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Rodas culturais, resistencia e juventudes: reflexoes politico-pedagogicas/Rodas Culturais, resistencia y juventud: reflexiones politico pedagogicas/Rodas Culturais, resistance and youth: political-pedagogical reflections.

Neste artigo apresentamos resultados de pesquisa empirica em que investigamos as praticas juvenis em um contexto de favelas, especificamente, as rodas culturais de Manguinhos, RJ (MGH). O trabalho de campo teve inicio em maio de 2016, quando por meio de um Projeto de Pesquisa-extensao (1), conhecemos um grupo de meninos e meninas moradores de MGH, adolescentes jovens entre 15 e 19 anos de idade, estudantes do ensino medio de colegios estaduais localizados nessa area urbana. A partir desse projeto interagimos com os/as jovens em diferentes espacos de sociabilidade, fato que nos permitiu conhecer diferentes praticas, espacos e dinamicas de recriacao social e cultural. Dessa forma, chegamos as rodas culturais.

As rodas culturais sao eventos publicos, surgidos recentemente na cena carioca e ligados ao movimento hip hop. A modalidade de roda cultural implica a ocupacao de locais publicos a partir da confluencia de diferentes artistas de rua, principalmente relacionados as manifestacoes do hip hop (rap, break, grafite, batalhas de rima, freestyle, discotecagem, skate, poesia). As rodas em MGH chamaram nossa atencao porque convocavam um numero expressivo de jovens da comunidade, e os/as meninos/as do projeto gostavam de ir "pra roda". Com isso, instigou-nos conhecer esses espacos de sociabilidade e de producao cultural, indagando principalmente sobre seus desdobramentos politicos, pedagogicos.

Sabiamos a importancia de conhecer o cotidiano das rodas culturais em MGH, ou seja, descreve-las nos seus aspectos fenomenologicos: como funcionam, quem participa, como se organizam. E algumas questoes foram surgindo: o que se faz nas rodas?, que principios e regularidades estao presentes na pratica da atividade?; e a partir desses elementos, enfim, indagar sobre as dimensoes culturais, subjetivas, identitarias e educacionais, que as perpassam.

Como pano de fundo, partimos da compreensao de que historica e geopoliticamente America Latina tem uma trajetoria marcada por processos de desigualdade e segregacao social (desde a era colonial ate os dias atuais) que repercutem singularmente nos grupos juvenis. Nesta mesma perspectiva, Santos (2017) afirma que a partir do fim do ciclo progressista no Brasil, vem se consolidando o fascismo social--reprimido naquele ciclo--como forma instituida de organizacao politico-cultural, inerente a uma historia sociopolitica colonialista, que nao consegue romper com regimes culturais e epistemicos eurocentricos, machistas, racistas e elitistas. Segundo o autor, o golpe parlamentar realizado sobre o governo da presidente Dilma Rouseff em 2016, e expressao desse retrocesso na configuracao do poder mundial, com um boicote a articulacao geopolitica e economica entre os paises em desenvolvimento representados pela imagem do Sul Global. Desde entao, os investimentos diretos do Estado nas politicas sociais vem anualmente sofrendo um duro corte de verbas com sua maxima expressao na Proposta de Ementa Constitucional que congela os gastos publicos nestes setores pelos proximos vinte anos. Ou ainda pela tentativa de desmonte de inumeros projetos de parceria do tipo horizontal sul-sul.

Nesse complexo contexto de acirramento das reformas neoliberais, golpes politicos, operacoes anti-corrupcao midiaticas e deteriorizacao da qualidade de vida dos setores populares, algumas juventudes, reconhecendo-se excluidas, perifericas e silenciadas, se aventuram, por meio de diferentes estrategias, a "levar pra frente" seus projetos de vida e assumem a identidade "de ser favela" como forma de posicionamento nas lutas politicas. Favela e um termo historicamente em disputa. A grande novidade e a sua apropriacao pelos movimentos populares como expressao de um modo/condicao de vida proprio da periferia urbana das grandes cidades latino-americanas. Neste sentido, o movimento Hip hop parece haver contribuido enormemente com esta politizacao da juventude nas favelas. Por outro lado, as diferentes e multiplas acoes juvenis complexificam as leituras sobre os percursos que as resistencias das novas geracoes vem assumindo nos ultimos anos, e interpelam as abordagens de pesquisa para ampliar a ressonancia sobre diversos caminhos de "como" e "para que" "ser jovem" hoje.

Pensando as resistencias na cultura

Com base nos estudos culturais, compreendemos as praticas socio-coletivas das juventudes como experiencias de vida integrais, nas quais narrativas e acoes se entrelacam na construcao de subjetividades, construcao que necessariamente supoe a presenca do outro, de uma alteridade, ou seja, o estabelecimento de vinculos mediados por relacoes de afetividade, sociabilidade e poder.

Giroux (1999) elabora um conceito de pedagogia intimamente relacionado a cultura e a politica. Para o autor as praticas pedagogicas sao formas de fazer politica com a cultura, dado o fato de estarem sempre implicadas "na construcao e organizacao de conhecimento, desejos, valores e praticas" que transpassa diferentes linguagens, atividades e espacos sociais (Giroux, 1999:14). Assim, assumimos teoricamente que os/as jovens, no desenvolvimento das suas praticas culturais, realizam uma dupla agencia, que e ao mesmo tempo pedagogica e politica. Por um lado, a dimensao pedagogica refere-se a "criacao de representacoes simbolicas e de praticas nas quais estas representacoes estao engajadas", o que supoe "preocupacao particular com a analise de representacoes textuais, auditivas e visuais, e com a maneira como essas representacoes estao organizadas e regulamentadas dentro de arranjos institucionais especificos" (Giroux, 1999:15). Por outro, a especificidade da dimensao politica se assenta no desenvolvimento de um processo que tem como horizonte "mobilizar conhecimentos e desejos que possam conduzir a minimizacao do grau de opressao na vida das pessoas" (Ibidem). Tendo em vista essa perspectiva critica, nos aliamos a Freire (1978) em sua aposta nos processos educativos que valorizam o saber popular e promovem modalidades dialogicas "nao formais" para o desenvolvimento do trabalho pedagogico.

Assim, aderimos a uma visao sociologica da cultura para abordar questoes e problematicas de educacao, na qual os sujeitos, na sua acao desenvolvem diferentes lutas para definir o possivel, o acionavel, o imaginavel, o sonhavel, o proibido, o temido, se posicionar e se constituir em relacao as estrategias de poder que pretendem governar sua vida e seus corpos. Por um lado, a cultura colonialista/erudita e a que se faz a partir dos centros de poder estatal com recursos e mecanismos de legitimacao de saberes, aliancas na producao discursiva das midias, classes e grupos representados nas esferas de governo, etc. Por outro, a cultura inferiorizada/popular e a que se exerce na militancia micropolitica do dia a dia, nas salas de aula, na sociabilidade comunitaria, nas ruas, nos espacos institucionais ou informais onde as micro-relacoes cotidianas (que transcendem o imposto, o naturalizado, o macro-determinado) vao agindo estrategicamente e "construindo um mundo dentro do mundo" (Gallo, 2003:78). Neste sentido, o carater inferiorizado/popular, atrela uma forca de resistencia potencialmente transgressora: uma vontade de se aventurar na transformacao/subversao da ordem estabelecida.

Castro (2009), com base nas formulacoes de Foucault, explica que as subjetividades sao "efeitos de uma construcao", dinamizadas pelas diferentes praticas de sociabilidade e de producao de cultura, nas quais vao se construindo e tensionando os sentidos sobre o que somos, o que queremos ser, como nos definimos a nos mesmos, como atuamos, que desafios e projetos colocamos em nossos horizontes, as chamadas "formas restritas dos modos de subjetivacao". As praticas de sociabilidade e criacao de cultura que as juventudes dinamizam em diferentes instancias correspondem a esta forma de subjetivacao, pois sao os proprios jovens, a partir de suas magoas, desejos, problemas e incertezas, que podem problematizar a realidade e atuar para transforma-la. Nessa perspectiva, os corpos, atitudes, comportamentos, valores, discursos, projecoes sao tambem territorios em luta, dimensoes materiais e simbolicas nas quais processos de poder e de resistencia ocorrem.

Jovens como sujeitos sociais

e agentes de poder

Os estudos sobre juventude nas ultimas decadas tem evidenciado contextos que nos permite entende-la na sua complexidade. Concordamos com Charlot (2000 citado em Dayrell 2003), que a condicao de jovem como sujeito social supoe compreende-lo como ser humano aberto a um mundo historicamente construido, que e portador de desejos e motivacoes e que vivencia sua trajetoria nesse mundo a partir de relacoes com outras pessoas, tambem sujeitos.

As pesquisas sobre a juventude sofreram diferentes redirecionamentos no ultimo seculo. Zluan e Raitz (2014), na reconstrucao historica dos estudos sobre juventudes no Brasil, indicam que e nos anos 1990 que o "jovem" comeca a ser estudado como "protagonista da sua propria historia", sendo anteriormente reconhecido so como agente associado a "problemas" e "desvios". As chamadas "pesquisas tradicionais", com um "olhar adulto" sobre o jovem tem reafirmado o carater transitorio do "ser jovem", no sentido de um sujeito que "vira a ser", sem reconhecer as prioridades, projetos e vivencias concretas dessa etapa de vida (Zluhan e Raitz, 2014).

Reguillo (2000:36) situa a virada construtivista e hermeneutica sobre os jovens da America Latina entre os anos 1980 e 1990, quando passam a ser pensados como sujeitos de discurso por estarem "capacitados" para desenvolver uma construcao objetivante sobre o mundo, com recursos e competencias para se apropriar e mobilizar processos sociais, simbolicos e materiais. Segundo a autora, e a partir do "consumo cultural" que emergem os tensionamentos imbricados nas culturas juvenis, sendo o "lugar de negociacao-tensao com os significados sociais". Carrano (2012:86), por seu turno, reconhece uma maior autonomia geracional e institucional dos jovens--em relacao ao mundo adulto e as institucionalidades modernas-para construir seus proprios lugares, acervos e identidades culturais; movimento que se manifesta numa atitude juvenil de maior escolha sobre os marcos simbolicos que sao introjetados para se reconhecerem e serem socialmente reconhecidos.

Boghossiam e Minayo (2009) reconhecem a "virada" teorica dos estudos nos anos 2000, a partir do surgimento de um novo paradigma baseado na categoria de "participacao". Segundo as autoras, vinculados a juventude, existem preconceitos e visoes negativas a partir das quais as novas geracoes sao representadas socialmente, colocando os jovens no lugar de "bode expiatorio" para lhes adjudicar problemas contemporaneos, como o aumento da criminalidade, da violencia, do desemprego, da perda do laco social e do descredito face a politica e a acao coletiva. Reafirmam a importancia de "dar forca aos inumeros mecanismos de participacao que vem sendo inventados pelos jovens e atualizados de formas criativas, mobilizadoras e, muitas vezes, transgressoras", valorizando o potencial dos "novos espacos de interlocucao e de representacao" (Boghossiam e Minayo (2009:421).

Um outro aspecto importante sobre os estudos de juventude foi evidenciado por Zanella et al (2013). Os autores afirmam ter observado uma falta de compromisso politico do campo academico para com os proprios jovens, pois estes "nao se apresentam, em sua maioria, como agentes coparticipes da denuncia, mobilizacao e construcao de uma sociedade de direitos mais acessiveis a todos". Afirmam que os estudos estariam reforcando uma visao tutelar e "integradora" sobre os jovens, que limita as reais possibilidades de acao politica nos espacos de tomada de decisoes. Frente a essa postura academica, os autores convidam a indagar sobre as "diversas manifestacoes dos jovens em variados campos e condicoes" a fim de recuperar um carater critico da pesquisa com base no conhecimento e visibilidade das diferentes formas, sempre contraditorias, de resistencias juvenis para alem das institucionalidades (Zanella et al, 2013:332).

Importante assinalar que as investigacoes sobre as juventudes tem problematizado conceitos como autonomia, participacao, resistencia, protagonismo e consumo como dimensoes vinculadas aos diferentes modos de ser jovem na contemporaneidade. Assim, junto a Dayrell (2007), entendemos as culturas juvenis de forma heterogenea, sendo multiplos os estilos, as manifestacoes, as praticas, as influencias e os interesses associados a esses espacos de criacao, protagonismo publico e sociabilidade. Cruces indica que os/as jovens do seculo XXI se encontram numa posicao complexa, nem tao livres como muitas vezes se supoe, nem completamente submetidos e determinados. O exercicio de agencia frente as adversidades esta transformando as necessidades em virtudes, "necessidade de se fazer a si mesmos, de se dar um lugar ao autoproduzir-se" (entrevistado em Canclini, Cruces e Pozo, 2012:XIII, traducao nossa). Desta forma, os jovens atualmente desenvolvem diferentes estrategias de insercao nas esferas e mercados culturais, deslocamentos que reconfiguram tanto as dinamicas do proprio "campo", como as identificacoes profissionais e as competencias requeridas nas praticas de producao, distribuicao e consumo cultural (Reguillo, 2000, Canclini, 2012).

A dissolucao de lugares, fluxos e papeis nos circuitos culturais vigentes colocam as juventudes frente a novos papeis sociais, como atores chaves na sociedade do conhecimento. Ja se afirma que as interacoes na "Era da Rede" configuram subjetividades prosumidoras (prosumers = produtor + consumer) (Jenkins, 2008), ou seja, pessoas que circulam e usam as midias digitais, sendo, ao mesmo tempo, produtores e consumidores de conteudo. Esse fenomeno atinge principalmente as novas geracoes, criancas e jovens que se consideram nativos digitais da Internet 2.0, 3.0 (Scolari, 2016). Como vem sendo evidenciado por varios estudos e no nosso local de pesquisa, o acesso a essas tecnologias se da das mais variadas formas. Em meio a essas questoes, participaram de nossa pesquisa um grupo de jovens, prosumers, participes de praticas culturais inerentes aos circuitos culturais dos/das jovens das favelas cariocas. Nessa investigacao, procuramos compreender como eles estao se produzindo como sujeitos, como organizam suas praticas de sociabilidade, que experiencias de vida relatam, como se colocam em relacao as estrategias de poder a eles dirigidas, o que denunciam e o que anseiam.

A estrategia de pesquisa:

O "olhar de perto e de dentro" na etnografia das praticas

O "olhar de perto e de dentro" no plano intermediario dos processos intersubjetivos, se orienta a apreender padroes de acao, de relacao e de construcao de sentidos "dos multiplos, variados e heterogeneos conjuntos de atores sociais cuja vida cotidiana transcorre na paisagem da cidade" (Magnani 2002:17). Sendo parte da tradicao antropologica urbana, este "olhar" se apoia na etnografia como principal estrategia de pesquisa (Magnani, 2002, 2009). Conforme especifica o autor, fazer etnografia supoe tanto uma "pratica" (programada e continua) como uma "experiencia" (imprevista, descontinua), sendo esta ultima condicao indispensavel da primeira. Como metodo, a etnografia engloba estrategias diversas de insercao no campo, incluindo um conjunto de tecnicas (observacao participante, aplicacao de entrevistas, analises de documentos, imagens, etc.) que vao fornecendo "o material" a partir do qual fazer as escolhas teoricas e as vinculacoes conceituais, aspirando a organizacao e inteligibilidade dos processos e praticas abordadas (Magnane, 2009:136).

Importante esclarecer que neste modo de fazer etnografia, nao existem programacoes metodologicas rigidas. Assim, as atividades de pesquisa nao sao reduzidas a implementacao isolada de uma "tecnica", senao que supoem um trabalho vivo e criativo de combinacao entre varias ferramentas de aproximacao e analise conforme as caracteristicas, os desafios e os desdobramentos colocados pela experiencia de campo. Em suma, como indica Magnani (2002:17) a estrategia etnografica deve ser entendida para alem de "um conjunto de procedimentos", sendo principalmente um modo de aproximacao e "apreensao" das realidades sociais, modo que supoe a mediacao do pesquisador como sujeito imbricado na experiencia de campo.

Seguindo este modo de nos aproximar do campo, procedemos num primeiro momento a interagir e observar dez rodas (realizadas entre setembro de 2016 e junho de 2017) a fim de descreve-las como praticas de sociabilidade, considerando elementos caracteristicos do contexto de pratica, os diferentes sujeitos participantes, os elementos simbolicos, ritualisticos e comunicativos que configuram seu carater coletivo-cultural e subjetivante. Posteriormente, ensaiamos uma leitura politico-pedagogica das rodas a partir daqueles elementos contemplados na etnografia.

Como indicam os resultados das pesquisas incluidas em "Jovenes, culturas urbanas y redes digitales" (Canclini, Cruces, Pozo, 2012), o modo de ser jovem/s hoje, pressupoe o transito entre o mundo on-line e o off-line, dimensoes de construcao de vinculos e significados intimamente relacionadas. Portanto, na descricao etnografica, alem de recuperar elementos observados durante os eventos "ao vivo", tambem consideramos materiais disponiveis nas midias sociais digitais, pois estas plataformas estao intimamente ligadas ao que "ocorre" no "real" das praticas abordadas.

O circuito de Rodas Culturais

O hip hop, sendo uma cultura urbana global que ativa reapropriacoes localizadas, coloca-se como a estetica predominante no contexto das grandes cidades brasileiras (Holanda, 2014). Assim, dentro do movimento hip hop as rodas culturais, ou "rodas de rima", sao iniciativas publicas de manifestacao cultural geralmente promovidas e organizadas por jovens ja inseridos no circuito da cultura urbana, com objetivo de gerar um espaco de encontro, de expressao, de lazer e divertimento de baixo custo. Dada sua vinculacao ao hip hop, as rodas culturais se expressam por meio dos elementos proprios a esse movimento urbano (rap, grafite, break), tendo como principal manifestacao o rap no formato de batalhas de rima, ou rima de improviso, mas tambem ampliam a inclusao de outras diversas manifestacoes culturais de rua (Alves, 2016).

As rodas culturais surgiram no Rio de Janeiro ha aproximadamente 8 anos, a partir da atuacao do "Circuito Carioca de Ritmo e Poesia" (CCRP) (Alves, 2016). Apos o incendio do Centro Interativo de Circo (CIC), na Lapa, local onde a galera do hip hop carioca se reunia, foi preciso procurar outro lugar para fazer o rap acontecer (MC Shaell, 2016). (2) Assim, em 2010, a roda de rima da Lapa comecou a funcionar embaixo dos Arcos e nesse mesmo ano, outras rodas comecaram a surgir em diversos cantos da cidade. O mapa "Rodas Culturais no Rio de Janeiro" indica que atualmente, na cidade carioca, sao mais de 50 as rodas ativas, muitas delas acontecendo nos territorios das favelas e periferias (UFF-CNPQ-FAPERJ). (3)

As Rodas Culturais em manguinhos,

o que se faz? O que se vive?

As Rodas Culturais do coletivo do Pac'Stao, (4) nossos parceiros de pesquisa, acontecem semanalmente na praca do complexo do PAC, localizada em frente a Biblioteca Parque no Complexo de favelas de MGH. A roda e organizada de forma autonoma como espaco de expressao e dialogo por jovens moradores de favelas da regiao vinculados ao movimento hip hop. Acontecem as batalhas de rimas, rap, grafite, poesia, skate, passinho, entre as formas de manifestacao cultural observadas.

Ja com quase um ano e meio de existencia, a Roda do Pac'Stao tem um importante papel no desenvolvimento da cultura de MGH. Realizou mais de 60 eventos proprios (5) e vem participado ativamente de outras iniciativas politico-culturais de maior abrangencia comunitaria (dia das criancas, manifestacoes na defesa da Biblioteca Parque Manguinhos, rodadas por colegios, participacao em outras rodas culturais).

O "PAC" e "o espaco" onde os/as jovens da comunidade se encontram, conversam, fazem diferentes atividades, assistem a eventos culturais, transitam ao sair da escola, ao frequentar a biblioteca, etc. Neste sentido, observamos que, apesar da militarizacao das favelas, do fechamento de lugares de lazer e divertimento, da proibicao de bailes de funk, na "praca do PAC" a populacao ainda encontra um lugar permitido e protegido para se reunir, para recriar vinculos, para compartilhar atividades. A vitalidade do espaco do PAC nos faz pensar que nem as limitacoes impostas pelo poder publico aos espacos de encontro nas favelas eliminou a existencia deles. Assim, no PAC os jovens estao se encontrando, interagindo, trocando experiencias, produzindo-se como sujeitos nesses multiplos intercambios.

A nocao de pedaco ajuda a compreender estes processos de uso da cidade e producao de identidades das juventudes. Como afirma Magnani (1998:116 citado em Magnani, 2002:21), o pedaco:
[...] designa aquele espaco intermediario entre o privado (a casa) e o
publico, onde se desenvolve uma sociabilidade basica, mais ampla que a
fundada nos lacos familiares, porem mais densa, significativa e estavel
que as relacoes formais e individualizadas impostas pela sociedade.


Ser do "Pac'stao" remete a uma construcao identitaria coletiva, tipica do "pedaco", dado que o "espaco intermediario" da roda da lugar ao desenvolvimento da experiencia compartilhada entre pares que se reconhecem a partir de condicoes de vida semelhantes (idade, local de moradia, raca, classe social, gostos musicais). O texto que descreve a Roda na sua Pagina de Facebook indica a importancia desse territorio para os/as jovens:
Quando criaram o parque [referencia a praca do PAC], jovens do
Manguinhos, Jacare, Mandela, Arara, Complexo do alemao iam pro parque
pra se encontrar. Muitos ja dancavam break, outros faziam rimas,
andavam de skate, porem como moravam em favelas diferentes nao havia o
dialogo. Com isso foi criada a Roda, aonde varios coletivos surgiram o
fez aproximar todas as tribos! (6)


Na descricao de cada evento na Pagina de Facebook da Roda Cultural do Pac'Stao, apresentam-se os seus propositos:
[...] de atingir a todo o publico do jovem das comunidades locais,
fazendo a uniao entre os quatro elementos e as culturas urbanas
existentes na regiao: * Break * Rap * Disck Joker * Grafite * Passinho
(funk).


No depoimento de uma artista, membro do coletivo organizador da roda, observamos a referencia a cultura como estrategia de mudanca social: "O nosso principal foco e atingir as criancas da nossa comunidade, porque nossa realidade e drastica. Atraves do rap, e dos livros, nos tentamos mudar nosso futuro" (Jessica Trape, na materia publicada em marco de 2017 no Jornal fala Manguinhos). Essa valorizacao da cultura tambem foi observada em diferentes interacoes no campo quando "nos momentos de fala" das rodas, frequentemente se fazia referencia a importancia da cultura e da arte para combater a repressao, a violencia, o racismo, a inferiorizacao e a segregacao, que condicionam os jovens das favelas. A possibilidade de participar em coletivos de producao cultural e arte urbana se coloca assim como um projeto "alternativo-viavel", tanto individual quanto coletivo, para esses jovens.

Numa constatacao importante, Verissimo (2015) relata que a primeira vez que ouviu falar de "Roda Cultural", foi em 2013, durante uma aula de filosofia num colegio de Sao Goncalo, RJ. A aula tratava sobre as praticas cidadas na agora grega como condicao para surgimento da filosofia ocidental:
O objetivo era tentar fazer com que os alunos pensassem nas
consequencias da existencia de um espaco publico e laico, morada da
vida politica, onde os cidadaos se colocavam em posicao de igualdade
[...], onde podiam criticar uns aos outros dentro de determinadas
regras, e colocar suas ideias em debate. [...] [o professor perguntou
se os estudantes conheciam um espaco dessas caracteristicas na
atualidade e] uma aluna, que prestava bastante atencao a aula, afirmou:
"Tem sim, professor. E a Roda Cultural" (Verissimo, 2015: 1).


Observamos que um dos objetivos centrais das rodas e a reapropriacao do espaco publico, como espaco simbolico, para o debate em torno de ideias e interesses compartilhados, seja nos eventos presenciais ou nas midias digitais. Assim, as rodas se apresentam como uma modalidade que, de certa forma, recupera a importancia do exercicio da politica pelos jovens. No caso da Roda Cultural do Pac'stao, esse exercicio passa pela reapropriacao organizada do espaco da praca do PAC e no tratamento de questoes que fazem sentido para os jovens daquelas favelas.

Em nossas visitas de campo observamos que as tematicas especificas, relativas a questoes publicas de MGH ou ligadas a "identidade juvenil de favela", pulsavam semanalmente nas rodas. Entre elas podemos mencionar a situacao da Biblioteca Parque Manguinhos (que foi arbitrariamente fechada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro desde dezembro de 2016 - assim como diversas outras bibliotecas no Estado), questoes de genero e empoderamento das mulheres, o caso de encarceramento injusto do Rafael Braga Viera (7), homenagens a meninos mortos ou encarcerados pela policia, e relatos sobre reiterados episodios de abuso policial.

Um exemplo interessante e o depoimento a seguir que apresenta de forma explicita a intensao do coletivo organizador das rodas quanto a recuperacao da acao publica, naqueles territorios onde o papel "publico" do Estado esta ausente ou fragilizado:
Primeiramente FAVELA RESISTE!!!
[...] O Pac'Stao e um coletivo formado por jovens de diversas favelas
que ocupam um espaco praticamente abandonado pelos nossos orgaos
governamentais, temos uma Casa da Mulher FECHADA, Biblioteca FECHADA,
Escola EM PESSIMAS condicoes, fora os constantes conflitos e tiroteios
que passamos diariamente aonde moramos. Levamos oportunidades a
CRIANCAS E JOVENS que nao tem condicoes de ir ao cinema ou assistir uma
peca de teatro, [...] Hip Hop e PAZ, AMOR, DIVERSAO E UNIAO para que a
voz dos oprimidos seja escutada. Seguimos na luta (8)
Segundo a postagem, concordamos com Alves (2015) ao afirmar que as
rodas tem como orientacao gerar um espaco para expressar de forma
criativa e interativa aquelas questoes que fazem parte do universo real
dos jovens. Outro fator que caracteriza as rodas e que a reapropriacao
do "publico" se faz por meio de uma mediacao poetico-artistica. Como
indica Alves (2015:19) as rodas tem uma preocupacao como um "fazer
literario", criativo, ligado principalmente ao momento das "batalhas de
rima" e do microfone livre ou "freestyle desinteressado". Segundo a
autora, as rodas de rima sao instancias de aprendizado sobre o fazer
poetico, pois servem para ganhar experiencia num ambiente familiar e
ludico a partir do encontro entre os novatos e os artistas mais
"consagrados" (Alves, 2015:120). Os artistas mais experientes sao
geralmente os que comandam e organizam as rodas, enquanto o publico,
predominantemente composto de meninos mais novos, assiste aos
encontros, e alguns deles, interagem nos momentos das batalhas e do
microfone livre.


Nas rodas de MGH observamos que essa preocupacao com um fazer literario/musical/artistico compartilhado e participativo tambem esta presente, pois os momentos das batalhas e do microfone livre sao estruturantes em todas as edicoes. Constatamos tambem essa relacao entre artistas mais experientes e o publico "mais novo", principalmente meninos entre 6-7 e 20 anos, moradores de MGH ou outras favelas.

As Rodas das quais participamos nao se realizaram de forma aleatoria nem desorganizada. Elas se dividem em momentos, conforme o tipo de interacao que "se facilita" entre o publico e a roda. As batalhas de rima tambem tem suas regras, que sao lembradas antes do comeco dos enfrentamentos e estao "escritas" perto do local onde o DJ costuma localizar-se. Essas regras sao: "sem pederastia", "deixa a mae do amigo em casa" "nao dobrar o fio do microfone", "sem xenofobia", "respeito" "nao sentem na pista [de skate]", "proibido bike na pista" "cuidado com as criancas", "fe".

Alem das batalhas de rima, a roda possui outros momentos. Geralmente se apresenta um/uma convidado/a que costuma ser representante de outra roda ou artista independentes. Este momento e semelhante a performance de um show tradicional na qual o papel do artista e do publico ficam bem diferenciados. Assim, a roda vira espetaculo a que o publico assiste, filma, fotografa, curte.

