Printer Friendly

Reverberations and [re] inventions of the landscape in GUIGNARD: looks, impressions and vertigo of Ouro Preto in Colegio Pedro II/ Reverberacoes e [re] invencoes da paisagem em GUIGNARD: olhares, impressoes e vertigens sobre OURO PRETO no Colegio Pedro II.

O que Ouro Preto tem? Tem montanhas e luar; tem burrinhos, pombos brancos/ Nuvens vermelhas pelo ar/... Tem afigura risonha/ Do grande pintor Guignard/ Que Deus botou neste mundo/para Outro Preto pintar

--Cecilia Meireles

1. Aprendendo com Guignard a necessidade da vertigem

Nao e para o fundo que nos puxa a pintura de Guignard. O que se impoe sao essas espessuras incertas, uma especie de respiracao contida que nos envolve em seu moroso vaivem. E como essa cadencia permanece irresolvida, resta correr os quadros de alto a baixo, na esperanca de encontrar um apoio que possa sustentar formas mais estaveis, que deem direcao e alguma ordem as obras. (Naves, 1997:132)

Podemos lidar com a abordagem de conteudos considerados canonicos no ensino da arte--caso seja uma exigencia de ordem curricular--de modo igualmente canonico, entretanto, tambem podemos promover um ensino da arte onde haja espaco para a vertigem. Assim, de modo analogo ou similar a obra de Alberto da Veiga Guignard (Nova Friburgo, Rio de Janeiro, 1896--Belo Horizonte, Minas Gerais, 1962), podemos buscar a qualidade das "espessuras incertas" (Naves, 1997:132), estimulando-a sempre junto a formacao artistica dos alunos da educacao basica. Defende-se aqui, portanto, uma pedagogia da vertigem onde mais importante do que as certezas que objetivem o alcance de determinado "aprendizado" acerca de saberes enciclopedicos, e oportunizar espaco para as [incertezas no caminho a ser percorrido pelo olhar provocado/ atravessado pelo misterio perturbador do vaivem de cada obra de arte, descortinando contraditorios ou novas impressoes acerca do que se ve. A interlocucao com Guignard torna-se oportunamente ilustrativa deste pensamento, pois reforca essa ideia de instabilidade que dominam suas pinturas, em suas igrejinhas que levitam em meio a brumas de uma paisagem irreal, sem "[...] um apoio que possa sustentar formas mais estaveis " (Naves, 1997:132). Acredita-se vir dai a qualidade do que chamamos aqui de [des]ensino da arte. Em outras palavras, uma pedagogia que esteja aberta a leituras independentes, sem a seguranca de um chao ja construido pelos teoricos da arte e sem o sequestro do arrebatamento dado pelo ordenamento previo da visao. Ao contrario, interfaceadas pelo devir e pelo inesperado, pelo conhecimento a ser [des]construido da opiniao de quem ve determinada manifestacao artistica ou paisagem dada a visao pela primeira vez. A estranheza, o maravilhamento, a surpresa e a suspensao dos sentidos, portanto, devem nos conduzir no mergulho dessa vertigem, ainda que ja tenhamos testemunhado por algumas vezes esse ou aquele fato artistico. Assim, entende-se, sempre havera a oportunidade de se conhecer pelo [des]conhecido, favorecendo, assim, a instabilidade de um ineditismo interpretativo livre e nao propriamente uma pedagogia alicercada em dogmas e argumentos conclusivos sobre arte.

Ademais, cumpre reforcar, as aulas de arte nao deveriam jamais se desobrigar da ficcao, se eximindo do olhar poetico dos artistas. Afinal a matriz por excelencia da arte e o discurso ficcional e, portanto, sempre necessario estimula-lo. Com efeito, tratar as manifestacoes artisticas na escola de modo racional como meros fatos historicos, significa logicamente se esvaziar do proprio sentido da arte. Desta maneira, tomar Ouro Preto, por exemplo, pela ficcao criada por Guignard, implica em converter a propria experiencia pedagogica em arte numa especie de "pintura" sempre repleta de surpresas, delicadezas e ressiginicacoes. Sublinhada, assim, por camadas destituidas de "focos hierarquizantes" (Naves, 1996:132), reveladas paulatinamente, alcancando, neste merito, a chance de experimentar o assunto em causa de um modo amplamente vertiginoso. Assim, para provocar a fruicao, o entendimento e producao de imagens em sala de aula, parece mais interessante se valer do artificio, da magia e do amor ao ficcional do qual tambem Anne Cauquelin chama a atencao em seu discurso sobre a paisagem. Assim, se ausentar deste papel no exercicio docente em artes, representaria enfraquecer ou mesmo sepultar o discurso ficcional, o lado poetico dos mundos subjetivados em sala de aula ...

A producao de imagens, essa atividade intensa de ficcao que nos habita e cuja a extensao e importancia desconhecemos, deriva bastante da magia: a realidade do mundo na qual cremos tanto nos e perceptivel por meio de um veu de imagens, a ponto de--querendo rasgar esse veu--nos nos encontrarmos muitas vezes confrontados com o vazio. Artificio da imagem necessaria para que se assegure a perenidade, para que dure o prazer, a tensao da vida. (Cauquelin, 2007:110)

Assim, complementando o que ja fora dito, inversamente as montanhas de conhecimento que sequestram o direito a vertigem na educacao estetica, deseja-se abrir-se aquilo que e irresolvido, alimentado pelas contribuicoes que advenham de diversas matrizes, repertorios e questionamentos, fruto da relacao entre a arte e quem a ve, sem a instrumentalizacao que ordene o pensamento a ponto de enclausura-lo pelos limites de uma moldura--para nao se fugir da metafora da pintura--, mas entregue a sensibilidade fruitiva [des]enquadrada de cada momento. Dar espaco, portanto, para que novas conjecturas surjam desta troca de subjetividades, destronando o lugar do excesso de discursos, da poeira assentada em leituras hermeticas, derivadas de textos que aprisionam muitas vezes o entendimento sobre determinada obra de arte. O [des]ensino da arte, portanto, pode ser interpretado como um convite a uma sala de aula aberta as surpresas e aos eventuais desvios dos temas abordados. O importante, portanto, neste sentido, e dar espaco, enfim, para outros posicionamentos, oferecendo sempre a polifonia dos "silencios" de uma obra, para que seja garantido o movimento de ir e vir da propria arte, de modo a nos encorajar em novos saltos a vertigem. Em suma, a arte nao deve ser tratada como uma ciencia exata, pois, evidentemente, por sua natureza dada a poesia, possui abismos interpretativos de quem se aproxima ou de quem dela deseja se aproximar, fissuras que precisam ser exploradas pedagogicamente, nos termos da obra aberta de Umberto Eco, nas licoes do mestre ignorante de Jacques Ranciere ou daquilo que Rodrigo Naves definiu como "forma dificil". Pois sempre, sem excecao, detem um segredo [in]revelado. Certamente, Guignard, tambem desejou essa vertigem, tambem nos convida a [des]construirmos Ouro Preto para nos oferecer camadas de um territorio imaterial, sem a consistencia ou solidez das coisas, transcendendo qualquer definicao a priori ...

Vem dai a impressao de imensidade que perpassa boa parte das paisagens de Guignard. Pois como encontrar dimensoes num territorio tao imaterial, que parece pairar alem das definicoes, e que agora e profundidade, instantes depois torna-se puro veu, para logo apos transforma-se em garoa fina, que dilui a consistencia das coisas. (Naves, 1997:131)

Determinadas obras tambem, cumpre dizer, de tao iconicas que se tornaram, em sua excessiva exposicao, exibidas em diversos veiculos de comunicacao, acumulando agudo desgaste ao longo do tempo, perderam muito do seu conteudo irresolvido. Inapelavelmente, ficaram prejudicadas justamente em sua dimensao de vertigem. Por isso, torna-se necessario desestabiliza-las novamente a cada aula de artes, com o dialogo entre outras obras, imagens ou textos, no intuito de devolve-las ao [des]conforto dos abismos que nos separam daquilo que ainda nao foi dito ou observado. Por isso, e preciso [des]aprender sempre em artes, assim como torna-se importante confrontar Ouro Preto com outras retoricas, transcendo, inclusive, a arte de Antonio Francisco Lisboa e de seus mestres contemporaneos do seculo dezoito. Muito provavelmente ocorrera a percepcao de novos detalhes, revelando ate aspectos ocultos ou nao estudados, tornando-a mais instigante a [in]disciplina de artes na escola--escapando da reproducao embrutecedora de planos de aulas repetitivos ou viciados, ou mesmo a propria obediencia curricular--, no caso, se entregando ao olhar de quem a reviveu e a experimentou de um modo absolutamente diferente este passado artistico, com outra assinatura poetica, permitindo a compreensao de uma Ouro Preto permeada de outras vertigens, na medida em que duvida do mundo de contornos denotativos ...

A "escrita" de Guignard sobre Ouro Preto nao se estabelece por uma ordenacao literal. Bastaria alguns minutos de fruicao mergulhando em sua obra, para atestarmos seu carater ficcional, seu apreco pelo dado irreal, justificando, inclusive, o reconhecimento de suas pinturas como paisagens imaginarias, conforme tambem nos mostram tambem as palavras de Rodrigo Naves:

Guignard, ao contrario, cria unidades sem mediacoes, continuidades que ocultam sua costura. Obviamente ele nao quer fazer sua pintura retornar a espacialidade da tradicao, com suas fronteiras nitidas, delimitadas. [...] Inves de articular espaco e figuras, Guignard tende a enfraquecer seus limites. No caso das montanhas, chega a dissolve-las. (Naves, 1997:133)

Neste sentido, se por um lado, existe o que pode ser chamado de um ensino da arte cartesiano e embrutecedor, imobilizado por praticas aniquiladoras do exercicio de uma fruicao mais aberta, torna-se importante considerar, por oposicao, as vantagens de um vies impregnado de surpresas, onde a pedagogia empreendida aconteca por [des]caminhamentos, a constituir-se como uma [des]educacao em artes, onde a entrada nao seria a entrada historicista, guiados pela linearidade da Historia da Arte, por exemplo, mas intermediado pela preocupacao com o poetico, com o estranho, com o super-real (Pedrosa, 2004:203). Neste tipo de abordagem, podemos acolher o ficcional questionado pelos misterios [in]revelados da propria da arte, renovando os olhares, flutuando e transitando sem pressa entre exterioridades e interioridades. Assim, sobre o periodo colonial brasileiro e sobre a arquitetura de Outro Preto, torna-se extremamente rico se valer da visao e da sensibilidade artistica de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962). Conforme se chama atencao, sua obra torna-se uma excelente metafora para a vertigem neste exercicio de [des]ensino da arte. Assim, poderiamos questionar os fatos artisticos de muitas maneiras, sem a sabotagem ou a interferencia de uma agenda pedagogica racionalista. Existiria, portanto, com base nestas reflexoes, uma unica forma de ver Ouro Preto? Ora, para tal questionamento, oferece-se aqui a obra de Guignard como eloquente resposta. Como, entao, se embrenhar nas paisagens dessa cidade historica, considerada patrimonio da humanidade, sem que os educandos possam estar, visitar ou percorrer seus arredores, becos e vielas? Sem poder avistar suas colinas de diversos mirantes, como sao os que transformarao os adros e as pracas de Ouro Preto, alem de como experimentar esse conhecimento, sem a experiencia do corpo? Assim sendo, por que nao faze-la conhecer por quem a percorreu e quem a chamou de "cidade amor inspiracao", estabelecendo especie de cartografia poetica desta localidade justamente pela paisagem de Alberto da Veiga Guignard? Importante observar que os livros didaticos de artes pouco fazem essa relacao, mas e perfeitamente possivel construir uma via de compreensao que une duas temporalidades distintas, interligando a obra de artistas que se dedicaram em epocas distintas, amar Ouro Preto, seja no passado colonial ou na modernidade.

Entende-se, assim, que o olhar artistico de Guignard pode fornecer dados importantissimos sobre a compreensao da cidade que afamou Antonio Francisco Lisboa. A paisagem de Ouro Preto, portanto, embora diferente das demais paisagens--o que revela um grau de alteridade natural perante as demais--, nao impede que seja [re]visitada, [re]encantada pela obra de Guignard. Entregar-se a vertigem nos termos do que aqui se advoga, significa reconhecer a dimensao de reencantamento da arte, reforcado pela ficcao. Por isso, torna-se importante oferecer a arte sobretudo de modo fabular, ativando-se seu lado poetico e nao apenas a promovendo de modo pragmatico, retirando seus abismos, cortando as asas que impecam voos mais ousados. E sempre urgente uma pitada de sal, o tempero das cores da sensibilidade de Guignard (Figura 1).

Necessaria transformacao da realidade em imagem e, outra vez, da imagem em realidade: nesse duplo movimento, algo, um sopro e transmitido: a retorica pos sua pitada de sal. Pois, revirada, a realidade nao e mais exatamente a mesma; ela e duplicada, reforcada pela ficcao. (Cauquelin, 2007:110)

Trata-se de uma arte [des]territorializada da propria realidade, entregue a uma exterioridade mistica, chave importante, inclusive, para o entendimento e [re]descobertas da lendaria Minas Gerais. Lembrando que Guignard, e versado e formado em diversos tipos de pintura--retrato, paisagem, natureza-morta, pintura religiosa--, costumando em muitas oportunidades misturar dois generos em uma mesma obra, imprimindo e emprestando carater fantastico a sua producao. Assim, entende-se que respeitar a arte em sala de aula significa [des] respeita-la em seu sentido canonico, desconfiar das visoes ja pesadas que a engessam, das abordagens curriculares que a imobilizam, descortinando e fazendo-a vibrar outras possibilidades de compreensao, oferecendo, enfim, outras paisagens, outros cenarios pedagogicos em artes que permitam alcancar percursos mais altos em suas potencias invisiveis. Assim, romper com as partituras cifradas, tomar a arte em seu sentido imprevisivel, parece ser mais vantajoso, caso haja espaco para o despertar desta "musica", tocada pela vertigem do momento presente de uma acontecencia vibrada em ritmo improvisado ...

O critico de Arte Teixeira Leite estabelece relacao entre as paisagens imaginarias de Guignard com tracos da nova objetividade--movimento artistico alemao que "transpoe os limites do real, buscando impregna-los de poesia " (Leite, 1988:240), enquanto que Lelia Coelho Frota reforca esse olhar poetico sobre a 'cidade amor inspiracao' de Guignard, nos lembrando da sua brasilidade, tao bem expressa nas obras Tarde de Sao Joao de 1959, Noite de Sao Joao, de 1961 e Paisagem de Minas, decada de 1950. Assim, adquirir uma consciencia estetica ampliada sobre determinado lugar, reforcada na educacao em artes junto a educacao basica, tambem significa oportunizar a evocacao da dimensao afetiva e poetica, valorizando os saberes artisticos atravessado por outros saberes artisticos. A poesia de Cecilia Meireles em homenagem a Guignard nos traz muito desta compreensao, onde a poesia pictorica do famoso artista de Nova Friburgo apaixonado por Ouro Preto adquire este reconhecimento. Intitulada "O que que Ouro Preto tem?", nos deixou os seguintes versos:
   Tem Montanhas e luar;
   Tem burrinhos, pombos brancos;
   Nuvens vermelhas pelo ar;
   Tem procissoes nas ladeiras;
   Com dois sinos a tocar
   Opas de todas as cores
   Anjinhos a caminhar [...]
   E ali, na Rua das Flores, na varandinha do bar,
   Tem afigura risonha
   Do grande Pintor Guignard
   Que Deus botou neste mundo
   Para Ouro Preto pintar

   (Cecilia Meireles, O que e que Ouro Preto tem?)


Assim, a poesia de suas telas com "nuvens vermelhas" nos ajuda a refletir Ouro Preto por meio de uma experiencia unica, onirica, banhada por uma luz crepuscular que renuncia e [re]anuncia a cidade em outras camadas, em outras aberturas de mundos, da mesma forma como nos convida a [re]pensar a propria arte. Isto e, passar pela educacao basica conhecendo os misterios da arte sem o controle de dogmas, afastando-se da condicao de refens de um entendimento meramente tecnico, factual ou historiografico, permitindo enxergar fatos artisticos de um modo tambem artistico. No caso tratado, fazendo vibrar novos acordes sobre a beleza suigeneris da arquitetura mineira, reativadas pela esfera da imaginacao, conforme nos mostra a sensibilidade de Guignard. A antiga Vila Rica, portanto, possui um lado mistico que precisa ser [re]apreendido como qualidade de sua materialidade poetica. Tratar Ouro Preto passando por Guignard significa, em larga medida, atingir esse lado profundo e insuspeito, tao intrigante como os prodigios insubordinados criados por Aleijadinho, nao obstante, [re]distribuidos em paisagens desconcertantes ...

Em suas viagens pelas cidades historicas do estado, ia com frequencia para Ouro Preto, a que chamava de 'cidade amor inpiracao' e aparece em diversas de suas obras. Alipassou longas temporadas, sendo constantemente visto com seu cavalete aberto ao publico, que o assistia a trabalhar. E e justamente na historica cidade mineira que fica o Museu Casa Guinard na Rua Conde de Bobadela, 110--antigamente chamada de Rua Direita. (Museu Casa Guignard. Fonte: www.viajento.com)

A abordagem pedagogica em artes, portanto, apresenta grandes vantagens na vertigem. Cabendo lembrar/alertar sempre que "entregar o ouro" aos alunos, exibindo imagens rotineiramente a cada encontro, dando-lhes respostas prontas ao inves de estimular indagacoes que lhes instiguem o pensamento, sem perguntar o que estao vendo, sem agucar e preparar devidamente o olhar para o surgimento de novas leituras e relacoes com seus respectivos mundos, nao parece ser uma boa estrategia. Ao contrario, torna-se necessario todo tipo de provocacao que promova o "desconforto" da vertigem. Nesta oportunidade com os alunos do Colegio Pedro II, por exemplo, uma serie de perguntas foram feitas em momentos diferentes da apresentacao das pinturas de Guignard, como por exemplo: o que perceberam diante desta paisagem? O que estao vendo de estranho? Trata-se de uma paisagem do passado ou do presente? O artista desejou se aproximar ou se afastar da realidade? As respostas foram muitas, entre as quais, pode-se destacar: "As igrejas sao pequeninhas e parecem voar"; "Vejo muitas camadas em direcao ao ceu"; "nao vejo chao"; "Ouro Preto parece levitar"; Entao, isso e paisagem? Estas e outras respostas dadas em sala de aula, ajudam, enfim, a envolver os alunos duplamente da arte. A primeira maneira, tratando sobre a arquitetura do periodo colonial; a segunda, visitando Ouro Preto pelo olhar de Guignard. Misturando essas duas apreensoes com o olhar dos proprios alunos significa garantir uma abordagem menos canonica, [des] ancorada das caracteristicas que sao elencadas e transmitidas sem a interface com um tipo de leitura poetica sobre a cidade, onde e possivel ver livremente. "Tirar o chao", portanto, tornar-se uma atitude pedagogica fundamental, um [des]caminho a ser considerado na recepcao das imagens em sala de aula. Pode-se evidentemente lembrar e remontar Outro Preto de sob o ponto de vista factual, mas isso seria uma aula de historia ou de arte? A interface da arte sempre pode ser oferecida caso haja o acolhimento da paisagem como paisagem, enquanto fenomeno artistico. Esse contexto [re]contextualizando e [re] contado pelos pinceis de Guignard, nos convida a todo momento reinaugurar Outro Preto. Guignard e uma especie de a/r/tografo da paisagem de Ouro Preto (Irwin, 2013), acumulando em sua formacao de artista muitos jeitos de seu expressar, sendo professor, desenhista, ilustrador, gravador e pesquisador desta cidade. Seus ensinamentos possuem uma reuniao de olhares que nao podem ser desperdicados, devendo ser utilizados como instrumentos para o alcance de um ensino da arte que valorize a vertigem ...
   Guignard parado no alto do morro
   Perlustra a paisagem
   A luz dourada atravessa
   Sem alarde
   A contemplacao dos templos
   O homem so no adro
   apropria-se do cenario
   bandeirante das serras
   antes buscadas
   Montanha tornada linha invisivel
   Ergue casarios soltos
   Nos altos da folha branca
   Capelas levitam
   Ladeiras sobem ao ceu [...]

   (Angelo Oswaldo de Araujo Santos, "Em Ouro Preto")


2. A vertigem entre o olhar e o fazer artistico

Rodeia Ouro Preto que transforma num presente e sua palheta se enriquece com sienas quentes da terra mineira e doces das montanhas longinquas. (Pedrosa, 1997:204)

Nesta experiencia entre o olhar e o fazer artistico, importante chamar atencao para a existencia de um lugar que talvez ate passe despercebido em meio ao casario, arruamentos e construcoes epicas de Outro Preto, mas que possui acervo que simplesmente [re]significou o modo se ver qualquer paisagem mineira do periodo colonial. Uma pequena casa, assentada a historica Rua Direita, porem devendo ser considerada grande pelo tamanho de guardia de uma trajetoria artistica de um dos principais capitulos modernismo brasileiro. Sua colecao segue [re]educando nossos olhares em arte. A singela construcao dos tempos da antiga Vila Rica dos inconfidentes e, atualmente, um lugar de memoria, um museu que nao abriga, propriamente, os tesouros deixados pelas maos habeis de Aleijadinho, mas responsavel por guardar uma "mina de pedras preciosas" feita de camadas e pinceladas de Guignard, cujo valor artistico inestimavel, vem atraindo nao so a curiosidade de muitos visitantes, mas tambem novas experiencias e reflexoes pedagogicas em arte.

Apos visitar este museu, pode-se entender esta cidade tao farta de obras de arte de nosso passado colonial, de um jeito menos obvio ou ate turistico, se unindo e se familiarizando com oportunidades que ativem sua ficcao. Aconselha-se, portanto, a qualquer visitante que chegasse para conhecer Ouro Preto, passar algumas horas neste pacato e silencioso sobrado, a fim de descobrir outros silencios deste sitio historico, guardados a sete chaves neste pequeno espaco, assim como tambem recomendar aos docentes de artes, uma experiencia longa neste "templo". Logo no terreo, temos os versos de Cecilia Meireles, cartas, textos, fotografias e desenhos de Guignard; no andar superior, pinturas notaveis de sua brilhante carreira, onde podemos destacar o grande quadro sobre a cidade, alem dos suportes alternativos de sua producao artistica. Desta forma, buscar entender Ouro Preto percorrendo outros caminhos, [re]contextualizando o olhar pela poesia pictorica de Guignard, [re]inventando e [re]descobrindo novas paisagens.

Exatamente o que foi proposto as turmas de oitavo ano do ensino fundamental do Campus Engenho Novo II do Colegio Pedro II nos anos de 2017 e de 2018. A orientacao foi [des]enquadrar Ouro Preto, literalmente, pelo olhar e oferecendo como suporte alternativo a oportunidade de se criar um violao inspirando-se em uma das obras encontradas no museu, onde as areas planas da caixa de ressonancia deveriam 'ressoar' o entendimento de Ouro Preto pela imensidao das paisagens oniricas de Guignard. Cada dupla de alunos, assim, buscou resolver em aplicacao de cores, [re] criando suas proprias paisagens, definindo aos poucos, como poderia ser a sua Ouro Preto: em quantidade ou ausencia de montanhas, a localizacao de cada casario ou igrejinha flutuantes ou assentadas, bem como os espacamentos destas construcoes, acrescendo-se livremente tambem a perspectiva aerea, envolvida em brumas e neblinas.

Com efeito, poderiamos nos questionar da seguinte forma: como flutuar, renovados ou se sentir livres perante a arquitetura de Ouro Preto? O que e barroco mineiro senao a propria vertigem? Nao obstante, como ativa-la em seus desvios e em sua natureza insubordinada? Como se sabe, trata-se de um abismo em relacao ao barroco iberico e mesmo do Brasil litoraneo, sendo este visivelmente mais obediente e coras matrizes. Importante lembrar que Guignard peregrinava por outro Preto para se inspirar e tornar possivel sua abordagem pictorica sobre a cidade. Retratar Ouro Preto em um violao cumpre tambem o objetivo de [des]enquadramento, se unindo, ao mesmo tempo, a oportunidade de se aproximar de um dos suportes alternativos utilizados pelo artista, conforme acervo encontrado na Casa Guignard em Outro Preto. Cada violao, confeccionado inicialmente a partir de um desenho rebatido em uma folha A3 recebeu diversos formatos diferentes, para justamente enfatizar ja no suporte essa relacao afetiva com o objeto a ser criado. A diversidade dos tamanhos e formatos distintos, somando-se as imagens elaboradas pelos alunos, emprestada ao violao artesanal, promoveu um ambiente pedagogico de fazer artistico, onde as paisagens [re]inventadas de Ouro Preto, tornaram-se o grande tesouro onde ha o encontro de varias subjetividades.

Como na obra de Guignard, este fazer tambem foi feito em camadas, com muitos estudos e desenhos, solucoes e formatos dos violoes. O intuito foi convidar os alunos a se fascinarem com Ouro Preto por uma maneira menos denotativa e mais conotativa, mais poetica menos enciclopedica, onde as paisagens [re]inventadas passassem a se associar as camadas de vertigem em que os alunos percorressem, segundo seus respectivos interesses. Nestes processos, muitas diferencas chamaram a atencao, nesta aproximacao de [re]criacao da paisagem guignardiana: alguns comecaram pelo desenho livre das montanhas, outros ja foram desenhando as igrejinhas levitando, sem o assentamento, preferindo que estivessem, desde o inicio livres no ar, outras deixaram por ultimo a montagem dessas igrejas e casarios soltos na paisagem, feita em muitas camadas de tinta.

Assim, acredita-se que um dos caminhos possiveis que nos ajudem a responder tais questoes, reside na abordagem deste precioso capitulo da historiografia da arte que une Brasil e Portugal, valorizando a obra de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962). Foi pensando justamente nas camadas de tinta e de poesia deixadas pelo festejado pintor que amava Ouro Preto, que os alunos do Colegio Pedro II do Campus Engenho Novo II, puderam se aproximar desta localidade, elevada a categoria patrimonio da humanidade pela Unesco e a condicao de uma paisagem imaginada, imersa as nuvens e as vertigens de um Brasil sem chao ...

3. [injconclusoes: para nao perder as vertigens de vista

Este texto serve aqueles desejosos pela vertigem em artes, de modo a incentivar e acoes pedagogicas e reflexoes importantes sobre como lidar com a arte na escola, entre as quais: vale a pena seguir o roteiro previsivel de uma historia da arte inflexivel, sem explorar caminhos desviantes? Vale a pena realmente, envernizar o que ja esta envernizado? Assim, a luz de Guignard, espera-se haver provocado, de algum modo, o pensamento pedagogico em artes, apostando-se neste interesse que marcou a trajetoria artistica deste ilustre representante da arte brasileira, [re]visitando duas temporalidades: a colonial e aquela reencontrado na sensibilidade da obra pictorica que compoe uma das mais belas e significativas paginas do modernismo brasileiro. Neste sentido, amparando-se no acervo encontrado no Museu Casa Guignard, na critica especializada de Lelia Colho Frota, Mario Pedrosa e Rodrigo Naves, bem como nos estudos sobre paisagem desenvolvidos por Anne Cauquelin, este artigo buscou mostrar e analisar, o quanto tornou-se proveitoso este [des]caminho, onde solucoes esteticas e de procedimentos se tornaram instrumento para se ver a terra que consagrou o barroco mineiro. Assim, multiplicada em varios olhares, em praticas semelhantes, Ouro Preto jamais estara morta (Figura 1, Figura 2, e Figura 3, Figura 4).

Referencias

Cauquelin, Anne (2007) A invencao da paisagem. Sao Paulo: Martins Fontes:110.

Frota, Lelia Coelho (1998) Guignard: Arte e Vida. Rio de Janeiro: Editora Campos Gerais,.

Leite, Jose Roberto Teixeira (1998) Dicionario Critico da pintura brasileira. Rio de Janeiro: Artlivre:240.

Naves, Rodrigo. (2009).A forma dificil. Sao Paulo: Editora Atica.

Pedrosa, Mario. (2004) Academicos e Modernos. Sao Paulo: Edusp.

ALEXANDRE HENRIQUE MONTEIRO GUIMARAES *

Artigo completo submetido a 10 de abril de 2019 e aprovado a 15 de maio de 2015

* Brasil, Professor de Artes Visuais.

AFILIACAO: Colegio Pedro II. Rio de Janeiro, Brasil, departamento de Artes Visuais. Campus Sao Cristovao e Campus Engenho Novo, Campo de Sao Cristovao, 177, terreo, Sao Cristovao, Rio de Janeiro, RJ, CEP:20921-903, Brasil. Campus Engenho Novo, Rua Barao do Bom Retiro, 726, Engenho Novo CEP 20715000 Brasil. E-mail: alexandre.historiadaarte@gmail.com

Caption: Figura 1 * Detalhe dos trabalhos sendo realizados pelas alunas do Colegio Pedro II, do Campus Engenho Novo II, reverberando a obra de Guignard.

Caption: Figura 2 * Detalhe da Mostra dos trabalhos inspirados na obra de Alberto da Veiga Guignard, expostos em vertigem em 2018 no Campus Engenho Novo II do Colegio Pedro II.

Caption: Figura 3 * Detalhe da Mostra dos trabalhos inspirados na obra de Alberto da Veiga Guignard, expostos em 2018 no Campus Engenho Novo II do Colegio Pedro II.

Caption: Figura 4 * Detalhe da Mostra dos trabalhos inspirados na obra de Alberto da Veiga Guignard, expostos em 2018 no Campus Engenho Novo II do Colegio Pedro II.
COPYRIGHT 2019 Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2019 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:Original articles/Artigos originais
Author:Guimaraes, Alexandre Henrique Monteiro
Publication:Materia-Prima
Date:May 1, 2019
Words:4370
Previous Article:Letters of the Alphabet as Inclusive Visual Imagery in Teacher Training for Primary School/Las letras del alfabeto como imaginario visual inclusivo...
Next Article:Transversal competencies in the teaching of Visual Arts for (young) students of the 21st Century: An experimental study with a 7th grade class was...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters