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Relacao conjugal no contexto de reproducao assistida: o tratamento e a gravidez.

Marital Relationship in the Context of Assisted Reproduction: Treatment and Pregnancy

A abordagem desenvolvimental da familia a compreende como um sistema que se modifica no decorrer do tempo para lidar com os diversos eventos com que se depara (Andolfi, Angelo, Menghi, & Nicolo-Gorigliano, 1989; Carter & McGoldrick, 1995; Glick & Kessler, 1980). Dessa forma, assim como os individuos, as familias (Carter & McGoldrick, 1995; Cerveny, 2002) e os casais (Pittman, 1987) tambem apresentam um ciclo vital, ao longo do qual vivenciam alteracoes nas relacoes entre seus membros. Conforme assinalaram Lavee, McCubbin e Olson (1987), essas mudancas podem ser originadas tanto por transicoes esperadas entre os diferentes estagios do ciclo vital--como a transicao para a parentalidade--, como por eventos inesperados com que a familia se depara ao longo da sua trajetoria--como a constatacao de uma situacao de infertilidade. No entanto, de forma geral, esses momentos de transformacao tendem a ser geradores de estresse para o sistema (Boss, 1980; Carter & McGoldrick, 1995).

Embora toda familia experiencie estressores ao longo do seu ciclo vital, a forma como cada uma reage frente aos mesmos e seus efeitos a longo prazo sao variados, sendo que se pode encontrar tanto o crescimento familiar como o surgimento de dificuldades (Boss, 1980). Diversos elementos podem influenciar a adaptacao da familia frente a um evento estressor (Pittman, 1987). A partir de uma revisao da literatura, Olson (1991) concluiu que tres dimensoes principais devem ser levadas em consideracao no estudo da dinamica familiar e conjugal: a coesao, que se refere ao grau de ligacao entre os membros; a adaptabilidade, que remete a capacidade de adaptacao do sistema frente a mudancas e a comunicacao, que interfere nas outras dimensoes.

A transicao para a parentalidade e considerada como uma das transicoes que gera maior estresse na vida do casal (Pittman, 1987). O surgimento de novas demandas e prioridades exige dos conjuges uma reelaboracao da imagem que fazem de si mesmos, do outro e do proprio relacionamento conjugal, o que leva a sentimentos ambivalentes e a mudancas na forma de se relacionar adotada ate entao (Berthoud, 2002; Stern, 1997). A alteracao da configuracao familiar advinda da entrada de um novo membro pode vir, ainda, a afetar dimensoes importantes da relacao conjugal, como a intimidade, a comunicacao e o sexo (Bradt, 1995), sendo que a gravidez e considerada justamente como o periodo em que os casais se preparam fisica e psicologicamente para todas essas mudancas (Brazelton & Cramer, 1992).

Ja a infertilidade representa, segundo Burns (1987), justamente um obstaculo no caminho rumo a parentalidade, sendo considerada, assim, um evento estressor. Diante da constatacao de uma situacao de infertilidade, tornam-se necessarias diversas decisoes e redefinicoes, que podem envolver expectativas, metas, relacionamentos e, ate mesmo, a propria identidade dos conjuges (Burns, 1987; Leiblum, 1997; McDaniel, Hepworth, & Doherty, 1994; Sharf & Weinshel, 2002). Quando o casal opta pela realizacao das tecnicas de reproducao assistida (TRA), os conjuges se deparam com uma serie de questoes com as quais necessitarao lidar, como, por exemplo, a adequacao da rotina--inclusive a sexual--aos procedimentos, o contato frequente com a equipe medica, possiveis frustracoes quanto aos resultados do tratamento e a decisao sobre com quem compartilhar essas experiencias (Burns, 1987; Leiblum, 1997). Nesse contexto, o casal pode se sentir excluido por considerar-se diferente da maioria e vivenciar sentimentos de raiva, culpa e vergonha, o que tende a repercutir nas diferentes relacoes desses individuos, especialmente a conjugal (Burns 1987; Leiblum, 1997; Schaffer & Diamond, 1994; Seger-Jacob, 2006; Shapiro, 1992).

Dessa forma, ao pensarmos em casais que engravidam com o auxilio das TRA, devemos considerar que os mesmos vivenciam dois estressores consecutivos: a experiencia da infertilidade e a posterior transicao para a parentalidade, o que pode influenciar a vivencia deste momento e os futuros relacionamentos familiares (Hjelmstedt, Widstrom & Collins, 2006). Alguns autores (Ulrich, Gagel, Hemmerling, Pastor & Kentenich, 2004) sugeriram, inclusive, que, ao atravessarem a transicao para a parentalidade, esses casais vivenciam uma dupla tarefa desenvolvimental, pois, ao mesmo tempo em que precisam fazer os ajustes para a chegada do bebe, tambem experienciam mudancas em sua propria identidade decorrentes da superacao da infertilidade.

Pesquisas foram desenvolvidas com o intuito de verificar como casais que engravidaram a partir das TRA vivenciam o periodo da gestacao (Cohen, McMahon, Tennant, Saunders, & Leslie, 2000; Fisher, Hammarberg, & Baker, 2008; Kloch & Greenfeld, 2000; Stanton & Golombok, 1993; Sydsjo, Wadsby, Kjellberg, & Sydsjo, 2002; Ulrich et al., 2004). Conforme Ulrich et al. (2004), os resultados obtidos por esses estudos sugerem que existem mais semelhancas do que diferencas entre casais que recorreram as TRA e aqueles que conceberam naturalmente. No entanto, alguns autores constataram certas especificidades, sendo possivel perceber divergencias entre os estudos. Por um lado, identificaram-se, nos casais que engravidaram por reproducao assistida, uma avaliacao mais positiva da relacao no que se refere a satisfacao conjugal, a comunicacao e a resolucao de conflitos (Sydsjo et al., 2002), assim como a descricao, segundo as esposas, de um relacionamento mais afetuoso, sensivel e companheiro e menos coercitivo, critico e dominador (Fisher et al., 2008). Por outro lado, alguns estudos relataram um pior ajustamento conjugal e a percepcao de um relacionamento menos cuidadoso entre os conjuges, de acordo com a perspectiva dos maridos (Cohen et al., 2000), uma menor preocupacao, por parte das esposas, com a relacao conjugal (Kloch & Greenfeld, 2000) e maiores dificuldades sexuais (Ulrich et al., 2004).

No entanto, em uma revisao recente desses estudos (Silva & Lopes, 2009), constatou-se o predominio do uso de escalas e de analises quantitativas para a avaliacao de variaveis especificas, tais como satisfacao e ajustamento conjugal. Percebe-se, portanto, a falta de estudos que busquem descrever a experiencia desses casais. Dada a complexidade dos fatores envolvidos, acredita-se que um estudo de caso qualitativo podera servir a esse fim, contribuindo para a compreensao mais detalhada e contextualizada do tema (Robson, 1993).

Assim, o presente estudo teve como objetivo investigar a relacao conjugal durante o tratamento e a gravidez, em casais que engravidaram com o auxilio das TRA. A partir da sugestao de Olson (1991) sobre quais dimensoes devem ser priorizadas na investigacao da dinamica familiar e conjugal, assim como do levantamento dos aspectos que, segundo a literatura, seriam influenciados pela experiencia da infertilidade e da parentalidade, selecionaram-se tres dimensoes a serem investigadas neste trabalho: coesao, sexualidade e comunicacao.

Metodo

Participantes

Os participantes deste estudo fazem parte de um projeto maior, intitulado 'Transicao para a parentalidade e a relacao conjugal no contexto da reproducao assistida: Da gestacao ao primeiro ano de vida do bebe' (Lopes, Piccinini, Dornelles, Silva, & Passos, 2007). Participam desse projeto casais que conceberam com o auxilio das TRA e que sao indicados pelos profissionais que trabalham no Servico de Ginecologia e Obstetricia do Hospital de Clinicas de Porto Alegre (HCPA). Os participantes desse projeto sao contatados em tres momentos distintos: (a) no terceiro trimestre de gestacao; (b) apos o bebe completar tres meses e (c) apos o bebe completar um ano. Os dados apresentados neste trabalho referem-se apenas a entrevistas realizadas na primeira fase do projeto.

A partir dessa amostra mais ampla, selecionaram-se, com base no conceito de heterogeneidade (Patton, 2002), tres casais que se encontravam no terceiro trimestre da gestacao do primeiro filho do casal. Segundo Patton, a utilizacao desse criterio, que se caracteriza pela variedade dos casos, permite que se identifiquem os temas centrais referentes ao contexto estudado, uma vez que se constatam tendencias compartilhadas por casos que apresentam caracteristicas diversas. Conforme podera ser observado a seguir, os casais variaram quanto (a) a causa da infertilidade, aspecto que, segundo Lee, Sun e Chao (2001), pode influenciar o impacto da infertilidade sobre a relacao conjugal; (b) a tecnica utilizada, visto que cada tecnica apresenta suas especificidades (Nichols & Pace-Nichols, 2000); e (c) a existencia de filhos de relacoes anteriores, visto que se acredita que a experiencia de transicao para a parentalidade tende a ser diferente para casais que ja tiveram filhos e aqueles que esperam seu primeiro (Pereira & Piccinini, 2007).

Casal 01: Bianca e Eduardo (3) iniciaram sua relacao ha aproximadamente dez anos. Ambos se encontravam na faixa dos 30 anos, completaram o ensino superior e trabalhavam. Seu nivel socioeconomico era considerado medio (4). A causa diagnosticada para a infertilidade foi considerada masculina. O casal se submeteu a um procedimento de fertilizacao in vitro. A gravidez foi alcancada na primeira tentativa com as TRA. Nenhum dos conjuges possuia filhos de unioes anteriores.

Casal 02: Silvia e Ricardo iniciaram sua relacao ha aproximadamente 15 anos. Ambos se encontravam na faixa dos 40 anos, completaram o ensino superior e trabalhavam. Seu nivel socioeconomico era considerado medio-alto. A causa diagnosticada para a infertilidade foi considerada feminina. O casal se submeteu a um procedimento de doacao de gametas. A gravidez foi alcancada na segunda tentativa com as TRA. Nenhum dos conjuges possuia filhos de unioes anteriores.

Casal 03: Viviana e Daniel iniciaram sua relacao ha aproximadamente cinco anos. Ela estava na faixa dos 30 anos e ele, na dos 20. Ambos completaram o Ensino Fundamental, ele trabalhava e ela nao exercia atividade remunerada. Seu nivel socioeconomico era considerado medio-baixo. A causa diagnosticada para a infertilidade foi considerada feminina. O casal se submeteu a um procedimento de fertilizacao in vitro. A gravidez foi alcancada na segunda tentativa com as TRA. Um dos conjuges possuia filhos de unioes anteriores.

Delineamento e Procedimentos

O presente trabalho se caracteriza como um estudo de caso coletivo (Stake, 1995). Examinaram-se tanto as particularidades de cada caso, como as semelhancas existentes entre eles, especificamente no que tange as tres dimensoes da relacao conjugal investigadas: coesao, sexualidade e comunicacao.

Apos a indicacao dos potenciais participantes pela equipe do HCPA, os mesmos eram contatados por telefone, momento em que o estudo lhes era apresentado e eles eram convidados a participar. Aproximadamente 26% dos potenciais participantes contatados por nossa equipe recusaram-se a colaborar. Entre os motivos alegados, mencionaram-se falta de interesse, pouca disponibilidade de tempo e desejo de "deixar para tras" essa experiencia tao desgastante. Com aqueles que demonstraram interesse em participar, foi marcado um encontro, em que se apresentou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Todos os casais concordaram com os termos propostos no TCLE, de forma que, nessa mesma oportunidade, teve inicio a realizacao da coleta de dados. Os membros do casal preencheram uma ficha de dados sociodemograficos e responderam individualmente a duas entrevistas semiestruturadas e a uma aplicacao resumida do Teste de Apercepcao Tematica--TAT (Murray, 1943/2005), cujos dados nao serao utilizados no presente trabalho. De forma geral, as entrevistas e a aplicacao do teste foram realizadas simultaneamente com os dois conjuges, por pesquisadoras diferentes. A aplicacao dos instrumentos durava aproximadamente duas horas, sendo que, dependendo da disponibilidade do casal, poderia ser realizada em mais de um encontro. Os encontros se deram na propria residencia dos participantes ou em seu local de trabalho, considerando o que lhes fosse mais conveniente. As entrevistas, assim como o TAT, foram gravadas em audio e posteriormente transcritas para analise.

O projeto do qual o presente trabalho faz parte segue as diretrizes definidas na resolucao da Comissao Nacional de Pesquisa (Conselho Nacional de Saude, 1996). O referido projeto foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa do HCPA. Garantiu-se que os participantes poderiam deixar de participar do estudo a qualquer momento, sem que isso lhes acarretasse quaisquer prejuizos, e que, em caso de desconforto durante a realizacao das entrevistas, os mesmos poderiam ser encaminhados a atendimento psicologico se assim o desejassem.

Instrumentos

Entre os instrumentos utilizados no projeto e cujos dados serao utilizados no presente trabalho, encontram-se uma ficha de dados sociodemograficos, que visa a obtencao de informacoes necessarias ao contato com os participantes e a sua caracterizacao, e duas entrevistas individuais semies-truturadas:

Entrevista sobre a gestacao e as expectativas da gestante (NUDIF, 1998a) e entrevista sobre a gestacao e as expectativas do futuro pai (NUDIF, 1998b): Compostas por diversos blocos de questoes. Os primeiros abrangem percepcoes e sentimentos do participante quanto a gestacao e ao feto. Os blocos seguintes abordam a relacao com o conjuge e com outros familiares, as expectativas sobre diferentes aspectos da vida familiar e a percepcao do impacto dessas tecnicas sobre a vivencia da gestacao.

Entrevista sobre a relacao conjugal na gestacao (Lopes, Silva, Dornelles, & Piccinini, 2007, adaptado de Lopes & Menezes, 2003). A primeira parte da entrevista refere-se a historia da relacao, incluindo questoes relativas ao inicio do relacionamento e ao seu desenvolvimento posterior. A segunda parte e composta por questoes que enfocam percepcoes e sentimentos quanto ao surgimento, no casal, da ideia de ter um filho, a decisao pela utilizacao das TRA e suas repercussoes. A terceira parte abrange questoes voltadas a relacao no presente, enfocando a imagem do conjuge, os pontos positivos e negativos da relacao, a comunicacao do casal, a vida sexual, as manifestacoes de afeto, os ideais de relacionamento, as relacoes com as redes de apoio e as atividades as quais os conjuges costumam se dedicar. A quarta parte investiga a visao da familia ampliada, enquanto a parte final volta-se as expectativas em relacao ao futuro da relacao.

Analise dos dados

Os dados foram submetidos a analise de conteudo qualitativa, baseadas em categorias definidas a priori (Laville & Dione, 1999). Inicialmente, as autoras realizaram uma primeira leitura do material com o intuito de se familiarizarem com seu conteudo e de verificarem a adequacao das categorias propostas para a analise. Tendo-se considerado as categorias adequadas, sua definicao operacional foi discutida entre as autoras para se dirimirem possiveis duvidas. As entrevistas foram, entao, novamente lidas pela primeira autora deste estudo, que buscou identificar trechos pertinentes a cada uma das categorias, que se referem a diferentes dimensoes da relacao conjugal. Questoes acerca da categorizacao dos conteudos expressos pelos participantes foram resolvidas em conjunto pelas autoras. Assim, definiram-se como categorias: (1) Coesao (Olson, 1991; Rios-Gonzalez, 2005): Descreve os conteudos que retratam os sentimentos que unem os conjuges, sua percepcao de proximidade e o apoio entre ambos. (2) Sexualidade (Miller, Caughlin, & Huston, 2003; Wright, 1998): Descreve os conteudos referentes a vida sexual do casal e as suas manifestacoes fisicas de afeto. (3) Comunicacao (Olson, 2000; Snyder, Cozzi, & Mangrum, 2006): Descreve o padrao de comunicacao descrito pelos conjuges, a expressao e a compreensao de sentimentos e ideias, os assuntos compartilhados pelo casal, os temas que levam a conflitos entre os conjuges e a forma como eles sao resolvidos.

A analise dos dados teve como objetivo descrever essas diferentes dimensoes da relacao conjugal, em dois momentos: durante o tratamento (investigado retrospectivamente) e a gravidez. A seguir, serao apresentados os dados referentes a cada uma dessas dimensoes em ambos os momentos.

Resultados e Discussao

Coesao: Durante o tratamento

No que se refere a vivencia dessa dimensao durante a realizacao do tratamento nos tres casais observou-se a participacao e o apoio dos maridos. Segundo Viviana (casal 03), o marido "participou desde o inicio mesmo. Sempre ali junto. Quando tinha que ir ao hospital, ele deixava de trabalhar e ia, nunca reclamou (...) ele me incentivava e me encorajava". Isso se mostra de acordo com os resultados obtidos por Sabatelli, Meth e Gavazzi (1988), segundo os quais as esposas tenderam a perceber um aumento no apoio emocional recebido de seus companheiros em funcao da experiencia da infertilidade. A percepcao desse apoio nao parece estar necessariamente atrelada a participacao do marido no tratamento, pois, segundo Spotorno, Silva e Lopes (2008), mesmo quando se queixam da ausencia dos maridos nesses momentos, as esposas referem que eles se mostram mais atenciosos.

Por outro lado, tambem se identificou, no relato dos tres casais, a ideia de que a experiencia do tratamento e, em especial, o seu fracasso poderiam constituir uma ameaca ao vinculo conjugal e, consequentemente, a coesao do casal, que poderia se distanciar diante desse contexto. No casal 01, Eduardo disse nao saber o que aconteceria ao relacionamento se o tratamento nao fosse bem sucedido, afirmando, ainda, que eles passaram por "uma fase de mais amizade do que de casamento ". No casal 02, embora nao se referisse especificamente a sua propria relacao, Silvia comentou que, em casamentos em que "a coisa nao estiver afinada ", a separacao e, de fato, uma possibilidade. No casal 03, Viviana afirmava ao marido que, caso o tratamento nao tivesse sucesso, eles iriam se separar. Esses comentarios podem ser associados as constatacoes de autores que destacaram a influencia negativa que a experiencia da infertilidade pode exercer sobre as relacoes conjugais (Schaffer & Diamond, 1994).

Coesao: Durante a gravidez

Para a esposa do casal 01 e ambos os conjuges dos casais 02 e 03, a gravidez foi vista como um elemento de uniao e fortalecimento da relacao do casal. Segundo Daniel (casal 03), ele se sente "realizado de saber que nos tava 0% e agora nos estamos 100%."

Outra questao identificada, nos relatos dos tres casais, foi a valorizacao do companheirismo e dos diferentes tipos de apoio oferecidos pelo marido durante a gestacao. De acordo com Silvia, o marido "tem sido o que eu esperava que ele fosse: preocupado comigo, cuidadoso comigo, parceiro. Nao me sinto sozinha nisso ". Nos casais 02 e 03, tambem foram relatadas atitudes de cuidado e apoio das esposas em relacao a seus maridos. Essas falas demonstram a percepcao de uma proximidade emocional nesses casais, ou seja, que eles se sentiam coesos nesse momento. Diferentes estudos constataram que, em geral, a gravidez e a transicao para a parentalidade tendem a ser marcadas por essa percepcao de maior apoio (Piccinini, Gomes, Nardi, & Lopes, 2008; Piccinini, Silva, Goncalves, Lopes, & Tudge, 2004). No entanto, e possivel questionar o quanto as preocupacoes vivenciadas por esses casais durante a gestacao--as quais podem ser relacionada a todo o periodo de dificuldades e incertezas vivenciado durante o tratamento--podem favorecer essas manifestacoes de cuidado. Fisher et al. (2008) constataram que mulheres que engravidaram com o auxilio das TRA apresentaram escores mais elevados do que a media das gestantes na dimensao cuidado, que avalia o afeto, o companheirismo, a confianca e a sensibilidade presentes no seu relacionamento com o marido.

Por outro lado, segundo os casais 01 e 02, com a gravidez, as esposas passaram a demandar mais a proximidade e o apoio de seus maridos, o que, de acordo com Ricardo (casal 02), e algo que " envaidece, mas tambem sobrecarrega". Conforme visto anteriormente, embora se tenha constatado que gestantes que conceberam com o auxilio das TRA tenderam a melhor avaliar o cuidado presente em seus relacionamentos (Fisher et al., 2008), Cohen et al. (2000) verificaram que homens cujas esposas engravidaram com o auxilio dessas tecnicas avaliaram essa mesma dimensao de forma mais negativa do que o grupo controle. Dessa forma e possivel supor que os cuidados prestados a esposa lhes gerem tambem certa sobrecarga, tanto fisica como emocional (Hackel & Ruble, 1992).

Constataram-se, portanto, mudancas na dimensao coesao tanto em funcao do tratamento como da propria gestacao. Embora o tratamento possa se mostrar uma oportunidade para o casal se unir em torno de um objetivo comum e tenha-se destacado o companheirismo dos maridos nesse momento, observou-se que esse periodo tende a apresentar um desafio em termos da continuidade do vinculo conjugal, visto que a relacao do casal, em si, pode ser deixada de lado em prol de uma meta maior: a conquista da gravidez. Ja no que se refere a gestacao, o companheirismo e a uniao foram aspectos ressaltados, o que pode estar relacionado a propria experiencia do tratamento. Deve-se considerar ainda que se trata de uma gravidez muito desejada por esses casais e em nome da qual os mesmos fizeram diversos sacrificios pessoais e financeiros. Dessa forma, e compreensivel que haja um forte interesse e preocupacao em preserva-la. O participante que relatou um distanciamento durante a gestacao (Eduardo--casal 01) foi justamente o que tambem demonstrou um maior afastamento durante a realizacao do tratamento. Este e considerado um momento mais estressante para o casal (Leiblum, Aviv e Hamer, 1998), o que demonstra que nem sempre as dificuldades vivenciadas nesse periodo sao superadas com a gestacao.

Sexualidade: Durante o tratamento

No que se refere ao exercicio da sexualidade durante o periodo do tratamento, Eduardo (casal 01), Silvia (casal 02) e Daniel (casal 03) mencionaram a necessidade de adequar sua vida sexual, corroborando o que e sugerido pela literatura (Leiblum, 1997). Silvia revelou, inclusive, sua insatisfacao a esse respeito, mencionando a perda da espontaneidade no casal. A literatura sugere que a experiencia da infertilidade tende a exercer um impacto negativo sobre a sexualidade (Sabatelli et al., 1988). No entanto, de acordo com os relatos de Silvia e Daniel, constatou-se que esse impacto pode nao ser sentido imediatamente. Segundo ele, no principio, houve ate uma melhora na sexualidade, pois havia uma esperanca, no casal, de conseguir engravidar sem a necessidade do tratamento. Observou-se, ainda, que esse impacto pode inclusive nao ser identificado por algumas pessoas. Bianca (casal 01), por exemplo, relatou nao ter percebido mudancas. Essa colocacao, porem, pode ser analisada a partir da descricao da historia do casal. Uma vez que ela mencionou que o sexo nunca foi um aspecto central em sua relacao, e possivel que algumas mudancas nao tenham sido tao valorizadas.

Sexualidade: Durante a gravidez

Eduardo (casal 01) e Daniel (casal 03) destacaram que, com a gestacao, houve uma diminuicao em comportamentos tais como abracar, namorar e "ficar agarrado ". Essa diminuicao e justificada, por eles, pelas mudancas corporais sofridas pela esposa e pelo aumento das atencoes destinadas ao bebe.

Os tres casais concordaram que houve, nesse periodo, um retraimento da sexualidade. Bianca (casal 01) nao atribuiu essa mudanca apenas a gravidez, mencionando a comodidade, a preguica, a diminuicao do desejo com o decorrer da relacao e a insatisfacao de ambos com seu proprio corpo. No entanto, demonstrou preocupacao e duvida a respeito do que essa diminuicao poderia representar para seu marido, questionando se seria uma tentativa de cuidado ou um pretexto para se acomodar. Silvia (casal 02), por outro lado, relatou que, no inicio da gravidez, o casal buscou outras formas de vivenciar sua sexualidade, mas, com o passar do tempo, isso tambem ficou impossivel em funcao de suas mudancas corporais. Mais uma vez, pode-se pensar na importancia de caracteristicas anteriores da relacao, visto que o casal 02, em que a sexualidade era mencionada como um dos pontos fortes da relacao, buscou alternativas que lhes permitissem continuar vivenciando-a.

Uma questao que pode ser identificada no relato dos tres maridos participantes deste estudo se refere ao medo de que o sexo pudesse prejudicar a gestacao. Para Eduardo (casal 01) e Ricardo (casal 02), esse medo mostrou-se relacionado a realizacao do tratamento. Eduardo relacionou sua ansiedade de que algo pudesse acontecer ao bebe ao " defeito no esperma", enquanto Ricardo afirmou: "O casal que ja passou por isso e perdeu uma vez, e uma carga tao grande que, se disserem para ti 'olha voce tem que pegar um copo d'agua, botar em cima da televisao todo dia', tu e capaz de fazer". Este resultado corrobora os achados do estudo de Ulrich et al. (2004). Ao compararem dois grupos de casais, um grupo que concebeu naturalmente e outro que concebeu atraves de tecnicas de reproducao assistida, esses autores observaram que os casais do ultimo grupo tenderam a se mostrar mais insatisfeitos sexualmente, chegando a interromper as relacoes por medo de prejudicar o bebe.

No entanto, diante das dificuldades encontradas por esses casais na vivencia de sua sexualidade, e possivel que outras formas de manifestar seu afeto passem a ser mais valorizadas. O cuidado do marido em relacao a esposa foi destacado pelo casal 01 e por Silvia (casal 02). Ricardo (casal 02), por sua vez, ressaltou o cuidado que a esposa demonstrava em relacao a ele. Estar sempre junto, beijar (Viviana--casal 03), seguir o que o outro diz (Daniel--casal 03), lembrar de datas especiais e sentir a falta do outro (Ricardo--casal 02) tambem foram atitudes mencionadas. Alem disso, pode-se observar que atitudes tais como acariciar e conversar com a barriga tambem constituiram um elemento de aproximacao do casal, como afirmou Daniel (casal 03): "Principalmente no carinho ela me pede bastante. (...) Qualquer alisada na barriga ela ja esta muito feliz.(...) Para mim e, assim, o que ela me pede o nene esta pedindo. E ela me fala isso: nao e eu que estou pedindo, e o nene que esta pedindo". De acordo com Miller et al. (2003), demonstracoes de afeto como essas permitem que o conjuge observe a responsividade de seu parceiro, contribuindo, assim, para a satisfacao conjugal.

As verbalizacoes dos casais demonstram que, de fato, as TRA podem trazer mudancas na sexualidade durante a epoca do tratamento e mesmo apos a gravidez. Embora modificacoes na sexualidade sejam esperadas durante a gestacao (Piccinini et al., 2008), questiona-se se a experiencia do tratamento intensificou esse processo, visto que o receio de prejudicar o bebe pode ter sido incrementado por essa experiencia, como sugerem as falas de Eduardo (Casal 01) e Ricardo (Casal 02). No entanto, os participantes deste estudo pareceram buscar outras formas de manifestar seu afeto, diante da dificuldade de expressa-lo fisicamente, o que se pode perceber, inclusive, no cuidado entre os conjuges. Obviamente deve-se considerar que dois casais deste estudo vivenciaram riscos adicionais durante a gestacao, os quais podem ter contribuido para esse maior receio: gestacao gemelar (casal 02) e ameaca de nascimento prematuro (casal 03).

Comunicacao: Durante o tratamento

Relataram-se algumas dificuldades de comunicacao presentes na epoca do tratamento, no que se refere a compartilhar determinadas informacoes com o conjuge (Silvia--casal 02), a compreender os sentimentos do outro (Bianca--casal 01 e Ricardo--casal 02) e a expressar os proprios sentimentos (Eduardo--casal 01). Tais dificuldades puderam ser observadas com maior clareza no relato do casal 01. Segundo Bianca, o tratamento nao foi um assunto sobre o qual conversaram muito. Embora nao considere que isso lhes tenha feito falta, ela relatou que so percebeu o impacto que o tratamento estava exercendo sobre o marido quando sua mae lhe chamou a atencao. Ele, por sua vez, mencionou: " Foi um prato cheio pra eu me controlar um pouquinho mais, nao mostrar a emocao antes. Deixar ela botar pra fora as emocoes, como ela sempre foi, e, pra mim, segurar". Segundo Walsh (2006), homens que nao conseguem expressar seus sentimentos, em momentos de crise, tendem a se distanciar emocionalmente de suas parceiras, sendo que uma forma de lidar com a tensao existente seria concentrar as atencoes nas atividades profissionais. De acordo com o relato de Eduardo, foi isso o que aconteceu na relacao do casal. E possivel, portanto, que as dificuldades em expressar os proprios sentimentos tenham contribuido para o impacto, percebido por ele, do tratamento sobre a relacao conjugal.

Os casais 02 e 03 destacaram, ainda, conflitos que vivenciaram durante esse periodo. No casal 02, Ricardo conta que ele e a esposa tiveram discussoes serias a respeito da continuidade do tratamento caso a gravidez nao ocorresse naquela tentativa. Apos algum tempo, porem, decidiram que so voltariam a falar sobre isso quando, de fato, soubessem o resultado. No casal 03, foram relatadas muitas brigas durante esse periodo: " E ela sempre insistia e falava como me dando um ultimato 'ou a gente faz esse filho ou terminou'. Isso, no caso, era por causa do dinheiro, de ter o dinheiro, 'ou tu da um jeito ou vamos parar por aqui'". Em situacoes de crise, a ocorrencia de conflitos e esperada, pois, nesses momentos, a capacidade de lidar com as proprias emocoes e de se comunicar fica prejudicada (Walsh, 2006). No entanto, no caso de Viviana (casal 03), percebe-se que as ameacas de por fim ao relacionamento ja eram um comportamento presente anteriormente, visto que Daniel comentou que, quando brigavam, no inicio da relacao, ela chegava a ir embora e ele precisava busca-la. Esses conflitos manifestam, portanto, uma forma de o casal se comunicar frente as dificuldades vivenciadas, percebendo-se a influencia de caracteristicas previas da relacao na forma como o casal se comunicou durante o tratamento.

Comunicacao: Durante a gravidez

Diferentes autores (Bradt, 1995; Snyder et al., 2006) referem que a chegada de um filho tende a afetar a comunicacao do casal. A partir dos relatos dos participantes deste estudo, foi possivel constatar que esse processo de mudanca tem inicio ja na gravidez. Algumas semelhancas quanto a esse aspecto foram observadas entre os casais.

A enfase dada ao bebe nas conversas foi um aspecto que se mostrou presente na fala dos tres casais. Inclusive, para Eduardo (casal 01), o fato de o unico assunto do casal ser a filha pareceu lhe gerar certo incomodo. Em alguns casos, no entanto, esse predominio das conversas sobre os bebes nao se mostrou presente desde o inicio da gestacao. Ricardo (casal 02) relatou que apenas ao final da gravidez passaram a conversar sobre os filhos. Tal afirmacao pode ser relacionada ao medo que ele referiu ter sentido de investir emocionalmente nos bebes, em funcao do receio de que a gravidez nao seguisse ate o fim.

Melhoras na expressao e na compreensao dos sentimentos um do outro e a reducao das brigas tambem foram aspectos mencionados pelos casais 02 e 03. Ricardo (casal 02) afirmou, por exemplo, que, com a gravidez, Silvia passou a compreender melhor algumas de suas atitudes: " o homem tem muito essa visao, nao sei da onde e que veio, do abastecedor, do provedor e eu sempre tive e agora muito mais forte do que antes, e ela, de algum modo, ta entendendo um pouco". Os relatos do Casal 03 tambem evidenciam bem essas questoes, sendo que se percebeu uma diminuicao das brigas do casal, que eram bastante presentes durante o periodo do tratamento, assim como a ideia de que um deve buscar fazer o que o outro diz. Daniel, por exemplo, referiu: "se eu falo uma coisa, ela obedece, se ela fala, eu obedeco. Nossa, antes nunca isso acontecia. Um queria mandar mais que o outro Agora nao. Agora e o que ela fala eu faco. O que eu falo ela faz". No entanto, deve-se estar atento a que, de acordo com Walsh (2006), a pressao pelo consenso familiar pode prejudicar a comunicacao e a capacidade de resolucao de problemas. Segundo essa autora, a qualidade de um relacionamento nao deve ser avaliada pela ausencia de conflitos, mas pela forma como sao manejados, visto que a evitacao do conflito, quando se prolonga, pode afetar o funcionamento familiar.

Puderam ser observadas ainda relacoes entre a comunicacao e outra dimensao da relacao conjugal: a coesao. No casal 03, as falas de Daniel demonstram que o fato de ele perceber o casal mais unido contribuiu para a comunicacao do casal: "Antes, se eu tivesse com um problema, eu ficava mais para mim, porque eu sabia que falar para ela nao adiantava. Agora nao. Agora eu falo o problema que eu tenho pra ela e ela ajuda. A mesma coisa ela para mim". Por outro lado, no casal 01, a dificuldade de expor certos sentimentos, manifestada por Eduardo, que disse que " engole" certas coisas, parece estar relacionada ao distanciamento percebido por ele na relacao conjugal, conforme foi observado ja no periodo do tratamento.

Os relatos dos participantes permitem inferir, portanto, que a comunicacao e mais um fator que pode estar relacionado a forma como os casais vivenciam a experiencia das TRA, visto que pode estar relacionada a percepcao de outras dimensoes da relacao conjugal (casais 02 e 03), assim como representa uma estrategia para lidar com as diversas mudancas e dificuldades que estao sendo vivenciadas por esses casais diante do tratamento e da chegada do bebe. Olson (1991) sugeriu o papel facilitador desempenhado pela comunicacao, que, segundo ele, seria essencial para a coesao e a adaptabilidade dos casais. Nesse contexto, a nao expressao dos sentimentos tenderia a contribuir para o distanciamento do casal e para uma sensacao de sobrecarga e isolamento, conforme ja fora sugerido por Walsh (2006). Tal constatacao corrobora os achados de outros autores (Pasch, Dunkel-Schetter, & Christensen, 2002), que sugeriram que a comunicacao tende a mediar o impacto da infertilidade sobre a relacao conjugal. Pode-se observar, ainda, que as demandas do tratamento, de fato, provocaram alguns conflitos nos casais (Sabatelli et al., 1988). No entanto, a forma como eles foram solucionados parece refletir caracteristicas anteriores da relacao.

Consideracoes Finais

Este estudo teve como objetivo investigar a relacao conjugal durante o tratamento e a gravidez, em casais que engravidaram com o auxilio das TRA. Abordaram-se as mudancas ocorridas nesses momentos em tres dimensoes da relacao: coesao, sexualidade e comunicacao.

O tratamento mostrou-se fonte potencial de dificuldades para a comunicacao, a sexualidade e a coesao. O receio de expressar os proprios sentimentos, a nao compreensao dos sentimentos do outro, a restricao a vida sexual e a potencial ameaca que o fracasso do tratamento pode representar a continuidade da relacao foram algumas das questoes identificadas durante este periodo, embora se tenha destacado o companheirismo existente entre os conjuges. Por outro lado, na gravidez, embora algumas dificuldades tenham permanecido, especialmente na sexualidade, em funcao do medo de perder o bebe, foi ressaltado pelos casais um aumento na coesao, assim como alteracoes na comunicacao, principalmente a reducao de conflitos e a enfase dada ao bebe nas conversas do casal.

Identificou-se a interacao das tres dimensoes avaliadas, de forma que foi possivel observar que uma dimensao pode tanto compensar dificuldades vivenciadas nas demais como contribuir para o funcionamento destas. Os resultados obtidos neste trabalho permitiram constatar, por exemplo, que a coesao pode ajudar a superar as dificuldades que o casal vivencia em sua sexualidade durante a realizacao do tratamento e a gravidez, assim como pode favorecer uma melhor comunicacao a partir do sentimento de que se pode contar com o outro e de que, portanto, e valido compartilhar os sentimentos com ele.

Este trabalho evidencia a importancia de considerar diferentes dimensoes da relacao conjugal para a compreensao da experiencia desses casais. Essa abordagem multidimensional (Mossman, Wagner, & Feres-Carneiro, 2006) favorece a identificacao dos diferentes aspectos que compoem esse fenomeno e a propria elaboracao de estrategias de intervencao junto a essa populacao, que podem abordar tais dimensoes como recursos a serem aproveitados e desenvolvidos pelos casais.

Algumas consideracoes devem ser realizadas quanto ao potencial do metodo selecionado para este estudo. Acredita-se que a escolha de um delineamento de estudo de caso coletivo e de uma analise qualitativa dos resultados favoreceu a contextualizacao dos dados obtidos (Robson, 1993) e a descricao da forma como a relacao e vivenciada durante a experiencia das TRA e a gravidez, segundo a visao dos proprios participantes. Essa abordagem mais descritiva pareceu favorecer a identificacao dos diferentes aspectos que compoem esse fenomeno, permitindo corroborar a multidimensionalidade (Mossman et al., 2006) da relacao conjugal.

A escolha de casos heterogeneos (Patton, 2002) tambem se mostrou adequada ao proposito deste trabalho. Apesar de todas as diferencas existentes entre os casais, foi possivel identificar algumas semelhancas que podem auxiliar a pratica dos profissionais que trabalham nesse contexto e que lidam com a diversidade dessa populacao.

A realizacao de um estudo transversal pode ser considerada, a principio, como uma limitacao deste estudo, visto que nao foi possivel acompanhar se, de fato, as expectativas desses casais se concretizaram. No entanto, dessa forma, foi possivel aprofundar questoes especificas a gravidez, um periodo de grande relevancia e que, muitas vezes, nao e destacado ao se falar sobre o ciclo de vida familiar.

Algumas limitacoes deste estudo tambem devem ser consideradas ao analisar os resultados obtidos. Uma delas se refere ao fato de que as vivencias referentes ao periodo do tratamento foram acessadas apenas de forma retrospectiva. Assim, e possivel que o tempo transcorrido e a propria vivencia da gravidez tenham influenciado a forma como esse periodo foi avaliado. A experiencia das TRA faz parte do passado desses casais. No momento da entrevista, eles vivenciavam a realizacao de uma meta: a concretizacao da gravidez e a proximidade do nascimento do bebe. E provavel, portanto, que o relato desses casais a respeito da experiencia das TRA seja diferente daqueles que estao passando pelo tratamento ou daqueles que nao conseguiram alcancar a gravidez.

Embora se tenha buscado certa variedade nos casos selecionados, e necessario destacar que a populacao alvo deste estudo e bastante especifica: casais que conseguiram engravidar e que se mantiveram juntos ao longo do processo. De acordo com Sydsjo et al. (2002), trata-se de casais que encontraram formas de impedir que o estresse vivenciado pusesse fim a sua relacao. Casais que se separam em funcao desse processo provavelmente descreverao de maneira diversa sua coesao, sua sexualidade e sua comunicacao durante o tratamento. Alem disso, os casais participantes deste estudo realizaram apenas uma ou duas tentativas para engravidar atraves das TRA. Segundo alguns autores (Repokari et al. 2007), o numero de tentativas realizadas pelo casal tende a afetar sua adaptacao a essa experiencia. Dessa forma, seria interessante que fossem desenvolvidos estudos que acompanhassem os casais desde o inicio da realizacao do tratamento, verificando as diferencas entre aqueles que engravidam e os que nao engravidam, entre os que se separam e os que permanecem juntos e entre aqueles que se submeteram a diferentes numeros de tentativas.

Alem disso, nao fez parte dos objetivos deste estudo avaliar as diferencas entre a experiencia da gravidez em casais que engravidaram com o auxilio das TRA e casais que conceberam naturalmente. Futuramente, podem ser desenvolvidos estudos que tracem um paralelo entre essas populacoes, a partir de uma abordagem qualitativa.

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Recebido em 14.12.2009

Primeira decisao editorial em 09.08.2010

Versao final em 08.10.2010

Aceito em 10.12.2010

Isabela Machado Silva (2)

Rita de Cassia Sobreira Lopes

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

(1) Trabalho derivado da dissertacao de mestrado da primeira autora, orientada pela segunda. Apoio: CNPq e FAPERGS.

(2) Endereco para correspondencia: Rua Ramiro Barcelos, 2600, sala 108, Santa Cecilia. Porto Alegre, RS. CEP 90035-003. E-mail: isabela.ms@ gmail.com

(3) Para preservar a privacidade dos participantes, todos os nomes apresentados, neste trabalho, sao ficticios.

(4) O nivel socioeconomico foi avaliado a partir da adaptacao das categorias de Hollingshead proposta por Tudge e Frizzo (2002). Nessa escala, os casais se enquadraram respectivamente nas categorias 4, 5 e 3.
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Author:Machado Silva, Isabela; Sobreira Lopes, Rita de Cassia
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Article Type:Report
Date:Oct 1, 2011
Words:8521
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