O fato do/a convidado/a vir de "outro territorio" tambem indica o contato existente entre grupos e artistas do movimento hip hop carioca. Identificamos apresentacoes de artistas do Morro do Alemao, de favelas de Niteroi e Sao Goncalo, de favelas da zona sul, de Olaria. Tambem a partir de informacao na Pagina de Facebook da roda constatamos participacao de MCs da zona oeste e de outras favelas da zona norte. Como indica Alves (2016), o movimento cultural em torno das rodas supoe a consolidacao de uma importante rede de coletivos artisticos na cidade de Rio de Janeiro. Esta caracteristica especifica vale a pena ressaltar por conta de sua forca no imaginario coletivo dos jovens. Em territorios dominados e divididos por mafias de poderes diferentes, muitas vezes os moradores identificam fronteiras invisiveis entre as diferentes faccoes que marcam a subjetividade dos jovens. Num territorio conflituoso e cheio de fronteiras invisiveis, as acoes que possibilitam a mobilidade dos/as jovens entre as diferentes favelas tem uma importancia consideravel, pois permitem o fluxo de informacoes, ideias, iniciativas culturais e acoes de resistencia.

Alem do momento do/a convidado/a, a roda gera um outro espaco chamado "microfone livre", no qual se convida outros/as artistas presentes no publico para que "facam sua fala" "mostrem sua arte". Aqui, a modalidade predominante e o freestyle que nao apresenta nem restricao tematica, nem normas de competicao, como no caso das batalhas. Esse momento e pensado para aqueles que, ainda nao tendo muita experiencia na rima, se animem a aparecer em publico, a "compartilhar" sua poesia, sua rima, sua danca, sua performance. Tambem observamos que e no momento do microfone livre que as mulheres ficam mais a vontade para participar, pois nas batalhas, embora nao exista uma norma que as exclua, a participacao e hegemonicamente masculina. Os acontecimentos das rodas tambem podem ser acompanhados no Facebook onde, alem da programacao, e possivel seguir os diferentes momentos por meio das fotografias postadas.

Para completar a descricao sobre a estruturacao das rodas e importante nao deixar de mencionar as atividades paralelas que, embora nao ocupem o lugar central do microfone, acontecem ao redor da roda, em simultaneo. Essas atividades sao variadas: campeonatos de skate, apresentacoes de artistas visuais (charges, grafites), fotografos e produtores audiovisuais fazendo a "cobertura" da roda", turmas fazendo parkur, vendedores independentes de objetos e camisetas, circulacao do caderno de assinaturas de MC e demais artistas, etc. Todas essas atividades tambem fazem parte da roda cultural pois completam a criacao do "ambiente", "do clima" "do universo" associado a cultura de rua, a cultura dos jovens de favela que curtem o hip hop.

Num mesmo contexto politico autoritario em que se publica sem o devido debate um curriculo nacional unico na area de educacao que acaba com a estrategia dos temas transversais que articulam diversos conteudos em torno de uma questao especifica, os movimentos culturais populares mais uma vez demonstram que o caminho nao e unico e que os temas transversais e as atividades paralelas sao recursos potentes para atingir os diferentes subgrupos de jovens.

O uso de um linguajar proprio, expressoes corporais, gestos, vestimentas, dao conta de codigos de comunicacao que sao particulares dessa cultura, nesse contexto. O modo de mexer os corpos, de falar e de acompanhar as batidas tambem tem a ver com uma pratica performatica que "diz", que manifesta posicoes de sujeito e questoes identitarias. Os gestos com as maos sao outro meio para criar simbolos. Por exemplo, fazer uma "P" com os dedos, simboliza o "Pac'stao".

Outro deslocamento observado na dimensao da linguagem e referente aos nomes dos artistas. Geralmente os artistas de hip hop tem ou ganham um apelido que vira nome durante a roda e outros espacos informais nos quais os jovens interagem. Tambem cada um/a, cria uma "assinatura" que nao responde ao sistema alfanumerico latino. Sao tipos de desenhos que so podem ser reconhecidos e decodificados por aqueles que formam parte do circuito do hip hop ou da cultura da favela. Esse tipo de caligrafia tambem faz parte da paisagem urbana em MGH decorando predios, pontes, viadutos, caixas de lixo, paredes.

Alem do contato boca a boca e alguns cartazes colocados ao longo da praca do PAC, a roda utiliza principalmente o Facebook como plataforma digital de promocao de eventos e visibilidade publica. Como mencionamos, na pagina de Facebook e na plataforma Youtube e possivel acessar o conteudo textual, imagetico e audiovisual sobre as rodas, pois e comum que durante as rodas os/as jovens filmem e tirem fotografias, registros que logo sao postados nessas midias. Em face dstas observacoes em campo, podemos inferir que as redes digitais, como plataformas de geracao e compartilhamento de conteudos, estao funcionando como "arquivos" do movimento hip hop no Brasil.

Refletindo sobre o carater politico-pedagogico

DAS RODAS CULTURAIS

Giroux (1999) entende a pedagogia numa perspectiva critica e cultural, como uma forma de politica que transpassa diferentes linguagens, atividades e espacos sociais. Nessa concepcao, o fazer pedagogico-politico esta sempre implicado na construcao e organizacao de conhecimento, desejos, valores e praticas em diferentes ambitos sociais. Com base nessa ideia e conforme o descrito sobre as rodas culturais, consideramos que elas sao um tipo de pratica social que expressa um modo particular de politica pedagogico-cultural.

Em relacao a dimensao cultural-pedagogica, o interessante das rodas e que a funcao pedagogica (de conduzir o processo de criacao de sentidos e praticas) se da entre jovens, construido sobre regras comportamentais de base comum, as quais sao respeitadas e consolidadas por todos. Baseados na cultura hip hop, eles criam o espaco de interacao, decidem sobre as formas de expressao, estabelecem suas regras, falam suas linguagens, propoem conteudos segundo seus interesses. Sao formas de construir um saber proprio, com sentido e significado para eles/as.

Quanto a dimensao politica, constatamos o quanto nas rodas culturais existe uma preocupacao no desenvolvimento de tematicas e atividades que tem como horizonte "mobilizar conhecimentos e desejos que possam conduzir a minimizacao do grau de opressao na vida das pessoas" (Giroux, 1999:15). Isso ficou evidente no discurso publico da roda do Pac'Stao manifesto nos canais digitais e em depoimentos de alguns de seus membros nas midias comunitarias. Consideramos que a acao politica -no sentido de pratica estrategica engajada nas lutas pelo poder e sobre as questoes de interesse publico-coletivo--se observa na organizacao em torno da ocupacao do espaco publico para produzir um fazer coletivo de carater cultural e autonomo (nome proprio, recursos autogestionados, liderancas juvenis) e tambem no carater aberto-participativo dos eventos. Ou seja, um espaco publico de carater diverso, mas territorial, engajado nas questoes sociais, culturais e politicas que perpassam a realidade dos jovens das favelas.

A acao politico-pedagogica da roda tende assim, como indica Giroux (1999), a um engajamento publico e a um projeto guiado por valores sobre o comum, os poderes, as liberdades, a justica, as diversidades, que orientam os relacionamentos intersubjetivos.

Na perspectiva critica tambem se analisa o carater "institucional" de toda pratica politico-pedagogica. Nesse sentido, podemos dizer que as rodas pertencem a esferas alternativas nao formais, mas nem por isso "desinstitucionalizadas". O trabalho de campo permitiu-nos reconstruir a institucionalidade presente no modo de producao, circulacao e consumo da pratica cultural a partir da identificacao de um modo de funcionamento (data e hora de acontecer, local fixo de realizacao, os momentos da roda), parametros "regulamentares" (como as regras nas batalhas) e "normativos" (posturas, linguagens, vestimentas proprios a cultura hip hop), como tambem "papeis estabelecidos" para os sujeitos participantes (os MCs que coordenam a roda, os jovens batalhadores, os artistas convidados, os que participam como B-boys, B-girls, o publico geral). Alem disso, ha o fato de as rodas encontrarem-se imersas num movimento cultural e identitario que tambem se manifesta em outros territorios. Nesse sentido, podemos localiza-las num ambito institucional especifico, ou melhor dizendo, numa resistencia que encontra suas proprias formas de se instituir.

O que se aprende

Com as Rodas Culturais?

No microcosmo de MGH, nesses dois anos de interacao, foi possivel observar o impacto da retirada dos poucos investimentos publicos que existiam para as juventudes. Tambem foi visivel o aumento da violencia ocasionada pelas acoes coercitivas e violentas de um Estado em crise economica e politica, que reafirmou sua vocacao repressiva e elitista logo do golpe juridico-parlamentar de 2016.

Foi nesse contexto que conhecemos as rodas culturais, praticas publicas, abertas, de jovens para jovens, que estao desenvolvendo formas diferenciadas de subjetivacao e identidade coletiva por meio do hip hop e das artes de rua. Recuperando os principais aspectos da pratica das rodas destacamos: a) a producao de um "fazer coletivo", inclusivo e plural, autogestionado e organizado; b) a ocupacao do espaco publico, tanto urbano como digital, recuperando lugares que foram reduzidos nas favelas no marco da "guerra contra as drogas" e o sucateamento das politicas publicas; c) a mediacao fundamental do hip hop, como movimento politico-pedagogico orientado a transformacao das realidades juvenis subalternizadas.

Com as rodas culturais de MGH, temos muito a aprender. Principalmente pela atitude e perseveranca de nao sucumbir a "ordem das coisas". De entender que existe no campo cultural brechas para profanar o espaco publico e exercer a condicao de sujeitos sociais. Que as resistencias implicam um trabalho corajoso e criativo com foco nas pessoas, valorizando experiencias, saberes e corpos, dos que "estao ali" "pegando a visao", fugindo as imposicoes do poder e constituindo junt@s identidades e estrategias na luta pela vida.

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Recibido: 30 de julio de 2018 Aprobado: 19 de octubre de 2018

Valentina Carranza, Sonia Cristina S. D. Vermelho, Gustavo de Oliveira Figueiredo e Vera Helena Ferraz de Siqueira

Valentina Carranza Weihmuller. Argentina. Graduada en Comunicacion Social por la Universidad Nacional de Cordoba, Argentina y Magister em Educacao em Ciencias e Saude por la Universidade Federal de Rio de Janeiro, Brasil. Doctoranda, Programa de Pos-graduacao em Educacao em Ciencias e Saude, Nucleo de Tecnologia Educacional para a Saude, Universidade Federal de Rio de Janeiro, Brasil. Lineas de investigacion: mediaciones y lenguajes en educacion y cultura, juventudes, cultura, artes urbanas y educacion, comunicacion y subjetividades contemporaneas. Publicaciones mas recientes: Weihmuller, V. C.; Siqueira, V. H. F.; Silva, M. R. (2017). "O hip hop como pedagogia das juventudes: Encontro possivel entre o multiculturalismo critico, a pedagogia social e a educacao popular", in: Revista Iberoamericana de Educacion, v. 75. 45-67; Weihmuller, V. C.; Siqueira, V. H. F. (2017). "Movimento social, politica e educacao: o #OcupaTudo no Estado de Rio de Janeiro", in: Atas 38a Reuniao Nacional da ANPEd, Sao Luiz do Maranhaom nov. 2017. Direccion postal: Rua Esteves Junior, 36, apto. 503, Laranjeiras (CEP 22231-160), Rio de Janeiro (RJ) Brasil.Telefono: +55 21 972853017; cw.valentina@gmail.com

Sonia Cristina S. D. Vermelho. Brasilena. Profesora e investigadora. Programa de Pos-graduacao em Educacao em Ciencias e Saude, Nucleo de Tecnologia Educacional para a Saude, Universidade Federal de Rio de Janeiro. Lineas de investigacion: Educacion, comunicacion y tecnologias, mediaciones socioculturales en educacion en ciencias y salud, formacion profesional y docente en ciencias y salud. Publicaciones mas recientes: Velho, A. P. M.; Vermelho, S. C. (2018). "Educacao em Saude e Jornalismo Operativo: articulacoes teorico-metodologicas", in: RECIIS - Revista Eletronica de Comunicacao, Informacao & Inovacao em Saude, v. 12, 160-171; Vermelho, S. C. e Figueiredo, G. O.; (2017). "A Percepcao de Secretarios Municipais de Saude sobre a Formacao Profissional na Rede Publica", in: Saude e Sociedade, v. 26, 382-396. Direccion postal: Rua Esteves Junior, 36, apto. 503, Laranjeiras (CEP 22231-160), Rio de Janeiro (RJ) Brasil.Telefono: +55 21 972853017; cristina.vermelho@gmail.com

Gustavo de Oliveira Figueiredo. Brasileno. Profesor e investigador. Programa de Pos-graduacao em Educacao em Ciencias e Saude, Nucleo de Tecnologia Educacional para a Saude, Universidade Federal de Rio de Janeiro, Brasil. Politicas Publicas, Trabajo y Evaluacion en Educacion, Formacion profesional y docente em ciencias y salud, mediaciones socio-culturales en educacion y salud. Publicaciones mas recientes: Vermelho, S. C. e Figueiredo, G. O.; (2017). "A Percepcao de Secretarios Municipais de Saude sobre a Formacao Profissional na Rede Publica", in: Saude e Sociedade, v. 26, 382-396; Figueiredo, G. de O. (2017). "Un analisis historico-critico del fenomeno de las favelas en Rio de Janeiro/Brasil", en: Jangwa Pana, v. 16, 235-249.Direccion postal: Rua Mariz e Barros, 121/1602, Icarai, Niteroi (CEP 24220-120) RJ, Brasil; gfigueiredo.ufrj@gmail.com

Vera Helena Ferraz de Siqueira. Brasilena. Graduada en Psicologia Universtiy of Texas at Austin, EUA. Mestre em Tecnologia Educacional. Instituto de Pesquisas Espaciais, Sao Jose dos Campos SP, Brasil. Doctora en Educacion.Columbia University, EUA. Profesora investigadora. Programa de Pos-graduacao em Educacao em Ciencias e Saude, Nucleo de Tecnologia Educacional para a Saude, Universidade Federal de Rio de Janeiro, Brasil. Lineas de investigacion: mediaciones y lenguajes en educacion, politicas inclusivas y educacion; diversidad y educacion. Publicaciones mas recientes: Weihmuller, V. C.; Siqueira, V. H. F.; Silva, M. R. (2017). "O hip hop como pedagogia das juventudes: Encontro possivel entre o multiculturalismo critico, a pedagogia social e a educacao popular", in: Revista Iberoamericana de Educacion, v. 75. 45-67; Wickbold, C. C.; Siqueira, V. H. F. (2018). "Politica de cotas, curriculo e a construcao identitaria de alunos de Medicina de uma universidade publica", in: Revista Pro-Posicoes. Dossie: Vertentes da Educacao Inclusiva vol. 29 no. 1, Campinas, 83-105. Direccion postal: Anchieta, 16, apto. 202 (CEP 22010-070) Leme, Rio de Janeiro (RJ) Brasil. Telefono: +55 21 981113898; verahfs@yahoo.com.br

(1.) Titulo do projeto: "Estudo sobre as mediacoes das ciencias, da saude e da midia na educacao dos Jovens em situacao de vulnerabilidade social" (NUTES--UFRJ). O Projeto desenvolve "vivencias educativas baseadas na metodologia de Midia Educacao com um grupo de estudantes escolarizados, meninas e meninos entre os 15 e os 19 anos de idade", com o objetivo de construir uma proposta de "educacao em Saude emancipadora capaz de ressignificar a autoestima e o autocuidado, os quais constituem pilares para a aprendizagem e a formacao da autonomia" (Vermelho, 2015:2).

(2.) O MC Shaell fez em 2016 uma serie de videos: #AVERDADESEJADITA. Neles vai se contando questoes historicas e de atualidade sobre o hip-hop no Rio de Janeiro. O episodio 2 e dedicado as rodas culturais. Link: https://www.facebook.com/sahellofc/videos/1034770139929725. Acesso: 20/02/2018.

(3.) Extraido: https://www.google.com/maps/d/u/0/viewer?mid=10cyNgB1wJ5dt4Txlt3UO-WMkJZA&hl=en_US&U=-22.8110910589589%2C-43.38308623227539&z=11>. Acesso: 13/02/2018.

(4.) O nome foi escolhido como referencia ao Paquistao, ambos area de conflitos armados. Tambem acontece na praca do PAC, sigla do Programa de Aceleracao do Crescimento do governo federal que possibilitou a construcao de equipamentos culturais naquele lugar. E uma ressignificacao pelo grupo para expressar: "Por Amor a Cultura".

(5.) Conforme quantidade de eventos divulgados no Facebook da Roda Cultural do Pac'Stao ate out/2017.

(6.) Extraido: https://www.facebook.com/pg/poramoracultura/about/?ref=page_internal Acesso: 13/02/2018.

(7.) Para detalhes, vide: https://libertemrafaelbraga.wordpress.com/about/. Acesso: 15/02/2018.

(8.) Extraido do comentario no evento Manifesto Contra Proibicao das Rodas Culturais do RJ. Facebook.14/02/2017. https://www.facebook.com/events/381677805521459/. Acesso: 13/02/2018. Acesso: 13/02/2018.
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Author:Carranza, Valentina; Vermelho, Sonia Cristina S.D.; Figueiredo, Gustavo De Oliveira; Siqueira, Vera
Publication:Estudios sobre las Culturas Contemporaneas
Date:Jun 22, 2019
Words:8567
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