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Radio-acontecimento: modos de comunicar potencia mental.

1. Inicio de conversa

Este trabalho parte do nosso compromisso com o campo da saude mental, na perspectiva de um cuidado em liberdade, implicando a defesa do direito, aos que chamamos diagnosticados (5) (pessoas com diagnostico psiquiatrico), de habitar a cidade (ocupar as suas ondas sonoras, fazendo radio, e uma das formas de habita-la). Assim, a consolidacao de servicos de saude mental territorializados e abertos, com foco nas possibilidades de vida e nao na doenca, articulados em redes intersetoriais e com os atores sociais presentes no territorio, e um dos desafios que se apresentam aos seus profissionais, cuja formacao, via de regra, ve-se circunscrita a area tecnica da saude. E um desafio, tambem, a todos os cidadaos, seus usuarios por direito, que, de modo geral, nao tem acesso a informacao, ao conhecimento que lhes permita reconhecer e reivindicar outro modelo de atencao a saude para alem do hospital e da farmacia.

Buscamos, na comunicacao social, canais de expressao para esses temas, entendendo as tecnologias de comunicacao e, em especial, a radiodifusao, como dispositivo estrategico em que se alinham a producao de conhecimento e os movimentos de luta por uma sociedade sem manicomios a producao de conhecimento e luta pela democratizacao dos meios de comunicacao. Assim, que a loucura possa tomar a palavra atraves da radio aponta na direcao de um alargamento nos modos de habitar a cidade, favorecendo os processos inclusivos. Nesse processo, onde as tecnologias de comunicacao passam a ser um importante intercessor de um tipo de insercao social, as midias comunitarias assumem papel estrategico junto aos movimentos de minorias. No tocante a radiodifusao, se as radios comunitarias tem sido marcadas pela tendencia a operar no ambito de "micropoliticas identitarias e reivindicatorias de setores sociais especificos" (COGO, 2004, p. 45), observa-se a presenca de praticas que se pretendem de resistencia atuando na via da desterritorializacao--vide as acoes das radios livres intervindo com ou sem "permissao".

A experiencia aqui tematizada diz respeito aos encontros de producao, realizacao e analise posterior de programas radiofonicos por parte do Coletivo de Radio Potencia Mental, na Radio Comunitaria Lomba do Pinheiro, situada na periferia sul da cidade de Porto Alegre. Na frequencia FM 87.9, a Radio sintoniza uma programacao que acontece das 7hs as 23hs, diariamente. Com a participacao de dezesseis moradores comunicadores que realizam trabalho comunitario nao remunerado--a grade de programacao e composta por programas musicais, informativos, de entretenimento, religiosos, entre outras tematicas e modalidades radiofonicas. E no programa "Comunidade em Acao" que acontece a intervencao do "Potencia Mental em Acao", denominacao da janela que vai ao ar quinzenalmente, nas sextas-feiras das 10hs as 10 h 30 min.

2. Coletivo de Radio Potencia Mental

O Coletivo de Radio Potencia Mental surgiu em 2006 atraves da iniciativa de um grupo de residentes em Saude Mental Coletiva, inspirado na experiencia realizada pela Radio Nikosia, de Barcelona/Espanha. O nome com que o Coletivo se apresenta, Potencia Mental, foi sugerido por uma ouvinte da radio comunitaria para designar os programas levados ao ar pelo grupo, sendo encampado como seu nome proprio. Assim como a Radio Nikosia, o Potencia Mental tem existencia fora do contexto institucional dos servicos de saude mental de onde provem os diagnosticados que dele participam, o que possibilita maior fluidez e horizontalidade nas relacoes entre os integrantes do grupo (PALOMBINI, CABRAL, BELLOC, 2008). Como coletivo de trabalho, tanto esses diagnosticados, como os trabalhadores ou os estudantes nele incluidos, todos se veem diante da tarefa comum de aprender e exercitar a tecnica de radiodifusao; e a cada um e dada a possibilidade de experimentacao de novos lugares sociais: entrevistadores, poetas, radialistas, cantores ... (TIBULO, ROSS, NUNES et alli, 2006). Todos se fazem, no Coletivo, loucutores (6) de radio.

Ao pensar a tecnica como constituinte do fazer-se loucutor, o Coletivo recusa as simplificacoes que a consideram dissociada do devir humano, de seu processo de invencao na interacao com as coisas vivas ou nao vivas de seu contexto. Nesse sentido, o Coletivo aproxima-se da compreensao de Levy (1993) quando considera que "os coletivos cosmopolitas compostos de individuos, instituicoes e tecnicas nao sao somente meios ou ambientes para o pensamento, mas sim seus verdadeiros sujeitos" (p. 19).

Alem dos programas de radio, o grupo tem tambem participacao em eventos diversos, como o encontro do Mental Tche, em Sao Lourenco do Sul, em 2007 e 2008, onde, junto com outros grupos, ocupou-se da producao da Radio A Voz do Poste; esteve presente no Encontro Mundial de Radios na Saude Mental, no ano de 2007, em Buenos Aires; participou, como palestrante convidado, do seminario sobre Midia e Saude Mental, na Escola de Saude Publica do RS, em 2008, e de roda de conversa sobre o mesmo tema no Encontro Estadual de Saude Mental do RS, em 2009, ano em que esteve presente tambem na Mostra do 9[degrees]. Salao de Extensao da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; no ano de 2010, compartilhou programas online com a Radio Nikosia, de Barcelona e coordenou uma oficina de radio junto aos usuarios da Geracao POA, servico de geracao de renda da Secretaria Municipal da Saude de Porto Alegre.

Desde 2008, o projeto passou a contar tambem com a participacao de estudantes e profissionais da area da comunicacao, dando enfase ao carater interdisciplinar comunicacional, cultural e politico--da proposta de producao de intervencoes sonoras na cidade, mantendo-se em dialogo com as comunidades locais, nao apenas sobre a saude mental, mas sobre formas de encarar a vida e seus transbordamentos (CECCHIN, 2008). Entre os temas debatidos ressalta-se: amizade, juventude e velhice, discosvoadores, flores, teatro e prostituicao.

Os participantes do Coletivo reunem-se semanalmente para preparacao dos programas na radio que sao, atualmente, quinzenais. Privilegia-se, nesses encontros, o tempo das conversacoes, mantendo a possibilidade, durante a semana, de iniciativas individuais ou coletivas para estudo e pesquisa de informacoes sobre as tematicas escolhidas, bem como o planejamento de outras atividades, producao de novas vinhetas, etc. A cada encontro do Coletivo, um de seus participantes fica encarregado de produzir um relato escrito da reuniao. Sao relatos que, juntos, vao constituindo uma memoria coletiva do grupo.

Dois importantes marcos de 2009 sao a premiacao no Concurso Publico Cultural Loucos pela Diversidade do Ministerio da Cultura e Escola Nacional de Saude Publica/Fundacao Oswaldo Cruz e a obtencao de recursos atraves do Edital PROEXT 2009--Programa de Extensao Universitaria do Ministerio da Educacao/Secretaria de Educacao Superior, via "Rede de Oficinandos", Programa de extensao que o Coletivo Potencia Mental compoe com mais outras duas acoes vinculadas a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (uma de informatica e outra de video).. Essas tres acoes tem como objetivo comum criar, consolidar e articular modos de insercao de tecnologias da informacao e comunicacao--TIC--no campo da reforma psiquiatrica, no dentro/fora dos servicos de atencao a saude mental, acompanhando seus efeitos na constituicao desses espacos e nos processos de vida de seus participantes.

3. O desejo de fazer acontecer radio e comunicar diferenca

Tomamos como norteadoras da escrita deste artigo duas ideias: a da radio como acontecimento, resultante da potencia dos imprevistos e improvisos que emergem do seu fazer; e a do desejo de comunicar outros modos de produzir sentido e fazer-se ver e enunciar pela loucura como o que move o fazer radio. O acontecimento, na definicao de Rajchman (1991), diz respeito ao singular, inatributavel ou imprevisivel, implicando uma outra logica de sentido, em que as dissonancias levam a uma transformacao, ou seja, acontecimento como distanciamento de si, ato de diferenciacao--e nao identificacao que se repete sem diferenca; ja a acepcao de "desejo" e referida na perspectiva que nos apontam Deleuze e Guattari (2004), ou seja, desejo como produtor de mundos. A palavra producao toma aqui seu sentido mais "forte", aquele de "producao de producao" que, portanto, renuncia a reproducao e se exprime atraves do paradoxo da anti-producao como producao que desorganiza para reorganizar, ou, antes, para viver na mais tenue linha habitavel entre o caos e o "feito". E a producao de producao desde a desordem, tal como aprendemos com o inconsciente e com a loucura (DELEUZE E GUATTARI, 2004; 2006). E o que nos leva a experimentar o estatuto de diagnosticados para nomear as pessoas com historico de sofrimento psiquico e insercao nas tramas dos servicos de saude mental, enquanto a loucura e transposta ao Coletivo e sua producao (esquizo) radiofonica.

No fazer Potencia Mental, as reunioes de preparacao dos programas sao tomadas de um burburinho de multiplas conversas, afeccoes, pensamentos, percepcoes e escritos desconexos, paralelos, simultaneos, compondo um espaco de afetacoes, embriao da expressao. Algo se passa entre os loucutores, intensidades que podem ser da ordem de fenomenos fisicos, politicos, afetivos.... Algo da desordem do desejo passa entre os loucutores e passa tambem entre eles e o Coletivo no qual atuam, a que constituem e pelo qual se formam, nas aliancas por eles construidas e desconstruidas, bem como nas ondas sonoras que irradiam suas vozes.

Eis que intervem o programa de radio. Trinta minutos imersos na imprevisibilidade, mediante a qual, do acontecimento-radio, excede o sentido, jorrando singularidades nas ondas sonoras--frequencia 87.9 FM, pelas estradas do vento. E quando uma "comunicacao da diferenca" (CAIAFA, 2004) pode acontecer.

No texto "A escrita do acontecimento", Barthes (2008) propoe pensar o que haveria de ser escrever um acontecimento. O autor relata a poligrafia do revolucionario Maio de 68 e conta como o radio tornou-se ativo produtor do movimento, fornecendo e proliferando sentidos simultaneamente aos combates nas ruas e surtindo sempre novos efeitos na revolucao. Desfazendo a tradicional distancia entre o ato e o discurso, a radio "era o proprio acontecimento" (p. 214).

Escrever e ser o proprio acontecimento coincidem a medida que a escrita remete aqui a uma violenta arranhadura, para alem da dicotomia fala/escrita, como um ato de criacao e ruptura, uma especie de linha de fuga que inscreve novas relacoes para alem de si mesma, o que a aproxima ao acontecimento deleuziano (7). Antes de tudo, essa escrita e uma marca, uma invencao que se registra, como a defesa que Foucault (2009) faz acerca do discurso, identificando-o a uma violencia que se faz as coisas, porque se trata de uma pratica e nao simples representacao do mundo das coisas.

O discurso como pratica remete-nos aos agenciamentos coletivos de enunciacao delineados por Deleuze e Guattari (1995), que fazem redundar discurso e ato. Quando um ou mais loucutores dizem do desejo de comunicar potencia mental, estao construindo agenciamentos que sao sempre coletivos--"multiplicidade que se desenvolve para alem do individuo, junto ao socius, assim como aquem da pessoa, junto a intensidades pre-verbais" (GUATTARI, 1992, p. 20), atravessada por singularidades impessoais que determinam os termos da acao da linguagem que emerge como efeito.

Para alem de representar, a linguagem age. Pelos atos ilocutorios que sempre carrega, ela agencia transformacoes incorporeas que dizem as misturas dos corpos. Nao fala sobre elas, mas, pela sua dimensao de ato, exatamente diz os estados de coisas, antecipa, retrocede, destaca, une, recorta as coisas. Assim, os atos iloucutorios agenciados no comunicar potencia mental sao intervencoes; nao representam as coisas, mas produzem misturas especificas e inusitadas.

Isso e o mesmo que dizer que as palavras afetam e, portanto, tem materialidade. No entanto, sua materialidade e incorporal (FOUCAULT, 2009). Enquanto corpo e atualizacao, incorporal e virtualidade, na iminencia eterna de atualizacao, fazendo-se variacao constante: intervencao no mundo dos corpos que, no entanto, jamais se rende a atualizacao.

Se um corpo e possivel nesse contexto, e o corpo-sem-orgaos, que, de acordo com Deleuze e Guattari (1996), e "materia intensa e nao formada, nao estratificada", "feito de tal maneira que ele so pode ser ocupado, povoado por intensidades" (p. 13), atraves do qual acontece a expressao "[d]a pura determinacao de intensidade, [d]a diferenca intensiva" (p. 28) e produz devir.

Afinal, nao e a toa chamar acontecimento a producao esquizoradiofonica que emerge dessa sempre tenue linha de um Coletivo que funciona como um corpo-sem-orgaos, onde o que circula so merece o status de intensidade, na medida em que se trata de virtualidades na eterna espera e esquecimento de atualizacao. Acontecimento que usa dessas intensidades para embaralhar os codigos cronologicos dos trinta minutos de realizacao do programa. Constitui-se um tempo de material sonoro que consiste e insiste mais do que existe, sob a condicao dos afectos que agencia. Marca-se, assim, a tensao entre o limite cronologico dos trinta minutos e seu embaraco, operado pelos imprevistos e improvisos do programa, dando vazao a um tempo outro, rizomatico (PELBART, 1998b), imaginario (BLANCHOT, 2005). Chamamos-lhe tempo intensivo, na medida em que aciona "a verdade eterna do tempo: pura forma vazia do tempo, que se liberou de seu conteudo corporal presente" (DELEUZE, 2007, p. 170), sob a acao da virtualidade que dissolve as coisas as intensidades.

O acontecimento esquizoradiofonico opera, entao, nessa imprevisibilidade da virtualidade, emaranhando aqueles trinta minutos no ar, ao vivo, onde o devir substitui cronos. Barthes (2008) ja provocava acerca da possibilidade da palavra ao vivo funcionar como escrita imediata, sem possibilidade de edicao, o que alarga a potencialidade dos encontros inusitados da fala.

Assim, a palavra do Potencia Mental dissocia-se do contexto onde se agenciou para lancar-se ao voo das ondas sonoras. Schafer (2001) cria o conceito de esquizofonia para traduzir a separacao que a "invencao do aparelho eletroacustico para a transmissao e estocagem do som" (p. 134) promoveu entre a emissao local de um som e sua propagacao em quaisquer outros lugares e quantas vezes se desejasse. Para nos, e algo que diz da ruptura entre a preparacao e a realizacao do programa de radio. O proprio Schafer (2008) ja dizia: "nao se pode ver quem ou o que produz o som: um excitamento invisivel para os nervos" (p. 237). A realizacao torna-se o acontecimento-radio ainda porque funciona como a duplicacao da voz que emanou do espaco das reunioes em direcao as ondas sonoras que habitam o vento--e o tempo.

Vento--e tempo--da variacao constante, porque intensivos e virtuais. Ampliam a potencia da palavra emitida pelo Coletivo porque aumentam seu gradiente de esquizoradiofonia toda vez que a mesma emerge como efeito surpresa diante das determinacoes da preparacao dos programas, encarnando o imprevisto, o improviso e o paradoxo da producao pela anti-producao como constituintes do processo.

Ao acompanhar a producao de estrategias inventivas em tecnologias radiofonicas no campo da saude mental, atentamos para as intervencoes dos loucutores, tecidas por linhas de criacao e resistencia--intervencoes avessas as concepcoes e representacoes dominantes que produzem e ampliam preconceitos e reduzem o espaco da diferenca.

Ao analisar tais producoes como frutos de agenciamento coletivo, visualizam-se as dimensoes por onde o desejo corre. Nessa perspectiva, o agenciamento coletivo por uma "comunicacao da diferenca" remete a um estado de coisas e a estilos de enunciacao. Os loucutores, em suas narrativas de vida e, especialmente, em suas experimentacoes radiofonicas, expressam o que convem e o que nao convem, gostos e tambem desgostos.

Na proxima secao, apresentamos um recorte do processo de producao e realizacao de um dos programas de radio, o qual versou sobre os temas "teatro e prostituicao", tendo sido propicio a composicao de diferentes intercessores. Para apresenta-los, selecionamos dois "acontecimentos", destacando neles imprevistos e improvisos vivenciados pelos loucutores e seus convidados.

3.1 Primeiro acontecimento: verso e reversos do amor

O processo de producao em radio comunitaria, livre, e radicalmente distinto do estabelecido nos meios de comunicacao comerciais. Entre as diferencas, observa-se o modo como se constroi a pauta das programacoes. O Coletivo de Radio Potencia Mental escolhe os assuntos e os modos de apresenta-los nos seus encontros semanais. As tematicas emergem nas conversacoes entre os loucutores, nutridas com experiencias cotidianas narradas e inventadas a cada novo encontro. O seguinte relato de reuniao, com a presenca de dois novos integrantes, da-nos algumas pistas do tom dessas conversas:
   Apos as apresentacoes falamos sobre sonhos, especialmente aqueles em
   que se aparece voando. [Um dos loucutores] conta de um sonho em que
   bate as "asas" sobrevoando a casa dos avos; o [outro] conta de um
   sonho em que salta de cima das montanhas e, suavemente, toca o solo.
   Ainda, no assunto de sonhos, falamos da dificuldade em lembrar dos
   sonhos e [um terceiro loucutor] comentou que bater na cabeca ao
   acordar provoca esquecimento dos sonhos. Tambem, falamos sobre
   gatos; os gatos que tivemos, os destinos que tiveram ... Lembrou-se
   ate de um chamado "Nelsinho", de propriedade [de um loucutor]
   (relato da reuniao do dia 03/6/2009)


Em meio a essas conversas, um dos loucutores coloca sobre a mesa uma reportagem recortada do jornal, sobre a "rua do sexo" em Porto Alegre, como sugestao de pauta para o proximo programa de radio. Ao mesmo tempo, um dos novos participantes do grupo conta suas experiencias com o teatro, como apreciador e atuador. O tema da prostituicao enlaca-se a esse do teatro, pois comenta-se que, em ambos--prostituicao e teatro--o que ha sao personagens. Os fios soltos da conversa encontram, assim, um ponto de amarra na insolita definicao do tema que ira ao ar na sexta-feira: teatro e prostituicao. Tomamos uma tal associacao de ideias--sonhos, gatos, teatro, prostituicao --como resultante do agenciamento coletivo de desejo que o espaco daquele encontro permite operar, fora da logica habitual de sentidos. Propoe-se uma visita ao NEP (Nucleo de Estudos em Prostituicao) e o contato com a atriz que faz o papel de prostituta na peca "Opera do Malandro", com vistas a participacao no programa. O encontro com a atriz nao acontece de imediato, mas, de forma imprevisivel e surpreendente, num trajeto de onibus, uma participante do Coletivo, em conversa casual com a passageira ao seu lado, descobre que uma das componentes do NEP atua como atriz, inclusive usando o pseudonimo de "atriz-meretriz". Assim, o programa, inicialmente pensado como um debate entre uma prostituta e atuante do NEP e uma atriz que interpretava uma prostituta no teatro terminou desdobrando-se em dois: o primeiro com a presenca da atriz-meretriz, o segundo com a participacao da atriz da peca.

Ao longo da preparacao e execucao desse programa, os temas do amor, trabalho, dinheiro, casamento, obsessao, loucura, corpo, sexo, rua, prazer, entre outros, inicialmente propostos em polaridades excludentes, foram aos poucos modulando composicoes, enlacando seus termos num "e, e, e, e" rizomatico que fazia proliferar os sentidos sobre aquele universo, tornado entao polissemico e plural.

No primeiro programa, com a participacao da atriz-meretriz, a conversa entre loucutores e a convidada fluia dando lugar a curiosidade e, ao mesmo tempo, as escolhas de vida que misturam teatro e vida.

Loucutor: (...) eu queria saber uma coisa de ti ... amor pela profissao ... E pelo dinheiro ... E por tudo, ne! Como tu te sente fazendo o papel de meretriz, simplesmente, so o papel de meretriz ... se o cache vale a pena, a noite, o clima ... como tu te sente?

Atriz-meretriz: Bom, eu nao me sinto nao no teatro fazendo um papel, mas vivendo uma realidade de uma mulher que simplesmente respeita a profissao que ela aderiu. (transcricao de um trecho do programa de 19 de junho de 2009)

Uma musica, que relaciona prostituicao, preconceito, denuncia e ironia, foi um dos agenciadores dessa proliferacao de sentidos no comunicar potencia mental.

Me chamou a atencao a sensibilidade do [loucutor] em achar a musica "Geni e o Zeppelin" inapropriada para este programa porque a maior parte da musica fala em "joga pedra na Geni", e que por isso nao ficaria legal ouvir isso enquanto a [atriz-meretriz] falasse. (Relato da reuniao do dia 17/6/09)

Apesar do alerta feito, a musica foi mesmo ao ar. Na sequencia,

Avaliamos que ficou muito desagradavel a musica ao fundo repetindo "joga pedra na Geni, ela gosta de apanhar, ela e boa de cuspir", tendo em vista as consideracoes que o [loucutor] havia feito sobre nao desrespeitar nossos entrevistados, e tambem ao fato de que talvez a populacao que nos escute nao entenda a problematizacao que estamos propondo. (Relato da reuniao do dia 24/6/09)

O que a musica trazia de controverso foi motivo de preocupacao e sua face ironica voltada ao preconceito agenciou sua presenca no programa.

De igual modo, "[Um dos loucutores] contou que achou a atriz-meretriz vulgar" (Relato da reuniao do dia 24/6/09), ao mesmo tempo em que ...

Inesquecivel, foi a declaracao de amor de [outro loucutor] feita no ar para a atriz-meretriz, um pedido de casamento para o momento em que saissem da radio. Chamada de "flor de pessoa" entre outros adjetivos, a atriz-meretriz chegou a ficar meio sem jeito, mas levou na boa, pois era muito bonito o modo como ele fazia isso: um galanteador de primeira linha. (Relato do programa do dia 19/6/09)

Atriz-meretriz, jogapedra-pededesculpas, flor-vulgar. O Coletivo, distraido, pode honrar a producao que pretende, sustentando o que nela emerge como paradoxos de sentido.

Deleuze e Guattari (1996, p. 24) ja davam pistas de como se manter um corpo-semorgaos.
   Eis entao o que seria necessario fazer: instalar-se sobre um
   estrato, experimentar as oportunidades que ele nos oferece, buscar
   ai um lugar favoravel, eventuais movimentos de
   desterritorializacao, linhas de fuga possiveis, vivencia-las,
   assegurar aqui e ali conjuncoes de fluxos, experimentar segmento
   por segmento dos continuos de intensidades, ter sempre um pequeno
   pedaco de uma nova terra.


O interesse mantem-se no devir, que Deleuze e Guattari (1995a) ja defendiam como a atitude de se deixar afetar pela distancia que se tem com o outro, jamais tornar-se o outro. Devir e habitar o sempre entre, e sustentar o paradoxo de seguir em duas ou mais direcoes ao mesmo tempo. Deleuze e Parnet (1998), assim como Blanchot (2001) ja defendiam o entre como a potencia maior de uma conversacao, uma vez que ele nao sustenta paradas, mas sempre linhas, linhas-rizoma. Encontra-se justamente no desnivel da diferenca a possibilidade de uma conversa entre duas ou mais palavras. O efeito e a emergencia de uma palavra plural, escorregadia e fugidia sempre.

Submetidos a um principio de descontinuidade e de acaso, o encontro de palavras faz uma virar a outra. Nao virar no sentido de tornar-se, mas virar de ponta-cabeca, virar do avesso, virar em qualquer direcao, transforma-la em outra coisa que nao vai se identificar nem com o primeiro nem com o segundo termo da conversa. Fazer efetivamente o Fora na lingua, fazer gaguejar o discurso radiofonico e da comunicacao, contamina-lo com suas virtualidades, multiplicando sempre os efeitos e praticando a resistencia.

O devir, com efeito, sustenta-se nesse desvio que nega a todo tempo qualquer identificacao, conjurado por uma conversa onde nao esta colocada a busca de uma sintese que sobreponha as diferencas, mas, antes de tudo, onde elas possam manter-se e onde haja possibilidade de se desviar e acrescentar algo inteiramente novo a relacao.

3.2 Segundo acontecimento: a censura

Buscar "desculpar" a prostituta por ter entrado "nessa vida" por conta da sua historia e das terriveis necessidades pelas quais passou e que a "obrigaram" a "fazer sexo por dinheiro", como se poderia ver nas midias de massa, nao era nossa proposta. Tal como Guattari (2005) pensa as radios subversivas sob a logica do rizoma, nossa midia se propoe menor. Mas a midia comunitaria em que nos inserimos nem sempre acontece como midia menor, e "[o coordenador da radio] chamou a atencao para a questao da "censura" (e um programa exibido durante o dia...)" (Relato da reuniao do dia 03/6/09).

Boa lembranca, mas ... Censura de que mesmo?

Nos assustamos com a ma qualidade do inicio do programa, uma vez que a cortina musical estava com volume mais elevado que as nossas vozes. Discutimos sobre a possibilidade disso ser uma especie de censura do coordenador da radio, mas nao chegamos a nenhuma conclusao, porque ele pareceu gostar do programa em alguns momentos, mas, em outros, se mostrou tenso e avesso ao tema. (Relato da reuniao do dia 24/6/09)

O programa foi muito bom na nossa avaliacao e na do coordenador. Ainda que para ele foi um pouco melindroso, pois teve de censurar um excesso da atriz-meretriz ao vivo, dizendo "voces so vao falar sobre isso?". Isso, no momento em que [uma das loucutoras] [...] perguntou sobre a fantasia na prostituicao, semelhante ao teatro ao vir como uma realizacao. A atrizmeretriz contou de um caso em que o cliente deixou um revolver embaixo do travesseiro no momento da copula e que gozou ao ver o espanto nos olhos dela. A palavra "gozar" foi censurada [...] No fim do programa, a [ouvinte] ligou para o coordenador da radio, pedindo por que ele nao censurou, ou por que censurou, nao entendi bem. (Relato do programa do dia 19/6/09)

Ma ou boa qualidade? A ouvinte reclamou da censura ou da falta dela? O coordenador da radio censurou ou nao? Ele gostou, ou nao? Nao esta em questao a opiniao pessoal do responsavel pela radio comunitaria nem as impressoes pessoais do relator, mas uma constelacao de forcas que agem sobre, no, e com o trabalho menor da midia--forcas imprevisiveis, compondo com os resultados e os sentidos produzidos.

A tentativa de decifrar as acoes do coordenador dizem da expectativa quanto aos efeitos da nossa intervencao. Materia impalpavel e invisivel essa do acontecimento. Maldita ausencia de materia, maldito "nao entendi" do sentido. Deleuze (2007) ja falava do naosenso que doa sentido. E a maldicao acaba, no instante em que se nota a potencia de um mal-entendido.

Bendito mal-entendido. Bendita ma-qualidade tecnica, que oscila entre ser um imprevisto das vias radiofonicas e um improviso do coordenador diante da surpresa com o tema. Censurou e nao censurou, simples assim. Em todo caso, a censura tambem improvisa e compoe.

Para alem de interdicao, a censura e mais um e do rizoma do acontecimento. Foucault (2009) ja pensava o controle do discurso como processo que compoe a producao discursiva, pois participa das tramas da palavra e mostra mais do que esconde. Ai parece se sustentar uma das menoridades da Radio Potencia Mental: a censura que denuncia a si mesma e, nesse caso, escancara a diferenca, afirmado-a, pela dissonancia, enquanto alteridade.

Alteridade num encontro que, jamais pacifico, mantem-se em variacao, substitui o OU das alternativas pelo E das adicoes, e o dualismo e substituido pela tensao, pela articulacao, pelo paradoxo--afinal, o que somos alem de distancias? O paradoxo e a "paixao do encontro fortuito" segundo Pelbart (1998a, p. 63), a "perturbacao irresoluta" que permite ao pensamento pensar o impensavel. Isso implica dizer que o encontro de palavras diversas no Potencia Mental faz inevitavel um paradoxo que, felizmente, jamais se resolve, sustentando o E e a infinita disjuncao da palavra.

Essas sao as possibilidades do Coletivo aceder ao que Barros (1997) chama de grupodispositivo, a partir do conceito foucaultiano de dispositivo como estrategia processual de relacoes, capaz de, agenciando linhas de forca, produzir enunciabilidades, alem de visibilidades e subjetivacao.

Os paradoxos que fazem funcionar a producao de sentidos na Radio Potencia Mental fazem dela uma Alice. Guattari (2005) ja comemorava a insistencia de "Milhoes e milhoes de Alices no ar", quando o nome Alice era sinonimo de radio-linha-de-fuga. Com Deleuze (2007), o Potencia Mental se aproxima da personagem Alice de Lewis Carroll, confrontada com paradoxos insoluveis que lhe confundem a respeito de sua propria identidade e a carregam por um caminho-sem-caminho que a leva, saindo da profundidade da toca do coelho, a deslizar na superficie do espelho.

4. (In)conclusoes

Os diagnosticados convivem diariamente com diferentes formas de estigmatizacao que dificultam e enfraquecem as experiencias nos espacos coletivos. Ao desejarem romper as fronteiras territoriais e identitarias que tendem a mante-los confinados, uma vez loucutores, tracam suas intervencoes para alem dos espacos pre-fixados, constituindo suas proprias redes de conversacao presencial e radiofonica.

As intervencoes dos loucutores e os acontecimentos que os acompanharam na preparacao e realizacao do programa radiofonico "teatro e prostituicao" sao considerados como potenciais articuladores das relacoes de forcas inclusivas, entrelacando desejos, experiencias, poderes e saberes, agenciamentos comunicacionais e radiofonicos. Mais do que isso, sao importantes intervencoes no espaco radiofonico da cidade, rompendo com representacoes cristalizadas e abrindo caminho a diferenca na comunicacao.

A experiencia do Coletivo de Radio Potencia Mental sugere a emergencia de saberes e praticas para a invencao e producao de sentidos de convivencia com as diferencas que podem configurar propostas nas areas de saude mental e comunicacao social desviantes de perspectivas homogeneizantes, fornecendo subsidios para inclusao de tecnologias de informacao e comunicacao na formulacao e implementacao de politicas de saude e comunicacao, tendo como perspectiva um alargamento das potencias de vida na cidade.

Bibliograficas

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BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita--a palavra plural. Sao Paulo: Escuta, 2001.

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Sao Paulo: Martins Fontes, 2005.

CAIAFA, Janice. Comunicacao da diferenca. Revista Fronteiras. Estudos midiaticos, Sao Leopoldo--RS, v. 7, n. 1, p. 47-56, 2005.

CECCHIN, Ricardo Andre. Loucutores da potencia mental: de acompanhantes e acompanhados a radialistas. Trabalho apresentado no 9[degrees]. Salao de Extensao da UFRGS. Porto Alegre, setembro de 2008.

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Fernanda Fontana STREPPEL (2), Deisimer GORCZEVSKI (3) Analice de Lima PALOMBINI (4)

(1) Versao ampliada do trabalho apresentado no XV Encontro Nacional da Associacao Brasileira de Psicologia Social. 2009, na Mesa Redonda: "Tecnologias de comunicacao, comunidade e saude mental", sob o titulo "Entre improvisos e imprevistos: os modos de comunicar potencia mental".

(2) Mestranda do Curso de Pos-Graduacao em Psicologia Social e Institucional--PPGPSI-UFRGS

(3) Docente do Instituto de Cultura e Arte da UFC, doutora em Ciencias da Comunicacao

(4) Docente do Instituto de Psicologia UFRGS, doutora em Saude Coletiva UERJ

(5) Este termo e tomado de emprestimo da Radio Nikosia, de Barcelona/Espanha.

(6) O termo "loucutores" foi cunhado pela Radio Tam Tam, de Santos/Brasil, e tambem e utilizado pela Radio Maluco Beleza, de Campinas/Brasil. No nosso caso, refere-se a todos os participantes, diagnosticados ou nao.

(7) Em Deleuze (2007), o acontecimento e justamente algo no que acontece, e o expresso do acidente que acomete as coisas e os corpos, e o que resta para alem da efetuacao cuja grandeza e justamente o sentido. E um incorporal, constituido de singularidades liberadas dos limites da sua atualizacao corporal.
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Author:Streppel, Fernanda Fontana; Gorczevski, Deisimer; Palombini, Analice de Lima
Publication:Periferia
Date:Jan 1, 2010
Words:5420
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