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Queer methods and methodologies/A mensuracao de sujeitos fluidos e provisorios.

Intersecting Queer Theories and Social Science Research

Edited by Kath Browne e Catherine J. Nash

Ashgate e.book 2011

Farnham/UK, Burlington US

Browne e Nash perceberam uma imensa lacuna na teoria queer no uso de metodos e metodologias de pesquisa. Neste livro, nao so desafiam associar a disformidade do queer as metodologias das Ciencias Sociais estabelecidas, como tambem descrevem as experiencias tensas e as ansiedades dos que se propoem a construir esta conexao.

Se no pensamento queer os sujeitos e subjetividades sao fluidos, instaveis e se fazem continuamente, como coletar dados utilizando os metodos costumeiros, como entrevistas e questionarios?

O Queer se apresenta como metodo e, ao mesmo tempo, se pretende um modo de engajamento teorico ou conceitual. O esforco dessa obra esta em coloca-lo no contexto de outras metodologias como conjunto de principios logicamente organizados que agregam a perspectiva ontologica e epistemologica aos metodos utilizados na coleta de dados.

No campo das Humanidades, a metodologia queer desafia o sujeito moderno concebido pelo Iluminismo: racional, unificado e estavel. Os teoricos da pos-modernidade colocam em questao a universalidade da condicao humana e a linearidade da historia progressista, porque seriam artificiais, improvaveis e homogeneas, logo, incompativeis com a multiplicidade e a complexidade da experiencia humana.

Na genealogia da teoria queer ha um desacordo em relacao aos debitos com a filosofia, women's studies e estudos gays e lesbicos, o feminismo da Segunda Onda e pos-modernismo. Contudo, a teoria queer contemporanea dialoga com incontaveis correntes de pensamento, mantendo uma interseccao com designs das pesquisas e a producao de conhecimento nas Ciencias Sociais.

Inova-se ao desafiar a ordem social normativa das identidades e subjetividades, o binarismo hetero/ homossexual e o privilegio conferido a heterosexualidade, colocando a homossexualidade como um outro, desviante. Para os teoricos, o entendimento normativo da sexualidade e do genero centraliza os principios organizadores da sociedade, das relacoes e instituicoes sociais, preservando a ordem hegemonica.

As pesquisas analisam experiencias das minorias sexuais e de genero, enquanto observam a "queerizacao" das relacoes heterossexuais, os processos disciplinares e a concepcao heterosexista profundamente imbricada nas Ciencias Sociais.

Nem todos os teoricos queer partilham das tendencias desconstrutivistas. Muitos adotam formas de identidades politicas provenientes da 2a Onda feminista, movimentos gay, lesbico e transexual.

Neste livro, ha uma recusa em definir o queer, permanecendo obscuro, fluido e multiplo. Percebe-se a impossibilidade de colocar fronteiras no significado, em toda sua extensao e profundidade. Recusa-se a definicao ortodoxa, a forma "correta" de engajamento como essencialista, ultrapassada, simplista e subteorizada.

Manter a posicao nao normativa requer a permanencia do instavel e disforme na representacao da identidade sexual. Nao e uma tarefa academica facil manter as contingencias queer e as regras do rigor especifico, clareza e confiabilidade dos dados. Nao estamos diante de um guia tecnico para design de pesquisas, mas da interseccao entre os metodos de pesquisa e a teoria queer.

A pesquisa queer busca a compreensao que constitui e desestabiliza a pesquisa convencional, alterando as esferas fundacionais das identidades, do social e as conceitualizacoes de realidade que a ciencia social investiga, no interior de contextos anti-identitarios na epistemologia queer.

A pesquisa queer recusa qualquer canone ou corrente de pesquisa social, traz inovacoes metodologicas e teoricas nascidas da combinacao de teorias desenvolvidas em contextos particulares e os conceitos e tecnicas de pesquisa inseridos em contextos culturais e espaciais.

Trata-se de um tipo de pesquisa que comporta discussoes sociologicas, antropologicas, estudos de genero entre outras abordagens disciplinares. A diversidade dos colaboradores nao estabelece uma unidade ou ortodoxia ao acoplar a teoria queer aos metodos de pesquisa nas Ciencias Sociais, pois os capitulos articulam-se a partir da centralidade da teoria na pesquisa em Ciencias Sociais.

Alison Rooke, da University of London, em "Queer in the field: on emotions, temporality and performativity in ethnography", discute a critica da teoria ao textualismo e a conexao da sociologia com o metodo cientifico. A "perspectiva queer sociologica e etnografica" considera a subjetividade sexual na etnografia queer nas realidades vivas, nas normatividades hetero e homo, para produzir uma etnografia convincente e necessaria sobre identidades lesbicas e subjetividades sexuais negociadas e sempre reformatadas.

A abordagem reflexiva entende o campo corn limites fluidos e flexiveis, o etnografo interconectado com a emocao para reconhecer identidades e subjetividades. Os silencios da etnografia e da reflexividade se revelam e desvendam o conhecimento erotico durante a producao do conhecimento.

Jamie Heckert, pesquisador independente, em "Intimacy with strangers/intimacy with self: queer experiences of social research", explora o "re-fazer" da pesquisa atraves do conto sobre "tornar-se queer" no processo de pesquisa, experiencia ligada ao desejo de explorar formas de anarquismo metodologico.

Partilhando historias rizomaticamente interconectadas, formula a "queerizacao' da metodologia para alem dos padroes normativos da performance de sexo/genero, pois o individuo aparece como "multiplicidade interconectada a outras" (48).

Em "Queer and gendered: queering the Latina/o 'street-scapes' in Los Angeles'", Lorena Munoz, da Westfield State University, reflete sobre as instabilidades do pesquisador e do pesquisado e a natureza mutavel do campo durante investigacoes sobre "brancura". Refletindo sobre os pressupostos dos pesquisadores no campo e sobre a abordagem metodologica queer, apresenta campos de investigacao inesperados. Explora a experiencia das latinas vendedoras de rua, em Los Angeles, com o emprego da metodologia "pessoas queer de cor", que lhe permitiu deslizar atraves das posicoes desses sujeitos e investigar a interseccao entre identidade queer e Chicana. Assim, "permitiu a reconfiguracao das construcoes metodologicas fluidas racializadas, sexualizadas e gendradas no campo" (58), dando visibilidade ao invisivel.

Yvette Taylor, da University London South Bank, em 'The 'outness 'of queer: classandsexual intersections", chama a atencao para a pesquisa queer dirigida aos privilegiados socioeconomicos que negligenciam questionamentos de classe. Nota que a propalada habilidade queer em assimilar e transgredir os limites normativos nao esta disponivel para todos. Destaca as metodologias implantadas por/para/com os queers (69), de modo a excluir ou invisibilizar certos tipos de vida. Defende a reorientacao das metodologias queer e propoe uma investigacao critica dos silencios dos que estao abaixo da classe media.

Demonstra a possibilidade da fluidez queer limitada aos carentes de recursos para romper ou transgredir o sistema. Aqui, as metodologias queer lidam com capacidades e limitacoes de interseccao sexual e normatividade entre classes, revelando como algumas vidas "podem nao ser queer de fato" (83).

Andrew King e Ann Cronin, da University of Surrey, em "Queer methods and queer practices: re-examining the identities of older lesbian, gay, bisexual adults", analisam o uso do termo LGB nas politicas publicas para idosos no Reino Unido. O uso acritico falha ao reconhecer a contingencia das identidades sexuais que se recusam a estarem contidas nessas categorias. Entender como os idosos refletem sobre experiencias no curso de suas vidas requer repensar a fluidez e a incoerencia dessas experiencias. Categorias como velhas lesbicas, homens gays e adultos bissexuais sao repensadas sob o argumento de que as identidades sao politicas, pois se reproduzem como transgressao das normas hegemonicas.

Em "Queer(ing) communication in research relationships: a conversation about subjectivities, methodologies and ethics", Andrew GormanMurray, Lynda Johnson e Gordon Waitt, School of Earth and Environmental Sciences, da University of Wollongong, Australia, indagam sobre a "queerness" de metodos de pesquisa baseados em entrevistas realizadas nas comunidades de minorias sexuais em Aotearoa --Nova Zelandia e Australia. Optaram pelo uso da conversa para penetrar nas questoes internas e suas implicacoes na subjetividade sexual nesses assentamentos. Para eles, trata-se de "um contexto de pesquisa queer", no qual e preciso permitir as subjetividades emergirem, reparar na zona de silencio queer, ou "a constelacao fraturada das etnicidade-sexualidade nas identidades hibridas desdobradas nos assentamentos pos-coloniais" (107).

A dimensao queer no campo e no processo de pesquisa e discutida por Michael Connors Jackman, da York University, em "The trouble with fieldwork: queering methodologies". As variadas formas de literatura e analises textuais encontradas nos trabalhos sobre a teoria colocam em xeque assumpcoes antropologicas tradicionais sobre o "campo".

O autor questiona os binarismos aqui/la, campo/academia e os pressupostos sobre o campo. Analisando eles/nos, o dualismo entre pesquisadores/investigados, problematiza os "desejos dinamicos" na atuacao em "campo" e a revelacao dos "detalhes intimos". Assim, reconsidera o papel do desejo do academico tradicional na sua (des)conexao emocional, sexual e erotica imposta pelo trabalho de pesquisa. Pois, se o uso da etnografia e importante para os estudos queer, e preciso desmontar a heterosexualidade inerente ao campo em favor de uma ampla gama de conceitos, incluindo a ideia do publico queer.

Catherine J. Nash, da Brock University Ontario, em "Queer conversations: old-time lesbians, transmen and the politics of queer research", explora a natureza mutavel das relacoes interiores/exteriores e a natureza instavel do "campo". Expoe a pesquisa realizada com homens transexuais, discorrendo sobre o cotidiano no espaco LGTBQ em Toronto. Aborda as instabilidades na posicao do sujeito de pesquisa, inesparadamente ocorridas durante a entrevista. Destaca a importancia da espacialidade no processo de pesquisa e alerta para estar atento as especificidades historicas e culturais nos espacos politicos e sociais queer e LGBT dos homens transexuais.

Ulrika Dahl, da Sodertorn University College em Estocolmo, em "Femme on femme: reflections on collaborative methods and queer femme-inist ethnography", relata uma pesquisa com "femmes" na defesa do uso da etnografia feminista queer. Propoe o modelo participacao/ risco/aposta na pesquisa etnografica. Estudou a vida e experiencias "femmes", aspecto negligenciado nos debates, atribuindo um carater femme-nista e reestruturando o significado da feminilidade. Questionando a dicotomia casa/rua que estrutura o campo, altera as hierarquias da pesquisa academica e apela a critica antinormativa no processo de pesquisa. Utilizando temas como anonimidade, identidade/igualdade no interior da femme-nidade, sugere a realizacao da etnografia queer sob a forma de um compromisso com a "irmandade" que cria uma comunidade atraves da pesquisa.

Em "Queer(y)ing the ethics of research methods: towards a politics of intimacy in researcher/researched relations", Mathias Detamore, da University of Kentacky, propoe a expansao da politica de intimidade e coloca questoes eticas no centro da pesquisa queer em Ciencias Sociais. Ve o processo de pesquisa arriscado, intimo e inovador, que promove novas possibilidades de abordagens atraves do metodo etico queer. Para ele, a negociacao nas relacoes de pesquisa nao atua fora do social e do pessoal. Os pesquisadores sao afetados pelas relacoes de afinidade, criam vulnerabilidades mutualmente enredadas que podem "moldar novas construcoes eticas que transformem e formatem mundos sociais alternativos" (168). Apela para a "perseveranca sobria" no uso da etica como instrumento metodologico.

Mark Graham, da Universidade de Estocolomo, em "Method matters: ethnography and materiality", observa o surgimento do objeto de pesquisa. Propoe a reconsideracao da materialidade da "coisa/objeto" a partir de combinacoes inusuais sobre feminismo, mecanica quantica e teoria queer, pos-estruturalismo e filosofia da ciencia, e um metodo mais "universal" para abranger a triade sexualidadegenero-sexo incidindo sobre o individuo de forma indeterminada e disponivel a recortes alternativos (192).

Stacey Holman-Jones, da California State University, e TonyAdams, da Northeastern Illinois University, entrecruzam o papel da autoetnografia na construcao do "conhecimento da sujeicao" e as historias triviais em "Autoethnography is a queer method". Interliga poesia e prosa, realiza uma autoetnografia performatica, na qual o fazer-se queer e processo ativo. A autoetnografia queer possibilita o autoentedimento relacional nao restrito aos limites categoriais, transforma e liberta, reconhece e abarca a fluidez e a contingencia queer, desenrolando outras formas de ser no mundo.

Tom Boellstroff, University of California, Irvine, em "Queer techne: two theses on methodology and queer studies", considera a natureza relacional e interligada do triangulo "dado-teoria-metodo" e a relacao entre a teoria e o dado como problemas metodologicos. Discute a "valencia queer" no trabalho etnografico realizado na Indonesia, alem do mundo virtual em Second Life. A metodologia queer "surfa nos binarismos" (2), ou reconhece "a eficacia do emico social e a heuristica dos binarismos de poder sem ontologizar ahistoricamente as forcas vivas sociais onipresente" (223).

Em "Queer quantification or queer(y)ing quantification: creating lesbian, gay, bisexual or heterosexual citizens through governmental social research", Kath Browne, da School of the Environment at the University of Brighton, distingue metodos e metodologias qualitativas e quantitativas e as dificuldades percebidas na contabilizacao dos sujeitos queer. Observa a falta de engajamento critico no modo quantitativo de conhecimento queer e o confuso processo de quantificacao das sexualidades, a partir de uma pesquisa governamental, realizada na Inglaterra e Pais de Gales, sobre a questao sexual.

Loreley Garcia (1)

(1) Programa de Pos-Graduacao em Sociologia/UFPB. Editora da Revista Artemis e Lider do Grupo de Estudos de Genero e Sexualidades Pandora.email:loreleygg@gmail.com

(2) Arrebentar os binarismos.
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Author:Garcia, Loreley
Publication:Revista Artemis
Date:Jan 1, 2012
Words:2065
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