Printer Friendly

Psychological assessment in sexual abuse cases in childhood and adolescence/Avaliacao psicologica em casos de abuso sexual na infancia e adolescencia.

O presente artigo tem como objetivo apresentar os resultados da avaliacao psicologica de meninas vitimas que passaram pela experiencia de abuso sexual intrafamiliar. O abuso sexual contra criancas e adolescentes tem sido considerado um grave problema de saude publica e a literatura especializada aponta a existencia, em varios paises, de programas para estudo, prevencao e tratamento. No Brasil, apesar da intensificacao de pesquisas que investigam a dinamica e os efeitos desta forma de violencia, constata-se a necessidade de estudos sobre a avaliacao e a intervencao psicologica. O desenvolvimento de pesquisas sobre tais metodos e importante, devido a elevada incidencia e as consequencias negativas para o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social.

Esta forma de violencia pode ser definida como qualquer contato ou interacao de uma crianca ou adolescente com alguem em estagio mais avancado do desenvolvimento, na qual a vitima estiver sendo usada para estimulacao sexual do perpetrador. A interacao sexual pode incluir toques, caricias, sexo oral ou relacoes com penetracao (digital, genital ou anal). O abuso sexual tambem inclui situacoes nas quais nao ha contato fisico, tais como voyerismo, assedio, exposicao a imagens ou eventos sexuais, pornografia e exibicionismo. Estas interacoes sexuais sao impostas as criancas ou aos adolescentes pela violencia fisica, ameacas ou inducao de sua vontade (Azevedo & Guerra, 1989; Thomas, Eckenrode & Garbarino, 1997).

O abuso sexual tambem pode ser definido, de acordo com o contexto de ocorrencia, em diferentes categorias. O abuso sexual intrafamiliar ou incestuoso e aquele que ocorre no contexto familiar e e perpetrado por pessoas afetivamente proximas da crianca ou do adolescente, com ou sem lacos de consanguinidade, que desempenham um papel de cuidador ou responsavel destes (Cohen & Mannarino, 2000a; Habigzang & Caminha, 2004; Koller & De Antoni, 2004). Por outro lado, o abuso sexual que ocorre fora do ambiente familiar envolve situacoes nas quais o agressor e um estranho, bem como os casos de pornografia e de exploracao sexual (Koller, Moraes & Cerqueira-Santos, 2005).

A experiencia de abuso sexual pode afetar o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social de criancas e adolescentes de diferentes formas e intensidade (Elliott & Carne, 2001; Runyon & Kenny, 2002; Saywitz, Mannarino, Berliner & Cohen, 2000). O impacto da violencia sexual esta relacionado a tres conjuntos de fatores: fatores intrinsecos a crianca, tais como vulnerabilidade e resiliencia pessoal; fatores extrinsecos, envolvendo a rede de apoio social e afetiva da vitima; e, fatores relacionados com a violencia sexual em si, como por exemplo, duracao, grau de parentesco/confianca entre vitima e agressor, reacao dos cuidadores nao-abusivos na revelacao e presenca de outras formas de violencia (Habigzang & Koller, 2006).

Devido a complexidade e a quantidade de fatores envolvidos no impacto da violencia sexual para a crianca, esta experiencia e considerada um importante fator de risco para o desenvolvimento de psicopatologias (Saywitz et al., 2000). Criancas e adolescentes podem desenvolver quadros de depressao, transtornos de ansiedade, alimentares e dissociativos, enurese, encoprese, hiperatividade e deficit de atencao e transtorno do estresse pos-traumatico (Briere & Elliott, 2003; Cohen, Mannarino & Rogal, 2001; Duarte & Arboleda, 2004; Habigzang & Caminha, 2004; Runyon & Kenny, 2002). Entretanto, o transtorno do estresse pos-traumatico (TEPT) e a psicopatologia mais citada como decorrente do abuso sexual, uma vez que e estimado que 50% das criancas que foram vitimas desta forma de violencia desenvolvem sintomas (Cohen, 2003; Saywitz et al., 2000).

Alem de transtornos psicopatologicos, criancas e adolescentes vitimas de abuso sexual podem apresentar alteracoes comportamentais, cognitivas e emocionais. Entre as alteracoes comportamentais destacam-se: conduta hipersexualizada, abuso de substancias, fugas do lar, furtos, isolamento social, agressividade, mudancas nos padroes de sono e alimentacao, comportamentos autodestrutivos, tais como se machucar e tentativas de suicidio. As alteracoes cognitivas incluem: baixa concentracao e atencao, disso-ciacao, refugio na fantasia, baixo rendimento escolar e crencas distorcidas, tais como percepcao de que e culpada pelo abuso, diferenca em relacao aos pares, desconfianca e percepcao de inferioridade e inadequacao. As alteracoes emocionais referem-se aos sentimentos de medo, vergonha, culpa, ansiedade, tristeza, raiva e irritabilidade (Cohen & Mannarino, 2000b; Cohen et al., 2001; Habigzang & Koller, 2006; Haugaard, 2003; Jonzon & Lindblad, 2004). O abuso sexual tambem pode ocasionar sintomas fisicos tais como hematomas e traumas nas regioes oral, genital e retal, coceira, inflamacao e infeccao nas areas genital e retal, doencas sexualmente transmissiveis, gravidez, doencas psicossomaticas e desconforto em relacao ao corpo (Sanderson, 2005).

O abuso sexual no contexto familiar e desencadeado e mantido por uma dinamica complexa. O agressor utilizase, em geral, de seu papel de cuidador, da confianca e do afeto que a crianca tem por ele para iniciar, de forma sutil, o abuso sexual. A crianca, na maioria dos casos, nao identifica imediatamente que a interacao e abusiva e, por esta razao, nao a revela a ninguem. A medida que o abuso se torna mais explicito e que a vitima percebe a violencia, o perpetrador utiliza recursos, tais como barganhas e ameacas para que a crianca mantenha a situacao em segredo. Estudos apontam que esse segredo e mantido, na maioria dos casos, por pelo menos um ano (Furniss, 1993; Habigzang & Caminha, 2004; Habigzang, Koller, Azevedo & Machado, 2005). A crianca sente-se vulneravel, acredita nas ameacas e desenvolve crencas de que e culpada pelo abuso, sentindo vergonha e medo de revela-lo a familia e ser punida. Dessa forma, adapta-se a situacao abusiva, acreditando manter a estabilidade nas relacoes familiares (Cohen & Mannarino, 2000a). Outro fator frequentemente associado ao abuso sexual, que dificulta que sua dinamica seja rompida, e a presenca de outras formas de violencia intrafamiliar, tais como negligencia, abusos fisicos e emocionais. A violencia gera um ambiente, no qual predominam os sentimentos de medo e de desamparo. Estes contribuem para que o abuso sexual seja mantido em segredo pela propria vitima e por outros membros da familia que, em alguns casos conhecem a situacao, mas nao a denunciam (De Antoni & Koller, 2000; Habigzang & Koller, 2006; Kellog & Menard, 2003).

Fatores externos a familia tambem contribuem para que o abuso sexual nao seja interrompido. Estes fatores estao relacionados com a relutancia de alguns profissionais da saude e da educacao em reconhecer e denunciar o abuso, bem como a insistencia dos tribunais por regras estritas de comprovacao do abuso para a protecao da vitima e para a penalizacao do agressor. Alguns profissionais tendem a negar e a subestimar a severidade e a extensao do abuso sexual, devido ao fato de que esse significa a violacao de tabus sociais, como o incesto (Furniss, 1993). Ate recentemente, a crianca que fazia revelacoes de abusos sexuais era suspeita de fantasiar (Thouvenin, 1997). Atualmente, os profissionais da saude capacitados para trabalhar com criancas vitimas de violencia tendem, a saber, que sao raros os casos em que as criancas nao dizem a verdade. A revelacao e um momento crucial que pode, por si so, representar um risco de trauma suplementar para a crianca ou adolescente. Dessa forma, a denuncia do abuso aos orgaos de protecao e o acompanhamento do caso por profissionais da saude sao fundamentais e eles precisam estar conscientes das implicacoes legais e eticas de suas intervencoes ou de sua omissao (Saywitz et al., 2000).

Os profissionais e as instituicoes que constituem a rede de apoio social para criancas e familias vitimas de violencia sexual encontram-se diante do desafio de evitar formas traumaticas de intervencao sem incorrer, contudo, em uma postura negligente (Ferreira & Schramm, 2000). A organizacao e a eficacia das redes de apoio as criancas e aos adolescentes vitimas de abuso sexual foram avaliadas atraves de uma pesquisa documental, na qual foram analisados todos os expedientes de casos de violencia sexual ajuizados pela Coordenadoria das Promotorias da Infancia e Juventude de Porto Alegre no periodo de 1992 a 1998. Foi constatado que, na maioria dos casos, a violencia sexual ja era do conhecimento dos familiares, entretanto a denuncia se efetivou por motivos diversos do ato em si. Em relacao ao atendimento efetuado pela rede, ficou evidente que o abuso sexual, foco da denuncia, foi muitas vezes ignorado, sendo que as intervencoes se deram em funcao de outras violacoes. Desta forma, nao houve acompanhamento, avaliacao e atendimento adequado aos casos. Os agressores, com poucas excecoes, foram punidos criminalmente. Na maioria dos casos analisados, as criancas foram abrigadas e alguns pais agressores destituido(s) do patrio poder. O estudo apontou a necessidade emergente de criar servicos especializados de atendimento e capacitar os profissionais que trabalham com essas criancas e com suas familias, permitindo-lhes obter uma compreensao real dos casos, bem como conduzir uma intervencao adequada (Habigzang, Azevedo, Koller & Machado, 2006).

Considerando as consequencias negativas de experiencias sexualmente abusivas para o desenvolvimento de criancas e adolescentes e a complexidade da dinamica deste fenomeno, observa-se a dificuldade para a avaliacao psicologica destes casos e a necessidade de providenciar a capacitacao especializada dos psicologos e demais profissionais da saude. O presente estudo tem como objetivo apresentar os resultados da avaliacao psicologica de meninas vitimas de abuso sexual intrafamiliar. O processo de avaliacao priorizou: (a) formacao de vinculo com a vitima; (b) compreensao da historia e da dinamica do abuso sexual; (c) identificacao de fatores de risco e de protecao relacionados a crianca, a familia e a rede de atendimento; e, (d) avaliacao de sintomas de depressao, ansiedade, stress, TEPT, bem como de crencas disfuncionais relacionadas a experiencia abusiva, desencadeadoras e mantenedoras de sintomas de depressao e ansiedade.

Metodo

Participantes

O estudo foi realizado com 10 meninas com idade entre nove e 13 anos, que foram submetidas a abuso sexual intrafamiliar. Os criterios de inclusao para o estudo foram: presenca de pelo menos um episodio de abuso sexual intrafamiliar, ser do sexo feminino e da idade esperada para compor a amostra. Os criterios de exclusao foram presenca de sintomas psicoticos e retardo mental grave, avaliados durante as entrevistas. Contudo, nao houve caso de meninas com os criterios de exclusao.

A selecao das participantes ocorreu atraves do contato com o Programa Sentinela e o Conselho Tutelar. O Programa Sentinela encaminhou oito casos para a pesquisa. Destes, apenas dois foram incluidos no estudo, uma vez que tres casos configuravam-se como abuso sexual extrafamiliar e o restante nao residia mais no endereco informado e nao foi possivel localizar. Os casos que nao foram incluidos no estudo foram re-encaminhados para o Programa Sentinela. O Conselho Tutelar permitiu que a equipe de pesquisa realizasse um levantamento em seu arquivo para selecionar participantes. Foram selecionados casos denunciados entre 2000 e 2004, totalizando 17. O contato foi estabelecido atraves de correspondencia, na qual foi oferecido atendimento psicologico gratuito. Apenas uma menina compareceu ao atendimento agendado. Cinco correspondencias foram devolvidas, pois a familia nao residia mais no endereco informado. A equipe enviou um segundo convite para atendimento atraves do Conselho Tutelar para as outras 11 meninas, mas nao compareceram. Os conselheiros tutelares encaminharam seis casos de abuso sexual que ainda estavam sendo acompanhados e estes foram incluidos na amostra. O Programa de Apoio a Meninos e Meninas (PROAME) encaminhou uma menina e esta tambem foi incluida na pesquisa. A Tabela 1 apresenta um resumo dos dados biosociodemograficos sobre as participantes.

Instrumentos

Os instrumentos utilizados para avaliacao psicologica foram:

1. Entrevista semi-estruturada inicial constituida por duas partes: na primeira parte, o objetivo foi estabelecer um vinculo terapeutico com a participante, criando um espaco seguro baseado em uma relacao de confianca. A segunda parte esta baseada na entrevista preconizada pelo The Metropolitan Toronto Special Committee on Child Abuse (1995), traduzida para o Portugues e adaptada por Kristensen (1996). Esta entrevista tem como principal objetivo obter o relato da participante com relacao ao abuso sexual, bem como mapear a frequencia e a dinamica dos episodios abusivos. Durante a entrevista foram coletados os dados biosociodemograficos.

2. Children's Attributions and Perceptions Scale (CAPS): foi desenvolvido para mensurar questoes especificas do abuso em criancas (Mannarino, Cohen & Berman, 1994). O instrumento e uma entrevista semi-estruturada com 18 itens, sendo que a crianca responde a cada um atraves de cinco respostas [escala Likert, que varia entre nunca (0) e sempre (4)]. Quatro aspectos sao avaliados em quatro subscalas: sentimentos de diferenca com relacao aos pares; confianca nas pessoas; auto-atribuicao dos eventos negativos (auto-culpabilizacao pelo abuso); e, percepcao de credibilidade dos outros em si. Estes aspectos estao relacionados a crencas disfuncionais comumente verificadas em criancas vitimas de abuso sexual. Escores mais altos refletem maior sentimento de diferenca com relacao aos pares, maior autoatribuicao por eventos negativos, menor percepcao de credibilidade e de confianca interpessoal, respectivamente. Os itens da entrevista foram traduzidos para o portugues por um pesquisador bilingue e depois traduzidos de volta para o ingles por outro. As versoes foram comparadas, ajustadas e aplicadas em cinco meninas, com idade entre 10 e 13 anos, para verificar a compreensao do instrumento.

3. Inventario de Depressao Infantil (CDI): foi elaborado por Kovacs (1992), adaptado do Beck Depression Inventory para adultos. O objetivo do CDI e detectar a presenca e a severidade do transtorno depressivo. Destinase a identificar alteracoes afetivas em criancas e adolescentes dos sete aos 17 anos de idade. Este inventario e composto por 27 itens, cada um com tres opcoes de resposta. A crianca/adolescente deve escolher a opcao que melhor descreve o seu estado nos ultimos tempos. As opcoes sao pontuadas de 0 a 2 e o teste pode ser aplicado individualmente ou coletivamente.

4. Escala de Estresse Infantil (ESI): a escala e composta por 35 itens relacionados as seguintes reacoes do estresse: fisicas, psicologicas, psicologicas com componente depressivo e psicofisiologica, em criancas entre seis e 14 anos. A resposta ao item e feita por meio de uma escala Likert de cinco pontos, na qual a crianca pinta um circulo dividido em quatro partes, conforme a frequencia com que os participantes experimentam os sintomas apontados pelos itens (Lipp & Lucarelli, 1998).

5. Inventario de Ansiedade Traco-Estado para criancas (IDATE-C): o inventario e constituido de duas escalas do tipo auto-avaliacao, que visam a medir dois conceitos distintos de ansiedade: traco e estado (foi elaborado por Spielberger em 1970, e adaptado para uso no Brasil por Biaggio & Spielberger, em 1983). A escala de ansiedade-estado indica como a crianca se sente em um determinado momento do tempo, medindo estados transitorios de sentimentos subjetivos, conscientemente percebidos de apreensao, tensao e preocupacao, que variam em intensidade. A escala de ansiedade-traco avalia como a crianca geralmente se sente, medindo diferencas individuais relativamente estaveis em susceptibilidade a ansiedade. Cada escala e composta por 20 itens e cada item e constituido por tres afirmacoes que representam diferentes intensidades do sintoma.

6. Entrevista estruturada com base no DSM IV/SCID para avaliacao de transtorno do estresse pos-traumatico: os criterios diagnosticos estabelecido pelo Manual Diagnostico e Estatistico dos Transtornos Mentais (DSM) sao utilizados como base para identificacao da presenca dos sintomas que compoem o transtorno (re-experienciacao do evento traumatico; esquiva de estimulos associados com o trauma; e, sintomas de excitabilidade aumentada). A traducao para o portugues desta entrevista foi desenvolvida por Del Bem et al. (2001). Para a utilizacao na pesquisa aqui relatada, a equipe fez algumas alteracoes na linguagem utilizada na entrevista para facilitar a compreensao das perguntas pelas criancas e adolescentes, tendo como base os resultados do estudo piloto, no qual a entrevista foi aplicada em cinco meninas com idade entre 10 e 13 anos. Alem de verificar a presenca dos sintomas, a entrevista avalia a intensidade e a frequencia de cada um deles.

Procedimentos

Inicialmente o projeto desta pesquisa foi avaliado e aprovado pelo Comite de Etica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Apos a aprovacao, foi realizado o treinamento teorico-metodologico e etico da equipe que auxiliou na pesquisa. A equipe foi constituida por alunas de graduacao de Psicologia e o treinamento foi desenvolvido em seis seminarios teoricos sobre abuso sexual infantil e quatro encontros com a equipe para simular a avaliacao psicologica. Nestes encontros, a equipe treinou a aplicacao e a avaliacao dos instrumentos psicologicos, que foram utilizados, sendo que o foco principal foi a entrevista inicial. A equipe dramatizou a entrevista para padronizar as perguntas que deveriam ser realizadas e informacoes a serem prestadas aos cuidadores nao-abusivos e as participantes. Ao longo de toda a coleta e analise de dados, a equipe realizou encontros semanais para planejamento, discussao e supervisao com a coordenadora da equipe.

As meninas encaminhadas foram convidadas para uma entrevista inicial, na qual foram consultadas quanto a participacao na pesquisa, sendo incluidas na amostra mediante o seu consentimento livre e esclarecido (TCLE). Alem das meninas, os cuidadores nao-abusivos responsaveis tambem foram consultados e assinaram o TCLE sobre a participacao dessas no estudo. E importante salientar que todas as meninas estavam protegidas de abusos sexuais durante o estudo.

A avaliacao psicologica foi composta por tres encontros com duracao de uma hora cada e com frequencia semanal. Os encontros foram supervisionados em reunioes semanais, nas quais os casos e os procedimentos eram discutidos. A ordem de aplicacao dos instrumentos foi alterada aleatoriamente no segundo e terceiro encontros para evitar o efeito de ordem nos resultados. Em cada encontro, foram aplicados os seguintes instrumentos: (a) 1a encontro: Entrevista semi-estruturada inicial. Esta foi gravada e transcrita; (b) 2a encontro: Inventarios de depressao (CDI), ansiedade (IDATE-C) e entrevista semi-estruturada (CAPS); (c) 3a encontro: Entrevista estruturada com base no DSM-IV para avaliacao do transtorno do estresse pos-traumatico e a escala de estresse infantil.

Apos os tres encontros para avaliacao psicologica, foi agendada uma entrevista de devolucao com os cuidadores nao-abusivos e com as meninas. Nesta entrevista, foram compartilhados os principais achados da avaliacao e foi realizado o encaminhamento para a grupoterapia.

Resultados e Discussao

A avaliacao psicologica permitiu compreender a historia e a dinamica do abuso sexual, bem como identificar sintomas psicopatologicos e alteracoes cognitivas, emocionais e comportamentais. Todas as meninas revelaram a situacao abusiva na primeira entrevista. Contudo, a quantidade de informacoes e detalhamento sobre o abuso sexual variou entre as participantes, sendo que algumas relataram o fato com riqueza e outras apenas afirmaram que haviam sido vitimas desta forma de violencia. O ato de relatar a situacao abusiva e importante para a vitima por uma serie de fatores: ativacao e reorganizacao da memoria traumatica, percepcao de que existem pessoas que acreditam no seu relato, possibilidade de confiar em um adulto nao-abusivo, reestruturacao de crencas distorcidas sobre culpa e diferenca em relacao aos pares, protecao nos casos em que a violencia sexual continua ocorrendo.

A historia de abuso sexual estava em consonancia com os fatos relatados pelos cuidadores nao-abusivos. As participantes estabeleceram forte vinculo afetivo com a equipe, principalmente com a pesquisadora responsavel pela avaliacao, uma vez que demonstraram confianca na mesma, compartilhando os relatos sobre as situacoes abusivas e outras situacoes-problema, relacionadas com a escola e com a familia ou o abrigo. Estes fatos confirmam que o estabelecimento de um espaco seguro, no qual a crianca percebe a atencao, a disponibilidade e a credibilidade dos entrevistadores e fundamental para que esta se sinta a vontade para relatar o abuso. Isto e fundamental, uma vez que este relato pode desencadear emocoes intensas que precisam ser acolhidas (Habigzang & Caminha, 2004). Com relacao aos instrumentos aplicados, nao foram identificadas dificuldades de compreensao e execucao. As meninas demonstraram empenho e atencao para responde-los, o que pode tambem ser atribuido ao bom vinculo estabelecido com a equipe.

Na entrevista foi identificado que a idade do inicio do abuso sexual variou entre cinco e 11 anos, sendo que das dez participantes, cinco meninas estavam entre sete e oito anos. O perpetrador da violencia foi: pai biologico (dois casos), tio (tres casos), avo (tres casos), irmao (um caso) e casal de padrinhos (um caso). Dos 10 casos, nove participantes foram vitimas de mais de um episodio de abuso sexual e a violencia teve duracao de pelo menos um ano. O tipo de abuso sexual variou entre os casos, sendo que em sete ocorreram toques, manipulacao de genitais e assedio e em tres casos relacoes sexuais com penetracao. Uma das participantes foi vitima de pornografia infantil. Tambem foi verificado que oito meninas foram vitimas de abusos psicologicos e fisicos e todas sofreram ameacas para manter o abuso sexual em sigilo. A idade precoce de inicio do abuso e a presenca de outras formas de violencia sao, tambem, frequentes em casos de abuso sexual na literatura (Cohen & Mannarino, 2000a; Furniss, 1993; Kellog & Menard, 2003).

Alguns fatores de risco adicionais foram mapeados nas oito familias das vitimas, tais como: abuso de alcool (quatro casos); desemprego ou subemprego (quatro casos); presenca de outras formas de violencia contra a vitima e entre os demais membros (sete casos); maes com depressao ou ansiedade (quatro casos); dificuldades conjugais (seis casos); dificuldades economicas (sete casos); e, baixa escolaridade (cinco casos). Alem disso, dos nove agressores, seis haviam vitimizado sexualmente outras criancas ou mulheres. Estes fatores de risco sao comumente encontrados em familias incestuosas (Habigzang et al., 2005; Thomas, Eckenrode & Garbarino, 1997).

A revelacao dos casos de abuso sexual foi feita para a diretora da escola (um caso), vizinha (um caso), mae (um caso), outros familiares (tres casos) e amiga (um caso). O caso de pornografia infantil foi denunciado a policia pela loja que revelou as fotografias da menina. A denuncia da violencia aos orgaos de protecao foi realizada pelas pessoas para quem as criancas revelaram o abuso sexual (seis casos). Em duas situacoes, as meninas ja haviam tentado revelar o abuso sexual para a mae, mas estas nao deram credibilidade e, entao, as criancas pediram ajuda para outras pessoas que efetivaram a denuncia.

Apos a denuncia do abuso sexual, seis meninas foram afastadas do convivio com os pais, sendo que cinco meninas foram abrigadas e uma residia com a tia. As outras quatro participantes permaneceram com os pais, que se organizaram de forma protetiva, afastando as meninas dos agressores.

Os sintomas decorrentes da violencia sexual foram constatados, nesta avaliacao inicial, atraves do uso de instrumentos psicologicos. Sete meninas apresentavam diagnostico de TEPT e outras tres os criterios de revivencia e hipervigilancia. Alem disso, quatro meninas revelaram indicadores de depressao. Tambem foram identificados sintomas de ansiedade e crencas de diferenca em relacao aos pares, culpa pelo abuso e baixa percepcao de confianca interpessoal. Outro aspecto identificado foi o baixo rendimento escolar em oito meninas, sendo que quatro estavam repetindo o ano escolar. Os sintomas identificados nas participantes estao em consonancia com os achados da literatura, que apontam a prevalencia de sintomas de TEPT em vitimas de abuso sexual, bem como sintomas de depressao, ansiedade e crencas distorcidas em relacao a violencia (Briere & Elliott, 2003; Cohen, 2003; Habigzang & Caminha, 2004; Runyon & Kenny, 2002). Todas as meninas aderiram ao processo de grupoterapia, ao qual foram encaminhadas apos a avaliacao psicologica individual.

Consideracoes Finais

A psicologia tem contribuido para a compreensao do abuso sexual infantil, atraves de estudos sobre dinamica familiar, incidencia epidemiologica, consequencias do trauma para o desenvolvimento e intervencoes clinicas. A efetividade de metodos de avaliacao tem sido um importante desafio para psicologos clinicos e pesquisadores, uma vez que aspectos teoricos, metodologicos, eticos e tecnicos devem estar coordenados, visando a protecao e a promocao de saude e qualidade de vida das vitimas e suas familias.

O abuso sexual infantil intrafamiliar e um fenomeno complexo que envolve aspectos psicologicos, sociais e juridicos, com altos indices de incidencia, que pode ocasionar serias alteracoes cognitivas, comportamentais e emocionais para a vitima. A complexidade do problema aponta a necessidade de metodos de avaliacao efetivos que incluem: a identificacao do abuso, a denuncia, o acompanhamento do caso nos orgaos de protecao a crianca, encaminhamento para atendimento medico e psicologico para a vitima e acompanhamento da familia para garantir a protecao da crianca de outras situacoes abusivas (Ferreira & Schramm, 2000; Furniss, 1993; Habigzang & Koller, 2006).

O presente estudo teve resultados semelhantes aos encontrados na literatura consultada, tanto em relacao a dinamica do abuso intrafamiliar quanto as consequencias negativas para o desenvolvimento. A presenca de outras formas de violencia na familia, o inicio do abuso em idade precoce e a duracao de pelo menos um ano, a presenca de ameacas e barganhas a crianca, os rituais de inicio e fim dos episodios abusivos foram fatores da dinamica da violencia sexual confirmados nos casos atendidos (Furniss, 1993; Habigzang & Caminha; 2004).

A avaliacao permitiu verificar que as meninas apresentavam sintomas de depressao, ansiedade e, principalmente, de transtorno do estresse pos-traumatico. Tambem foi identificada a presenca de crencas distorcidas de culpa, diferenca em relacao aos pares e desconfianca, bem como baixo rendimento escolar. Tais alteracoes cognitivas e comportamentais sao as principais consequencias da violencia sexual para as vitimas sugeridas por estudos anteriores (Briere & Elliott, 2003; Cohen, 2003; Duarte & Arboleda, 2004). Contudo, as meninas nao apresentavam comportamentos hipersexualizados, frequentemente associados com abuso sexual infantil. A ausencia de tais comportamentos pode ser considerada um fator de protecao para as meninas, uma vez que reduz o risco de revitimizacoes. Outras consequencias apontadas pela literatura e nao identificadas nas meninas foram ideacoes e comportamentos suicidas (Cohen & Mannarino, 2000a; Habigzang & Caminha, 2004).

Considerando os resultados encontrados, o processo de avaliacao psicologica empregado possibilitou a compreensao da dinamica de cada caso, atraves da entrevista inicial, bem como auxiliou na investigacao de sintomas psicologicos decorrentes, atraves dos instrumentos psicologicos utilizados. Contudo, salienta-se a necessidade de desenvolver instrumentos psicologicos validados para avaliacao dos casos de abuso sexual contra criancas e adolescentes. Tais instrumentos poderiam garantir maior acuracia nas avaliacoes psicologicas, contribuindo para o planejamento de intervencoes clinicas adequadas, bem como para os relatorios solicitados pela area juridica sobre os casos. Alem de um modelo estruturado de avaliacao, a postura do profissional diante da crianca e seu comprometimento com ela e o fator mais importante para garantir, nao apenas o conhecimento da historia de abuso, mas o acolhimento e confianca da vitima, fundamentais para uma avaliacao de qualidade.

Recebido: 20/10/2006

1a revisao: 08/11/2007

2a revisao: 25/03/2008

3a revisao: 20/04/2008

Aceite final: 27/04/2008

Referencias

Azevedo, M. A., & Guerra, V. N. A. (1989). Criancas vitimizadas: A sindrome do pequeno poder. Sao Paulo, SP: IGLU.

Biaggio, A., & Spielberger, C. D. (1983). Inventario de ansiedade traco-estado-Idate-C Manual. Rio de Janeiro, RJ: CEPA.

Briere, J., & Elliott, D. M. (2003). Prevalence and psychological sequelae of self-reported childhood physical and sexual abuse in a general population sample of men and women. Child Abuse & Neglect, 27, 1205-1222.

Cohen, J. A. (2003). Treating acute posttraumatic reactions in children and adolescents. Society of Biologial Psychiatry, 53, 827-833.

Cohen, J. A., & Mannarino, A. P. (2000a). Incest. In R. J. Ammerman & H. Hersen (Eds.), Cases studies in family violence (pp. 209-229). New York: Klewer Academic.

Cohen, J. A., & Mannarino, A. P. (2000b). Predictors of treatment outcome in sexually abused children. Child Abuse & Neglect, 24(7), 983-994.

Cohen, J. A, Mannarino, A. P., & Rogal, S. (2001). Treatment practices for childhood posttraumatic stress disorder. Child Abuse & Neglect, 25, 123-135.

De Antoni, C., & Koller, S. H. (2000). Vulnerabilidade e resiliencia familiar. Um estudo com adolescentes que sofreram maus tratos intrafamiliares. Psico, 31, 39-66.

Del Ben, C. M., Vilela, J. A., Crippa, J. A., Hallak, J. E., Labate, C. M., & Zuardi, A. W. (2001). Confiabilidade da entrevista estruturada para o DSM-IV - Versao clinica traduzida para o portugues. Revista Brasileira de Psiquiatria, 23(3), 156-159.

Duarte, J. C., & Arboleda, M. R. C. (2004). Sintomatologia, avaliacao e tratamento do abuso sexual infantil. In V. Caballo (Ed.), Manual de psicologia clinica infantil e do adolescente: Transtornos gerais (pp. 293-321). Sao Paulo, SP: Santos.

Elliott, A. N., & Carnes, C. N. (2001). Reactions of nonoffending parents to the sexual abuse of their child: A review of the literature. Child Maltreatment, 6(4), 314-331.

Ferreira, A. L., & Schramm, F. R. (2000). Implicacoes eticas da violencia domestica contra crianca para profissionais de saude. Revista de Saude Publica, 34(6), 659-665.

Furniss, T. (1993). Abuso sexual da crianca: Uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre, RS: Artes Medicas.

Habigzang, L. F., Azevedo, G. A., Koller, S. H., & Machado, P. X. (2006). Fatores de risco e de protecao na rede de atendimento a criancas e adolescentes vitimas de violencia sexual. Psicologia: Reflexao e Critica, 19(3), 379-386.

Habigzang, L. F., & Caminha, R. M. (2004). Abuso sexual contra criancas e adolescentes: Conceituacao e intervencao clinica. Sao Paulo, SP: Casa do Psicologo.

Habigzang, L. F., & Koller, S. H. (2006). Terapia cognitivocomportamental e promocao de resiliencia para meninas vitimas de abuso sexual intrafamiliar. In D. D. Dell'Aglio, S. H. Koller & M. A. M. Yunes (Eds.), Resiliencia e psicologia positiva: Interfaces do risco a protecao (pp. 233-258). Sao Paulo, SP: Casa do Psicologo.

Habigzang, L. F., Koller, S. H., Azevedo, G. A., & Machado, P. X. (2005). Abuso sexual infantil e dinamica familiar: Aspectos observados em processos juridicos. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 21(3), 341-348.

Haugaard, J. J. (2003). Recognizing and treating uncommon behavioral and emotional disorders in children and adolescents who have been severely maltreated: Introduction. Child Maltreatment, 9(2), 123-130.

Jonzon, E., & Lindblad, F. (2004). Disclosure, reactions and social support: Findings from a sample of adult victims of child sexual abuse. Child Maltreatment, 9(2), 190-200.

Kellog, N. D., & Menard, S. W. (2003). Violence among family members of children and adolescents evaluated for sexual abuse. Child Abuse & Neglect, 27, 1367-1376.

Koller, S. H., & De Antoni, C. (2004). Violencia intrafamiliar: Uma visao ecologica. In S. H. Koller (Ed.), Ecologia do desenvolvimento humano: Pesquisa e intervencao no Brasil (pp. 293-310). Sao Paulo, SP: Casa do Psicologo.

Koller, S. H., Moraes, N. A., & Cerqueira-Santos, E. (2005). Perpetradores de abuso sexual: Um estudo com caminhoneiros. Relatorio Tecnico de Pesquisa. Porto Alegre, RS: World Childhood Foundation.

Kovacs, M. (1992). Children's Depression Inventory Manual. Los Angeles: Western Psychological Services.

Kristensen, C. H. (1996). Abuso sexual em meninos. Dissertacao de Mestrado nao-publicada, Curso de Pos-Graduacao em Psicologia do Desenvolvimento, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS.

Lipp, M. E., & Lucarelli, M. D. M. (1998). Escala de stress infantil--ESI: Manual. Sao Paulo, SP: Casa do Psicologo.

Mannarino, A. P., Cohen, J. A., & Berman, S. R. (1994). The children's attributions and perceptions scale: A new measure of sexual abuse-related factors. Journal of Clinical Child Psychology, 23(2), 204-211.

Runyon, M. K., & Kenny, M. C. (2002). Relationship of atribucional style, depression and post trauma distress among children who suffered physical or sexual abuse. Child Maltreatment, 7(3), 254-264.

Sanderson, C. (2005). Abuso sexual em criancas: Fortalecendo pais e professores para proteger criancas de abusos sexuais. Sao Paulo, SP: M. Books do Brasil

Saywitz, K. J., Mannarino, A. P., Berliner, L., & Cohen, J. A. (2000). Treatment for sexually abused children and adolescents. American Psychologist, 55(9), 1040-1049.

The Metropolitan Toronto Special Committee on Child Abuse. (1995). Child sexual abuse protocol (3rd. ed.). Toronto, Canada: Author.

Thomas, M., Eckenrode, J., & Garbarino, J. (1997). Family sexual abuse. In J. Garbarino & J. Eckenrode (Eds.), Understanding abusive families: An ecological approach to theory and practice (pp. 114-130). San Francisco: Jossey-Bass.

Thouvenin, C. (1997). A palavra da crianca: do intimo ao social. In M. Gabel (Ed.), Criancas vitimas de abuso sexual (pp. 91102). Sao Paulo, SP: Summus.

Luisa Fernanda Habigzang *, Fabiana Dala Corte, Roberta Hatzenberger, Fernanda Stroeher & Silvia Helena Koller

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

* Endereco para correspondencia: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Psicologia, Ramiro Barcelos, 2600, sala 104, Porto Alegre, RS, 90035-003. Tel.: (51) 3316 5150; Fax: (51) 3333 9819. E-mail: luisa.h@terra.com.br
Tabela 1
Caracteristicas Biosociodemograficas das Participantes

Nome   Idade   Idade no inicio   Com quem residia
               do abuso          durante o estudo

A      10       8                Tia e avo
B      12       8                Abrigo
C      11       8                Pais
D      11      10                Pais
E       9       5                Pais
F      12       5                Pais
G      11       8                Abrigo
H       9       7                Abrigo
I      11       9                Abrigo
J      13      11                Abrigo

Nome   Escolaridade   Agressor

A      1a serie       irmao
B      5a serie       pai
C      5a serie       tio
D      5a serie       tio
E      3a serie       Padrinho/madrinha
F      6a serie       tio
G      4a serie       pai
H      3a serie       avo
I      4a serie       avo
J      5a serie       avo
COPYRIGHT 2008 Federal University of Rio Grande do Sul (JFRGS)
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2008 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Habigzang, Luisa Fernanda; Dala Corte, Fabiana; Hatzenberger, Roberta; Stroeher, Fernanda; Koller, S
Publication:Psicologia: Reflexao & Critica
Date:Jun 1, 2008
Words:5257
Previous Article:The Draw-a-Person Test as a valid measure of children's cognitive development/Estudo de validade do DFH como medida de desenvolvimento cognitivo...
Next Article:Resenha: del ritmo al simbolo. Los signos en el nacimiento de la inteligencia. O novo livro de Cintia Rodriguez.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2022 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters |