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RELIGIOUS SPEECH IN PRESERVATION IDENTITY MUSLIM COMMUNITIES ALAWITES OF BRAZIL/O DISCURSO RELIGIOSO DA PRESERVACAO IDENTITARIA NAS COMUNIDADES MUCULMANAS ALAUITAS DO BRASIL.

No Brasil, o isla e os muculmanos tem sido enfoque de muitas pesquisas. Varios fatores favorecem o aumento do interesse academico sobre esta religiao e seus seguidores, podemos destacar a atual Guerra Civil Siria (2) que ja dura quatro anos, o aumento da presenca de muculmanos na Regiao Sul do Brasil, em decorrencia do grande fluxo de imigrantes que aqui chegaram apos a Guerra Civil Libanesa (1975-1990) e os atentados do 11 de Setembro. No entanto, tem-se notado que a atencao dos nossos pesquisadores esta voltada para o crescente numero de convertidos apos os atentados da Al Qaeda nos Estados Unidos em 2011 ou para as comunidades sunitas e xiitas (3), sem considerar, na maioria das vezes, os movimentos dentro do sunismo (4) ou as correntes que nascem do xiismo.

Segundo dados dos membros do corpo diretor da Sociedade Beneficente Muculmana do Rio de Janeiro, entre seus associados, o numero de convertidos em 1997 era de 15% em 2009 saltou para 85%. (PINTO, 2010a). Ja, de acordo ultimo censo do IBGE ha, no Brasil, ha cerca de 35.167,00 muculmanos. Esse numero, porem, nao especifica os muculmanos de acordo com seu grupo dentro do isla; como xiita (duodecimanos, alauitas, ismaelitas, druzos) ou sunita, e ainda nao inclui o numero de convertidos.

Embora os estudos sobre o isla enveredem para a compreensao das praticas sociais e religiosas dos sunitas ou xiitas (5), em especial sobre os xiitas duodecimanos (6), ha outros grupos que ja comecam a chamar a atencao dos nossos pesquisadores, como e o caso dos druzos (7). As pesquisas no Brasil sobre os alauitas ainda nao se consolidaram, este grupo (8) chama a atencao pela sua efetiva participacao na configuracao do isla no Brasil e nos modos de expressar sua religiosidade como tambem no discurso de preservacao de sua identidade e e este discurso que nos interessa.

O discurso religioso e as praticas religiosas dos alauitas, no Brasil constroem uma identidade propria do grupo, a palavra religiosa funciona entre uma verdade do dizer, da acao da palavra de decisao movida pela fe e pela emocao e a palavra da razao, da persuasao, baseada nos ditos do Profeta e de seu genro e sucessor Ali Ibn Abi Talib, como ainda nos exemplos de vida dos lideres religiosos locais (9) e assim como o discurso politico que funciona na conjuncao de discursos de ideias (a verdade da possibilidade) e de poder, pensamento, acao (CHARAUDEAU, 2006). A identidade dos alauitas no Brasil se constroi tendo a palavra religiosa associada ao sentimento de pertencimento a uma patria, no caso a Siria, ja que se originam das montanhas do pais arabe e com ele mantem fortes vinculos.

Os alauitas--Origem e Historia

Dois tercos da populacao da regiao costeira do noroeste da Siria e alauita, ocupada ainda por muculmanos sunitas e ismaelitas e uma minoria crista. Perseguidos e ameacados de extincao pelos otomanos e pela maioria sunita da Siria, que os consideravam hereges, os alauitas buscaram nas montanhas sirias protecao e abrigo, pois nao tinham a protecao dos governantes para suas praticas religiosas.

Conhecidos, ainda por Nusayristas (10), existem comunidades alauitas no Norte do Libano e no sul da Turquia. Na Turquia sao conhecidos por Alevis, um nome turco que generaliza todos os xiitas mais radicais em suas praticas misticas.

Os alauitas sao uma seita do xiismo. A palavra "shua" significa partidario, seguidor, logo todos os xiitas sao partidarios do imam Ali Ibn Abi Talib. A divisao entre xiitas e sunitas ocorreu apos a morte de Muhammad, com a questao da sucessao na lideranca da comunidade islamica. De acordo com a pratica arabe pre-islamica, o filho homem assumiria todas as funcoes do pai, no entanto Muhammad nao tinha filhos homens, sua unica herdeira era sua filha Fatima AL Zahra, no entanto, pelas leis de hereditariedade ainda da Arabia preislamica nao poderia nada assumir, mesmo que fosse muito proxima de seu pai ou mesmo ainda sendo casada com o primoirmao do Profeta, Ali Ibn Abi Talib, que na historia do isla foi o primeiro jovem a reconhecer a profecia de Muhammad.

A estrategia de garantir a sucessao para os membros da familia do Profeta, atraves do casamento de Fatima e Ali, nao dera certo, mesmo que esse fosse o real desejo de Muhammad e mesmo que dessa uniao tenham nascido os dois netos homens de Muhammad (Hassan e Hussein), logo possiveis legitimos herdeiros, a elite de Meca nao permitiu que a regra de sucessao da Arabia pre-islamica fosse quebrada. Um grupo, a despeito de tudo, tentou ainda legitimar a sucessao de Ali.

Logo se formaram dois campos de opiniao: aqueles que consideravam os membros da familia do Profeta (ahl AL-bayt) como seus sucessores legitimos, uma vez que compartilhariam da sua natureza sagrada; e aqueles que enfatizavam a igualdade entre os fieis, afirmando que qualquer muculmano poderia suceder o Profeta desde que se mostrasse apto para tanto. (PINTO, 2010a, p. 74)

Houve assim o grande cisma do isla, de um lado os partidarios de Ali, de outro os que concordavam com a tradicao que excluia as regras da sucessao (PINTO: 2010a), a partir dai, o isla iniciou uma nova etapa de sua historia.Todos os descendentes masculinos da Ali passaram a serem considerados os "Imam" (lideres) (11) pelos xiitas que teriam a responsabilidade de guiar os fieis. Comecava a linha sucessoria reconhecida pelos xiitas, porem o primeiro cisma aconteceu na sucessao do quarto imam Ali Zein Al A'bidin (bisneto do Profeta Muhammad), no seculo VIII, um grupo apoiou Zayd e outro Muhammad Al Baqir, o primeiro grupo ficou conhecido por Zaydistas, que nao reconhecem Muhammad Al Baqir como o quinto imam. Com a morte do sexto imam Jafar Al Sadiq houve o principal cisma dentro do xiismo. A maioria dos xiitas aceitou Musa Al Kazim, filho mais novo de Jafar como sucessor, mas os discipulos de Ismail, o filho mais velho, ja morto, nao viam isso com bons olhos, pois

"viram nisso uma contradicao com a doutrina da onisciencia atribuida aos Imams, pois Ja far deveria saber que seu filho morreria antes dele." (PINTO, 2010 a. p. 80).

O grupo religioso dos alauitas surgiu no seculo IX, quando houve a cisao no imanato de Hassan Al Askari, o decimo primeiro imam. No entanto, de acordo com teologos alauitas (12) e ao contrario do que dizem alguns antigos estudiosos do isla (13), nao houve uma ruptura radical como nos demais grupos, o que aconteceu foi uma reinterpretacao do imanato. Estabelecem, assim, uma pequena diferenca entre alauitas e xiitas duodecimanos, que se concentram a partir da escolha do vice-regentes do imam Al Mahdi (o 12[degrees] e ultimo imam xiita), pois sendo crianca, quando da morte de seu pai, nao teria como dirigir a comunidade muculmana e para orienta-lo e protege-lo, foi escolhido pelo proprio imam Hassan Al-Akhir seu discipulo, Muhammad Ibn Nussayri Al-Baqri Al-Nussayri (14), no seculo IX. Porem, ainda de acordo com os teologos alauitas, tal qual os xiitas duodecimanos, os alauitas reconhecem o 12[degrees] imam, Muhammad Al Mahdi.

O proprio Nussayri se autodenominava "o guardiao" (Al Bab) de Al Mahdi. Quando os franceses assumiram o controle da Siria em 1920 eles usaram o termo "alauita" para os nusairistas, que tambem serao conhecidos por "namiriya" ou "ansariyya". Como o grupo reverenciava Ali, passaram a ser chamados de alauitas, objetivando assim, acentuar as semelhancas do grupo ao isla xiita 15 ( MERVIN, 2006) e assim, reforcavam sua filiacao ao isla, na medida em que o antigo imperio otomano tentava os desvincular do isla.

Apos uma fase de expansao no Oriente, pois surgem no Iraque, seguem para o Egito, Turquia, finalmente se estabelecem em montanhas da Siria, desenvolvendo e aprofundando crencas e ritos locais, numa via mistica a margem do isla. O alauismo, assim, se desenvolveu nas montanhas sirias cercado de segredos e construindo uma identidade propria (BALANCHE, 2006) com isso, reforcavase, a construcao de um discurso religioso de preservacao que seria passado de pai para filho.

Os alauitas, ao contrario do que se divulga, seguem todos os preceitos do isla, a crenca em um Deus unico, no seu mensageiro Profeta Muhammad e seguem os cinco pilares do isla. Porem, sua pratica religiosa e uma mistura sincretica de extremo misticismo xiita (Ghulat) com elementos do cristianismo primitivo, como por exemplo, a comemoracao do Natal e algumas comemoracoes do calendario persa. No entanto, chama a atencao, ainda, que os alauitas reverenciam alem do Profeta Muhammad , Ali e todos os membros da Ahal Al Bayt, um terceiro personagem religioso, Salman, o Persa (Salman, Al Farsi), fiel companheiro do Profeta, que abandonou toda sua riqueza pessoal para seguir Muhammad e e conhecido como o "guardiao do conhecimento". De acordo com alguns pesquisadores, como Fabricie Balanche (2006) que teve acesso a varios escritos privados (16) da seita, um sincretismo com o misticismo dos antigos persas se funde na representacao de tres personagens: Ali e a lua, o sol e Muhammad e Salman o ceu, reforcando, assim, forma-se o carater mistico do grupo. Esta "trindade" tem levado a crer que os alauitas eram cristaos que se refugiaram nas montanhas durante a expansao islamica e de acordo com Balanche esta trindade esta diretamente relacionada ao agnosticismo do Oriente, que foi mantido em algumas seitas apesar do monoteismo cristao e muculmano. No entanto, este sincretismo e negado pelos teologos alauitas e nao e, em principio, transmitido no discurso religioso da preservacao da identidade alauita no Brasil.

Enquanto que na tradicao dos xiitas duodecimanos ha uma forte representacao iconografica de membros da familia de Muhammad, como Ali Ibn Abi Talib e seus filhos Hassan e Hussein (genro e netos do Profeta, respectivamente), o carater mistico do grupo, permite que, por exemplo, atribuam aos shiaykh (lideres religiosos) ou aos Imams descendentes de Ali Ibn Abi Talib a realizacao de milagres. Os alauitas constroem, por isso, santuarios ou ainda colocam em suas casas, em local de destaque, as fotos desses lideres. Os santuarios na Siria recebem a visitacao dos alauitas, especialmente, as sextas-feiras, em datas religiosas como Ashura (17) ou o 17 de Abril (18).

Assim, pode-se perceber que ha uma diversidade de praticas e tradicoes religiosas dentro do isla, ou seja, ha diversos "modos de religiosidade" (WHITEHOUSE, 2000).

A crenca na metempsicose, a baixa frequencia nas mesquitas e a nao obrigatoriedade das mulheres em usaram o hijab (19), para nao mencionar que nas suas origens se isolavam nas montanhas e consequentemente a pobreza em que viviam, foram fatores que contribuiram para que fossem publicados textos ofensivos sobre os alauitas. O grupo religioso foi condenado por clerigos do isla sunita, como Ibn Taymiyya, que, em uma fatwa (20) instaurou a jihad contra os alauitas (21) o que provocou, por muito tempo, intensa perseguicao e preconceito em relacao ao grupo.

No seculo XX, com a chegada do presidente sirio Hafez Al Assad (22), um alauita, ao poder, houve uma mudanca de conduta em relacao ao grupo que passou a ser mais tolerado na sociedade siria. Em primeiro lugar porque Assad pos em pratica a secularizacao do estado sirio, como preconizava seu partido Baath, em segundo por participar de oracoes da sexta e daquelas que se realizam em toda a ocasiao religiosa, sob a direcao de um Imam sunita.

Alem disso, Hafez Al Assad, sob orientacoes do partido Baath, elevou o nivel de instrucao para todos os cidadaos sirios (cristaos e muculmanos) e, assim, os alauitas, em sua maioria excluidos do sistema educacional pelos altos custos, passaram nao so a serem alfabetizados como tambem a ter o acesso garantido a universidade e consequentemente a sairem do campo para ocuparem postos de destaque nas cidades. Alem disso, por estrategia politica do velho Assad, os altos cargos do exercito foram ocupados pelos alauitas, com isso, garantia sua permanencia no poder. Alem dos alauitas, cristaos e a elite sunita apoiavam o partido Baath, na medida em que este fundiu a sua ideologia os principios do Partido Socialista Nacionalista Sirio de Antoun Sa'ade, que tinha muitos cristaos como integrantes.

A oposicao a Hafez Al Assad era grande e 1982, acontecia um dos maiores massacres contra a populacao civil na Siria. A Irmandade Muculmana, grupo sunita fundamentalista que lutava pela implantacao das Leis Islamicas (shari'a) nos paises arabes e muculmanos, organizava-se, no pais, desde 1976. O exercito sob comando de alauitas e o desejo de unificar os paises sob a bandeira do Isla, levaram esses sunitas a um processo de luta pela derrubada de Assad e do seu Partido. Um periodo de terror se instaurou no pais, com perseguicoes, prisoes, torturas e mortes de membros da Irmandade Muculmana, que teve sua culminancia com o Massacre de Hamas em 1982. Tropas do exercito sirio eliminaram entre 10.000 e 40.000 pessoas, na cidade de Hamas, bem como muitos foram presos, aumentando assim, um grande ressentimento sunita em relacao aos alauitas.Mesmo que alguns integrantes da Irmandade tenham sido libertados, o ressentimento politico e religioso era grande e ja estava instalado.

Assim, a Guerra Civil siria, iniciada em 2011, mostrou que durante o regime de Hafez Al Assad, os alauitas foram apenas tolerados pelo fundamentalismo sunita, como prova a violenta perseguicao ao grupo feita pelos opositores do regime de Bashar Al Assad, filho de Hafez, na atual guerra civil.

A Imigracao para o Brasil

No final do seculo XIX e primeira metade do XX, a instabilidade politica e economica provocam o maior fluxo imigratorio do grupo. Embora alguns autores afirmem que o grande fluxo de imigrantes arabes para o Brasil tenha se dado em funcao da crise da seda, que foi responsavel por boa parte da imigracao da regiao do Monte Libano (PINTO, 2010b), em relacao a imigracao siria e em especial a alauita fica dificil delimitar, pois o que se tem observado pelas fontes primarias, que dois motivos foram responsaveis, o economico e o politico. Vivendo nas montanhas e alijados de qualquer protecao de perseguicoes religiosas viam na imigracao uma possibilidade de se livrarem da precaria situacao economica e da repressao tanto advindas dos otomanos quanto mais tarde da maioria sunita que tomou o poder, com apoio frances.

Perseguidos pelos otomanos, os alauitas cada vez mais se fechavam nos seus ritos religiosos, e nas montanhas sirias, onde viviam, cultivam a terra. Em 1918, os franceses ocuparam a regiao costeira da Siria com o objetivo de separar a regiao do restante do pais, o que feria os principios da formacao da tao desejada Grande Nacao Siria. Em 1919, os alauitas, iniciaram um dos primeiros levantes contra a ocupacao francesa na regiao, liderados pelo politico e religioso Shaykh Saleh Al Ali. Assim, o discurso politico se fortalecia atraves do discurso religioso praticado pelo lider alauita.

Com a derrota dos otomanos na 1a Guerra Mundial e sua consequentemente expulsao da Siria, e a despeito da resistencia alauita, a Franca dividiu o territorio sirio em cantoes semi independentes e entre eles criou o Estado Alauita (Dawlet Al Jabal Al 'Alawie), instituindo como capital a cidade de Latakia.

Em 1925, sob o comando dos lideres o druzo Sultan Al Atrash, o alauita Saleh Al Ali e o curdo Ibrahim Hananu iniciou-se uma grande revolta contra o Mandato Frances nome do nacionalismo sirio, da Grande Nacao Siria.

Em 1930, os franceses rebatizaram o Estado Alauita de Governo de Latakia, para atender aos interesses dos druzos e da burguesia sunita que nao concordava com a criacao de um estado exclusivamente alau. Em 1936, deu-se o fim a este Estado, e o governo frances anexou-o a Federacao Siria (NISAN: 2002).

Na Siria, embora o sentimento separatista alauita na regiao tenha continuado, nao foi suficiente para que este grupo religioso se organizasse para uma rebeliao, pois entre eles havia os clas de latifundiarios dominavam e tomavam terras com apoio frances (HOURANI, 1995). Estes dividiam o grupo em tribos e subtribos que tendiam a rivalizar. A parte sul do territorio das Montanhas sirias, foi descrita como a mais tribal, dividindo os grupos em Matawarin, Kalbiah, Haddadin e Khayatin. Essa divisao foi predominante no inicio do seculo XX, influenciando na imigracao para o Brasil e colaborando para a organizacao das redes solidarias que recebiam os imigrantes sirios e libaneses. Esses clas foram perdendo forca ao longo do seculo XX, em especial apos os anos de 1970, com a chegada de Hafez Al Assad ao poder.

Nas narrativas da imigracao, mantidas pelos descendentes, entre os anos de 1930 e 1950, estes chefes clanicos ora aparecem como benfeitores ora como viloes nas aldeias. Eles decidiam quem deveria ser alfabetizado, quem deveria orientar na formacao da fe e quem deveria ter uma educacao formal. De acordo com relato de S.B23, de 90 anos, que aqui chegou em 1950 seu sonho em ser advogado nao se concretizou porque o Afandi (Senhor) do cla de sua aldeia, nos arredores da cidade de Safita, nao permitiu que estudasse. Segundo o entrevistado, o afandi alegou que "advogados mentem" e que o melhor para ele seria apenas ler e assim compreender o Corao.

Para a viagem, as passagens eram compradas para varios pontos da America (Amrika), com dinheiro emprestado por esses lideres locais, que pegavam as terras desses agricultores como garantia. Na maioria das vezes, nao conseguiam pagar, aumentando a divida, as terras eram perdidas para esses "afanedie" (senhores). O imigrante Y.O chegou ao Brasil aos 17 anos, em 1944, para quitar as dividas das terras de sua familia contraida por seu pai S.O que havia imigrado para o Brasil no inicio dos anos 1920, com dinheiro emprestado pelo afandi de sua aldeia, nos arredores da cidade de Safita. Em 1924 retornou para a Siria quitando a divida e ainda com o pouco dinheiro que restara, investiu na terra de cultivo de oliveiras. No entanto, a colheita nao cobria a demanda imposta pelo lider local e a familia viu-se novamente no meio da pobreza. S.O, novamente, hipotecou as terras e voltou ao Brasil em 1928, onde viveu por onze anos, quando retornou em 1939, nao conseguiu pagar a divida, pois o afandi aumentava os valores de acordo com a colheita, por ele controlada. Com a 2a Guerra, a pobreza no pais, em especial nas aldeias alauitas aumentou, seu filho viajou para o Brasil em 1944 para com seu trabalho e salvar as terras da familia. Por cinco anos trabalhou com este proposito e conseguiu resgatar a hipoteca com o afandi da sua aldeia.

No caso de sirios e libaneses, portanto, a emigracao nunca podera ser entendida como uma empreitada de aventureiros desgarrados do tecido social na terra de origem. Como em geral acontece, nao foram os estratos sociais mais desprivilegiados que conformaram as hostes de emigrantes. Enviar um ou mais filhos a America, via de regra, era uma decisao tomada no ambito da familia, coordenada pelo seu chefe, num calculo destinado a melhorar ou pelo menos manter a situacao relativa do nucleo familiar na sociedade local. (TRUZZI, 13, 1993).

No Rio de Janeiro, as conexoes entre membros se estabeleciam, inicialmente, pela identidade pela confissao religiosa e posteriormente pelo cla que dominava na aldeia, constituia-se, assim, a identidade dos alauitas no Brasil (BARTH, 1998), que expressavam uma identidade diferencial nas relacoes com outros grupos do isla. O maior fluxo imigratorio ocorre na 1a metade do seculo XX. Oriundos da Siria estabeleciam-se inicialmente nos centros urbanos como Rio e Sao Paulo, depois de acordo com as redes de solidariedade (PINTO, 2010b), que ja eram pre-estabelecidas pelos atravessadores que cuidavam de toda a viagem ate a partida no porto de Beirute ou eram estabelecidas depois da chegada ao Brasil. Essas relacoes criavam um elo de compadriamento entre eles, principalmente entre aqueles que aqui chegavam atraves das "cartas de chamadas", essas cartas reafirmavam a sua identidade e reforcavam a solidariedade entre o grupo.

De acordo, ainda com as narrativas da imigracao, o deslocamento para o Brasil nao era direto, antes de partirem para o seu destino no estrangeiro, os alauitas tentavam se estabelecer proximos a suas familias migrando do campo para as cidades da Siria e do Libano. Trabalhavam, no caso das mulheres, como domesticas nas casas de cristaos, e os homens como forca de trabalho bracal na construcao civil e estaleiros (24). O depoimento de T.A25, alauita que vive no Brasil ha 58 anos, fala de sua trajetoria antes de chegar ao Brasil:
   Nos eramos cinco irmas e para ajudar com a despesa da casa, meu pai
   nos oferecia para trabalhar em casa de familias. No meu caso fui
   trabalhar aos dez anos de idade na casa de uma familia muito boa em
   Beirute, no Libano. Ali aprendi a arrumar uma boa mesa, nunca vi o
   dinheiro que recebia. Uma vez por mes, meu pai ia para Quando
   completei dezessete anos, meu pai decidiu que era hora de casar.
   Tive que sair da casa com muita tristeza, ali eu era bem tratada e
   tinha comida todos os dias. Vim para o Brasil para casar com um
   primo meu.


Na narrativa ficcional, passagem semelhante e narrada:

No verao daquele ano Ibrahim ausentou-se de Ain el-Jesh por uma semana. Fora buscar uma moca alauita que trabalhava na casa de uma abastada familia crista de Alepo. Os dela eram de uma aldeia proxima e, por necessidade, tinham entregado a filha a uma familia para servicos de criada. (ABRAO: 2009, p.66)

A instabilidade politica na Siria e a nao resolucao dos problemas economicos com o exodo rural aumentou o fluxo de alauitas para o Brasil, ao final da 1a Guerra Mundial. Vive-se um periodo de declinio da imigracao durante a Grande Guerra, mas entre os anos de 1918 e 1919, mostram que o numero de imigrantes voltou a crescer. Entre 1924 e 1934, em funcao das cotas restritivas de imigracao nos Estados Unidos, Argentina e Canada, a imigracao para o Brasil aumentou, caindo logo depois a restricao estabelecida pelo primeiro governo de Vargas. (PINTO, 2010b).

Nas primeiras decadas seculo XX, ao chegarem aqui, os alauitas ou iam trabalhar como mascates ou trabalhavam na construcao de estradas de ferro que comecavam a surgir integrando o interior do estado de Sao Paulo. E o caso de A.I26, ao chegar em 1914, foi trabalhar na construcao da estrada de ferro Noroeste do Brasil, que integrava Sao Paulo ao Mato Grosso. Ao contrario de boa parte dos imigrantes arabes, A.I saiu como clandestino da Siria por se opor e lutar contra a opressao otomana e com uma documentacao forjada embarcou num navio com destino ao Brasil, sem a carta de chamada.

De qualquer forma, a escolha do Brasil nao fora aleatoria, mesmo sem a carta de chamada, as redes de solidariedade existiam e o jovem imigrante procurou um parente residente em Aracatuba, interior de Sao Paulo, que trabalhara por um periodo na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. As redes solidarias, como no caso citado, eram fundamentais para o estabelecimento dos imigrantes nas cidades brasileiras. Atraves dos contatos deste parente, A.I foi contratado para trabalhar na continuacao da construcao da Noroeste do Brasil, ao chegar em Tres Lagoas, Mato Grosso do Sul, foi levado a procurar a familia de alauitas de F.R, oriundo da aldeia de Dwair Rslam, um mascate que vivia num sitio. Ficaram amigos mandou uma carta de chamada para que sua irma T.R viesse para o Brasil e se casasse com A.I. As relacoes de parentesco se reestruturavam desta forma no Brasil, nao eram mais as origens familiares e os clas das aldeias que estabeleciam os lacos de parentescos e sim a religiao e as redes de solidariedade.

No Rio de Janeiro, a comunidade era bem maior, havia muitos alauitas estabelecidos no comercio, o numero era tao significativo, quem em 1931, no Rio de Janeiro, fundaram a primeira associacao muculmana do Brasil--Sociedade Beneficente Alauita--que durante muitos anos, ate o inicio dos anos 2000 teve efetiva participacao na vida social e religiosa de seus associados. Na ata de sua fundacao, nao trazia a identificacao da religiao "Muculmana" no nome, era apenas Sociedade Beneficente Alauita. No final dos anos 1970, por decisao da diretoria e acrescida a identificacao da religiao islamica ao nome, reforcando sua vinculacao ao isla. A sociedade no Rio de Janeiro, situada na Tijuca, alem de ter sido a primeira no Brasil, foi a primeira instituicao islamica na cidade, sendo referencia para alauitas e sunitas (PINTO: 2010b), por muito tempo.

Carteira de associado, no verso em arabe. O nome da sociedade nao trazia o termo "muculmana". Inicialmente, como nao tinha sede propria, as reunioes aconteciam nas casas dos socios, restaurantes, hospedarias e ate nas pracas publicas, como exemplo, muitos contam que o ponto de encontro para estas reunioes era na Praca Paris, no Centro do Rio de Janeiro. Entre 1955 e 1958, essas reunioes aconteciam na casa do shaykh (lider religioso) Hassan Safatli (28), na Rua Maia de Lacerda, 94, no bairro do Estacio. Em 1958 os associados compraram a sede de sociedade (Jam'iya), na rua Dominio da Gama 44, Tijuca.

Na sede aconteciam encontros sociais, como festas de aniversarios, casamentos, comemoracoes de bodas, alem das festas religiosas.

A figura 9, revela uma pratica comum da sociedade brasileira, a celebracao das bodas de Prata, festividade inexistente no espaco alauita, a foto tres revela o carater transnacional da comunidade alauita do Rio de Janeiro. Nela nao se encontra apenas a bandeira da Sociedade Beneficente Alauita como as bandeiras da Siria (29) e do Libano. Na mesa ainda a presenca de membros da comunidade crista ortodoxa e corpo diplomatico da Siria.

Hoje ha um numero consideravel de muculmanos deste grupo no pais, ainda de acordo com as informacoes da Sociedade do Rio de Janeiro, ha 400 associados, entre nativos e descendentes, no estado, esse numero nao inclui as mulheres (pelo regimento nao podem ser associadas), no entanto, por inumeras crises pelas quais a sociedade passou e a ausencia de uma lideranca religiosa os eventos rarearam e os integrantes da comunidade comecam a estabelecer outras formas para manifestacao de sua religiosidade. Apesar de no final dos anos 1970, o termo "muculmana" tenha sido acrescido a associacao, o discurso religioso tanto o que mantem as tradicoes do isla quanto o dos rituais esotericos, utilizados para a construcao do ethos da comunidade tem sofrido grande esvaziamento, na medida em que comecam a faltar na comunidade liderancas religiosas para darem prosseguimento a ele. O "imaginario sociodiscursivo" do qual nos fala Charaudeuau (2006), o "universo de significacao que funda a identidade de um grupo" (p. 202-204) comecou a se perder na comunidade alauita do Rio de Janeiro.

No caso da Sociedade de Sao Paulo, desde a fundacao (1965) a sua vinculacao ao isla se faz presente no nome: Sociedade Beneficente Islamica Alauita da Sao Paulo, situada Rua Franca Pinto 1293, Vila Mariana.

Em Sao Paulo, o numero de associados e ainda maior, de acordo com relatos dos membros da comunidade, ha cerca de 700 membros, nao estando incluidas algumas familias que vivem no interior do estado, como nos municipios de Aracatuba e Presidente Prudente. A preservacao da identidade do grupo ocorre nos discursos de carater religioso e politico, uma vez que a comunidade e formada por sirios politizados e simpatizantes do partido Baath. Neste aspecto, a comunidade constroi sua identidade vinculada nao so a religiao como tambem ao mundo politico da Siria. O conceito de Watan (patria) e Umma (comunidade, nacao) comecam a se mesclar na medida que a nova geracao foi afetada nao so pelo discurso do pan-arabismo como do nacionalismo baathista sirio.

O atual presidente sirio Bashar Al Assad e alauita, e para se compreender o atual conflito, conhecer a historia dos alauitas se transforma em condicao previa para uma analise mais elucidativa da historia da Siria contemporanea. Nota-se que nas relacoes internas da comunidade, a Guerra Civil Siria reverberou nas relacoes religiosas, politicas e sociais do grupo. O discurso politico e ideologico, assim, se entremeia com mais forca ao religioso, muitas vezes se sobrepondo a ele, formando assim uma nova identidade religiosa, onde a nacionalidade se torna sinonimo de confissao religiosa.

Ao contrario de boa parte dos muculmanos (xiitas e sunitas) a nocao da nacao islamica (Umma) para os alauitas cede lugar ao sentimento de patriotismo (Wattan), este grupo apesar das rigorosas praticas religiosas, seu pertencimento esta na patria idealizada que seria a Grande Nacao Siria. A ausencia do sentimento de pertencimento a nacao islamica afasta este grupo das praticas sociais com outros muculmanos, seja aqui no Brasil seja no exterior.

A Transmissao do Conhecimento Religioso--O discurso politico e o religioso

Frederik Barth (2000) elucida as maneiras pelas quais as tradicoes religiosas sao transformadas em realidades sociais. Cada sociedade esta impregnada por diferentes formas de conhecimento, e necessario investigar os modos pelos quais este conhecimento e transmitido e dinamizado na interacao social. A transmissao do conhecimento religioso entre os descendentes dos muculmanos alauitas se fazia (como ainda hoje) pela oralidade, ja que sabiam apenas falar arabe. Os que sabiam ler o arabe assumiam um papel de destaque na comunidade, surgindo assim uma hierarquizacao interna das relacoes deste grupo (BARTH, 1998), o capital intelectual hierarquizaria todas as relacoes do grupo. Neste aspecto, ao aprofundarmos a transmissao do conhecimento religioso, a nocao de "conhecimento" sera entendida aqui a partir dos entendimentos dos muculmanos alauitas no Brasil acerca das praticas e ideias religiosas que eles consideram como corretas.

Assim, para se compreender o isla na perspectiva dos alauitas se faz importante refletir nos processos de reimaginacao e ressignificacao dos elementos que constituem sua tradicao normativa reelaborados a partir do espaco social da sua vivencia religiosa. Nota-se, desta forma que entram em conflito diversas formas de interpretacoes teologicas e praticas rituais presentes no isla como um todo nas praticas locais dos alauitas. Como as praticas discursivas nao sao homogeneas, articula-se a insercao do discurso politico na preservacao desta identidade, pois ha discursos outros nas praticas deste discurso religioso (CHARAUDEAU& MAINGUENEAU, 2006).

Ao contrario do Cristianismo, nao ha no Isla uma organizacao de sacerdotes institucionalizada; na comunidade ha diversos lideres religiosos que devem deter o conhecimento religioso baseado nos textos sagrados, este conhecimento atribui as autoridades religiosas papeis de guardioes das tradicoes, cabendo a eles a responsabilidade de transmitir e formar o conhecimento religioso. Assim, o conhecimento religioso e fundamental para a legitimacao de uma autoridade religiosa (BARTH, 2000). No caso dos alauitas, esse conhecimento religioso deve ser tanto o coranico quanto o esoterico das suas praticas religiosas.

Cientes do papel da lingua para legitimar seu pertencimento a Ummah (comunidade universal de fieis muculmanos) e a Watan (patria) siria, no seculo passado, os imigrantes alauitas convidavam os lideres religiosos para virem ao Brasil (30) a fim de ensinar seus filhos a falar, ler e escrever o arabe e depois os principios religiosos, garantindo assim a preservacao de suas tradicoes religiosas. Cientes de que o idioma arabe e de suma importancia para compreensao e preservacao da religiao e da sua identidade local, nos anos de 1980 a comunidade alauita no Rio de Janeiro, atraves dos filiados ao partido Baath, solicitou ao governo sirio o envio de professores para a comunidade. Foram enviados por seis anos consecutivos diversos professores que nao atendiam nao so os alauitas como integrantes da comunidade crista ortodoxa. As aulas aconteciam tanto na Sociedade Alauita quanto na Igreja Ortodoxa situada na Rua Gomes Freire. Porem, houve a interrupcao do envio destes professores e os alauitas se viram, novamente, sem poder transmitir o conhecimento do idioma, e consequentemente religioso, para seus descendentes. Ha de se notar que estes podem ate nao saber falar com fluencia o arabe, muito menos saber ler e escrever, mas as oracoes e todos os rituais publicos e privados sao feitos na lingua do Profeta, mantendo-os, assim, fieis as tradicoes religiosas e ao seu sentimento de pertencimento a nacao Siria. Pode-se perceber que esse grupo religioso compreendeu, num primeiro momento, que os discursos sobre nacao e identidade nao se resumiam ao pais de onde vinham e sim ao conceito de comunidade imaginada (ANDERSON, 2008) no caso, uma comunidade da confissao alauita no Brasil.

Na perspectiva de Charaudeau, para se atingir um objetivo discursivo, como estrategias discursivas e argumentativas utilizam-se o ethos e o pathos como base da enunciacao, por isso, os discursos (khutba) proferidos pelo shaykh Hassan Safatli (31), nao desvinculava os alauitas do isla, destacava, muitas vezes, que "a religiao trazida no coracao de cada um" deveria ser o elo entre esses imigrantes. Ao longo de sua vida o shaykh Safatli manteve um discurso religioso que agregava todos os membros da comunidade, usava como estrategia de persuasao discursiva proverbios, metaforas e maximas extraidas tanto dos ahadith (ditos) do Profeta quanto de seu sucessor Ali, compreendidas por um grande numero de seguidores, que reconheciam a tradicao e a soberania de sua religiao. Para a semantica cognitiva, as metaforas assumem um papel de figura de pensamento, resultado de um processo cognitivo. Essa concepcao de metafora toma a linguagem como uma acao sobre o mundo, e assim o discurso assume um papel legitimador socio, cognitivo e linguistico dessa acao (LAKOFF & JOHNSON, 1980). Com isso, no discurso religioso de preservacao de uma identidade, a metafora era usada como um recurso para produzir sentidos, atraindo e mantendo os seus interlocutores, a fim de preservar a identidade religiosa no pais "estrangeiro".

O fluxo migratorio entre os anos de 1970 e 1980 introduziu na preservacao desta identidade, o discurso politico, pois a Siria tinha um presidente alauita e para a sobrevivencia do grupo o envolvimento politico passa a ser uma necessidade. Por isso, a nova geracao de imigrantes acrescentava com mais veemencia, que alem da religiao, a nacionalidade siria os uniria no pais que os acolhia.

Como a nocao de Watan e Ummah se mesclam para os alauitas, no Brasil, sua identidade se constroi tendo por base tanto o discurso politico e o religioso. Por um lado, a imagem da Siria igualitaria, sem distincao de credos, presente no discurso politico da Watan, do outro o sentimento que unem todos sob uma mesma fe, presente no discurso da Ummah (nacao religiosa), sera a marca da identidade dos alauitas no Brasil.

Referencias Bibliograficas

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BARASHER, Meir Mikhail and KOFSKY, Arieh The Nusayri-Alawi Religion: An Enquiry into Its Theology and Liturgy (Jerusalem Studies in Religion and Culture. 2002.

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HOURANI. Albert. Uma historia dos povos arabes. Traducao: Marcos Santarrita. 2.ed. Companhia das letras. 2a edicao. 1995.

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MERVIN, Sabrina. " Quelques jalons pour une histoire du rapprochement (taqrib) des alaouitesvers le chiisme", Islamstudien ohne Ende, Festschrift fur Werner Ende, Deutsche

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MUNA OMRAN (1)

(1) Professora Colaboradora do Programa de Pos Graduacao em Letras da Universidade Federal Fluminense. Vice-Lider do Grupo de Pesquisa Leitura, Fruicao e Ensino (UFF). Doutora em Teoria e Historia Literaria pela UNICAMP. Pesquisa voltada aos estudos culturais e literarios do mundo arabe e sobre do isla. Email: m_omran@uol.com.br

(2) A Guerra Civil Sirio colocou em evidencia os alauitas, grupo religioso ligado ao xiismo.

(3) Ha um interesse ainda, pelo aspecto mistico do sufismo.

(4) Movimentos que surgem a partir do seculo XVIII como o Wahabismo, Salafismo, Irmandade Muculmana, Jihadismo dentre outros, mais recentes, inclusive como a Al Qaeda.

(5) De acordo com a historia do islao, as divisoes sectarias surgem apos a morte de Muhammad, este nao havia deixado um herdeiro masculino. Assim, dois grupos se formaram, um que considerava os membros da familia do Profeta como legitimos herdeiro, esses seriam os xiitas, e o outro liderado por Abu Bakr, sogro do Profeta, acreditavam que deveria haver a igualdade entre os fieis para a sucessao, e qualquer um que estivesse apto a ocupar o lugar do Profeta, estes seriam os sunitas.

(6) Os xiitas duodecimanos se organizaram em torno da lideranca de Ali Zeyn AL A'bidin, bisneto de Muhammad. Todos os membros masculinos da linhagem de Ali (genro e primo de Muhammad) passaram a ser considerados lideres religiosos (Imams). Os xiitas duodecimanos aceitam a sucessao dos imams ate o 12[degrees] lider (Muhammad AL Mahdi).

(7) GHABAR, Najla. O Druzismo Verde Amarelo.Dissertacao de Mestrado PUC-SP, Ciencias da Religiao.2013.

(8) Paulo Pinto em Isla:Religiao e Civilizacao:Uma abordagem antropologica. Sao Paulo:Editora Santuario, 2010. e em Arabes no Rio de Janeiro:uma identidade plural. Rio de Janeiro: Cidade Viva, Instituto Cultural Cidade Viva, 2010. Raf uma breve referencia sobre o grupo.

(9) Local aqui usado na perspectiva dos imigrantes, referindose aos lideres de suas aldeias na Siria.

(10) Mais adiante detalharemos os motivos da denominacao.

(11) Os 12 Imams sao: Ali Ibn Abu Talib, Hassan Ibn Ali, Hussein Ibn Ali, Ali Zein Al A'bidin, Muhmad Al Baker, Ja'far Al Sadiq, Musa Al Kazim, Ali Al Rida, Muhammad Al Jawad, Ali Al Hadi, Hassan Al Askari, Muhamad Ibn Al Hassan Al Kaim Al Mahdi.

(12) Foram consultados alguns shaykhs alauitas, na Siria, Libano e Brasil, o acesso a fonte escrita teologica dos alauitas nao e permitida para mulheres.

(13) Em funcao do fechamento do grupo, muitos pesquisadores se baseiam em teses de teologos sunnis como Ibn Taymiyyah Muhammad ibn Abd al-Wahhab, entre outros, que consideram o grupo Kafir ( infiel). Ver ainda BARASHER, Meir Mikhail and KOFSKY, Arieh The NusayriAlawi Religion: An Enquiry into Its Theology and Liturgy (Jerusalem Studies in Religion and Culture. 2002.

(14) Dai o termo "nussayrista".

(15) Muito membros deste grupo, imigrantes sirios no Brasil, evitam a referencia a Nussayri, reafirmando apenas que os alauitas sao os primeiros muculmanos, pois sao seguidores de Ali, o legitimo herdeiro do profeta Muhammad.

(16) Esses escritos so podem ser acessados por homens.

(17) Ashura e a rememoracao do martirio do Imam Hussein Ibn Ali, neto do Profeta, que foi assassinado por Yazid Ibn Muwa'wia, califa de Damasco no seculo VIII. Os xiitas duodecimanos relembram o martirio em representacoes teatrais, os alauitas fazem oracoes e sacrificam animais, nestes locais, em homenagem a Hussein. A carne e distribuida entre os mais pobres.

(18) Aniversario da retirada francesa da Siria ( os alauitas contribuiram para essa retirada, dai o forte carater nacionalista do grupo) e por coincidencia, data em que se inicia a Primavera que e comemorada pelos alauitas pois a sua maioria sao agricultores e a Primavera e o prenuncio de novos tempos.

(19) Hijab--o veu que cobre as cabecas das mulheres muculmanas.

(20) Decreto.

(21) Cf. Heinz Halm, << Nusairi >>, em Encyclopedie de l'Islam, Paris, 1993, p. 148-150.

(22) Hafez Al Assad governou a siria de 1970 a 2000.

(23) A identidade dos entrevistados sera mantida, sendo identificados por iniciais.

(24) De acordo com relato de filhos desses imigrantes, o trabalho nos estaleiros era o preferido, pela possibilidade, de ate como clandestinos, embarcarem para a America.

(25) Os nomes de alguns entrevistados foram substituidos pelas iniciais, a pedido dos mesmos.

(26) Relato fornecido pelos descendentes.

(27) A mesma autorizou a publicacao do nome de seu avo. Anis so consegue seu registro permanente no pais em 1944.

(28) Por ser uma figura publica na comunidade, o nome do shaykh, com autorizacao de seus descendentes, sera citado ao longo do trabalho.

(29) Bandeira com tres estrelas no centro usada entre 1963 e 1972.

(30) Estes ja eram imigrantes estabelecidos na Argentina ou vinham da Siria ou do Norte do Libano.

(31) O shaykh Hassan Safatli (1906-1999) foi um dos lideres religiosos alauitas de maior destaque no Brasil. Era nao so uma referencia religiosa como politica para toda a comunidade islamica no Brasil.

Caption: Figura 1--area escurecida, cidades de Latakia e Tartus, e onde ha a maior concentracao de alauitas na Siria.

Caption: Figura 2--Ali e seus filhos, Hassan e Hussein, iconografia comum no Ira, pais de maioria xiita e sul do Libano.

Caption: Figura 3--Santuario dedicado ao Shaykh Suleiman Al-Ahmed, Latakia, Siria.

Caption: Figura 4--Interior do Santuario dedicado ao Shaykh Suleiman Al-Ahmed, Latakia, Siria.

Caption: Figura 4--Shaykh Saleh Al Ali

Caption: Figura 5--Bandeira do Estado Alawita da Latakia

Caption: Figura 6--Documento de Anis Irabi. (27)

Caption: Figura 7--Carteira de Associado

Caption: Figura 8--Diretoria e Associados na nova sede onde funciona ate hoje a sociedade.

Caption: Figura 9--Comemoracao de bodas de prata, de um dos associados.

Caption: Figura 10--Evento Cultural. Feira do Livro com a presenca da comunidade sirio-libanesa.

Caption: Figura 11--Estatuto da Sociedade Beneficente Muculmana Alauita de Sao Paulo

Caption: Figura 12--Parede da Sociedade de Sao Paulo. Bandeira do Brasil e Siria no canto, na mesma parede fotos dos fundadores e do presidente Sirio Bashar Al Assad.
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Author:Omran, Muna
Publication:Espaco e Curtura
Date:Jan 1, 2015
Words:6921
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