATIVAS: RELATO DE UMA EXPERIENCIA DE APLICACAO EM ESTUDO NA AREA DE ADMINISTRACAO/Theoretical Saturation in Qualitative Research: Report of an Experience of Application under study in the Administration Field.

1 INTRODUCAO

Em investigacoes qualitativas, uma questao frequente e por quanto tempo o pesquisador deve continuar em campo, coletando novos dados (FONTANELLA et al., 2011; SANTOS, 2014; MINAYO, 2017). A regra geral na construcao de teorias e coletar informacoes ate que todas as categorias da pesquisa sejam desenvolvidas ou, conforme denominou Strauss e Corbin (2008, p. 205) "estejam saturadas".

A amostragem por saturacao e uma ferramenta conceitual que pode ser empregada em investigacoes qualitativas. E usada para estabelecer o tamanho final de uma amostra, interrompendo a captacao de novos dados. Nessa tecnica, o numero de participantes e operacionalmente definido como a suspensao de inclusao de novos participantes, quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliacao do pesquisador, certa redundancia ou repeticao nao sendo considerado produtivo persistir na coleta de dados. Em outras palavras, significa que as informacoes fornecidas por novos participantes pouco acrescentariam ao material ja obtido, nao contribuindo de maneira relevante para o aperfeicoamento da reflexao teorica fundamentada nos dados ja coletados (FONTANELLA; TURATO, 2007; FALQUETO, 2012).

Nas palavras dos autores seminais, Glaser e Strauss (2006), por meio dessa tecnica constata-se o momento em que se deve interromper a captacao de informacoes pertinentes a discussao de uma determinada categoria de analise no contexto de uma investigacao qualitativa. Trata-se, assim, de uma confianca empirica de que a categoria esta saturada, levando-se em consideracao uma combinacao dos seguintes criterios: os limites empiricos dos dados, a integracao de tais dados com a teoria (que, por sua vez, tem uma determinada densidade e esta diretamente ligada ao referencial teorico) e a sensibilidade teorica de quem analisa os dados. Assim, atraves da saturacao teorica, o pesquisador se torna capaz de designar o momento em que o acrescimo de dados nao altera a compreensao do fenomeno. Ou seja, representa um criterio que permite estabelecer a validade de um conjunto de observacoes em pesquisas de carater qualitativo (GLASER; STRAUSS, 2006).

Dado o interesse crescente sobre o uso da tecnica e, ate mesmo por este motivo, a tecnica necessitar de criticas, aprimoramentos e relatos sobre sua aplicacao (O'REILLY; PARKER, 2012), o objetivo deste trabalho e relatar uma experiencia de aplicacao da saturacao teorica, descrevendo os passos e ressaltando os desafios enfrentados em cada etapa. Pretende-se, dessa forma, contribuir para o debate teorico e pratico em torno do tema e tambem divulgar formas de sistematizacao, de tratamento e analise de evidencias empiricas coletadas em pesquisas que utilizem amostras fechadas por saturacao, em especial, no campo da Administracao.

2 SATURACAO TEORICA

A forma de constituicao de um subconjunto capaz de ser representativo do contexto sob investigacao e um importante aspecto de validacao em pesquisas cientificas, uma vez que os dados a serem analisados emergem fundamentalmente dos participantes que compoem o subconjunto. A formulacao de uma amostra transcorre paralelamente a de outros elementos cruciais de validacao amostral, tais como: o desenho da pesquisa, o recorte do objeto, a formulacao do problema, dos pressupostos ou das hipoteses, a escolha dos instrumentos de coleta de dados e as referencias bibliograficas que serao utilizadas na interpretacao dos resultados (SANDELOWSKY, 1995; FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008). Em pesquisas quantitativas, o tamanho da amostra pode ser calculado atraves da estatistica. Ja nas qualitativas e preciso refletir sobre o que se espera dos participantes do estudo. Para Fontanella, Ricas e Turato (2008), em estudos qualitativos de qualquer natureza, decisoes relativas a amostra ocorrerem, em sua maioria, por criterios de selecao que nao considerem mensuracoes das ocorrencias estudadas, ao contrario das pesquisas quantitativas que, ao utilizarem amostragem probabilistica, nao devem prescindir desta caracterizacao ao calcularem o "n" adequado aos calculos estatisticos (SANTOS, 2014; FLICK, 2012; FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008).

Dessa forma, na abordagem qualitativa, a selecao dos participantes nao deve seguir criterios quantitativos pelo simples fato de que o objetivo nao e quantificar opinioes ou fenomenos, mas explorar uma gama de depoimentos, realizar analise de conteudo e se aprofundar nas relacoes e nas diferentes representacoes que um problema pode acarretar (GASKELL, 2000). Conforme afirmam Paiva Junior, Leao e Mello (2011, p. 191), "a objetividade da pesquisa qualitativa e verificada em termos da validade e da confiabilidade de suas observacoes". Nesse sentido, compreende-se como validade a confianca com que se pode tirar conclucoes corretas de uma analise e como confiabilidade a consistencia com que um procedimento de pesquisa ira analisar um fenomeno da mesma forma em tentativas distintas, se o contexto investigado permanecer constante (PAIVA JUNIOR; LEAO; MELLO, 2011; BAUER; GAUSER, 2008).

O criterio de amostragem por saturacao pertence as esferas de validacao objetiva e de inferencia indutiva e e utilizado para determinar quando o pesquisador deve finalizar o processo de coleta de dados. Tem legitimidade logica, porem aplica-se somente a casos especificos no ambito das pesquisas de carater qualitativo, alem de depender da conceitualizacao precisa das categorias teoricas de analises e das propriedades investigadas (THIRY-CHERQUES, 2009). Ademais, os seus limites nao podem, por definicao, ser dimensionados a priori. A alternativa de estimacao deve ser empirica, fundada na replicacao dos experimentos. Assim, o investigador devera realizar a analise dos dados logo depois de realizada a coleta e so sabera o numero de entrevistas (ou observacoes) que serao necessarias depois de encontrado o ponto em que as categorias saturar ou, em outras palavras, o momento da pesquisa em que nao ha mais informacao relevante para coletar porque os dados estao se repetindo (GLASER; STRAUSS, 2006).

Glaser e Strauss (2006) explicam a saturacao como o momento em que o investigador percebe que as lacunas em sua teoria, sobretudo aquelas relacionadas aos conceitos principais, foram em grande parte sanadas, se nao completamente. Segundo os autores, o pesquisador deve buscar a saturacao de todas as categorias ate que fique claro as principais caracteristicas do fenomeno, caso contrario, pode acabar com um universo vasto de categorias pouco integradas para efeitos de formar um modelo teorico. Nessa visao, o criterio de maior relevancia para determinar a saturacao teorica e formado por uma combinacao entre os limites empiricos dos dados, a integracao e a densidade da teoria resultante e a sensibilidade teorica do investigador em campo (GLAUSER; STRAUSS, 2006).

Na concepcao de Kaufmann (1996), a saturacao representa um processo baseado no acumulo de ideias e conceitos que, a medida que a coleta dos dados avanca, tornam-se mais claros e articulados entre si. Nesse processo, as hipoteses de pesquisa se afunilam e formam um nucleo central, ou seja, o modelo teorico atinge maturidade e estabilidade.

Dessa maneira, ao utilizar a amostragem por saturacao, e necessario sistematiza-la cuidadosamente. Embora possa parecer um procedimento decorrente de uma constatacao facilmente atingivel, muitas vezes a averiguacao de saturacao pode ser realizada de maneira acritica ou excessivamente subjetiva. O pesquisador deve estar atento aos criterios utilizados na aplicacao da tecnica e na constatacao da saturacao nas categorias (STRATUSS; CORBIN, 2008). Conforme evidenciaram Fontanella, Ricas e Turato (2007), no extremo, o emprego da tecnica pode se apoiar apenas no consenso que existe entre pesquisadores qualitativos, sobre a propriedade de utilizacao deste recurso metodologico, faltando a suficiente discriminacao quanto ao seu significado, o que acaba ferindo a transparencia da investigacao.

Outro ponto e que no emprego da tecnica, a coleta e analise de dados sao concomitantes, dessa forma, a cada coleta de dados, o pesquisador deve fazer a analise para distinguir quais elementos surgiram e quais foram replicados. E possivel encontrar na literatura alguns estudos que ajudam na operacionalizacao da saturacao teorica. Thiry-Cherques (2009) recomenda um minimo de oito observacoes, sendo necessarias duas observacoes depois de encontrado o ponto de saturacao para uma confirmacao. Esse autor tambem constatou que, em ciencias sociais, o ponto de saturacao costuma ocorrer ate a 12 (a) entrevista. Outro estudo publicado sobre o tema e de Guest, Buncem e Johson (2006). Nele, os autores constataram que a saturacao ocorre ate a 12 (a) entrevista e, alem disso, defendem que categorias centrais tendem a aparecer ate a 6 (a) entrevista.

Uma variacao do uso da tecnica foi aplicada por Hoffmann, Belussi, Martinez-Fernandez e Reyes Jr. (2016). Naquele trabalho, os autores relataram que havia uma restricao de tempo para a coleta de dados, ja que os entrevistados, em sua maioria, estariam participando de uma feira comercial, local onde a coleta foi realizada. Assim, decidiram fazer 21 entrevistas sequenciadas, sem a analise concomitante indicada por Glauser e Strauss (2006). De posse das entrevistas, foi feito um sorteio para definir sua ordem de analise. Fazendo assim, a saturacao foi alcancada na 11 (a) entrevista.

2.1 Apontamentos sobre o uso indiscriminado da Saturacao Teorica

Tambem sao encontrados na literatura estudos que questionam a aplicacao indiscrimidada da tecnica, sem que haja uma reflexao aprofundada sobre o seu uso e pertinencia (ex.: O'REILLY; PARKER, 2012; CAELLI; RAY; MILL, 2003).

No estudo de O'Reilly e Parker (2012) e apresentada uma visao critica ao argumentarem que e inapropriado impor a saturacao a qualquer caso qualitativo. Segundo os autores, cresce o numero de estudos em que pesquisadores qualitativos tomam decisoes relacionadas a adequacao de sua amostra com base apenas na nocao de saturacao e isso pode acarretar certa confusao na forma como a tecnica e compreendida e utilizada no universo cientifico. Nessa linha, defendem que a saturacao teorica e uma tecnica mais complexa do que a literatura sugere, que possui uma transparencia limitada, uma vez que os dados nunca sao verdadeiramente saturados (o pesquisador deve sempre admitir a possibilidade de novas descobertas alem da saturacao teorica) e corroboram Caelii, Ray e Mill (2003) quando afirmam que a aceitacao inquestionavel da saturacao acaba por perpetuar questoes nao fundamentadas sobre a adequacao da amostragem otimizada e, alem disso, comprometem o valor de pesquisas que optam por nao utilizar a saturacao ou estao em desacordo com seus pressupostos.

De acordo com O'Reilly e Parker (2012), a adequacao da amostra nao deve ser determinada apenas com base no numero de participantes, mas principalmente na adequacao dos dados. Os autores citam o exemplo de analistas de discursos que preferem pequenos conjuntos de dados por serem mais apropriados para o seu modo de investigacao e citam as obras de Hutchby e Wooffitt (2008) e Have (2007) que permitem fundamentar que ha literatura sobre como gerenciar as decisoes no processo de pesquisa, usando entrevistas pontuais sem compremeter a qualidade dos resultados.

Nessa linha, o problema da saturacao parece surgir quando se admite que a saturacao teorica e indicada para qualquer pesquisa qualitativa. A aceitacao inquestionavel de conceitos como a saturacao, para Caelii, Ray e Mill (2003) e O'Reilly e Parker (2012), tornam-se parte de um discurso de qualidade que perpetua mitos sobre a adequacao da amostragem e, alem disso, minimizam de forma erronea o valor de pesquisas que nao estao em acordo com determinados pressupostos relativos a tecnica. Conforme afirma O'Reilly e Parker (2012, p. 195): "e possivel manter a integridade metodologica dentro de uma tradicao particular ao mesmo tempo que se avalia de forma justa outros metodos qualitativos contra suas proprias medidas de qualidade".

Apesar da relevancia dos estudos realizados por Caelii, Ray e Mill (2003) e O'Reilly e Parker (2012) e da real necessidade de ampliar o debate sobre o uso da tecnica, acredita-se que o fechamento amostral por saturacao representa uma alternativa viavel para estudos qualitativos nos quais a populacao nao pode ser consultada em sua totalidade, conferindo qualidade empirica e credibilidade as analises dos achados (FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008; STRAUSS; CORBIN, 2008; MINAYO, 2017). Isso e particularmente relevante a pesquisa dado que, em parte consideravel dos estudos qualitativos, pesquisadores interrompem a coleta de novos dados devido a limitacao de recursos, tais como falta de tempo e de dinheiro, ao inves de se aterem a adequacao da amostra e ao rigor cientifico (GREEN; THOROGOOD, 2004; O'REILLY; PARKER, 2012). Alem disso, ha de se considerar que todas as tecnicas sao limitadas, o que implica em assumir a possibilidade de erros e divergencias em relacao a saturacao teorica.

A partir dessas consideracoes e com o intuito de promover contribuicoes praticas e teoricas em relacao ao uso da tecnica, apresenta-se na proxima secao o relato de uma experiencia de aplicacao da saturacao teorica em um trabalho empirico de natureza qualitativa, realizado na area de Administracao.

3 RELATO METODOLOGICO DE UMA EXPERIENCIA DE APLICACAO DA SATURACAO TEORICA

Inicialmente, cabe frisar o objetivo deste trabalho, tal como apresentado na introducao: relatar uma experiencia do uso da tecnica de saturacao teorica no campo das ciencias sociais aplicadas, descrevendo os passos e ressaltando os desafios enfrentados. Para isso, lancou-se mao de um estudo de caso realizado em uma instituicao de ensino superior, sendo o objetivo empirico do caso: avaliar a implantacao do planejamento em uma organizacao complexa e de grande porte. Para tanto, a Universidade de Brasilia (UnB), maior universidade publica da regiao centro-oeste brasileira, foi selecionada como o locus do estudo.

No caso relatado, a saturacao teorica foi empregada para determinar o numero de participantes em uma investigacao de carater qualitativo no campo da Administracao e o objeto de pesquisa de campo foi o processo de planejamento estrategico da instituicao publica de ensino superior brasileira.

As universidades sao caracterizadas como organizacoes complexas, com interesses multiplos e objetivos difusos (ARAUJO, 1996; MEYER JR., 2008). Isso nao ocorre devido somente a sua condicao de instituicao especializada e academica, mas tambem pelo fato de executar atividades multiplas (MEYER JR., 2008), na qual cada tarefa tem uma metodologia de trabalho que lhe e propria. Alem disso, a UnB se configura como uma das maiores universidades publicas brasileiras, com mais de 40 mil alunos matriculados e uma comunidade academica que ultrapassa 50 mil pessoas, conforme dados oficiais divulgados no censo da educacao superior do Pais no ano de 2016.

Este trabalho pode ser caracterizado como um estudo de caso exploratorio-descritivo, cuja abordagem e qualitativa, situando-se nas soft sciences--por buscar significados, interpretacoes, em vez dos propositos exigidos das hard sciences--a mensuracao, os testes de hipoteses, as analises causais (DENZIN; LINCOLN, 2006). E possivel situar o estudo sob o paradigma interpretativista, em que os significados, o conhecimento ou a compreensao das acoes humanas colaboram com a compreensao e, as vezes, ate mesmo a construcao de teorias (SOARES; ERDMANN, 2013). Neste caso, o enfoque interpretativista buscou, tao somente, a compreensao e interpretacao de significados das falas dos sujeitos, sem, no entanto, aspirar a geracao de uma nova teoria.

A populacao do estudo compreendeu unidades administrativas e academicas da universidade e que estao inseridas no planejamento estrategico da instituicao. O numero de unidades que participaram das entrevistas foi definido por meio da saturacao teorica, uma vez que seria dificil entrevistar a todos devido ao numero de setores, que ultrapassam 70 unidades. Os gestores entrevistados foram escolhidos a partir do cargo que exerciam a epoca da coleta de dados, do conhecimento pratico que possuem e da competencia para atuar no planejamento da unidade administrativa ou academica a qual estava vinculado, conforme registro da organizacao. Para determinar a ordem das unidades participantes do estudo, realizou-se um sorteio, considerando as caracteristicas de uma amostra probabilistica estratificada, ou seja, na qual a populacao e composta por estratos bem definido e cuja possibilidade de participacao e a mesma para cada unidade (RICHARDSON, 1999). Assim, separaram-se as unidades administrativas e academicas, obtendo-se duas listas: uma para as unidades administrativas e outra para as academicas, conforme detalhado no passo 3 do roteiro apresentado neste trabalho. As entrevistas ocorreram de forma intercalada entre as unidades academicas e administrativas, respeitando-se a ordem do sorteio. Esse criterio foi aplicado para evitar que um dos estratos pudesse ter peso maior nos resultados.

Quanto ao cargo e a funcao dos respondentes, tomou-se o devido cuidado para se entrevistar apenas gestores que participassem ativamente das etapas de planejamento, de forma que a amostra fosse a mais qualificada possivel, pois, conforme afirma Neves (1996), em estudos qualitativos, os resultados encontrados dependerao em alto grau da perspectiva dos participantes da situacao estudada. Dos dezesseis que foram entrevistados, nove sao professores que exerciam cargos administrativos e sete sao funciona-riosadministrativos da organizacao. Participaram da pesquisa gestores de nove unidades administrativas e de sete unidades academicas.

Por fim, admitindo que so haja saturacao teorica quando o pesquisador chega a conclusao de que a interacao entre as atividades de pesquisa de campo (por meio da coleta de novos elementos) e a percepcao do investigador (por meio da codificacao dos dados coletados) nao mais fornecem elementos para balizar ou aprofundar a teorizacao (GLAUSER; STRAUSS, 2006), foi realizada a sequencia de seis passos para a constatacao da saturacao teorica, conforme detalhado a seguir.

PASSO 1: DEFINICAO DAS CATEGORIAS DE ANALISE

O primeiro passo diz respeito a determinacao das categorias de analise, quando se devem determinar quais os conceitos que melhor representam o fenomeno e que serao investigados a partir do processo de amostragem por saturacao. Categorias sao conceitos derivados dos dados ou da literatura, que representam o fenomeno, o objeto que esta sob investigacao. Definir uma categoria significa classificar um conceito e essa classificacao implica, explicita ou implicitamente, em uma acao a ser tomada em relacao ao objeto investigado (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Sobre a escolha das categorias, o nome deve ser grafico o suficiente para lembrar rapidamente o pesquisador do seu referente. Como categorias representam fenomenos, elas devem ser diferenciadas conforme a perspectiva de analise, o foco e o contexto da pesquisa. Os conceitos, ao serem categorizados, tornam-se propriedades ou descritores do objeto (STRAUSS; CORBIN, 2008). Para exemplificar, Strauss e Corbin (2008, p. 115) escrevem: "um analista poderia rotular passaros, planos e pipas como 'voo', enquanto outro poderia rotula-los como 'instrumentos de guerra' porque o contexto e diferente".

E possivel utilizar a saturacao tanto com categorias definidas a priori como a posteriori, o que se deve ter em mente e que, o ponto exato de saturacao sera sempre a posteriori, por definicao. No caso discutido, foram investigadas duas categorias pela tecnica de saturacao teorica, ambas definidas a partir da teoria: barreiras a implantacao do planejamento estrategico; e eficacia da implantacao do planejamento estrategico.

Nessa etapa, o principal enfrentamento e o de selecionar, com base nas informacoes encontradas na teoria ou em campo, elementos que melhor representem o objeto da pesquisa. Ao categorizar, reduzem-se grandes quantitades de dados a bloco de dados que sao mais simples de administrar e relacionar (POZZEBON; FREITAS; PETRINI, 1997; STRAUSS; CORBIN, 2008).

O processo de amostragem teorica pode propiciar ao pesquisador a emersao de categorias ainda nao moldadas pela literatura. Isso e bastante util, por exemplo, em estudos cuja abordagem e a Grounded Theory, em que o objetivo da categorizacao (a posteriori) e gerar teoria e conhecimento sobre um fenomeno anteriormente desconhecido, isto e, a "descoberta de teorias a partir de dados coletados sistematicamente" (PETRINI; POZZEBON, 2009, p.2). Por outro lado, como e o caso deste estudo, a amostragem teorica tambem pode ser usada na realizacao de comparacoes entre os achados, fatos, percepcoes, locais, pessoas etc. e os conceitos pre-existentes, visando encontrar variacoes entre conceitos e fenomeno, bem como buscando tornar densas as categorias definidas a priori (STRAUSS; CORBIN, 2008). Portanto, o proposito deste estudo e mais modesto quando comparado aquele previsto em esforcos voltados ao desenvolvimento de teorias, como bem representado na Grounded Theory.

Essa postura encontra respaldo em Minayo (2017) quando justifica sua escolha de nao optar apenas por um ou outro procedimento (categorizacao a priori ou somente a posteriori). Os dados, portanto, nao so ajudam a construir teorias, como tambem a compreender ou adensar aquelas ja existentes.
Todos os achados empiricos iam sendo confrontados com uma vasta
literatura que, a partir de uma revisao inicial, fui descobrindo e dela
me apossando durante e depois do estudo empirico. As questoes surgidas
no campo me ajudaram a entender as referencias teoricas e vice-versa.
Caso me perguntem se esgotei todas as possibilidades e se houve uma
saturacao na compreensao do objeto, direi que nao. Mas, tenho certeza
de que me aproximei bastante do objeto e consegui mostrar como o tema e
complexo (p.7).


PASSO 2: DEFINICAO DO ROTEIRO DE PESQUISA

Com as categorias definidas, o proximo passo requereu a construcao de um roteiro de perguntas. A saturacao tambem pode ser utilizada em outras formas de se coletar dados, como observacao participante, grupo focal, diarios de pesquisa e analise de dados de ocorrencia natural, porem e mais comumente empregada com o uso de entrevistas e roteiros semiestruturados (THIRY-CHERQUES, 2009; O'REILLY; PARKER, 2012). Esse esquema facilita o processo para encontrar o ponto de saturacao, quando as categorias saturam e novas informacoes nao sao mais encontradas, uma vez que cabe ao pesquisador identificar os elementos em cada resposta e verificar repeticoes (Ver Quadro 1).

A maior parte das dificuldades ao se utilizar a tecnica de saturacao teorica resulta de erros na formulacao dos quesitos e da ma construcao do protocolo da pesquisa. Sobre esse aspecto, Thiry-Cherques (2009) recomenda que as questoes do roteiro sejam construidas de forma a se evitar tres erros: a formulacao dubia dos quesitos; a grande amplitude de respostas; e o alto grau de variabilidade de diferenciacao nas respostas. Essas providencias ajudam a reduzir o numero de observacoes necessarias ao alcance da saturacao, uma vez que facilitam o proximo passo - a codificacao das categorias.

No curso da investigacao a que este trabalho faz referencia, ocorreram dificuldades de se obterem respostas condizentes com os objetivos tracados para determinada pergunta. Formuladas de maneiras diretas 'quais as barreiras a implantacao do planejamento estrategico?' e ' quais os facilitadores a implantacao do planejamento estrategico?' constatou-se que, para a maioria dos entrevistados, as barreiras confundem-se com os facilitadores de tal forma que um facilitador se traduz em medidas de combate as barreiras identificadas, tornando a pergunta desnecessaria.

Para evitar problemas dessa natureza, parece pertinente elaborar roteiros com perguntas objetivas e focadas, de forma a evitar grandes amplitudes de respostas, e que estejam previstos testes que possibilitem repensar as questoes. Conforme Duarte (2002), muitos problemas podem ser identificados no roteiro das entrevistas quando elas saem do papel e ganham significado na interacao entrevistador/entrevistado. Por essa razao, o roteiro deve ser um instrumento flexivel para orientar a conducao da entrevista, e precisa ser revisto para que se possa avaliar se atende os objetivos definidos para a investigacao.

PASSO 3: DEFINICAO DE CRITERIOS PARA A ORGANIZACAO DA AMOSTRA

Essa e a etapa na qual sao definidos criterios de ordem para os participantes do estudo. Ao optar pelo uso da saturacao teorica, sugere-se que os possiveis participantes da pesquisa sejam organizados conforme criterios claros, que garantam a mesma possibilidade de participacao para qualquer individuo que cumpra os requisitos do perfil estabelecido, evitando qualquer vies na determinacao dos participantes e na ordem das entrevistas.

Conforme explicita Minayo (2017), informacoes prestadas por individuos implicados em determinado objeto de pesquisa representam um conjunto maior, quando observadas algumas precondicoes. De acordo com a autora, uma entrevista com alguem de um grupo pode ser compreendida, ao mesmo tempo, como um depoimento pessoal e coletivo. Esse argumento e particularmente importante quando se trata da saturacao teorica. Primeiro, porque ressalta a importacia da definicao clara dos individuos que poderao participar do estudo. E relevante que todos estejam vinculados a dimensao do fenomeno investigado da forma mais profunda possivel e, por isso, precisam ser selecionados com atencao. Assim, o pesquisador deve privilegiar aqueles que detem caracteristicas predeterminadas e de interesse da investigacao, e jamais permitir que a amostra seja formada por elementos "soltos no conjunto da proposta qualitativa" (MINAYO, 2017, p. 4). Segundo, porque corrobora a premissa fundamental da saturacao teorica na qual se admite que haja um numero suficiente de interlecutores capaz de fornecer os dados necessarios para a comprensao de um fenomeno (GLASER; STRAUSS, 2008; MINAYO, 2017).

O pesquisador deve ter em mente que o tamanho amostral na saturacao considera o numero de sujeitos suficientes conforme ocorram reincidencias nas informacoes coletadas - sem que sejam desprezadas informacoes relevantes para a compreensao do fenomeno. Assim, a amostra ideal e aquela que possibilita refletir a totalidade da populacao em suas multiplas dimensoes. O criterio da amostragem por saturacao nao e numerico, tampouco definido por conveniencia. Na saturacao teorica, busca-se organizar a amostra e, entao, realizar a coleta de dados com o numero de sujeitos capaz de refletir a realidade do objeto investigado, em todas as suas dimensoes (MINAYO, 1999). Dessa forma, torna-se tambem relevante, alem de determinar o perfil da amostra com clareza, estabelecer uma ordem para a coleta de informacoes, dado que nem todos os individuos aptos para participar do estudo serao consultados.

No estudo em pauta, apos a definicao das caracteristicas necessarias para participacao no estudo, optou-se pela realizacao de um sorteito para determinar a ordem em que as entrevistas seriam realizadas. A estrutura da organizacao conta com duas unidades distintas entre si. A primeira delas, diretamente relacionada com a area fim da instituicao de ensino, sao as unidades academicas. A segunda, responsaveis pela manutencao e funcionamento administrativo da universidade, sao as unidades administrativas. Separaram-se as unidades administrativas e academicas e realizou-se um sorteio para cada segmento, obtendo-se assim duas listas: uma para as unidades administrativas e outra para as unidades academicas. As entrevistas ocorreram de forma intercalada entre as listas, respeitando a ordem do sorteio. Com esse criterio, evitou-se que um dos estratos pudesse ter um peso maior nos resultados do estudo. Individuos que nao manifestaram interesse em participar da pesquisa, ou deixaram de participar por algum empecilho, foram substituidos pela unidade sequencial, sem prejuizo a ordem determinada pelo sorteio. A seguir, apresenta-se, a titulo de exemplificacao, uma das listas ordenada, no caso, a lista das unidades academicas. As entrevistas foram identificadas conforme a ordem de realizacao, considerando que houve revesamento entre unidades academicas e administrativas. Nesse caso, o primeiro entrevistado referente as unidades academicas foi um representante da unidade Faculdade de Educacao, e correspondeu a segunda entrevista realizada no estudo (E2), sendo que a primeira (E1) foi realizada entre as unidades administrativas e consta de lista propria das unidades administrativas, semelhante a apresentada no Quadro 2.

PASSO 4: LEVANTAMENTO DE ELEMENTOS NOVOS VERSUS ELEMENTOS CONFIRMADOS EM CADA COLETA

Essa etapa envolve a codificacao dos dados coletados e ocorre apos a realizacao de cada entrevista. Ou seja, envolve um processo analitico, por meio do qual os conceitos sao identificados e suas propriedades e dimensoes sao descobertas nos dados coletados (STRAUSS; CORBIN, 2008). Trata-se de levantar os elementos (subcategorias) que sao relevantes para o objeto de estudo e classifica-los conforme suas caracteristicas. O objetivo, segundo Corbin (2003), e levar os dados brutos a niveis mais amplos, de modo que permitam posteriormente a discussao das caracteristicas relevantes do conteudo.

Nessa etapa, o pesquisador deve explorar individualmente cada entrevista antes de partir para a proxima. Trata-se de uma etapa individual, na qual se abre um leque de informacoes. O maior desafio dessa fase e o fato de que, por se tratar de uma etapa exaustiva, na saturacao teorica, precisa ser feita logo apos a coleta dos dados. Ou seja, apos cada entrevista, o pesquisador precisa tratar os dados para reconhecer elementos novos e elementos que ja foram citados anteriormente por outros entrevistados.

Recomenda-se que sejam apurados com muita atencao os elementos (subcategorias relacionadas com as categorias definidas a priori para analise) que forem repetidos, ou confirmados, e os novos elementos. Isso e relevante, pois tal distincao propiciara o encontro do ponto de saturacao das categorias investigadas. Essa etapa deve ser detalhada com clareza pelo pesquisador, uma vez que e fundamental para que o leitor constate como foi encontrado o ponto de saturacao. Na investigacao aqui relatada, a organizacao foi feita por quadros, que diferenciam elementos confirmados e novos, conforme representado nos Quadros 3, 4 e 5.

PASSO 5: REGISTRO EM UMA TABELA DO QUE FOI ENCONTRADO EM CADA COLETA

Trata-se da construcao de uma representacao grafica que permita a visualizacao dos elementos analiticos levantados nas entrevistas. A Tabela 1 e a exemplificacao de como essa representacao foi feita na pesquisa original. Da primeira linha da tabela, constam todas as entrevistas realizadas numeradas conforme a ordem cronologica. E nas colunas constam as categorias que foram investigadas. Nas linhas 2 e 3 foram atribuidos o valor de 1 (um) para informar que ha, pelo menos, uma nova informacao e 0 (zero) para indicar que nao foi encontrada nenhuma nova informacao na respectiva entrevista.

Essa etapa facilita a compreensao de como o ponto de saturacao e encontrado. Ao visualizar graficamente a constatacao de novas informacoes ou repeticoes de informacoes ja coletadas, o pesquisador passa a ter maior clareza visual (FONTANELLA et al., 2011). Dessa forma, representar graficamente o ponto de alcance da saturacao teorica e exercicio simples, sem grandes enfrentamentos, que facilita a compreensao e o controle no uso da tecnica.

PASSO 6: CONFIRMACAO DA SATURACAO EM CADA CATEGORIA E PRINCIPAIS DIFICULDADES ENFRENTADAS

Esta e a ultima etapa para constatacao da saturacao teorica. Ao observar a Tabela 1, verifica-se que, para a categoria Eficacia, o ponto de saturacao ocorreu na entrevista 9 (E9). Entretanto, as entrevistas continuaram porque a categoria Barreiras ainda nao havia atingido a saturacao. Nesse exemplo, a saturacao teorica de ambas as categorias foi considerada como tendo ocorrido na entrevista de numero 12 (E12), ou seja, a partir desse ponto nenhuma nova informacao foi identificada e considerada relevante para a teorizacao. Apos essa constatacao, novas entrevistas foram realizadas para a necessaria confirmacao. Thiry-Cherques (2009) recomenda que sejam feitas duas entrevistas adicionais depois de encontrado o ponto de saturacao. No estudo relatado, optou-se por realizar mais quatro entrevistas, a fim de se ter uma margem maior de seguranca em relacao a saturacao.

Uma sugestao, com base nesta experiencia vivenciada, e que investigadores qualitativos, ao optarem pela saturacao teorica, apoiem-se em experiencias anteriores. O fato de ir a campo sem ter ideia do numero de coletas que serao necessarias ate a constatacao do ponto de saturacao gera, muitas vezes, inseguranca e pode representar um empecilho ao uso da tecnica. Por outro lado, e possivel encontrar na literatura alguns trabalhos que ajudam a minimizar esse sentimento. Guess, Bunce e Johnson (2006) e Thiry-Cherques (2009) realizaram estudos e comprovaram que, em ciencias sociais e com participantes homogeneos, e comum que o ponto de saturacao ocorra ate a 12 (a) entrevista. Estudos empiricos na area tambem corroboram essa constatacao, pois Latham (2013) e Hoffmann et al. (2016) encontraram o ponto de saturacao na 11 (a) entrevista.

O Quadro 6 apresenta um resumo dos seis passos, distintos e complementares, que foram utilizados para a constatacao da saturacao teorica na pesquisa aqui relatada.

A tecnica de saturacao teorica possui procedimentos complexos, como realizar a coleta e a analise dos dados de forma concomitante, mas pode ser adaptada as especificidades de cada trabalho. A saturacao, enquanto tecnica para definicao do numero de participantes, pode representar uma boa alternativa para estudos qualitativos que possuem uma populacao numerosa, e assim inviavel de ser entrevistada na sua totalidade, sem fragilizar ou comprometer a validade empirica e a credibilidade das analises e dos achados (FONTANELLA et al., 2011).

Dentre as principais dificuldades encontratadas ao aplicar a saturacao teorica na investigacao a que este artigo faz referencia, destacam-se: i) definicao do roteiro de pesquisa de forma a evitar grande amplitude nas respostas; ii) administracao do tempo, uma vez que um dos pressupostos da tecnica e realizar a analise dos dados logo apos a coleta. Na saturacao teorica e imprescindivel que o investigador tenha finalizado as analises das entrevistas ja realizadas antes de voltar a campo. So assim e possivel apurar os elementos que ja foram citados e os elementos ineditos; iii) constatacao do ponto de saturacao. Conforme assinalam Strauss e Corbin (2008), se o investigador procurar com afinco, sempre vai encontrar propriedade ou dimensoes adicionais, sempre ha potencial para o surgimento do novo. A saturacao e mais uma questao de encontrar um ponto na investigacao quando coletar dados adicionais torna-se contraprodutivo; o novo que seria revelado nao mudaria de forma relevante os resultados ja alcancados.

4 CONSIDERACOES FINAIS

Determinar o numero de entrevistas ou observacoes que sao necessarias e uma questao estrategica para pesquisadores qualitativos. Algumas vezes, o problema nao e a quantidade de dados, mas certificar-se que as evidencias empiricas coletadas sao suficientes para o alcance do objetivo proposto no estudo.

Este trabalho teve como objetivo relatar uma experiencia do uso da tecnica de saturacao teorica no campo das ciencias sociais aplicadas, apresentando um roteiro de aplicacao e ressaltando os desafios enfrentados em uma pesquisa qualitativa. Acredita-se que o roteiro desenvolvido contribui para o ensino e aplicacao futura da tecnica. Para o ensino, ao apresentar um roteiro de aplicacao sumarizado e, ao ampliar a reflexao junto a investigadores interessados em aprofundar seu conhecimento sobre a saturacao teorica, alem de apresentar alguns desafios de sua operacionalizacao ja vivenciados. A relevancia no sentido da aplicacao refere-se ao fato de contribuir com a divulgacao de formas de sistematizacao, tratamento e analise de evidencias empiricas em pesquisas qualitativas que utilizem amostras fechadas por saturacao.

Destaca-se que para utilizar a tecnica e necessario problematiza-la cuidadosamente, uma vez que, a depender dos criterios utilizados, a averiguacao de saturacao podera ser realizada de maneira excessivamente subjetiva (STRATUSS; CORBIN, 2008). No roteiro proposto, buscou-se detalhar cada passo, ressaltar as dificuldades vivenciadas e formas possiveis de contorna-las com o objetivo de zelar pelo rigor cientifico da pesquisa e de auxiliar investigadores qualitativos no uso futuro da tecnica.

E possivel encontrar na literatura outros estudos que ajudam na operacionalizacao da saturacao teorica. Thiry-Cherques (2009) recomenda um minimo de oito observacoes, sendo necessarias duas observacoes depois de encontrado o ponto de saturacao para confirmacao. Esse autor tambem constatou que, em ciencias sociais, o ponto de saturacao costuma ocorrer ate a 12 (a) entrevista. Outro estudo publicado sobre o tema e de Guest, Buncem e Johnson (2006), onde os autores ja haviam constatado que a saturacao ocorre por volta da 12 (a) entrevista e, alem disso, defendem que categorias centrais tendem a aparecer ate a 6 (a) entrevista.

Tambem e relevante enfatizar que, ao decidir pela utilizacao da saturacao teorica para o fechamento amostral, o investigador precisa ter ciencia de que nao se pode afirmar com exatidao que novas informacoes nao serao encontradas, o que pode ser interpretado como uma limitacao do metodo, embora nao inviabilize a sua confiabilidade. Conforme afirmam Strauss e Corbin (2008), ao procurar com afinco, sempre se encontrarao novas informacoes. A questao central da saturacao teorica e encontrar o momento na coleta de dados em que dados adicionais nao mudarao de forma determinante os resultados ja alcancados (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Como agenda de pesquisa, sugere-se a conducao de novos estudos com o emprego da saturacao teorica buscando evitar e mitigar as dificuldades aqui relatadas, alem de aplicar a tecnica em outras areas de estudo, com vistas a estimular o debate para que o uso da amostragem por saturacao em pesquisas qualitativas possa progredir em distintos campos.

Outra oportunidade para avancar no debate sobre o uso da amostragem por saturacao esta relacionada a lacuna teorica identificada por O'Reilly e Parker (2012), na qual os autores apontam que estudos que utilizam a saturacao teorica quase que exclusivamente se concentram em entrevistas e em grupos focais. Assim, parece existir uma omissao sobre a versatilidade da tecnica quando aplicada a outros metodos de coleta de dados, tais como entrada de diarios, pesquisa documental, observacao participante e ocorrencia natural. Essa tambem e uma oportunidade para promover avancos a pesquisa qualitativa.

REFERENCIAS

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Junia Maria Zandonade Falqueto

Doutoranda do Programa de Pos- Graduacao em Administracao. Universidade de Brasilia. Brasilia, DF. Brasil.

e-mail: jufalqueto@gmail.com

Valmir Emil Hoffmann

Doutor em Administracao. Professor Titular. Universidade de Brasilia. Brasilia, DF. Brasil. e-mail: ehoffmann@unb.br

Josivania Silva Farias

Doutora em Administracao. Professor Adjunta. Universidade de Brasilia. Brasilia, DF. Brasil. e-mail: josivania@unb.br

Recebido em: 16/05/2017

Revisado em: 11/12/2018

Aceito em: 26/02/2019

DOI: http://dx.doi.org/10.5007/2175-8077.2018V20n52p40
Quadro 1 Roteiro das entrevistas conforme categoria investigada

        Categoria               Perguntas constantes do Roteiro de
                                           Entrevistas

Barreiras a implantacao do  1. Como o planejamento estrategico (PE)
planejamento estrategico       e utilizado nas decisoes da sua unidade?
                            2. Quais sao as barreiras a implantacao do
                               PE? De exemplos.
                            3. Quais sao os facilitadores a implantacao
                               do PE ? De exemplos.
                            4. Que sugestoes teria para o
                               aperfeicoamento da implantacao do PE na
                               Universidade?
Eficacia da implantacao do  5. Como o PE e utilizado nas decisoes da sua
planejamento estrategico       unidade?
na instituicao              6. Como percebe a relacao entre o objetivo
                               previsto e o resultado obtido na sua
                               Unidade?
                            7. Na sua percepcao, todos os objetivos
                               planejados sao implantados? O que o leva
                               a pensar assim?
                            8. Ha objetivos que sao implantados que nao
                               foram planejados? O que o leva a pensar
                               assim?
                            9. Como avalia a implantacao do PE na sua
                               unidade? O que o leva a pensar assim?

Fonte: elaborado pelos autores.

Quadro 2 Lista de unidades academicas ordenadas conforme sorteio
realizado para definicao da sequencia das entrevistas

                                             Identificacao
            Unidades Academicas                   da
      Ordem sorteada para entrevistas         entrevista

Faculdade de Educacao (FE)                        E2
Instituto de Historia (IH)                        E4
Faculdade de Comunicacao (FAC)                    E6
Faculdade de Educacao Fisica (FEF)             cancelada
Instituto de Ciencias Biologicas (IB)             E8
Faculdade de Economia, Administracao e            E10
Contabilidade (Face)
Instituto de Quimica (IQ)                         E13
Instituto de Ciencias Exatas (IE)              cancelada
Instituto de Psicologia (IP)                      E15
Faculdade de Agronomia e                       Ponto de
                                               saturacao
Medicina Veterinaria (FAV)                    encontrado
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU)
Fazenda Agua Limpa (FAL)
Instituto de Ciencias Politicas (IPOL)
Faculdade UnB Planaltina (FUP)
Instituto de Relacoes Internacionais (IREL)
Faculdade de Direito (FD)
Faculdade de Medicina (FM)
Faculdade de Tecnologia (FT)
Faculdade de Ciencias da Informacao (FCI)
Instituto de Letras (IL)
Faculdade UnB Gama (FGA)
Instituto de Geociencias (IG)
Instituto de Artes (IDA)
Faculdade de Saude (FS)
Instituto de Ciencias Sociais (ICS)
Instituto de Ciencia Politica (IPOL)
Faculdade de Medicina (FM)

Fonte: elaborado pelos autores.

Quadro 3 Analise da entrevista 1 com identificacao dos primeiros
elementos

                           Entrevista 1
              Identificacao dos primeiros elementos
      Categorias Barreiras e Facilitadores a implantacao do
             Planejamento Estrategico na Instituicao

1. Problemas com a comunicacao interna
2. Falta de participacao na elaboracao do Planejamento Estrategico
3. Falta de recursos tecnologicos
4. Falta de cultura de planejamento
5. Docentes nao preparados para atuar em cargos administrativos
6. Falta de apoio da Alta Gestao

Fonte: elaborado pelos autores.

Quadro 4 Analise da entrevista 2 com inclusao de novos elementos e
confirmacao daqueles ja levantados

                           Entrevista 2
                 Confirmou 4 elementos e incluiu 3
               Categorias Barreiras e Facilitadores

CONFIRMOU
1. Problemas com a comunicacao interna
2. Falta de participacao na elaboracao do Planejamento Estrategico
3. Falta de recursos tecnologicos
5. Docentes nao preparados para atuar em cargos administrativos
INCLUIU
7. Alta rotatividade de pessoal administrativo
8. Baixo nivel de qualificacao dos corpo tecnico-administrativo
9. Falta de articulacao entre o planejamento e o orcamento

Fonte: Elaborado a partir de FALQUETO (2012).

Quadro 5 Analise da entrevista 3 com inclusao de novos elementos e
confirmacao daqueles ja levantados

                           Entrevista 3
                Confirmou 4 elementos e incluiu 1
               Categorias Barreiras e Facilitadores

CONFIRMOU
 2. Falta de participacao na elaboracao do Planejamento Estrategico
 3. Falta de recursos tecnologicos
 4. Falta de cultura de planejamento
 9. Falta de articulacao entre o planejamento e o orcamento
INCLUIU
10. Alta interdependencia entre as unidades

Fonte: Elaborado pelos autores.

Quadro 6 Passos desenvolvidos para constatacao da saturacao teorica

              Passos                          Caracteristicas

1. Definir Categorias de analise    Selecionar os termos que melhor
                                    representam o objetivo central do
                                    estudo.
2. Definir o Roteiro de Pesquisa    Definir as perguntas do roteiro,
                                    evitando formulacao dubia dos
                                    quesitos, a grande amplitude de
                                    respostas e o alto grau de
                                    variabilidade de diferenciacao nas
                                    respostas.
3. Definir criterios para a         Definir criterios de ordem para os
organizacao da amostra              participantes do estudo. Sugere-se
                                    que os possiveis participantes da
                                    pesquisa sejam organizados conforme
                                    criterios claros que garantam a
                                    mesma possibilidade de participacao
                                    para qualquer individuo que cumpra
                                    os requisitos do perfil
                                    estabelecido.
4. Levantar elementos novos         Levantar os elementos que sao
versus elementos confirmados em     relevantes para o objeto de estudo e
cada coleta.                        classifica-los conforme suas
                                    caracteristicas
5. Registrar em uma tabela o        Construir uma representacao grafica
que foi encontrado em cada coleta.  que permita a visualizacao dos
                                    elementos analiticos que foram
                                    levantados nas entrevistas.
6. Confirmar a saturacao em cada    Analisar o ponto de saturacao,
categoria.                          verificar nas ultimas entrevistas
                                    feitas para confirmacao que
                                    realmente nao houve novas
                                    informacoes e marcar na
                                    representacao grafica feito na etapa
                                    anterior onde o ponto de saturacao
                                    esta para cada categoria.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Tabela 1 Saturacao teorica das respostas coletadas

                                  Entrevistas
Categorias  E1  E2  E3  E4  E5  E6  E7  E8  E9  E10  E11  E12  E13  E14

Barreiras   1   1   1   1   0   1   0   1   0    1    1    0    0    0
Eficacia    1   1   1   1   1   0   0   1   0    0    0    0    0    0

            Entrevistas
Categorias  E15  E16

Barreiras    0    0
Eficacia     0    0

Fonte: elaborado pelos autores.
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Author:Falqueto, Junia Maria Zandonade; Hoffmann, Valmir Emil; Farias, Josivania Silva
Publication:Revista de Ciencias da Administracao
Article Type:Report
Date:Dec 1, 2018
Words:8421
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