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Resistencia al Consumo en un Circuito Urbano de Parkour.

Resistencia ao consumo em um circuito urbano de parkour

Resistance to consumption in an Urban Circuit of Parkour

Introducao

Desde o trabalho seminal de Penaloza e Price (1993), em que se defendeu pela primeira vez a sistematizacao de uma linha de pesquisa orientada pelo termo "resistencia do consumidor", tem-se testemunhado o crescimento do interesse pelo tema (ROUX, 2007), que tambem vem ganhando espaco academico no Brasil (BARROS et al, 2010). Para Kozinets (2002), atualmente a pesquisa do consumidor apresenta ferteis possibilidades de estudos orientados para a compreensao das subculturas de resistencia, especialmente por meio da etnografia. Cova, Kozinets e Shankar (2007), por exemplo, mostraram como certas tribos urbanas resistem as investidas do mercado, defendendo haver uma fronteira entre a pratica sacralizada de seus rituais e a busca do lucro em um mundo corporativo tido como profano.

Tendo por alicerce epistemologico o metodo etnografico, o presente trabalho tem por objetivo investigar os valores e as praticas de resistencia ao consumo adotadas pelos membros de um circuito de parkour no Rio de Janeiro. Identificado como subcultura urbana, o parkour consiste em uma atividade de caracteristicas relacionadas a esporte, arte, aventura, superacao corporal e transcendencia, praticada por jovens em diversas metropoles e relacionada, em sua essencia e concepcao, a resistencia ao ambiente socio-tecnico. Com sua denominacao derivada do frances parcours, que significa percurso ou caminho, o parkour pode ser definido como uma arte que permite ao praticante transpor obstaculos para deslocar-se no espaco por meio das possibilidades oferecidas pelo corpo humano (CAZENAVE; MICHEL, 2008). Visto pelos praticantes ou traceurs como estilo de vida, estado de espirito ou esporte, a primeira vista o parkour parece um tipo de ginastica praticada ao ar livre e sem protecao, mas consiste em se apropriar da cidade como terreno de jogos e de aventuras, buscando novas formas de circulacao pelo espaco urbano (CAZENAVE, 2007).

No parecer de Ohl (2001), o consumo relacionado ao estilo de vida esportivo tem importancia crucial para os jovens que residem nas metro-poles: usar vestimentas com logomarcas esportivas significa, simultaneamente, compartilhar uma cultura valorizada na midia, em funcao das figuras heroicas dos campeoes, e adotar um codigo corporal legitimado pelas estrelas do rock e do rap. Isso remete a uma contradicao no que tange ao parkour: a despeito da identificacao dos adeptos com o estilo esportivo responsavel por bilhoes de dolares em vendas por todo o planeta--e que faz com que a pratica tenha sido incorporada por varios produtos da industria cultural--, a maioria dos praticantes acredita permanecer fiel aos valores que originaram o movimento.

As raizes do parkour como pratica atletica e ambientalista remontam ao inicio do seculo XX (ATKINSON, 2009), quando Georges Hebert, oficial da marinha francesa, criou um sistema de treinamento inspirado na concepcao de desenvolvimento psicofisico por ele encontrada entre povos africanos. Convencido de que a busca da perfeicao individual em comunhao com o meio circundante, ao modo das tribos da Africa, seria ao mesmo tempo uma tecnica para desenvolver o senso de lugar com relacao ao ambiente e um veiculo para fazer emergir a essencia humana primitiva, Hebert obteve sucesso em incorporar seu sistema--entao denominado Hebertismo ou Metodo Natural--nos treinamentos das forcas armadas francesas (DEFRANCE, 1997). Um dos adeptos de Georges Hebert foi o militar Raymond Belle, que se valeu do Metodo Natural para sobreviver as agruras do Vietna, onde tropas francesas estavam aliadas as forcas americanas. Ao regressar da guerra, Belle iniciou seu filho David--um adolescente dedicado as artes marciais--na pratica do Hebertismo, entao conhecido no meio militar pelo nome parcours du combattant (caminho do combatente). Explorando as possibilidades do Metodo Natural nos suburbios de Paris, nos quais os obstaculos a serem conquistados compunham o proprio espaco urbano, David Belle e seu parceiro de treinos Sebastien Foucan adaptaram a pratica e, nos anos 1990, batizaram o novo estilo como parkour, que ganhou projecao depois de ter sido divulgado na Europa por seguidores de Belle e de ter sido objeto de um documentario veiculado pelo canal ingles BBC. Assim, essencialmente o parkour foi idealizado a partir de valores nao relacionados a consumo de bens materiais, tais como simplicidade, disciplina, perseveranca, espirito de aventura, destemor, comunhao com o ambiente e resistencia.

Atkinson (2009) empreendeu uma etnografia no circuito dos traceurs de Toronto, revelando tres caracteristicas do parkour relacionadas a valores de resistencia: (1) adocao de formas anarquicas de organizacao como via de emancipacao com respeito a mercantilizacao das relacoes; (2) desconstrucao do espaco urbano para sublinhar o vazio e a impermanencia que permeiam a vida nos grandes centros; e (3) preocupacao com questoes ambientalistas a partir da rejeicao a colonizacao dos espacos pela tecnologia. Por outro lado, a despeito da ideia de resistencia ao consumo, o parkour parece ter sido incorporado pela industria cultural, tendo sido utilizado em filmes produzidos em Hollywood, tais como Cassino Royale e Ultimato Bourne, e em anuncios de empresas como Nike, Canon, Coca-Cola, Unilever e Nissan, assim como em shows e videoclipes de artistas pop como Madonna e Bon Jovi. Para Saville (2008), atualmente o parkour e uma "sensacao na midia". A contradicao entre os valores de resistencia ao consumo defendidos pelos traceurs e o valor de mercado carreado pela atividade remete as palavras de Carvalho e Pereira (2008, p. 428): "de repente, o parkour esta em todo o lado, mas sua popularidade nao significa que seja compreendido".

Assim, tomando por base a tematica da resistencia ao consumo, a pesquisa foi motivada pela inquietacao relacionada a compreensao das ambiguidades ensejadas pelas tentativas de comercializacao, pasteurizacao ou massificacao de uma pratica de caracteristicas tribais, cujos adeptos, denunciando quao inadequada e a assimilacao mercadologica da atividade, reivindicam legitimidade somente para o parkour mantido em sua essencia primeva, supostamente sem o jugo dos designios do mercado. O trabalho busca ainda atender as demandas de Brandini (2007) e Telles (2009), que recomendam a realizacao de etnografias de circuitos urbanos, e de Rocha e Rocha (2007, p. 77), que incluem na agenda de pesquisas para os academicos brasileiros em Marketing "etnografias de grupos de consumidores para que se possa obter um quadro preciso dos multiplos codigos que ordenam as praticas de consumo".

Quadro teorico referencial

Tribos, circuitos urbanos e subculturas de consumo

O acirramento do individualismo provocado pela emergencia da modernidade parece ter sido acompanhado pelo surgimento de movimentos grupais de resistencia, especialmente nos centros urbanos, cujos integrantes, em sua maioria jovens, buscam recriar vinculos sociais deteriorados ou perdidos (COVA; COVA, 2002; GALVAO, 2006). O sentido de pertencimento parece ser o principal motivador para que as pessoas se unam em comunidades ou tribos nas quais os individuos possam dividir paixoes, compartilhar experiencias e reforcar valores (SCHOUTEN; ALEXANDER, 1995). Para Maffesoli (2007), o tribalismo envolve o renascimento de valores arcaicos--tais como identidade local, senso de religiosidade e nocao de cla--permitindo que seja revivido o arquetipo comunitario da aldeia, apesar do fato de que tais comunidades nao se definem necessariamente em termos geograficos.

No contexto ora em investigacao, toma-se a tribo como uma rede de relacionamentos entre pessoas que se conectam para partilhar uma emocao por um dado objeto, o qual pode ser um lugar, um individuo, um produto ou uma marca comercializada por uma empresa (FREH SE, 2006; GALVAO, 2006). Maffesoli (2007) argumenta que as tribos ensejam comportamentos comuns, tendo por motivacao o desejo de se diferenciar de outros grupos.

Magnani (2005) discorda do uso da expressao "tribo urbana" para designar grupos de jovens em metropoles, pois o termo guarda pouca relacao com o uso da palavra "tribo" na area de Antropologia, em que a expressao aponta para aliancas mais amplas entre grupos delimitados geograficamente, com regras e costumes particulares. No parecer do autor, melhor seria utilizar o termo "circuitos urbanos", que diz respeito ao que as experiencias juvenis expressam de modo coletivo por meio de estilos de vida distintos. Para Telles (2009), a dinamica urbana e definida por tais circuitos, que se superpoem numa rede social de praticas e mediacoes. Maffesoli (2007) associa o conceito de tribalismo urbano ao fenomeno de reestruturacao de uma nova sociabilidade, desafiadora do individualismo da modernidade e tendo por eixos principais o primitivismo, a emotividade, a simplicidade e a estabilidade.

Arroyo (2010) recomenda cautela na utilizacao do termo "tribos urbanas", em funcao do desgaste provocado por seu uso indiscriminado e descuidado pela midia. Para a autora, enquanto o termo "subculturas juvenis" diria respeito aos grupos de jovens cujas culturas foram interpretadas como resistencia e desvio da cultura hegemonica, tais como punks e skinheads, a expressao "tribo urbana" destaca sobremaneira a questao das identidades. Campos (2010, p. 63) assevera que o tribalismo urbano deve ser analisado sob o prisma das "identidades dissidentes", mas que encontram "convergencia em torno de identidades territoriais, visuais e musicais": as tribos seriam, portanto, empreendimentos pessoais e simultaneamente coletivos, que "apelam a uma manipulacao de repertorios simbolicos, enriquecidos em permanencia pelas industrias culturais e pelo mercado global".

Garcia (2010) alerta para a concepcao de que o tribalismo urbano e um processo de existencia efemera e geralmente vinculada ao ocio das classes medias, associado a construcao de estilos de vida distintivos, que tem lugar basicamente no tempo livre e que comportam aspectos tais como a linguagem por meio da qual se expressam os jovens, sua musica--vista sob a perspectiva da inclusao e tambem da exclusao--, a estetica, a producao cultural e as atividades focais para que possam se diferenciar de outros grupos. Tal abordagem considera, sobretudo, a dimensao simbolica da vida social e esta associada aos conceitos de culturas subalternas e contraculturas.

Ainda que tal posicao academica escape ao rigor metodologico exigido de uma disciplina cientifica, em Administracao de Marketing, historicamente, vem ocorrendo uma associacao das tribos urbanas a "subculturas de consumo". Tambem originario da Antropologia, o termo "subcultura" remete a uma forma cultural representativa, porem diferente da cultura dominante, enquanto "subcultura de consumo" se refere a manifesta coes atreladas a objetos de consumo capazes de prover sustento mercadologico aquela subcultura (BURGH-WOODMAN; BRACE-GOVAN, 2007). No que tange as subculturas de consumo, os participantes nao devem ser vistos apenas como consumidores, mas antes como adeptos e defensores da tribo; assim, um produto ou uma companhia pode ser considerado como parte da tribo, estabelecendo lacos entre as pessoas (COVA; RONCAGLIO, 1999; HELAL; PIEDADE, 2010). Bengtsson, Ostberg e Kjeldgaard (2005) lembram que, por meio do tribalismo, marcas podem ser incorporadas na construcao das identidades pessoais e grupais, tal como ocorre com membros de comunidades que se reconhecem por meio de tatuagens de logomarcas de empresas como Nike, Volkswagen, Harley-Davidson, Nintendo e Coca-Cola.

Nao obstante ao fato de Arroyo (2010, p. 35) manifestar sua preferencia pela expressao "circuito de jovens" como "ponto de partida para a abordagem do tema sobre comportamento dos jovens nos grandes centros urbanos" e como "contraposicao ou complementaridade aos conceitos de culturas juvenis e tribos urbanas", no presente texto, recorre-se indistintamente as expressoes "tribo urbana" e "circuito urbano". Embora se creia que os termos "circuitos urbanos" e "circuito de jovens" sejam mais precisos sob o prisma da Antropologia, no campo do conhecimento em Marketing as "tribos" foram consagradas como expressao preferencial. Ademais, especificamente com relacao aos sujeitos pesquisados no presente estudo, tal denominacao tambem se adequa ao vocabulario utilizado pelos informantes, que se referem tanto a "grupos de parkour" quanto a "tribos de parkour".

Os participantes de tribos urbanas emergem a partir de uma divisao na experiencia da realidade, num processo facilitado pela internet (COVA; COVA, 2002). Sem limites espaciais, a tribo pode se organizar em comunidades virtuais--redes interativas de relacionamentos organizadas em torno de interesses comuns--, nas quais o sentimento de pertencimento e condicao necessaria para a existencia no ciberespaco (JUNGBLUT, 2004). Tais comunidades tem se mostrado uma rica fonte de informacoes, porem subutilizada na definicao de segmentos de mercado, pois seus membros revelam caracteristicas psicossociais, possibilitando sua categorizacao com base em estilos de vida (ANANA et al., 2008).

Numa posicao oposta a dos academicos que advogam o aproveitamento das comunidades virtuais como instrumento auxiliar para acoes orientadas para o mercado, pesquisadores como Klein (2004) e Kozinets (2002) argumentam que acoes politicas de resistencia ao consumo vem sendo empreendidas por meio de atividades organizadas e coordenadas por meio de comunidades no ciberespaco.

Resistencia ao consumo

Atitudes de resistencia ao consumo englobam desde reclamacoes sistematicas junto a empresas por parte de consumidores individuais ou grupos de consumidores ate boicotes a produtos, marcas ou empresas, passando por confrontos abertos entre consumidores e organizacoes (RITSON & DOBSCHA, 1999). Os movimentos antimarcas sao investigados por Klein (2004), para quem e importante estudar as forcas que fazem com que os consumidores questionem, coloquem sob suspeita e mesmo odeiem as corporacoes multinacionais. A resistencia remete a duas instancias (ROUX, 2007): uma manifestacao de oposicao a uma situacao vista como opressiva; e uma propensao a se opor a tal situacao. Refutando determinados codigos mercadologicos percebidos como impositivos e recusando-se a seguir os estimulos aos processos de compra e consumo, os consumidores podem se sentir compelidos a lutar para defender os valores que lhes parecem ameacados pelos mecanismos do mercado: sua liberdade de escolha, a autonomia em suas decisoes, a responsabilidade por seu proprio futuro e a construcao de suas identidades (MARION, 2003).

Por outro lado, a sociedade contemporanea atribui ao consumo o papel de articulador das relacoes entre os individuos (KOZINETS; HANDELMAN, 1998), sendo tal atribuicao tao intensa que, segundo Campbell (2006, p. 64), nao se pode mais falar em "sociedade do con sumo", mas em "uma civilizacao do consumo". Por meio da posse (e do desejo de posse) de bens materiais, um individuo passa a compreender nao so o seu lugar no mundo, como tambem os sentidos e possiveis significados desta insercao (BAUDRILLARD, 1995; BELK, 1988). Nesse contexto, surgem os paradoxos e as contradicoes da relacao entre consumo e resistencia ao consumo: pensar a defesa de valores individuais por meio da resistencia ao consumo pode ensejar uma busca moral desesperancada (LIPOVETSKY, 2005), uma vez que esses mesmos valores sao cotidianamente (re)inseridos em uma logica de mercado.

A producao de identidades por parte dos consumidores pode ocorrer a partir de uma perspectiva de antagonismo: eles podem resistir ao mercado, recusar-se a consumir ou, em algumas ocasioes, indicar sua recusa consumindo de uma forma nao esperada. Close e Zinkhan (2007) descrevem a resistencia ao mercado como uma rejeicao por parte do consumidor ao envolvimento em comportamentos comerciais preestabelecidos e ritualizados. Percebendo que nao necessitam do suporte de uma empresa para obter valor para si, os consumidores podem reconhecer a manipulacao e contra-atacar, encontrando suas proprias maneiras de se satisfazer, por vezes iludindo o mercado e seus agentes (KOZINETS, 2007; HEMETSBERGER, 2006). Para Moisio e Askegaard (2002), po de-se entender a resistencia do consumidor como um modo de resposta racional ou emocional as condicoes de mercado, como reflexo de uma aversao a um produto ou servico, ou como um ato micropolitico de retaliacao a praticas ou culturas dominantes.

Para Roux (2007), varias subculturas urbanas--como os donos de motocicletas Harley-Davidson e os novos punks contemporaneos--praticam diversas formas de oposicao ao sistema estabelecido, sem, contudo, realizar qualquer tipo de resistencia ao consumo, isto e, utilizam o consumo como forma de afirmacao identitaria, sem questiona-lo. Consumidores engajados em acoes de resistencia a dominacao das grandes corporacoes, por outro lado, expressam que afiliacoes comunitarias legitimas podem subsistir apenas em ambientes nao mediados por relacoes de mercado (BENGTSSON; OSTBERG; KJELGAARD, 2005).

Metodologia

Etnografia e netnografia

Em termos gerais, conforme Rocha e Rocha (2007, p. 73), fazer etnografia significa "estudar as categorias que norteiam o pensamento e as praticas de grupos sociais concretos, historicamente datados, dotados de fronteiras culturais nitidas e caracteristicas comuns de experiencia". O metodo etnografico envolve um longo periodo de estudos, em que o pesquisador utiliza a observacao, o contato direto com os sujeitos e a participacao em atividades por eles realizadas, dirigindo sua atencao para as estruturas sociais e o comportamento dos individuos. A etnografia pode ser caracterizada como uma pesquisa envolvendo um unico grupo, em que se tem como diretriz entrar em contato direto com a cultura dos sujeitos (IKEDA; PEREIRA; GIL, 2006).

Enfrentando atualmente o desafio da pesquisa junto as subculturas que formam as sociedades em pequena escala caracteristicas dos centros urbanos, a etnografia permite novas leituras sobre a realidade, revelando desdobramentos de fatos usualmente tidos como sem logica e fragmentados (DALMOLIN; LOPES; VASCONCELLOS, 2002). Magnani (2002) observa que a etnografia urbana nao se reduz a uma tecnica, mas pode servir-se de varias.

Em estudos etnograficos, o principal instrumento de pesquisa e o proprio pesquisador, e os dados coletados no campo advem geralmente de observacao participante e entrevistas em profundidade semiestrutura das (LADEIRA, 2007; VERGARA, 2005), as quais podem tambem ser realizadas online (ARDEVOL et al., 2003). Para Gil (2006), a observacao participante demanda a integracao do pesquisador as atividades e a vida do grupo estudado, com a intencao de oferecer uma perspectiva nao somente acerca do que ocorre com o grupo, mas tambem do que sente o pesquisador como integrante do grupo.

Almeida, Mazzon e Dholakia (2008) discorrem acerca da netnografia como forma de prover suporte ao metodo etnografico, por meio da coleta de dados em foruns de comunidades virtuais e discussoes online. Para Pereira (2007), a netnografia requer uma interpretacao participativa de simbolos por parte do observador que, durante alguns meses, deve manter uma frequencia diaria em comunidades virtuais e websites relevantes para a pesquisa. A netnografia e apontada por Hemetsberger (2006) e Kozinets (2002) como metodo efetivo para coletar evidencias acerca de como as pessoas utilizam o espaco online de forma emancipatoria, estabelecendo contraculturas virtuais de resistencia ao consumo.

Procedimentos metodologicos

No intuito de se cumprir o objetivo do presente estudo, uma pesquisadora foi integrada no grupo investigado, em conformidade com o protocolo da etnografia urbana (MAGNANI, 2002). A pesquisadora iniciou seus contatos com o grupo em maio de 2007 e por um periodo de quase tres anos vivenciou a realidade da tribo por meio de seus rituais e praticas, seus codigos, seus habitos e comportamentos. A ela foi permitida a frequencia aos treinos e a participacao nas comunidades virtuais denominadas Parkour Rio e Le Parkour Brasil, as quais foram realizados acessos diarios. Seguindo as diretrizes da netnografia, foram regularmente coletados depoimentos postados em discussoes nos foruns das comunidades.

Durante os treinos com o grupo, foram realizadas observacoes, posteriormente transcritas para um diario de campo e usadas para efeito de triangulacao metodologica, ou seja, para a convergencia dos dados coletados acerca de um mesmo fenomeno (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2006; VERGARA, 2005). Os nove informantes com os quais se estabeleceu maior contato foram rapazes com idades entre 17 e 24 anos, quase todos estudantes universitarios, o que corresponde ao perfil dos traceurs em quase todas as cidades do mundo (CAZENAVE, 2007). No texto, eles foram designados por codinomes, tais como "Sapo", "Aquaman", "JJ" e "raxAmanA", os quais costumam identifica-los perante os demais membros do circuito e das outras tribos de parkour, com as quais convivem cordialmente.

Atendendo as recomendacoes metodologicas de Ardevol et al. (2003) para realizacao de entrevistas semiestruturadas online, tais informantes bem como outros com os quais se manteve interacoes menos frequentes--concederam a pesquisadora entrevistas por msn e por e-mail. As discussoes online foram tao importantes quanto as conversas pessoais--geralmente conduzidas depois dos treinos de parkour com a tribo ou durante os eventos promovidos pelo grupo--, para as quais foi observado o protocolo recomendado para entrevistas face a face (GIL, 2006). Os eventos de que participou a pesquisadora foram o One Giant Leap, realizado em setembro de 2009, e o Viradao Esportivo, que ocorreu em novembro do mesmo ano.

Como no parkour nao ha competicoes oficiais, os traceurs realizam encontros regionais e nacionais, geralmente no Rio de Janeiro ou em Sao Paulo. Nesses eventos, que costumam reunir ate 150 pessoas e sao agendados por meio de comunidades virtuais, os traceurs buscam conhecer outros lugares e praticantes. No One Giant Leap, diversas tribos brasileiras de parkour foram congregadas pela proposta de vestir a roupa e os calcados mais baratos que encontrassem, provando que nao sao os produtos que fazem os praticantes, mas justamente o contrario. O evento incluiu o recolhimento de assinaturas para apoiar um novo acordo politico sobre o meio ambiente, a partir de um protesto pacifico contra a producao que desrespeita o planeta. No Viradao Esportivo, grupos cariocas se reuniram para um treino coletivo que comecou na zona sul da cidade e terminou no centro, nos Arcos da Lapa.

O tratamento dos dados obedeceu a abordagem indutiva e interpretativa que caracteriza a pesquisa de base qualitativa. Sua categorizacao agrupamento em funcao de suas similitudes--seguiu o criterio por tema (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2006), e as categorias emergiram como fruto da analise das entrevistas, dos depoimentos coletados nas comunidades virtuais e das notas de campo. As limitacoes da pesquisa compreendem todas as questoes amplamente debatidas na literatura acerca de pesquisa qualitativa e, mais especificamente, sobre o metodo etnografico (p. ex.: VERGARA, 2005).

Representacao dos resultados

A resistencia como valor essencial

Dentre os valores primordiais preconizados pelo parkour, esta a capacidade de resistir aos desafios impostos pelo meio. Nos depoimentos dos traceurs abundam expressoes que traduzem objetivos, tais como "sobreviver", "persistir", "superar" e "ser livre". Utilizar os obstaculos do ambiente para desenvolver a resistencia do individuo--sendo tal resistencia caracterizada a partir dos ambitos fisico, cognitivo e afetivo--parece constituir o objetivo ultimo dos praticantes de parkour.

--Parkour pra mim e um meio de treinamento atraves do qual o praticante busca expandir seu condicionamento fisico e psicologico principalmente atraves de treinos que trabalham movimentacao corporal em contato com "obstaculos", [com a] finalidade de aprimorar sua capacidade de se mover. (Hugo).

--Ao vermos dois Bufalos brigando por sua femea ou por territorio, vemos dois seres querendo SOBREVIVER e DURAR. Quando um Veado corre desesperadamente pela savana ele nao quer demonstrar ao Leopardo que o caca o quao linda e sua pelagem, ele quer SOBREVIVER e DURAR. Os macacos (...) precisam ser ageis e velozes para SOBREVIVER e DURAR tambem. Isso e Parkour! Algo que se faz para poder usar em alguma situacao de risco/perigo para proteger-se ou proteger os outros. (JC).

Suplantar os obstaculos dispostos pela cidade significa resistir aos avancos da propria sociedade. Quando o traceur se move pelas paredes em vez de usar o chao, ele estabelece um desafio com relacao a construcao espacial organizada. Propondo novas formas de entender o meio urbano, recusando o refugio dos edificios, transformados em obstaculos de concreto, e reinventando seu caminho pelo espaco aberto, ele repele a protecao social.

--O parkour nao acaba ao final do dia quando voltamos para casa, mas se estende por nossas vidas, decisoes, habitos e visao do mundo (...) podemos treinar para nao sermos um peso para o mundo onde vivemos. Nao achamos que seja facil, mas se nao existissem obstaculos, nao existiria parkour. (Bacon Man).

A resistencia que os traceurs buscam desenvolver nao esta canalizada para um unico aspecto da vivencia--tal como o consumo--, mas existe certo consenso em acreditar que a pratica do parkour e capaz de despertar uma atitude de consciencia e rejeicao com relacao a padroes de comportamento socialmente valorizados.

--E uma maneira de "escapar" da pressao do dia a dia do trabalho, uma forma de fugir dos padroes preestabelecidos da sociedade. (JJ).

--Desde que comecei a treinar, repudio cada vez mais o consumo futil do dia a dia (...) Praticar parkour e praticar liberdade de expressao, de movimento, do corpo e tambem da mente. (...) Parece que o parkour nao esta de acordo com a sociedade. Isso e uma das coisas que mais me fascina, e a quebra do normal, do tipico, dos padroes da sociedade. (Aquaman).

Para os traceurs, a despeito de a atividade assemelhar-se a pratica desportiva e de favorecer o condicionamento fisico, parkour nao e esporte. Nao ha um ponto de chegada, nao e possivel apontar melhores ou piores traceurs, e a competicao e rejeitada com veemencia. Tambem nao existem locais fixos para treinos, pois a atividade acontece onde quer que o praticante exercite sua aptidao em superar os obstaculos que surgirem no trajeto escolhido.

--Parkour e uma atividade fisica livre, uma arte corporal que visa a ultrapassar obstaculos, superacao de medos e limites impostos pela sociedade ou pelo proprio individuo em sua essencia. (JJ).

--Para os praticantes conscientes de Parkour, a ideia de competicao e absurda. Mas como o ser humano tende sempre a levar as coisas para o lado mesquinho e obscuro do egocentrismo, competicoes sao mais do que bem-vindas para essa raca de lucradores, que lucram com a moda. (JC).

Em muitos momentos de interacao entre os membros do circuito aparecem alusoes a uma distincao entre os traceurs considerados adeptos do parkour tido como legitimo e os demais praticantes, geralmente envolvendo rejeicao a competicao ou a vaidades. Consoante a teoria, tal distincao poderia ser interpretada a partir do desenvolvimento de resiliencia por parte de alguns traceurs as tentacoes profanas, que seriam estranhas a celebracao do ritual, perspectiva tambem registrada por Bengtsson, Ostberg e Kjeldgaard (2005) e Cova, Kozinets e Shankar (2007) em estudos sobre tribalismo e resistencia ao consumo. Nesse sentido, naturalmente nao e dificil encontrar traceurs que associam o parkour a transcendencia.

--Parkour e um estilo de vida. E uma filosofia adquirida, moldada e utilizada na vida de cada traceur. Pra mim, o parkour e um meio de me conhecer, conhecer meu corpo, minha mente e os seus limites. Uma forma de evolucao pessoal. (SD).

--De fato existe alguma coisa bela no ato de se superar, de encarar seus demonios (medos e insegurancas) internos. Nao e facil pra ninguem treinar o verdadeiro parkour, e nem deve ser. Pois e superando estas dificuldades que um traceur mostra que e possivel ser melhor, que os limites sao ficcoes da sociedade. (Sapo).

Um percurso de doacao

A partir da ideia de transcendencia, os traceurs atribuem valor significativo a doacao, entendida como entrega ao outro, ao companheiro de treinos. A importancia da doacao na teoria de resistencia ao consumo foi constatada por Kozinets (2002), para quem a atitude de doar algo pressupoe fugir a regra primordial da producao centrada no mercado, em que o valor fundamental consiste em ter um produto ou servico que pode ser vendido.

Um episodio vivenciado pela pesquisadora ilustra o quanto incomoda os integrantes do circuito a ideia de cobrar dinheiro de alguem para ensinar a pratica do parkour. Enquanto o grupo aperfeicoava seus vaults (movimentos) numa praca publica, alguns jovens se aproximaram, inquirindo a respeito dos locais de treino e das mensalidades cobradas. Alguns traceurs mais antigos interromperam seus movimentos, aproximaram-se dos jovens curiosos e pacientemente explicaram que era errado receber dinheiro para ensinar parkour. Em seguida, os jovens foram convidados a juntar-se ao grupo gratuitamente para comecar sua iniciacao.

--Voce pode passar dez anos tentando consertar o motor da sua geladeira se nao tiver nenhum conhecimento sobre isso. Mas com parkour e claramente diferente: voce pode ir ao zoologico ou simplesmente abrir a janela da sua casa e ver animais se movendo de formas incriveis. Ninguem cobrou dinheiro pra ensinar um gaviao a se mover a centenas de km/h para atacar uma presa. (Hugo).

--Encaro o parkour como uma ferramenta de autoconhecimento, uma ligacao instintiva, uma forma de controlar os pensamentos e de libertar-me das coleras do ser humano: indisciplina, conformismo, preguica, medo, desrespeito (...) A autonomia e uma consequencia da disciplina que a pratica proporciona, pratica que deve estar focada em ajudar-se para poder auxiliar outros a se ajudarem. (JC).

Nao ha qualquer tipo de ritual para a recepcao aos novos membros. Aqueles que se interessam pela atividade podem se aproximar do grupo que esta treinando e manifestar seu desejo de integrar-se ao circuito. Como os treinos sao marcados por meio de comunidades virtuais e sites da internet, predomina a enfase na participacao livre e na ajuda mutua, vista pelos praticantes como pre-requisito para seu proprio desenvolvimento.

--(O treino) e uma jornada silenciosa para tornar-se uma pessoa melhor. Uma forma interessante de pensar o parkour seria uma maneira de ver o mundo como um terreno de possibilidades. Nao so possibilidades de movimentacao, mas todas as possibilidades de superacao pelas quais sua alma anseia. Nessa busca pela liberdade um traceur acaba inspirando e ajudando muitas outras pessoas. (Sapo).

Qualquer tentativa de transformar a atividade em negocio e enfaticamente rejeitada. Um dos mais antigos grupos cariocas de parkour foi criticado em comunidades virtuais em razao de integrantes terem declarado que sua tribo poderia ser vista como empresa. Para os traceurs, a unica troca aceitavel no parkour nao envolve dinheiro, mas um intercambio de experiencias em que o traceur mais antigo ajuda os companheiros a aprimorarem seus vaults, em prol da autonomia do praticante.

O consumo aprisiona

Em uma sociedade na qual impera uma "subjetividade vazia" (cf. BIRMAN, 2001), os traceurs gostam de ser vistos como individuos em cujo discurso predomina a rejeicao as aparencias construidas a partir de roupas, grifes ou marcas, para valorizar o retorno ao essencial, ao que e imprescindivel para a pratica da atividade, independentemente do olhar da sociedade. Essa atitude leva naturalmente a rejeicao a determinadas escolhas de consumo.

--So ando vestido por que e necessario... mas eu nao usaria produtos (tenis, calcas, blusas etc.) muito ostensivos, gosto do basico do basico, nada de marcas. Tambem nao gosto de andar na moda, nao uso Kalenji [marca de tenis adotada por muitos praticantes de parkour no mundo] de jeito nenhum! (JC).

--Um traceur que se de ao respeito nao usa um tenis muito caro (...) ou palmilha com amortecimento extra. Essas coisas so servem para criar uma ideia de conforto [de] que normalmente o praticante acaba se tornando dependente. (Aquaman).

A ideia do parkour pressupoe a pratica para si, e nao para impressionar os outros. Tal atitude se reflete nas escolhas de consumo dos traceurs, contrariando os resultados da pesquisa de Ohl (2001), na qual se apurou que o estilo esportivo adotado por muitos jovens e importante nao em funcao da pratica da propria atividade, mas pela possibilidade de usar roupas e calcados associados ao esporte. Com os traceurs cariocas parece ocorrer o contrario.

--Parkour e so voce com voce! E tao simples que as pessoas nao acreditam que seja isso mesmo: So voce com voce. E nao: Voce com o Obstaculo, porque "obstaculo" e uma palavra criada pelo homem para representar uma situacao a qual nao se esta preparado para enfrentar (ainda). (JC).

Em funcao do ideal de autonomia, a dependencia dos traceurs com relacao a marcas costuma ser vista como sinal de fraqueza, como indicativo de que o praticante teria baixa capacidade de resistir ao ambiente e, assim, de sobreviver. Com a supervalorizacao da liberdade, tornar-se dependente de certos produtos poderia ser percebido por um traceur como aprisionamento. Contudo, para alguns traceurs a resistencia ao consumo aplica-se a pratica mesma do parkour, sendo complexa a transposicao para outras atividades.

--Estamos aprisionados as obrigacoes que inventamos para nos mesmos (...) A medida que houve uma explosao de producao de tecnologia surgiu o homem moderno. Acostumado a tomar cerveja e passar horas na frente do computador. (...) Nao devemos nos esquecer dos motivos iniciais (sobreviver, pegar frutas, cacar!), e quando hesitarmos e pensarmos "isso nao e pra mim, eu nao nasci macaco...." devemos nos lembrar dos instintos que herdamos. (Sapo).

--Parkour (...) impoe a autonomia do praticante, voce nao depende de equipamentos, professores, nem de lugares especificos (...) por isso e valido passar adiante esse "ideal" de autonomia. (Hugo).

--Nenhum traceur deixa de ir ao supermercado, nem de comprar roupas, assinar TV a cabo e internet banda larga. A simples pratica do parkour (...) nao reflete atitudes de responsabilidade ecologica ou antimaterialista. Mas possibilita espaco para a reflexao (...) e talvez diminuicao do consumo de certos produtos. (Sapo).

A observacao da tribo revelou que durante os treinos e, por vezes, no dia a dia, os traceurs costumam privilegiar vestimentas como calcas largas, camisetas, tenis, bones e munhequeiras, a despeito de afirmarem que nao ha indumentaria caracteristica de um traceur. A justificativa para essa padronizacao nas vestimentas e atribuida a funcionalidade. Justifica-se a predominancia de camisas pretas, por exemplo, pela frequencia que as roupas se sujam nos treinos, e a ideia de comparar a roupa a um uniforme e recusada, apesar das origens militares do parkour e de muitas tribos mandarem confeccionar suas proprias camisetas.

--Se um cara quiser fazer parkour com um tenis de setenta reais ou de quinhentos, isso vai depender dele. O importante e que esse tenis seja confortavel. (raxAmanA).

--O "estilo" do parkour nacional foi influenciado pelo de fora. A vestimenta kalenji + moletom foi aderida depois de descobrirem que 'tal' pessoa usava (... e) foi se espalhando nao so pelo bem que o kalenji + moletom trazem, mas por influencia de quem usava. Hoje (...) pessoas compram por precos altos apenas para se encaixar na "moda". E essa onda de "uniformes" so mostra que o traceur tambem vive em tribo e precisa de aceitacao. Nada mais natural. Porem, nada mais errado. (SD).

A consciencia de um padrao de vestimenta imposto a partir de um modelo estrangeiro denota que os traceurs estao atentos aos aspectos menos obvios da atividade de consumo. Novamente se fez notar a discussao acerca da diferenca entre o parkour visto como verdadeiro - cujos praticantes deteriam o discernimento necessario para consumir produtos sem render-se ao sistema--e o falso parkour, cujas praticas de consumo seriam ilegitimas.

--No final das contas a maioria das campanhas que usa o nome "parkour" ou "free running" so visa a atingir um publico maior, com um assunto que infelizmente virou moda. Infelizmente porque a forma de divulgacao predominante nao fala dos preceitos verdadeiros e transmite a imagem de pessoas sem juizo que um dia resolveram sair pulando predios! Mas recentemente estao surgindo formas de divulgacao mais comprometidas com o verdadeiro parkour. (Sapo).

Mobilizacao social e resistencia

A questao ambiental e um ponto crucial para entender o parkour como movimento de resistencia ao consumo. Como os traceurs valorizam a integracao com o meio, perseguem o retorno ao primitivo, comparam seus movimentos aos de animais, veem o espaco construido como obstaculo e dizem dedicar-se a experimentacao de uma vida simples, na qual a substancia conta mais que a aparencia, nada mais natural do que a mobilizacao em torno da causa ecologica. Os traceurs organizam eventos que apoiam o ambientalismo.

--A intencao e mobilizar os praticantes a favor da causa e cultivar nas pessoas ao redor o pensamento de que podem contribuir e lutar por um mundo melhor (...) Esse evento e de grande importancia nao apenas para ajudar o Planeta contra as mudancas climaticas (...) Principalmente, acreditamos que o objetivo e o caminho de um Traceur sao se tornar autonomo e sustentavel em sua vida e no meio em que vive. (Bacon Man).

--A questao do mundo que vamos deixar daqui pra frente e muito interessante! Somos pessoas que vivem frequentemente experiencias unicas e que aprendem licoes diariamente com uma disciplina que ha 20 anos atras o mundo nem sequer imaginava que viria a se desenvolver. (Hugo).

A maioria dos membros do circuito tem consciencia de que o parkour e capaz de criar mobilizacao em torno da questao ecologica e de outras causas, nao somente pelo engajamento requerido dos adeptos, mas tambem porque a atividade desperta o interesse do publico. A resistencia ao consumo e associada por alguns traceurs a esse projeto de mobilizacao.

--O bacana do Parkour e que ele e uma poderosa ferramenta de mobilizacao social, qualquer mobilizacao... (JC).

--Vou fazer uma mencao a uma frase que o Bacon disse: 'Cara, olha esse video. Nao tem mulher, nao tem dinheiro, nao tem drogas... e ta todo mundo feliz! Como isso e possivel? Parkour e o novo Hippie so que sem drogas.' Achei isso genial. Na sociedade as pessoas sempre consomem alguma coisa para se sentirem felizes ou se divertirem. O Parkour e uma diversao gratuita, que realmente consegue deixar as pessoas felizes e satisfeitas sem nenhum consumo. Isso e revolucionario, nunca ouvi falar de nada parecido. (Aquaman).

Embora reconhecam o potencial do parkour em gerar mobilizacao, os traceurs nao creem que a pratica da atividade seja, por si so, capaz de promover a emancipacao. Outra vez, parece subsistir a relacao entre consciencia social e a pratica do parkour tido por legitimo.

--Nao acho que nada no mundo seja exclusivo dos traceurs. Somos todos seres humanos com os mesmos direitos sobre a terra, mesmo que muitos ainda nao tenham descoberto uma forma de se expressar e ser livre. Por mais que o principio basico do parkour seja "ser forte para ser util", o que inclui ser um cidadao responsavel, muito pouco da filosofia do parkour e discutido (...) E possivel que um praticante que vai aos treinos continue sendo ignorante em relacao ao aquecimento global e a varias questoes sociais. Acho que a pergunta que devemos fazer e: esse praticante, que vai aos treinos com frequencia e progride, mas nao pensa sua vida toda como sendo um treino, e nao tem consciencia ambiental, pode ser chamado de traceur? (Sapo).

Conclusoes

A presente pesquisa teve por objetivo investigar os valores e as praticas de resistencia ao consumo adotados pelos membros de um circuito de parkour no Rio de Janeiro. A busca por alcancar tal objetivo permitiu desvelar algumas contradicoes e ambiguidades existentes nos discursos concernentes a complexa relacao entre consumo e resistencia.

Uma discussao inicial envolve o nivel de agencia a ser atribuido ao individuo no que tange ao ato de consumo. Para Cova, Kozinets e Shankar (2007), apesar dos questionamentos acerca da existencia de agencia de consumidores no capitalismo globalizado, eles devem ser percebidos como pessoas inseridas em uma situacao socio-historica especifica de codependencia com a cultura comercial, o que lhes concede certa margem de atuacao como agentes criadores de significados. Em consonancia com tal ideia, assume-se que essa margem encontra-se vinculada a varios niveis de resistencia ao consumo. Como argumentam Barros et al. (2010), pode-se identificar no contexto brasileiro a presenca de formas brandas de resistencia, que nao professam o fim do consumo, porem formas mais consensuais, como aquelas baseadas no consumo consciente e no consumo sustentavel. Assim parecem operar as praticas de resistencia ao consumo por parte dos sujeitos da presente pesquisa.

Das tres caracteristicas do parkour relacionadas aos valores de resistencia ao consumo identificadas por Atkinson (2009), a terceira--preocupacao com questoes ambientalistas a partir da rejeicao a colonizacao dos espacos pela tecnologia--parece surgir de modo recorrente nos discursos analisados. A mobilizacao pela causa ecologica pode ser identificada nas quatro categorias de analise, sendo tal posicionamento coerente com as raizes do parkour.

Um segundo topico para discussao diz respeito a contradicao inerente ao processo de producao e consumo: nao ha vida sem consumo, mas o consumo implica necessariamente a diminuicao ou o esgotamento de recursos naturais. A questao se transfere, assim, da producao para o consumo desenfreado e suas facetas criticas, como a obsessao por vender e consumir sem preocupacoes com os resquicios ambientais e sociais de tais processos, assim como a competicao injusta (SAHA; DARNTON, 2005). O deslocamento da dicotomia producao versus consumo pode ser identificado nas falas dos sujeitos. Por um lado, os traceurs percebem a dificuldade em manter a autonomia frente ao mercado; por outro, reconhecem e valorizam a integracao com o meio ambiente, mobilizam-se em prol de causas ecologicas e tentam se posicionar contra o consumo ostensivo de roupas de marca. Ao mesmo tempo, a ambiguidade e identificada e questionada pelos proprios sujeitos.

Uma ultima discussao apresenta-se como desdobramento das duas anteriores e aprofunda a questao da liberdade dos individuos perante o mercado. Para Belk (1988, p. 160), "somos o que temos e isto talvez seja o fato mais basico e poderoso no comportamento do consumidor". Mesmo sob uma perspectiva ontologica, questionar tal assertiva nao e trivial. Para tanto, e necessario buscar a emancipacao dos discursos que corroboram valores arraigados, tais como a nocao de utilidade. Um traceur afirma que "o principio basico do parkour [e] 'ser forte para ser util'". Mas ser util para quem ou para o que? Sobreviver, persistir, superar, ser livre... O que significam todas essas ideias no imaginario da tribo? Sobreviver a que? Persistir em que? Superar o que? Ser livre em relacao a quem? Mesmo denunciando como sendo inadequada a assimilacao mercadologica do parkour, os discursos acerca da resistencia ao consumo sao ambiguos, pois se inserem num discurso maior que nao aparece como transparente. Ideias devem ser compreendidas como construcoes sociais historicas, com relacao as quais o individuo precisa se posicionar, ainda que seu discurso envolva resistencia.

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Tatiana Maria Bernardo da Silva (1)

Alessandra Mello da Costa (2)

Jose Luis Felicio Carvalho (3)

(1) Aluna do programa de Mestrado academico em Administracao da Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). E-mail: tatimabersi@gmail.com

(2) Professora do Instituto de Administracao e Gerencia da Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Doutora em Administracao pela Escola Brasileira de Administracao Publica e de Empresas (EBAPE / FGV-RJ). E-mail: alessandra.costa@iag.puc-rio.br

(3) Professor Adjunto da Faculdade de Administracao e Ciencias Contabeis da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FACC/UFRJ). E-mail: zkcarvalho@hotmail.com
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Author:Bernardo da Silva, Tatiana Maria; Mello da Costa, Alessandra; Felicio Carvalho, Jose Luis
Publication:Comunicacao, Midia E Consumo
Date:Jul 1, 2011
Words:8862
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