Printer Friendly

Psychotherapy psychoanalytic of a child that is under guard grandma: Case study/Psicoterapia psicanalitica de uma crianca que esta sob a guarda da avo: estudo de caso.

Introducao

Os processos de pedidos de guarda de avos por seus netos vem aumentando a cada ano, e com isso e possivel perceber as modificacoes que ocorrem nas relacoes familiares. Ao assumir a guarda de uma crianca, os avos passam a ter seus papeis ampliados e participam intensamente da vida dos netos, oferecendo apoio afetivo, material e financeiro.

Partindo de um estudo qualitativo exploratorio e descritivo, e tendo como estrategia o estudo de caso unico, o presente trabalho teve por objetivo analisar dez sessoes de psicoterapia psicanalitica de uma crianca que esta sob a guarda de sua avo e identificar a representacao do papel que esta avo tem em relacao ao cuidado da neta, bem como a convivencia e a relacao estabelecida entre as duas.

Este estudo descreveu o processo de psicoterapia partindo das seguintes categorias "a crianca e o contexto familiar", "a crianca e o processo de psicoterapia" e "a crianca em relacao ao terapeuta". Diante disso foi possivel perceber o papel assumido pela avo diante da configuracao familiar, bem como a sua representacao nos mais variados contextos ligados a crianca.

Psicoterapia psicanalitica de criancas

A psicoterapia psicanalitica com criancas teve inicio com Freud (1908/1996) a partir do caso do pequeno Hans, em que foram realizadas observacoes conduzidas pelo proprio pai, e supervisionadas por Freud. Inicialmente Freud (1908/1996) considerava que apenas os pais poderiam analisar as criancas, e mais tarde modificou seu pensamento afirmando que uma analise nao tem valor quando e conduzida por um pai, pois a mesma acontece de um modo sensitivo e ao pai a crianca deve obediencia e reconhecimento (Reghelin, 2008). A partir disso Freud (1908/1996) pode perceber alguns impulsos e desejos sexuais, ou seja, a sexualidade infantil que e pertinente a todo ser humano, e assim estabeleceu parametros fundamentais para uma analise. Afirmou que o trabalho do analista proporciona aos pensamentos inconscientes se tornarem conscientes. A tecnica da psicanalise diz respeito ao tratamento de criancas e adultos, porem com criancas tem a particularidade clinica, que se diferencia dos adultos pelo comportamento e caracteristicas proprias do paciente (Costa, 2010).

Conforme Silva, Magalhaes e Cavalcante, (2013) a psicoterapia com criancas e um modo de atendimento que engloba problematicas diversas, podendo estar relacionadas as que causam o sofrimento emocional e interferem no dia a dia da crianca. Estas problematicas prejudicam o desenvolvimento das capacidades adaptativas e tambem afetam o bem-estar da crianca e da sua relacao com aqueles que convivem com ela. Castro e Sturmer (2009), destacam tres fatores que sao essenciais para o processo e a relacao terapeutica na psicoterapia com criancas. O primeiro refere-se a participacao e relacao de terceiros, em decorrencia de estes pacientes serem menores e dependentes de sua familia, tornando a psicoterapia mais complexa com as transferencias maternas e paternas que se entrelacam. O segundo fator e quanto a solicitacao do tratamento, que geralmente e tida pelos responsaveis da crianca. O terceiro fator esta relacionado as formas de comunicacao durante o tratamento.

A relacao estabelecida entre a crianca e o terapeuta e outra questao essencial no processo de psicoterapia, desta maneira faz com que a crianca expresse suas emocoes e se sinta a vontade, tornando-se livre para ter um conhecimento melhor de si e dos outros. Para isso, o psicoterapeuta deve estar preparado para compreender os diversos tipos de comunicacao que a crianca vai apresentar, a partir de suas condicoes motoras, cognitivas, perceptivas e de linguagem. Deste modo ha uma exigencia da atitude aberta do terapeuta, na expectativa de que assim a crianca o faca tambem (Dian, 2007).

A tecnica criada por Melanie Klein (1997/1975) consiste na utilizacao de jogos, e a partir do brincar a crianca tem a oportunidade de demonstrar os seus desejos, suas fantasias e experiencias de um modo simbolico. Para adquirir um entendimento do jogo da crianca, comparando este a sua conduta durante a psicoterapia, deve-se decifrar cada simbolo e o seu significado, destacando a relacao de cada elemento com o todo. Para a autora, o brinquedo proporciona a crianca conter medos que possam estar relacionados a objetos externos, bem como aos perigos internos, permitindo a ela uma prova ao mundo real, estabelecendo uma ponte entre a fantasia e a realidade (Aberastury, 1982).

As criancas nao utilizam palavras no mesmo nivel em que os adultos, elas usam outros meios para se comunicar, que vao alem da expressao verbal. Para as criancas a associacao livre esta relacionada ao ato de brincar, sendo este seu modo natural de se expressar e nomear os objetos internos em relacao ao mundo externo. Os jogos e o brincar demonstram algo que e do inconsciente, podendo ser consideradas narrativas, contendo ou nao palavras, que progressivamente vao organizando a experiencia infantil (Costa, 2010, p.24).

A atividade ludica proporciona o encontro da crianca com o ambiente em que ela vive e se relaciona, permitindo que ela se constitua como um sujeito capaz de se vincular. Isso aparece na transferencia, assim que o analista representar os objetos primarios infantis e do brinquedo, que acontecem por intermedio da caixa, e possivel obter os conteudos das representacoes inconscientes de anseios, desejos e medos da crianca. Para isso a crianca e o terapeuta devem trabalhar juntos e avaliar os pensamentos, sentimentos e os acontecimentos com a finalidade de aumentar o leque de alternativas de conduta e pensamento (Hoyer, 2010).

Torna-se consideravel enfatizar a questao da brincadeira no processo de psicoterapia como nao sendo a unica forma de expressao da crianca, nem como o unico ponto das interpretacoes realizadas pelo terapeuta. A maneira como a crianca procede durante uma sessao, isto e, como ela excede de uma atividade para outra, e a forma que ela utiliza para compartilhar algum conteudo, adquire uma significacao quando interpretada a partir do todo (Polli & Arpini, 2013).

Criancas sob a guarda dos avos

No contexto contemporaneo, a familia vem se remodelando conforme os contornos da sociedade em que esta inserida, fazendo com que sua formatacao passe por um processo de transformacao. Os processos de pedidos de guarda de avos por seus netos vem aumentando a cada ano, e dentre as inumeras causas em que levam os avos a realizarem este pedido, o que mais chama a atencao e que nao se tem olhado para o sofrimento oculto. Algumas iniciativas que visam atender este espaco de conhecimento da questao em que os avos requerem ao pedido de guarda judicial dos netos, ja estao sendo atendidas (Cardoso, 2011).

Silva, Magalhaes e Cavalcante (2013), relatam que as modificacoes que ocorrem nas relacoes entre os avos e seus netos, consequente das transformacoes das quais as familias estao enfrentando, tem conduzido a sucessiva indecisao a respeito do papel dos avos quanto a educacao de seus netos, pois os avos estao assumindo papeis dimensionais na familia, demonstrando os estilos dos avos por meio de niveis. Os niveis de conduta que se refere as ocupacoes feitas com os avos, como o nivel de atitude que condiz com as regras que vao regular as obrigacoes e direitos dos avos, o nivel emocional ou afetivo e quanto a satisfacao com o papel atribuido e o simbolico abrange muitos significados.

Os papeis atribuidos aos avos relacionam-se ao contexto social e cultural em que a familia esta inserida e os papeis que sao desempenhados pelos avos dividem-se em tres formas: participativos, cuidadores voluntarios e cuidadores involuntarios. Os participativos sao atribuidos quando os avos nao sao responsaveis pelos seus netos, porem estao presentes nas suas vidas envolvendo-se parcialmente ou totalmente. O papel de cuidador voluntario e quando os avos cuidam dos netos rotineiramente, quando os pais precisam trabalhar fora e o papel de cuidador involuntario acontece quando os avos cuidam dos netos cotidianamente, e desta maneira acabam ficando com a guarda de seus netos (Cardoso, 2011).

Com esses tipos de organizacoes familiares, e possivel apontar beneficios e complicacoes, como podendo haver uma distribuicao das responsabilidades, um aumento dos recursos e uma maior uniao entre os membros familiares. De outro modo predominam os conflitos entre avos e pais quanto as responsabilidades e o nao comprometimento dos pais e perda de privacidade dos avos (Arrais, Brasil, Cardenas & Lara, 2012).

Neste entendimento, Cardoso (2011) ressalta pontos importantes na vida dos avos que criam seus netos, como o fortalecimento pessoal, maior satisfacao de vida, a possibilidade de ter uma companhia, um sentimento de renovacao e a gratificacao de estarem dispondo de uma nova geracao de ensinamentos e cuidados. Aponta tambem alguns efeitos negativos sobre os diversos contextos da vida dos avos, como o cansaco, a baixa qualidade na saude fisica e emocional, depressao, responsabilidades financeiras, desentendimentos com os filhos em razao das discordancias na educacao nas criancas.

A dessemelhanca de idade pode se tornar um grande bloqueio entre a comunicacao e relacao das criancas com seus avos, na figura de cuidadores. Alem do mais, a relacao diaria dos mesmos pode ocasionar em um aumento de gastos e uma perda da privacidade de ambos. Com isso, ha uma possibilidade de duvidas quanto a quem pertenca a autoridade da casa, gerando assim desacordos entre as geracoes, conflitos e enfrentamento com os cuidadores por parte dos netos (Dias, Hora & Aguiar, 2010).

Segundo Cardoso (2010), nos ultimos anos o Brasil vivenciou incontaveis crises economicas, apesar de os avos ja estarem em sua maior parte, aposentados ou pensionistas, ainda contam com uma posicao financeira mais estavel do que seus filhos, o que concebe a algumas familias, a dependencia economica. A disponibilidade dos avos, segundo Oliveira e Pinho (2013) para ajudar, faz com que as maes consigam trabalhar fora de casa e possam ter uma resposta financeira. Esses cuidados que os avos realizam com os netos, e uma demonstracao de seguimento da cultura, e simultaneamente uma constatacao da flexibilidade quanto aos vinculos da familia.

Metodo

Trata-se um estudo qualitativo exploratorio e descritivo, que usou como estrategia de coleta e analise dos dados o estudo de caso unico. O estudo de caso consiste em investigar um acontecimento contemporaneo que tem como unidade principal um caso em questao (Gil, 2012). Desta forma, permitiu reter uma perspectiva abrangente e compreender com profundidade seu contexto no mundo (Yin, 2014). O estudo tem como objetivo investigar o processo de psicoterapia psicanalitica de uma crianca que esta sob a guarda da avo, e apontar as percepcoes da crianca quanto a este processo, bem como a representacao do papel desta avo em sua vida.

O estudo foi desenvolvido em ambiente naturalistico, baseado na psicoterapia psicanalitica de uma crianca de dez anos. A observacao naturalistica e fundamentada pelo acompanhamento do pesquisador no espaco natural onde os fatos pesquisados ocorrem. Desta forma, o psicoterapeuta registra os acontecimentos a partir dos fenomenos percebidos para ser analisado posteriormente (Rosa & Domingues, 2010).

A partir da busca pela psicoterapia, a crianca foi avaliada quanto as suas dificuldades e indicacao para tratamento. Assim confirmada a sua indicacao e uma vez contratado o inicio da psicoterapia com a avo, o processo de psicoterapia iniciou e a crianca foi atendida semanalmente e estudada ao longo de 10 sessoes. O projeto foi submetido ao Comite de Etica em Pesquisa da Faculdade Meridional--IMED e aprovado sob o CAAE: 44641315.1.0000.5319.

Apresentacao do caso

Ana, dez anos mora com a avo Tereza de cinquenta e oito anos, com a mae Joana, com o tio Paulo e com seus dois irmaos Pedro de oito anos e Jose de quatro anos. A avo sempre teve a guarda judicial de Ana e de seus dois irmaos pelo fato de que sua mae tem diagnostico de retardo mental e nao apresenta condicoes de cuida-los. O pai de Ana trata-se de uma pessoa violenta e nao mantem contato frequente com a menina, atualmente ele e casado e tem duas filhas de outro relacionamento. A partir dos seis anos Ana passou a apresentar comportamentos indisciplinados, foi avaliada e comecou o tratamento psicologico. Atualmente foi encaminhada para psicoterapia por apresentar dificuldade de aprendizado e de relacionamento na escola, frequenta o terceiro ano do ensino fundamental e a principal demanda consiste na denuncia de que, em uma visita ao pai, um amigo do genitor havia ofendido a menina sexualmente. Seguidamente Ana e encaminhada para a promotoria por problemas de evasao escolar e por que a avo nao sabe mais o que fazer com a indisciplina da menina.

Resumo das sessoes

As sessoes foram resumidas para possibilitar a compreensao do processo de psicoterapia, destacando os principais temas e o contexto em que a crianca estava inserida.

Primeira sessao

Na primeira sessao Ana levou para a terapeuta alguns desenhos que havia feito em casa, e a terapeuta pediu o significado destes desenhos que ela havia trazido "No ano passado eu sempre trazia desenhos para o meu antigo terapeuta, e trouxe para voce por que achei que voce ficaria esperando eu trazer, e nao queria que ficasse chateada e triste caso eu nao tivesse trazido.". A terapeuta acolheu os desenhos da crianca e aconselhou que guardasse em uma caixa onde iriam ficar suas coisas na sessao. Ana comenta sobre a boa relacao existente entre ela e uma tia, irma de seu pai "ela e muito legal, querida comigo, esse final de semana ela fez minhas unhas e ela sempre me empresta o celular dela para jogar". Comentou que na escola o posto de saude estava fazendo vacinas preventivas nas alunas "uma colega minha tem muito medo de fazer vacina, entao eu pedi se ela queria que eu segurasse na mao dela para nao ter medo, mas eu nao quis que ninguem segurasse na minha mao porque eu nao tenho medo de vacina ".

Segunda sessao

Durante a sessao a terapeuta pediu para Ana como ela se sentia durante as sessoes, se gostava de vir, pois sua avo havia comentado que ela nao queria mais ir para os atendimentos "nao, eu gosto de vir aqui, aquele dia eu estava com sono e com fome, por isso nao quis vir ", entao a terapeuta questionou se ela gostaria de continuar vindo "sim eu quero, as vezes eu to sem passagem para vir, mas a avo sempre me da dinheiro ou compra as passagens para eu vir aqui". Com um pouco de receio Ana pergunta para a terapeuta "e verdade que depois que a mulher se casa, ela vai para a lua de mel, dai o marido e a mulher fazem coisinhas" a terapeuta explica que sim e fala sobre a relacao sexual com a menina, "hum so para saber, e que as vezes eu converso com a mae sobre esse tipo de assunto, mas ela sempre me diz que e para pedir para voce". Ana tambem falou sobre alguns assuntos pelo qual a avo Tereza pede para que ela mude, e ela disse que tem que cumprir a promessa que a sua avo fez "tenho que cumprir a promessa que a minha avo fez, para eu dormir cedo, desligar a luz, me comportar no colegio e parar de brigar com meus irmaos, e se eu fizer isso ganho um notebook de aniversario".

Terceira sessao

Nesta sessao Ana falou sobre algumas coisas que aconteceram na escola, de algumas colegas que vao ao banheiro para assustar as outras, "eu tambem gosto de fazer isso, as vezes eu assisto uns videos assustadores", a terapeuta pediu para a menina se ela nao sente medo quando assiste a esses videos, "eu sempre assisto filmes de terror, nao tenho medo". Conta que esta tendo uns sonhos estranhos por causa dos filmes que assiste, mas que acha tudo isso engracado "eu conto essas historias para que os outros fiquem assustados, e eu gosto quando eles sentem medo e ficam assustados". Comentou que foi a casa do pai, "eu fui a casa dele, mas nem gosto muito de ir, prefiro ficar em casa que dai eu posso fazer o que eu quiser, porque ele me xinga e me chama de burra e feia, mas e melhor assim eu nao sinto falta de ir la, se ele quer ele que venha me ver". Falou sobre o novo relacionamento do pai, e disse que nao gosta da sua nova companheira, pois ela a ofende e xinga na frente de outras pessoas, "mas nao fala para ele que eu te contei isso, porque se nao ele vai me bater muito". A menina tambem comentou sobre uma discussao que teve com uma professora na escola "ela disse que eu tinha roubado umas tintas, mas ela nao percebeu que as minhas eram iguais das dela, por isso que a gente brigou".

Quarta sessao

Nesta sessao a menina trouxe novamente desenhos feitos em casa para a terapeuta "fiz esses desenhos para voce, e essa mulher que aparece e voce, em cada desenho ela esta fazendo uma coisa diferente, aqui ela esta na neve, na casa, na praia, e tem outro que eu estou fazendo que ela ta na chuva", a terapeuta agradece os desenhos e diz que vai guardar numa caixa assim como ela tambem guarda os dela na caixa "voce guarda todos eles? Minha mae disse que achava que voce jogava fora" a terapeuta ressalta que sim e pega a caixa onde estavam os desenhos e mostra para a menina "nossa que legal, nao sabia que voce tinha feito isso, eu disse para minha mae que voce nao jogava fora os desenhos, porque voce e legal e nao ia fazer isso". Apos isso a menina quis conhecer o armario de jogos e pediu para a terapeuta para jogarem alguns ate o final da sessao.

Quinta sessao

Nessa sessao a terapeuta pediu para que Ana fizesse um desenho de sua familia "essa e a minha familia que mora comigo, meus dois irmaos, que estao deste lado, assim ficaram perto do tio, depois vem minha mae, essa e a avo Tereza e essa aqui sou eu com meus cabelos pintados", a terapeuta pediu que Ana contasse uma historia do desenho "nao gosto muito de contar historias, so resolvi colocar meus cabelos pintados no desenho para mostrar como estou agora, e foi a avo Tereza que me ajudou a pintar eles". A terapeuta elogiou o desenho e falou que iria guarda-lo na caixa de Ana. Apos isso, Ana quis jogar o banco imobiliario, "eu queria um jogo desses, acho bem legal porque tem dinheiro e da para comprar varias coisas, por isso te pedi para jogar, mas queria ter um em casa, acho que vou pedir um para minha avo, de dia das criancas ou de natal".

Sexta sessao

Durante a sessao ela comentou sobre o que havia acontecido na escola "Meu pai foi na escola e me bateu porque ele ficou sabendo que eu falei para minha madrasta que ele estava espiando as filhas dela no banheiro, mas depois minha avo disse para ele que era mentira, e que nao era para me bater, e que eu tinha dito aquilo so porque eu nao gosto delas". Falou tambem que esta gostando de um colega, fala que sao namorados, que ele e muito bonito e que ele tambem gosta dela, "ontem nos nos beijamos na escola, andamos de maos dadas, e ele me convidou para ir dormir na casa dele, mas eu so nao fui ainda porque a avo nunca me deixou dormir fora de casa". Falou sobre seu irmao Pedro, que ele saiu correndo atras dela e quase foi atropelado, e a terapeuta questionou Ana sobre o que ela tinha achado disso que aconteceu "eu nao ia me importar, porque sempre que o pai me bate o Pedro fica dizendo bem feito, e eu tambem nao gosto quando o Pedro e o Jose saem junto comigo e com a avo".

Setima sessao

Ana falou sobre seu aniversario disse que pediu um celular para o pai de presente

"eu pedi o celular, mas nao sei se ele vai me dar, porque eu nem estou indo mais na casa dele, por causa da minha madrasta, ela e uma fofoqueira e as filhas dela nao gostam de mim". Disse que as vezes que foi na casa do pai, falava coisas para a madrasta para fazer com que os dois se separassem "eu sempre coloco lenha na fogueira, para ver se eles se separam, eu sempre digo para ela coisas que meu pai fez para mim, porque quando eu era pequena ele sempre me batia, e na minha mae tambem e que agora ele ainda continua me batendo". Durante a sessao a terapeuta pergunta para Ana sobre a avo Tereza: "ela esta bem, ela disse outro dia que iria me levar no medico, porque ela acha que eu estou com refluxo, e eu me preocupo com ela tambem, porque uma vez nao parava em casa, estava sempre no hospital, e dai me levando ao medico ela ve as coisas de saude dela tambem". A menina tambem fala sobre os presentes que espera ganhar da avo "vou ganhar varios presentes da avo quando eu estiver de aniversario, ela disse que o computador ela tambem vai me dar porque ela gostou que eu parei de brigar com os meus irmaos, estou me comportando no colegio como ela pediu e estou indo dormir cedo" a terapeuta ficou feliz em relacao as atitude de Ana, "e a avo tambem gostou e quando eu tiver o computador eu vou mostrar todas as coisas para ela e tambem as coisas que ela quiser ver".

Oitava sessao

Nesta sessao Ana fala sobre o desejo de comecar um curso de danca, a terapeuta pergunta para ela o que avo acha disso, "eu nao sei se a avo vai ter como pagar, porque ela paga o meu curso de informatica, os atendimentos, o aparelho no dentista, e dai ela vai gastar todo dinheiro dela". A terapeuta disse que e importante ela saber disso, mas que Ana pode conversar com avo para ver o que ela acha, ou trocar uma coisa e optar por outra "tambem pode ser, mas so que as vezes quando vou dormir eu fico pensando, sera que a avo vai estar viva quando eu terminar o curso de informatica e sera que ela vai conseguir pagar minhas outras coisas" e a terapeuta pergunta o porque de Ana pensar isso "e que ela ja esta tao velhinha". Falou que foi na casa da avo paterna "ela me pediu porque que eu estava almocando na casa dela e nao na casa da avo Tereza, como se eu tivesse incomodando eles, e so terminei de comer e ja pedi para me levarem para casa", a terapeuta pergunta para Ana como ela se sentiu nesse momento "eufiquei bem triste, porque eu a achava querida, nao gostei dessas coisas que ela me falou, acho que ela nao gosta de mim". Nesta sessao Ana tambem fala que teve que ir ao conselho tutelar pelo fato de algumas coisas terem acontecido na escola "eu fui no conselho e uma mulher conversou comigo, dai minha avo estava junto e disse que eu estava obedecendo mais, entao a mulher nao me xingou como das outras vezes".

Nona sessao

Na sessao Ana falou que esta tendo uns sonhos estranhos "eu fico um pouco assustada as vezes com meus sonhos, parece que tem alguem vindo me pegar e no meio da noite eu comecei a chama a avo porque quando eu chamo a mae ela nunca vem, entao a avo veio ver o que tinha acontecido comigo", a terapeuta pergunta se a avo sempre se preocupa com as coisas que acontecem com ela "sim, ela sempre me cuida e se preocupa com as minhas coisas". Contou de uma situacao na escola da troca de alguns professores, e disse que tem uma professora que bate nos seus colegas, e a terapeuta disse que ninguem tem o direito de bater em ninguem, e falou tambem que muito menos o pai dela tinha esse direito de bater nela "e eu nao gosto quando o pai me bate, mas nao sei o que fazer". A terapeuta comenta com Ana que foi ate a sua escola para conversar com suas professoras "que bom prefiro que voce vai la, porque quando vai meu pai ele fica muito bravo comigo e quer me bater, fica me procurando na escola e eu tenho que me esconder, eu sinto medo, comeca me dar uma tremedeira nas pernas e no queixo, mas eu nao falei para ele que estava com medo, disse que eu estava sentindo frio".

Decima sessao

Como Ana faltou varias vezes para os atendimentos, a terapeuta pediu se ela gostaria de continuar vindo para as sessoes, pois nao poderia mais faltar por normas da clinica "sim quero continuar vindo, a avo me fala que e para eu acordar cedo para vir aqui, so que as vezes a mae esquece de me trazer". Falou que na sessao passada nao pode vir, foi ao ginecologista fazer uns exames "eu nao gostei muito de fazer porque foi um medico homem que fez, e eu senti muita vergonha, e na hora dos exames eu senti dor tambem, eu nao gostei de fazer, mas eu sei que e importante que eu faca", a terapeuta concorda e fala da importancia destes exames para as meninas. Ana fala que o seu pai ligou e contou que a madrasta esta gravida "eu nao gostei disso, nem quero pensar como vai ser, vou ter que dividir meus tios, porque na verdade eu queria ser filha unica, mas agora vem mais um filho do meu pai, tomara que seja uma menina, mas eu acho que mesmo assim a minha madrasta vai me proibir de conhece-la".

Discussao

As sessoes serao discutidas a partir das seguintes categorias:

A crianca e o contexto familiar

A partir das sessoes de psicoterapia observadas, percebeu-se que Ana tem uma boa relacao com a avo, e o quanto se preocupa com a mesma. A menina percebe a avo como sendo uma personagem importante em sua vida, demonstrando isso na quinta sessao por meio de um desenho. Na atividade ludica a menina pode se expressar, e isso proporcionou a ela um encontro com o ambiente em que vive e as pessoas com as quais se relaciona (Hoyer, 2010). Neste desenho a menina representou a sua familia e explicou: "essa e a minha familia que mora comigo, meus dois irmaos, que estao deste lado, assim ficaram perto do tio, depois vem minha mae, essa e a avo Tereza e essa aqui sou eu". O lugar desta avo ao lado de Ana no desenho mostra o quanto essa personagem ocupa um lugar de destaque entre as pessoas da sua familia, ressaltando o vinculo estabelecido entre elas neste processo de organizacao familiar (Silva, 2012).

A preocupacao da menina em relacao a avo e bem significativa, pois abrange pontos relacionados a saude e as questoes financeiras. Referente a isso, percebe-se na setima sessao a preocupacao de Ana em relacao a saude da avo: "me preocupo com ela tambem, porque uma vez nao parava em casa, estava sempre no hospital, e dai me levando ao medico ela ve as coisas de saude dela tambem". Segundo Cardoso e Costa (2012), essa preocupacao que e provocada na menina, e o resultado do ganho afetivo oferecido por esta avo, e da relacao estabelecida entre as duas, bem como da serie de necessidades pelo qual esta avo e provedora.

Essa preocupacao da menina em relacao a avo tambem pode ser percebida na oitava sessao: "as vezes quando vou dormir eu fico pensando, sera que a avo vai estar viva quando eu terminar o curso de informatica e sera que ela vai conseguir pagar minhas outras coisas, porque ela ja esta tao velhinha". Segundo Ramos (2014), esta preocupacao e esperada pelo fato de existir a troca do papel de cuidador, e desta maneira a avo e representada como sendo uma figura central e contribuinte para a menina, constituindose como um recurso importante em sua vida.

Assim que os avos assumem a guarda dos netos, estabelecem uma nova configuracao familiar e se tornam provedores dos mesmos (Cardoso, 2010). Desta forma eles fornecem apoio afetivo, financeiro e material aos netos, e este apoio financeiro que a avo oferece para Ana, gera preocupacoes na menina quanto a estes investimentos, onde os quais envolvem os diversos contextos em que ela esta inserida, "eu nao sei se a avo vai ter como pagar, porque ela paga o meu curso de informatica, os atendimentos, o aparelho no dentista, e dai ela vai gastar todo dinheiro dela". Cabe ressaltar que, segundo Mainetti e Wanderbroocke (2013), Ana demonstra um entendimento quanto aos investimentos que esta avo faz para ela, e a forma com que o dinheiro esta relacionado ao uso e ao significado que e atribuido para ele.

Estes investimentos que a avo provem, auxiliam no processo de psicoterapia de Ana fazendo com que o mesmo aconteca, "as vezes eu to sem passagem para vir, mas a avo sempre me da dinheiro ou compra as passagens para eu vir aqui". Segundo Castro e Sturmer (2009), pelo fato da menina ser menor e dependente, e essencial este auxilio e a participacao desta avo, pois desta forma torna o processo mais complexo.

Ao assumir este lugar e funcao de protetora da menina, a avo tambem assegura as suas responsabilidades, e diante disso estabelece os limites e normas que devem ser seguidos diante das decisoes impostas a menina (Cardoso, 2011). Sabendo disso, na sexta sessao, Ana relata sobre um colega da escola que esta se relacionando e mostra como esta avo impos um limite quanto as suas decisoes "ontem nos beijamos na escola, andamos de maos dadas, e ele me convidou para ir dormir na casa dele, mas eu so nao fui ainda porque a avo nunca me deixou dormir fora de casa".

As normas determinadas pela avo em relacao a menina, tambem sao possiveis de perceber na segunda sessao, "tenho que cumprir a promessa que a minha avo fez, para eu dormir cedo, desligar a luz, me comportar no colegio e parar de brigar com meus irmaos, e se eu fizer isso ganho um notebook de aniversario". Por meio destas normas impostas, a menina modificou suas atitudes, tornando isso evidente na setima sessao: "ela disse que vai me dar o computador porque gostou que eu parei de brigar com os meus irmaos, estou me comportando no colegio como ela pediu e estou indo dormir cedo". De acordo com Arrais, Brasil, Cardenas e Lara, (2012), essas normas que sao instauradas pela avo, fazem com que ela sobreponha papeis diante da ausencia parental que existe nesta configuracao familiar.

Na nona sessao e possivel perceber a importancia da funcao desta avo diante das situacoes que acontecem na vida de Ana "eu fico um pouco assustada as vezes com meus sonhos, parece que tem alguem vindo me pegar e no meio da noite eu comecei a chamar a avo porque quando eu chamo a mae ela nunca vem, entao a avo veio ver o que tinha acontecido comigo". Diante disso, Mainetti e Wanderbroocke (2013), ressaltam que desta forma ocorre uma representacao do que e ser avo diante da funcao materna que e sucedida por este papel da avo. Desta maneira torna possivel perceber que o papel representado pela mae e pouco notavel nas sessoes, e que muitas vezes as tarefas executadas pelos avos quanto ao cuidado de seus netos, podem resultar numa inversao dos papeis entre estes avos e os pais, e assim os avos sao identificados como quem procede ao papel de cuidador e que concedem aos pais nesta troca (Cardoso & Brito, 2014).

A menina nao relatou muito sobre a relacao que existe entre ela e seus irmaos, no entanto quando fala a respeito deles na sexta sessao, conta sobre o fato do irmao quase ter sido atropelado "eu nao ia me importar, porque sempre que o pai me bate o Pedro fica dizendo bem feito, e eu tambem nao gosto quando o Pedro e o Jose saem junto comigo e com a avo". O que fica destacado nessa relacao e o ciume quanto ao contato destes irmaos com a avo, e diante disso, Castro e Sturner, (2009), destacam que o relacionamento com os irmaos acontece por meio da influencia da qualidade que existe na relacao entre os pais, e do quanto essa relacao contribui para eles. Sabendo disso, e possivel constatar que, pelo fato de Ana e seus irmaos nao terem uma influencia de qualidade quanto a relacao dos pais, nao permite a eles um contato harmonioso, e resulta numa relacao com efeitos danosos, espelhando-se nesta relacao conflitante que existe.

Ana relata que o seu relacionamento com o pai e conflituoso, pois este contato gera para a menina prejuizos fisicos e emocionais. Isso fica evidente atraves dos relatos da menina nas sessoes "ele fica muito bravo comigo e quer me bater, fica me procurando na escola e eu tenho que me esconder, eu sinto medo, comeca me dar uma tremedeira nas pernas e no queixo, mas eu nao falei para ele que estava com medo, disse que eu estava sentindo frio". Essa visao que a menina tem desta figura paterna, e resultado das vivencias e do medo, que pelo qual ela enfrenta para que essa convivencia entre os dois exista (Cardoso, 2011). Segundo Schneebeli e Melandro (2014), a participacao paterna e indispensavel para o desenvolvimento dos filhos, ela deve ser semeada, alimentada e aprendida diariamente no contato com eles, por mais que ela aconteca em meio a ambivalencia e haja oscilacoes na convivencia entre os dois.

Em outros momentos do processo de psicoterapia e possivel destacar essa relacao conflituosa que existe entre os dois, mostrando que o pai e uma figura marcante na vida da menina no aspecto relacionado ao medo e a inseguranca afetiva (Schneebeli & Menandro, 2014), "nao fala para ele que eu te contei isso, porque se nao ele vai me bater muito", esta fala da menina na terceira sessao mostra o medo de Ana e a inseguranca que essa relacao causa para ela.

O que e possivel perceber nas sessoes de Ana e que por conta de o pai ter se casado novamente, fez com que gerasse um conflito maior na relacao estabelecida entre os dois, "eu nem to indo mais na casa dele, por causa da minha madrasta, ela e uma fofoqueira e as filhas dela nao gostam de mim". Assim que acontece um novo casamento, e possivel perceber os conflitos e tensoes que acarretam os filhos, na nova convivencia ao qual se intensifica e torna as reacoes visiveis (Castro & Sturmer, 2009).

Na sexta sessao se torna evidente a relacao de conflito estabelecida entre Ana e as filhas de sua madrasta "meu pai foi na escola e me bateu porque ele ficou sabendo que eu falei para minha madrasta que ele estava espiando as filhas dela no banheiro, mas depois minha avo disse pra ele que era mentira, e que nao era para me bater, e que eu tinha aquilo so porque eu nao gosto delas". Segundo Cardoso (2010), quanto mais favoravel for esta relacao entre os nao irmaos, melhor sera a integracao de toda a familia, desta forma e possivel perceber que nao existe esta relacao favoravel entre as nao irmas muito menos uma integracao com esta nova familia.

O desejo que Ana demonstra para que ocorra a separacao deste novo casamento do pai, e notavel na setima sessao "eu sempre coloco lenha na fogueira, para ver se eles se separam, eu sempre digo para ela coisas que meu pai fez pra mim, porque quando eu era pequena ele sempre me batia, e na minha mae tambem e que agora ele ainda continua me batendo". A nova constituicao familiar acontece diante de uma situacao de luto pela perda da primeira familia, e a elaboracao desta perda depende de uma serie de fatores (Schneebeli & Menandro, 2014). Muitas vezes alguns sentimentos nao sao identificados pelo fato que a crianca se constitui de processos inconscientes, no entanto o desejo da separacao e a relacao de conflito que se estabeleceu com a madrasta, sao sentimentos negativos e que nao foram identificados, gerando na menina uma reacao de hostilidade (Grzybowski & Wagner, 2010).

Outra personagem que aparece no contexto de relacoes de Ana e a sua avo paterna, que se diferencia da relacao existente entre a avo que possui a sua guarda, "ela me pediu porque que eu estava almocando na casa dela e nao na casa da avo Tereza, como se eu tivesse incomodando eles, e so terminei de come e ja pedi pra me levarem pra casa". Relacionando com outros estudos, nota-se que na maioria dos casos e a mae da mae que apresenta uma relacao mais sadia e com maior suporte aos netos, desempenhando um papel incomparavel quanto as outras figuras do contexto familiar (Arrais, Brasil, Cardenas & Lara, 2012; Mainetti & Wanderbroocke, 2013).

A crianca e o processo de psicoterapia

Alguns aspectos diferenciam o processo de psicoterapia e a relacao terapeutica que se estabelece. O enquadre e uma forma de contrato onde sao feitas as combinacoes e a formacao do vinculo, inseridos neste, devem estar os responsaveis pela crianca, que devem assumir juntos estas condicoes. Neste sentido, na fala da menina na decima sessao "a avo me fala que e para eu acordar cedo para vir aqui, so que as vezes a mae esquece de me trazer", e possivel perceber que a avo participa deste enquadre e responsabiliza-se na cooperacao em manter as condicoes e estar disponivel quando necessario. Ja a mae, em decorrencia de sua dificuldade apresentada, nao coopera com as responsabilidades quanto a este processo, fazendo com que a menina se atrase ou muitas vezes nao compareca em algumas sessoes, e por estes motivos fazem com que a menina se sinta nervosa durante as sessoes (Castro & Sturmer, 2009).

E possivel perceber tambem o investimento financeiro desta avo no processo de psicoterapia "as vezes eu to sem passagem para vir, mas a avo sempre me da dinheiro ou compra as passagens para eu vir aqui", diante disso, Arrais, Brasil, Cardenas e Lara, (2012), relatam que esta avo encontra beneficios no auxilio que realiza e tambem um ganho diante da ajuda e da importancia deste processo de psicoterapia para a menina.

Durante as sessoes de psicoterapia foi possivel perceber que a menina gostava de fazer varios desenhos e de jogar com a terapeuta, e isso fazia com que a menina se expressasse durante as sessoes "eu queria um jogo desses, acho bem legal porque tem dinheiro e da para comprar varias coisas, por isso te pedi para jogar, mas queria ter um em casa". O brincar possibilita a crianca representar suas emocoes, lidar com seus conflitos e ansiedades, bem como explorar a fantasia e a realidade, e a partir disso foi possivel perceber que nos desenhos e brincadeiras a menina se expressava, tornando possivel o acesso aos significados e aos conteudos de sua mente (Aberastmy, 1982).

A crianca em relacao ao terapeuta

A partir das sessoes de psicoterapia observadas, foi possivel perceber que a relacao entre Ana e a terapeuta e agradavel, e isso se caracteriza pela construcao do vinculo e da confianca no processo de psicoterapia (Castro & Sturmer, 2009). A menina tinha o costume de levar para as sessoes alguns desenhos "fiz esses para voce e essa mulher no desenho e voce e em cada desenho ela esta fazendo uma coisa diferente, aqui ela esta na neve, na casa, e tem outro que eu estou fazendo que ela ta na chuva". O desenho e uma utilidade muito grande durante o processo, bem como seus simbolos empregados e seus significados inconscientes (Aberastury, 1982). Desta forma, e possivel perceber como a menina entrelaca a terapeuta em diferentes contextos e nos mais variados papeis, mostrando a relacao que se estabelece fora do consultorio, diante dos demais ambientes em que a menina se insere (Affonso, 2012).

A relacao de confianca entre a terapeuta e a menina foi constituida por meio do vinculo fidedigno do processo de psicoterapia, onde o mesmo tem caracteristicas que o diferenciam das outras relacoes que se estabelecem na vida da menina (Castro & Sturmer, 2009). Esta relacao de confianca se torna visivel mediante as falas da menina a seguir: "voce guarda todos eles? Minha mae disse que achava que voce jogava fora, mas eu disse para ela que voce nao jogava fora os desenhos, porque voce e legal e nao ia fazer isso".

Em decorrencia da dificuldade apresentada pela mae em exercer a tarefa parental, delega esses afazeres para outras pessoas que fazem parte do contexto da menina (Cardoso & Costa, 2012), desta forma ela demanda algumas responsabilidades para a terapeuta, tornando-se evidente na segunda sessao "e que as vezes eu converso com a mae sobre esse tipo de assunto, mas ela sempre me diz que e para pedir para voce". Desta forma a menina passa a ter uma confianca maior em relacao a terapeuta e estabelece uma ligacao positiva com ela, podendo assim ter a percepcao da sua necessidade de ajuda (Rodrigues & Mishima-Gomes, 2013).

Consideracoes finais

Este estudo objetivou analisar dez sessoes de psicoterapia de uma crianca sob a guarda de sua avo, envolvendo a percepcao da neta quanto ao papel que esta avo representa, bem como a convivencia e a relacao estabelecida entre as duas.

Conforme o que foi discutido, percebe-se a avo como sendo uma figura central para a neta, salientando a ausencia da figura materna em diferentes situacoes, em virtude de sua dificuldade apresentada, bem como a relacao de conflito estabelecida com a figura paterna, e os prejuizos fisicos e emocionais que sao causados na menina.

Foi constatado que esta avo executa tarefas que procede a figura dos pais, resultando em uma troca de papeis na configuracao familiar. A concepcao da neta e bastante favoravel acerca da criacao e do cuidado tido pela avo, demonstrando preocupacoes quanto aos aspectos de saude e financeiros, tendo um entendimento sob os investimentos que esta avo fornece a ela.

A questao financeira se tornou evidente em diversos aspectos, pois esta avo e provedora de todo o sustento da familia e assegura todas as necessidades essenciais para a neta, sendo notavel a participacao da avo nos mais variados contextos da vida da menina, auxiliando tambem em seu processo de psicoterapia.

Com base neste estudo, espera-se que novas investigacoes sejam feitas a respeito da relacao entre os netos que estao sob a guarda de seus avos. As configuracoes familiares que entrelacam essas geracoes sao cada vez mais presentes e o quanto os profissionais de psicologia precisam estar capacitados e ter um conhecimento maior, para proporcionar um bom fundamento no que diz respeito ao processo de guarda de netos por seus avos, para que sejam feitas intervencoes psicologicas congruentes.

Referencias

Alfonso, R. M. L. (2012). Ludodiagnostico: investigacao clinica atraves do brinquedo. Porto Alegre, RS: Artmed.

Arrais, A. da. R., Brasil, K. C. T., Cardenas, C. J. de., & Lara. L. (2012). O lugar dos avos na configuracao familiar com netos adolescentes. Revista Kairos Gerontologia, 15(2), 159-176.

Aberastury, A. (1982). Psicanalise da Crianca: Teoria e Tecnica. Porto Alegre, RS: Artmed.

Cardoso, A. C. (2011). Avos no seculo XXI: Mutacoes e rearranjos na familia contemporanea. Curitiba: Jurua.

Cardoso. V.S. (2010). Os avos e a concessao de guarda judicial de netos na perspectiva do ciclo de vida familiar. (Tese de doutorado nao publicada). Universidade de Brasilia-DF.

Cardoso, A. R., Brito, L. M. T (2014). Ser avo na familia contemporanea: que jeito e esse? Braganca Paulista, 19(3), 433-441.

Cardoso, V S., & Costa, L. F. (2012). Guarda judicial de netos, tempo e dinheiro nas interacoes familiares. Aletheia, 38, 109-123.

Castro M. da. G. K., Sturmer, A. & cols. (2009). Criancas e adolescentes em psicoterapia: A abordagempsicanalitica. Porto Alegre, RS: Artmet.

Costa, T (2010). Os primordios da psicanalise com criancas. In T Costa (Ed.), Psicanalise com crianca (p.13-20). Rio de Janeiro, RJ: Zahar.

Dias, C. M. de. S., Hora, F. F. A. da., & Aguiar, A. G. de. S., (2010). Jovens criados por avos ou por um ou ambos os pais. Psicologia: teoria epratica, 12(2), 188-199.

Dian, S. V. (2007) Psicoterapia psicanalitica com criancas: Avaliacao e resultados. (Dissertacao de mestrado) Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS.

Freud, S. (1996). Duas historias clinicas: O "pequeno Hans" e o "homem dos ratos" (Edicao Standard Brasileira das Obras Psicologicas Completas de Sigmund Freud, Vol. X). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Originalmente publicado em 1909).

Gil, A. C. (2012). Metodos e tecnicas de pesquisa social. Sao Paulo: SP, Atlas.

Grzybowski. L. S. & Wagner, A. (2010). O envolvimento parental apos a separacao/ divorcio. Psicologia: Reflexao e Critica, 23(2), 289-298.

Hoyer, A. R. (2010). A expressao da criatividade infantil em atividades ludicas. (Dissertacao de Mestrado) Universidade de Brasilia. Brasilia, DF.

Klein, M. (1997). A psicanalise de criancas. (Obras completas de Melanie Klein; v. II). (L. P. Chaves, Trad.). Rio de Janeiro: Imago Ed. (Original publicado em 1975).

Mainetti, A. D., & Wanderbroocke, A. C. S. (2013). Avos que assumem a criacao de netos. Pensando Familias, 17(1), 87-98.

Oliveira, A. R. V, & Pinho, D.L.M. (2013). Relacoes entre avos e seus netos adolescentes: uma revisao integrativa. Revista Braileira de Geriatria e Gerontologia, 16(3), 633642.

Polli, R. G., & Arpini, D. M. (2013). Representacao de psicoterapia em criancas atendidas em instituicao de saude. Psicologia em Estudo, 18(3), 519-528.

Ramos, A. C. (2014). Sobre avos, netos e cidades: entrelacando relacoes intergeracionais e experiencias urbanas na infancia. Educacao Social, 35(128), 781-809.

Reghelin, M. M. (2008). O uso da caixa de brinquedos na clinica psicanalitica de criancas. Contemporanea Psicanalise e Transdisciplinaridade, 05, 167-179.

Rodrigues, C. M. & Mishima-Gomes, F. K. T. (2013). As flores estao brotando: atendimento infantil em consultas terapeuticas. Psicologia Clinica, 25(1), 89-100.

Rosa, M. D., & Domingues, E. (2010). O metodo na pesquisa psicanalitica de fenomenos sociais e politicos: A utilizacao da entrevista e da observacao. Psicologia & Sociedade, 22(1), 180-188.

Schneebeli, F. C. F. & Menandro, M. C. S. (2014). Com quem as criancas ficarao? Representacoes sociais da guarda dos filhos apos a separacao conjugal. Psicologia & Sociedade, 26(1), 175-184.

Silva, C. de J. (2012). Nas malhas das redes de solidariedade familiar: um estudo sobre avos que cuidam ou criam netos em um bairro da zona norte de Aracaju. (Tese de mestrado nao publicada) Universidade Federal de Sergipe, SE.

Silva, T S. R. e., Magalhaes, C. M. C., & Cavalcante, L. I. C. (2013). Interacoes entre avos e netos em instituicao de acolhimento infantil. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 66(1), 49-60.

Yin, R. K. (2014). O estudo de caso como metodo de pesquisa. In. R. K. Yin (Ed.), Estudo de caso--Planejamento e metodos (pp.3-6). Porto Alegre, RS: Bookman.

Recebido em: outubro de 2016

Aprovado em: abril de 2017

Tielen Franciosi Cappelli: Psicologa egressa da IMED. Passo Fundo-RS.

Luiz Ronaldo Freitas de Oliveira: Psicologo, Professor e Coordenador do Curso de Psicologia IMED, Passo Fundo-RS.

Endereco para contato: luiz.oliveira@imed.edu.br
COPYRIGHT 2015 Universidade Luterana do Brasil
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2015 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Cappelli, Tielen Franciosi; de Oliveira, Luiz Ronaldo Freitas
Publication:Revista Aletheia
Date:May 1, 2015
Words:7746
Previous Article:Psychological assessment: Its role in the multidisciplinary team in a Children's and Adolescents' Psychiatric Unit of a general hospital/ O...
Next Article:Conceptions and expectations of retirement in workers of the public education of Rio Grande do Norte/Concepcoes e expectativas da aposentadoria em...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2018 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters