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Reflecting on interpretations, crations and learning with Daniel Wolff's Soprando nas nuvens/Refletindo nas nuvens: interpretacoes, criacoes e aprendizagens em Soprando nas nuvens, de Daniel Wolff.

Introducao

Daniel Wolff e violonista, professor, compositor e arranjador. Nascido e residente em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e professor de violao na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como instrumentista e professor convidado em diversos paises da Europa e America, em turnes individuais, de musica de camara, junto a orquestras, em festivais e universidades diversas. Como compositor e arranjador, escreve para formacoes diversas, incluindo musica de camara e musica para orquestra, bem como composicoes e arranjos de cancoes populares (http://www.danielwolff.com.br/sobre.htm). Para flauta doce, alem de Soprando nas nuvens, escreveu Flautata doce, para quarteto de flautas doces, dedicada "as flautistas da minha terra".

Soprando nas nuvens (doravante SN) e um conjunto de pecas para flauta doce, compostas para o projeto Novas musicas para novos flautistas, em que compositores foram convidados a escrever pequenas pecas para flauta doce ou transversa a partir de uma lista se sugestoes de composicao que visavam contemplar aspectos tecnicos e musicais relacionados ao aprendizado destes instrumentos.

A obra pode ser situada nos contextos de obras de Daniel, de pecas encomendadas e colaboracoes compositor/interprete, de pecas didaticas e do repertorio contemporaneo para flauta doce no Brasil.

Na obra de Daniel, colaboracoes com interpretes e encomendas de composicoes e arranjos sao comuns, seja para os grupos em que atua, seja para grupos que solicitam seu trabalho. SN e Flautata doce sao suas unicas pecas para flauta doce. SN e os Tres pequenos estudos para clarinete sao suas unicas pecas didaticas.

No repertorio contemporaneo para flauta doce produzido no Brasil, SN insere-se na tradicao de colaboracao entre instrumentistas, professores e compositores que resulta no grande numero de pecas para flauta doce produzidas em Porto Alegre (ver Barros, 2010 e Carpena, 2014). Porem, este repertorio e formado majoritariamente por pecas para o flautista profissional.

No repertorio didatico para flauta doce, SN insere-se localmente na tradicao de pecas para alunos do Projeto Preludio (Programa de Extensao do Instituto Federal de Educacao, Ciencia e Tecnologia do Rio Grande do Sul Campus Porto Alegre que oferece aulas de instrumento musical a criancas e jovens entre 5 e 17 anos). Nacionalmente, enquanto o repertorio para iniciantes de flauta doce disponivel em metodos e albuns e limitado estetica, ritmica e tecnicamente, com predominio de obras tonais, em compasso quaternario, com minimas, seminimas e colcheias, na tonalidade de Do Maior, sem uso de tecnicas estendidas e consiste predominantemente de pecas do folclore brasileiro e alemao, pecas do periodo renascentista e barroco e algumas composicoes novas seguindo os padroes mencionados acima (Daenecke, 2009 e Cuervo, 2009), SN apresenta tonalidades de Re Maior, Sol Maior, Fa Maior, mi menor e o modo Sol mixolidio; acidentes ocasionais; figuras ritmicas de colcheias, seminimas, minimas e seminimas e minimas pontuadas; compassos 3/4, 4/4, 2/4, 6/8, 7/8 e 2/2; trechos falados, trechos cantados e trechos com batidas de pe no chao.

Como um dos objetivos do projeto Novas musicas para novos flautistas era a criacao de repertorio para iniciantes de flauta doce e transversa mais rico em estilos, organizacoes tonais, ritmos e tecnicas, mantendo nivel tecnico e musical adequado a principiantes, enviei aos compositores participantes uma uma lista de ideias e recomendacoes para composicao: "ideias gerais"--mais amplas, como sugestoes de formacao, extensao ou tessitura da peca; e "blocos de recomendacoes especificas"- solicitacoes especificas para contextos em sala de aula e/ou objetivos especificos (como aprender um determinado dedilhado, por exemplo). Cada compositor deveria escolher as sugestoes que utilizaria, se e como as combinaria entre si e como as utilizaria nas suas pecas.

1. Soprando nas nuvens

SN sao 10 pecas a uma, duas e quatro vozes, com variacoes entre flauta doce soprano, tenor e contralto, intercambiaveis entre si. Cada peca tem de 9 a 35 compassos. Podem ser tocadas na sequencia ou separadamente. Foram compostas em julho e agosto de 2016, durante voos no Brasil e nos Estados Unidos, conforme relato do autor.

Os seguintes aspectos presentes nas pecas refletem sugestoes da lista de ideias e recomendacoes:

--os conjuntos de notas mi, re e fa# da primeira 8a da flauta doce, em SN I e II (Figura 1); os saltos de 8a de mi e sol, em SN VIII; as combinacoes de notas mi e re e mi e re# da primeira 8a em SN IX; a sequencia de notas re, do, fa da primeira 8a, acrescida de outras notas, em SN VI.

--as tonalidades de Re Maior (SN II), Sol Maior com extensao de sol a re da primeira 8a (SN III e IV).

--notas alteradas (SN VIII, IX e X)

--percussao corporal (SN I) (Figura 1)

--voz (SN V e VI)

--troca de compasso mantendo unidade de tempo (SN V e VI)

--troca de compasso mantendo unidade de tempo; (SN V e VI)

--compassos 3/4, 4/4, 2/4, 6/8, 7/8 e 2/2;

--canone (SN III)

--sugestoes de articulacao: ligaduras e stacatos, em todas pecas.

Daniel utilizou a ideia de escrever pecas a duas vozes em que uma das vozes seja limitada as sugestoes especificas da lista, destinada portanto aos alunos iniciantes e a outra nao, destinada portanto a professora ou a um aluno mais avancado (Figura 1).

Alem da voz livre das especificacoes, Daniel acrescentou notas em SN VI, determinou o uso de voz falada e cantada e a percussao corporal como batidas de pe no chao.

A intencao didatica do compositor, explicita no subtitulo da serie, "pecas didaticas para flauta doce" foi perceptivel nos nossos contatos. Daniel fez perguntas especificas sobre as minhas sugestoes, das quais destaco o interesse em compreender se os conjuntos de notas eram apenas conjuntos de notas ou se deveriam ser compreendidos como uma sequencia de notas e explicou pessoalmente como algumas escolhas composicionais foram pautadas por objetivos didaticos.

A voz falada em SN V (Figura 2) aparece "para ajudar a entender o compasso" e porque "talvez eles achem divertido ter que falar e tocar" as batidas de pe no chao em SN I, "para ajudar a contar as pausas" e porque "poderia ser divertido" e SN X propositalmente reune os aspectos que foram trabalhados anteriormente, para o caso de se usar a serie progressivamente.

Assim, e possivel pensar que as indicacoes de andamento/carater para cada peca (Moderatto, Alegretto, Andante, Allegro ma non troppo, Tempo giusto, Andantino e Allegro giocoso) tenham a intencao de apresentar estes termos.

Trabalhei com as pecas de SN com alunos de flauta doce e de flauta transversa do curso de Instrumento Musical do Projeto Preludio, entre setembro de 2016 e dezembro de 2017. Os alunos tinham de 8 a 15 anos e tinham aulas individuais ou em grupos de ate 4 alunos.

2. Aprendendo nas nuvens

O trabalho com as pecas proporcionou a aprendizagem e aperfeicoamento de aspectos tecnicos e teoricos especificos conforme o esperado e planejado na elaboracao das sugestoes para composicao: dedilhados e movimentos dos dedos, articulacoes, formulas de compasso e ritmos especificos.

Proporcionou tambem, ainda que nao fossem objetivos iniciais, a previsivel aprendizagem de notacao musical (notas, figuras ritmicas, acidentes, pausas e sinais graficos de articulacao) e indicacoes de andamento e carater, bem como possibilidade de pratica de leitura ou revisao dos aspectos tecnicos abordados.

A percussao corporal, no caso das batidas de pe no chao em SN I auxiliou na reorganizacao corporal de um aluno que, ao bater o pe no chao, desestabilizou completamente o seu padrao de organizacao corporal pouco saudavel e, a partir dai, encontrou espontaneamente uma nova organizacao.

3. Interpretando nas nuvens

O processo interpretativo de SN torna-se interessante do ponto de vista didatico no sentido de que os aprendizes de um instrumento devem aprender a interpretar, e do ponto de vista artistico, no sentido da constatacao de que os aprendizes de um instrumento ja sao interpretes, ainda que sob orientacao de um professor.

Dentre as escolhas interpretativas observadas, cito as consideracoes sobre indicacoes de andamento, as experimentacoes e a escolha de andamentos finais; o aprendizado, o refinamento, as experimentacoes e as escolhas das articulacoes especificas para cada peca, ainda que grafadas estivesses apenas ligaduras e staccatos; as consideracoes e conversas sobre o carater, as tentativas de tocar com pequenas variacoes de andamento, sonoridade e articulacao ate encontrar o carater adequado da peca; as opinioes esteticas e as relacoes com outros estilos musicais, verbalizados em comentarios como "que fofa essa musica!" (SN III), "parece musica de videogame!" (SN VIII), "parece assim uma dancinha" (SN I) e "parece aquelas musicas de goblins, aquelas dancas da Idade Media" (SN I).

As escolhas interpretativas sao importantes porque sao compreendidas como parte da interpretacao. Levinson (1993) e Hermeren (1993), argumentam que o interprete, ao construir a sua ideia de como uma obra deve soar, faz escolhas interpretativas: dinamica, andamento, carater, intencao, dentre outros.

Tambem sao importantes porque mostram profundidade de interpretacao da partitura.

Goodman explica que cada performance apresenta nuances finas de dinamicas, alturas, andamentos e duracoes, dentre outros, que nao podem ser indicadas com precisao na partitura e, portanto sao determinadas a partir de "instrucoes suplementares". Estas podem vir impressas junto a partitura, ser determinadas tacitamente pela tradicao, pela orientacao do professor ou do maestro, etc. (cf. Raffman 1993: 218-219).

Kuehn presume "que o verbo latino interpretare tenha a sua origem na expressao interpetras, que significa algo como "entre-pedras" e que "interpretar" corresponde a tarefa de trazer a luz nao apenas o que esta escrito, mas tambem (ou principalmente) o que esta entre as indicacoes grafadas em letras, notas, sinais ou signos, isto e, nas entrelinhas" (Kuehn 2010: 748).

Por outro lado, Hermeren (1993) e Levinson (1998) citam as possibilidades e problemas interpretativos de uma obra musical como criterio de qualidade. Entao, se os alunos mostraram-se bons interpretes, SN mostrou-se boa obra.

A verbalizacao das opinioes esteticas e das relacoes com outros estilos musicais e relevante porque descricoes e estabelecimento de relacoes garantem que houve compreensao da musica e que portanto a execucao nao e mera imitacao (Sibley, 1993: 174).

Encerro estes relatos narrando um episodio durante o trabalho com SN III (Figura 3). Na tentativa de uma execucao mais delicada, cantabile e no carater da peca, falei "e quase assim flutuando nas nuvens". Os alunos responderam "pior, parece mesmo, um passarinho assim" e comecaram a cantar a musica movimentando os bracos como se fossem asas. Ainda pensando e construindo relacoes, acrescentei "parece musica de natal tambem". E a resposta veio com uma aluna cantando a melodia da peca com a letra "hora de cantar junto aos sininhos e tambem jantar junto com os anjinhos (Figura 4).

Essa criacao da letra faz parte do processo interpretativo? E uma recriacao de SN III? E uma criacao coletiva a partir de SN III?

Conclusao

Ao discutir criterios determinantes do valor de uma obra musical, podemos citar, dentre outros, o "prazer para performers ao lidar com suas dificuldades", a possibilidade de "diferentes interpretacoes de performance em performance," a existencia de "melodia atraente, ritmo interessante, expressao intensa, timbres agradaveis, harmonia inventiva, forma inteligivel" (Levinson, 1998: 98) e confiar na "intuicao de que o valor artistico e uma funcao do valor da experiencia que oferece" (Levinson, 1998: 99). Podemos concluir entao que SN e uma obra de valor artistico e musical.

Ainda que a literatura discutindo o conceito de material didatico com profundidade seja escassa (Vilaca, 2009), parece haver convergencia para a compreensao de "material didatico como meio e como recurso" (Oliveira, 2007: 80), cuja "funcao basica [...] e auxiliar o processo de ensino/aprendizagem" (Vilaca, 2009: 7). Seu uso e metodologia de uso necessariamente dependera da acao do professor (Oliveira: 2007) e "embora nao seja possivel definir um sentido unico para auxiliar, o emprego da palavra parece indicar que os materiais didaticos devem contribuir de formas variadas para que a aprendizagem seja bem-sucedida e, se possivel, rapida, prazerosa e significativa." (Vilaca, 2009: 7).

Deste modo, qualquer peca musical que proporcione a aprendizagem de algum aspecto relacionado a aprendizagem de um instrumento podera ser uma peca didatica e qualquer peca musical podera ser uma peca didatica se utilizada adequadamente em sala de aula.

Contudo, parece-me que quando a obra e didatica e artistica temos experiencias mais ricas e de mais qualidade, bem como fronteiras mais fluidas entre a atividade artistica de "aprendizes" e "profissionais", o que me parece desejavel posto que estamos sempre todos aprendendo. Que SN siga provocando reflexoes, aprendizagens e interpretacoes.

Referencias

Barros, Danele Cruz (2010) A flauta doce no seculo XX: o exemplo do Brasil. Recife: Editora Universitaria da UFPE. ISBN 8573157879.

Carpena, Lucia Becker. (2014) Prata da casa: obras para flauta doce escritas por compositores ligados a UFRGS. Porto Alegre: UFRGS.

Cuervo, Luciane da Costa (2009) A musicalidade na performance com a flauta doce. Dissertacao de mestrado, Universidade Federal Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil [Consult. 2017-10-18] Disponivel em http:// www.lume.ufrgs.br/bitstream/ handle/10183/15663/000687332.pdf

Daenecke, Elaine Martha (2009) Metodos para flauta doce: uma bibliografia comentada (monografia de graduacao nao publicada). Disponivel em Universidade Federal Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, Brasil.

Hermeren, Goran (1993) "The full voic'd quire: types of interpretations of music." Michael Krausz (org.), The interpretation of music: phiosophical essays. Oxford: Oxford University Press. ISBN 0-19-823550-X: 9-31.

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Levinson, Jerrold (1993) "Performative vs. critical interpretation of music." Michael Krausz (org), The interpretation of music: phiosophical essays. Oxford: Oxford University Press. ISBN 0-19-823550-X: 33-60.

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Oliveira, Fernanda de Assis (2007) "Materiais didaticos nas aulas de musica do ensino fundamental: um mapeamento das concepcoes dos professores de musica da rede municipal de ensino de Porto Alegre." Revista da ABEM. ISSN 2358-033X e 1518-2630. Vol. 17: 77-85 [Cosult. 2017-12-27] Disponivel em http://www. abemeducacaomusical.com.br/revistas/ revistaabem/index.php/revistaabem/ article/view/283/213

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Vilaca, Marcio Luiz Correa (2009) "O material didatico no ensino de lingua estrangeira: definicoes, modalidades e papeis." Revista eletronica do Instituto de Humanidades. ISSN 1678-3182: Vol. 7, 30: 1-14 [Cosult. 2017-12-28] Disponivel em http:// publicacoes.unigranrio.com.br/index.php/ reihm/article/view/653/538

Artigo completo submetido a 4 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

CLAUDIA SCHREINER, Brasil, flautista (flauta doce, flauta transversa e traverso barroco), professora.

AFILIACAO: Instituto Federal de Educacao, Ciencia e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), Campus Porto Alegre, R. Cel. Vicente, 281--Centro Historico, Porto Alegre--RS, 90030-040, Brasil. E-mail: claudia.schreiner@gmail.com

Caption: Figura 1. Daniel Wolff, Soprando nas nuvens I.

Caption: Figura 2. Daniel Wolff, Soprando nas nuvens V, c. 1-15.

Caption: Figura 3. Daniel Wolff, Soprando nas nuvens III.

Caption: Figura 4. Letra de Giuliana Rehbein Vieira para Soprando nas nuves III, de Daniel Wolff.
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Title Annotation:2. Original articles/Artigos originais
Author:Schreiner, Claudia
Publication:GAMA
Date:Jul 1, 2018
Words:2544
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