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Religious meaning and political role of the Olympic agones in the archaic and classical periods/O sentido religioso e a funcao politica dos agones de Olimpia nas epocas arcaica e classica.

Introducao: as origens religiosas e politicas dos Jogos Olimpicos

A visao tradicional

Sobre a historiografia acerca das competicoes atleticas (os agones) praticadas em honra a Zeus no santuario de Olimpia, no sudoeste do Peloponeso, apresentaremos, a respeito de suas origens religiosas e politicas, a visao tradicional (aquela predominante em publicacoes sobre os Jogos Olimpicos, no Brasil e no exterior) e o debate mais atual (mais difundido nas publicacoes cientificas especificas da area de arqueologia da Grecia).

A visao tradicional sobre a origem dos Jogos Olimpicos (no inicio da epoca arcaica) apoia-se principalmente em varias versoes miticas dadas por testemunhos literarios bem posteriores, como os de Diodoro Siculo, Pausanias e Estrabao (todos esses autores viveram em epoca romana). Entretanto, e preciso lembrar que os relatos mais antigos que dispomos sobre a origem dos Jogos Olimpicos estao em Homero e Hesiodo, cujos textos sao propriamente contemporaneos a epoca que a arqueologia tem mostrado como a mais provavel para o inicio das competicoes atleticas. A mencao mais antiga a Olimpia e aos Jogos nos textos antigos aparece na Iliada (XI, 697-701). Por mais que Homero nao tenha mencionado diretamente o santuario, refere-se as corridas de carros realizadas no palacio de Augias, o rei de Elis (Valavanis 2004: 40). Mas a mais forte e antiga tradicao comprovadamente relacionada a fundacao dos Jogos Olimpicos e encontrada no Catalogo das mulheres--poema do seculo VI a.C. tradicionalmente atribuido a Hesiodo, apesar de ser posterior ao poeta. De acordo com a versao no poema, os Jogos foram fundados por Pelope--um principe da Frigia--que teria derrotado e assassinado o rei Enomau de Elis numa corrida de carros. Pelope casou-se com Hipodamia, a filha de Enomau, e tornou-se o rei de toda a regiao, dando o seu nome ao Peloponeso. O heroi mitico teria fundado os Jogos em agradecimento a Zeus por sua vitoria ou, segundo outra versao, em expiacao pelo assassinato de Enomau (Valavanis 2004: 41). Ja de epoca classica, outra versao, fornecida pela primeira vez por Pindaro (Ol. 10.24) no primeiro quartel do seculo V a.C., atribui a fundacao dos Jogos a Heracles apos sua campanha vitoriosa contra Augias, que recusou a paga-lo apos a limpeza de seus estabulos (Valavanis 2004: 41).

Atualmente, a historiografia reconhece que as duas tradicoes diferentes que atribuem o inicio dos Jogos Olimpicos a Pelope e a Heracles, datadas da epoca arcaica e classica, foram reapropriadas por autores de periodos mais tardios. A versao sobre Heracles foi retomada por Estrabao (8.3.30; 8.3.33), Pausanias (V, VII. 7-8) e Diodoro (III.74.4; IV.14.1; IV.53.4-5), que acrescentam que o heroi foi tambem o responsavel pela escolha do local do santuario e pela dedicacao das competicoes a Zeus Olimpio. Ja a versao sobre Pelope aparece somente em Pausanias (V, VIII. 2), que o responsabiliza pela realizacao dos Jogos em honra ao deus. Uma terceira tradicao presente em Estrabao (8.3.33) e Pausanias (V, VIII. 5) associa a instituicao dos Jogos a Ifitos, rei de Elis, o qual teria renovado as competicoes apos um grande periodo de interrupcao (1). Em outro trecho, o periegeta escreve que Ifitos teria criado a tregua sagrada a ocasiao das competicoes e fundado os Jogos a pedido da sacerdotisa do oraculo de Delfos (Pausanias V, IV. 5-6) (Valavanis 2004: 43-44).

Uma das pesquisadoras responsaveis por renovar o conhecimento cientifico sobre Olimpia, Catherine Morgan defende que as tradicoes literarias sobre o inicio dos Jogos Olimpicos refletem os interesses de Elis e dos Estados participantes proeminentes na epoca arcaica. Estrabao, por exemplo, afirma que os Jogos Olimpicos eram controlados por Elis desde a data de sua fundacao, e por isso parece se tratar de uma criacao politica que legitima a administracao dos eleios nas competicoes e no santuario atraves de supostas praticas ancestrais. Pausanias, por outro lado, parece ter tido mais acesso a tradicoes locais pre-Elis, as quais sobreviveram no seculo II d.C., embora seu relato esteja imerso em mitos, lendas e na historia de Elis (Morgan 1994: 64). E provavel que a versao de Estrabao seja a mais correta, pois hoje sabemos, por meio principalmente de registros epigraficos, que a polis de Elis, localizada a noroeste de Olimpia, deve ter controlado o santuario e os Jogos ao menos desde o seculo VI a.C.

A parte dessa documentacao que explica a origem dos Jogos Olimpicos pelo vies do mito, dispomos de um segundo tipo de fonte literaria antiga que, nesse caso, informa sobre a cronologia dos Jogos. O chamado Catalogo dos vencedores olimpicos assinala o inicio das competicoes nos primordios do seculo VIII a.C. O texto foi compilado pela primeira vez por Hipias de Elis no seculo IV a.C. e embora tenha se perdido, os detalhes foram registrados por Aristoteles e, a partir dele, por outros autores antigos (Morgan 1994: 47). Trata-se do texto antigo que consagrou na historiografia sobre a Grecia antiga o ano de 776 a.C. como a data de inicio dos Jogos Olimpicos. Atualmente, a data ainda aparece em muitas publicacoes como um divisor de aguas na historia dos Jogos e na cronologia do mundo grego antigo, mas ja se aceita que ela possui pouca relacao com outros eventos olimpicos e principalmente com mudancas arqueologicamente detectadas (Morgan 1994: 48; Valavanis 2004: 43). Como veremos mais adiante, atualmente ja se aceita, com base nos registros materiais, que as competicoes em Olimpia se iniciaram posteriormente, ao redor de 700 a.C. (Morgan 1994: 48; Valavanis 2004: 43).

Ainda sobre a historiografia tradicional acerca de Olimpia e os Jogos Olimpicos, muitos estudiosos explicam a origem das competicoes no santuario por meio do culto agrario e dos jogos funebres. Alguns estudiosos preferem explicar a origem dos Jogos Olimpicos com base nos "varios elementos presentes no cronograma das competicoes associaveis a ritos de fertilidade", portanto ao culto agrario (Sarian 1997: 56). A celebracao dos Jogos a cada quatro anos com base no mes lunar do calendario grego, a realizacao do festival no segundo ou terceiro dia da lua cheia depois do solsticio de verao, alem do uso dos ramos de oliveira selvagem como premiacao para coroar os vencedores, sugerem "a assimilacao de algum estagio dos Jogos com ritos de fertilidade que celebravam a colheita" e "a cerimonia de premiacao seria a reminiscencia de algum festival antigo realizado para promover a prosperidade das colheitas, no caso a oliva" (Sarian 1996-1997: 56). Atualmente o culto agrario permanece ainda na historiografia sobre Olimpia como uma das explicacoes para a origem do culto no santuario, mas os autores preferem relaciona-lo, especificamente, a fase mais antiga do culto de Zeus no local e nao genericamente a colheita de olivas. Sobre os jogos funebres, estes eram cerimonias e competicoes realizadas em honra a um importante rei ou heroi morto (Valavanis 2004: 42). A morte do heroi local Pelope (da forma como aparece nas versoes miticas que vimos), "tal como aquele do guerreiro Patroclo, teria propiciado a aition (razao) para a fundacao dos Jogos Olimpicos" (Barringer 2005: 228-229).

As versoes miticas dos autores antigos muito influenciaram as primeiras interpretacoes sobre a identificacao dos edificios mais antigos encontrados em Olimpia, como e o caso do Pelopion (2), situado no setor centro-setentrional do santuario. O culto a Pelope foi considerado, por muito tempo, a primeira atividade religiosa de Olimpia, remontando ao seculo XI a.C., mas hoje, a epoca para a construcao do edificio e situada no seculo VII a.C., o que mudou totalmente a historia do culto e das edificacoes do santuario de Olimpia, como veremos adiante. Recentes pesquisas tendem a subestimar o papel do culto heroico na fundacao dos Jogos e indicam que o culto de Pelope nao foi introduzido antes de 600 a.C. (Valavanis 2004: 49).

O debate atual

A historiografia atual sobre Olimpia e menos dependente das fontes literarias e mais influenciada pelas descobertas recentes da pesquisa arqueologica no local, em muito baseada na reinterpretacao das antigas escavacoes alemas, e pelos estudos epigraficos que tem lancado luz sobre a organizacao do santuario a partir da epoca arcaica.

O espaco agonistico e o espaco de culto na epoca arcaica

A epoca do inicio das competicoes atleticas em Olimpia--tal como hoje se aceita--, no inicio do seculo VII a.C., ocorreu um importante rearranjo arquitetonico e espacial no santuario (Fig. 1): o recinto de Pelope foi erigido sobre as ruinas do assentamento da Idade do Bronze, um espaco especial para o estadio foi organizado a leste dessa estrutura (Zolotnikova 2013: 92). De acordo com Julia Taita (2007: 107), "a instalacao da pista de corrida, no primeiro quartel do seculo VII a.C., atesta o inicio dos Jogos nessa epoca". No inicio do seculo VI a.C., ao redor de 600 a.C., o primeiro templo dorico periptero (tradicionalmente atribuido a Hera) foi construido em Olimpia (Zolotnikova 2013: 92). Foi nessa epoca, no inicio do seculo VI a.C., apos a reestruturacao completa do santuario, que o altar de Zeus foi deslocado a leste, provavelmente para o lugar o qual viu Pausanias (Duplouy 2012: 107). O deslocamento do altar, ao redor de 600 a.C., foi parte de mudancas significativas realizadas para ampliar o espaco para a realizacao de sacrificios no setor leste do santuario (Taita 2007: 107). Conforme a autora, "tratou-se de varias medidas que refletiram a exigencia em reorganizar o espaco do santuario, demarcando os setores sagrados daquele agonistico e profano" (Taita 2007: 107). Uma outra opiniao, contudo, interpreta o estabelecimento do primeiro estadio dentro da area sagrada, em proximidade ao altar de Zeus, pois os Jogos eram parte integrante das celebracoes religiosas (Koutsoumba 2004: 99). Foi a partir dessa epoca, entre os seculos VII-VI a.C. que o santuario atingiu uma complexidade maior em termos espaciais, em razao do aumento do numero de lugares de culto, dedicacoes e eventos atleticos cada vez mais frequentados por visitantes provenientes de varias areas do mundo grego (Scott 2010: 147).

O culto de Zeus e a origem dos Jogos Olimpicos

Atualmente sugere-se que as competicoes atleticas em Olimpia podem ter sido formalmente instituidas como parte do antigo culto de Zeus (3) no local, que remonta a Idade do Ferro. A esse respeito, muitas teorias foram propostas sobre a funcao do culto do deus (militar, agraria/pastoril), durante esse periodo, para as populacoes locais e de regioes vizinhas a Olimpia, com base em varios tipos de oferendas votivas encontradas no santuario, principalmente as figurinhas de bronze e de terracota.

Uma das grandes questoes sobre Olimpia e o culto de Zeus durante a Idade do Ferro esta na identificacao de algumas das figurinhas humanas (masculinas) de terracota, aquelas mais antigas encontradas na camada de terra preta entre o Pelopion, o Heraion e a area do antigo altar de Zeus (Figs. 2 e 3). Embora haja poucos elementos que possibilitem uma classificacao precisa sobre essas representacoes, alguns especialistas as tem considerado como as imagens mais antigas de Zeus encontradas em Olimpia e as unicas evidencias que asseguram a identificacao de seu culto no santuario a partir do seculo X a.C. (Morgan 1994: 26; Valavanis 2004: 35). De todo modo, permanece sendo aceito pelos especialistas o forte aspecto militar do culto de Zeus em Olimpia, desde a Idade do Ferro, evidenciado a partir do tipo de objetos votivos a ele dedicados no periodo. As figurinhas de terracota e de bronze aparecem predominantemente armadas ou usando algum tipo de equipamento defensivo, e os tripodes, adornados com figurinhas de guerreiros, evidenciam tambem a associacao do deus as funcoes militares (Barringer 2010: 160; Zolotnikova 2013: 95). Embora haja evidencias apenas a partir do seculo V a.C. para sua existencia, assume-se que ja desde o seculo VIII a.C. o famoso oraculo (4) de Zeus em Olimpia tenha atuado em questoes relativas a conflitos militares de forma parecida como nas epocas arcaica e classica (Barringer 2015: 24).

Outra perspectiva, contudo, prefere relacionar o culto de Zeus em Olimpia, durante a sua fase mais antiga, aos aspectos agrarios e pastoris. De acordo com Taita (2007: 89), "a tipologia das oferendas recuperadas em Olimpia (principalmente as de figurinhas de animais), pertencentes aos seculos X e IX a.C., demonstram o carater eminente pastoril do culto no local nesse periodo" (5) (Fig. 3). A seu ver,

o quadro historico, social e economico do culto em Olimpia induz a admitir que a divindade venerada desde a segunda metade do seculo IX a.C. teve uma conotacao eminentemente atmosferica e foi procurada para garantir a fertilidade da terra e a fecundidade dos rebanhos. (Taita 2007: 95).

Em sua perspectiva, o oraculo de Zeus nessa epoca teria servido na realidade "as consultas relativas aos interesses das populacoes para as quais a criacao de animais representava a principal fonte economica e de prestigio social" (Taita 2007: 91, 95).

Uma terceira interpretacao, sobre a fase mais antiga do culto de Zeus em Olimpia, foi recentemente proposta por Olga Zolotnikova. Em linhas gerais, segundo essa estudiosa, todas essas caracteristicas apontadas (militar, agraria e pastoril) relacionam-se, no fundo, ao culto em Olimpia de uma divindade indo-europeia relacionada ao ceu claro. Na ausencia de evidencias arquitetonicas seguras, e muito provavel que o culto a Zeus no santuario, por muito tempo, ocorreu a ceu aberto, uma caracteristica que corresponde ao conceito de Zeus como o deus celeste, do ceu claro. Os tipos das figurinhas masculinas de terracota tem fortes conotacoes ligadas a sexualidade masculina, ao poder masculino relacionado a fertilidade, o que indica, para essa autora, o culto de um Zeus maduro, de uma figura paterna, outro elemento do culto indo-europeu de uma divindade relacionada ao ceu claro (Zolotnikova 2013: 97). De todo modo, aceita-se que, a partir do inicio da epoca arcaica, o aspecto militar de Zeus se sobrepos para sempre as demais caracteristicas antigas do culto ao deus em Olimpia (por exemplo, o agrario e o pastoril) (Taita 2007: 97).

A comensalidade sagrada e a oferta de miniaturas (as figurinhas de terracota humanas e animais) entraram em declinio entre o fim do seculo VIII a.C. e inicio do seculo VII a.C. devido a um tipo de devocao nova em Olimpia: o prestigio do oraculo de Zeus pediu a celebracao de um ritual mais solene com a realizacao de uma grande festa que previa competicoes esportivas (Taita 2007: 106). Trata-se justamente do periodo da instalacao do primeiro estadio. As competicoes atleticas foram parte do processo que levou a consolidacao de Zeus Olimpio como uma divindade militar em epoca arcaica, como demonstra a inter-relacao entre atletismo e guerra na cultura grega antiga (6). O estabelecimento dos Jogos nessa epoca atesta, entao, a crescente tendencia do aspecto militar de Zeus no culto em Olimpia desde a Idade do Ferro, que se afirmou como caracteristica principal do culto local da divindade ate o termino das atividades religiosas no santuario. A pratica de dedicar despojos de guerra (Fig. 4) a Zeus Olimpio a partir do seculo VII a.C., bem como sua exposicao na area do estadio, foi parte desse fenomeno, assim tambem como dedicacoes de estatuas de Zeus para comemorar vitorias militares, sem falar ainda nas pequenas estatuetas de bronze de Zeus Keraunios, tipos de representacoes do deus com importante significado militar. Essa funcao militar do culto de Zeus em Olimpia culminou, durante o seculo V a.C., no papel do deus em mediar conflitos entre as comunidades politicas em nivel local e interregional, como veremos mais adiante.

As funcoes politicas do santuario de Olimpia

Ja desde a Idade do Ferro, Olimpia desempenhou a funcao de um santuario subregional e inter-regional. A partir da segunda metade do seculo XI a.C. "o culto praticado no local funcionou como fator vinculante a unidade dos diversos grupos que gravitavam na bacia do rio Alfeu" (Taita 2007: 86). Entre os seculos IX-VIII a.C., "os objetos votivos evidenciam que o santuario havia alcancado notoriedade alem desse rio", como indicam a dedicacao de tripodes monumentais por visitantes da Messenia e da Arcadia e a presenca, no santuario, de artesaos provenientes da Arcadia, Messenia, e de Argos, conforme estudo de tipologia e de proveniencia dos objetos votivos dedicados no local nessa epoca (Morgan 1994: 89-90; Taita 2007: 102). Assim, e possivel afirmar que a funcao inter-regional do santuario de Olimpia se consolidou entre os seculos IX-VIII a.C., quando o local passou a ser frequentado nao apenas pelas populacoes do noroeste do Peloponeso, regiao a qual pertenceu, mas por aquelas provenientes do sul e nordeste dessa grande area (7). Embora a funcao sub-regional tenha se mantido nos periodos posteriores, a tendencia inter-regional do santuario de Olimpia passou a se ampliar cada vez mais a partir do seculo VII a.C. com a instituicao e expansao das competicoes atleticas, da pratica de despojos de guerra a Zeus Olimpio, e com a participacao de membros de comunidades politicas do Ocidente grego e de outras areas da Grecia Balcanica (Laky 2013: 46). E interessante destacar sobre os despojos (8) de guerra que "nenhum destes foram dedicados por Elis ou por comunidades da area do Alfeu" - tratou-se, portanto, de um tipo de oferenda tipicamente inter-regional e pan-helenica, dedicado por individuos de comunidades de varias partes do mundo grego.

Um traco caracteristico de santuarios extraurbanos, como Olimpia, foi a participacao das elites das comunidades politicas emergentes, ainda durante a Idade do Ferro, e das cidades gregas, a partir da epoca arcaica. A localizacao extraurbana do santuario, a certa distancia das maiores comunidades participantes, ja na fase inicial do culto, foi um reflexo da funcao politica e social de Olimpia como um lugar de encontro neutro as aristocracias locais das comunidades emergentes (Morgan 1993: 26; 1994: 191). Tais santuarios nasceram essencialmente por duas razoes: "forneceram espacos para o consumo conspicuo dos aristocratas, via atletismo e oferendas votivas, e ajudaram a resolver conflitos internos em Estados emergentes" (Neer 2007: 226). De fato, a dedicacao de tripodes monumentais de bronze, que aparece pela primeira vez no seculo IX a.C. em Olimpia, atesta a participacao de membros de aristocracias locais que fizeram parte de um circuito de ostentacao de riqueza (e possivelmente tambem de proeza atletica) pelo qual os aristocratas podem ter mantido seu status pessoal dentro de suas comunidades individuais. (Morgan 1993: 26; 1994: 191).

Richard Neer (2007: 228) explica que o investimento em ostentacao e em comportamento de autoengrandecimento, em um culto inter-regional, poderia ser uma maneira de solidarizar-se com membros da aristocracia de outras poleis ao mesmo tempo em que esses santuarios foram espacos para disputas politicas e para competicoes entre aristocracias locais.

A atividade do Estado em Olimpia

Data-se de fins do seculo VII a.C. o inicio da atividade do Estado em Olimpia, como indica a construcao do primeiro templo periptero, dos primeiros tesouros a partir do seculo VI a.C. (edificios dedicados pelas cidades gregas para salvaguardar as oferendas mais preciosas dedicadas a Zeus), localizados no sope da colina de Cronos, e do buleuterio (entre 550-500 a.C.), no setor sul do santuario (Morgan 1994: 223). A atividade do Estado tanto se refere a formalizacao da participacao das cidades em Olimpia quanto pressupoe a existencia de uma autoridade na organizacao e administracao do santuario, como foi o caso de Elis. A participacao exclusiva de Elis no desenvolvimento das funcoes cultuais, sem algum tipo de envolvimento de outras comunidades da area do Alfeu e do distrito de Pisa, e confirmada por evidencias arqueologicas ao redor de 570 a.C. (Taita 2007: 141). A documentacao disponivel nao permite precisar se se tratou de "um fato completamente novo com respeito aos periodos anteriores; se durante os seculos VIII e VII a.C. os eleios ja estivessem de algum modo envolvidos no controle politico do santuario de Olimpia" (Taita 2007: 141).

A prostasia de Elis

De acordo com Taita (2007: 141), que realizou um estudo critico sobre as fontes literarias a luz da documentacao epigrafica disponivel para os seculos VI e V a.C.,
      e irrefutavel que a cidade de Elis, desde
   c. 570 a.C., tenha substituido o distrito de
   Pisa no controle da prostasia de Olimpia,
   dirigindo a organizacao das atividades
   sagradas e agonisticas--a documentacao
   existente nao permite afirmar se os eleios
   estavam de algum modo no controle de
   Olimpia nos seculos anteriores, apesar de
   isso nao ser improvavel.


Ja James Roy (2013: 107) situa o inicio da administracao de Elis duas decadas depois, em c. 550 a.C.

Ainda conforme Taita (2007: 36),
      com certa coerencia sabe-se da derrota
   dos pisates entre 588-572 a.C., a qual
   teria assinalado a passagem definitiva da
   prostasia para os eleios. Estes, do segundo
   quartel do seculo VI a.C. ate ao redor do
   final do seculo IV d.C.--com uma unica
   interrupcao da nao-Olimpiada pisatearcadia
   em c. 364 a.C.--detiveram a
   administracao do santuario.


A prostasia de Elis sobre Olimpia tornouse possivel, a partir do primeiro quartel do seculo VI a.C., gracas ao controle conquistado do corredor territorial no qual gravitavam as comunidades pisates (Taita 2007: 57 e 79). Para Taita (2007: 114), e pouco provavel que
      apenas os eleios tenham organizado
   cotidianamente as cerimonias a partir
   do segundo quartel do seculo VI a.C.
   [...] A dedicacao de votivos feitas pelas
   comunidades da regiao leva a pensar que
   o Estado eleio pudesse ter recorrido ao
   auxilio de funcionarios provenientes dos
   assentamentos subordinados.


A participacao dessas comunidades teria cessado no ultimo quartel do seculo V a.C. (Taita 2007: 142). Para Roy, contudo, as inscricoes, nos objetos votivos, testemunham a participacao das comunidades da regiao no culto em Olimpia, mas nao sao evidencias de que essas tinham parte na administracao do santuario (Roy 2013: 111).

Olimpia e a identidade politica de Elis

Desde ao menos a metade do seculo VI a.C., quando provavelmente iniciou seu controle sobre Olimpia, Elis parece ter localizado sua administracao parcialmente na cidade e parcialmente no santuario, como indica o buleuterio de Olimpia, datado inicialmente dessa epoca (Nielsen 2007: 47-48 e 50). Como bem coloca Roy, "Olimpia foi de longe o maior e mais importante santuario no territorio eleio, e estes, por sua vez, celebraram constantemente por la ritos de varios cultos" (Roy 2013: 108). Os eleios utilizaram Olimpia para a administracao nao apenas do santuario, mas tambem de sua propria polis (Roy 2013: 108). Nesse sentido, "o uso de Olimpia para propositos politicos dos eleios caracterizam Elis como uma polis bicentrica" (Roy 2002: 262). Elis expunha documentos publicos em Olimpia e, para isso, escolheu uma forma de lingua que diferenciava os textos eleios de outros escritos em dialetos gregos ocidentais (Roy 2013: 108109). De acordo com T.H. Nielsen, nao apenas inscricoes publicas foram exibidas em Olimpia com tambem na propria cidade de Elis, mas edificios publicos foram construidos em ambos os lugares (Nielsen 2007: 48). Os hellanodikes (arbitros dos Jogos) tinham seus alojamentos na cidade de Elis e no santuario de Olimpia, assim como existia um buleuterio em cada local (Roy 2013: 108). "Nao se sabe, ao certo, se o mesmo conselho eleio se reunia em ambos os edificios, mas, de todo modo, mesmo que tenha havido um conselho olimpico a parte, seus membros eram de Elis" (Roy 2013: 108). Para Nielsen (2007: 52),
      devemos assumir que os dois conselhos
   (o eleio e o olimpico) foram de fato o
   mesmo--quando este se reunia em Elis era
   uma bule comum de uma polis e quando
   era transferido para Olimpia, durante as
   celebracoes dos Jogos, era denominado
   de conselho olimpico, onde se podia
   apelar, por exemplo, contra as decisoes dos
   hellanodikes.


Ja o pritaneu, na sua fase inicial datado do inicio do seculo V a.C., oferece um caso a parte, pois "parece que este edificio nao existiu na polis de Elis, mas somente em Olimpia" (Roy 2013: 108). Como explica Nielsen, o edificio de Olimpia deve ter funcionado como o pritaneu de Elis e o significado de sua localizacao no santuario e clara--em seu centro religioso, "os eleios escolheram construir o edificio que significava a vida de uma polis. [...] E mesmo se tenha existido um pritaneu em Elis, seu significado simbolico tornar-se-ia maior e teria servido para ligar, intimamente, cidade e santuario" (Nielsen 2007: 53).

A localizacao desses edificios poliades em Olimpia, bem como a exposicao de decretos, foram demonstracoes visiveis de afirmacao do poder de Elis sobre Olimpia para uma audiencia maior. O complexo de edificios e o posicionamento de magistrados dessa polis no santuario teriam servido como "uma advertencia, a todos os visitantes, das relacoes especiais de Elis com Olimpia" (Nielsen 2007: 52). A procissao que ligava Elis e o santuario, um dos preludios do festival, tambem tem sido interpretada dessa maneira (Nielsen 2007: 46). Para Nielsen (2007: 47),
      essa procissao extremamente longa
   teria servido como uma demonstracao
   periodica conveniente do dominio de Elis
   sobre Olimpia, servindo como um sinal de
   supremacia, particularmente em tempos
   de ameaca da perda do controle dessa polis
   sobre o santuario.


Como bem concluiu esse autor, Olimpia foi um componente vital da identidade local da polis de Elis e os eleios demonstraram isso de varias maneiras: tornando-a o segundo centro da administracao de sua polis, na longa e incomum procissao da cidade ao santuario, no uso da forca militar no Altis em 364 a.C. contra os arcadios e, finalmente, na escolha dos temas para os tipos monetarios de sua cunhagem (Nielsen 2007: 53). "Os eleios, assim, fizeram Olimpia muito eleia" (Roy 2013: 108). "O santuario foi parte central dessa polis e seu carater eleio era muito claro - o controle de Olimpia foi crucial para a identidade na qual Elis se apresentou ao mundo grego" (Roy 2013: 109).

Os Jogos Olimpicos e a ideologia das elites das poleis

Durante o seculo VI a.C., quando Olimpia atingiu seu primeiro grande apice como santuario inter-regional, mudancas importantes ocorreram em relacao a participacao das elites aristocraticas, e a afiliacao as suas cidades de origem, como tambem a atividade do Estado no culto e o papel do santuario na formacao da identidade grega no periodo--todos fenomenos interligados, em certo nivel. Em primeiro lugar, tratou-se do periodo do protagonismo da individualidade aristocratica no campo das relacoes entre as poleis e das atividades externas destas em escala regional e pan-helenica. [...] O agon pan-helenico, experiencia privilegiada do estilo de vida aristocratico, havia se consolidado, nessa epoca, como um dos modos preferidos de afirmacao do status social das elites diante de sua propria cidade e diante do mundo grego. (Giangiulio 1993: 115).

Em segundo lugar, como mostra a construcao do dito Heraion e dos primeiros tesouros (9), entre o final do seculo VII e o decurso do seculo VI a.C. ocorreu a terceira fase de desenvolvimento de Olimpia, comum tambem a outros santuarios inter-regionais da Grecia Balcanica: pela primeira vez o investimento em arquitetura monumental se tornou aparente. (Hall 2007: 271).

Esse fenomeno teve a ver com "o aumento do interesse do Estado em Olimpia (a formalizacao de sua participacao) e com a institucionalizacao do festival olimpico e de sua incorporacao dentro do circulo pan-helenico nesse periodo" (Morgan 1993: 26) (10). Essa presenca do Estado no santuario tambem tem relacao com uma mudanca na participacao das elites aristocraticas em Olimpia, quando, durante o seculo VI a.C., estas passaram a competir nos Jogos como representantes de suas poleis (Hall 2007: 272-273). Uma evidencia importante desse fenomeno foi a dedicacao de edificios, como os tesouros, ou outros tipos de monumentos, no nome das comunidades, ainda que estes tivessem sido financiados pelos mais ricos--enquanto que no seculo VII a.C. tal pratica era realizada para os membros das elites obterem renome e gloria individuais nos santuarios inter-regionais (Hall 2007: 272-273). Tratou-se, nesse caso, de uma mudanca observada tambem em outros santuarios alem de Olimpia.

Olimpia como espaco politico: mediacao de conflitos e exposicao de decretos

Apos essa explicacao da funcao de Olimpia entre as elites das cidades gregas, desde o inicio da atividade cultual no local, resta mencionar o papel mais importante desempenhado pelo santuario em relacao as comunidades politicas a partir do seculo V a.C.: a mediacao e arbitragem de conflitos locais e inter-regionais. Como bem coloca Taita, "a autoridade de Zeus Olimpio representou a garantia suprema que sancionava a instauracao de relacoes pacificas intercomunitarias e regulava eventuais controversias a nivel local" (Taita 2007: 141-142). Em nivel sub-regional, evidencias epigraficas testemunham acordos entre comunidades da area do Alfeu durante o seculo V a.C., como o tratado de [phrase omitted] entre os Anaitoi e os Metapioi (11) (Taita 2007: 45-46). De acordo com Barringer, no inicio do seculo V a.C., "a implementacao da arbitragem em Olimpia foi uma consequencia direta das guerras persicas: a vitoria alcancada em Plateias por meio da unidade dos gregos inspirou a implementacao de uma arbitragem para evitar conflitos entre os gregos" (Barringer 2015: 30). A partir dessa epoca, "tratados internacionais passaram a cada vez mais a serem publicados em Olimpia para obter a sancao religiosa, no caso de Zeus Olimpio, e para assim garantir uma grande audiencia, devido aos Jogos, e direitos contra violacoes dos termos" (Nielsen 2007: 79-81). Conforme Nielsen & Roy (2009: 266), "ao publicarem tais tratados, as comunidades tambem ostentavam sua 'estatura' e afirmavam seu lugar no mundo grego". A funcao de asylia de Olimpia tornou o santuario um lugar igualmente propicio para a realizacao de acordos entre as cidades. Missoes diplomaticas colocavam-se sob a protecao do santuario a fim de tornar dificil aos negociantes do outro lado rejeitar seus pedidos. Tucidides (III. XIV. 1-2 - XV) nos fornece o principal testemunho a esse respeito ao narrar o discurso dos mitilenios em Olimpia em 428 a.C. no contexto da guerra do Peloponeso. Apos terem deixado a liga ateniense, os mitilenios requereram a adesao a liga peloponesia em uma reuniao no santuario: "em vista do fato de que estavam reunidos em Olimpia, tornavam-se automaticamente suplicantes de Zeus o que impedia a rejeicao de seu pedido de adesao" (Sinn 2000: 157; 158, nota 8).

De acordo com interpretacoes mais recentes, esse papel de Olimpia e de Zeus Olimpio, na mediacao e arbitragem de conflitos, alcancou um momento importante apos a metade do seculo V a.C., no contexto da guerra do Peloponeso. O declinio da dedicacao de despojos de guerra, nessa epoca, teria sido um reflexo de uma proibicao para evitar ofensas entre as cidades participantes nos Jogos e no culto. No entanto, outros tipos de dedicacoes, relativas a certas comemoracoes militares, continuaram a ocorrer em Olimpia. Tal fato e explicado por James Roy em um recente artigo como negociacoes entre a comunidade ofertante e Elis ou, ainda, como pressoes que as vezes a polis administradora do santuario precisava ceder ao aceitar tal tipo de dedicacao (Roy 2013: 116).

O papel do santuario na exposicao de decretos, leis e tratados referentes as regras do santuario, envolvendo ou nao outras comunidades, continuou como uma pratica no local ate o periodo romano (Barringer 2015: 30).

Consideracoes finais: os Jogos Olimpicos e a afirmacao de identidades politicas, etnicas e regionais em epoca arcaica e classica

Em sintese, Olimpia foi o "centro mais importante de interacao e exibicao para as poleis desde a epoca arcaica" (Nielsen & Roy 2009: 266). Essa e uma visao de Thomas Heine Nielsen, do Copenhagen Polis Centre, que discutiu a importancia e contribuicao do santuario de Olimpia em epoca classica, tido como a principal arena na qual os dois niveis mais caracteristicos de identidade grega (a identidade helenica global compartilhada em oposicao aos barbaros e a identidade individual da polis de cada comunidade) foram negociados, desenvolvidos e mantidos (Nielsen 2007: 10). Valendo-se do conceito de interacao no mundo grego, o estudioso examina o papel desempenhado pelo santuario no periodo como o foco de interacao helenica e como o ponto de encontro para a expressao da diferenca entre gregos e barbaros (Nielsen 2007: 11). De acordo com Nielsen, Olimpia foi uma instituicao de importancia crucial na cultura da cidade grega, pois ajudou a criar e a manter um grau de similaridade na enorme diversidade produzida pela existencia de mais de mil poleis altamente individualizadas e radicalmente autodiferenciadas. Foi tambem uma instituicao que contribuiu para a formacao e manutencao da diversidade dentro da similaridade que ela propria promoveu. Em outras palavras, atraves do processo de interacao, em Olimpia foram confirmadas e continuamente reconfirmadas a identidade helenica global a qual todas as poleis gregas compartilharam e as identidades locais das poleis individualizadas, tidas como unicas, cada uma em sua propria maneira (Nielsen 2007: 99).

A similaridade foi produzida pelo santuario de Olimpia por proporcionar um dos meios pelos quais os gregos continuamente redesenharam o limite entre eles mesmos e os barbaros, assim criando e reconfirmando a identidade grega (Nielsen 2007: 17; 99). Conforme Nielsen, tres pontos sao importantes nesse aspecto. Primeiro, na visao helenica de epoca classica o atletismo foi um fenomeno grego unico e caracteristico, e a importancia de Olimpia nesse aspecto reside no simples fato de que era o local do mais proeminente de todos os espacos gregos de competicoes. O segundo ponto, segundo o autor, e o de que os Jogos Olimpicos permaneceram etnicamente exclusivos, uma vez que apenas os gregos eram admitidos a participar. Essa exclusividade etnica desenvolveu-se como uma consequencia de (ou foi intensificada por) conflitos dos gregos com os persas, e a ocasiao que induziu a formulacao explicita do principio de exclusividade pode ter sido as discussoes causadas pela participacao de Alexandre I da Macedonia (498-454 a.C.), um aliado persa cujas credenciais gregas poderiam ser (e foram) contestadas (12). A esse respeito e sintomatico o inicio do uso denominacao hellanodikes ("os juizes dos helenos") no comeco do seculo V a.C. (13) Ate o seculo VI a.C., os arbitros ou juizes das competicoes eram nomeados de diaitetes (Nielsen 2007: 20-21). O terceiro ponto refere-se estritamente ao atletismo, responsavel por tornar visivelmente nitida a diferenca entre gregos e barbaros: os gregos competiam nus, ao passo que os barbaros, que praticavam o atletismo, nao competiam desse modo (Nielsen 2007: 99). Nesse sentido, a novidade do estudo de Nielsen esta em considerar o atletismo praticado nu em Olimpia como um fator importante no desenho do limite entre o mundo grego e o mundo barbaro, visto que o santuario foi o principal espaco dessa pratica estritamente grega (Nielsen 2007: 100).

A diversidade interna, por outro lado, foi tambem criada e mantida em Olimpia, onde as inumeraveis poleis enfatizaram sua individualidade pela competicao atraves de suas dedicacoes e de seus atletas. Dedicacoes comunais aumentavam o prestigio da comunidade oferecedora (Nielsen 2007: 74). Atletas competiam em Olimpia nao apenas como individuos, mas como representantes de suas poleis de origem (14) (Nielsen 2007: 86). Praticamente todas as poleis exploraram Olimpia como um forum no qual avivaram e enfatizaram suas identidades individuais. Considerando apenas as evidencias discutidas em seu estudo, Nielsen contabilizou que ao menos 102 poleis de todos os cantos do mundo grego tiveram relacoes com o santuario em epoca classica. Esse numero e significativo em vista do estado fragmentario das evidencias: trata-se de cerca de 10% de todas as poleis incluidas no An inventory of archaic and classical poleis (Nielsen 2007: 100-101).

As competicoes em Olimpia foram concebidas nao meramente como Jogos entre atletas individuais, mas como competicoes entre poleis que exploraram avidamente a oportunidade para aumentar seu prestigio. Em outras palavras, Olimpia gerou uma interacao extremamente intensa e extensiva entre as poleis helenicas, que foram autorizadas a enfatizar a sua individualidade. Assim, Olimpia foi um palco bem adaptado para essa interacao, uma vez que era, ao menos durante os festivais, o santuario mais visitado em todo o mundo grego, onde se reuniu uma grande quantidade de delegacoes, atletas e espectadores. Em sintese, as multidoes em Olimpia fizeram parte de um dos processos sociopoliticos pelos quais os gregos demonstraram que eles nao eram apenas gregos, mas tambem mantineus, cireneus, lepreatas e ainda myaneus e assim por diante (Nielsen 2007: 101).

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Lilian de Angelo Laky **

* Este artigo oferece um resumo da discussao sobre o santuario de Olimpia e os Jogos Olimpicos nos estudos publicados pela autora nos ultimos anos, Laky (2013) e Laky (2016), com o apoio do CNPq e da Fapesp, respectivamente. Todas as traducoes de citacoes diretas contidas neste artigo, a excecao de Sarian (1997), sao de minha autoria.

** Mestre e doutora em Arqueologia pelo MAE/USP, pesquisadora do Laboratorio de Estudos sobre a Cidade Antiga (Labeca), membro da equipe de escavacoes em Olimpia do Instituto Arqueologico Alemao de Atenas, desde 2012. <lilian.laky@usp.br>

(1) De acordo com Yalouris, Oxilos, o lider das tribos etolio-dorias que foram a Elis, e tambem mencionado como fundador desses novos Jogos, que teriam sido reorganizados por Ifitos, seu descendente. A instituicao dos Jogos e igualmente atribuida a Neleu, a Pelias e aos reis de Elis. Todos esses mitos devem ser imputados aos respectivos cultos de diferentes tribos que reinaram em Olimpia em diferentes periodos. Por fim, Pisos, o heroi eponimo de Pisa e o principal representante da tradicao pisatida rival, e tambem mencionado como o fundador dos Jogos Olimpicos (Yalouris 2004: 86-87).

(2) Acerca do debate da cronologia do edificio, ver Jacquemin (2001: 186).

(3) Sobre o estado da arte da origem do culto de Zeus em Olimpia, ver Laky (2016).

(4) Sobre a discussao completa da funcao do oraculo de Zeus Olimpio em epoca classica, vide Laky (2013: 43-44).

(5) Na perspectiva de Taita, o carater fragmentario de tais objetos votivos nao oferece elementos precisos para atribuilos a tipologia de um Zeus guerreiro, mas apenas como imagens dos proprios devotos em vestes armadas (Taita 2007: 95, nota 42).

(6) Tal relacao em Olimpia foi brilhantemente discutida por Judith Barringer (2005). Um resumo sobre a tese dessa autora pode ser visto em Laky (2013: 301-302).

(7) E provavel ainda que a funcao inter-regional de Olimpia tenha se iniciado no inicio da Idade do Ferro, quando se originou a relacao do santuario com Argos, polis localizada no lado nordeste do Peloponeso (Morgan 1994: 89).

(8) A dedicacao e exposicao de tropaia (despojos de guerra) parecem ter sido praticas comuns entre os espectadores e participantes dos Jogos. Milhares e diferentes tipos de armamentos defensivos, datados entre o inicio do seculo VII e o final do seculo V a.C., com inscricao dedicatoria a Zeus Olimpio--escudos, elmos, perneiras, pontas de lancas, bracadeiras, espadas, adagas e couracas em fragmentos ou em objetos inteiros - foram e ainda sao encontrados em Olimpia, principalmente no setor leste do santuario, na area do estadio (Barringer 2010: 167). De acordo com Barringer (2010: 167), "tracos de buracos nos blocos do muro sul do estadio I sugerem que os tropaia eram ali expostos, pendurados em estacas de madeira--justamente no local da corrida de cavalos de maior audiencia". A pratica "continuou a existir no estadio II e ha evidencias de que os despojos eram expostos em outras areas do Altis" (Barringer 2010: 167). De acordo com Michael Scott (2010: 169), "a memorializacao de conflitos militares atraves da dedicacao de despojos de guerra era uma caracteristica regular do santuario desde ao menos o seculo VIII a.C.".

(9) Trata-se dos tesouros de Sibaris, Metaponto, Gela, Sicione, Epidamnos, Selinonte, Cirene e Megara - todos sao obras do seculo VI a.C. (Hall 2007: 271).

(10) Ja a partir do seculo VI a.C. "Olimpia fazia parte de um circuito de jogos stefaniticos estabelecidos nos principais santuarios inter-regionais alem de Olimpia, como de Apolo em Delfos, de Poseidon em Istmia e de Zeus em Nemeia" (Hall 2002: 154).

(11) Essas inscricoes, encontradas em Olimpia, sobre acordos, atos publicos, ao lado de diferentes tipos de oferenda, todos datados do seculo V a.C., sao testemunhos tambem da existencia de varias comunidades independentes a Elis na area da bacia do Alfeu nesse periodo. A esse respeito, ver Taita (2007: 41-48).

(12) Enquanto nao ha razoes para duvidar que os Jogos Olimpicos tenham sido de fato um fenomeno puramente helenico no periodo arcaico, devemos, contudo, notar que nao ha informacao sobre algum barbaro que desejou competir em Olimpia antes de Alexandre I, cuja identidade etnica poderia ser reconhecida e negada como helenica (Nielsen 2007: 19-20).

(13) A evidencia literaria mais antiga do termo hellanodikes esta em Pindaro (Ol 3. 12), e nas evidencias epigraficas (IvO 2.5) o termo aparece em inscricoes datadas de c. 475-450 a.C. (Nielsen 2007: 20).

(14) A identificacao de um atleta com a sua polis era visivel de varias maneiras em Olimpia. O campeao olimpico tinha o direito de comemorar o seu feito erigindo um monumento no Altis. O nome da polis era incluido na proclamacao da vitoria e nas inscricoes das esculturas comemorativas. Outra forma em que o nome da polis de origem de um campeao poderia ser proclamado era atraves do uso do etnico da cidade na base da estatua dedicada pela vitoria (Nielsen 2007: 88-89).

Caption: Fig. 1. Planimetria do santuario de Olimpia.

Caption: Fig. 2. Terracotas de figurinhas protogeometricas masculinas.

Caption: Fig. 3. Figurinhas geometricas votivas de terracota (XI-X a.C.).

Caption: Fig. 4. Elmo etrusco dedicado por Hieron em Olimpia, c. 474 a.C.

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Author:Laky, Lilian de Angelo
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jan 1, 2018
Words:7497
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