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Reflections on memory in fiction of Machado de Assis and on the work of Paul Ricoeur/ Reflexoes sobre a memoria na ficcao de Machado de Assis e na obra de Paul Ricoeur.

Introducao

O desenvolvimento deste artigo (1) baseia-se em uma discussao a respeito da memoria a partir das obras de Machado de Assis, Memorias Postumas de Bras Cubas e de Paul Ricoeur, A Memoria, A Historia e o Esquecimento. O interesse por empreender esta analise surgiu a partir da possibilidade de entender melhor as teorias da memoria, como forma de aprimorar os conhecimentos na area, bem como a possibilidade de subsidiar um dialogo entre autores de estilos tao diferentes.

Aproximar a literatura de ficcao da historia e da memoria e uma tarefa ardua, uma vez que cada uma tem seus metodos e epistemologias; logo, nenhuma dessas areas tem prioridade sobre a outra, pois todas tem suas particularidades e sao discutidas nos espacos academicos (Rangel, Pereira, & Araujo, 2012).

Nesse sentido, ao pensar o lugar que a memoria ocupa na literatura de ficcao e interessante recorrer a Ricoeur, visto que ele desenvolveu diversos recursos teoricos que nos permitem refletir sobre o mundo textual. Por meio da hermeneutica, esse pensador frances desenvolveu conceitos e definicoes acerca de narrativas historicas e ficcionais que contribuiram para a analise textual e narrativa (Vilarinho, 2013).

Ainda conforme Vilarinho (2013), a hermeneutica de Ricoeur, que considera o passado como um produtor de sentido, e uma importante ferramenta para compreender o outro por meio da escrita, pois a interpretacao das narrativas e ampla e abarca diversos generos literarios como o ficticio, o historico, o romantico e o poetico.

Sendo assim, a hermeneutica de Ricoeur e apropriada para entender como e construida a memoria na literatura machadiana. Importante autor do seculo XVIII, Machado de Assis retratou o contexto carioca de sua epoca e, com isso, permitiu que historiadores se apoiassem em suas narrativas ficcionais para melhor compreender o periodo historico no qual estao inseridas suas obras (Chalhoub, 2003).

Dessa forma, com base no entendimento das teorias da memoria, eis que surge uma questao que norteia a abordagem deste estudo: qual a concepcao de memoria que emerge nas referidas obras de Machado de Assis e de Paul Ricoeur?

Sendo assim, o objetivo deste artigo e analisar a concepcao de memoria na ficcao romancista Memorias Postumas de Bras Cubas e na obra A Memoria, A Historia e o Esquecimento, bem como apresentar algumas singularidades da referida obra machadiana a luz da teoria de Ricoeur.

Material e metodo

Trata-se de um artigo de revisao narrativa com abordagem qualitativa, visto que considera a existencia de uma relacao dinamica entre o mundo real e o objeto de estudo. Segundo Minayo (2002, p. 21), a pesquisa qualitativa "[...] responde a questoes muito particulares. Ela se preocupa, nas ciencias sociais, com um nivel de realidade que nao pode ser quantificado".

O corpus constituiu-se em bases bibliograficas, sendo que as fontes secundarias foram obtidas a partir do romance de Machado de Assis intitulado Memorias Postumas de Bras Cubas de 1894 e da obra de Paul Ricoeur traduzida no Brasil com o titulo A Memoria, A Historia e o Esquecimento (2007). Logo, no sentido de dar melhor entendimento ao objetivo proposto foram usadas, de modo complementar, as obras Tempo e narrativa. Tomo III, tambem de Ricoeur, publicada no Brasil em 1997; Materia e Memoria, de Heni Bergson, com publicacao em 1999; e A Memoria Coletiva, edicao de 2006, do autor Maurice Halbwachs.

Procedeu-se a analise critica dos livros a partir de uma revisao narrativa que e a mais adequada para estes tipos de estudos por ser considerada apropriada a discussao do estado da arte de um determinado assunto mediante uma base teorica e conceitual. Para Rother (2007), as revisoes narrativas constituem-se a partir da analise e interpretacao critica do autor acerca da tematica escolhida com base em livros, artigos, revistas eletronicas ou impressas.

A memoria em Paul Ricoeur

A obra A memoria, a historia, o esquecimento (2007), de Paul Ricoeur, traz uma discussao muito interessante e abrangente sobre a triade: memoria, historia e esquecimento. No entanto, neste texto, analisaremos como o campo da memoria se estabelece em sua obra, bem como abordaremos de modo mais singular o esquecimento. Para esse autor, a memoria e o esquecimento estao intimamente ligados, na medida em que a primeira enfatiza as razoes que levam ao esquecimento.

Logo no inicio do seu livro, Ricoeur (2007, p. 23) nos chama a atencao e nos faz refletir acerca de duas questoes: "[...] Do que lembramos? De quem e a memoria?". Essas indagacoes formuladas a partir da fenomenologia de Husserl colocam em evidencia uma abordagem pautada no sentido de que "[...] toda consciencia e consciencia de alguma coisa", e esta intencionalidade, para Ricoeur, suscita questionar que "[...] lembrar-se de alguma coisa e, de imediato, lembrar-se de si?". O filosofo pondera ainda que no campo da memoria houve durante muito tempo uma preferencia pela questao 'quem', que foi logo foi questionada com o advento do conceito de memoria coletiva.

Se nos apressarmos a dizer que o sujeito da memoria e o eu, na primeira pessoa do singular, a nocao de memoria coletiva podera apenas desempenhar o papel de conceito analogico, ou ate mesmo de corpo estranho na fenomenologia da memoria (Ricoeur, 2007, p. 23).

Nesse sentido, ele propoe que partamos primeiramente da questao 'o que?' e, somente depois, a pergunta 'quem?' (Ricoeur, 2007, p. 23). Esta e a proposta inicial em sua obra: passar "[...] da lembranca a memoria refletida, passando pela reminiscencia". E, dessa forma, poder-se-ia tratar a memoria em seu aspecto coletivo (Ricoeur, 2007, p. 24).

Recorrendo a afirmacao de Aristoteles, segundo a qual "[...] a memoria e passado [...]", Ricoeur (2007, p. 25) se ve diante de uma aporia que relaciona memoria a imagem, pois "[...] dizemos indistintamente que nos representamos um acontecimento passando, ou que temos dele uma imagem, que pode ser quase visual ou auditiva". O autor tambem diferencia o que e imaginacao e memoria.

A imaginacao, voltada para o fantastico, a ficcao, o irreal, o possivel, o utopico; a outra, a da memoria, voltada para a realidade anterior, a anterioridade que constitui a marca temporal por excelencia da 'coisa lembrada', do 'lembrado' como tal" (Ricoeur, 2007, p. 26, grifos do autor).

Assim, Ricoeur (2007) entende a memoria como uma experiencia que o individuo tem de (re) significar ou de (re)presentar; assim sendo, ela permite trazer a tona dados que nao se encontram no presente, fazendo com que se repense sobre algo, que se reflita sobre alguma realidade.

A memoria e mais que a simples busca de uma imagem para representacao do passado, e mais que um reservatorio de lembrancas. Ela se constitui de tal forma que e possivel realizar a busca de um dado real que foi guardado, uma representacao de fatos, dados ou coisas reais. A rigor, a memoria e uma especie de defesa contra o esquecimento por meio dos exercicios mnemonicos.

Ao incluir a problematica da imagem no que e lembrado, ou ainda, em como e formada a memoria a partir da imaginacao, Ricoeur (2007) incita o debate sobre qual a verdade da memoria. Nesse interim, Ricoeur (2007, p. 27) fundamenta o que chama de "[...] estatuto veritativo da memoria", em outras palavras, um compromisso fiel com o passado. Porem, para isso ele recorre aos ensinamentos de Platao e Aristoteles que, respectivamente, entendem a memoria como "[...] representacao presente de uma coisa ausente" e "[...] representacao de uma coisa anteriormente percebida" (Ricouer, 2007, p. 27); conferindo, dessa forma, um sentido de complementariedade dos antigos a sua teoria.

Ademais, Ricoeur (2007), ao apresentar um carater valorativo da memoria, acaba por tracar a fenomenologia embasada em uma tradicao filosofica. Para tanto ele pontua algumas singularidades entre memoria e imaginacao. Para Ricoeur (2007, p. 61),
   [...] certamente, dissemos e repetimos que a imaginacao e a memoria
   tinham como traco comum a presenca do ausente, e como traco
   diferencial, de um lado, a suspensao de toda posicao de realidade e
   a visao de um irreal, do outro a posicao de um real anterior.


Podemos tambem notar que Ricoeur valeu-se dos preceitos de Bergson para situar a diferenca entre imaginacao e memoria, pois, no livro Materia e Memoria, o autor diz que,

[...] uma lembranca, a medida que se atualiza, sem duvida tende a viver numa imagem; mas a reciproca nao e verdadeira, e a imagem pura e simples nao me remetera ao passado menos que tenha sido de fato no passado que eu tenha ido buscar, seguindo assim o progresso continuo que a levou da obscuridade para a luz (Bergson, 1999, p. 158).

Na leitura de Ricoeur (2007) e notavel perceber que a memoria e tratada e discutida na perspectiva de legitimar o discurso da historia escrita, no sentido de conferira memoria um dever de legitimacao, uma vez que afirma que "[...] a memoria continua sendo a guardia da problematica da relacao representativa do presente com o passado" (Ricoeur, 2007, p. 100).

A memoria em Bras Cubas

No livro Memorias Postumas de Bras Cubas, que e considerado um romance moderno e psicologico da literatura brasileira, o leitor e surpreendido pelo inusitado de se tratar de uma obra narrada por um morto. A personagem principal, Bras Cubas, apresenta memorias que foi escrita por uma pessoa que ja morreu e nao por alguem que sabe que vai morrer. A obra se aproxima do niilismo de Nietsche, pois, no prologo ao leitor, o 'defunto-narrador' confessa ter se apropriado de um pessimismo para relatar a propria morte. Assim o livro e dedicado "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadaver dedico como saudosa lembranca estas memorias postumas" (Assis, 1994, p. 1).

Alem desse ineditismo inserido na logica interna da obra, Machado de Assis insere, tambem, outros elementos que merecem uma reflexao, como e o caso do delirio protagonizado por Bras Cubas antes de morrer, durante o qual ele dialoga com Pandora, personagem bastante interessante por ser senhora do vazio e representar o delirio de Bras Cubas. Alem disso, ha uma presenca enigmatica de uma borboleta preta e, ao final, ha um reencontro com o niilismo que vincula as reminiscencias postumas de Bras Cubas a filosofia de Nietsche, quando o narrador diz: "Nao tive filhos, nao transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miseria" (Assis, 1994, p. 140).

Feita esta analise inicial, podemos discorrer acerca de como e abordada e empregada a memoria nesta obra. E inquestionavel o interesse do autor pelo tema, especialmente neste livro em questao, no qual a memoria e inserida por meio dos fatos narrados e das recordacoes vividas pela personagem central, Bras Cubas. Para Peres e Massimi (2008), tem-se nesta obra uma descricao qualitativa do uso da memoria como uma experiencia vivida. Ainda para esses autores, Machado de Assis revela com muita clareza diferentes aspectos da memoria, na medida em que as lembrancas sao usadas de um modo muito dinamico.

Outro fato interessante na obra e a possibilidade de analisar a memoria em Bras Cubas do ponto de vista halbwachsiano, ou seja, Machado de Assis tambem faz referencia as memorias coletivas, ao fazer uso de memorias individuais. Para Halbwachs (2006), a memoria individual nao deve ser distanciada da coletiva, pois o resgate do passado nao e possivel de modo isolado. Nesse sentido, Bras Cubas, ao usar as suas memorias pessoais, esta recorrendo as memorias coletivas. Afinal, como aponta Halbwachs (2006), o individuo que evoca seu passado nao raro o faz apoiado em lembrancas de outros individuos.

Alem disso, neste romance, o autor busca, por meio de seu narrador ficcional, fazer um resgate de seu passado no intuito de desvelar, aos leitores, sua propria existencia. O enfoque nos pequenos detalhes rememorados, bem como nos gestos descritos, nos remete a uma questao que surge ao tratarmos de memoria, o tempo. A duracao do tempo para Bras Cubas e algo muito particular, o que fica evidenciado em varios trechos do livro:

Comeco a arrepender-me deste livro. [...] porque o maior defeito deste livro es tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narracao direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo s o como os ebrios, guinam a direita e esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameacam o ceu, escorregam e caem ... (Assis, 1994, p. 78).

Bras Cubas faz referencia a um tempo proprio de sua existencia, que se dilata em um tempo psicologico. A construcao desses detalhes da a obra este efeito de um tempo proprio, no qual o narrador imprime a sua experiencia na temporalidade vivenciada.

A rigor, e pertinente recorrer a teoria de Bergson (2006) neste momento visto que e perceptivel em Bras Cubas uma singularidade com a teoria bergsoniana. Sendo assim, Bergson (2006) entende que a nocao de tempo esta associada a uma sucessao de acontecimentos que ocorrem no decorrer da vida e que se vinculam a memoria da consciencia. Esta ultima, por sua vez, tem a capacidade de organizar o que e antes e depois, bem como de conferir ao acontecimento uma duracao, entendida pelo autor como o correr do tempo uno e interpenetrado. Ainda, segundo o autor, a duracao esta relacionada a intuicao. Este fenomeno pode ser claramente observado no seguinte trecho:

Meu caro critico,

Algumas paginas atras, dizendo eu que tinha cinquenta anos, acrescentei: "Ja se vai sentindo que o meu estilo nao e tao lesto como nos primeiros dias". Talvez aches esta frase incompreensivel, sabendo-se o meu atual estado; mas eu chamo a tua atencao para a sutileza daquele pensamento. O que eu quero dizer nao e que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte nao envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narracao da minha vida experimento a sensacao correspondente. Valhame Deus! e preciso explicar tudo (Assis, 1994, p. 126, grifo do autor).

A nocao de tempo em Bras Cubas pode ser entendida de acordo com Bergson, pois "[...] nao ha duvida de que o tempo, para nos, confunde-se inicialmente com a continuidade de nossa vida interior" (Bergson, 2006, p. 51). Nesse sentido, e possivel perceber, tanto na concepcao de tempo em Bras Cubas como em Bergson, que ha uma referencia ao passado como elemento complementar e constituinte do presente. Esse passado que e a condicao de movimento do tempo. Essa nocao de tempo percebida em Bras Cubas e estudada por Bergson esta ancorada no campo da memoria e e sustentada por um fluxo interno da consciencia humana.

Outra analise que emerge dessa leitura e o fato de que a memoria e tratada como arte. Nessa obra de Machado de Assis, a narracao dos fatos pelo defuntoautor traz a tona aquilo que esta nas vesperas do esquecimento. Isto e, ainda que a acao do tempo concorra contra a memoria, o texto se atualiza a cada leitura. Entretanto, o ato de ficcionalizar os processos que envolvem a memoria fez do romance machadiano uma obra em que a memoria e tratada como arte.

Assim, a relacao que se estabelece entre ficcao e memoria e um dos focos da obra, na medida em que Machado de Assis nos convida a entender que a ficcao literaria utilizada por ele e um dos componentes que nao se distancia da realidade:

[...] ao narrar a historia de vida de um defunto autor, Machado transgrediu os limites da verdade na condicao de que o proprio enunciador das memorias ser um defunto (Siqueira, 2010, p. 18).

Em Bras Cubas, a memoria, usada enquanto recurso artistico, revela-se como autentica, pois a lembranca evocada por Bras Cubas confere a memoria um significado de verdade, uma legitimidade. As narrativas estabelecem um pacto entre o autor e o leitor, ou seja, fazem destes cumplices do que esta sendo narrado. Nesse sentido,

[...] as memorias, portanto, sao uma busca de recordacoes por parte do eu-narrador com o intuito de evocar pessoas e acontecimentos que sejam representativos para o momento presente e para o momento posterior do qual este eu-narrador escreve (Siqueira, 2010, p. 28).

Por fim, destaca-se, em Bras Cubas, uma memoria que esta intimamente ligada a individualidade e a imaginacao do narrador, que vai dando o contorno as suas recordacoes. Ha tambem um aspecto de reminiscencia do passado, revelado pelo carater orgulhoso com que aquele narra as suas memorias. Estas, por sua vez, sao trabalhadas por meio da evocacao de seu comportamento enquanto esteve vivo e o significado conferido a elas por Bras apos sua morte. A consciencia tambem esta evidenciada pela rememoracao de suas sensacoes preteritas, mediante a qual Bras Cubas faz reflexoes sobre sua vida, suas motivacoes e seus desejos por meio de suas memorias postumas.

Singularidades

Tentar tracar um dialogo entre um filosofo frances contemporaneo como Paul Ricoeur e um escritor romancista brasileiro como Machado de Assis e, de antemao, uma tarefa ardua, por alguns motivos. Primeiro, a diferenca de tempo em que as obras foram escritas e, segundo, que nao houve influencia de um na obra do outro, ate mesmo pelo estilo proprio de cada um. Porem, este texto tem a pretensao de tracar algumas singularidades que sao perceptiveis entre Memorias Postumas de Bras Cubas a luz da leitura de A Memoria, A Historia e o Esquecimento.

Nesse sentido, ao analisar o referido romance machadiano, percebe-se que e a partir de seu narrador principal, diga-se de passagem, um defunto autor, que a realidade narrada esta vinculada a sua imaginacao. Este fato nos faz suscitar que esta obra seria meramente ficcional, porem, se analisarmos o contexto historico da epoca em que foi escrita, percebemos muitas semelhancas com a sociedade de entao. Assim, Machado de Assis nos da a oportunidade de conhecer, a partir de uma ficcao romancista, uma corte escravocrata do seculo XIX.

Em Ricoeur (2007, p. 274-275), temos uma diferenciacao entre a narrativa de ficcao e a historia, uma vez que, para ele, sao coisas distintas, onde "[...] distinguem-se pela natureza do pacto implicito ocorrido entre o escritor e seu leitor. Embora informulado, esse pacto estrutura expectativas diferentes, por parte do leitor, e promessas diferentes, por parte do autor."

No entanto, em Tempo e Narrativa III (1997), o proprio Ricoeur, afirma que ha uma singularidade entre a narrativa historica e ficcional, pois,

A ficcao e quase historica tanto quanto a historia e quase ficticia. A historia e quase ficticia tao logo a quase-presenca dos acontecimentos colocados 'diante dos olhos' do leitor por uma narrativa animada supre, por sua intuitividade, sua vivacidade, o carater esquivo da passividade do passado, que os paradoxos da representancia ilustram. A narrativa de ficcao e quase historia na medida em que os acontecimentos irreais que ela relata sao fatos passados para a voz narrativa que se dirige ao leitor; e assim que eles se parecem com acontecimentos passados e a ficcao se parece com a historia (Ricoeur, 1997, p. 229, grifo do autor)

Ainda para o filosofo frances, "[...] a relacao e, alias, circular: poderiamos dizer que e como quase historica que a ficcao confere ao passado essa veracidade de evocacao que faz de um grande livro de historia uma obra-prima literaria" (Ricoeur, 1997, p. 330).

Nesse sentido, temos em Bras Cubas uma narrativa ficticia, mas que, pela proximidade com o cenario social da epoca, nos e oferecida tambem uma narrativa quase historica, na qual e retratada uma representacao do tempo passado.

A rigor, na leitura de Machado de Assis, podemos perceber que o uso da memoria privilegiou uma reflexao sobre como era escrita a historia por meio das relacoes que Bras Cubas conservava com a memoria. E, de modo similar, como esta personagem central ia rememorando fatos passados por meio de sua imaginacao. Dessa forma, este romance nao teve a pretensao de desenhar uma realidade para o uso da historia; nele, o uso da imaginacao estabeleceu um nexo de proximidade da narrativa com a realidade da epoca. Recorrendo a Ricoeur (2007) entendemos que o carater imaginativo, que foi estabelecido na recordacao de Bras Cubas, constituiu uma relacao de proximidade com a memoria abordada em Ricoeur, por meio da narrativa e de suas lembrancas.

Ainda para Ricoeur (2007), a memoria esta relacionada a algo vivido no passado, algum fato que ocorreu. Ja a imaginacao diz respeito a algo ficcional, que nao tem a obrigatoriedade de ter efetivamente acontecido. Ambas, no entanto, estao vinculadas com um acontecimento que nao esta presente, esta ausente. Essa diferenciacao entre a memoria e a imaginacao, bem como a ideia de algo ausente, nos aproxima com a narrativa em Bras Cubas, uma vez que o sujeito e o narrador, que mesmo depois de morto, continua a existir, rememorando o ausente e narrando os fatos.

A imaginacao em Memorias Postumas de Bras Cubas cria uma temporalidade que ultrapassa o tempo do mundo para contar uma historia, sem necessariamente ter a obrigatoriedade de ser fiel a realidade. Sendo assim, para Ricoeur (2007, p. 438), "[...] se uma lembranca volta, e porque eu a perdera; mas se, apesar disso, eu a reencontro e reconheco, e que sua imagem sobrevivera". Portanto, a narrativa ficcional atribui a um tempo imaginado certa existencia, que por sua vez se relaciona com o reconhecimento de uma lembranca, de uma imagem.

Consideracoes final

Por todo o exposto, fica evidenciado que a teoria de Ricoeur contribuiu de forma significativa para a analise pontual da obra machadiana. A partir da interpretacao e compreensao dos conceitos de Ricoeur foi possivel entender sob que perspectiva foi abordada a memoria em Bras Cubas.

Ficou evidenciado, tambem, que a memoria, enquanto recurso ficcional e artistico, foi empregada por Machado de Assis para entender o passado a partir das narrativas de seu personagem central e que estas corresponderam a um conjunto de fatos que foram rememorados por Bras Cubas, mas nao apenas na esfera individual, como tambem vinculada a um contexto polissemico, ou seja, baseados em uma perspectiva politica, cultural e social; o que tornou possivel analisar a obra sob a perspectiva da memoria coletiva halbwachsiana.

Finalmente, a partir da narrativa ficcional de Machado de Assis e possivel entender a sociedade escravocrata da corte do seculo XIX, visto que o potencial de referencia contido na obra nos permite, por meio da leitura de Ricoeur, apontar que em Bras Cubas tem-se uma narrativa quase historica.

Doi: 10.4025/actascihumansoc.v40i2.33677

Referencias

Assis, J. M. M. (1994). Memorias postumas de Bras Cubas. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar.

Bergson, H. (1999). Materia e memoria. Ensaio sobre a relacao do corpo com o espirito (Paulo Neves, trad.). Sao Paulo, SP: Martins Fontes.

Bergson, H. (2006). Duracao e simultaneidade: a proposito da teoria de Einstein (Claudia Berliner, trad.). Sao Paulo, SP: Martins Fontes.

Chalhoub, S. (2003). Machado de Assis, historiador. Sao Paulo, SP: Companhia das Letras.

Halbwachs, M. (2006). A memoria coletiva (2a ed., 7a reimp.). Sao Paulo, SP: Edicoes Centauro.

Minayo, M. C. S. (2002). Pesquisa social: teoria, metodo e criatividade (21a ed.). Petropolis, RJ: Vozes.

Peres, S. P, & Massimi, M. (2008). O conceito de memoria na obra de Machado de Assis. Memorandum, 15, 20-34.

Rangel, M. M., Pereira, M. H. F., & Araujo, V. L. (2012). O giro-linguistico e a historiografia: balanco e perspectivas. In Caderno de resumos & Anais do 6[degrees] Seminario Brasileiro de Historia da Historiografia (p. 299-305). Ouro Preto, SP: EdUFOP.

Ricoeur, P (1997). Tempo e narrativa. Tomo III. (Roberto Leal Ferreira, trad.). Campinas, SP: Papirus.

Ricoeur, P (2007). A memoria, a historia, o esquecimento. Campinas, SP: Unicamp.

Rother, E. T. (2007) Editorial: revisao sistematica X revisao narrativa. Acta Paul Enfermagem, 20(2), 5-6. doi: 10.1590/S0103-21002007000200001

Siqueira, L. R. (2010). O heroi das memorias: Analise em memorias postumas de Bras Cubas e memorias de um sargento de milicias (Dissertacao de Mestrado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

Vilarinho, M. (2013). O mundo do texto na hermeneutica de Paul Ricoeur: um breve estudo sobre as narrativas ficcional e historica nos trabalhos do literato Machado de Assis e do historiador Sidney Chalhoub. Revista de Historia, 5(1-2), 359-379.

Received on October 1, 2016.

Accepted on August 16, 2017.

(1) As referidas obras sao: Memorias Postumas de Bras Cubas, de Machado de Assis, e A Memoria, a Historia e o Esquecimento, de Paul Ricoeur.

Renato Novaes Chaves *, Maykon dos Santos Marinho e Luciana Araujo dos Reis

Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Estrada do Bem Querer, Km 4, Cx. Postal 95, 45083-900, Vitoria da Conquista, Bahia, Brasil.

* Autor para correspondencia: rnc_novaes@hotmail.com
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Title Annotation:CIENCIAS SOCIAIS; texto en portugues
Author:Chaves, Renato Novaes; Marinho, Maykon dos Santos; dos Reis, Luciana Araujo
Publication:Acta Scientiarum. Human and Social Sciences (UEM)
Date:May 1, 2018
Words:3998
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