Printer Friendly

Revisiting Whitney: on the social and political dimensions of language studies/Revisitando Whitney: das dimensoes social e politica no estudo da linguagem.

Introducao

Neste texto apresentamos aspectos epistemologicos e politicos presentes na obra do linguista norteamericano William Dwight Whitney (1827-1894), refletindo sobre o papel desse autor na formacao e consolidacao dos estudos linguisticos. Interessa-nos, tambem, discorrer sobre sua trajetoria intelectual a luz do cenario sociopolitico em que vivia. A escolha por Whitney se justifica pela importancia atribuida a ele por uma serie de estudiosos da linguagem, seja como precursor das ideias linguisticas ou como fundador da ciencia linguistica, seja como um iniciador da sociolinguistica ou, ainda, como representante de viradas epistemologicas significativas para a epoca. Alem dessa contextualizacao, retomamos as reflexoes de Whitney a partir de dois eixos: o conceito de linguagem/lingua em dialogo com a dimensao social, tema inovador para a epoca; e aspectos politicos presentes em seu pensamento. Nossa apresentacao e analise se detem, basicamente, nas seguintes obras representativas do autor: Language and the study of language twelve lectures on the principles of linguistic science (1867a); Languages and dialects (1867b); Language and education (1871); The life and growth of language: an outline of linguistic science (1875) e Max Muller and the science of language (1892) (1). Ressalte-se que as publicacoes de Whitney superam mais de quatrocentos trabalhos, entre traducoes, resenhas, notas, ensaios, relatorios, obituarios, escritos tecnicos, pedagogicos e teoricos (Lanman, 1897; Long, 1929).

O texto se organiza da seguinte forma: iniciamos com uma apresentacao sobre o percurso e as producoes de Whitney, salientando suas influencias no pensamento moderno saussuriano e a pouca circulacao de suas ideias no contexto brasileiro; em seguida, discorremos sobre a relacao entre lingua e sociedade nos trabalhos de Whitney, sinalizando para os germes de uma sociolinguistica; na sequencia, destacamos as contribuicoes politicas das reflexoes de Whitney, seja para o campo da educacao, seja para as politicas linguisticas.

Whitney: percurso e producoes

De forma geral, atribui-se a William Whitney o papel de precursor das ideias linguisticas no seculo XIX, embora os autores variem na importancia atribuida a ele. Exemplificando a relevancia academica de Whitney no cenario norte-americano, mencionamos a realizacao do primeiro congresso americano de filologos, em dezembro de 1894 na Filadelfia, em homenagem a memoria de Whitney, que foi fundador da Associacao Americana de Filologia (1869). O relatorio do evento publicado em 1897 reconhece que Whitney atuou por mais de um quarto de seculo como o principal representante da filologia americana (Lanman, 1897). Nesse relatorio, Whitney e identificado de diversas maneiras, como indianista, sanscrista, filologo, comparativista; alem de ser considerado uma personalidade que detinha uma familiaridade com diferentes areas do saber, como geologia (seu irmao era geologo), botanica, literatura, astronomia e estudos de religiao. Seu estilo de escrita tambem e elogiado pelo relatorio, como sendo simples e claro, sem fazer uso de retorica ou escrita ornamentada. Dentre suas obras mais reconhecidas, o relatorio menciona a grandeza academica de Language and the study of language (1867a), especialmente por lidar com principios e apresentar questoes especulativas e algumas generalizacoes; alem dessa obra, o documento faz mencao aos escritos de Whitney sobre aspectos foneticos e gramaticais dos Vedas--textos religiosos indianos--e ao papel do linguista como editor de publicacoes da Sociedade Oriental Americana. Os trabalhos de Whitney podem ser classificados em tres orientacoes: trabalhos tecnicos, escritos pedagogicos e popularizacao de temas cientificos (Seymour, 1894; Lanman, 1897).

Seguimos nossa exemplificacao da importancia atribuida por linguistas a Whitney, mencionando a avaliacao de Saussure. A obra saussuriana Escritos de linguistica geral (Saussure, 2002) apresenta dois textos dedicados a Whitney: 'Notas para um artigo sobre Whitney' e 'Notas para o curso II (1908-1909): Whitney'. No primeiro escrito, o linguista genebrino tanto reconhece o papel inovador de Whitney nos estudos comparados, como, principalmente, realca sua contribuicao para a emergencia de uma linguistica geral: "Ele e o primeiro generalizador que soube nao tirar conclusoes absurdas, sobre a Linguagem, da obra da gramatica" (Saussure, 2002, p. 176). Ademais, uma das inovacoes de Whitney estaria, segundo Saussure, na afirmacao de que "[...] a linguagem e uma 'instituicao' humana. Isso mudou o eixo da linguistica" (Saussure, 2002, p. 181; grifo do autor). No segundo escrito, o autor reconhece a relevancia atribuida por Whitney aos principios postulados pela linguistica indo-europeia na emergencia e configuracao dos estudos modernos de linguagem: "Mas, como diz Whitney, a linguistica indo-europeia tem o direito de falar as outras [...]" (Saussure, 2002, p. 261).

A importancia conferida por Saussure a Whitney foi reconhecida tambem por outros autores, como Jakobson (1985, p. 269, traducao nossa): "Saussure repetidamente expressou sua reverencia pelo americano Whitney" (2). Outro autor que menciona a aproximacao entre Saussure e Whitney e John Joseph (2002), sinalizando para a influencia, principalmente, da obra The life and growth of language: an outline of linguistic science (1875)--cujo titulo teria sido criticado por Saussure por subentender a ideia de lingua como organismo vivo--nos conceitos saussurianos de signo e de arbitrariedade, bem como no papel da relacao entre comunidade e individuo nos processos linguisticos. Essa obra tambem teria delineado duas abordagens avancadas para a epoca: o papel da analogia como forca atuante sobre as linguas e o questionamento sobre o papel da Asia como lar do indo-europeismo (Seymour, 1894).

No cenario brasileiro, autores que mencionam o papel relevante de Whitney na emergencia da linguistica moderna incluem, entre outros, Milani (2000), Faraco (2004) e Cruz (2010). Sucintamente, Milani (2000) analisa, em sua tese de doutorado, os pensamentos de Humboldt, Whitney e Saussure--reconhecidos como fundamentais para a emergencia das ideias linguisticas--a luz de seus contextos socio-historicos de producao; o autor defende que Whitney teria operado como uma ponte entre Humboldt e Saussure. O linguista norte-americano, na perspectiva de Milani (2000, p. 10) sobre a obra The life and growth of language, teve como objetivo central "[...] demonstrar o processo de aprendizagem pelo ser humano da lingua materna e de linguas estrangeiras".

Ja Faraco (2004) atribui a Whitney, juntamente a Humboldt, um papel relevante na emergencia da linguistica do seculo XX; dentre as obras de Whitney mencionadas pelo linguista brasileiro esta The life and growth of language, especialmente no que tange a concepcao de que o signo linguistico seria arbitrario e convencional, a lingua seria uma instituicao social e a lingua deveria ser estudada a partir de uma ciencia autonoma. Por fim, Cruz (2010), tradutor para a lingua portuguesa de The life and growth of language (3), a partir da versao francesa La vie du langage (1875), tambem propoe que esta obra teria instaurado as bases da linguistica moderna, influenciando o pensamento de Saussure (2004; 2002); o tradutor afirma, ainda, que a concepcao de lingua como instituicao humana teria resgatado as nocoes de sujeito, de sociedade e de sentido, seguindo uma orientacao diferente da onda naturalista e dos estudos comparados do seculo XIX.

Para uma breve contextualizacao das ideias da epoca, dentre alguns debates e controversias nos quais o linguista norte-americano se envolveu destaca-se a sua relacao com os trabalhos do naturalista Max Muller, englobando: uma critica de Whitney as traducoes de textos vedicos feitas por Muller, alem de critica a sua visao de lingua como organismo vivo, publicada no texto Max Muller and the science of language: a criticism (1892). Esse posicionamento polemico de Whitney, especialmente a partir de 1870, foi reforcado por Koerner (1989), que atribui aquele a defesa da inscricao da linguistica em uma orientacao historica e humana, ao inves de naturalista ou psicologica.

O enfoque de lingua de Whitney contesta a perspectiva de organismo vivo cujo funcionamento se daria por uma dinamica metafisica--apolitica--independente dos falantes. Essa visao metafisica e vista por Whitney (1867b) como um dos tres estagios do desenvolvimento da linguistica: (i) teologico, que propoe a lingua como uma criacao divina, inscrita de forma milagrosa no homem; (ii) metafisica, que considera a existencia da lingua, tida como um organismo, de maneira independente; (iii) positivista, que postula a existencia da lingua a partir de fatos observaveis passiveis de descricao clara.

Tendo feito essa exposicao sobre o percurso e a influencia do pensamento de Whitney na linguistica moderna, nas duas proximas secoes nos debrucamos sobre suas ideias, priorizando a dimensao social e politica de seus escritos.

Whitney e as sementes da sociolinguistica

Alguns autores atribuem a Whitney um papel fundante no que se refere a insercao da dimensao social nos estudos da linguagem. Exemplificando, Labov (2008), tendo como criterio a mudanca linguistica, divide os estudiosos que se ocuparam desse assunto a partir do seculo XIX em dois grupos, identificados como o grupo associal e o grupo social, situando, como marco inicial do segundo grupo, Whitney (4). Koerner (1991), em 'Toward a history of modern sociolinguistics', esboca uma linhagem genealogica que tem inicio em Whitney e culmina em Labov. Nao obstante tais consideracoes, o trabalho de Whitney parece nao ter recebido a devida atencao nos estudos linguisticos do seculo XX e XXI, particularmente no ambito da sociolinguistica.

E interessante observar como Labov imprime um tom de certa critica quando menciona algumas passagens relativas a Whitney em Principles of linguistic change: internal factors (Labov, 1994) e em Principles of linguistic change: social factors (Labov, 2001). Na primeira obra, o sociolinguista reconhece Whitney como o maior proponente do principio do uniformitarismo na linguistica (num paralelo entre a geologia e a linguistica), mas salienta que este era pouco inclinado ao estudo da linguagem cotidiana--que e o foco de interesse laboviano. Na segunda, Labov faz referencia a Whitney ao comentar a visao desse autor sobre a "[...] forca destrutiva da mudanca sonora [...]" (5)--(Labov, 2001, p. 11), sobre a nocao de "preguica" (6) envolvida no principio do menor esforco, em contraste com a nocao de economia--(Labov, 2001, p. 18), e sobre a origem das inovacoes nos "[...] falantes incultos e descuidados [...]" (7)--(Labov, 2001, p. 30).

Uma rapida busca por outras obras de referencia na area indica que Whitney tem sido pouco reportado, mesmo entre os norte-americanos. A titulo de ilustracao: em An introduction of sociolinguistics (Wardhaugh, 2002), em The handbook of sociolinguistics (Coulmas, 1998), em The handbook of language variation and change (Chambers, Trudgil, & Schilling, 2013) e mesmo em Empirical foundations of a theory of language change (Weinreich, Labov, & Herzog, 1968), nao ha mencao ao nome de Whitney nas referencias bibliograficas. Em Sociolinguistics: the essencial readings (Paulston & Tucker, 2003), ha apenas uma mencao ao autor, via Koerner, no capitulo intitulado 'A brief history of american sociolinguistics 1949-1989', escrito por Roger Shuy (2003); em Continuum companion to historical linguistics, ha breves referencias a Whitney no capitulo 'Historical linguistics: history, sources and resources', escrito pelas editoras do compendio Silvia Luraghi e Vit Bubenik (2010); em The handbook of historical linguistics (Hernandez-Campoy & CondeSilvestre, 2012), ha mencoes, diretas e indiretas, a Whitney em tres capitulos da obra.

Essa breve descricao indica que, no ambito da sociolinguistica e, particularmente no que diz respeito a estudos de variacao e mudanca, Whitney e um nome praticamente apagado nos escritos contemporaneos da area (8). Esse fato nos instigou a examinar alguns trabalhos representativos de Whitney, em busca de elementos que justifiquem o papel basilar a ele atribuido por alguns autores no que diz respeito a emergencia de uma dimensao social na linguistica. No rastreamento das obras examinadas, selecionamos os seguintes pontos: conceito de linguagem/lingua, sua origem, funcoes e modo de aquisicao; a mudanca linguistica, tipos de mudanca, o papel do individuo e da sociedade, forcas e fatores de mudanca; lingua e dialeto; e a questao do preconceito.

Whitney postula que a lingua e um produto historico conectado com os falantes, e a linguistica, uma ciencia historica. Nos termos do autor, a "[...] lingua nao e um produto fisico, mas uma instituicao humana, preservada, perpetuada e alterada por livre acao humana" (9) (Whitney, 1867a, p. 152, traducao nossa). Tratase de "[...] uma instituicao fundada na natureza social do homem" (10) (Whitney, 1867a, p. 177, traducao nossa), por isso uma instituicao social, conforme atestado pelo proprio autor: "Em todos os seus estagios de crescimento, entao, a fala e estritamente uma 'instituicao social'" (11) (Whitney, 1867a, p. 437, traducao nossa, grifo nosso).

Sobre o conceito de linguagem/lingua, cabe aqui uma nota sobre o uso dos termos language, tongue e speech nas obras do autor. Ao longo de seus textos, nao ha clareza acerca do criterio usado para, eventualmente, distinguir as nocoes envolvidas. Por vezes, parece ao leitor que uma palavra e tomada pela outra. Nao vamos, neste artigo, problematizar esses usos e tambem nao faremos distincao conceitual entre linguagem e lingua.

A linguagem/lingua e definida como "[...] o conjunto de signos pronunciaveis e audiveis [articulados] pelos quais o pensamento e principalmente expresso na sociedade humana" (12), sendo os gestos e a escrita tidos como instrumentos secundarios (Whitney, 1875, p. 2, traducao nossa). Os signos sao arbitrarios, convencionais e mutuamente inteligiveis. Alem disso, mais que instrumento de mera expressao do pensamento, a lingua e o meio pelo qual o homem transmite consciente e intencionalmente seu pensamento a seus semelhantes. A origem da linguagem e sua funcao primaria estao na necessidade do homem de se comunicar: "[...] suas necessidades sociais [...] o forcam a se expressar" (13) (Whitney, 1875, p. 404, traducao nossa). A linguagem tem, pois, uma natureza social, no sentido de agregar os individuos em grupos:

Ela possibilita os homens a serem [...] sociais, e nao meramente seres gregarios. Ela e o produto e tambem o meio e instrumento da comunidade. Ela converte a raca humana de um agregado vazio de individuos em uma unidade, tendo uma vida coletiva, um desenvolvimento comum, para o qual cada individuo contribui, recebendo um incalculavel tesouro em troca (14) (Whitney, 1867a, p. 440-441, traducao nossa).

A unidade que caracteriza o grupo de individuos se estabelece atraves da unidade da lingua, que se mantem gracas a mutua inteligibilidade assegurada pelo desejo de compreender e de ser compreendido pelo outro. A linguagem nao so agrega socialmente as pessoas, mas tambem atua como "[...] meio de expressao de todos os seus sentimentos, experiencias, opinioes, raciocinios" (15) (Whitney, 1867a, p. 32, traducao nossa). A interacao entre os falantes e a lingua e acentuada na passagem: "[...] a lingua e o que os falantes fazem dela" (16) (Whitney, 1875, p. 224, traducao nossa).

Para Whitney, "[...] [t]oda lingua viva esta em constante crescimento e mudanca" (17) (Whitney, 1875, p. 33, traducao nossa). As mudancas linguisticas sao assim classificadas pelo autor: (i) alteracao de velhos elementos--mudanca de som e mudanca de significado; (ii) desaparecimento de velhos elementos--perda de palavras inteiras e de formas gramaticais; (iii) producao de novos elementos--novas palavras ou novas formas e expansao dos recursos de expressao. Esses tipos de mudanca se misturam.

Quanto ao primeiro tipo, as alteracoes de forma se dao por abreviacao ou reducao de palavras (tendencia a economia e a comodidade) ou pela substituicao de um som por outro (por forca da analogia); as mudancas de sentido se dao por restricao da significacao geral das palavras (especializacao de uso) ou por extensao de sentidos (do proprio ao figurado, de ideias concretas a abstratas), com esquecimento da etimologia. Essas mudancas de forma e de sentido sao independentes entre si (embora possam ser paralelas), devido a natureza arbitraria da relacao entre sentido e forma. Em relacao ao segundo tipo de mudanca, como as palavras de uma lingua se conservam pela forca da tradicao, o desuso pode levar ao desaparecimento; ou ainda palavras podem ser substituidas por outras com o mesmo significado. Por fim, a producao de novas palavras e de novas formas se da por multiplicacao de sentidos em palavras existentes, emprestimos de outras linguas, invencao de novas palavras, visando expandir e melhorar a expressao do pensamento, fornecer signos novos para novos conhecimentos e modificar a representacao de conhecimentos antigos (Whitney, 1875).

As mudancas linguisticas estao sujeitas a influencias externas e internas; a linguagem/lingua se altera para adaptar-se as circunstancias e as necessidades e capacidades humanas em expansao. Tais influencias sinalizam para o papel tanto da dimensao social como da dimensao individual na mudanca linguistica e sao assim definidas por Whitney (1867b, p. 30-31, traducao nossa):
   As influencias externas consistem nas circunstancias pelas quais os
   homens sao rodeados, as exigencias historicas de seu contexto, as
   necessidades de sua comunicacao; as influencias internas consistem
   nos desejos e aspiracoes, dons, tendencias inconscientes, habitos,
   idiossincrasias, caprichos dos falantes (18).


Ademais, as mudancas sao lentas e graduais: "Leva decadas, e ate geracoes ou seculos, para uma palavra independente percorrer a serie de modificacoes na forma e no significado necessarias para sua conversao num elemento formativo" (19) (Whitney, 1867a, p. 278, traducao nossa). Whitney acredita que as mudancas se dao basicamente no vocabulario, mas podem ter um "[...] efeito indireto sobre o desenvolvimento gramatical" (20) (Whitney, 1867a, p. 140, traducao nossa). De fato, segundo o autor, "[...] [t]odas as linguas se encontram num estado de constante fluxo de mudanca, nunca mantendo seus limites de vocabulario, sua forma fonetica, sua gramatica, ou o significado de suas palavras" (21) (Whitney, 1867b, p. 33, traducao nossa).

O papel do individuo e da sociedade, na mudanca linguistica, e recorrentemente abordado pelo autor, que considera que cada parcela de mudanca se origina no individuo, mas so se estende mediante a aceitacao da sociedade. E nesse sentido que o autor afirma que "[...] [cada item] tem seu periodo probatorio durante o qual tenta se estabelecer" (22) (Whitney, 1875, p. 154, traducao nossa). Assim, os processos de mudanca se dao na tensao entre a iniciativa individual e a aceitacao ou resistencia da sociedade:

[E]nquanto o individuo e o verdadeiro agente na formacao e modificacao de cada palavra e significado de uma palavra, e a comunidade que faz e altera sua lingua. O primeiro e a forca molecular; a segunda, a organica. Ambos estao sempre trabalhando e a historia das linguas humanas e um registro de seus efeitos combinados. [...] A lingua tende a diversidade, mas circunstancias associadas a seu emprego checam, anulam e revertem essa tendencia, preservando a unidade, ou produzindo-a onde nao havia (23) (Whitney, 1867a, p. 177, traducao nossa).

As forcas que levam a divergencia, associadas ao individuo, sao forcas centrifugas, as quais agem, numa especie de motivacoes em competicao, com as forcas centripetas, associadas a comunidade. As primeiras sao responsaveis por variacoes e mudancas, uma vez que cada individuo "[...] tem seu proprio vocabulario, suas palavras e frases preferidas, seus proprios desvios de pronuncia, de construcoes, de gramatica standard normal" (24) (Whitney, 1867a, p. 154, traducao nossa). As ultimas atuam em funcao da unidade, da inteligibilidade mutua (25).

As alteracoes na lingua se dao no tempo e no espaco, mas ha tambem outros fatores envolvidos, como a classe social, o grau de instrucao, a idade, o que faz com que uma lingua comporte "[...] variedades: individuais, de classe, locais" (26) (Whitney, 1867a, p. 22, traducao nossa). As variacoes e mudancas sao associadas a nocao de dialeto, sendo provocadas por fatores de natureza distinta:

[...] poucos, se houver, escapam da influencia de peculiaridades locais e pessoais de pronuncia e de fraseologia que, por serem mais perceptiveis que outras, sao mais frequentemente chamadas de 'dialeto'. [...] cada 'provincia', num pais de grandes dimensoes, tem suas formas locais mais ou menos fortemente marcadas [...]. Cada 'classe' tem suas diferencas dialetais, especialmente as determinadas pela ocupacao [...]. Ha ainda as diferencas em relacao ao 'grau de educacao' [...]. Enfim, ha as diferencas de 'idade' [...]. Cada uma dessas diferencas e essencialmente dialetal [...] sao desvios de um padrao anterior de fala [...] ou sao retencoes de um padrao mais antigo que, de forma geral, foi abandonado pelos bons falantes (27) (Whitney, 1875, p. 154-156, traducao nossa, grifos nossos).

As nocoes de 'lingua' e 'dialeto' sao recorrentes na obra de Whitney. Uma passagem representativa e a seguinte:

Qualquer corpo de expressoes usado por uma comunidade [...] para os propositos de comunicacao e como instrumento do pensamento e uma 'lingua [language]' [...] Por outro lado, nao ha nenhuma 'lingua [tongue]' no mundo a qual nao possamos, com perfeita liberdade e propriedade, aplicar o nome de 'dialeto', se a considerarmos como parte de um conjunto de formas de fala relacionadas (28) (Whitney, 1875, p. 177-178, traducao nossa, grifos nossos).

Ademais, o autor destaca que "[...] mesmo a mais cultivada lingua que existe e somente o dialeto de uma certa classe numa certa localidade [...]" (29) (Whitney, 1875, p. 178, traducao nossa), o que ilustra uma certa arbitrariedade na definicao do que conta como lingua e dialeto. Note-se que existe uma orientacao social forte atuando sobre as mudancas da lingua, pois "[...] quando a fala dos melhores falantes muda, aqueles que nao se adequam a mudanca sao considerados numa classe mais baixa" (30) (Whitney, 1875, p. 156, traducao nossa). Construcoes sociolinguisticamente avaliativas, como 'melhor falante', 'bom uso', 'dialeto de pessoas comuns e de pessoas educadas', e assim por diante, tambem aparecem nos textos do autor, dando a entender que

[...] os usos de uma parte da comunidade sao estabelecidos como uma 'norma', a qual os demais deveriam se conformar [...]. Os melhores falantes, aqueles que usam as palavras com mais precisao, com mais plenitude e forca de significado, com mais graca e arte, se tornariam os professores dos demais (31) (Whitney, 1867a, p. 182-183, traducao nossa, grifo nosso).

Ainda nessa direcao avaliativa, o autor considera a influencia que 'grandes autores' podem exercer:

Um grande autor pode, por sua autoridade, atuar em favor da admissao do bom uso de alguma palavra ou frase popular, originada de uma corrupcao ou erro, ate entao reprovada e banida [...]. A maxima usus norma loquendi ('o uso e a regra da fala') e de suprema e incontrolada validade em cada parte de parcela de cada lingua humana (32) (Whitney, 1867a, p. 40, traducao nossa, grifo do autor).

Nao obstante a caraterizacao valorativa que contrasta os falantes de uma lingua com base no 'bom' dominio linguistico, o autor, ao comparar diferentes linguas, faz um alerta:

[...] ao julgarmos outras linguas, devemos tentar nos livrar de preconceitos gerados pelos nossos proprios habitos de expressao [...]. E um erro comum de pessoas incultas, e mesmo de algumas pessoas estreitas, embora altamente instruidas, considerar que somente elas sao falantes, e que os demais sao 'barbaros', nao inteligentes porque faladores ininteligiveis para elas (33) (Whitney, 1867a, p. 222-223, traducao nossa, grifo do autor).

Nesta secao, podemos evidenciar uma serie elementos que atuaram como sementes epistemologicas da sociolinguistica moderna. Ilustrando, o conceito de linguagem/lingua se orienta por uma dimensao social, centrada na comunicacao entre os individuos; alias, a comunicacao torna-se um elemento central definidor do que conta como comunidade. A relacao entre individuo e comunidade, cara a sociolinguistica, e tensionada por Whitney ao, por exemplo, mencionar a sua forca atuante na mudanca linguistica. Alem disso, um mesmo individuo pode pertencer a diferentes comunidades, fazendo uso de diferentes dialetos, o que revela a porosidade do conceito de comunidade e de dialeto. Tais dialetos, por sua vez, nao se restringem a um criterio geografico, mas incluem elementos sociais, como classe, nivel de instrucao, idade, contexto situacional, entre outros. Outro aspecto relevante a mencionar e uma certa arbitrariedade presente na definicao dos limites entre lingua e dialeto, dando a entender, por vezes, que esse limite e posto socialmente. Por fim, mencionamos o papel do lugar de prestigio social dos individuos na instauracao de uma norma standard, embora reconhecamos uma tensao no posicionamento avaliativo de Whitney sobre os usos diferenciados da lingua: ao mesmo tempo em que, no ambito de uma mesma lingua, o autor reconhece o papel da influencia linguistica de certa classe de individuos sobre outros, no ambito interlinguistico, Whitney reivindica um posicionamento respeitoso em relacao as diferencas linguisticas.

Whitney: questoes de politica, lingua e o espirito da epoca

Nesta secao contextualizamos algumas condicoes academicas e politicas de producao dos trabalhos de Whitney. Enfocamos seus escritos voltados para aspectos educacionais e politicos, realcando a relevancia de suas contribuicoes para debates e reflexoes atuais.

Dentre os varios trabalhos de Whitney, o contexto de desenvolvimento de seus estudos comparados engloba o dialogo com uma rede de intelectuais, especialmente alemaes, interessados na identificacao de semelhancas linguisticas entre o sanscrito, o alemao, o grego, o latim e o persa, entre outras linguas; o auge desses estudos foi embalado por uma 'descoberta' dos manuscritos religiosos e filologicos hindus. A Alemanha foi tida como o berco dos estudos linguisticos comparados, tendo Humboldt como um de seus porta-vozes intelectuais. A influencia dos estudos comparados alemaes no contexto academico americano incluiu o interesse pela descricao de linguas indigenas americanas, tema que tambem teria interessado a Humboldt. Segundo Nelson (2005), a proposta hierarquizada de classificacao linguistica de Humboldt--em linguas flexivas (sanscrito e linguas arianas) e aglutinantes (demais linguas)--teria relegado as linguas aglutinantes a um segundo plano. Essas categorias linguisticas tambem sao usadas por Whitney (1867a; 1875) ao, por exemplo, considerar as linguas indigenas americanas como aglutinantes e o finlandes e hungaro como linguas flexivas, embora relativize o uso hierarquizador daquelas categorias.

Considerando que o cenario intelectual e politico alemao influenciou a formacao academica de Whitney, vale ressaltar o papel desempenhado por intelectuais alemaes na construcao de um nacionalismo, em que a lingua assumiu papel importante. Exemplificando, em 1810 foi fundada uma universidade financiada pelo estado prussiano, tendo como primeiro reitor o filosofo Johann G. Fitche, que realizou uma serie de palestras em defesa da construcao das fronteiras nacionais e da solidariedade alema, especialmente diante da expansao francesa; outro gestor da universidade em Berlim foi o linguista Humboldt. A relacao entre academia e politica era evidente naquela epoca, em que a universidade operou como uma instituicao nacionalista, sendo que no centro dessa orientacao se localizava o estudo da linguagem (Nelson, 2005). Outros apoiadores do espirito alemao foram o filosofo Herder e o linguista comparado Schlegel, tutor de Bopp. Este, por sua vez, foi professor de Whitney. Entre outras formacoes, e importante frisar que Whitney estudou na Universidade de Berlim. As ideias politicas alemas--no que tange a relacao entre lingua e nacionalismo--influenciaram intelectuais americanos, especialmente apos 1814, com a derrota de Napoleao. Um dos nomes atuantes na articulacao entre os cenarios academicos alemao e americano foi Edward Everett, que tambem teria afetado o percurso intelectual de Whitney (Nelson, 2005).

No contexto norte-americano no seculo XIX, pensadores e academicos reivindicavam uma independencia intelectual em relacao a tradicao europeia, de forma geral, e a tradicao alema, de forma especifica. Os intelectuais americanos, contudo, foram afetados pelas articulacoes alemas entre lingua, cultura e nacionalismo e, por outro lado, se empenharam pela busca de analises universalistas (Cmiel, 1990; Nelson, 2005). Exemplos de empenho pela autonomia intelectual norte-americana foram a criacao da Revista da Sociedade Oriental Americana (1842) e a fundacao da Sociedade Oriental Americana (1843). William Whitney, a despeito de sua influencia germanista, teria se identificado com essa busca por uma autonomia intelectual norte-americana. Suas reflexoes integraram interesses linguisticos e culturais, especialmente no que tange a cultura hindu (Nelson, 2005).

O vies politico existente nos trabalhos e nas reflexoes de Whitney variava desde a producao de instrumentos linguisticos que favorecessem a unificacao do ingles, ate interpretacoes e analises politicas de fenomenos linguisticos, incluindo as ideias de nacao, nacionalismo e o papel da educacao na formacao das pessoas. Exemplificando, Whitney, mobilizado por suas preocupacoes com a formalizacao de uma lingua nacional, contribuiu com a revisao do dicionario americano de ingles (1828), de Noah Webster, e publicou uma gramatica do ingles (1870). Ademais, vale mencionar que a construcao de dicionarios e gramaticas no contexto norte-americano do seculo XIX teve como pano de fundo politico a existencia de uma tensao entre o conservadorismo linguistico vs. o reconhecimento de usos vulgares e populares. Isso se deu em um contexto de emergencia de uma nova classe media em face do enfraquecimento da aristocracia vigente; nesse sentido, a polarizacao linguistica refletia uma polarizacao social: "Questoes de vulgaridade e refinamento linguisticos atravessaram a divisao social" (34) (Cmiel, 1990, p. 56, traducao nossa).

O posicionamento de Whitney, a favor do uso de gramaticas, nao defendia, contudo, uma norma padrao conservadora pautada na modalidade escrita e em referencias de correcao, mas apelava para uma compreensao dos fatos linguisticos do ingles, com foco, principalmente, na fala (Cmiel, 1990). No contexto educacional, a perspectiva de Whitney sobre a relacao entre lingua e seu ensino pode ser evidenciada no excerto a seguir, retirado da obra Language and the study of language, mesmo ano em que o linguista publicou os trabalhos sobre 'Linguas e dialetos' e 'O valor da ciencia linguistica e da etnologia' (Lanman, 1897). Segue o excerto:

O verdadeiro conservadorismo linguistico consiste em estabelecer uma democracia educada e virtuosa, alistando toda a comunidade, por meio de uma educacao profunda e penetrante, na preservacao adequada e saudavel dos usos aceitos da fala correta--e, entao, permitindo que qualquer mudanca necessaria siga o seu curso. Existe um purismo que, enquanto procura manter a integridade da linguagem, efetivamente sufoca seu crescimento (35) (Whitney, 1867a, p. 150, traducao nossa).

Whitney era um grande defensor da educacao e, de forma geral, assumia seu papel e lugar de professor: "Seu estilo era de um professor e nao de um palestrante popular de palanque" (36) (Seymour, 1894, p. 295, traducao nossa). A concepcao de educacao defendida pelo linguista norte-americano nao se limitava a ponderacoes de ordem linguistica ou academica. No texto 'Language and education', publicado em 1871 em The north american review--uma revista literaria fundada por um jornalista em 1815 e focada na cultura e politica norte-americana, com direcionamento independente, mais social do que academico--, Whitney avalia o sistema educacional norte-americano, fazendo elogios a sua estrutura democratica, gratuita e inclusiva, embora teca criticas a forma de gestao e a qualidade do ensino. Whitney defende, nesse artigo, uma educacao popular de qualidade, articulando-a ao ensino superior, em prol de uma visao integrada de educacao; propoe, ainda, como modelo de ensino superior, as universidades alemas que, entre outras coisas, investiriam em professores que tambem fossem investigadores.

Ainda no artigo 'Language and education' (1871), Whitney sinaliza, tambem, para uma questao bastante atual nos debates universitarios: a tensao e controversia entre os estudos classicos e cientificos, especialmente no contexto educacional, embora defenda que a "[...] [e]ducacao e algo essencialmente e exclusivamente humana" (37) (Whitney, 1871, p. 347, traducao nossa). Seu posicionamento em relacao a controversia envolvendo o ensino tecnico-cientifico vs. humanistico, contudo, mostra uma ponderacao a favor do dialogo paciente em detrimento da disputa por uma resolucao apressada: "Nenhuma reconciliacao rapida das opinioes sobre os assuntos aqui em disputa deve ser procurada, se, de fato, alguma vez sera alcancada" (38) (Whitney, 1871, p. 346, traducao nossa).

Sobre o aspecto politico do conceito de lingua, Whitney (1871), tambem em seu texto sobre educacao, reforca o papel coletivista e agregador da linguagem, em que a comunicacao transcende uma perspectiva instrumental e e posta a servico da construcao de um senso de coletividade: "Ela [a lingua] nos coloca em comunicacao com nossos companheiros e faz do nosso crescimento uma parte integrante da raca, estendendo a nossa pequenez individual as dimensoes maiores da natureza humana coletiva" (39) (Whitney, 1871, p. 360, traducao nossa). Ademais, Whitney nao apenas articula a lingua a construcao de um senso de coletividade, como nao a dissocia de seus falantes: "A linguagem, de fato, nao existe, salvo nas mentes e na boca daqueles que a usam" (40) (Whitney, 1867a, p. 35, traducao nossa).

Assim, a homogeneizacao e/ou dispersao linguisticas estariam diretamente relacionadas aos individuos e a comunidade ou, em outros termos, a necessidade de comunicacao. E importante frisar que comunicacao nao significa a possibilidade de uma compreensao totalizadora e harmoniosa entre os interlocutores, uma vez que ela tambem se constituiria por mal entendidos, polissemias, imprecisoes ou vagueza: "A terra esta cheia de linguas discordantes--discordante no sentido de que aquele que adquiriu uma delas e incapaz de entender e de usar as outras [...]. Nenhum homem fala exatamente a mesma lingua" (41) (Whitney, 1867b, p. 32-33, traducao nossa). A comunicacao, conforme vimos na secao precedente, e uma das principais forcas atuantes tanto na dispersao como na unificacao linguistica, e ela estaria na base do sentido de comunidade.

No ambito das politicas linguisticas, a concepcao de lingua de Whitney tambem se evidencia na possibilidade institucional de intervencao sobre os usos linguisticos: "Ha registros de que o trocadilho feito por um monarca mudou para sempre a forma de uma palavra" (42) (Whitney, 1867a, p. 37, traducao nossa). No ambito das politicas institucionais, Whitney foi indicado pela Associacao de Filologia Americana para lidar com a reforma da ortografia do ingles, convite declinado por ele por nao acreditar na possibilidade de uma mudanca brusca na lingua, projeto visto por Whitney como uma "[...] cruzada quixotesca" (43) (Seymour, 1894, p. 295, traducao nossa). O linguista norte-americano tambem foi convidado pelo governo japones para opinar a respeito da oficializacao do ingles no Japao, embora, a despeito do nacionalismo de Whitney, a defesa do ingles como uma lingua universal (English as weltsprache) nao fosse uma bandeira patriotica sua (Seymour, 1894). Ainda no campo das politicas linguisticas, Whitney (1867b) reconheceu o papel desempenhado por uma estrutura social organizada, a educacao e o letramento literario como instancias atuantes na estabilizacao das linguas, operando como forcas centripetas: "De todas as forcas que se opoem a mudanca linguistica, a cultura e a educacao sao as mais poderosas [...]. Civilizacao e esclarecimento fornecem uma forca coesa maravilhosa; eles tornam possivel uma ampla unidade politica [...] e promovem sentimentos nacionais" (44) (Whitney, 1867b, p. 39-40, traducao nossa). Nesse sentido, a construcao politica de um senso de comunidade atua como forca centripeta sobre os usos linguisticos, reforcando o ideal de unidade politica, cultural, social e linguistica que ajuda a definir o sentimento nacionalista.

Nesse campo de construcao de ideais nacionalistas, Whitney (1867b) fornece, ja no seculo XIX, um exemplo bastante relevante para se compreender, a partir das politicas linguisticas (45), a relacao entre nacionalismo, nacao e lingua, no contexto alemao: O processo de unificacao da lingua alema foi em grande medida alimentado pela traducao feita por Lutero da Biblia, paralelamente ao fortalecimento da imprensa e do letramento; a lingua escolhida por Lutero "[...] foi a fala oficial e da corte dos principais reinos da Alemanha central e do sul" (46) (Whitney, 1867b p. 43, traducao nossa). Nesse contexto de homogeneizacao linguistica, tres elementos atuaram como forca centripeta: a religiao, a prensa (com a inscricao da escrita Biblia --nos contextos familiares) e as revolucoes politicas; a esses tres elementos foram somados a literatura e a educacao formal. Note-se, contudo, que a ideia de nacao e uma construcao moderna--em articulacao com o surgimento dos Estados-Nacao e do nacionalismo como uma ideologia de Estado; nos textos de Whitney (1867a; 1875), o conceito de nacao emerge no contexto de delimitacao de uma dada comunidade em que a lingua passa a exercer um papel coesivo relevante.

Sobre questoes terminologicas, termos usados por Whitney, como nacao, raca e linguagem, parecem ilustrar tres tipos de usos: (i) usos especificos, como raca e/ou linguagem/lingua indo-europeia, raca semitica, raca hamitica, raca latina, raca asiatica, raca italica, raca germanica, raca americana, raca inglesa, entre outras; (ii) uso generico, como raca humana; (iii) usos classificatorios, como racas antigas, civilizadas, em civilizacao ou primitivas. Mais especificamente sobre a relacao entre lingua e raca, Whitney propoe um estudo articulado entre linguistica e etnologia, de forma a conciliar a historia das linguas com a historia das diferentes racas. Apesar de articular esses dois dominios--linguistico e etnologico--, seguindo um discurso tipico da epoca de buscar as origens da humanidade atraves de rastreamentos linguisticos (Campbell, 2006 (47); Campbell & Poser, 2008). Whitney, por vezes, parece relativizar essa articulacao, conforme revela a seguinte citacao: "A linguagem nao e um sinal infalivel de raca, mas apenas sua indicacao provavel [...] a mistura de linguas nao e prova necessaria de mistura de raca" (48) (Whitney, 1867a, p. 372-373, traducao nossa). Essa relativizacao parece se intensificar nos escritos de 1875, em que Whitney problematiza a possibilidade de se identificar uma suposta origem das linguas aliada a existencia de uma unica raca, desconstruindo o mito religioso da origem linguistica e, de certa forma, desarticulando a relacao entre lingua e raca: "E, entao, impossivel que a ciencia linguistica possa provar [...] que a raca humana no inicio formou uma sociedade em conjunto [...] a ciencia linguistica nao pode assumir provar a diversidade de racas humanas" (49) (Whitney, 1875, p. 269-270, traducao nossa).

Ressalte-se, por fim, que essa relacao entre raca e lingua nao esta ultrapassada nos debates atuais. Ela tem sido problematizada contemporaneamente a luz das politicas linguisticas criticas, uma vez que a racializacao das linguas--e linguistificacao das racas--serviu a projetos coloniais, imperiais e nacionalistas diversos, reforcando ideais classificadores e segregadores, como pureza linguistica, simplicidade linguistica, lingua materna e proficiencia linguistica, entre outros (Severo & Makoni, 2015).

Consideracoes finais

Neste artigo revisitamos alguns trabalhos representativos da vasta obra de William Whitney, linguista norte-americano considerado, por alguns, como precursor da linguistica moderna e, por outros, como iniciador da sociolinguistica. Reconhecemos que uma retomada desses escritos da segunda metade do seculo XIX ajuda-nos a compreender de forma mais alargada e contextualizada o percurso historico da emergencia do conceito de linguagem/lingua que ajudou a fundamentar visoes contemporaneas centradas na dimensao social e politica. Uma apresentacao de conceitos presentes em suas obras, bem como a contextualizacao das condicoes de producao de seus escritos, nos permite situar temas atuais para os estudos da linguagem/lingua em uma perspectiva historica e reflexiva: conceito de mudanca linguistica, relacao entre individuo e comunidade, relacao entre lingua e dialeto, relacao entre linguistica e etnologia (ou entre lingua e raca), relacao entre linguagem/lingua e nacao, relacao entre usos linguisticos e elementos sociais e geograficos, entre outros.

Whitney, evidentemente, foi um homem do seu tempo, que tanto soube acolher a tradicao de estudos da linguagem, fortemente centrada nos intelectuais alemaes, como criou condicoes, de forma criativa e arrojada, para a compreensao da dinamica linguistica a luz de um olhar social e politico. O linguista parece ter sido um intelectual dos dialogos: entre os estudos comparados e a linguistica geral, entre a lingua materna e as linguas estrangeiras, entre a esfera academica germanica e a americana, entre a ciencia e o ensino, entre o pesquisador e o cidadao, entre os estudos linguisticos e as indagacoes religiosas e humanisticas, entre o disciplinar e o interdisciplinar, entre a tradicao e a inovacao. Tais dialogos nao implicam, necessariamente, harmonizacoes ou concordancias, mas sao permeados por tensoes que, nem sempre, seriam conciliaveis. Alias, a capacidade de sustentar tais tensoes, sem uma busca apressada por uma 'solucao final', parece caracterizar a trajetoria academica de Whitney. Acreditamos que sua ampla e heterogenea obra pode iluminar questoes ainda atuais e que permeiam diferentes campos do saber linguistico, como a linguistica geral, a sociolinguistica, a politica linguistica, a linguistica aplicada, alem dos dialogos interdisciplinares.

Doi: 10.4025/actascilangcult.v41i1.43009

Received on May 25, 2018.

Accepted on February 21, 2019.

Referencias

Campbell, L. (2006). Why Sir William Jones got it all wrong, or Jones' role in how to establish language families. ASJU, XL (p. 245-264). Recuperado de http://www.ehu. eus/ojs/index.php/ASJU/article/view File/4384/4329.

Campbell, L., & Poser, W. (2008). Language classification: history and method. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

Chambers, J., Trudgill, P., & Schilling, N. (Eds.). (2013). The handbook of language variation and change. Cambridge, UK: Blackwell.

Cmiel, K. (1990). Democratic eloquence: the fight over popular speech in nineteenth-century. Berkeley, CA: University of California Press.

Coulmas, F. (1998). The handbook of sociolinguistics. Malden, MA: Blackwell.

Cruz, A. (2010). Prefacio a edicao brasileira. In W. D. Whitney. A vida da linguagem (prefacio). Petropolis, RJ: Vozes.

Faraco, C. A. (2004). Estudos pre-saussurianos. In: F. Mussalin, & A. C. Bentes (Orgs.), Introducao a linguistica 3 (p. 27-52). Sao Paulo, SP: Editora Cortez.

Fishman, J. A., Ferguson, C. A. & Dasgupta, J. (1968). Language problems of developing nations. Nova York, NY: Wiley.

Hernandez-Campoy, J. M., & Conde-Silvestre, J. C. (2012). The handbook of historical linguistics. Wiley, NJ: Blackwell.

Jakobson, R. (1985). Selected writings VII: contribution to comparative mythology--studies in linguistics and philology, 1972-1982. New York, NY: Gruyter Mouton Publishers.

Joseph, J. E. (2002). From Whitney to chomsky: essays in the history of american linguistics. Filadelfia, PA: John Benjamins.

Koerner, K. (1989). Practicing linguistic historiography: selected essays. Filadelfia, PA: John Benjamins.

Koerner, K. (1991). Toward a history of modern sociolinguistics. American Speech, 66(1), 57-70.

Labov, W. (1994). Principles of linguistic change--internal factors. Oxford, UK: Blackwell.

Labov, W. (2001). Principles of linguistic change--Social factor. Oxford, UK: Blackwell.

Labov, W. (2008). O quadro social da mudanca linguistica. In W. Labov, Padroes sociolinguisticos (p. 301-373). Sao Paulo, SP: Parabola Editorial.

Lanman, C. R. (1897). The Whitney memorial meeting: a report of that session of the first American congress of philologists. Boston, MA: Published for the Congress/Ginn and Company.

Long, O. W. (1929). William Dwight Whitney. The New England Quarterly, 2(1), 105-119 Recuperado de http://www.jstor.org/stable/359822. doi: 10.2307/359822

Luraghi, S., & Bubenik, V. (2010). Historical linguistics: history, sources and resources. In S. Luraghi, & V. Bubenik, Continuum companion to historical linguistics (p. 1-35). London, UK: Continuum International Publishing Group.

Marra da Silva, D. & Milani, S. E. (2013b). Whitney, Saussure, Meillet e Labov: a lingua como um fato social. Anais do SILEL, 3(1), 1-12. Recuperado de http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/pt/.

Marra da Silva, D., & Milani, S. E. (2013a). Reflexoes acerca do conceito de lingua como uma instituicao social em William Dwight Whitney. Cadernos do IL, 46(1), 129-147. doi: https://doi.org/10.22456/22366385.35837

Milani, S. E. (2000). Humboldt, Whitney e Saussure: romantismo e cientificismo-simbolismo na historia da linguistica. (Tese de Doutorado). Universidade de Sao Paulo, Sao Paulo.

Milani, S. E. (2007). Historiografia dos estudos de Willian D. Whitney: a lei do menor esforco. Linha d'agua, 20(1), 37-47. doi: https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v0i20p51-65.

Nelson, A. R. (2005). Nationalism, transnationalism, and the american scholar in the nineteenth century: thoughts on the career of William Dwight Whitney. The New England Quarterly, 78(3), 341-376. Recuperado de http://www.jstor.org/stable/30045546

Paulston, C. B., & Tucker, G. R. (2003). Sociolinguistics: the essential readings. Malden, MA: Blackwell Publishing.

Saussure, F. (2002). Escritos de linguistica geral (C. A. L. Salum, & A. L. Franco, trad.). Sao Paulo, SP: Cultrix.

Saussure, F. (2004). Curso de linguistica geral (A. Chelini, J. P. Paes, & I. Blikstein, trad.). Sao Paulo, SP: Editora Cultrix.

Severo, C. G., & Makoni, S. B. (2015). Politicas linguisticas Brasil-Africa: por uma perspectiva critica. Florianopolis, SC: Insular.

Seymour, T. D. (1894). William Dwight Whitney. The American Journal of Philology, 15(3), 271-298. Recuperado de http://www.jstor.org/stable/287812

Shuy, R. W. (2003). A brief history of american sociolinguistics 1949-1989. In C. B. Paulston, & G. R. Tucker (Eds.), Sociolinguistics: the essential readings (p. 04-16). Malden, MA: Blackwell.

Silverstein, M. (1971). Whitney on language; selected writings of William Dwight Whitney. Cambridge, UK: MIT Press.

Spolsky, B. (2002). The Cambridge handbook of language policy. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

Wardhaugh, R. (2002). An introduction to sociolinguistics. Malden, MA: Blackwell.

Weinreich, U., Labov, W., & Herzog, M. (1968). Empirical foundations of a theory of language change. In W. P. Lehman, & Y. Malkiel (Eds.). Directions for historical linguistics: a symposium (p. 95-199). Austin, TX: University of Texas Press.

Whitney, D. W. (1867a). Language and the study of language, twelve lectures on the principles of linguistic science. Nova York, NY: Charles Scribner & Company.

Whitney, D. W. (1867b). Languages and dialects. North American Review, 104(1), 30-64.

Whitney, D. W. (1871). Language and education. The North American Review, 113(233), 343-374. Recuperado de http://www.jstor.org/stable/25109643

Whitney, D. W. (1875). The life and growth of language: an outline of linguistic science. Nova York, NY: D. Appleton and Company.

Whitney, D. W. (1892). Max Muller and the science of language. New York, NY: D. Appleton & Company.

Whitney, D. W. (2010). A vida da linguagem (M. A. Alexandre Cruz, trad.). Petropolis, RJ: Vozes.

Cristine Gorski Severo * e Edair Maria Gorski

Centro de Comunicacao e Expressao, Universidade Federal de Santa Catarina, Rua Eng. Agronomico Andrei Cristian Ferreira, s/n, 88040-970, Trindade, Florianopolis, Santa Catarina, Brasil. * Autor para correspondencia. E-mail: crisgorski@gmail.com

(1) Considerando que apenas uma obra de Whitney tem traducao para a lingua portuguesa e que o autor e pouco difundido no Brasil, optamos por manter todas as citacoes na lingua original, de modo a preservar a essencia do pensamento do autor. As traducoes sao de nossa responsabilidade.

(2) "Saussure repeatedly expressed his reverence for the American Whitney [...]"

(3) A vida da linguagem (Whitney, 2010).

(4) Na linhagem social de Labov (2008) situam-se os autores: Whitney, Schuchardt, Meillet, Vendryes, Jespersen e Sturtevant. Para uma discussao acerca do carater social dessa linhagem, ver Severo e Gorski (a sair).

(5) "[...] the destructive force of sound change [...]".

(6) "[...] laziness".

(7) "[...] uncultivated and careless speakers [...]".

(8) Referencias a Whitney sao encontradas em manuais, capitulos de livros e artigos voltados a uma ampla visao historiografica da linguistica geral, e em alguns trabalhos de carater particular que exploram certas ideias do autor, como o de Silverstein (1971), Milani (2000; 2007), Marra da Silva & Milani (2013a, 2013b), entre outros.

(9) "Language is not a physical product, but a human institution, preserved, perpetuated, and changed, by free human action".

(10) "[...] an institution founded in man's social nature [...]" .

(11) "In all its stages of growth alike, then, speech is strictly a social institution".

(12) "[...] the body of uttered and audible signs by which in human society thought is principally expressed, gesture and writing being its subordinates and auxiliaries".

(13) "[...] his social needs [...] force him to expression"

(14) "[...] it enables men to be [...] social, and not merely gregarious beings. As it is the product, so it is also the means and instrument, of community. It converts the human race from a bare aggregate of individuals into a unity, having a joint life, a common development, to which each individual contributes his mite, receiving an untold treasure in return".

(15) "[...] means of expression of all their feelings, experiences, opinions, reasonings".

(16) "[...] a language is what its speakers make it".

(17) "[...] all living language is in a condition of constant growth and change".

(18) " Influences external, consisting in the circumstances by which men are surrounded, the historical exigencies in which they are placed, the necessities of their communication; influences internal, consisting in the wants and aspirations, the native endowments, the unconscious tendencies, the habits, the idiosyncrasies, the whims even, of those who speak".

(19) "It takes decades, and even generations, or centuries, for an independent word to run through the series of modifications in form and meaning which are necessary to its conversion into a formative element".

(20) "[...] indirect effect upon grammatical development".

(21) "All language [...] is in a state of constant flux and change, never maintaining continuously its limits of vocabulary, its phonetic form, its grammar, or the meaning of its words".

(22) "[***] [every item] has its time of probation during which it is trying to establish itself".

(23) "[...] while individuals are the sole ultimate agents in the formation and modification of every word and meaning of a word, it is still the community that makes and changes its language. The one is the molecular force; the other, the organic. Both [...] are always at work, and the history of human tongues is a record of their combined effects. [...] Language [...] tends toward diversity, but circumstances connected with its employment check, annul, and even reverse this tendency, preserving unity, or producing it where it did not before exist".

(24) "[...] Each has his own vocabulary, his own pet words and phrases, his own deviations from the normal standard of pronunciation, of construction, of grammar".

(25) "Linguistic development is thus made up [...] of an infinity of divergent or centrifugal forces. But [...] there is not wanting an effective centripetal force also, which holds all the others in check [...] this centripetal force is the necessity of communication" .

(26) "Although one language, it includes numerous varieties, of greatly differing kind and degree: individual varieties, class varieties, local varieties".

(27) "[...] few if any escape the taint of local and personal peculiarities of pronunciation and phraseology, peculiarities which, because more conspicuous than the others, are more often noticed by us and called dialectic. [...] every separate part of a great country of one speech has its local form, more or less strongly marked [...]. Every class, however constituted, has its dialectic differences: so, especially, the classes determined by occupation [...]. Then there are the differences in grade of education [...]. Finally, there are the differences of age [...]. Every one of all these differences is essentially dialectic [...] they are deviations from a former standard of speech [...] or they are retentions of a former standard, which the generality of good speakers have now abandoned".

(28) "Any body of expressions used by a community [...] for the purposes of communication and as the instrument of thought, is a language [...]. In the other hand, there is no tongue in the world to which we should not with perfect freedom and perfect propriety apply the name of dialect, when considering it as one of a body of related forms of speech" (Whitney, 1875, p. 177-178).

(29) "[...] that even the most cultivated tongue that exists is only the dialect of a certain class in a certain locality [...]".

(30) "[...] when the speech of the best speakers changes, those who do not conform have to be ranked in a lower class".

(31) "[...] the usages of one part of the community are set up as a norm, to which those of the rest shall be conformed [...]. The best speakers, those who use words with most precision, with most fulness and force of meaning, with most grace and art, become the teachers of the rest".

(32) "A great author may, by his single authority, turn the trembling scale in favour of the admission to good usage of some popular word or phrase, born of an original corruption or blunder, which had hitherto been frowned upon and banned [...].The maxim usus norma loquendi ('usage is the rule of speech') is of supreme and uncontrolled validity in every part and parcel of every human tongue".

(33) "[...] In judging other languages, then, we have to try to rid ourselves of the prejudices generated by our own acquired habits of expression [...]. It is a common error of uncultivated, and of narrowly though highly cultivated peoples, to regard themselves alone as speakers, and all others as babblers, 'barbarians,' unintelligent because to them unintelligible talkers".

(34) "Issues of linguistic vulgarity and refinement cut through social division".

(35) "T rue linguistic conservatism consists in establishing an educated and virtuous democracy, in enlisting the whole community, by means of a thorough and pervading education, in the proper and healthy preservation of the accepted usages of correct speech--and then in letting whatover change must and will come take its course. There is a purism which, while it seeks to maintain the integrity of language, in effect stifles its growth [...]".

(36) "His was the style of a teacher rather of a popular platform-lecturer".

(37) "Education is something essentially and exclusively human".

(38) "No speedy reconciliation of views upon the matters here in dispute is to be looked for, if, indeed, it shall ever be reached".

(39) "It [language] puts us in communication with our fellows, and makes our growth an integral part of that of the race, stretching our individual littleness into the larger dimensions of collective human nature".

(40) "Language has, in fact, no existance save in the minds and mouths of those who use it".

(41) "The earth is full of discordant languages--discordant in the sense that he who has acquired one is unable to understand and use the others [...]. No two men speak precisely the same tongue".

(42) "There are instances on record in which the pun of a monarch has changed for all time the form of a word".

(43) "Quixotic crusade".

(44) "Of all the forces which oppose linguistic change, culture and education are the most powerful [...]. Civilization and enlightenment give a wonderful cohesive force; they render possible a wide political unity [...] and foster national feelings".

(45) Observe-se que, em uma rapida pesquisa de algumas obras relevantes para os estudos de politicas linguisticas, nenhuma delas faz mencao aos trabalhos de Whitney, tais como: Language problems of developing nations (Fishman, Ferguson, & Dasgupta, 1968) ou The hanbook of language policy (Spolsky, 2002).

(46) "[...] was the court and official speech of the principal kingdoms of Central and Southern Germany".

(47) Nos seculos XVIII e XIX, "[...] linguistic comparisons were seen as part of the means for getting at a broader history of the nations and races of the world" (Campbell, 2006, p. 247).

(48) "Language is no infallible sign of race, but only its probable indication [...] mixture of language is not necessary proof of mixture of race".

(49) "It is, then, impossible that linguistic science should ever be able to prove [...] that the human race in the beginning formed one society together [...] linguistic science cannot assume to prove de diversity of human races".
COPYRIGHT 2019 Universidade Estadual de Maringa
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2019 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:LINGUISTICS/LINGUISTICA
Author:Severo, Cristine Gorski; Gorski, Edair Maria
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Date:Jan 1, 2019
Words:8714
Previous Article:One other love: a reading of Amor de Clarice, by Rui Torres/Um outro amor: uma leitura de Amor de Clarice, de Rui Torres.
Next Article:Fantastic and psychoanalysis: historicals and discursives relationships/Fantastico e psicanalise: relacoes historicas e discursivas.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters